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PROGRAMA DE EXTENSÃO NEGA (NEGRAS EXPERIMENTAÇÕES GRUPO DE ARTES): A PESQUISA DAS ARTES AFRO-BRASILEIRAS

NO TEATRO UNIVERSITÁRIO

Área Temática: CULTURA

Fátima Costa de Lima1¹ (Coordenadora da Ação de Extensão)

Tuany Fagundes Rausch; Samanta Christmas da Silva2

Palavras-chave: Extensão; Artes Cênicas; Cultura Afro-Brasileira.
Resumo: Breve histórico, principais ações e resultados atuais do Programa de Extensão NEGA - Negras Experimentações Grupo de Artes (DAC-CEART-UDESC). O programa se dedica à formação, criação artística e apresentação do Coletivo NEGA, grupo formado por artistas afro-descendentes cujas performances investigam as expressões culturais afro-brasileiras.
O Coletivo NEGA é um grupo de artistas – a maioria, negros; e todos afro-descendentes - cujas atividades são apoiadas por um programa de extensão do Departamento de Artes Cênicas (DAC) do Centro de Artes (CEART) da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). O Programa de Extensão NEGA (Negras Experimentações Grupo de Artes) completa seu segundo ano de atividades em setembro de 2012 com um saldo positivo de resultados e excedendo seus objetivos iniciais. Sob a rubrica geral de “valorizar as artes afro-brasileiras” (Lima, 2012), os objetivos específicos do programa são
manter grupo estável de performers habilitados a expressar-se nas artes e na cultura afro-brasileiras; criar performances cênicas a partir da experiência de grupo em ensaios e treinamentos; apresentar performances deste coletivo à comunidade acadêmica e à comunidade em geral; gerar pesquisas sobre as artes e a cultura afro-brasileira a partir de ações de extensão; promover a expressão conjunta da comunidade universitária e da sociedade catarinense.” (Idem).
Ao mesmo tempo, o Coletivo NEGA desenvolveu simultaneamente contatos intensivos e contínuos com a comunidade externa e um ambiente interno de pesquisa cujos temas e conteúdos encontram-se ainda quase ausentes na universidade no qual está sediado.

O Programa NEGA se apóia em um tripé estrutural composto pelas ações de FORMAÇÃO, CRIAÇÃO e APRESENTAÇÃO. Ele formalizou-se academicamente em março de 2011, constituído por uma equipe que conta com uma coordenadora3, uma co-coordenadora4 e dois bolsistas5 (mais tarde, em 2012, em número de três6). As três ações se encontram concatenadas da seguinte forma: através de FORMAÇÃO teatral (Projeto de Extensão NEGA Cena) e percussiva (Projeto de Extensão NEGA Ritmo), o grupo se dedica à CRIAÇÃO artística e APRESENTAÇÃO de performances (Projeto de Extensão NEGA Comunidade). É desta forma que o Programa NEGA mantém em funcionamento e atividade um grupo cênico composto por acadêmicos e artistas da comunidade em geral que, por razões étnicas e de interesse artístico e/ou cultural, se percebem identificados com sua proposta.

A Universidade de Santa Catarina possui poucas ações de extensão comprometidas com os anseios sociais da população afro-brasileira. Com o intuito de dar espaço a suas expressões e fortalecê-las, especialmente as de cunho artístico e cultural, o Programa de Extensão NEGA se dedica a formar atrizes e atores com a contribuição de um artista reconhecido na área musical; e outro profissional com formação acadêmica, qualificado em nível de Mestrado em teatro e em danças populares e de origem africana. O Coletivo NEGA concentra-se, então, em aplicar os conhecimentos adquiridos na criação de metodologia e linguagens artísticas próprias.

Um marco da experiência negra nas Artes Cênicas brasileiras foi a criação, na década de 40 do século passado, do grupo de Teatro Experimental do Negro - TEN (Nascimento, 1968), dirigido por Abdias do Nascimento, na cidade do Rio de Janeiro. Este grupo congregou nomes importantes na história do teatro, do cinema e da televisão brasileira, como Ruth de Souza e Aguinaldo Camargo. O objetivo principal do grupo - valorizar o negro (Moura, 1994) - se viu paulatinamente acrescido da necessidade de produção de uma dramaturgia que atendesse a suas metas. Por carência de textos dramáticos específicos, o TEN encenou também textos modernos que o grupo entendia tratarem, mesmo que de modo indireto, da problemática da população afro-brasileira.

O TEN foi, junto com grupos como Os Comediantes e o TEB, um dos coletivos fundadores da modernidade teatral brasileira. Infelizmente, não teve a mesma ressonância que os outros grupos: no Brasil, ainda hoje é mínima a quantidade de propostas de coletivos fundados nas práticas culturais de origem africana ou de grupos que se formam a partir de iniciativas das comunidades de perfil populacional afro-brasileiro. Buscando a profissionalização de atrizes e atores negros, o TEN se propôs a formar atores dentre os segmentos de trabalhadores, domésticas, desempregados e funcionários públicos. Inspirados no TEN foram fundados: em 1950, o Teatro Popular Brasileiro; e outro TEN, onde se destacou o ator Milton Gonçalves. Mesmo extinto, o TEN tornou-se um marco para grupos teatrais como o que mantém esta ação de extensão: o Programa NEGA se inspira nessa iniciativa pioneira.

Todavia, vivemos hoje um ambiente cênico distinto - pós-dramático (Lehmann, 2007) e performático (Cohen, 1989) - em que o teatro inclui outras linguagens artísticas. As artes cênicas se mostram, portanto, como ambiente propício à criação e à expressão cultural afro-brasileira que é, originalmente, multimídia e transdisciplinar. Esse é um dos motivos pelo qual nossos dias têm-se demonstrado mais favoráveis ao reconhecimento das artes, da estética e da cultura negras do que o passado em que atuou o TEN. O Coletivo NEGA pretende também produzir uma nova dramaturgia. Porém, se há quase sete décadas se visava uma dramaturgia textual, hoje o teatro se orienta para a dramaturgia cênica, aquela que constrói concomitantemente o corpo, a cena e seu texto teatral. Além disso, o programa provou, em seu primeiro ano, ser um espaço de formação de novos atores e atrizes, ação a que pretende dar continuidade e aprofundar.

O programa também ambiciona abrir um espaço de debate acerca da ausência de negros e negras nos palcos brasileiros, trazendo à cena questões ainda incipientes na agenda artística catarinense como o racismo (Foucault, 1992; Agamben, 2007); a discriminação do popular no pensamento político da arte (Benjamin, 1986; Certeau, 1995; Kracauer, 2009); a inclusão das chamadas “minorias” (Bhabha, 1998); e a expressão artística e cultural das massas (Canetti, 1983; Sloterdijk, 2002).

Em caráter experimental, o Coletivo foi fundado em setembro de 2010, a partir de uma série de convites a artistas negros que residem na Grande Florianópolis. Entre atrizes e atores, músicos, dançarinos e artistas plásticos, de início um total de onze pessoas integraram o grupo artístico. Nesse primeiro momento, o coletivo de artistas montou e apresentou uma performance num evento triplo ocorrido na FAED/UDESC: IV Seminário Educação, Relações Raciais e Multiculturalismo/II Seminário Internacional Áfricas: Historiografia Africana e Ensino da História/ II Seminário Memória e Experiências: Elementos de Formação da Capoeira Angola (Florianópolis, 10-12/11/2010). A performance apresentada resultou de um imenso esforço que incluía: a socialização de um coletivo recém-formado; a troca de experiências de uns com os outros segundo habilidades e competências individuais de cada membro do grupo; e a montagem de sua primeira obra teatral.

Todos os que fazem teatro sabem o quanto essa arte envolve de energias emocionais – para além das físicas e intelectuais, óbvias. O resultado é que, após uma exitosa apresentação no Auditório Oi (em frente à universidade onde se realizou o evento acadêmico), muita coisa mudou. Já nesse começo, a futura coordenadora teve que revisar o projeto-piloto a fim de transformá-lo em programa de extensão. Nesse sentido, a experiência forneceu dados acerca da formação do grupo a partir da observação de conflitos internos que diziam respeito, principalmente, à postura extremamente hierárquica e controladora do então diretor teatral do grupo em formação. Por razões desconhecidas - nunca comunicadas ou compartilhadas com o

grupo -, esse diretor se afastou. Infelizmente, levou com ele uma atriz muito importante para a consolidação do processo artístico do grupo.

Iniciado 2011, o programa já em plena atividade, a primeira tarefa seria a de refazer o coletivo, que restara com cerca de metade de seus componentes. Aos poucos, o grupo foi-se completando e, em abril, outro diretor teatral passou a compor o Coletivo NEGA, trazendo com ele ampla experiência na pesquisa do corpo e da cena contemporânea; e em danças populares. Em julho de 2011, o Coletivo NEGA se compunha de uma formação estável.7

O grupo cumpre a rotina de dois ensaios semanais com treinamento em salas do Bloco de Artes Cênicas do CEART/UDESC. Basicamente, o tempo de trabalho do coletivo se desdobra da seguinte forma: de março a maio, o peso das atividades é colocado nas ações de formação e treinamento de atores e atrizes; e, de maio a dezembro, os ensaios se centram na criação continuada de espetáculos teatrais e performances, assim como em suas apresentações que se destinam a um público que envolve tanto a comunidade externa quanto interna; e eventos de cunho acadêmico e escolar.

A partir do trabalho interno que inclui a formação e a criação artística mediada por formação em teatro-dança8 e percussão9, o Coletivo realizou algumas apresentações e desenvolveu projetos durante o ano de 2011. Montou o espetáculo teatral Manifesto Nega, que estreou nas comemorações da Semana da Consciência Negra, no dia 19 de novembro, no Teatro da UBRO (Teatro da União Operária Brasileira). Esse evento teve como entidade parceira a Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes, principal órgão de cultura do município. Montou também a performance Um Abraço Negro que, em colaboração com a COPPIR – Coordenadoria de Políticas Públicas de Igualdade Racial – de Florianópolis, foi apresentada no dia 24 de novembro integrando as comemorações do nascimento do poeta negro catarinense Cruz e Sousa, negro liberto e maior nome do movimento simbolista nacional. A coordenadora do Programa NEGA representou a UDESC no Grupo Articulador do SESQUICENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE CRUZ E SOUSA, o grupo responsável pela programação do evento. .

Ainda em 2011, o Programa NEGA elaborou dois projetos de intervenção social direta. Um deles trata de ministrar oficinas de teatro-educação para adolescentes do CIF (Centro de Internação Feminina) do DEASE (Departamento Sócio-Educativo), convidada pela Secretaria de Justiça e Cidadania do Estado de Santa Catarina (ainda em estado de prospecção). O segundo projeto - intitulado Diálogos com a Comunidade - espalhou os artistas do Coletivo NEGA por bairros distintos da cidade a fim de que ministrassem oficinas semanais e gratuitas de teatro durante os meses de outubro, novembro e dezembro de 2011. Essa nova parceria com a COPPIR proporcionou a extensão à comunidade externa o exercício da metodologia inclusiva desenvolvida originalmente nas experiências internas do grupo.



Conclusão

O Estado de Santa Catarina contém uma parcela significativa de população de origem africana, em torno de 20% do total dos catarinenses. Essa população, entretanto, vê restringida sua atuação cultural e artística a poucos ambientes sociais, dificuldade especialmente notada no contexto da produção cultural universitária.

O Programa de Extensão NEGA provou, em seu primeiro ano de atividade, seu potencial de espaço protagonista e pioneiro de produção, divulgação e valorização das artes e da cultura afro-brasileiras no âmbito acadêmico catarinense. O Coletivo NEGA, desenvolvendo atividades de experimentação cênica e laboratórios de expressão teatral, se integra também às práticas comunitárias (em especial, com a ONG Grupo Africatarina de Arte e Arte-Educação). Está representado no NEAB (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros).

Em seu segundo ano, renovado10, o programa dá continuidade às suas ações. O Coletivo NEGA se concentra, a partir do segundo semestre de 2012, na técnica da contação de histórias para apresentar uma performance com temática contemporânea e política. Intitulada Preto-à-Porter11, a performance narra – com voz e corpo, música e interpretação teatral – as histórias que somente a população negra pode contar. É desse modo que ambos, programa e coletivo, contribuem para a ampliação do espaço de expressão artística e cultural afro-brasileira: com muito axé.


Bibliografia de Referência
AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção. Tradução de Iraci D. Poleti. São Paulo: Boitempo, 2007.

BENJAMIN, Walter. Documentos de cultura, documentos de barbárie. Escritos escolhidos. Tradução Celeste H. M. Ribeiro de Sousa (et al.). São Paulo: Cultrix/Edusp, 1986.

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Tradução de Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis e Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: UFMG, 1998.

COHEN, Renato. Performance como linguagem. São Paulo: Perspectiva: EDUSP, 1989.


CANETTI, Elias. Massa e poder. Tradução de Rodolfo Krestan. São Paulo / Brasília: Melhoramentos / Editora da UnB, 1983.

CERTEAU, Michel de. A cultura no plural. Tradução de Enid Abreu Dobránszky. Campinas: Papirus, 1995.

FOUCAULT, Michel. Genealogía del racismo. De la guerra de las razas al racismo de Estado. Traducción de Alfredo Tzvelbely. Madrid: La Piqueta, 1992.

KRACAUER, Siegfried. O ornamento da massa. Ensaios. Tradução de Carlos Eduardo Jordão Machado e Marlene Holzhausen. São Paulo: Cosac & Naify, 2009.

LIMA, Fátima Costa de. Programa de Extensão NEGA (Negras Experimentações Grupo de Artes) Ano 2. Plataforma Sigproj. Disponível em http://sigproj1.mec.gov.br/siex.php?id=7&plataforma=1&acao=1#

LEHMANN, Hans-Thies. Teatro pós-dramático. Tradução de Pedro Süsskind. São Paulo: Cosac & Naify, 2007.

MOURA, Clóvis. Dialética radical do Brasil negro. São Paulo: Anita, 1994.

NASCIMENTO, Abdias do. O negro revoltado. Rio de Janeiro: GRD, 1968.



SLOTERDIJK, Peter. O desprezo das massas. Ensaio sobre lutas culturais na sociedade moderna. Tradução de Cláudia Cavalcanti. São Paulo: Estação Liberdade, 2002.

1 Professora Doutora; Departamento de Artes Cênicas, CEART; UDESC; fatimaedinho@ig.com.br

2 Discentes; CEART/UDESC; Departamento de Artes Cênicas.

3


4 Professora Mestre Cleidi Marília Caivano Pedroso de Albuquerque, com formação em Artes e Antropologia, Departamento de Artes Visuais, CEART/UDESC.

5 Os acadêmicos Eliane Ventura dos Santos e Helder Patrício Antunes Ramos.

6 Os acadêmicos Samanta Christmas da Silva, Tuany Fagundes Rausch e Helder Antunes Patrício dos Santos.

7 Nesse momento, integravam o grupo: Maria Aparecida Clemêncio, pedagoga da Direção de Ensino do CEART/UDESC; Addia Furtado, percussionista e atriz em formação; Kátia de Arruda, atriz, bonequeira, graduanda do Curso de Artes Cênicas do CEART/UDESC e Mestre em Literatura; Rita Roldan, dançarina e graduanda do Arquitetura da UFSC; Ana Luiza, guatemalteca, capoeira e Mestranda da Geografia da UFSC; Andrea Jaramillo, equatoriana, capoeira e Mestranda em Arquitetura da UFSC; Eliane Ventura, bolsista do programa (2011), atriz e graduanda do Curso de Artes Cênicas da UDESC; Fernanda Rachel da Silva, professora, atriz e recém-graduada no Curso de Artes Cênicas da UDESC; Alexsandro Maquel Lopes, ator, carnavalesco e graduado no Curso de Artes Cênicas da UDESC; Helder Patrício Antunes Ramos, natural de Cabo Verde, ator, graduando do Curso de Artes Cênicas do CEART/UDESC e bolsista do programa (2011/2012); Edison Roldan da Silveira, percussionista, Mestre-de-Bateria, arte-educador do Grupo Africatarina de Arte e Arte-Educação e professor de percussão do Coletivo NEGA; e Rogaciano Rodrigues, ator, Mestre em Educação na UFSC e diretor teatral do Coletivo NEGA (2011-2012).

8 Ministrada por Rogaciano Rodrigues Ver N. R. 7.

9 Ministrada por Edison Roldan da Silveira. Idem.

10 Agregando ao grupo Mary Chery (colombiana Mestranda da Engenharia de Saneamento da UFSC); Cláudia Annies Lima, também estudante da UFSC; Alyssa Tessari, aluna da graduação do Departamento de Artes Cênicas do CEART-UDESC; e a bolsista de extensão Tuany Fagundes, aluna da graduação do Departamento de Artes Cênicas.

11 Dirigida por Fernanda Rachel. Ver N.R. 7.


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