The invisibility of the home page and the changes in the ways of reading news



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Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação

XXVI Encontro Anual da Compós, Faculdade Cásper Líbero, São Paulo - SP, 06 a 09 de junho de 2017

A INVISIBILIDADE DA HOME PAGE E AS MUDANÇAS NOS MODOS DE LEITURA DAS NOTÍCIAS1



THE INVISIBILITY OF THE HOME PAGE AND THE CHANGES IN THE WAYS OF READING NEWS
Adriana Barsotti2

Leonel Azevedo de Aguiar3


Resumo: O artigo apresenta os resultados parciais de uma pesquisa que investiga como as mudanças nos modos de leitura das notícias na internet estão provocando mais uma transformação contemporânea no jornalismo: a invisibilidade das home pages dos sites jornalísticos. Analisa como os acessos ao noticiário, por meio de links distribuídos em redes sociais, em ferramentas de busca e nos portais acarretam perda de sentido em um valor fundamental da cultura profissional. Após levantamento de dados sobre novos hábitos de leitura, empreende revisão bibliográfica sobre a home page e utiliza entrevistas em profundidade com jornalistas para compreender o impacto do silêncio da primeira página on-line nas rotinas produtivas. Conclui que, à medida que as notícias se desprendem do contexto original da edição, os profissionais sentem-se desafiados, mas sustentam que é preciso cumprir com sua responsabilidade social, destacando, em manchetes e chamadas, os temas de interesse público.
Palavras-Chave: Jornalismo. Home page. Modos de leitura.
Abstract: The paper presents the partial results of a research that investigates how the new reading habits of news on the Internet are provoking another contemporary change in journalism: the invisibility of news sites’ home pages. It analyzes how access to news, through links distributed in social networks, search tools and portals results in the loss of meaning’s construction, which is considered one of the fundamental values ​​of journalism. After collecting data about new reading habits, the authors undertook a bibliographic review about the home page and conducted in-depth interviews with journalists to understand the impact of the home page’s silence on the production routines. It concludes that, as news are now detached from their original context, professionals feel challenged, but argue that it is necessary to maintain themselves committed to their social responsibility, highlighting, in headlines, issues of public interest.

Keywords: Journalism. Home page. Reading habits.

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1. Introdução


Primeiras páginas impressas, bem como as escaladas dos noticiários de rádio e TV, apresentavam ao leitor, ouvinte ou telespectador uma seleção de notícias que os jornalistas avaliavam (e ainda avaliam) merecerem atenção naquele dia ou momento. Nos primórdios da internet comercial, nos anos 1990, a metáfora da primeira página impressa inspirou as home pages (McADAMS, 1995), transpondo para os sites noticiosos o mesmo conceito adotado pelos periódicos. Na página principal – a home page – devem estar os destaques do noticiário naquele momento. Manchetes e chamadas ali dispostas são redigidas segundo os mesmos princípios do jornal impresso, de acordo com os valores-notícia consagrados pela cultura profissional. Também se observa o emprego do valor-notícia que mantém o equilíbrio do noticiário, com uma distribuição equânime do espaço entre as editorias (BARSOTTI, 2014). A partir das chamadas dispostas na home, o leitor escolhia as notícias que leria.

O modelo de nortear o usuário pela home page mostrou-se eficaz por duas décadas na internet, mas sucumbe agora diante de novas formas de distribuição das notícias, principalmente depois da expansão dos smartphones. Os celulares ampliaram exponencialmente a penetração mundial da web, de modo que existem hoje mais acessos por dispositivos móveis do que por computadores no planeta – e também no Brasil. Na esteira do crescimento dos smartphones, assistiu-se a um boom das mídias sociais: os usuários declaram preferir acessar as redes sociais pelo celular do que pelo desktop. Hoje, estima-se que 31% da população mundial é ativa nessas redes4. No Brasil, entre os usuários de internet, a penetração das mídias sociais atinge o expressivo índice de 77, 8%5.

E qual a relação do cenário acima descrito com o jornalismo? É por links compartilhados nas redes sociais que mais da metade da população com acesso à internet se informa6. Os dois outros atalhos para notícias que ganharam relevância na origem de tráfego para os sites nos últimos anos são: links encontrados nos resultados das buscas em ferramentas como o Google e os publicados em portais de notícia, que agregam chamadas de diversos veículos noticiosos. Um número cada vez menor de leitores escolhe ir diretamente às home pages dos sites para se informar. O que resulta numa queda mundial da importância da home page como porta de acesso para as notícias.

Quem encontra uma chamada com um link numa rede social e decide acessá-lo para ler o respectivo texto não passa pela home do site onde a notícia está publicada. Mais da metade dos usuários de internet em 26 países pesquisados em 2016 (51%) já seguem esse comportamento para ler notícias. No Brasil, o índice dos usuários que informaram ler notícias pelas redes sociais é muito maior: alcança 72%7. Com isso, o consumo de notícias vem se modificando: os leitores não seguem mais um caminho de leitura a partir do “cardápio” ofertado pelos jornalistas nas homes. Agora, são os algoritmos das redes sociais que fazem o papel de “editores”, decidindo quais notícias serão exibidas para quais leitores, com base em comportamentos prévios, preferências individuais, geográficas e interesses comerciais, demarcando comunidades isoladas umas das outras e que cada vez encerram-se mais em si mesmas.

Quando procuram por uma notícia em mecanismos de busca como o Google, os leitores também não passam pelas homes dos sites e são levados, a partir dos resultados encontrados, para as páginas de notícias diretamente. O mesmo acontece quando são seduzidos por algum assunto de seu interesse nos portais. Ao acessar o link, também são transportados diretamente para as páginas de notícias. Outro atalho para os sites de notícia que vem despontando nos últimos dois anos são as notificações nos aplicativos de notícias. Ao longo do dia, editores enviam aos leitores alertas que são exibidos na tela inicial dos celulares dos usuários. “Nós costumávamos estar no alto de uma montanha, gritando manchetes para as pessoas. Agora, há um crescente número de leitores que só interagem conosco quando enviamos um alerta”, afirmou Andrew Phelps, diretor de mensagens e alertas no New York Times, em entrevista no relatório do Reuters Institute8.

Nas quatro formas de navegar – pelas mídias sociais, pela busca, pelos portais ou pelas notificações – é como se os leitores estivessem chegando por portas laterais, e não pela home, que foi durante anos a principal. Ao seguir esses hábitos, os usuários não veem qual é a manchete e, tampouco, os principais assuntos destacados na primeira página on-line pelos jornalistas. A partir do momento em que acessam um desses links espalhados pela rede, podem até estar lendo a manchete daquele veículo, mas não saberão nem se importarão com isso.

O fato é que o paradigma da primeira página impressa, que inspirou as home pages, está hoje, na segunda década do século XXI, longe de ecoar como os gritos dos jornaleiros que anunciavam nas ruas as manchetes no século passado. Assim como as primeiras páginas impressas – que já não são mais anunciadas pelos jornaleiros e tampouco provocam o alvoroço dos leitores, que costumavam comentá-las nas ruas e nos transportes públicos – as home pages estão cada vez mais silenciadas. Nos trens, nos ônibus e no metrô, todos hoje estão curvados olhando para a tela de seus smartphones.

Na trajetória de primeiras páginas, do grito no passado ao silêncio contemporâneo, quais são as consequências para o jornalismo? Como os jornalistas percebem a invisibilidade das home pages? Quais as razões para a mudança nos hábitos de consumo da informação? Qual é o vínculo entre a desmaterialização dos suportes no jornalismo em rede (HEINRICH, 2011) e o silenciamento das home pages?


2. Novos hábitos de leitura: fim da home page?

Embora este trabalho se concentre no discurso dos emissores e nas práticas produtivas dos jornalistas, é impensável hoje se debater o ambiente de mídia sem relacionar processos tradicionalmente separados. Diante de papéis cada vez mais embaralhados entre autor e leitor, produtor e editor e da desvinculação da distribuição das mensagens outrora atreladas aos meios de comunicação – e hoje cada vez mais nas mãos de empresas multinacionais de tecnologia, como o Google e o Facebook – torna-se necessário acompanhar e interpretar o processo comunicacional em seu fluxo contínuo, sem as fronteiras do passado entre emissores e receptores.

Refletindo sobre o papel do historiador da leitura diante da migração desta para os meios eletrônicos, Chartier defende que ele inclua, no mesmo projeto, o estudo da produção, da transmissão e da apropriação dos textos, abarcando todos os atores e todos os processos envolvidos (1998, p. 18). Embora novos termos tenham sido cunhados para designar a participação do público na produção de conteúdo, como prosumers – produtor-consumidor (TOFFLER, 1980), pro-am – profissional-amador (LEADBEATER; MILLER, 2004) e produser – produtor-usuário (BRUNS, 2008). Benjamin, em conferência proferida em 1934, já notara como leitores e espectadores podiam transformar-se em colaboradores (1987).

Zago (2014) nota que a maior parte dos trabalhos sobre jornalismo não inclui o consumo de notícias como parte do processo (ALSINA, 2009; SCHWINGEL, 2012). Para a autora, não faz sentido exclui-lo uma vez que os próprios consumidores hoje contribuem para espalhar o conteúdo dos veículos, atribuindo, muitas vezes, novos sentidos ao acontecimento. Portanto, para compreender de que forma as rotinas produtivas nas redações estão sendo transformadas, é preciso também um olhar atento aos novos hábitos de leitura que atravessam o jornalismo contemporâneo.

Como se dá hoje o acesso às notícias? A televisão ainda é o principal meio, principalmente entre os mais velhos, mas vem perdendo relevância ano após ano. A internet já lidera entre os que têm menos de 45 anos, revelou pesquisa realizada em 2015 em 28 países, inclusive o Brasil, pelo Reuters Institute for the Study of Journalism9. A crescente importância da internet para o acesso às notícias não chega a ser, entretanto, uma novidade e já vinha sendo sublinhada nos últimos anos por inúmeras pesquisas.

Uma das principais conclusões do estudo do Reuters Institute foi o surgimento do fenômeno classificado como “notícias distribuídas”, graças ao crescimento da penetração das mídias sociais e dos smartphones, denominados de a “quarta tela”, depois do cinema, da TV e dos computadores (AGUADO; MARTÍNEZ, 2008). Mais da metade dos entrevistados (51%) disseram usar as mídias sociais para se informar. Também mais da metade (53%) usa seus smartphones para acessar notícias. O estudo, realizado desde 2011, notou uma coincidência entre o crescimento dos dois indicadores: os usuários usam mais as redes sociais em seus celulares do que nos desktops para acessar notícias10.

No Brasil, embora a TV ainda seja o principal meio de acesso às notícias, seguido do rádio, o tempo de navegação na internet já superou o gasto diante da televisão: os brasileiros ficam na web 35 minutos a mais por dia do que assistindo à TV11. Nas horas de consumo, são levadas em conta todas as atividades, além de ler notícias, como jogar games, assistir a vídeos e acessar serviços on-line. Entretanto, considerando apenas a área urbana, a internet já supera a TV como principal fonte de notícia.

Nota-se que o aumento do número de horas na internet acompanhou a expansão do uso dos smartphones, vendidos a preços cada vez mais baixos no país. O uso do telefone celular para acessar a internet ultrapassou o do computador pela primeira vez em 2014 nos lares brasileiros. Os celulares para navegar na rede já são usados em 80,4% das casas com acesso à internet no país contra 76,6% da utilização via computadores12.



Também o ritmo de crescimento das redes sociais, sobretudo pelo celular, chama a atenção no país. No intervalo de 2014 para 2015, o número de usuários ativos nessas redes cresceu sete pontos percentuais e o acesso a elas, por meio dos smartphones, 13. A concomitância entre o número de horas gastas na internet móvel e nas redes sociais também é observado aqui: o brasileiro consome 3 horas e 56 minutos de seu dia usando a web pelo celular e 3 horas e 20 minutos nas redes sociais. O país só perde para as Filipinas no uso de tais mídias13.

A pesquisa do Reuters Institute ressalta a importância das redes sociais como meio de acesso às notícias no país. O Brasil só perde o título para a Grécia e para a Turquia, entre os 28 países pesquisados. No país, 72% dos leitores utilizam as mídias sociais para se informar, muito acima da média mundial, de 51%. E nada menos que 18% dos brasileiros usam as redes sociais como sua principal fonte para as notícias, o que torna o país líder mundial neste indicador.



Enquanto isso, a audiência da TV aberta cai no país desde 201014. A popularidade das rádios se mantém estável, porém com acentuado crescimento dos celulares como meio de acesso em detrimento do aparelho convencional15. A circulação dos jornais impressos continua em queda. De 2014 para 2015, segundo o Instituto Verificador de Circulação (IVC), o decréscimo foi de 13% no país. Com isso, uma tendência do setor é que a circulação digital ultrapasse a do impresso em vários jornais, como já acontece com a Folha de S.Paulo, desde agosto de 2016. O crescimento da participação digital na circulação dos principais jornais brasileiros é uma tendência que se estende também a O Globo, cuja circulação digital chegou a 48% em 2016 e a O Estado de S. Paulo (39%)16.

Neste cenário em que a internet se consolida como principal meio de acesso às notícias, é preciso um olhar atento ao papel das grandes empresas de tecnologia que dominam o mercado mundial. As “notícias distribuídas” trazem um modo de navegação fragmentado, em que os links para as notícias encontrados de forma descentralizada na internet ganham importância frente às home pages. Google e Facebook, que não têm por missão informar, respondem, respectivamente, por 38% e 43% dos acessos aos 400 maiores sites de notícias do mundo. Somente o Facebook gera seis bilhões de visualizações diárias e um bilhão de visitantes únicos por mês para esses sites. Chama a atenção o ritmo de crescimento da rede para o acesso a notícias em um curto espaço de tempo: em janeiro de 2014, a empresa respondia por somente 20% deles17. Se o Facebook fosse um país, sua população já seria maior do que a da China: a rede tem 1,6 bilhão de usuários ativos contra 1,3 bilhão de chineses.

O problema é que, à medida que a migração da navegação dos usuários move-se cada vez mais para as ferramentas de busca e, mais acentuadamente nos últimos anos, para as redes sociais, uma hipótese é que o papel dos jornalistas esteja perdendo relevância e sendo substituído pelos algoritmos das grandes empresas de tecnologia, das quais o jornalismo depende cada vez mais para ser distribuído e chegar aos leitores. Diferentemente dos critérios jornalísticos, como a relevância social e a atualidade, os algoritmos cruzam as preferências individuais dos usuários e reduzem o espaço para a diversidade de pontos de vista e a alteridade. A escolha do que será mostrado ao leitor nos seus resultados de busca ou no seu feed de notícias do Facebook (e também de outras redes sociais) depende de fatores como popularidade, leituras prévias e o comportamento de amigos na rede.

Se uma boa manchete era válida para atrair a atenção até há bem pouco tempo, a premissa pode não ser mais válida para o jornalismo em rede. Um documento interno do The New York Times de 96 páginas, intitulado Innovation18 e datado de 24 de março de 2014, dedica boa parte de sua atenção para a queda na audiência da home page do jornal, equivalente à primeira página do impresso. Um dos gráficos do documento mostra como a audiência da home vem caindo desde 2011. Naquele ano, ela chegou a ter 160 milhões de visitantes. No fim de 2013, o tráfego caíra à metade. “Nossa home page vem sendo a nossa principal ferramenta para levar jornalismo aos leitores, mas seu impacto está minguando. Somente um terço de nossos leitores alguma vez a visitou”, diagnostica o documento. Diferentemente do jornal impresso, que chega ao leitor na porta de sua casa, por meio das assinaturas, no jornalismo em rede espera-se que ele vá até o New York Times, nota o estudo:

Nossa distribuição domiciliar do jornal e nossos esforços para a venda avulsa representaram uma das mais sofisticadas operações para se atingir o consumidor na história. Mas quando chegou o momento de distribuirmos nosso jornalismo na web, adotamos uma abordagem muito mais passiva. Publicamos reportagens na nossa home page e presumimos que a maioria das pessoas virão até nós (apud BENTON, 2014, p.23).
O relatório apresenta dados de mercado mostrando, entretanto, que a queda na audiência da home page não é um problema exclusivo do New York Times: reflete uma mudança de comportamento universal na internet. Visitas às home pages dos sites estão declinando enquanto o tráfego nas redes sociais está aumentando. As mídias sociais respondem hoje por metade da audiência total na internet enquanto os sites de notícia representam apenas 1,5% do total. A solução, conforme aponta o estudo, seria dedicar mais atenção ao “empacotamento” e “promoção” das reportagens nas mídias sociais.

Precisamos fazer melhor uso dessas ferramentas e táticas porque as estruturas atuais para distribuir nosso jornalismo digital, muitas das quais baseadas nas tradições e limitações do impresso, estão perdendo força. O tráfego da home page vem caindo mês após mês, durante anos. O tráfego nas homes das editorias é desprezível (apud BENTON, 2014, p.27).


No New York Times, somente 7,8% dos leitores que visitavam o site em 2014 vinham do Facebook. O relatório menciona que no BuzzFeed – que ultrapassou o Times em audiência em 2013 e se intitula “o site de notícias mais compartilhável” –, a percentagem de leitores que chegam ao veículo via redes sociais é mais do que o sêxtuplo. “Eles aprenderam, entre outras coisas, que um ótimo post no Facebook se tornou um meio mais eficaz de promoção do que uma manchete”, compara o documento.

Assim que o relatório vazou na internet, seguiu-se uma discussão a respeito da morte da home page. A Columbia Journalism Review publicou artigo intitulado A home page está morta?19, com o subtítulo Sim e não. “Como a agenda nas redações se tornou mais complexa, com novas atribuições, como tweets, compartilhamentos e cliques em notícias isoladamente, é supreendente que ainda se gaste tanta energia na home page”, afirmou Ann Friedman no artigo. “A home page como porta de entrada para sites de conteúdo está cada vez mais obsoleta”, completou.

No texto, ela reproduz um e-mail que recebeu de Zach Seward, editor do Quartz, site lançado pelo grupo Atlantic Media. Na redação do Quartz, a equipe deve presumir que a audiência não está vindo da home page e que, portanto, cada reportagem tem que se sustentar por si própria, levando em conta que o leitor não tem nenhum contexto prévio a respeito do tema. “Orientamos nossa equipe a supor que cada post começa com uma audiência zero e que tem que conquistar seu próprio público nas mídias sociais”, afirmou Seward. Para Friedman, a home page servirá no futuro para reforçar a marca do site e menos como uma primeira página de jornal impresso, com a lista das manchetes principais20.

O Poynter Institute, dedicado ao ensino e estudo do jornalismo, também publicou artigo sobre o tema21. Nele, Sam Kirkland mencionou que o Quartz e a Atlantic declararam a “morte” da home page pelas mídias sociais, mas argumentou que ela “não está tão morta ao ponto de ser cremada”. Para Kirkland, seria mais apropriado dizer que ela perdeu influência. Para Kirkland, o site da Quartz pode se dar ao luxo de não ter uma home page – mas apenas uma lista de notícias – porque ele não têm leitores de décadas com velhos hábitos, entre os quais digitar o endereço de URL ou “favoritar” um endereço eletrônico. “Se a home page estivesse realmente morta, o Times consideraria abandoná-la”, escreveu22



O site The Atlantic, sob o título O que a morte da primeira página significa para o futuro das notícias23, entrou na polêmica e discutiu o efeito da migração dos leitores para as mídias sociais. “Notícias costumavam ser um destino e você navegava para encontrá-las. Agora, você é o destino”, afirmou o artigo de Derek Thompson, referindo-se ao fato de que são em suas contas nas redes sociais que os usuários recebem as notícias majoritariamente. O site previu que o futuro do jornalismo será “menos sobre as notícias e mais sobre os leitores”.

O autor do texto sustentou que, enquanto as home pages refletem os valores das organizações, o Facebook e o Twitter “espelham os interesses individuais dos leitores”. Para Thompson, já está provado que as chamadas hard news não atraem os leitores digitais, que estão mais interessados em entretenimento e autoajuda, como mostram as listas de notícias mais lidas. Ele disse temer que as organizações jornalísticas ofereçam cada vez mais o que o leitor deseja à medida que as métricas on-line são aperfeiçoadas.

Em artigo publicado no relatório da pesquisa do Reuters Institute de 2015, Emily Bell, diretora do Tow Center for Digital Journalism, da Universidade de Columbia, expressou sua preocupação com o fato de o Facebook ter se tornado “a primeira página do mundo”24. Ela assinalou que “o controle dos caminhos para chegar aos usuários não depende mais das organizações, mas das plataformas que carregam suas notícias”. O problema, aponta Bell, é que “a imprensa é agora controlada por empresas cujo interesse primário não é necessariamente fortalecer o discurso público e a democracia”25.

Pelo menos há cinco anos já se discutia a queda nos acessos das home pages. Em março de 2011, o site Nieman Lab, da Universidade de Harvard, dedicado a notícias sobre mídia, conclamara os editores de sites a compartilharem seus dados de acesso. Sob o título Divida seus dados: conte-nos como os leitores chegam ao seu site: busca, mídias sociais ou pela home page?26, o artigo revelava seus próprios números: somente 7% da audiência ia pelo tráfego direto.

Na cobertura que se seguiu, o editor da The Atlantic, Bob Cohn, revelou também seus dados: somente 12% dos leitores iniciavam a leitura do site pela home page. “O velho mantra de que toda página tem que ser uma primeira página nunca foi tão verdadeiro. As pessoas vêm por alguma notícia e têm que saber o que mais podem encontrar no site”, disse27. “A noção de que a primeira página está morta tem pelo menos dez anos”, advertiu Emily Bell por ocasião do vazamento do documento Innovation, do New York Times. "Esse foi o tempo que demorou para isso ser uma conversa de nicho e causar alarme no meio da mídia mainstream28.

No Brasil, os sites de jornais vivem cenário parecido. Os cinco maiores títulos do Brasil no segmento de referência29 (WOLF, 2003; AGUIAR, 2008; AMARAL, 2011) experimentam o mesmo dilema. Pelo menos 45% dos leitores da Folha de S. Paulo, de O Globo, de O Estado de S.Paulo, do Zero Hora e do Estado de Minas não chegam a esses sites por meio de suas home pages30. Esses leitores vão aos sites dos jornais pelas “entradas laterais” aqui já mencionadas.

Os dois maiores jornais do país no segmento de referência – A Folha de S.Paulo e O Globo – tiveram queda de audiência em suas homes entre maio de 2013 e maio de 2014. Em O Globo, a queda de visitantes únicos na home no intervalo de um ano foi de 31% e no número de visitas, de 12%. Na Folha, o decréscimo foi menor: a home perdeu 3% de audiência em visitantes únicos e 6% em visitas31. Em O Globo, mais de 90% do público jamais leem a primeira página do site. A queda no acesso às homes e o aumento da audiência pelas redes sociais só vem se acentuando de lá para cá.

Não interessa escrever o epitáfio da primeira página sob a perspectiva fatalista dos pós-modernos, que já decretaram algumas “mortes”, entre as quais a da história (FUKUYAMA, 1992), a da representação (LYOTARD, 1998; BAUDRILLARD, 1998), e a da razão (DERRIDA, 1973). Mais úteis são as noções de “intervalos” e “interrupções” apresentadas por Rancière no ensaio Em que tempo vivemos? (2014), no qual também questiona a “narrativa do fim” em voga na contemporaneidade. Para Rancière, ainda vivemos guiados pelo tempo histórico e o diagnóstico da nossa sociedade não mudou: o cenário é de mercantilização das relações sociais, marcadas pelo consumo e pelo espetáculo.

Compreendemos ser mais promissora a perspectiva de refutar as narrativas fatalistas sobre o jornalismo contemporâneo, tais como “o fim dos impressos”, “o fim da primeira página” ou “a morte da home page”. A partir de Rancière, propomos compreender os rearranjos do jornalismo diante da crise da modernidade. O jornalismo enfrenta desafios na contemporaneidade e tenta encontrar novos caminhos para chegar ao leitor, visando permanecer uma instituição social relevante.

Vale trazer, agora, as percepções dos jornalistas entrevistados em profundidade nesta pesquisa sobre a invisibilidade e o silêncio da home page. Todos têm um denominador comum: editaram ou editam primeiras páginas impressas e/ou home pages.



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