Tieta do agreste



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TIETA DO AGRESTE

JORGE AMADO


MESTRES DA LITERATURA BRASILEIRA E PORTUGUESA

JORGE AMADO

Tieta do Agreste

Pastora de cabras Ou A volta da filha pródiga, melodramático folhetim em cinco sensacionais episódios e comovente epílogo: emoção e suspense!
EDITORA RECORD

Rio de Janeiro - São Paulo


TIETA DO AGRESTE

PASTORA DE CABRAS ou A VOLTA DA FILHA PRÓDIGA, MELODRAMÁTICO FOLHETIM EM CINCO SENSACIONAIS EPISÓDIOS E COMOVENTE EPÍLOGO: EMOÇÃO E SUSPENSE!

O projeto de fixação de texto da obra de Jorge Amado tem o patrocínio da

ORGANIZAÇÃO ODEBRECHT

Supervisão do projeto: Sílvia Rezende e Caio de Andrade

Capa de Pedro Costa com ilustração de Calasans Neto

Sobrecapa sobre quadro de Carlos Bastos

Ilustrações de Calasans Neto

Vinhetas recuperadas de ilustrações de

Calasans Neto por Pedro Costa

Retrato do autor por Jordão de Oliveira

Fotografia da sobrecapa de Zélia Gattai


Para Zélia rodeada de netos.

Para Glória e Alfredo Machado, Haydée e Paulo Tavares, Helen e Alfred Knopf, Lúcia e Paulo Peltier de Queiroz, Lygia e Juarezda GamaBatista, Lygiae Zitelmann Oliva, Toninha e Camafeu de Oxossi e para Carlos Bastos.

Lugar bom para esperar a morte.

(Frase de um caixeiro-viajante sobre Sant'Ana do Agreste)

... esses Que transformam o mar numa lata de lixo...

(Juiz Viglietta, sentença condenando à prisão os diretores da Montedison, na Itália)

Que belo pl de buceteiro!

(Exclamação de Bafo de Bode ao ver Tieta)

Silêncio e solidão, o rio penetra mar adentro no oceano sem limites sob o leito despejado, o fim e o começo. Dunas imensas, límpidas montanhas de areia, a menina correndo igual a uma cabrita para o alto, no rosto a claridade do sol E O zunido do vento, os pés leves e descalços pondo distância entre ela e o homem forte, na pujança dos quarenta anos, a persegui-la.

Arfando, o homem sobe, o chapéu na mão para que não voe e se perca. Os sapatos enterram-se na areia; o reflexo do sol cega-lhe os olhos; agudo fio de navalha, o vento corta-lhe a pele; o suor escorre pelo corpo inteiro; o desejo e a raiva - quando te pegar, peste tá arrombo e mato.

A menina volta-se e olha, mede a distância a separá-la do mascate, o medo e o desejo: se ele me pegar vai meter em mim, estremece apavorada; mas, se eu não esperar, ele desiste, ah; isso não, não pode permitir mesmo que queira pois o tempo é chegado.

O homem também parou e fala, grita palavras que não alcançam a menina, perdidas na areia, levadas pelo vento. Ela não ouve mas adivinha e responde:

- BCI.; - assim cantam as cabras que ela pastoreia.

O desafio bate na face, penetra nos ouvidos do mascate, ergue-lhe as forças, ele avança. Atenta, a menina espera.

Lá atrás o rio, na frente o oceano, os olhos adolescentes percorrem e dominam a paisagem desmedida. Naquele momento de espera, de ânsia e de angústia, a menina fixou na memória a deslumbrante imensidão da cama de noiva que lhe coube. Do outro lado da barra, a beleza da praia larga e rasa do Saco, em mar de águas mansas, no Estado de Sergipe, a ampla aldeia de pescadores, com armazém, capela e escola, um vilarejo. O oposto dos cômoros monumentais onde ela se encontra, a invadirem as águas, o espaço do mar, contidos pelos vagalhões na fúria da guerra. Aqui o vento deposita diária colheita de areia, a mais alva, a mais. fina, escolhida a propósito para formar a praia singular de Mangue Seco, sem comparação com nenhuma outra, aqui onde a Bahia nasce na convulsa conjunção do rio Real com o octano.

Dúzia, dúzia e meia de casebres provisórios, mudando-se ao sabor do vento e da areia a invadi-los e soterrá-los, morada dos poucos pescadores a habitar desse lado da barra. Durante o dia, as mulheres pescam no mangue de caranguejos, os homens lançam as redes ao mar. Por vezes partem em pesca milagrosa, audazes a cruzar os vagalhões altos como as dunas nos únicos barcos capazes de enfrentá-los e prosseguir mar afora, ao encontro marcado com navios e escunas, em noites de breu, para o desembarque do contrabando.

O falso mascate vem na lancha a motor recolher as caixas de bebidas, de perfumes, os fardos de seda italiana, de casimira e linho ingleses, outras especiarias, e fazer o módico pagamento - dinheiro para a farinha, o café, o açúcar, a cachaça, o fumo de rolo. De quando em quando, traz uma vadia na lancha e enquanto caixas e fardos são transportados dos casebres, vai despachá-la nas dunas, sobre as palhas dos coqueiros para aproveitar o tempo. Um garanhão, o mascate; os pescadores o apreciam. Em mais de uma ocasião ele não os acompanhou nos barcos, indiferente às vagas, até o alto- mar de navios e tubarões.

A menina deixa que o homem chegue bem perto - só então dispara areia acima e do alto novamente canta o exigente e assustado chamado das cabras. De amor, não conhece outra expressão, outra palavra, outro som. linda naquele dia O ouvira da cabrita no primeiro cio quando O bode Inácio, pai do rebanho, se encaminhou para ela, balançando o cavanhaque e as trouxas. Depois o mascate apareceu e a menina aceitou o convite para o passeio de lancha, vinte minutos de rio, cinco de mar agitado e o esplendor de Mangue Seco. Como resistir, dizer obrigada, mas não vou. Mentira: não a seduzira a corrida no rio, a travessia do pedaço de mar, nem sequer as dunas bem-amadas desde a infância. A menina não tenta inocentar-se. Recusara convites anteriores, o mascate a tinha de olho há tempos. Desta vez agora ela disse vamos, sabendo a que ia.

Quando, porém, sente a mão pesada segurar-lhe o braço o medo a invade inteira, da cabeça aos pés. Contém-se, no entanto não busca fugir.

O homem a derruba sobre as folhas dos coqueiros, suspende-lhe a saia, arranca-lhe a calçola, trapo sujo. De joelhos sobre ela, enterra o chapéu na areia para que não voe e se perca, abre a braguilha. A menina o deixa fazer e quer que ele o faça. Para ela soara o tempo, como para as cabritas a hora temida e desejada, a boca implacável do bode Inácio, o saco quase a arrastar por terra de tão grande.

Sua hora chegara, já não lhe corria sangue entre as coxas todos os meses Nas dunas de Mangue Seco, Tieta, pastora de cabras, conheceu o gosto do bomom, mistura de mar e suor, de areia e vento. Quando o mascate a arrombou, igual à cabrita horas atrás, ela berrou. De dor e de contentamento.

Primeiro episódio morte e ressurreição de Tieta ou a filha pródiga contendo introdução e palpites do autor, inesquecíveis diálogos, finos detalhes psicológicos, pinceladas de paisagens, segredos, adivinhas, além da apresentação de algumas figuras que desempenharão destacado papel nos acontecimentos passados e futuros narrados neste apaixonante folhetim em cada página a dúvida, o mistério, a vil traição, o sublime devotamento, o ódio e o amor. Jorge Amado faz uma introdução onde o autor, um finório, tenta eximir-se de toda e qualquer responsabilidade e termina por lançar imprudente desafio a argúcia do leitor com sibilina pergunta começo por avisar: não assumo qualquer responsabilidade pela exatidão dos fatos, não ponho a mão no fogo, só um louco o faria. não apenas por serem decorridos mais de dez anos mas sobretudo porque verdade cada um possui a sua, razão também, e no caso em apreço não enxergo perspectiva de meio-termo, de acordo entre as partes.

Enredo incoerente, confuso episódio, pleno de contradições e absurdos, conseguiu atravessar a distancia a mediar entre a esquecida cidadezinha fronteiriça e a capital - os duzentos e setenta quilômetros de buracos no asfalto de segunda e os quarenta e oito de lama de primeira ou de poeira de primeiríssima, pó vermelho que seincrusta na pele e resiste aos sabonetes finos - indo ressoar na imprensa metropolitana.

Noticiário de começo entre galhofeiro e sensacionalista, logo após patriótico e discreto pois muito bem pago, dissolvendo-serápido em anúncios, alguns de página inteira.

Certo semanário de tradições duvidosas - adjetivo mal-empregado:

por que duvidosas? - meteu-se a valente em editorial de primeira página, com vermelha manchete agressiva, ameaçou enviar repórter e fotógrafo àqueles confins para esclarecer a gravíssima denúncia, o monstruoso conluio, o perigo estarrecedor, etc. e tal. Arrogância e indignação duraram apenas um número, a valentia o probo diretor a enfiou no rabo e esqueceu o escaldante tema. Ainda jovem mas já veterano nas lides da imprensa, arrotando em surdina ideologia radical e princípios explosivos, visando porém fins benéficos, Leonel Vieira afogou protesto e ameaças em uísque escocês, na grata companhia do doutor Mirko Stefano e de algumas apetitosas moças, todas elas relações públicas de muita animação e pouca vestimenta. Pouca, em termos: duas entre as mais bem modeladas exibiam longas túnicas transparentes e por baixo nada ou quase nada, túnicas essas, na opinião de entendidos, mais excitantes que os curtos shortes ou os sumários biquínis. Amável tema de debate entre o doutor e o jornalista, única divergência a separá-los, no bar, à borda da piscina. No mais, acordo total. Quanto a mim, se me permitem opinar, prefiro os longos transparentes lambidos por uma réstia de luz, revelando volumes e sombras, ai! Mas que importa minha opinião?

A minha, a vossa, outra qualquer ante os potentes argumentos do doutor Stefano, argumentos em divisas, afirmam, se bem não haja absoluta certeza sobre a moeda original, dólares ou marcos ocidentais, as duas talvez. Tão irresistível dialética do simpático testa- de- ferro, levou o trafego cronista social Dorian Gray Júnior a proclamá-lo Mirlais, o Magnífico Doutor, em desbunde de adulação. Simples testa-de-ferro de ignotos patrões, conforme insinuou o semanário naquele exclusivo e atrevido editorial - atrevido, exclusivo e muito bem capitalizado; sendo, além do mais, uma garantia à esquerda pois que outro órgão da imprensa falada ou escrita ousou interpelar e ameaçar? Posição clara e definida, prova a ser exibida, se necessário; ninguém sabe o que pode acontecer no dia de amanhã, recente, aí está, o exemplo de Portugal, quem poderia prever? ao demais, não hão de ser um simples cheque, por mais polpudo, garrafas de escocês e o ventre em Flor das permissivas relações- públicas que abalarão as convicções ideológicas, os sólidos princípios do intemerato e dúctil jornalista: Leonel Vieira possui fibra e caráter capazes de digerir cheques, licores e beldades, conservando imutáveis princípios e ideologia. Embolsa o cheque, escorna no uísque, baba cangotes e xibius, maneira o jornal e ao mesmo tempo proclama - baixinho - os princípios, radicalíssimo. Um porreta.

Quanto aos grandes patrões, esses não se mostram em bares, não brindam com jornalistas de cavação e preferem as formosas nuinhas de todo, no conforto e no recato, longe de qualquer exibição pública. Ai, quem me dera a honra, a glória suprema de que pelo menos um deles venha a aparecer nas mal-alinhadas páginas deste relato; seria o máximo para o modesto escriba contar com tamanha personagem. Realista, os pés na terra, não espero aconteça esse milagre; onde forças capazes de arrastar um lorde estrangeiro àquele cu-de-mundo, através de lama e poeira? Caso tudo dê certo, aprovado o projeto, instalado o complexo industrial, quando o progresso chegar com asfalto sólido, estradas de mão única, motéis, piscinas, moças de túnicas transparentes, polícia de segurança, aí sim, talvez tenhamos o privilégio de enxergar, com nossos olhos que a terra há de comer, um desses grandes do mundo, envolto em ouro.

De qualquer maneira, vou em frente, mesmo sabendo que alguns detalhes dificilmente merecerão crédito de parte das pessoas sensatas, pespegá-los exige martelo russo e prego caibral, para usar expressão da velha Milú repetida cada vez que o bardo Barbozinha termina de narrar sobre o além e o passado ou, indômito, penetra futuro adentro, voz eloqüente e empostada - empostada por uma embolia que o acometera anos atrás e por pouco O desencarna. não deu para tanto, suficiente porém para aposentá-lo do quadro de funcionários da Prefeitura da Capital, onde exerceu, com relativa capacidade e certo desleixo, funções de escriturário, e trazê-lo de volta às ruas poucas e pacatas de Sant'Ana do Agreste, cujos limites culturais, com tal retorno, logo de muito se ampliaram pois Barbozinha - Gregório Eustáquio de Matos Barbosa - é autor de três livros, publicados na Bahia, dois de poesia e um de máximas filosóficas.

De tudo isso se dará notícia no decorrer da ação. Aqui venho apenas livrar a cara, declinar de qualquer responsabilidade. Relato os fatos conforme me foram narrados, por uns e por outros. Se de quando em quando meto minha colher e situo opiniões e dúvidas, é que também não sou de ferro nem me pretendo indiferente às agitações sociais, vendavais do século a convulsionas o mundo (De Matos Barbosa, in Máximas e Mínimas da Filosofia - Demeval Chaves Editor- Bahia, 1950). Sou apenas prudente, o que nos tempos de agora não é virtude nem mérito e sim necessidade vital.

De uma coisa desejaria realmente ter certeza no momento em que colocar o ponto final nas páginas deste folhetim, e para isso conto com a ajuda dos senhores, lanço-lhe s um desafio: respondam-me quais os heróis da história, quem lutou pelo bem da terra e do povo. Em nome da terra e do povo todos falam, cada qual mais ardente e gratuito defensor. A gente vai ver descobre dinheiro pelo meio, no bolso dos sabidos, povo e terra que se danem.

Nesta embrulhada, cujos nós começo a desatar, quem merece nome em placa de rua, avenida ou praça, artigos laudatórios, homenagens, comendas, cidadania, ser proclamado herói? - digam-me os senhores. Aqueles que propugnam pelo progresso a todo custo - pague-se o preço sem reclamar, seja qual for - o exemplo de Ascânio Trindade? Se pagasse com a vida, teria pago menos caro. Se não forem eles, que outros? não há de ser a Barbozinha ou a dona Carmosina, a Dário, comandante sem tropa a comandar, que se confira tais honrarias, muito menos a Tieta, melhor dito, à madame. As palavras também valem dinheiro, herói é vocábulo nobre, de muita consideração.

Agradecerei a quem me elucidar quando juntos chegarmos ao fim, à moral da história. Se moral houver, do que duvido.

Cerimonioso capítulo onde se trava conhecimento com as três irmãs, a pobre, a remediada e a rica; estando a última ausente - quem sabe para todo o sempre; onde se conhece da carta mensal e do cheque idem, ansiosamente aguardados, sobretudo o cheque, como é natural, e também de pequenas misérias e mínima esperança, na hora do mormaço; onde em resumo se coloca inquietante pergunta: Tieta está viva ou morta singra os mares em cruzeiro de turismo ou...

Empertigada na cadeira, as mãos cruzadas sobre o peito magro, toda em negro dos sapatos ao xale, coberta assim de luto fechado desde a morte do marido, Perpétua baixa a voz, lança a fúnebre hipótese:

- E se sucedeu alguma coisa com ela? - adianta a cabeça para onde está a irmã, sussurra: - E se ela bateu a caçoleta? - mesmo sussurrada, a voz, sibilante e ríspida, é desagradável: - E se ela morreu?

Elisa estremece, solta o pano de prato, derrotada pelo mau presságio. Há dois dias e duas noites longas tenta arrancar da cabeça esse maldito pressentimento a persegui-la, a roubar-lhe o sono, a deixá-la com os nervos em ponta.

- Ai, Senhor meu Deus!

Perpétua descruza as mãos, alisa a saia de gorgorão bem passada, ratifica com um movimento de cabeça; não fez uma pergunta e sim uma afirmação.

De comprovação fácil, aliás:

- Estamos a vinte e oito, praticamente no fim do mês. A carta sempre chega por volta de cinco, nunca passa de dez. Para mim, ela bateu a caçoleta.

Mesmo no desalinho da manha de ocupações domésticas, o rosto de Elisa é bonito: morena de tez pálida, olhos melancólicos, lábios carnudos. Sob o desleixo do vestido velho e amarfanhado, chinelas gastas, ergue-se o corpo esbelto, de ancas altas e seios rijos. Um lampejo de curiosidade brota nos olhos assustados. Elisa busca na face da irmã outro sentimento além da preocupação pelo dinheiro. não encontra: a proclamada morte de Tieta não aflige Perpétua, teme somente pela sorte do cheque. A cessação da remessa mensal assusta igualmente Elisa: não só perderiam a ajuda indispensável como teriam de sustentar o pai e a mãe, onde arranjar o necessário? Um horror, Deus não permita!

Um horror, sem dúvida, porém havia mais e pior. ao calafrio de medo sucede a tristeza, um aperto no coração. Se ela morreu, então tudo se acabou para sempre, não somente o cheque, também a tênue esperança; sobrará apenas o vazio. Essa irmã Antonieta -meia- irmã, aliás, pois Elisa nascera do segundo e inesperado casamento do velho Zé Esteves - de quem não conserva lembrança, a respeito de quem sabe tão pouco, é a razão de ser de Elisa.

Nos últimos anos, sobretudo após o casamento, começara a idealizar a figura da ausente, espécie de gênio bom, heroína de conto da carochinha, imagem fugidia, quaseirreal, a se fazer concreta no auxílio mensal, nos esporádicos presentes. Reunindo frases ouvidas, narrativas de antigos enredos, comentários do pai e da mãe; a letra larga e redonda nas pequenas cartas - parcas em palavras e notícias, reduzidas às mesmas perguntas pela saúde dos velhos, das irmãs, dos sobrinhos, mas não secas e frias, contendo, além do cheque, abraços e beijos -o perfume ainda a evolar-se do envelope após tantos dias de correio; os embrulhos de roupa usada, pouco usada, quase nova; o título de comendador ostentado pelo marido; a fotografia na revista, Elisa construíra pouco a pouco imaginário retrato da irmã, fada alegre, bela e bondosa, habitando um mundo rico e feliz. Nessa visão pensa e nela se apoia quando sonha com outra vida, mais além da pasmaceira e do cansaço. Morta Antonieta, que restará a Elisa? As revistas de fotonovelas, nada mais. Nem isso, meu Deus! Onde os níqueis, sobrados das despesas, com que comprá-la s?

Tristeza por tudo quanto perderá, o dinheiro mensal, os presentes, o devaneio, o sonho, mas também tristeza simplesmente pela morte da irmã;

gostará de alguém tanto quanto gosta dessa meia- irmã que não conhece?

Reage, na necessidade de conservar pelo menos a esperança: Perpétua imagina sempre o pior, boca de agouro.

- Se ela tivesse morrido, a gente já tinha sabido, alguém havia de dar a notícia. Em casa dela tem nosso endereço, todo mês ela escreve, não é?

Haviam de avisar... - há dois dias, na labuta da casa, na cama de insônia, repete esses argumentos para si mesma.

- Avisar? Quem? Só se o marido dela e a família dele forem malucos.

- Malucos? não vejo por quê.

Perpétua estuda a irmã em silêncio, a se perguntar se deve ou não contar, decide-se por fim, de qualquer maneira ela terá de saber:

- Porque, com a morte dela, agente tem direito a uma parte da herança.

Nós três: o Velho, eu e você. Elisa volta a enxugar os pratos, de onde Perpétua tirara aquela idéia de herança? Cada bobagem!

- Quem vai herdar é o marido dela, o Comendador. Por que a gente havia de herdar? Pro pai, pode ser que ela deixe alguma coisa, tem sido boa filha, boa até demais. Mas, pra nós duas, por quê? Quando ela saiu de casa, eu tinha menos de um ano. E tu, não foi por tua culpa que ela foi embora?

- Ela foi embora porque quis. não me cabe culpa.

- Não foi tu que xeretou ao Pai? Abriu o bico, ele quebrou a pobre no pau, tocou ela rua afora, não foi? mãe me contou como se deu e Pai confirmou, disse que tu foi a culpada.

- Dizem isso agora, para adular. Depois que ela começou a mandar dinheiro, virou santa. Por que tua mãe não tomou as dores na ocasião? Quem foi que deu a surra, quem botou ela pra fora de casa? Eu ou o Velho?

Elisa estende sobre a mesa a toalha manchada de azeite, de feijão, de café - Astério tem mão podre, não sabe se servir sem derramar caldos e molhos, o infeliz. Encolhe os ombros, não responde à pergunta de Perpétua, o pai e a irmã que decidam entre eles de quem a culpa; dela, Elisa, é que não foi, não completara um ano de idade quando denúncia, expulsão e fuga aconteceram.

Perpétua semicerra os olhos gázeos, por que Elisa se empenha em recordar o passado? A própria Antonieta não esquecera, há muito, agravos e injustiças? não envia dinheiro, presentes? não ajuda nas despesas? Ademais, há males que vêm para bem, não é mesmo? Se ela não tivesse sido posta no olho da rua, em vez de partir para o Sul e triunfar em São Paulo, bem casada, cheia de dinheiro, feliz da vida, teria ficado ali, naquele buraco, vegetando na pobreza, sem direito a noivado e casamento pois a história com o caixeiro viajante logo se tornara de domínio público. Sem direito a nada, mera criada do pai e da madrasta.

- Se ela não lembra essas coisas por que tu há de lembrar?

- Não fiz por mal, só para mostrar que ela não tem motivo pra querer deixar herança pra nós duas.

- Não depende dela querer ou não querer... - Perpétua descerra os olhos, compõe a saia, retira invisível cisco da blusa: - Quando ela morrer, metade da fortuna fica para o marido e, como ela não tem filhos, a outra metade é dividida entre os parentes, os parentes próximos, o Velho e nós, o pai e as irmãs.

- Como é que tu sabe?

- Doutor Almiro me disse...

- O promotor? E tu foi falar isso com ele?

- Propriamente falar, não falei. Ele estava conversando com padre Mariano, eu e outras zeladoras de junto, ouvindo. Estavam falando da herança de seu Lito, que deixou o dinheiro todo para o padre dizer missa pela salvação da alma dele na Igreja da Senhora Sant'Ana. Pois já vai para mais de seis meses que ele morreu e até agora o padre não viu a cor do dinheiro. Está depositado na mão do juiz, em Esplanada, porque os parentes botaram questão, com advogado e tudo. Doutor Almiro disse que, pela lei, metade é deles. Daí eu fui perguntando, como quem não quer nada...

- Tu quer dizer que quando uma pessoa morre, metade do que ela tem fica pros parentes?

- É isso mesmo... - Perpétua busca no bolso da saia um lenço para enxugar o suor fino na testa, com o lenço aparece um terço de contas negras.

- Quer dizer que, se tu morrer, metade do que é teu fica pra mim e pro pai...

- Tu não presta atenção no que se fala. Só quando o falecido não tem filhos; é o caso dela, mas não o meu. O que eu deixar quando morrer vai ser repartido entre Ricardo e Peto, meus filhos, meus únicos herdeiros. Já foi assim quando o Major morreu - faz o sinal-da-cruz, eleva os olhos murmurando Deus o tenha em sua glória -, a herança foi dividida, metade para mim, metade para os meninos. O doutor Almiro...

- Tu perguntou isso também?

- Sempre vale a pena saber.

- Tu pensa que ela morreu e que o marido não diz nada para ficar com tudo?

- E não pode ser? Por que ela nunca deu o endereço para nós? Mandou a gente escrever para a caixa-postal, onde já se viu? Proibição do marido, para a gente não saber. Você sabe o sobrenome dele? Nem eu. É Comendador pra cá, Comendador pra lá, e acabou-se, nada de sobrenome. Por quê? Tu não atina nessas coisas mas eu tenho pensado muito nisso e tirei minhas conclusões.

Também Elisa havia atentado naquelas esquisitices. Em sua opinião, porém, outro era o significado da falta de endereço, de sobrenome, da ausência de maiores detalhes sobre vida e família: Antonieta perdoara os agravos, não guardara mágoa, mas não esquecera o passado, não queria maior aproximação com os parentes, gente mesquinha do interior, não desejava misturá-los a seu mundo maravilhoso. Ajudava pai e irmãs como cumpre às filhas quando em boa situação. Obrigação cumprida, a consciência em paz, ponto final: reserva e distância. Se querem saber, faz ela muito bem! Era isso e nada mais, não passando o resto de invenção de Perpétua, a cachola sempre a pensar malfeitos e desgraças. Se Antonieta decidisse deixar alguma coisa para o pai e as irmãs, após a morte, tomaria as medidas necessárias com antecedência, estaria tudo disposto e estabelecido.

- Não acredito, não. Se ela tivesse morrido, a gente havia de saber.

Termina de botar a mesa, fica parada, o olhar perdido:

- Está é viajando, gozando a vida. Toda vez que sai a passeio, a carta atrasa. Atrasa mas chega. Lembra quando foi a Buenos Aires e mandou aquele cartão tão bonito? Vida é a dela: viagens, passeios, festas. Tieta é muito boa de pensar na gente no meio de tanta animação. Se fosse comigo que tivesse acontecido, nunca mais, nunca mais mesmo, eu havia de dar notícias.



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