Tiamat World Prazeres Noturnos



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Capitulo 13

Sophie despertou muito cedo, e saiu da cama para ir ver como amanhecia através da janela. Que se supunha que devia fazer na manhã do dia de suas bodas? Dormir aconselharia sua mãe. Dormir para estar em boa forma. Mas ela não podia dormir.

Seu coração pulsava com força. Apoiou-se na janela pela qual tinha entrado Patrick em seu quarto repetindo-se uma vez, mas que não estava cometendo um equívoco. Se um se fixava ainda podia ver as marcas da escada.

Uma grande carreta passou pela rua, levavam-na dois homens, sujos depois de uma noite de trabalho. A cidade estava despertando. No Covent Garden os vendedores ambulantes deviam estar pondo seus postos, os vendedores de pássaros estariam abrindo suas casas de jogo clandestino em Spitalfields. Quando era menina adorava ver as fileiras de cotovias e vendedores. Agora em troca, o pensar nas pequenas jaulas cheias de pássaros dava vontade de chorar.

―Não seja idiota! ― Disse em voz alta.

Por que estava fazendo um drama de seu casamento como se alguém a estivesse obrigando a casar-se?

Abraçou a si mesma. Desejava Patrick, queria-o como Julieta a Romeo. Mas, sem dúvida, já que ela tinha vivido uma noite de amor maravilhosa antes de casar-se com ele.

Então porque se preocupava? Apoiou a testa no frio cristal. Duas carretas giraram na esquina da rua e o primeiro faetón da manhã passou cabeceando pelo pavimento.

Qualquer outra manhã ela haveria feito soar a campainha para que trouxessem uma xícara de chocolate quente e depois teria estudado durante duas horas antes de tomar um banho. Por um momento esteve a ponto de deixar-se tentar pelo livro de gramática turca, mas recordou as palavras de sua mãe. Isso eram distrações infantis.

No exterior a governanta estava escolhendo verduras em uma carreta ambulante que se deteve diante da porta.

Apesar de tudo, a marquesa lhe tinha dado alguns bons conselhos, pensou Sophie. Patrick nunca se inteiraria que ela estudava idiomas se isso tinha que o contrariar. Quanto ao de negar o acesso a sua cama… Não tinha nenhum desejo de fazer tal coisa.

O importante era não deixar que adivinhasse que ela sentia um absurdo carinho por ele. Se o ignorava, ela poderia desempenhar o papel de esposa conhecedora, que permite que seu marido pule a suas cercas. Mas se congelava só de pensar na humilhação que sentiria se algum dia ele chegasse, a saber, até que ponto ela o amava.

― Não direi nunca ― Murmurou.

Um pouco mais tranquila, deu-se conta de que tinha encolhidos de frio os dedos dos pés e correu a refugiar-se debaixo das mantas.

Quando voltou a abrir os olhos, o sol entrava em torrentes no quarto. Virou-se sobre as costas. Tinha estado sonhando em italiano, coisa que não acontecia desde que tinha começado a estudar esse idioma quatro anos antes. Um curioso sonho cujos detalhes lhe escapavam. Tratava-se de um baile de máscaras e ela estava disfarçada de cigana com um chapéu de palha preso sob o queixo.

Fez uma careta. O baile de máscaras ia começar. Puxou resolutamente do cordão e se levantou.

Heloise tinha um nó no estômago enquanto contemplava os assistentes reunidos na igreja de St. George, essa quarta-feira às três da tarde. Fez recontagem seus parentes e dos de Patrick, os quais se limitavam a um irmão, Alex, e a uma tia. Embora não fossem muito numerosos se via muito bem. O tio de Patrick celebraria a cerimônia e a tia, Henrietta Collumer, ocupava um lugar de honra ao lado da mãe da noiva.

―Deixe de dar volta Heloise! ― Disse Henrietta com a autoridade que lhe conferiam seus oitenta anos ― Não se preocupe, todos estão aqui. Acreditam que este é o casamento por amor do século.

Heloise a olhou com uma profunda antipatia perguntando-se ao mesmo tempo se podia permitir-se zangar com essa velha devota. Não. Limitou-se a voltar-se para o altar. Havia-se sentido feliz ao saber que o conde de Slaslow seria o padrinho de Patrick, já que isso faria emudecer às más línguas. Slaslow parecia um pouco mal-humorado, mas ele era assim. Em realidade estava convencida de que Sophie seria mais feliz com Patrick Foakes.

Este último estava no alto da nave, com seu gêmeo, impertérrito. Ao contrário de Braddon Chatwin que se balançava de um lado a outro sobre seus pés, os irmãos Foakes estavam quietos como estátuas.

Um murmúrio percorreu a igreja e apareceu Sophie com uma mão apoiada no braço de seu pai.

Heloise tinha convencido a sua filha de que o vestido fosse branco e, sob a difusa luz das vidraças, parecia inocente, frágil e quase irreal. Ninguém teria podido imaginar que era uma mulher que atraía ao escândalo como se fosse um ímã. Inclusive as línguas mais viperinas deviam estar perguntando-se porque esse matrimônio se celebrava com tanta precipitação. O cabelo, com botões de rosas brancas entrelaçados, caía-lhe em cascata pelas costas. Parecia uma princesa russa ou uma fada saída de um conto irlandês.

Seu vestido de cetim cor marfim de corte alto estava adornado com uma sobrecapa que terminava em uma cauda. As mangas eram curtas, o decote pouco pronunciado e usava luvas longas de cetim. Quando Antonin Careme lhe mostrou o vestido ela gemeu dizendo que pareceria uma matrona.

Certamente era sem dúvida o vestido mais discreto que tinha usado desde que foi apresentada em sociedade. Mas as hábeis mãos de Careme tinham acrescentado uma nota encantadora e original: renda dourada no sutiã e na borda da cauda.

Esse homem sabia como fazer formosa a uma mulher. Com a renda, da mesma cor que seu cabelo, Sophie era como um maravilhoso ícone de ouro e marfim. Um ícone blasfemo, certamente, já que os homens congregados não a olhavam com respeito precisamente, e sim com o desejo impresso nos olhos.

Ao Patrick cortou a respiração quando a viu ir para ele com as pálpebras entreabertas. Não os abriu até que o marquês e ela chegaram ao altar.

Então, por um breve instante, seus olhares se encontraram e Sophie ruborizou. E nos lábios de Patrick apareceu um sorriso e se apoderou dele um intenso calor.

Ao menos sabia por que se casava. Nunca havia sentido, nem sentiria jamais, um desejo como o que Sophie despertava nele. Apesar da presença do sacerdote, agarrou-a da mão.

O bispo o olhou com reprovação baixou suas hirsutas sobrancelhas. Richard tinha aceitado celebrar as bodas em lembrança de seu irmão, o pai de Patrick. Deus era testemunha do que haviam feito passar seus filhos! Mas Sheffie haveria sentido feliz de assistir a esse matrimônio.

― Os casemos e se tranquilizaram ― Acostumava a dizer.

Ele não tinha seguido seu próprio conselho já que, em vez de consertar para eles um matrimônio de conveniência, tinha mandado a um ao continente e ao outro ao oriente. Teve a sorte de lhes ver retornar sãos e salvos. Entretanto Richard não tinha tido ocasião de lhes ver depois da morte de seu irmão.

Colocou bem o habito que tinha um fastidioso costume de deslizar-se para trás e mover-se como um navio em meio de uma tempestade.

― Meus queridos amigos ― Disse ―Estamos aqui reunidos sob o olhar de Deus…

Sophie começou a tremer enquanto a voz do bispo enchia a nave. Patrick continuava segurando a mão e ela sentia um desejo de querer fugir correndo. Sua nova vida se estendia diante dela, cinza e vazia, marcada pela humilhação e a tristeza de ver seu marido divertindo-se com outras mulheres.

Richard prosseguiu com a cerimônia, dando-se conta de que Patrick conservava a mão de Sophie entre as suas. Bom as pessoas pensariam que era um gesto muito romântico, e isso era fundamental para que vissem com bons olhos um matrimônio tão pouco convencional.

Voltou para seu sobrinho. O muito patife tinha umas sobrancelhas que davam o aspecto de um demônio incluso nesse sagrado lugar.

Por fim se dirigiu à mulher:

―Quer tomar a este homem como marido, viver com ele…

Mas Sophie tinha a cabeça cheia de imagens de sua mãe desfeita em lágrimas, recordava todas as mentiras que seu pai havia dito, imaginava um matrimônio estragado pelas traições… Olhou a Patrick com um olhar carregado de angústia.

A pressão em sua mão se fez mais forte, como se ele estivesse lendo seus pensamentos, e a olhou com a risada dançando em seus olhos.

Então Sophie levantou os ombros e respondeu com voz clara:

―Quero.


Ao menos Patrick entrava em uma família normal, pensou o bispo. As mulheres tinham que ser pequenas e frágeis. Sim, as miúdas e frágeis eram as melhores esposas. Richard fechou o livro de orações. A cerimônia tinha terminado.

―Eu os declaro marido e mulher ― Concluiu endireitando o habito.

Os lábios de Sophie se moveram mais não saiu deles nenhum som.

Richard franziu o cenho, acaso a recém-casada tinha soltado uma praga em francês? Não, impossível, era muito bem educada para praguejar no idioma que fosse.

― Pode beijar a noiva ― Ele disse jovialmente a seu sobrinho.

Patrick a olhou. Ela levantou os olhos para ele, uns olhos de uma cor azul tão escura que quase pareciam negros. Por um momento se surpreendeu a reticência que leu neles, mas depois a atraiu para si. Ela permaneceu passiva entre seus braços, com os lábios rígidos, e indiferentes.

Maldição, pensou, tinha que conseguir lhe arrancar um romântico beijo para reforçar a ideia de que a razão da precipitada bodas se devia a que era um matrimônio por amor. Apertou-a mais se fazendo mais exigente e repentinamente ela cedeu fundindo-se contra ele. A cabeça dele começou a dar voltas e uma onda de desejo o invadiu.

Separaram-se ao fim e se olharam fixamente. Patrick, assombrado, respirava com dificuldade. Sophie pensava na maneira desavergonhada que se apertou contra ele. Teria notado alguém que tremiam suas pernas?

Ouviu-se um murmúrio entre os assistentes. Os membros da alta sociedade estavam acostumados a ver os recém-casados atravessar a nave central ao som das trompetistas e não perdendo o tempo olhando-se.

― Céus, diria-se que é um verdadeiro matrimônio por amor ― Sussurrou Penélope Luster a sua melhor amiga ― Ele a olha de uma maneira que me dá vertigem.

― Não diga tolices Penélope ― Respondeu sua amiga ― Assim é exatamente como o a olhava quando os vi juntos em meu baile recentemente. Acredite-me, isso não tem nada que ver com o amor. Mas você não pode sabê-lo já que nunca esteve casada.

Chateada, Penélope fez uma careta. Sarah Prestlefield era uma robusta matrona de mais de cinquenta anos e Penélope estava disposta a apostar que lorde Prestlefield nunca a tinha olhado como Patrick acabava de olhar a sua esposa.

― Não importa ― Declarou ― Para mim é o casal mais romântico do mundo.

Lady Prestlefield soprou com incredulidade.

―Direi, Sarah ― Insistiu Penélope ― Que terá que ser tola para pensar que uma mulher em posse de todas suas faculdades mentais possa preferir Slaslow diante de Patrick Foakes.

Sarah pôs uma expressão de exasperação.

―Você que é tola, Penélope. Slaslow é conde. Nenhuma mulher em seu são julgamento trocaria por um filho menor embora fosse tão rico como Foakes.

Os recém-casados estavam atravessando o corredor central da igreja e Patrick sustentava a sua esposa contra ele reforçando a convicção de Penélope.

O conde de Slaslow ia justo atrás deles e seu parecido com um buldogue a fez estremecer. Para Penélope, os ardentes olhos de Patrick eram muito mais interessantes que a gordinha imagem de Braddon. Riqueza e título careciam de importância ao lado da sensualidade que Patrick transbordava.

―Olhe! ― Sussurrou lady Prestlefield ― Quill Dewland anda outra vez. Acreditava que os médicos tinham condenado a permanecer na cama.

Penélope só jogou uma indiferente olhada a Quill, para voltar rapidamente para olhar ao jovem casal. Pesavam as portas que acabavam de abrir e os Foakes estavam de pé no alto das escadas. Um raio de sol caía sobre a noiva fazendo-a parecer uma fina chama dourada. Patrick se inclinou uma vez mais para beijá-la.

― Você pode pensar o que quiser ― Disse a sua amiga ― Mas é realmente um matrimônio por amor. E me dá completamente igual o que pensem outros.

Penélope era normalmente mais tranquila, mas podia ser teimosa como uma mula.

― Muito bem Penélope, muito bem ― Murmurou lady Prestlefield ―Estou de acordo contigo. E já sabe o que gostam a Maria dos romances. Olha-a, está chorando em seu lenço.

Lady Maria Sefton era uma das damas, mas influentes da alta sociedade.

Deste modo, Patrick Foakes pôde casar-se precipitadamente com a mulher mais formosa de Londres e sair bem amparado. Em vez de lhes voltar às costas sussurrando desagradáveis comentários, a alta sociedade estava radiante e felicitava a si mesma por sua própria generosidade. Eram um casal tão encantador!

Braddon também engoliu sua amargura.

―Foi como Romeu e Julieta ― Respondeu lorde Winkle que no baile que seguiu à cerimônia perguntou se não odiava Patrick por ter roubado a noiva ― Não podia me interpor entre eles. Como Tristan e…

Interrompeu-se sem saber o que dizer. Como raios se chamavam os amantes que tinha estudado no colégio?

―Tristan e Isolda? ― Interveio amavelmente a senhorita Cecilia Commonweal, a quem chamavam Sissy.

―Exatamente.

―Sem embargo ― Fez notar Sissy ― Tristan traiu seu tio pelo amor de Isolda, de modo que é menos romântico que Romeu e Julieta. Abelardo e Eloisa são também uns casais famosos, mas acredito que Abelardo teve um desgraçado acidente, de modo que tampouco é o exemplo perfeito.

Braddon a olhou com interesse. Ela não estava mal apesar de seus enormes dentes e da ofegante maneira que tinha de falar. Uma semana antes teria podido pensar em pedir sua mão. Mas isso já tinha terminado.

Como ele não dizia nada, Sissy continuou:

― A verdade é que a história de Romeu e Julieta é mais triste não acha lorde Slaslow? Ele se envenenou…

Braddon sorriu enquanto percorria a estadia com o olhar. Se sua mãe zangava-se pelos arredores o melhor que podia fazer era desaparecer.

Tomou muito mal a ruptura de seu compromisso, desmaiou em cima do sofá enquanto pedia os sais. Mas quando Braddon tentou desparecer dali deixando que suas irmãs se ocupassem dela, ficou em pé de um salto e soltou um sermão para lhe recordar que tinha a obrigação de casar-se e que devia fazê-lo sem perder um segundo.

Bom, pois ele ia se casar, mas não com o tipo de mulher que sonhava sua mãe. Graças a Deus não tinha apresentado a nenhum de seus amigos a Madeleine. Só tinha que falar com Sophie antes de poder retirar-se. Fazia tudo o que estava em sua mão para convencer às pessoas mais importantes de Londres de que Patrick e Sophie se casaram por amor.

Esticou-se de repente como um cão cheirando uma presa. Precaveu-se de algo alarmante.

―Senhorita Commonweal…

Inclinou-se diante ela. Tinha sido treinado por uma perita; sua mãe; e suas reverências eram tão inclinadas que era preocupante. Sissy viu a incipiente calvície aproximar-se e depois voltar-se a afastar dela.

Ela pôs uma mão enluvada em cima do braço.

―Quereria me acompanhar de volta com minha mãe milorde?

Braddon se mordeu o lábio inferior.

―Não posso senhorita Commonweal. Sua mãe está falando com a minha e…

Ela sorriu com cumplicidade. Sabia tudo sobre mães suscetíveis.

―Não gostaria de conversar um momento com os recém-casados? ― Propôs ele ― Acabam de entrar.

― Eu adoraria milorde ― Respondeu Sissy aliviada também.

Abriram-se caminho entre as pessoas e, um minuto depois, Sissy se encontrou diante de Patrick Foakes, ao qual mal conhecia.

― Nos perdoe um momento quer Patrick? ― Disse Braddon levando Sophie a um lado.

Sissy estava morta de vergonha. O que podia estar dizendo Braddon a Sophie? E que estaria pensando o noivo?

Patrick Foakes tinha o dom de permanecer impassível; entretanto Sissy pensou que era melhor tê-lo como amigo que como inimigo.

― Ouvi dizer que vão viajar em viagem de núpcias ― Disse um pouco nervosa ― Imagino que não irão ao continente em vista da situação política.

Patrick lhe dedicou um sorriso, não recordava seu nome embora acreditava que era Sissy, mas se perguntou por que levava essas ridículas plumas de peru na cabeça quando as mulheres mais elegantes já tinham deixado usar a tempo.

― Só vamos fazer um cruzeiro ao redor da costa ― Disse ―Embarcamos esta mesma noite.

― Esta noite? Acreditava que os navios só podiam sair com a maré alta e…

Patrick já não a estava escutando. Que demônios estava fazendo Braddon com sua esposa?

Sua esposa. Gostava como soava isso. Podia ver seu magro braço atrás de uma coluna enquanto Sissy Commonweal continuava falando das marés.

Patrick estava bastante contente consigo mesmo. Fazia o que tinha que fazer. Tirou a virgindade de uma jovem antes do matrimônio, de modo que poderiam gozar esta noite sem preocupações. Primeiro tiraria o vestido, depois beijaria um ombro, descendo com o passar do braço…

Sua imaginação se viu interrompida por duas coisas: para começar, a senhorita Commonweal tinha deixado de falar e depois ele estava cada vez mais zangado. A conversa entre Sophie e Braddon não era a melhor maneira de convencer às pessoas de que a este último dava igual a ela tivesse quebrado o compromisso. Além de que estavam falando?

Sissy, terrivelmente molesta, olhava-se as pontas de seus sapatos rosas.

Todos puderam ouvir de repente a voz do conde Slaslow que dizia quase gritando:

―Além me deve isso!

Depois Sissy se deu conta de que Patrick tinha saído de seu mutismo e estava sorrindo amavelmente. Certamente tinha ouvido Slaslow mais não parecia estar preocupado.

― Quer dançar? ― Perguntou ele agarrando-a pelo braço para levá-la para a pista de baile.

―Bom…


Olhou a Braddon e a Sophie que estava discutindo.

―Não preferiria dançar com sua esposa?

O sorriso de Patrick se fez um pouco mais longínqua.

―Certamente que não, já que quero dançar com você.

Dizendo isto levou a pesada mulher até a fileira de bailarinos.

Sissy, completamente vermelha, encontrou-se na pista com Patrick, completamente segura de que eram o centro de todas os olhares.

― Meu Deus! Devo estar completamente vermelha ― Murmurou.

Patrick elevou uma sobrancelha com ironia.

―Não. Por quê? Deveria estar?

―Sim! Estou dançando com o noivo e sua reputação, e sua esposa…

―Senhorita Cecilia… Ou posso chamá-la Sissy?

Ao ver que ela assentia, ele continuou:

―Asseguro-lhe, Sissy, que dentro de um ano poderemos dançar nesta mesma sala sem que ninguém o note.

Ela franziu o cenho.

― Por que dentro de um ano?

― Dentro de um ano os dois levaremos já tempo casados, e Deus sabe que ninguém disposta atenção a duas pessoas casadas que dançam juntas.

―Oh, eu…! ― Balbuciou Sissy ― De todas as formas, eu não estarei casada.

A triste expressão dela despertou a compaixão de Patrick.

―Já verá como sim.

―Não…


Ela estava tão desamparada que surpreendeu a se mesma lhe contando seus piores temores.

―Sempre me apaixono por homens que minha mãe não gosta e, como ela diz, eles não vão nunca bater a minha porta.

Interrompeu-se bruscamente, confusa por ter falado de um modo tão vulgar, mas Patrick se limitou a rir enquanto a olhava com tanta gentileza que lhe deu um tombo o coração.

―Vou lhe dar um conselho. Escolha o homem que você queira. Depois, cada vez que fale com ele, o olhe diretamente nos olhos. Não importa o que ele diga inclusive se for completamente estúpido, diga que acaba de dizer algo muito interessante. Os jovens são tímidos e terá que os animar.

Sissy o escutava fascinada.

―Você acha? Entretanto minha mãe sempre me diz que não tenho que deixar que se faça o silêncio em uma conversa. De modo que muitas vezes me encontro falando sozinha.

―Deixe que sejam os homens quem fale. Adoram o som de sua própria voz. E não lhes demonstre nunca o que sabe. Quando estiver casada poderá falar tanto como queira sobre as correntes marinhas se isso é o que deseja.

Tinham chegado ao final da fila e estavam voltando dando voltas até que Patrick a deixou diante de sua mãe.

Ele se inclinou solenemente.

―Foi um prazer dançar com você, senhorita Commomweal.

Ela fez uma reverência.

―Obrigado, senhor.

Ele se inclinou para lhe dizer ao ouvido.

―E livre-se dessas plumas, Sissy.

Piscando um olho desapareceu enquanto a jovem repetia suas palavras em sua mente. Depois se deu conta de que sua mãe estava sorrindo.

―Querida ― Disse ― Gostaria de te apresentar a Fergus Morgan. O senhor Morgan acaba de voltar de uma comprida viajem pelo estrangeiro.

O homem que a saudou, com seus olhos azuis e sua ligeira calvície, era bastante simpático.

― Me disseram que é você uma grande leitora ― Disse um pouco nervoso.

―Certamente! ― Interveio sua mãe ― Não há quem ganha a Cecilia lendo.

― Minha mãe exagera, temo ― Protestou brandamente Sissy olhando diretamente nos olhos do Fergus.

― É uma pena ― Replicou este franzindo o cenho ― Porque tinha intenções de criar um grupo de poesia. Acabo de voltar da Alemanha onde os clubes de poesia fazem furor entre as pessoas jovem.

―É uma ideia muito interessante! ― Exclamou Sissy com os olhos brilhantes.

E era sincera.

O homem se pavoneou.

― Permite-me que seja seu acompanhante no jantar, senhorita Commonweal? Depois deste baile é obvio…

Sissy sorriu e esteve a ponto de responder que era um “projeto extremamente interessante”.

― Com muito prazer. Assim poderá me falar um pouco mais sobre esses clubes de poesia.
No outro extremo, ao lado de uma coluna, Braddon e Sophie discutiam acaloradamente.

Ele tinha iniciado a conversa com tom autoritário.

― Sophie― Havia dito ― Tem que escutar atentamente o que te vou dizer…

Ela olhou surpreendida.

― Necessito sua ajuda ― Continuou ele com um pouco menos de segurança em se mesmo.

Ela sorriu. Era tão feliz que tivesse ajudado a qualquer.

― Eu adoraria te ajudar.

Ele relaxou um pouco.

―Olhe Sophie, já sabe que tenho que me casar rapidamente.

Ela assentiu com simpatia.

― Bem, pois encontrei à mulher com a que quero me casar.

Engoliu seco; estava chegando à parte mais difícil.

― O problema ― Continuou ― É que Maddie; Madeleine; não é uma dama.

Sophie o pensou um momento e depois abriu os olhos assombrada.

― É um homem?

― Não! ― Exclamou Braddon ― É uma cortesã.

Ela esteve a ponto de rir ao ver sua expressão de assombro.

―No fundo é uma dama ― Assegurou ele ― E não quero me casar com ninguém mais. Teria podido chegar até o final contigo, Sophie, mas não vou voltar a começar. A quem preciso é Madeleine.

Ela entrecerrou os olhos para lhe ouvir falar com tanta ligeireza de seu compromisso. Embora assim ao menos ela não tinha que arrepender-se por lhe haver quebrado o coração.

―Quem é?


―Seu pai se chama Vincent Garnier. Vigia a reputação de sua filha como se tratasse de uma duquesa. Em Londres ninguém a conhece, quer dizer, além de mim. Fugiram da França por culpa da situação política e nem sequer fala o inglês corretamente.

Tomou uma baforada de ar.

―Seu pai é treinador de cavalos.

Sophie estremeceu.

―Não pode se casar com a filha de um treinador de cavalos, Braddon!

Este último sorriu.

―Não vou fazê-lo, casarei-me com a filha de um aristocrata francês morto na guilhotina em 1793.

Ela ficou boquiaberta.

―OH não, Braddon! Isso é impossível!

― Nada disso! ― Replicou inflexível ― E você vai ajudar-me.

Ela negou com a cabeça.

―Deve-me ao menos isso. Rompeu nosso compromisso sem me avisar, no dia seguinte de me ter convencido de que te raptasse. Imagine o que pareço agora!

Sophie avermelhou de vergonha.

― Lamento Braddon ― Disse humildemente ―Mas não posso… O que eu poderia fazer para te ajudar para que se casasse com essa mulher?

― Será sua professora. Ensinará a se comportar, você conhece todas as regras de etiqueta; as ensinará e depois ela irá a um baile simulando ser uma aristocrata francesa. Então eu a conhecerei e me casarei com ela o mais rapidamente possível antes que as pessoas comecem a fazer perguntas sobre ela.

―Está louco ― Murmurou ela fascinada por sua determinação ― Não vai funcionar. As pessoas não podem transformar-se em membro da aristocracia francesa da noite para o dia.

― Não vejo porque não ― Insistiu Braddon pondo a expressão de teimosia de um buldogue que sua família tanto temia ― Não é nada difícil ser uma dama. E, além disso, Madeleine é francesa, ninguém pode esperar que se comporte exatamente igual às damas inglesas. Há muitos nobres franceses em Londres e apostaria a que a metade deles são uns impostores.

Sophie, em efeito, tinha ouvido seu pai dizer o mesmo.

― Isso não resolve o problema de transformar a sua amiga em uma dama.

―Ela o é por natureza! ― Afirmou Braddon ― Não será muito difícil Sophie. Ensine-a vestir-se, a agitar um leque, esse tipo de coisas. Pode fazê-lo e além me deve isso. Você me abandonou e não quero voltar a pedir a mão de uma mulher que me não me importa nada.

―Não fui eu quem quebrou a perna ― Objetou ela olhando especificamente a perna dele.

― Vou começar com sua educação, Sophie. Ensinarei tudo o que sei, mas não poderei dizer o que minha mãe repetiu a minhas irmãs durante anos. Tem que me ajudar. A amo!


Patrick estava dando voltas pelo salão de baile enquanto ia em direção a sua esposa e Chatwin, mas o detinham sem cessar os convidados para felicitar. Quase tinha chegado a seu objetivo quando lorde Breksby apareceu diante dele como uma serpente de uma caixa.

― Parabéns, milorde ― Disse ― E meu agradecimento. Ouvi dizer que ia fazer um pequeno cruzeiro ao longo da costa e suponho que de vez em quando olhará para terra não?

Patrick o saudou.

― Certamente.

― Estou impaciente por ouvir o que tiver que me dizer sobre as fortificações quando voltar. E espero que seu casamento não seja um obstáculo para sua viagem ao estrangeiro no ano que vem.

Patrick deu de ombros.

―Certamente que não ― Disse com altivez.

O ministro baixou o tom.

― Então quando voltar de sua lua de mel terei que lhe falar do presente de que falamos.

Patrick demorou uns segundos em compreender que estava falando do cetro.

― Estou ao seu dispor.

Breksby esfregou as mãos.

― Perfeito, perfeito. Temos um pequeno problema com isso. Nada de importância, mas prefiro lhe pôr à corrente.

Em nome de Deus! A que estava se referindo agora? Se não lhe tinham encravado muitos rubis ao condenado cetro ele não podia fazer nada. Inclinou-se de novo.

―Irei vê-lo assim que volte de minha viajem ― Prometeu.

Quando por fim chegou à coluna, Sophie e Braddon tinham desaparecido. Observou a multidão tentando evitar as olhadas curiosas. Não viu Sophie por nenhuma parte, mas sua cunhada apareceu a seu lado.

― Sophie foi se retocar um pouco ― Anunciou Charlotte travessa.

Ele se sentiu irritado por ser tão transparente.

― Acreditava que fugiu com meu padrinho ― Disse sarcasticamente.

Ela se pôs a rir.

― Ah os recém-casados! Eu poderia desaparecer do salão de baile durante uma hora inteira sem que Alex notasse minha ausência.

― Eu não apostaria nisso em seu lugar ― Interveio uma voz atrás dela.

Seu marido a agarrou pela cintura.

― Meu Deus! ― Gemeu Patrick ― Chegou o tio Richard!

Efetivamente, seu tio, livre do traje de bispo, estava entrando com todo seu esplendor. No exercício de suas funções, estava muito digno, mas com traje de festa parecia por completo um ancião dandi, vestido de branco e ouro, com um colete e ornamentos vermelho e ouro.

― Só lhe falta uma espada para parecer recém-saído do século passado ― Soltou Alex.

Patrick se dirigiu para seu tio seguido de Alex e de Charlotte. Mas antes que chegassem à porta do salão de baile, apareceu Sophie. Patrick a viu receber o ancião com um encantador sorriso. Quando ele se reuniu com eles, o bispo ronronava como um gato diante de um prato de leite.

Em efeito, querida ― Estava dizendo ― É obvio que como terceiro filho estava destinado à Igreja. Mas muitas vezes me confundiram com um membro do Parlamento e inclusive uma vez tomaram por um conde veneziano.

Deu um tapinha na mão de Sophie com mais calidez da que tinha mostrado durante a cerimônia.

― É você uma mulher encantadora, querida. Realmente encantadora. Estou seguro de que Patrick e você serão muito felizes.

Os poucos curiosos que estavam perto, não perderam nem um ápice da cena. Se tivesse havido algo raro nesse matrimônio, o bispo não se mostrou tão entusiasmado.

― Não sentará nada bem ao bispo se nascer um menino dentro de sete meses verdade? ―Zombou lady Skiffing.

Esta se alimentava de fofocas e o que mais feliz a fazia era destruir a reputação de alguém.

Sarah Prestleffield finalmente tinha decidido apoiar a teoria de sua amiga Penélope, quer dizer que a urgência desse matrimônio se devia ao amor e não por uma conduta escandalosa.

― Só alguém mal intencionado poderia sugerir algo assim ― Decretou ― lady Sophie realmente se casou por amor, e embora isto não seja frequente entre a nobreza, nenhum de nós se atreveria a insinuar que esses queridos meninos se casam por outra razão que não seja essa.

Lady Skiffing não estava convencida, mas lady Prestlefield tinha uma fila superior a dela, de modo que mudou de assunto.

Sabe que a senhora Yarlblossom, a vida que vive no Chiswick, orgulha-se de ter a um príncipe índio entre seus pretendentes?

Sarah Prestlefield ficou fascinada.

― Refere-se à louca que tem dezesseis cachorros mulherengos?

Durante esse tempo, Sophie se voltou sossegada seu marido, cujo olhar desprendia tais promessas que não pôde evitar olhar ao bispo para ver se tinha interceptado a mensagem.

― Não se preocupe por tio Richard ― Sussurrou Patrick ao ouvido.

Agarrou-a pela cintura e ela se perguntou se sempre lhe produziria o mesmo efeito. O simples contato de sua mão para ela tremer.

― Já é hora de que nos retiremos querida ― Disse com voz rouca.

Ela deu um pulo.

― Nos retirar?

É obvio sabia que ela e Patrick abandonariam juntos o baile. Levaram suas malas essa mesma manhã e, se Simone tinha podido controlar seu medo à água, já devia estar a bordo do Lara.

Mas realmente não tinha pensado como seria sua partida. Só em uma carruagem com o Patrick e depois com ele na cama.

― Não podemos ir agora ― Disse ― Mal tive tempo de falar com seu tio.

Soltou-se para ir reunir se com o bispo, quem estava falando com Charlotte.

― Desde que faço esse regime me encontro perfeitamente bem e devo admitir que tenho muito bom aspecto. O doutor Read me permite uma só taça de chocolate ao dia, papa de aveia três vezes ao dia e uma maçã antes do jantar.

A Sophie dava voltas a cabeça diante a ideia de sua lua de mel.

O bispo lhe sorriu amavelmente.

― Não vacile em me fazer perguntas sobre meu regime, querida. O doutor Read é famoso por seus remédios.

― Ehhh.


Não lhe ocorria nenhuma pergunta muito consciente da presença de seu marido atrás dela.

― Que espécie de maçãs gosta mais?

Patrick brincava com os cachos de sua nuca.

― Excelente pergunta querida. Eu gosto de muito as reais. Meu criado as assa em cima de um tijolo lavado com água de manancial.

―Se nos perdoar tio ― Interveio Patrick ― Minha esposa e eu temos que embarcar.

― Embarcar? Em um navio? Não me diga que vai levar a esta pobre menina a alto mar!

Richard parecia ter náusea.

― Vamos fazer uma pequena viagem ao longo da costa, tio Richard.

―Espero que seja o bastante perto de terra. Muito bem, mas às damas em geral, não gostam de muito esse tipo de diversões. Temo-me que vai sentir doente querida menina. Tenta comer maçãs. Faz que comprem reais desde esta mesma tarde, antes de soltar amarras. Não esqueça Patrick, isto é importante.

Patrick trocou um olhar divertido com seu irmão.

― Não esquecerei tio Richard ― Respondeu muito serio ― Estou seguro de que o estômago de Sophie se comportará melhor se comer uma maçã assada.

O bispo seguia com sua obsessão.

― Pode que não haja suficientes tijolos a bordo Patrick. Terá que ir procurar alguns em seguida. Sim, seria melhor que fossem imediatamente para arrumar todos os detalhes antes de embarcar.

Apesar de seu nervosismo, Sophie não pôde evitar sorrir. O bispo estava tão preocupado como ela mais por um algo totalmente distinto.

―Minha mãe! ― Exclamou de repente olhando ao seu redor.

Patrick a agarrou por um braço.

― Esta esperando ao lado da porta para te dizer adeus.

Charlotte a abraçou e lhe disse algo ao ouvido. Sophie se endireitou.

― Não ouvi o que me disse.

Sua amiga se inclinou de novo e o repetiu. Sophie ficou escarlate, mas conseguiu assentir.

―O que lhe disse? ― Perguntou Alex a sua mulher enquanto contemplavam como se afastava o casal.

Charlotte se voltou para seu marido com os olhos brilhantes de desejo.

― Ah! ― Disse ele com voz profunda ― Poderia repetir isso ao meu ouvido também?

Ela assentiu com a cabeça, maliciosamente.

Quando Sophie e Patrick chegaram à porta, os pais da noiva os estavam esperando.

Sophie fez uma reverência. Heloise, com os olhos cheios de lágrimas olhou a loira cabeça que se inclinava diante ela.

Pegou-a em seus braços.

― Filha ― Disse em francês ―Seja feliz carinho. Desejo-te toda a felicidade do mundo em sua vida como esposa.

―Serei feliz, mamãe.

Seu pai a apertou contra se antes de estreitar a mão de Patrick.

― Cuida bem de nossa pequena ― Ele disse.

Tinha uma expressão algo rígida mais parecia estar radiante de alegria.

Sophie lhe beijou na testa.

― Não se preocupe papai, tudo ficará bem.

Quando franquearam a porta, a marquesa afogou em um soluçou. George a olhou assombrado e depois lhe rodeou os ombros com o braço.

― Não se preocupe Heloise. Patrick é um homem honesto e de confiança.

Ela se afastou e se dirigiu para um salãozinho que estava vazio. George a seguiu. As lágrimas caíam pelas bochechas de sua esposa e ele deu um tombo o coração. Nunca a tinha visto chorar desse modo.

Agarrou-a das mãos.

― O que te acontece meu amor?

Os soluços de Heloise se fizeram mais fortes.

― Não poderia entendê-lo. Ela é tudo o que tenho!

George se paralisou e, por um momento só se ouviu o som do pranto de sua mulher. Depois a atraiu a seus braços e apoiou sua cabeça contra seu ombro.

― Eu estou aqui Heloise.

Quando ela se limitou a sacudir a cabeça, ele repetiu:

―Estou aqui. Sempre estive aqui.

Só quando ela levantou a cabeça com os olhos alagados em lágrimas, entendeu o que ele estava dizendo.

Abriu a boca para responder, mas George se apoderou de seus lábios impedindo qualquer protesto. Depois murmurou com a voz velada pelo desejo:

―Tentemos de novo Heloise. Rogo isso, volta para mim.




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