Ética profissional



Baixar 27.08 Kb.
Encontro16.03.2018
Tamanho27.08 Kb.



Ética profissional
De acordo com as diversas orientações filosóficas, surgem controvérsias quanto à denominação e à conceituação da ética. Jacques Maritain em Filosofia moral (tradução de Alceu Amoro Lima, Agir, 1964) realiza um estudo histórico e crítico de grandes sistemas do pensamento humano que considerou os mais significativos quanto à evolução e às aventuras da filosofia moral.
Embora o termo ética seja empregado, comumente, como sinônimo de moral, a distinção se impõe. A primeira, moral propriamente dita, é a moral teórica, ao passo que a segunda seria a ética, ou a moral prática.
Paulo Sérgio Leite Fernandes resume esta teoria denominando-as de censuras. Ou seja, o homem, na prática de qualquer ato, vem acompanhado de dois tipos de censura. A primeira é a interna, com cunho religioso, de consciência, como fosse um sinal que alerta-o se a ação praticada é boa ou ruim. Veja, por exemplo, Judas após entregar Cristo suicida-se. A Segunda denomina-a de externa. É a pressão exercida pela comunidade, que naturalmente vem suscetível de influências, principalmente pelos meios de comunicação.
A preocupação com tal ramo da Filosofia, considerado como ciência, também, é milenar, desde os trabalhos de Pitágoras, no séc. VI a.C., e se agasalha em manifestações remotas, quer em fragmentos que nos chegaram de escritos antiquíssimos, quer na obra específica de Aristóteles.
Envolve, pois, os estudos de aprovação ou desaprovação da ação dos homens, avaliando os desempenhos humanos em relação às normas comportamentais pertinentes.
Na verdade, teríamos uma concepção segura sobre ética simplesmente aceitando a definição de Aristóteles: “para o homem não existe maior felicidade que a virtude e a razão”. Contudo, ele próprio deduz que a felicidade é diferentemente concebida pelo leigo (forma empírica) e pelo sábio (forma científica).
Menos rigorosos, os filósofos estóicos apresentam a Ética como “uma conduta volvida à realidade de cada época, portanto, mutável”.
A forma de entender a conduta humana variou no tempo em relação a diversos ilustres pensadores.
Thomas Hobbes (filósofo inglês), por exemplo, considerava que o homem não assegura para si prazer na convivência uns dos outros quando inexiste um poder capaz de manter a todos em respeito (Leviatã, Cap. XIII).
Baruch Espinosa (filósofo holandês) traça um caminho mais qualificado cientificamente, entendendo que desejar o bem para si mesmo é uma condicionante relevante, mas que conhecer a natureza divina é algo que tudo se sobrepõe (Ética).
John Locke (filósofo inglês) acrescenta que se deve evitar a tristeza, buscando ao máximo a alegria de viver (Ensaio sobre o entendimento humano).
Gottfried Wilhelm LEIBNIZ (alemão) condensou na seguinte frase: “Não façais aos outros senão aquilo que gostaríeis fosse feito a vós mesmos” (Novos ensaios sobre o entendimento humano).
Immanuel Kant (alemão) partiu do pressuposto que a razão guia a moral e que três são os pilares em que se sustenta: Deus, liberdade e imortalidade.
Porém, adverte que a simples inclinação para o cumprimento da lei, por respeito, não é o exercício de uma vontade para si mesmo. Sem liberdade não pode haver virtude e sem esta não existe a moral, nem pode haver felicidade dos povos, porque também não pode haver justiça.
Vejam o que escreveu sobre a felicidade: assegurar cada qual sua própria felicidade é um dever, pois a ausência de contentamento com seu próprio estado num torvelinho de muitos cuidados e no meio de necessidades insatisfeitas poderia facilmente tornar-se uma grande tentação para transgressão dos deveres.
Tal fato se comprova amplamente na prática quando o desemprego aumenta, gerando, concomitantemente, a criminalidade, a prostituição e outras mazelas sociais.
Para Kant, quando alguém cumpre um dever ético por interesse, pode até lucrar com isto, mas não pode receber a classificação de virtuoso.
Apesar do grande filósofo tivesse vivido em uma época bem menos complexa que a nossa, nunca tivesse saído de seu país para conhecer outros, embora fosse demasiadamente metódico, não podemos negar que sua visão Ética em grande parte se aplica aos nossos dias.
Entretanto, não são raras as críticas que recebe por algumas de suas concepções, seus exemplos práticos de virtudes e que não se apresentam exeqüíveis para o mundo atual.
Outros pensadores modernos e contemporâneos
Diversos outros ilustres pensadores também cuidaram da Ética, sob prismas repetitivos, vez ou outra atribuindo pequenos detalhes, mais de forma que de essência.
Augusto Comte (francês), pai do positivismo, reforçou a moral do altruísmo.
Herbert Spencer (inglês), defensor da ética biológica, acredita em uma ética evolutiva, onde através das experiências consecutivas o homem vai adaptando-se às mutações da vida e termina por estabelecer os costumes que passam a influir sobre as condutas.
Bertrand Russel negou à ética sua condição científica ao afirmar que não possuía senão expressões de desejos. Severíssimas foram as críticas que sofreu, pois não se pode admitir a ética como uma simples análise de desejos isolados, desprezando que as relações de uma vontade provém de fenômenos específicos, experimentais, e que provocam outros tantos, também específicos.
Vários foram os pensadores contemporâneos que vieram a discorrer sobre o tema. Nenhum merece o desconhecimento. Todos os esforços dispendidos vieram mostrar que a conduta humana é rica em sua produção de fenômenos e portanto vale o estudo no sentido de conhecê-la.

Gênese, formação e evolução ética
A intenção deste título é analisar as raízes sustentadoras das condutas humanas.


  1. Bases mentais e conduta - Sem perder sua autonomia científica, a Ética tem ligações muito fortes com as doutrinas mentais e espirituais. Os estudos científicos da mente chegaram a conclusões comuns no que tange à influência dos conhecimentos adquiridos nas primeiras idades. Desta forma, mesmo admitindo-se mudanças por força de outras influências, o campo da infância é mais fértil que o de outras idades para sua formação moral. É nesta fase deve-se estimular virtudes e repelir toda a tendência para o vício, sustentando os princípios éticos que irão norteá-la quando adulta. Portanto, segundo esta teoria, é no lar e na escola a principal usina de moldagem das consciências.




  1. Determinismo genético e educação ética – Inobstante estar vencida no campo da ciência, pequena dúvida ainda paira sobre a crença de que nascemos bons ou maus em decorrência de atavismos e que isto não possa ser mais adaptável à vida. Parte-se do princípio de que a conduta advém da vontade e quando esta se manifesta obedece a um comando de estruturas já definidas. A vontade é que sucede à consciência e não esta àquela.




  1. Influências ambientais – Todavia, a educação é vulnerável a um ambiente adverso, especialmente se é ministrada com deficiências ou se enseja espaços para incompreensões. O meio em que vive, a mídia eletrônica, as publicações, enfim, tudo que possa interferir no sentido de corroer a moral educacional, pode acarretar na transformação das referências adquiridas na base educacional.




  1. Acumulação dos problemas no curso da existência – esta teoria prevê que a formação ética depende de ambiência sadia, virtuosa, inspiradora de uma consciência no sentido de não prejudicar quem se forma moralmente e nem a terceiros. Senão, diante de uma crise no curso de sua existência, o indivíduo abandonará sua formação ética e ver-se-á corroído para a prática de ato virtuoso.




  1. Controle na formação da consciência ética – não basta somente o sustentáculo da educação, necessário se faz acompanhar o educando para ver se ele cumpre corretamente o que lhe foi ministrado, aplicando-lhe os corretivos racionais e humanos. Ou seja, sem rigor excessivo e sem motivar pânico, medo ou covardia. Há quase 2.000 anos Sêneca já advertia: não se pode amar a quem se teme.




  1. Ambiência despreocupada com a moral – Entre os modelos que formam a mente do cidadão e os modelos da norma que ele necessita cumprir como atitude podem existir conflitos. O descumprimento de um dever ético pode estar explicado nos conceitos de virtude que foram absorvidos pela educação ou pela ambiência do ser. Natural passa a ser a traição para quem conviveu em um ambiente deformado; natural ser corrupto onde tolera-se a corrupção. A lesão aos bons costumes, quando se consagra como prática aceita socialmente, compromete o futuro das novas gerações, por desrespeito ao passado e negligência no presente.


Inteligência emocional e ética
Conter o impulso emocional, dirigi-lo no sentido dos preceitos de uma consciência moldada em princípios éticos, é função da inteligência emocional.
Buda acusava a ignorância como a causa dos erros e admitia que esta se operava quando se excluía a ação da consciência. Em apertada síntese, há necessidade de suprimir a forte emoção do desejo, substituindo-a por uma consciência inteligente.
Desenvolve-se hoje, com base nesta teoria budista, um ramo do conhecimento que se dedica ao que se denominou de “ciência do eu”, que visa oferecer elementos para o controle das emoções, para que estas não ultrapassem o limite do razoável e venham a impedir ou mascarar uma conduta virtuosa, ou seja, de qualidade ética.
Desde a antigüidade remota, até este século, registra a história atos de autênticos desastres sociais motivados pela incompetência, pela ausência de uma inteligência emocional de dirigentes. Só como exemplos, basta citar o holocausto germânico e as bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos contra as cidades japonesas.
Contudo, não basta tão somente encontrar o erro, criticando-o. A crítica pode partir do dever ético, baseada na razão, no desejo do acerto. Porém, pode derivar-se apenas do fator emotivo.
As pessoas reagem diferentemente diante da crítica e esta pode ser de ordem fortemente emocional, ferindo, inclusive, a crítica.
Os maiores defeitos de relacionamento encontram-se nos problemas verificados das cobranças “emocionais e funcionais”, especialmente no trabalho. Daí a necessidade de utilizar-se algo mais que a razão, exigindo sensibilidade e toque emocional ao reprovar um ato praticado por nosso semelhante. Hoje, o estudo da Ética não pode desprezar a associação da razão com a emoção.
Conduta do ser humano em sua comunidade e em sua classe
Em tudo parece haver uma tendência para a organização e os seres humanos não fogem a essa vocação. Em cada agrupamento, no entanto, depende de uma disciplina comportamental e de conduta.
Com referência ao ser humano em especial, é exigível uma conduta especial, denominada de Ética. Como os seres são heterogêneos, face suas próprias características, a homogeneização perante a classe precisa ser regulada de forma que o bem geral esteja preservado, incluindo o próprio indivíduo.
O ser humano é tendencioso a defender em primeiro lugar seus interesses próprios. Se laborado desta forma, em geral, tem seu valor restrito, enquanto ao praticar atos com amor, visando o benefício de terceiros, passa a existir a expressão social na sua prática.
O valor ético do esforço humano é, pois, variável de acordo com seu alcance em face da comunidade. Tem a estória de um sábio que procurava encontrar um ser integral, em relação ao seu trabalho. Entrou então numa obra e começou a indagar. Ao primeiro operário perguntou o que fazia e este respondeu-lhe:

- procuro ganhar meu salário.


O segundo, à mesma pergunta retrucou:

  • preencho meu tempo.

O terceiro:



  • Estou construindo uma catedral para a minha cidade.

A este último, o sábio teria atribuído a qualidade de ser integral em relação ao seu trabalho, como instrumento do bem comum.
Atualmente, o grande problema do homem é auferir seus rendimentos, nem sempre da forma com que ele pretendia. As classes preocupam em defender-se contra a dilapidação de seus conceitos, mais por interesse corporativista do que por altruísmo.
A tutela do trabalho processa-se pelo caminho da exigência de uma ética, imposta através dos conselheiros profissionais e de agremiações classistas (institutos, associações, sindicatos, federações, etc). As normas devem ser condizentes com as diversas formas de prestar o serviço e de organizar o profissional para este fim.
Entretanto, a força econômica de determinados grupos pode ser tão forte, exercendo tamanha pressão, que pode dominar as entidades de classe e até o Congresso e ao Executivo das Nações, alterando em benefício próprio as normas regulamentadoras, como é o caso, por exemplo, a ação dos laboratórios estrangeiros sobre a lei de patentes no Brasil.
Assim, cada homem deve proceder de acordo com princípios éticos. Cada profissão, porém, exige, de quem a exerce, além dos princípios éticos comuns a todos os homens, procedimento ético de acordo com a profissão.

Fonte


DANONE JUNIOR, Dr. Sérgio. Ética profissional. [S.l.: s.n.].



Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal