Tiamat-World Orgulhosamente Apresenta: Christine Feehan



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Tiamat-World Orgulhosamente Apresenta:

Christine Feehan



Dark Peril

Série Cárpatos 21


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Dominic, da linhagem Caçadores de Dragões, uma das mais poderosas do povo Cárpato, ingere sangue infectado com parasitas para poder ir ao coração do acampamento inimigo e aprender seus planos. É uma missão de um só sentido. Ele sabe que tem pouco tempo uma vez que os parasitas e o sangue comecem a trabalhar. Pretende entrar rapidamente, retransmitir a informação ao líder dos Cárpatos que vive na área e sair lutando, uma maneira honorável de terminar com sua vida. Solange Sangria é uma das últimas do povo jaguar, um puro sangue real. Seu povo, uma vez muitos, agora estão quase extintos, uma espécie em extinção que não pode recuperar-se das escolhas que fizeram ao longo dos anos. Esteve muito tempo sozinha, lutando para salvar às mulheres restantes capazes de trocar das mãos de Brodrick, o Terrível, seu próprio pai, que matou sua família e todos aos que amava. Ferida e cansada, planeja uma última batalha, esperando deter o homem que fez uma aliança com os vampiros, aceitando que não sairá viva. Eles são dois guerreiros que viveram suas vidas sozinhos. Agora, ao final de seu tempo, encontram um ao outro, uma complicação que nenhum viu chegar.

TRADUZIDO E REVISADO DO INGLÊS

Envio do arquivo: Gisa

Revisão: Sandra Maia

Revisão Final: Fabrícia

Leitura Final: Táai

Formatação: Greicy

Tiamat - World

Comentário da Revisora Sandra Maia: Eu gostei bastante. Prefiro as histórias que acontecem nas montanhas cárpatas, mas esse foi bom. Só teve muita lenga lenga para domesticar a Solange. Mas o Dominic é tudo de bom. Deve ser o sangue, porque ele é tão ou mais suave que o Razvan.
Comentário da Revisora Fabrícia: Um dos mais românticos cárpatos, se isso for possível! Este livro dá muito mais destaque às relações entre os companheiros que às batalhas, no meu ponto de vista, uma bela escolha.
Comentário da Táai: Lindo, muito lindo. A evolução do amor deles é linda, na minha opinião, só perde pro livro do Falcon e pro do Razvan. Deliciem-se!

Capítulo 1
"Estive meio-vivo durante mil anos.

Abandonei toda esperança de nos encontrarmos neste tempo.

Muitos séculos. Tudo desaparece enquanto o tempo e a escuridão roubam a cor e a rima."

— Dominic para Solange


Os machos Cárpatos sem companheira não sonhavam. Não viam em cores e certamente não sentiam emoções. Dor, sim, mas não emoção. Então, por que esteve sonhando durante os últimos anos? Era um antigo, um guerreiro experiente. Não tinha tempo para a fantasia, nem para a imaginação. Seu mundo era duro e árido, uma necessidade por combater a um inimigo que, inevitavelmente, tinha sido um amigo ou membro da família.

Durante os primeiros cem anos mais ou menos, depois de perder suas emoções, teve esperança. Enquanto os séculos passavam, a esperança de encontrar sua companheira se desvaneceu. Aceitou que a encontraria na próxima vida e estava cumprindo com resolução seu último dever para com sua gente, mas aqui estava, um antigo de grande experiência, Dominic da linhagem dos Caçadores de Dragões, uma linhagem tão antiga como o tempo, um homem de sabedoria, um guerreiro renomado e temido, tombado acordado sob a terra rica, sonhando.

Os sonhos deveriam sentir-se insubstanciais e ao princípio o seu havia sido. Uma mulher. Só uma vaga ideia do seu aspecto. Tão jovem em comparação a ele, mas uma guerreira por direito próprio. Ela não era sua noção de mulher com a qual se uniria, mas, enquanto ela se tornava mais substancial com o passar dos anos, se dava conta de quão perfeita era para ele. Ele tinha lutado durante muito tempo para depor sua espada. Não conhecia nenhum outro estilo de vida. O dever e o sacrifício estavam impressos em seus ossos e necessitava de uma mulher que pudesse compreendê-lo.

Possivelmente isso era o que eram seus sonhos. Ele nunca havia sonhado até alguns anos atrás. Nunca. Os sonhos eram emoções e as tinha perdido fazia muito tempo. Os sonhos eram em cores, embora os seus não. Mas os percebia em cores enquanto os anos davam forma à mulher. Ela era um mistério, completa confiança quando lutava. Frequentemente tinha machucados e feridas frescas que deixavam cicatrizes em sua pele suave. Ele chegava a examiná-la cuidadosamente cada vez que se encontravam, curá-la se converteu em sua saudação usual.

Encontrou-se sorrindo por dentro ao pensar em como ela era inteiramente o oposto de confiante quando se tratava de ver-se como mulher. Durante uns poucos momentos, contemplou porque deveria estar sorrindo por dentro. Sorrir era igual à felicidade e ele não tinha emoções para sentir tais coisas, mas suas lembranças de emoções estavam afiando-se ao final de sua vida, em vez de obscurecer-se como esperava. Por que, quando convocava o sonho, sentia uma sensação de consolo, de estar bem e feliz.

Com o passar dos anos ela se tornou mais clara para ele. Uma mulher jaguar. Uma guerreira feroz com exatamente os mesmos valores que ele hasteava: lealdade, família e dever. Ele nunca esqueceria a noite, há uma semana, em que viu a cor de seus olhos. Por um momento não pôde respirar, olhou-a maravilhado, surpreso de que pudesse recordar as cores tão vividamente para poder atribuir uma cor verdadeira a seus olhos felinos.

Os olhos eram formosos, resplandecendo em algum lugar entre o ouro e o âmbar com débeis insinuações de verde que se obscureciam quando ele conseguia obter alguma risada. Ela não ria frequentemente, nem facilmente, e, quando o fazia, sentia que era mais que qualquer batalha que uma vez tivesse ganho.

Enquanto os sonhos continuavam, e só ocorriam quando estava acordado, sempre pareciam um pouco desfocados. Mas esperava vê-la. Sentia-se protetor para com ela, como se sua lealdade já se balançasse para a mulher de seu sonho. Escreveu-lhe canções de amor dizendo todas as coisas que desejava dizer a sua companheira e quando ela se negava a descansar, ele a tombava com a cabeça no colo, acariciava-lhe a espessa juba de cabelo e cantava em seu idioma. Nunca se sentiu mais contente, nem completo.

Revolveu-se, perturbando à terra rica que o rodeava. No momento que se moveu, a dor lhe apanhou, milhares de facas lhe rasgaram de dentro para fora. O sangue poluído do vampiro, que tinha tragado deliberadamente, estava cheio de parasitas e se agitavam dentro dele reproduzindo-se, procurando tomar o controle de seu corpo, para invadir cada célula, cada órgão e, por muito frequentemente que purgasse alguns para manter seu número baixo, eles pareciam trabalhar mais duro para multiplicar-se.

Dominic vaiou um fôlego entre dentes enquanto se forçava a elevar-se. Não era ainda completamente de noite e ele era um antigo Cárpato com muitas batalhas e mortes em suas costas. Geralmente os antigos não se elevavam antes que o sol tivesse se posto, mas necessitava o tempo extra para explorar a seu inimigo e orientar-se nesta terra de mitos e lendas.

No fundo da cova que tinha escolhido na selva do Amazonas, moveu a terra brandamente, deixando que se assentasse a seu redor enquanto despertava, querendo manter a área tão tranquila quanto fosse possível. Viajava só de noite, como os de sua raça faziam, escutando o cochicho do mal sobre o rastro de um mestre vampiro, um que certamente sabia dos planos de destruir a espécie dos Cárpatos de uma vez por todas. Seu povo sabia que os vampiros estavam se reunindo sob o comando dos cinco. No início, os grupos eram pequenos e dispersos, os ataques facilmente defensáveis, mas ultimamente o cochicho da conspiração cresceu a um rugido e os grupos eram maiores, mais organizados e extensos do que acreditavam a princípio. Estava seguro que os parasitas do sangue poluído eram a chave para identificar a todos os que forjavam uma aliança com os cinco mestres.

Deduziu isso durante seus dias de viagem. Provou a teoria várias vezes, encontrando três vampiros. Dois eram relativamente novatos e nenhum tinha os parasitas, foi fácil para um caçador experiente matá-los, mas o terceiro esclareceu suas perguntas. No momento em que se aproximou, os parasitas entraram em um frenesi de reconhecimento. Escutou o vampiro gabar-se durante a maior parte da noite, lhe contando sobre as legiões crescentes e como os emissários se estavam reunindo no Amazonas, onde tinham aliados entre os homens jaguar e uma sociedade humana que não tinha a menor ideia de que estavam se deitando com os que tentavam destruir. Os mestres utilizavam tanto a humanos como a homens jaguar para caçar e matar Cárpatos. Dominic matou o vampiro, uma extração rápida do coração e chamando o relâmpago, incinerou-o. Antes de deixar a área, teve muito cuidado de eliminar qualquer rastro de sua presença.

Sabia que o tempo estava se acabando rapidamente. Os parasitas estavam muito ocupados trabalhando, sussurrando-lhe, murmurando malvados incentivos, incansáveis em sua busca para que ele se unisse aos mestres. Era um antigo sem companheira e a escuridão já era forte nele. Aceitou que sua companheira viria na próxima vida e dedicou sua vida a ajudar seu povo. Sua amada irmã tinha desaparecido fazia centenas de anos, agora sabia que estava morta e que suas filhas estavam a salvo com o povo Cárpato. Poderia fazer esta última tarefa e terminar sua árida existência com honra.

Levantou-se da terra rica, tão rejuvenescido como alguém com parasitas no sangue poderia estar. A caverna, no fundo da terra evitava que o sol tocasse sua pele, mas o sentia de todos os modos, sabendo que estava justo fora da escuridão, esperando para torrá-lo. A pele ardia e ardia com antecipação. Caminhou a longos passos pela caverna com confiança absoluta. Moveu-se com a fácil segurança de um guerreiro, fluindo sobre o chão desigual na escuridão.

Quando começou a subir à superfície, pensou nela, sua companheira, a mulher de seus sonhos. Não era sua verdadeira companheira, é óbvio, porque a veria em vívidas cores, não só seus olhos. Veria as variadas sombras de verde na selva tropical, mas tudo em torno dele permanecia em tons cinza. Estava encontrando consolo em seu engano? Eram suas canções a ela, seu amor por sua companheira um engano? Desejava-a, precisava evocá-la às vezes para passar a noite quando seu sangue estava ardendo e era comido vivo, de dentro para fora. Pensou na pele suave, uma sensação que parecia assombrosa quando ele era como um carvalho, ferro duro, a pele tão dura como o couro.

Quando se aproximou da saída, pôde ver a luz que se derramava no túnel e seu corpo se encolheu, uma reação automática depois de séculos de viver na noite. Adorava a noite, sem importar onde estivesse ou em que continente estivesse. A lua era uma amiga, as estrelas frequentemente luzes pelas quais se guiava. Agora estava em um território não familiar, mas sabia que os irmãos Da Cruz patrulhavam a selva tropical, embora houvesse cinco deles para cobrir um território tão grande e estavam disseminados. Ele tinha a sensação de que os cinco que estavam recrutando vampiros menores contra os Cárpatos, tinham escolhido deliberadamente o território dos Da Cruz como sua sede.

Os irmãos Malinov e os irmãos Da Cruz cresceram juntos, mais que amigos, reclamando um parentesco. Foram considerados pelo povo Cárpato como duas das famílias mais poderosas, guerreiros não superados por muitos. Dominic pensou a respeito de suas personalidades e sobre o companheirismo que se tornou uma rivalidade. Teve o pressentimento de que os irmãos Malinov escolheriam estabelecer sua sede sob o nariz daqueles que tinham tramado maneiras hipotéticas de remover a linhagem Dubrinsky como governantes do povo Cárpato e logo ao final, tinham jurado lealdade ao príncipe. Os irmãos Malinov tinham convertido aos irmãos Da Cruz em seus inimigos mais amargos e inexoráveis.

A linha lógica do raciocínio de Dominic tinha sido confirmada pelo vampiro que matou nas Montanhas Cárpato, um vampiro menor, muito falador, que queria gabar-se de tudo o que sabia. Ele fez a seu modo, sem tomar prisioneiros, por assim dizer, surpreso de quão fantástico sistema de advertência eram os parasitas. Aos irmãos Malinov, nunca lhes ocorreu que algum Cárpato se atreveria a ingerir o sangue e invadir seu acampamento.

Ao aproximar-se da entrada, foi golpeado primeiro pelo ruído, sons de pássaros, macacos e o zumbido incessante dos insetos apesar da chuva constante. Fazia calor e o vapor se elevava do chão justo fora da caverna enquanto a umidade vertia dos céus. As árvores desciam sobre as torcidas bordas do rio, suas raízes eram grandes jaulas nodosas, as gavinhas grossas deslizavam sobre o chão para criar ondas de madeira.

Dominic era insensível à chuva ou ao calor, podia regular sua própria temperatura para permanecer cômodo, mas esses dez metros da entrada da caverna à segurança relativa sob o espesso dossel foram um verdadeiro inferno e não esperava por isso. Viajar sob o sol, inclusive sob outra forma era doloroso e com a sensação de fragmentos de vidro lhe rasgando o interior em pedaços, já era o bastante ao que enfrentar-se.

Foi difícil não alcançar o sonho. Em companhia dela, a dor aliviava e o sussurro em sua cabeça cessava. O constante murmúrio, os parasitas trabalhando para que aceitasse aos mestres e seu plano, era exaustivo. O sonho lhe dava consolo, mesmo sabendo que sua companheira não era real.

Sabia que tinha construído lentamente sua companheira em sua mente, não seu aspecto, a não ser suas características, os traços que eram importantes para ele. Necessitava de uma mulher que fosse leal além de tudo, uma mulher que protegeria suas crianças com ferocidade, que estaria com ele sem importar o que viesse para eles, ele saberia que estaria a seu lado e não teria que preocupar-se de que não pudesse proteger a ela mesma ou a seus filhos.

Necessitava uma mulher, que, quando só estivessem eles dois, seguiria sua liderança, que seria feminina e frágil e todas essas coisas que ela não podia ser durante as vezes que teriam que lutar. E desejava esse lado dela completamente para ele mesmo. Era egoísta, possivelmente, mas nunca teve nada para si mesmo e sua mulher era somente para ele. Não queria que outros homens a vissem do modo em que ele o fazia. Não queria que ela olhasse a outros homens. Ela era só para ele e possivelmente isso era o que o sonho verdadeiramente era, a formação de uma mulher perfeita na mente quando sabia que nunca teria uma.

Conhecia muito bem as habilidades de combate dela. Tinha visto as cicatrizes das batalhas. Respeitava-a e admirava quando caminhava com ela, mesmo que realmente não pudesse reter sua imagem durante muito tempo. Nos sonhos que vinha a ele, estiva protegida por um denso véu, trocavam imagens mais que palavras. Tinha levado muito tempo para revelarem uma parte de si que não fosse a de guerreiro. Construíram a confiança entre eles lentamente e gostava disso nela. A mulher não entregava sua lealdade facilmente, mas quando o fazia, dava-a por completo. E foi para ele.

Outra vez se encontrou sorrindo por dentro com uma fantasia tão ridícula para sua idade. Devia ser um sinal da piora de sua mente. A senilidade se impunha. Mas como sentia sua falta quando não podia trazê-la a ele. Ela parecia mais perto ali no calor da selva, com a chuva caindo em capas prateadas. O véu de umidade lhe recordou a primeira vez que tinha conseguido olhar atentamente através da neblina de seu sonho e visto sua face tão claramente. Roubou-lhe o fôlego. Parecia tão assustada, como se tivesse se revelado deliberadamente, correndo o risco finalmente, mas estava tremendo, esperando que ele a julgasse.

Ele se sentiu mais próximo ao amor verdadeiro do que jamais havia sentido. Tratou de comparar o sentimento com o que teve por sua irmã Rhiannon, nos primeiros dias quando todos eram felizes e ele ainda tinha suas emoções. Tinha guardado a lembrança desse amor todos esses séculos, mas agora, quando necessitava do sentimento para completar seu sonho, antes de sair a lutar, o sentimento era inteiramente diferente.



Sentimento. Deu-lhe voltas à palavra uma e outra vez em sua mente. O que significava? Lembranças? Ou realidade? E por que suas lembranças eram tão nítidas de repente, aqui na selva? Cheirou a chuva, inalou o aroma e houve um pouco de prazer na sensação. Era frustrante, quase captar o sentimento e ainda assim, o iludia. Não era simplesmente um subproduto de ingerir o sangue de vampiro, tinha começado a "sonhar" muito antes. E os sonhos aconteciam enquanto estava acordado.

Ele suspeitava de todas as coisas que não tinham sentido. Não era um homem propenso aos sonhos ou às fantasias e esta mulher mítica estava se convertendo em uma grande parte de sua vida, em parte dele. Estava se enganando ao pensar que era uma companheira verdadeira, realidade em vez de um mito, mas aqui na terra onde mitos e lendas vinham à vida, ele quase podia convencer-se de que ela era real. Mas inclusive se fosse, era muito tarde. A dor contínua que lhe arranhava o ventre dizia que seu tempo tinha acabado e que tinha que levar a cabo seu plano de infiltrar-se no acampamento inimigo, obter seus planos, enviar a informação a Zacarias Da Cruz e logo matar tantos vampiros quanto pudesse antes de sucumbir. Havia escolhido sair e lutar por seu povo.

Trocou, tomando a forma do senhor dos céus, a águia harpia1.

O pássaro era maior que o normal e as harpias eram grandes aves. A envergadura das asas era de uns bons dois metros, as garras enormes. A forma ajudaria a protegê-lo quando entrasse na luz do sol antes de alcançar o refúgio relativo da canópia2. Elevou-se do chão à luz do sol. Apesar do aguaceiro, a luz lhe queimou. A fumaça se elevou das plumas escuras, emanando inclusive da forma do pássaro. Já havia sofrido queimaduras e seu corpo ficou destroçado com as cicatrizes, embora aliviassem com o tempo, mas nunca esqueceria essa dor. Estava gravado em seus ossos.

Aspirando o fôlego bruscamente, forçou-se a levantar o voo e subir para essa massa horrorosa de ardente calor. A chuva crepitou sobre ele, cuspindo e vaiando como um gato zangado, quando o grande pássaro decolou, batendo as asas com força para ganhar altura e lhe levar às árvores. A luz quase o cegou e dentro da águia se encolheu longe dos raios, sem importar como se peneirasse com a chuva. Pareceu que cruzar os dez metros durava uma eternidade, embora o pássaro estivesse nas árvores quase imediatamente. Levou-lhe uns poucos momentos para dar-se conta de que o sol já não estava diretamente sobre suas plumas. O vaio e os cuspidos cederam uma vez mais à convocação dos pássaros e dos macacos, desta vez com um agudo alarme.

Debaixo dele, um porco-espinho deixou cair os figos que jantava quando a sombra da águia passou sobre sua cabeça. Duas bonitas aranhas, bêbadas pelas frutas fermentadas lhe olharam fixamente. A selva do Amazonas atravessava oito fronteiras, estendendo-se pelos países com suas próprias formas diversas de vida. Um tamanduá, que subia aos ramos de uma árvore, deteve-se para olhá-lo cautelosamente. As araras de penas vermelhas e azuis gritaram advertências quando passou por cima, mas as ignorou, expandindo seu círculo mais amplamente para abranger cada vez mais território.

A águia se movia silenciosamente pela floresta, tão alto quanto as canópias permitiam, sem emergir por cima, cobrindo milhas. Necessitava o refúgio dos ramos torcidos e a densa folhagem para bloquear a luz. Com os olhos da águia harpia podia ver algo tão pequeno como algo de dois centímetros ou algo com quase dois metros. Podia voar a até oitenta quilômetros por hora se estava em um espaço aberto e mergulhar com uma velocidade vertiginosa, se fosse necessário.

Agora, a visão era a razão principal para ter escolhido a forma da águia. Divisou centenas de rãs e lagartos que pontilhavam os ramos e troncos enquanto varria o céu. As serpentes estavam enroladas entre os ramos torcidos, escondidas entre as flores empapadas pela chuva. Um leopardo se encolheu mais profundamente na folhagem de um alto kapok3, seus grandes olhos fixos na presa. A águia voou mais baixo, inspecionando a vegetação perto das ervas daninhas. Blocos de pedra calcária jaziam meio enterrados em escombros, como se tivesse sido pulverizados por uma mão voluntariosa. Um sumidouro brilhava com água azul, atestando um rio subterrâneo.

A águia continuou expandindo seu círculo, abrangendo cada vez mais quilômetros, até que encontrou o que procurava. O pássaro se assentou no alto dos ramos de uma árvore alta ao bordo de uma clareira feita pelo homem. Um edifício grande, de aço e ferrolhos tinha sido introduzido peça a peça e construído no último ano. Favoreceu-se o crescimento ao redor dele, presumivelmente com intenção de ocultá-lo, mas não com tempo suficiente para que a floresta recuperasse o terreno perdido.

Algo fez um buraco através do metal exterior e começou um fogo. O cheiro de fumaça não pôde evitar que o fedor de carne podre se elevasse para fazer que sua pele se arrepiasse inclusive no profundo da forma do pássaro. Vampiro. O aroma estava ali, embora esvaído, como se muitas sublevações tivessem acontecido desde que o não morto tinha visitado este lugar. Ainda assim, o lamento da morte se elevava dos terrenos dos arredores.

O lado direito do edifício estava enegrecido e um buraco dava vistas do interior. Uma batalha muito recente, possivelmente nos últimas horas teve lugar aqui. Os olhos agudos da águia podiam ver os móveis de dentro derrubados, um escritório e duas jaulas. Um corpo jazia imóvel no piso.

Dois homens, humanos estava seguro, estavam fora do edifício com a equipe de combate, grandes fuzis atados aos ombros. Um deles inclinou uma garrafa de água na boca e logo retrocedeu ao refúgio relativo da porta, tentando evitar a chuva constante. O segundo aguentava firmemente, a água o encharcava, enquanto dizia umas poucas palavras ao primeiro guarda antes de mover-se para rodear o edifício. Ambos estavam vigilantes e o guarda da porta protegia a perna esquerda, como se tivesse sido ferido.

A águia olhou, imóvel, escondida entre os ramos grossos e retorcidos e sob o guarda-chuva das folhas por cima da clareira. Não passou muito tempo antes que um terceiro homem aparecesse, saindo do bosque. Nu, tinha um largo peito com pernas curtas e fornidas e braços muito musculosos. Levava um segundo homem sobre o ombro. O sangue lhe descia pelo ombro e costas, embora fosse impossível dizer se era do homem inconsciente ou dele. Cambaleou um pouco antes de alcançar a porta, mas o guarda não se moveu para ajudá-lo. Em vez disso, afastou-se a um lado, levantou apenas o canhão de sua arma, mas o suficiente para cobrir aos recém-chegados.

Homens jaguares. Troca-formas. Não havia dúvida na mente de Dominic. Alguém atacou este complexo e fez uma quantidade considerável de dano. Obviamente o guarda humano desconfiava dos homens jaguar, mas lhes permitiu entrar no edifício. O segundo guarda se colocou detrás e cobria aos dois shifters, com o dedo no gatilho. Claramente, havia uma trégua inquieta entre as duas espécies.

Dominic sabia que os homens jaguar estavam à beira da extinção. Ele viu o declive umas poucas centenas de anos atrás e soube que era inevitável. Nesta época, os Cárpatos tinham tentado lhes advertir do que vinha. Os tempos mudavam e uma espécie tinha que evoluir para sobreviver, mas os homens jaguar recusaram o conselho. Quiseram permanecer com os velhos costumes, vivendo no profundo das selvas, encontrando uma companheira, emprenhando-a e seguiam em frente. Eram selvagens e de mau temperamento, sempre incapazes de assentar-se.

Os poucos homens jaguar com os que Dominic passou algum tempo tinham um tremendo sentimento de direito e superioridade. Viam todas as outras espécies como inferiores e suas mulheres não significavam muito mais que um recipiente para levar suas crias. A família real tinha uma longa história de crueldade e abuso sobre suas mulheres e meninas, uma prática que os outros machos viram como exemplo e a seguiram. Houve uns poucos e raros homens jaguar que tentaram convencer aos outros que deviam valorar a suas mulheres e meninas, em vez de as tratar como uma propriedade, mas foram considerados traidores, rechaçados e ridicularizados, ou pior, assassinados.

No final, os Cárpatos deixaram os homens jaguar a sua própria sorte, sabendo que a espécie estava condenada. Brodrick X, um raro jaguar negro, guiava aos machos como seu pai e seus antepassados haviam feito antes dele. Era considerado um homem difícil e brutal, responsável por matanças de aldeias inteiras de híbridos que acreditava não aptos para viver. Corriam rumores que havia feito uma aliança com os irmãos Malinov assim como com a sociedade de humanos dedicados a aniquilar vampiros.

Dominic sacudiu a cabeça com a ironia. Os humanos não podiam distinguir a diferença entre um Cárpato e um vampiro e sua sociedade secreta foi infiltrada pelos mesmos que estavam tentando destruir. Os Malinov estavam usando ambas as espécies em sua guerra contra os Cárpatos. Até agora, os homens lobo não tinham escolhido nenhum lado, permanecendo estritamente neutros, mas existiam, como Manolito Da Cruz comprovou com sua companheira.

Dominic levantou voo e se aproximou, afinando sua audição para captar a conversa dentro do edifício.

— A mulher está morta, Brodrick. Saltou sobre o precipício. Não pudemos detê-la. — Havia cansaço e aversão na voz.

Uma segunda voz, cheia de dor adicionou:

— Não podemos nos permitir o luxo de perder mais de nossas mulheres.

A terceira voz foi mais baixa, um grunhido de puro poder, impressionante pela autoridade absoluta.

— O que disse, Brad? — A voz transmitia uma ameaça clara, como se o pensamento que qualquer um de seus peões tivesse ideias próprias de algum modo os convertesse em traidores.

— Precisa de um médico, Brodrick. — Interveio a primeira voz apressadamente.

Dominic olhou como um homem grande vestido com jeans frouxos e uma camisa aberta surgia da casa. Usava o cabelo comprido, desgrenhado e muito espesso. Dominic soube instantaneamente que estava olhando a Brodrick, o governante dos homens jaguar. Seu príncipe tinha decretado que os Cárpatos deviam deixar a espécie a seu próprio destino ou do contrário estaria tentado a matar o homem no lugar onde estava. Brodrick era diretamente responsável pelas mortes de inúmeros homens, mulheres e crianças. Estava consumido pelo demônio, bêbado de seu próprio poder e com a crença que era superior a todos os outros.

Brodrick olhou os dois guardas depreciativamente.

— Que porra fazem perdendo tempo na porta? Supostamente deveriam estar trabalhando.

O segundo guarda manteve seu fuzil apontado na direção de Brodrick inclusive enquanto os dois humanos se moviam em círculos opostos, o que estava se refugiando na porta, coxeando bastante, confirmando a crença de Dominic que estava ferido. Brodrick franziu o cenho à chuva, deixando que vertesse sobre seu rosto. Cuspiu com repugnância e caminhou pelo lado do edifício onde houve o fogo. Agachando-se, procurou pelo chão. Foi muito minucioso, inclinou-se para farejar, utilizando todos os sentidos para recolher o rastro de seu inimigo.

De repente se recostou sobre os calcanhares, se esticando.

— Kevin, vem aqui. — Chamou.

O homem jaguar que estava ferido correu para fora, descalço, mas em jeans e enfiando uma camiseta pelo peito.

— O que é?

— Conseguiu um bom olhar de quem quer que irrompeu e libertou Annabelle?

Kevin negou com a cabeça.

— Foi uma tentativa magnífica. Eliminou dois guardas, os tiros tão perto um do outro que todos pensaram que tinha sido um só.

— Não há nenhum rastro. Nenhum. Onde diabos ele estava? E como soube o lugar exato onde fazer voar o edifício para libertar Annabelle? Não havia janelas.

Kevin olhou para os guardas.

— Acredita que alguém ajudou?

— O que aconteceu ali? — Brodrick fez gestos para o bosque.

Kevin deu de ombros.

— Perseguimos Annabelle. Correu pela floreta, para o rio. Pensamos que possivelmente fosse seu homem, o humano de quem falou, vindo para tentar salvá-la. Não necessitávamos de armas para lutar contra ele, assim mudamos. Seríamos mais rápidos que Annabelle viajando pela floresta, inclusive se mudasse.

Tinha sido um pensamento lógico, concedeu Dominic de sua posição acima deles, mas tinham perdido à mulher.

Brodrick sacudiu a cabeça.

— Como Brad foi atingido? E onde está Tonio?

Kevin suspirou.

— Encontramos seu corpo do outro lado das cavernas. Enredou-se com outro gato. Brad estava ajoelhado ao seu lado e em seguida estávamos no chão e imobilizados. Eu não tinha armas e mudei de forma para tentar rodear e encontrar o atirador, mas não pude encontrar nenhum rastro.

Brodrick xingou.

— É ela. Ela fez isto. Sei que foi ela. Por isso não encontrou nenhum rastro. Veio pelas árvores.

Ninguém disse quem era ela. Dominic queria saber quem podia ser a mulher misteriosa que obviamente odiavam e temiam. Alguém a quem não se importaria de conhecer. Quatro dos cinco irmãos Da Cruz tinham companheiras. Poderia a evasiva mulher ser uma de suas companheiras? Era possível, mas duvidava. Os irmãos Da Cruz não desejariam suas mulheres na batalha. Eram homens com naturezas violentamente protetoras e vir para esta região só tinha incrementado suas tendências dominantes. Tinham oito países para patrulhar e os irmãos Malinov sabiam que era impossível cobrir cada centímetro de selva. Eles nunca, sob nenhuma circunstância, enviariam suas mulheres sozinhas. Não, esta tinha que ser outra pessoa.

A águia abriu as asas imensas e saiu voando. O sol começava a desaparecer, o fazendo sentir um pouco mais cômodo, mas o sussurro dos parasitas ficou mais forte, tentando, empurrando sua fome a um nível voraz, até que mal pôde pensar claramente. Era só a forma do pássaro que mantinha sua prudência enquanto tentava se ajustar ao nível crescente de tortura. À medida que a noite se aproximava, os parasitas passavam da lerdeza à atividade, apunhalando os órgãos internos enquanto o sangue de vampiro queimava como ácido. Devia se alimentar, mas cada vez estava mais preocupado por essa loucura que o estava apanhando e se por acaso não encontrasse a força para resistir à tentação de matar enquanto se alimentava?

A cada sublevação despertava vorazmente faminto e, a cada vez que se alimentava, os parasitas ficavam mais fortes, o empurrando a matar, exigindo que sentisse a rajada do poder, a legítima rajada do poder, a promessa do doce frescor em seu sangue, um sentimento de euforia que afastaria cada dor de seu corpo fatigado.

Manteve-se sob a sombra das canópias enquanto expandia sua exploração, dirigindo-se ao lugar da batalha, esperando que a águia pudesse divisar algo que os homens não puderam. Encontrou as entradas das cavernas, muito pequenas e feitas de pedra calcária, mas estas não pareciam se curvar embaixo da terra para formar o labirinto de túneis do sistema de cavernas que havia a quilômetros de distância. Só havia três pequenas câmaras e em cada uma, encontrou arte maia nas paredes. As três cavernas mostravam sinais de ocupação, breve, mas violenta de algum jeito. Havia lugares com sangue seco em todas elas.

Dirigiu-se ao céu outra vez, com uma vaga intranquilidade no estômago. Isso o incomodou. Tinha visto lugares horríveis de batalha, tortura e morte. Era um guerreiro Cárpato e sua falta de emoção o servia bem. Sem uma companheira para equilibrar a escuridão nele, necessitava da falta de emoção para permanecer cordato durante os mais de mil anos vendo crueldade e depravação, mas a visão do sangue nessa cova e saber que as mulheres tinham sido levadas ali pelos homens jaguar para serem utilizadas quando desejassem, o adoecia. E isso nunca deveria acontecer. Intelectualmente, possivelmente. Uma reação intelectual era aceitável e a honra em seu interior se elevaria para abominar tal conduta, mas uma reação física era completamente inaceitável e impossível. Mas…

Inquieto, Dominic expandiu sua busca para incluir os precipícios acima do rio. A chuva continuava, aumentando em força, convertendo o mundo em cinza prateado. Inclusive com as nuvens como cobertura, sentia o calor brilhante que invadia tudo enquanto irrompia na clareira sobre o rio. Um corpo estava caído e sem vida no rio, preso nas pedras, golpeado e esquecido. O comprido e espesso cabelo, estava estendido como um alga, um braço imobilizado na fenda que formavam duas grandes rochas. Estava de barriga para cima, os olhos mortos olhavam fixamente o céu, a chuva caía sobre seu rosto como uma inundação de lágrimas.

Amaldiçoando, Dominic deu uma volta e se deixou cair. Não podia deixá-la dessa maneira. Não podia. Não importava quantos mortos tinha visto. Não a deixaria, uma boneca quebrada, sem nenhuma honra nem respeito pela mulher que tinha sido. Pela conversa entre Brodrick e Kevin, ela tinha uma família, um marido que a amava. Ela, e eles, mereciam mais que o corpo açoitado pela água, abandonado para inchar, decompor e ser comida dos peixes e carnívoros que fariam um banquete com ela.

O pássaro se decidiu pela rocha bem acima de seu corpo e mudou de forma, cobrindo a pele com uma capa pesada com capuz, ajudando a proteger seu pescoço e rosto enquanto agachava e pegava o pulso. Ele era forte e não teve problemas para tirá-la da água e segurá-la em seus braços. A cabeça pendurava sobre o pescoço e viu os machucados que danificavam a pele e as impressões ao redor do pescoço. Havia círculos, negros e azuis em torno dos pulsos e tornozelos. Outra vez se emocionou por sua reação. Pena mesclada com raiva. Uma pena tão pesada no coração que apagou lentamente a raiva.

Respirou e exalou. Estava sentindo as emoções de outra pessoa? Os parasitas amplificavam as emoções em torno dele, acrescentando-se ao pico que o vampiro recebia do terror que sua vítima sentia, a que proporcionava o sangue com adrenalina? Isso era uma possibilidade, mas não podia imaginar que um vampiro pudesse sentir pena.

Dominic levou a mulher à selva, cada passo aumentava sua pena. No momento que entrou nas árvores, farejou sangue. Aqui foi onde a segunda batalha teve lugar e Brad foi ferido. Encontrou o lugar onde o terceiro homem jaguar tinha solto sua roupa e saído a caça, esperando dar a volta e apanhar o atirador.

Havia poucos rastros que mostravam a passagem do jaguar, um pequeno pedacinho de pele e um rastro parcial que a chuva tinha enchido, mas em pouco tempo encontrou o corpo do gato. Houve uma batalha aqui, uma entre dois gatos. Os rastros do gato morto eram mais pesados e mais extensos, indicando que era maior, mas o gato menor era obviamente um combatente veterano, tinha matado com uma mordida no crânio, depois de uma luta violenta. A folhagem estava empapada com sangue e havia mais no chão.

Dominic sabia que os jaguares voltariam para queimar o gato caído, assim depois de estudar com cuidado o chão para guardar os rastros do jaguar vitorioso na memória, levou a mulher ao lugar mais exuberante que pôde encontrar. Uma gruta de pedra calcária coberta por trepadeiras de flores seria seu único indicador, mas abriu a terra profunda e lhe deu um lugar onde descansar. Quando a terra se fechou sobre a mulher, murmurou a oração da morte em sua língua materna, pedindo paz e que a alma da mulher fosse bem-vinda na sua seguinte vida assim como pedindo que a terra recebesse seu corpo e desse as boas-vindas à carne e os ossos.

Permaneceu um momento enquanto os raios do sol o buscavam através da cobertura do dossel e da chuva, queimando através da sua capa pesada para levantar bolhas na pele. Os parasitas reagiram, retorcendo e chiando em sua cabeça, o interior de seu corpo era uma massa de cortes, assim cuspiu sangue. Expulsou alguns deles de seu corpo pelos poros. Descobriu que se não aliviasse seu número os sussurros se tornavam mais fortes e a tortura impossível de ignorar. Teve que incinerar os sanguessugas mutantes que se retorciam antes que deslizassem no chão e tentassem encontrar um modo de retornar aos seus mestres.

Moveu a vegetação no chão para cobrir todos os sinais da tumba. Os homens jaguar retornariam para apagar os rastros de sua espécie, mas não a encontrariam. Descansaria longe de seu alcance. Era tudo o que podia dar. Com um pequeno suspiro, Dominic verificou uma última vez, certificando-se que o lugar escolhido parecia antigo e logo mudou de forma outra vez, tomando a forma da águia. Precisava encontrar aonde tinha ido o jaguar vitorioso.

Não levou muito tempo aos olhos agudos da águia divisar sua presa a vários quilômetros do lugar da batalha. Simplesmente seguiu os sons do bosque, as criaturas advertindo umas as outras da proximidade de um predador. A águia deslizou silenciosamente através dos ramos das árvores e pousou em um ramo largo no alto do bosque. Os macacos uivaram e chiaram advertências, chamando uns aos outros, atirando ocasionalmente raminhos no gato grande com manchas que abria caminho entre o mato para algum destino desconhecido.

O jaguar era fêmea, a grossa pele dourada estava salpicada com escuras manchas roxas e apesar da chuva, com sangue. Coxeava, arrastando ligeiramente a pata detrás onde parecia estar o pior dos rasgos. Tinha a cabeça baixa, mas parecia letal, um fluxo de manchas deslizavam dentro e fora da folhagem, assim às vezes, ainda com a vista extraordinária da águia, era difícil descobri-la contra a vegetação do chão do bosque.

Movia-se em completo silêncio, ignorando os macacos e os pássaros, caminhando num ritmo constante, os músculos fluindo sob a pele grossa. Estava tão intrigado por sua persistência obstinada em viajar apesar de suas feridas severas, que levou vários minutos para dar-se conta que os sussurros horríveis de sua mente haviam se acalmado consideravelmente. Todas as vezes que tinha drenado os parasitas para se dar algum alívio nunca tinham cessado seu contínuo assalto ao seu cérebro, mas agora, estavam quase silenciosos.

Curioso, pôs-se a voar, dando voltas acima, permanecendo dentro da copa das árvores para evitar os últimos raios do sol. Notou que quanto mais se afastava do jaguar, mais fortes se tornavam os sussurros. Os parasitas cessavam sua atividade quanto mais se aproximava dela, inclusive os afiados fragmentos de cristal que cortavam seu interior permaneciam imóveis e durante um curto momento teve uma pausa da dor brutal.

O jaguar continuou se movendo constantemente para a profundeza da floresta, longe do rio, entrando no interior. A noite caiu e continuou viajando. Ele descobriu que não podia abandoná-la, que não tinha desejos de deixá-la. Começou a comparar a estranha calma dos parasitas com ela assim como as constantes emoções estranhas. A raiva tinha amainado a uma pena e angústia inexoráveis. Tinha o coração tão pesado com a carga que mal podia funcionar enquanto se movia acima.

Abaixo, grandes blocos de pedra calcária apareceram meio enterradas no solo. Os restos de um grande templo maia jaziam gretados e quebrados, as árvores e videiras quase tinham arrasado o que restava do que uma vez foi uma impressionante estrutura. Dispersos durante os seguintes quilômetros estavam os restos de uma civilização muito antiga. Os maias tinham sido fazendeiros, cultivando milho dourado no meio da selva tropical, sussurrando com reverência aos jaguares e construindo templos para unir o céu, a terra e o Submundo.

Divisou o sumidouro e abaixo as águas frescas do rio subterrâneo que tinha notado antes pela tarde. O jaguar continuou sem se deter até que chegou a outro lugar maia, embora este fosse utilizado mais recentemente. O crescimento de trepadeiras grossas e árvores punham a data em quase vinte anos atrás, mas haviam claramente casas mais modernas aqui. Um gerador há muito tempo oxidado e envolto em grossa lona e brotos verdes jaziam ao lado. O terreno chorava com as lembranças de batalhas e matanças que tinham acontecido aqui. A dor era tão pesada agora, que Dominic precisava aliviar a carga. A águia harpia voou pelo dossel se afastando do jaguar e ficou imóvel, olhando como o jaguar avançava através do antigo campo de batalha, como se estivesse conectada aos mortos que gemiam ali.




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