Tipologia dos reisados brasileiros



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TIPOLOGIA DOS REISADOS BRASILEIROS: Estudo Preliminar

Ulisses Passarelli

I – EXPLICAÇÕES

Esta modesta colaboração para o conhecimento de tão importante matéria nos estudos folclóricos ,foi me solicitada, para fazer parte do Projeto Reis/Reisados Brasileiros.O primeiro trabalho desse projeto, intitulado REIS MAGOS, HISTÓRIA -ARTES –TRADIÇÕES: Fontes e Referências, será lançado em conexão com o XII Congresso Nacional de Folclore, a ser realizado em Natal-RN, no período de 29 de agosto a 1 de setembro de 2006.

A pesquisa procede desde 1988 mas a composição básica se deu em 2003, revisada em 2006, quando ganhou a forma atual.

O plano de historiar os reisados, já tracejado, ficou para outra ocasião.

É mister porém, antes de mais nada, esclarecer o que considerei como um reisado: são as manifestações folclóricas natalinas, coreográfico-musicais, baseadas direta ou indiretamente nos costumes ibéricos do Ciclo do Natal, tendo ou não preservado o fundo religioso e independente da existência de um entrecho dramático, de peças teatralizadas, figuras de entremeio ou simulacros guerreiros.

Friso bem esta consideração porque há controvérsias entre os autores que se dedicam a esse assunto. Isso porque, alguns chamam reisados, apenas àquelas manifestações que tem este nome popular, strictu sensu, como os reis de congo e os reis de careta, excluindo as de nome diverso, como pastorinhas, folias, etc. Outros dizem reisados, às manifestações que tem cenas guerreiras, distinguindo-as assim dos bumba-meu-boi. Há porém muitos folguedos sem estas características, mas com acentuado cunho reiseiro, laudatório. A distinção fica assim vinculada a um critério muito subjetivo. Pelos personagens tão pouco se pode dividir os tipos, já que os mesmos flutuam entre os diversos folguedos congêneres. Destas leituras em geral depreende-se a configuração de quatro grandes categorias:


I - Bumbas

II - Representações pastoris

III - Reisados (propriamente ditos)

IV - Outras manifestações não consideradas reisados (folias, ternos, ranchos, etc.)


Não adotei esta classificação. Considero que é vã a tentativa de procurar formas puras para efeito classificatório como se fossem o padrão desejável. Elas existem mas são raras e constituem praticamente exceção. A verdadeira riqueza do folclore brasileiro está na variedade inclassificável, no sincretismo, nos fenômenos de transposição, interpenetração e influências folclóricos, nas múltiplas variantes, em toda a criatividade, plasticidade, presença de espírito e dinâmica com que o povo os cria, recria, adapta, extingue, ressuscita. Enfim, como posicionar a folia de pastorinhos, o presépio vivo, o bumba-meu-boi da Bahia, os ranchos e ternos de Reis nas categorias apontadas? São formas intermediárias. Penso que as quatro categorias inferidas formam senão uma, reisados, considerada no sentido mais amplo.

Assim o critério adotado neste apêndice é o da origem histórica, que dá alguma base objetiva de consideração. Sem ser dono da verdade, entendo assim:


A - Folguedos do Ciclo do Natal, baseados nos costumes natalinos ibéricos, que preservaram-se predominantemente religiosos: pastorinhas, folia de Reis, etc.

B - Folguedos do Ciclo do Natal, baseados nos costumes natalinos ibéricos, que não preservaram-se predominantemente religiosos, seja por profanização crescente, seja por terem surgido como forma de contrafação dos costumes religiosos: pastoril, boi de mamão, etc.

C - Folguedos do Ciclo do Natal, que não tem base direta nos costumes natalinos, embora possam ter influência indiretas das tradições reiseiras, não sendo estas o fio condutor: chegança, quilombo, etc.

D - Folguedos de outros ciclos festivos, com alguns elementos de folguedos natalinos: caboclinhas, folia do Divino, etc.


Adoto como reisados, latu sensu, as manifestações englobadas nos tópicos A e B, que correspondem a todos os folguedos posicionados na sinopse que apresento a seguir.

A matéria é complexa. Repito que não se deve buscar puritanismo em folclore. Por isto escrevi “predominantemente” , para não dar exatidão nem limites rígidos à acertiva, pois em A como em B, existem de maneira concomitante a religiosidade e a profanização em graus diversos. O que vale é o predomínio relativo.

Classificar enfim não é tudo, nem o principal. Fundamental é compreender a matéria.

Importante ressaltar que essa visão, concorde com os ideais do Projeto Reisados Brasileiros, não pretende por abaixo nem ser melhor que outros ângulos de entendimento da matéria. Os precursores que pesquisaram o assunto deixaram contribuição indelével sobre os costumes reiseiros, verdadeiro alicerce para esta tipologia, ainda que, em alguns pontos, o panorama fosse noutra dimensão. Assim sendo não posso esquecer do pioneirismo de Sílvio Romero (Cantos Populares do Brasil), Melo Morais Filho (Festas e Tradições Populares do Brasil), Mário de Andrade (Théo Brandão (Reisados Alagoanos), Câmara Cascudo (Dicionário do Folclore Brasileiro), Abelardo Duarte (Folclore Negro das Alagoas), José Maria Tenório Rocha (Folguedos e Danças de Alagoas), Aglaé d’Ávila (Danças e Folguedos), Oswaldo Barroso (Reis de Congo), Alceu Maynard Araújo (Folclore Nacional), Roberto Benjamim (Pequeno Dicionário do Natal), dentre tantos outros, verdadeiros pilares que serviram de apoio para a presente tipologia.

Longe de mim a pretensão de esgotar numa simples listagem todos os tipos de reisados encontráveis no passado ou na atualidade em nosso país. Listei apenas os que pude alcançar alguma informação mas é de se prever que pelos ermos brasileiros várias outras formas estejam no aguardo de identificação. Nesse sentido rogo aos folcloristas colaboração, como a que gentilmente recebi do sr. Jadir de Morais Pessoa, de Goiás.

II - SINOPSE DOS REISADOS BRASILEIROS



01- Relação sinóptica
Visando facilitar a exposição das variantes reiseiras vigentes no Brasil, organizei-as num conjunto, por ordem alfabética onde estão sintetizados didaticamente alguns dados básicos das mesmas, sem preocupação descritiva ou analítica. Não é pois um estudo mas tão somente mostra prática.

As características apontadas são apenas as básicas e as observações somente sobre os fatos mais relevantes e inusitados. A bibliografia de cada reisado com certeza não está completa. Apenas referencia algumas obras a respeitos que pude identificar.

Doravante cada um dos reisados identificados será passado em breve revista.
BAILE-PASTORIL:
- Sinonímia: sem registro.

- Distribuição: Bahia (possível centro irradiador), Norte de Minas Gerais, Sergipe, Tocantins (na época da ocorrência ainda pertencente ao norte de Goiás), Ceará.

- Personagens: variadíssimos, conforme sugeria o tema de cada Baile.

- Características: segundo D.Martins Oliveira os muitos Bailes tem basicamente um modelo único, alterando-se os personagens, que disputam a ventura de saudar em primeiro lugar ao Deus Menino, quando surge outra figura de maior poder moral que decide a discussão por praticar a adoração inicial ou sugerir que a saudação seja feita em conjunto. Há intercorrência de cenas provincianas. Tema geral monótono e repisado, embora cada Baile conte uma estória em particular, transmitindo um fundo moral.

- Observações: não é propriamente laudatório. Grande influência erudita ou semi-erudita. Poucos Bailes se popularizaram realmente. Eram mais praticados pela burguesia, a nível familiar. Estiveram muito em voga no último quartel do século XIX e primeiras décadas do século XX, quando então desapareceram quase por completo. Existe registro de sua presença ainda em 1953 na Barra, Bahia. Cita-se alguns Bailes, conhecidos pelo nome de seu personagem central ou do tema dramatizado: Baile da Caridade, Baile da Tentação, (Baile ...) da Liberdade, do Filho Pródigo, do Marujo, da Lavadeira, do Cupido, da Aguardente, dos Oito Pastores, das Quatro Partes do Mundo, dos Mouros, do Elmano, do Caçador, dos Astros, da Cigana, da Barra, do Meirinho, da Graça Eficaz, do Triunfo do Amor, do Pagode no Mercado, da Vizinha, da Patuscada, da Negrinha, da Catarina, do Velho Terêncio, da Paz, Guerra e União, das Quatro Pastoras e um Velho, etc. Contribuíram com personagens e episódios para outras representações pastoris.

- Bibliografia:

AGUIAR, José Pinto de. (Selec.). Bailes Pastoris na Bahia. Salvador: Progresso, 1957. 272p.

ARAÚJO, Nelson de. (Coord.). O Baile-pastoril da Bahia. Salvador: UFBA, 1979. 136p.il.

BARROSO, Gustavo [Dodt]. Ao Som da Viola. 2.ed. Rio de Janeiro. 1949.

CARNEIRO, Édison. Folguedos Tradicionais. 2.ed. Rio de Janeiro: FUNARTE / INF, 1982. 76p.

LACERDA, Regina. Folclore Brasileiro: Goiás. Rio de Janeiro: MEC/ FUNARTE / Secretaria de Assuntos Culturais, 1977.

MORAIS FILHO, [Alexandre José de] Mello. Festas e Tradições Populares do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1979.

_____ . Serenatas e Saraus. Rio de Janeiro. 1902.



_____ et all. Bailes Pastoris.

OLIVEIRA, Deocleciano Martins de. Baile Pastoril. Rio de Janeiro: Borsói, 1954. 142p.

PRADO, J.N.de Almeida. Baile Pastoril no Sertão da Bahia. Separata da Revista do Arquivo Municipal, n.144. São Paulo: Departamento de Cultura, 1951. 160p.

QUERINO, Manuel. A Bahia de Outrora. Salvador. 1946.

ROMERO, Sílvio. Cantos Populares do Brasil. 3.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1954. v.l.

SOUSA, Oswaldo de. Música Folclórica do Médio São Francisco. Rio de Janeiro: MEC / Conselho Federal de Cultura, 1980. v.1.


BOI-CALEMBA: 1

- Sinonímia: Boi-do-Reis (RN), Boi-de-Reis “3” (ou “de Rese”) , Boi, Brincadeira dos Três Reis do Oriente. O termo Boi-calemba é talvez exclusivo do Rio Grande do Norte e é considerado recente entre os brincantes, sendo antes usado para designar o Boi-de-Carnaval. O termo mais tradicional é Boi-de-Reis.

- Distribuição: Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco.

- Personagens: em Itapipoca / CE, segundo Lima & Andrade2: Boi, Bode, Cachorro, Juca (macaco), Caboré, Isabelinha (burrinha), Romão (vaqueiro), Liseu (seu ajudante), Velho e Velha, Damas, Soldados. No Rio Grande do Norte: Boi, Bode, Jaraguá, Burrinha, Gigante, Mestre (ou Gracioso), Contra-mestre, Galantes, Damas, Mateus, Birico, Catirina, músicos. Localmente: Maria Zidora da Conceição Pia (mulher do Gigante), Dona Mariquinha (mulher do Jaraguá), Veado, Cheque, Guriabá, Urso, Mané da Lapa, Lalaia ou João da Cunha (é o mesmo Morto-vivo de outras versões do Boi), Sapateiro, Velho e Velha, Cão e Rita, Urubu, Caipora, Ema, Cravo Branco (vaqueiro auxiliar. Personagem enxertado dos Reis-de-Congo), Pinga-fogo (idem).

- Características: tipicamente natalino. Parte laudatória expressiva. Grande efeito plástico pelas cores vivazes, espelhos e fitas esvoaçantes dos capacetes e peitorais. O Mestre, o Contra-mestre, os Galantes, as Damas e os vaqueiros estão sempre em cena e fazem as coreografias variadas. Numa segunda parte as figuras de entremeio vão se apresentando gradativamente, uma a uma, conforme chamadas, sendo a última sempre o Boi, como manda a tradição. 3

- Observações: é uma das versões mais estudadas. Congrega elementos fundidos de velhos Reisados: Reis-de-Congo, Reis-de-Baile (que inclusive é confundido com o Boi-calemba e anda em sinonímia com ele), Reis-de-Caboclo, Reis-de-Careta. No Ceará esta junção é menos nítida.

- Bibliografia:

ANDRADE, Mário [Raul de Morais] de . Danças Dramáticas do Brasil. São Paulo: Martins, 1959.

GURGEL, Deífilo. História & Estória de Boi. Revista Norte-Rio-Grandense de Folclore, Natal, Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, v.l, n.l, jun. / 1979, 95p.il. p. 21-27.

_____ . Manual do Boi Calemba. Natal: Nossaeditora, 1995. 148p.il.

_____ . Espaço e Tempo do Folclore Potiguar. Natal: FUNCART, 1999. 235p.il.

_____ . Areia Branca: a terra e a gente. Natal: Petrobrás/Governo do Estado, 2002. 410p.il. p.133-4.

CARVALHO, Rafael de. Boi da Paraíba. [s..l. ; s.n.], 197?. 94p. il.

CASCUDO, Luís da Câmara. Tradições Populares da Pecuária Nordestina. Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura / Serviço de Informação Agrícola, 1956. Documentário da Vida Rural, n.9.

MELO, Veríssimo de. Folclore Brasileiro: Rio Grande do Norte. Rio de Janeiro: MEC / FUNARTE / Secretaria de Assuntos Culturais, 1977. 78 p.il.

SANTOS, Racine. O Auto do Boi-de-Reis. Galante, Natal, Scriptorin Candinha Bezerra / Fundação Hélio Galvão, n.5, out. 1999.

SOUZA, J. Alves de. Auto Folclórico: Bumba-meu-Boi - Boi-calemba. Natal: [s.n. ; s.d.] . Ed. mimeografada. 64p.
BOI DE MAMÃO:
- Sinonímia: Bumba-meu-boi, Boi-de-Pano.

- Distribuição: quase todos os municípios litorâneos do Estado de Santa Catarina; Paraná.

- Personagens: Boi, Vaqueiro, Cavalinho, Cabra, Urubu, Cobra Jibóia, Girafa, Rinoceronte, Leão, Macaco, Marimbondo, Jacaré, Cachorro, Urso, Mateus, Pai João, Feiticeiro, Doutor, Anão, Jaraguá, Maricota, Saborosa, Bernúncia, Barão (marido da Bernúncia, no Paraná). Localmente: Dama, Mãe Catarina, Tigre Preto. Em Jaraguá do Sul / SC aparecem em duplas: Bois, Cavalos-Marinhos, Bernúncias, Cabritos, Onças, Macacos, Casal de Vovô, Satanases, casal de Dongola (galinhas), Casal de Mariolas (bonecas), Nhô Bastião, Nhô Zaru, Sarará, Bicho Sugão, Bruxas e outros. Há também citações de figuras locais incomuns: Virbulino (espécie de feiticeiro), Sultão, Cururu, Jaruva, Arreceio (carneiro grande).

- Características: como outros Bumbas, ressaltando o caráter alegre e discontraído das cenas. A Bernúncia é a figura mais típica, monstro descomunal como um dragão chinês. Em cena engole uma criança inteira.

- Observações: originalmente natalino, elemento religioso apenas vestigial. Pode surgir no carnaval e noutras festas. Há cena da morte e ressurreição do Boi.

- Bibliografia:

AZEVEDO, F. Corrêa de. O Boi de Mamão no Litoral Paranaense. Revista Brasileira de Folclore. Rio de Janeiro, n.6. 1963.

HENRIQUE, Maria de Lourdes. Boi-de-Mamão. Boletim da Comissão Catarinense de Folclore, Florianópolis, n.5, 1950. p.51-55.

MASON, Altair, MASON, Jaime. Festejos de Natal e Reis no Município de Orléans. Boletim Trimestral da Comissão Catarinense de Folclore, Florianópolis, n.6, dez. / 1950.

MELO, Osvaldo Ferreira de. O Boi-de-Mamão no Folclore Catarinense. Florianópolis: Departamento Estadual de Estatística, 1949. 33p.

______ . A Bernúncia. Boletim da Comissão Catarinense de Folclore, Florianópolis, n.5, 1950. p.34-42.

PEREIRA, Kleide Ferreira do Amaral. O Boi de Mamão do Litoral de Santa Catarina. Revista Brasileira de Folclore, Rio de Janeiro, n.8 / 10, 1964.

PIAZZA, Walter [Fernando]. Contribuição ao Estudo do Folclore do Boi no Brasil. Boletim da Comissão Catarinense de Folclore, Florianópolis, n.8, 1951.

_____ . Aspectos Folclóricos Catarinenses. Florianópolis. 1953.

SOARES, Doralécio. Boi-de-Mamão. Rio de Janeiro: MEC / FUNARTE / INF, 1978. Cadernos de Folclore, n.27. 39p.

______ . Folclore Brasileiro: Santa Catarina. Rio de Janeiro: MEC / FUNARTE / Secretaria de Assuntos Culturais, 1980. 77p.

VIEIRA, C. A. Angioletti. A Dança do Boi-de-Mamão. Boletim da Comissão Catarinense de Folclore, Florianópolis, n.29, 1975. p.47-48.


BOI-DE-JANEIRO:
- Sinonímia: Boi-janeiro.

- Distribuição: nordeste de Minas Gerais, p. ex.: Almenara, Itaobim, Jequitinhonha, Pedra Azul, Rubim.

- Personagens: sem registro.

- Características: sem registro.

- Observações: o nome do folguedo identifica a época de apresentações, coincidindo com o período reiseiro. Evoca as “Janeiras” portuguesas. 4

- Bibliografia:

MOURA, Antônio de Paiva. A Cultura do Povo do Vale do Jequitinhonha. Boletim da Comissão Mineira de Folclore, Belo Horizonte, dez. / 1991. n.l4. 16p.il. p. 12.


BOI-DE-REIS “1”:
- Sinonímia: Boi-moreno.

- Distribuição: vale do Alto-Médio Rio São Francisco, em Minas Gerais, das cidades de Pirapora a Manga.

- Personagens: Tamanduá, Boi, Vaqueiro(s)-(Pai Francisco), Catirinas ou Catitas, Mulinha (de Ouro), Onça. Em 2000 foi registrado um Dragão, num dos grupos da cidade de São Francisco.

- Características: as mesmas de outros Bumbas em geral. Instrumental de percussão: surdo, tarol, bumbo. Sai às ruas de 1º a 6 de janeiro. Talvez a maior peculiaridade seja o personagem Tamanduá, lembrando o mamífero típico daquela região do cerrado. Apresenta-se envolto numa carocha, espécie de capa, feita de palha de buriti (palmeira comum na região), que os sertanejos usavam para proteger-se da chuva. O Tamanduá dança querendo abraçar as pessoas - alusão ao mecanismo de defesa deste mimercofagídeo.

- Observações: em São Francisco estão se formando muitos grupos infantis. Há dois de adultos, que guardam rivalidades entre si. São herdeiros de um grupo único e afamado que lá havia. Foi registrado um grupo com uma dupla de Bois dançando.

- Bibliografia:

DINIZ, Domingos. As Manifestações Folclóricas no Alto Médio São Francisco. Simpósio sobre o Folclore do São Francisco / XXVI Encontro Cultural de Laranjeiras (SE), 05 jan. 2001.

MELO, João Naves de. Boi-de-Reis em São Francisco. Carranca, Belo Horizonte, Comissão Mineira de Folclore, n. 55, ano 5, maio / 2000. p.5.


BOI DE REIS “2”:
- Sinonímia: sem registro.

- Distribuição: Rio de Janeiro - Cabo Frio, Arraial do Cabo, São João da Barra. Outrora noutras cidades.

- Personagens: Em Arraial do Cabo - Boi, Pai Mateus, Carreiro, Pai João, Velho, Velha (travesti), Catirinas (duas; travestis). Músicos. Em S.J.da Barra - Pai Mateus, Pai João, Pai Mané, Catirina, Mãe Maria, Mãe Joana, Cabeções, Mulinha, Boi. Músicos. Em Cabo Frio - Carreiro, Pai Mateus, Pai João, três Catirinas, Velho, Velha. Cantores.

- Características: sem enredo dramático. O Carreiro comanda a apresentação. Peculiar a forte presença de personagens lembrando escravos, negros e negras velhas. Em Cabo Frio é peculiar a dança da Chula, dançada por todos os componentes, cada qual por sua vez ou aos pares.

- Observações: possui cantos religiosos e profanos. Não se confunde com o Boi-pintadinho (não é natalino), espalhado por quase toda a terra fluminense, porém mais simplificado na estrutura. Jamais confundir este Boi-de-Reis com o Boi-calemba, também conhecido por Boi-de-Reis (“3”). Também não confundir com as versões chamadas Reis-de-Boi.

- Bibliografia:

FRADE, [Maria de] Cáscia. Folclore Brasileiro: Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: MEC / FUNARTE / CDFB, 1979. 103 p.il. + anexos.

_____ .Guia do Folclore Fluminense. Rio de Janeiro: Presença, 1985.
BOI SURUBIM:
- Sinonímia: Bumba-meu-Boi.

- Distribuição: Fortaleza / CE.

- Personagens: Capitão Boca-Mole (ou Beiço Mole) - apelidado Cavalo-Marinho, Vaqueiro, Mateus (negro escravo), Sebastião (caboclo escravo), Valentão ou Capitão do Mato, Mané-Gostoso (feiticeiro), Galante (menino filho do Capitão Boca-Mole), Arlequinho (idem), Pastorinha (irmã do dito Capitão), Fazendeiro Rico, Zabelinha (boneca presa à garupa do Capitão), Catarina ou Catita (negra escrava), Doutor-Cirurgião, Padre-Capelão, Sacristão, Advogado, Sinhá’ninha, (negra bêbada), Dama do Ouvidor, Dama do Juiz de Fora, Fiscal Municipal, cinco índios emplumados, três Caiporas, Zé do Abismo ou Previlégio ou Caga-pra-ti, Boi, Emas, Urubu, Cantadeiras (sentadas à parte, num banco, formando o coro), músicos (tocam clarineta, viola, violão, sanfona, zabumba e pandeiro).

- Características: inicia com cantos avulsos que servem para animar a dança dos escravos. Pelas tantas entra o Valentão que depois de se gabar da coragem acaba expulso pelos escravos a pancadas. Vem as Damas, amancebadas com os magistrados. Após sua saída apresenta-se a bêbada Sinhá’ninha. Mateus e Sebastião a expulsam e chega o Capitão montado, com seus filhos ladeando. Depois de seus cantos e danças próprios, manda chamar o Vaqueiro e o Boi. Neste ínterim surge Mané Gostoso a dançar e cantar. Pastorinha entra após a expulsão do mandingueiro. Dueta com o Capitão. Antes de vir o Boi ainda surgem o Índios que metem medo em Mateus e Sebastião. São enxotados. Caiporas chegam e saem. Vem as Emas. Por fim o Vaqueiro no traje de couro, montado num cavalo de pau. Abóia. O Boi se apresenta e dança. Vem Catita. O Boi lhe ataca. Dá-lhe uma paulada na fronte e este cai como morto. Ela foge. O Capitão manda vir o Médico para curá-lo, o Padre para confessá-lo e o Capitão do Mato para prender a fujona rebelde. Enquanto estes não vem, Zé-do-Abismo surge dançando. Os personagens chamados chegam. O Sacristão acompanha o Padre. Catarina volta à cena trazendo o Capitão do Mato amarrrado. Pastorinha lamenta a morte do Boi. Urubu vem bicar a carcaça do Boi e o Fiscal aparece para multar pela carniça caída em via pública. O Fazendeiro Rico vem reclamar que o Boi morreu em suas terras e exigir uma taxa. Estabelecida a demanda chamam o Advogado. O auto termina numa roda de personagens onde todos vem se despedir.

- Observações: fundo profundamente satírico. Registro das primeiras décadas do século XX. Assemelha-se mais ao Bumba do Recife que os do interior cearence ou do vizinho Rio Grande do Norte.

- Bibliografia:

BARROSO, Gustavo [Dodt]. Ao Som da Viola. 2.ed. Rio de Janeiro. 1949.


BOIZINHO:
- Sinonímia: Bumba-meu-Boi.

- Distribuição: Rio Grande do Sul (Encruzilhada do Sul, Dom Pedro de Alcântara [Torres] )

- Personagens: Boi, Cavalinho, Ginete, Caipora, Urubu, Urso, Leão, Vaqueiro, Doutor.

-Características: pode sair no período natalino e no carnavalesco. O instrumental inclui sanfona, tambor e pandeiro. Não há música específica, mas sim regional: vaneira, xote, valsa, etc. Há a cena da morte e ressurreição do Boi.

- Observações: há registro de que apresentava-se unido a outros folguedos. Iniciava-se com uma cantoria de Terno de Reis. A seguir fazia-se a Dança das Fitas, a Jardineira e então o Boizinho.

- Bibliografia:

ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore Nacional. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1964. 5

MARQUES, Lilian Argentina B. et all. Rio Grande do Sul: aspectos do folclore. 3.ed. Porto Alegre: Martins, 1995. p. 121-123.


BUMBA-MEU-BOI:
- Sinonímia: Bumba-boi, Bumba, Boi, Folguedo do Boi (termo erudito), Auto do Boi (idem), Brinquedo do Boi (ibidem ?). Por confusão ou extensão, mais por influência da mídia massiva, os termos Boi-bumbá ou simplesmente Bumbá, tem sido usados como sinônimos genéricos a todos os Bumba-meu-boi, quando na verdade o Bumbá amazônico é uma variedade sua e não o tipo dominante.

- Distribuição: considerado como um todo, desde formas simples até as mais elaboradas, foi registrado nos seguintes Estados, dentre formas natalinas ou não, salvo relação mais atualizada: MT, AM, PA, TO, MA, PI, CE, RN, PB, PE, AL, SE, BA, ES, RJ, MG, SP, PR, SC, RS. O Nordeste, concordam os estudiosos é o centro de maior atividade do folguedo e de sua irradiação.



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