Thrity Umrigar a primeira Luz da Manhã traduçÃo regina Lyra



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Thrity Umrigar


A Primeira Luz da Manhã

TRADUÇÃO


Regina Lyra
Para JBU, HJU e ETK Com infindável amor e infinita gratidão

PREFÁCIO
Queridos leitores:
Visitei o lindo país de vocês — passando a maior parte do tempo no Rio — durante a XIV Bienal do Livro, em setembro de 2009, e me apaixonei imediatamente. O Rio me lembrou muito a minha amada Bombaim — com a ressalva de que o Rio é mais limpo, mais bonito, mais organizado e menos caótico. Mas os belos prédios ao longo da orla, o povo vibrante e animado que encontramos nas lojas e restau­rantes, a amizade calorosa dos cariocas, tão simpáticos, e o intenso entusiasmo dos intelectuais, escritores e jornalistas que encontrei me trouxeram de volta lembranças da minha infância na terra natal. Esgotados os dez dias da minha estadia, quando uma amiga disse, meio brincando: "Uau, você está igualzinha a uma carioca", meu peito inchou de orgulho. E na viagem de volta aos Estados Unidos, chorei no avião, sentindo que deixava para trás pessoas e um lugar que de repente se tornaram muito importantes para mim. O amor é algo estranho e mágico.

Onde quer que eu fosse, me pediam para comparar a Índia ao Brasil. No início fiquei chocada. O Brasil é tão maior, mais rico, sofisticado e próspero do que a Índia! Sim, estou à par das favelas e dos outros problemas sociais que atormentam o país, mas acreditem quando digo que só se descobre o que é pobreza de doer ao visitar a Índia.

Ainda assim, não paravam de chover perguntas sobre as semelhan­ças entre os dois países. E aos poucos me dei conta de que estavam cor­retos os que perguntavam - o povo de ambos os países partilham um ardor e uma generosidade de espírito, bastante semelhantes. A abertura dos cariocas, a facilidade com que puxam conversa com estranhos, a disposição para ajudar, a hospitalidade enorme e automática, o amor apaixonado pela cidade, ainda que envolto em críticas e temperado com um certo desespero, tudo isso me fez lembrar os moradores de Bombaim. Ao contrário dos cidadãos de outras metrópoles, que se orgulham do próprio cansaço, do cinismo, da cautela, cariocas e bombaítas partilham o mesmo prazer de viver, a mesma exuberância. E não tenho palavras para dizer quanto isso me aqueceu o coração.

Entendi, finalmente, por que meus livros fazem sucesso no Brasil. A diferença de classes, a desigualdade entre os sexos, o papel da fa­mília, a busca de um lar e da sensação de fazer parte de um grupo e a procura do amor são questões que encontram eco na alma brasileira. Eu achava que escrevia romances ambientados na minha Índia natal. Descobri que escrevia romances que podiam ser transplantados para o solo brasileiro. E essa descoberta me encheu de alegria. Não existe recompensa maior para um escritor do que saber que a sua história, ambientada em um determinado cenário ou lugar, é, na verdade, universal, capaz de tocar os corações de quem vive a quilômetros de distância e fazer com que essas pessoas examinem a própria vida usando como pano de fundo essa história.

E aqui estou, de volta ao Brasil (por meio das minhas memórias), contando a vocês a história mais pessoal de todas — a minha. Alguns anos atrás, eu quis saber por que me tornei escritora. Pensei na minha infância — em seus muitos privilégios e suas muitas dificuldades; na quantidade de pessoas que conheci e como elas afetaram a minha vida; nas várias experiências que me empurraram para esse ofício. Achei que na história de uma criança de classe média que cresceu fazendo parte de uma minoria ética numa cidade predominantemente hindu devia haver alguma experiência universal que outros pudessem partilhar. Também me deu vontade de falar sobre a Bombaim da década de 70- um lugar vibrante, secular, uma cidade que ainda desconhecia o trauma da rivalidade religiosa e social que logo vivenciaria. Embora não tivesse uma magnífica imagem do Cristo Redentor reinando sobre ela, a Bombaim de então ainda parecia uma cidade especial, abençoada, protegida contra seus próprios demônios, uma genuína mistura de raças. Me deu vontade de mostrar como uma bombaíta - eu — e a cidade atingiram juntas a maioridade.

Por isso escrevi as minhas memórias. Em parte elas são um tributo aos muitos adultos que por sorte tive como família — meu pai sonha­dor, meu tio amoroso, minhas tias protetoras e, sim, até a minha mãe perturbada, que me legou seu amor pela língua e pela gramática.

Suponho que muitos de vocês conseguirão se identificar com os dramas da minha família, pois existe uma coisa que todos nós, hu­manos, partilhamos: os problemas da vida familiar.

Quero encerrar com uma imagem que guardarei para sempre da minha estadia no Brasil. Fomos visitar a estátua do Cristo num final de tarde, em pleno pôr do sol. Por um feliz acaso esbarramos num casamento que se desenrolava aos pés do Cristo. A noiva estava linda e radiante. O noivo, idem. E ele estava numa cadeira de rodas. Fiquei pensando em como devia ter sido difícil percorrer aqueles últimos metros numa cadeira de rodas e que tipo de fé e determinação seria preciso para isso.

Não sou tão corajosa quanto aquele homem na cadeira de rodas provavelmente é, mas também convivo com fé e determinação — fé no poder que as palavras têm de curar, redimir, unir, e determinação para contar histórias. Quando a vida se mostra inexprimivelmente difícil e triste, alguns acendem velas, outros procuram uma igreja, mas há outros que se voltam para a magia dos livros. Agradeço a vocês por entrarem no mundo deste livro. Embora os acontecimentos aqui descritos estejam muito distantes no tempo e no espaço, espero que eles descrevam também um pouquinho da vida de vocês.


AGRADECIMENTOS
Certa vez li uma frase que significava, em essência, o seguinte: "Graças a Deus a vida não nos dá o que merecemos." Enquanto escrevia a história da minha infância, em mais de uma ocasião reco­nheci a sabedoria aí contida.

Quero agradecer a todos que povoam as páginas deste livro. Cada um de vocês causou impacto em minha vida e me presenteou com coisas pelas quais sou grata. Embora contar esta história tenha sido, às vezes, emocionalmente doloroso, também extraí do processo uma gratidão renovada pelo mundo em que cresci e pelo amor que me resgatou. Mesmo quando vinha acompanhado de condições e restrições, esse amor, apesar de tudo, fez uma enorme diferença em minha vida.

Agradeço à minha família imediata — meus pais, meu tio e minhas duas tias — por me encorajarem a perseguir meus sonhos enquanto lutavam para realizar os seus próprios. O exemplo que me deram de amor altruísta e de sacrifício é algo que passarei a vida aprendendo a imitar. Agradeço à minha prima Gulshan por ensinar a esta filha única o que é ter uma irmã. Agradeço à tia Mani por me ensinar a brigar com a lua.

Sou grata, ainda, a Eustathea Kavouras e a Sara Throop pelo estí­mulo — e pelas eventuais broncas de Sara — para que eu concluísse esta biografia.


CAPÍTULO 1

Sou daquela geração de crianças indianas de classe média, ocidentalizadas e urbanizadas, que conhecem melhor a letra de "Dó-Ré-Mi" que a do hino nacional. A noviça rebelde é o nosso grito de guerra, e Julie Andrews, o nosso Flautista de Hamelin. Estamos em 1967 — os filmes de Hollywood sempre chegam à Índia um ou dois anos após serem lançados nos Estados Unidos —, e as ruas e residências de Bombaim se enchem, repentinamente, de música. Pouco importa que o filme tenha chegado aqui mais de um ano depois de fazer um sucesso estrondoso em todo o mundo ocidental. Todas as professoras de piano em Bombaim ensinam aos alunos iniciantes como tirar "Dó-Ré-Mi" no teclado até se ter a impressão de que todos os lares parses de classe média que abrigam um piano emitem uma única melodia.

Tenho seis anos e padeço da fantasia, comum aos filhos únicos, de imaginar como seria a vida com irmãos. A noviça rebelde dá asas a essa fantasia, acrescenta-lhe forma e colorido. As risadas, a cumplicidade, as implicâncias, a união da família Von Trapp me seduzem, estabelecendo para sempre o meu padrão de como deve ser uma família perfeita. Os Von Trapp têm pele muito clara e cabelo louro claro, enquanto a minha família é bem morena; eles assoviam e cantam, enquanto os adultos da minha casa são ranzinzas e calados; as crianças esbanjam vitalidade, saúde e robustez na mesma medida em que sou franzina, doentia e esquiva. Ver aqueles sete filhos lá em cima na telona, dis­postos em ordem decrescente de idade e altura, é como ver o próprio paraíso. Meu coração explode de alegria e nostalgia; minha vontade é levantar da cadeira e entrar na tela, me aninhar nos braços acolhedores de Maria. Me aceitem, eu quero implorar, em pouco tempo serei tão esperta e divertida e musical quanto todos vocês.

Já assisti ao filme uma vez, mas agora quero vê-lo de novo. Meu pai e seu irmão Pesi, que chamo de Babu, resolvem que a família inteira deve ir assistir ao filme, todos juntos. Como sempre, minha tia reclusa, Mehroo, se recusa a ir conosco.

— Vamos, Mehroo, é um filme ótimo, para toda a família. Você vai gostar — insiste minha tia Freny, mulher de Babu, mas não adianta.

Pappaji, meu avô, teve um infarto há pouco tempo e Mehroo se nega a deixá-lo sozinho em casa, ainda que ele não tenha problema algum de locomoção.

Mehroo é a irmã solteira do meu pai e mora conosco. A mais velha dos três irmãos, sua infância acabou no dia em que a mãe morreu. Ela tinha 11 anos. A partir de então, não só precisava criar dois ir­mãos menores (meu pai, o caçula, tinha apenas quatro anos) como também proteger o pai da navalha afiada da própria dor. Mehroo assumiu os deveres familiares como se tivesse nascido para esse pa­pel. O pai era um homem bom, mas vivia envolto no próprio luto de tal maneira que lhe escapou por completo a expressão triste que se instalou nos olhos da filha, uma tristeza que iria persegui-la pelo resto da vida. Acredito que, a partir do sofrimento perene do pai e da sua devoção à esposa morta — daquele luto sem fim —, Mehroo cunhou a própria noção de amor. E a família se tornou para ela uma profissão, um emprego, um passatempo, uma vocação. A família era tudo. For a de suas fronteiras protetoras ficava o mundo conturbado, cheio de engodo e de engano, promessas quebradas e traições. Era uma visão de mundo espantosamente limitada, mas que tornava
Mehroo insubstituível em nossa estrutura familiar.

Seu amor por mim é lendário em toda a vizinhança. Como também são lendárias suas excentricidades.

Ela não vai ao cinema — característica curiosa numa família cinéfila.

Não compra roupas novas. Se alguém da família lhe dá um teci­do para fazer um vestido, Mehroo o guarda durante anos antes de levá-lo à costureira.

Ela usa um pente por muito tempo, mesmo depois de o acessório perder três dentes, até que meu pai, num ataque de fúria, finalmente o jogo fora. Muitas vezes, no entanto, Mehroo me dá dinheiro quando saio para a escola.

É vegetariana, numa casa em que galinha e carne, caras do jeito que são, constituem um banquete. Se uma colher que foi usada no molho de curry da galinha tocar, por acidente, o molho de suas ba­tatas, Mehroo pára de comê-las. Mas é ela que prepara a carne para o restante da família.

Mehroo come a comida fria, direto da geladeira, sem aquecer, embora passe horas fazendo a nossa.

Recusa-se a posar para fotos, cobrindo o rosto com as mãos para evitar ser fotografada. Quando é obrigada (por mim, já mais velha) a tirar uma foto, Mehroo se recusa a sorrir. Todas as suas fotos mostram uma mulher séria. Em algumas, chega mesmo a estar de cara feia.

E avarenta, mesquinha, chorosa, sentimental, suscetível, feroz­mente fiel, excêntrica, indiferente ao mundo lá fora e dedicada aos entes queridos.

Como resolver um problema como Mehroo?

Minha prima Roshan comentou certa vez que, se Mehroo fosse sua vizinha, não iria gostar muito dela. A observação me dilacerou. Imagino entender Mehroo, com todas as suas contradições, melhor do que ninguém. Imagino ter, não sei como, um olhar de raios X que me permite acessar os cantinhos mais recônditos do seu coração cálido e generoso. Há algo de elementar e primitivo em meu amor por Mehroo, e, quando penso nela, me vêm à cabeça imagens de animais — Mehroo como um cão, um cavalo, uma girafa ou zebra, animais de olhos tristes e bondosos.

Concluo, então, que a questão do cinema requer o meu charme, irresistível e letal.

— Por favor, Mehroofui, vá com a gente — imploro. — Só desta vez, por mim. Adoro esse filme mais do que qualquer outro. Você também vai adorar, prometo.

Ela balança a cabeça para dizer que não, os olhos castanhos me pedindo clemência. Canto trechinhos da trilha sonora, esperando seduzi-la, mas de nada adianta.

Finalmente, Pappaji explode:

Ja nee — diz ele. — Bachha ne dookhi karech. Você não vai deixar a minha menininha triste. Não vai acontecer nada comigo numa noite. Pare de me tratar como se eu fosse um menino de seis anos, um garoto de calça curta.

Funciona. Mehroo concorda e lá estamos nós, num sábado à noite, sentados nas confortáveis cadeiras do cinema Regai, esperando que a cortina vermelha suba e que Julie Andrews surja na tela com a glória de sua esplendorosa voz. Sentamos todos na mesma fileira: eu, Mehroo, Roshan e os pais dela, Freny e Babu, minha mãe e meu pai. Mal consigo ficar quieta no meu lugar, de tão animada. Mesmo antes que a cortina suba, a magia, a promessa de A noviça rebelde já se tornou realidade. Cá estou com a minha própria família, todos parecendo tão unidos, carinhosos e felizes como a família Von Trapp. Há meses tenho essa fantasia recorrente de ver toda a minha famí­lia deitada junta numa imensa cama, todos felizes e aconchegados, dependendo uns dos outros para nos proteger e aquecer, como se a cama fosse um navio singrando mares revoltos. Todos nós sob o mesmo teto, juntos. Isto é o mais próximo que já cheguei em termos de realizar tal sensação, afora em sonho, e meu coração lateja de amor e felicidade. Sinto-me inchar e crescer, como se pudesse esticar os braços para alcançar as costas das cadeiras de todos eles e abarcar a longa fileira de parentes.

Neste momento não faço a mínima idéia de como as correntes da vida me afastarão daquele sonho idealizado de família, do quanto e quão longe viajarei e de como as minhas viagens farão esse sonho escapar ao meu alcance para sempre. Não faço idéia de como me tornarei, sem querer, mais uma perda no histórico de perdas da minha família. Não há nada neste momento despreocupado que me diga que um dia trocarei o amor pela liberdade, que darei as costas ao exemplo de Mehroo de autossacrifício e dedicação familiar e, em vez disso, optarei pela autopreservação e pela independência. Que construirei minha vida e meus sonhos em cima dos sacrifícios deles.

Sim, voltarei, várias e várias vezes, para vê-los, mas jamais será como antes. Virei de visita e como turista, com histórias para mostrar a Mehroo os carimbos no meu corpo dos diversos lugares onde estive, mas ela não se deixará impressionar. Porque cada carimbo só servirá para lembrá-la do que falta em minha vida: as raízes de um lar. E os olhos inquisidores de Mehroo me seguirão, e o espanto neles não diminuirá jamais, para sempre causando um nó na minha garganta.

Mas antes que tudo isso aconteça, vivemos esta noite sublime no cinema Regai. Neste momento sublime, estamos todos no cinema, como qualquer família normal. A mão quentinha de Mehroo repousa no meu colo e, quando a olho de esguelha, no escuro, ela está sor­rindo. Todo mundo parece se dar conta de que esta é uma ocasião especial, pois temos Mehroo conosco, e sinto a admiração silenciosa de rodos os adultos por ter sido eu a catalisadora desta oportunidade. No intervalo papai sai e, com sua generosidade característica, volta carregado de sanduíches de frango, samosas sindi — nossos bolinhos de massa folhada recheados de batata e legumes — e garrafas de Fanta e Coca-Cola.

Saboreando meu sanduíche de frango e cantarolando as músicas que conheço tão bem quanto o meu nome, me sinto cintilar de pura felicidade, atingida por uma gota de sol dourado. Quando Christopher Plummer canta "abençoada seja para sempre a minha terra...", fico arrepiada, como sempre. Quando Ralph trai os Von Trapp na abadia, viro-me para Mehroo e garanto a ela:

— Não se preocupe. Não vai acontecer nada de ruim.

Ela assente e aperta a minha mão.

Nesta noite de glória, não sinto mais inveja da família Von Trapp Saio do cinema ciente do meu lugar no mundo. Pertenço a uma família grande e amorosa que vai ao cinema em grupo. Sou amada por uma mulher de olhar triste que me adora mais que a qualquer outra pessoa. Sou filha de um homem que compra Fanta e sanduíches de frango para todos e de uma mulher que segurou com firmeza a minha mão a caminho do cinema. Sou o motivo de estarem todos aqui, sou aquela que arrancou Mehroo de casa, sou a responsável pelos sorrisos em seus rostos.

Saio do cinema e adentro o mundo pisando em nuvens, majestosa e irresistível.
Papai gostou tanto do programa em família que poucos dias depois su­gere um piquenique. Fico empolgadíssima. Nunca fui a um piquenique em família. Antes, porém, que ele anuncie a ideia no jantar, mamãe o leva até o quarto para uma conversinha. Ao sair de lá, alguns minutos mais tarde, ele me diz que, pensando bem, prefere que sejamos só nós três — mamãe, eu e ele — a fazer o piquenique. Não entendo por quê, mas estou animada demais para discordar ou me queixar.

O plano é irmos aos Jardins Suspensos. Programamos durante vários dias o piquenique e papai até promete abrir mão de seu hábito de passar praticamente o sábado todo na fábrica. Ele ou Babu, um dos dois, vai à fábrica diariamente, mesmo nos dias em que as máquinas não são ligadas. O ritual é mais uma demonstração de respeito e superstição do que uma necessidade. Mehroo costuma me repreender caso, sem querer, eu me refira à fábrica como estando "fechada" em certos dias.

— A fábrica não fecha nunca — corrige ela. — Diga apenas "É o dia que não vamos lá".

Mas, no sábado do piquenique, papai vai para a fábrica às oito da manhã e volta às dez, para nos apanhar. Ele buzina, mas, como sem­pre, mamãe está atrasada, e eu me debruço no parapeito da varanda e aviso que ela precisa de mais meia hora. Mesmo dois andares acima, posso perceber a sua irritação.

- Está bem. Vou subir, então - responde ele.

Quando finalmente saímos, são quase 11 horas e papai está de mau humor.

- Quantas vezes eu lhe disse ontem que queria sair na hora? Para que ficar debaixo do sol do meio-dia? — resmunga ele. — Em meia hora vamos estar com a pele preta feito carvão.

Como muitos parses de pele clara, meu pai valoriza e protege a sua cor de café com leite como se fosse o diamante Kohinoor. Quando caminha, instintivamente procura a sombra, e quando dirige com as janelas abertas põe um pano amarelo em cima da mão exposta para protegê-la dos escaldantes raios de sol.

A tensão no carro é palpável; tento, espontaneamente, rompê-la em alguns pontos.

Ae, papai, quer ouvir uma piada nova que aprendi? — propo­nho, chegando para a frente no banco traseiro.

Conto aquela do porco-espinho e do pavão e sou recompensada com um sorriso sem graça no retrovisor. Mas seu estado de espírito ainda não melhorou, e a toda hora ele lança olhares para a minha mãe como a esperar que ela faça ou diga algo que alivie a tensão. Mas minha mãe olha impassível pela janela e fica claro que não pedirá desculpas pelo atraso.

A situação pede uma ação mais drástica. Sei que nada é capaz de melhorar mais rápido o humor de papai do que gastar dinheiro com a família. Por isso, do nada, eu digo:



  • Pai, quero um chocolate.

Na mesma hora ele se anima:

  • Combinado.

E pára na primeira loja de conveniência que vemos. Tirando uma nota de dez rúpias do bolso da camisa, ele a entrega a mim e diz:

— Vá lá dentro e peça o chocolate que quiser. Não esqueça o troco. Entro na loja me sentindo crescida e importante, minha nota de dez rúpias bem apertada na mão. Me posto na frente de uma vitrine para escolher o chocolate que quero. Um vendedor se aproxima:



  • Quem está com você, beta? — pergunta ele. — Seus pais estão com você?

  • Meu pai está esperando no carro — respondo. — Ele me disse para entrar e comprar um chocolate. Sei conferir o troco — garanto, orgulhosa.

Saio da loja com uma barra grande de chocolate Cadbury recheado de laranja. Já no carro, entrego a papai o troco. Ele não comenta que eu não como de imediato o chocolate, mas a minha artimanha ficou evidente. Não estou com vontade de comê-lo agora.

— Estou sem fome. Mamãe, você guarda o chocolate para mim?

Minha mãe me lança um olhar estranho, mas pega o chocolate e o joga em cima do console do carro. Prosseguimos viagem.

Percebo, pela expressão no rosto de ambos, que meus pais andaram conversando enquanto estive na loja. Quero ajudar, mas, de repente, me sinto exausta e sonolenta. Me enrosco no banco traseiro e adormeço. Prestes a pegar no sono, escuto um murmúrio constante vindo do banco dianteiro. Os dois estão tendo outra discussão.

— Thrituma, ootho, levante — ouço meu pai dizer. Chegamos aos Jardins Suspensos e me empolgo ante a idéia de entrar no Sapato da Velha e outros brinquedos inspirados em cantigas de ninar. Só estive nos Jardins Suspensos uma vez na vida e minha animação por ir ali novamente é inacreditável.

Não nos afastamos senão alguns passos do carro, carregando nossa sacolinha com sanduíches de frango e chutney, quando me lembro do chocolate.

— Papai, meu chocolate. Vou querer de sobremesa. Imediatamente, meu pai volta ao carro, mas retorna de mãos

vazias.


— Esqueça o chocolate — diz ele com um sorriso forçado. — Derreteu todo em cima do console. Foi um erro deixá-lo ali.

Eu o encaro, boquiaberta. De repente, o chocolate se transforma na coisa mais importante do mundo.

Mas eu quero o chocolate, guardei para mais tarde.

— Sei disso, Thritu — responde papai. — Não se preocupe, com­pro outro para você no restaurante do parque. Não tem problema.

Uma espécie de pânico me invade. Papai não está entendendo o que digo. Sinto o coração enlouquecer, indomável, como se eu tivesse engolido as águas de um oceano.

- Não, não quero outro chocolate. Quero o meu chocolate, o que está no carro.

Meu pai suspira, impaciente.

- Não seja boba. Eu já disse que o chocolate derreteu no console. Seria preciso uma colher para comê-lo. Sujou o console todo. A gente come os sanduíches, e depois eu compro outro para você.

Um gemido começa a tomar forma de dentro de mim, bem lá no fundo, parecendo brotar dos meus joelhos e ir subindo.

- Quero o meu chocolate. Aquele. Não quero um outro.

- Isso foi exatamente o que ela fez com o bolinho sara — começa mamãe, e na mesma hora sei do que ela está falando.

Faz alguns meses, Mehroo trouxe para casa um bolinho sara, um doce de chocolate, que pegou na pequena padaria que minha família abriu como um negócio complementar alguns anos atrás. Ela me ofereceu o doce depois do jantar, mas respondi que estava muito cheia.

— Tudo bem — disse Mehroo. — Daqui a uma ou duas horas a fome vai bater, e aí você come. Está fresquinho e gostoso.

Mas eu recusei, disse que não queria.

— Tem certeza, Thrituma? — indagou Mehroo. — Tem certeza de que não vai mudar de idéia depois?

Balancei a cabeça, confirmando que não.

Mehroo tirou o doce de chocolate da embalagem de papel e o segurou entre o polegar e o indicador. Olhou para ele um instante e depois o pôs na boca. No minuto em que o doce entrou em sua boca, o arrependimento me assaltou.

— Eu quero. Quero o bolinho sara agora. Mehroo me olhou espantada.



  • Como assim? Perguntei vinte vezes se você queria e você me respondeu vinte vezes que não.

  • Não me interessa — gritei. — Quero o meu doce agora.

  • São sete horas da noite — apelou Mehroo, impotente. A loja está fechada. Amanhã trago outro para você, prometo.

  • Não quero outro. Quero aquele mesmo, agora. Devolva o meu bolinho.

Na ocasião, mamãe riu quando Mehroo, perturbada, contou a história, mas agora não está achando graça nenhuma. As pessoas que passam se viram para olhar para nós, e meus pais percebem isso. Mamãe agarra meu braço como se pegasse uma asa de galinha e começa a andar.

— Chega — diz ela, baixinho, com raiva. — Você está se portando como um neném na frente dos outros. Se continuar a fazer isso, o guarda vem lhe prender.

Dizer isso foi um erro. Estou descontrolada agora, recuso-me a dar um passo, exijo o mesmo chocolate.

— Faça ele ficar inteiro de novo — ordeno ao meu pai. — Não quero o chocolate derretido. Quero como ele era antes.

Papai me olha horrorizado. Nunca me viu assim, tão descontrolada, e provavelmente conclui que a filha tem um lado que ele desconhece por completo.

— Thrituma, seja razoável — diz ele, mas a razoabilidade se foi, derreteu-se, como o chocolate ao sol.

Mamãe assume o comando:

— Fique quieta agora mesmo ou eu lhe sapeco uma palmada — ameaça, por entre os lábios cerrados, furiosa. — Está estragando o dia de todo mundo.

Começo a soluçar.

— Quero ver o meu chocolate — exijo. — Quero ver.

Meu desejo é lhe dar adeus, como se dá adeus a um amigo que ofendemos ou magoamos, mas é impossível fazer os adultos entende­rem isso, esses adultos que me olham como se eu fosse um monstro criado por eles.

— Você não vai poder comer aquele chocolate, eu já disse! — repete meu pai, e, pela primeira vez, percebo uma raiva genuína em sua voz.

— Não me interessa — grito. — Quero ver o meu chocolate!

Ele age rápido, então. Gira nos calcanhares e começa a caminar na direção do carro.




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