Tomarei como ponto de partida desta comunicação aquilo que a história literária consagrou como “a querela entre Monteiro Lobat



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MONTEIRO LOBATO: PERFIS BIOGRÁFICOS
Glaucia Soares Bastos

Colégio Pedro II / Doutaranda na Puc-Rio


Opiniões de um bilioso
Tomarei como ponto de partida desta comunicação aquilo que a história literária perpetuou como a “querela” entre Monteiro Lobato e os modernistas, que o consagrou como conservador, antimoderno, ultrapassado e mesmo reacionário, e que tem como marco inicial o artigo desfavorável de Lobato sobre a exposição de Anita Malfatti. A exposição e a publicação do artigo datam de 1917, e na época Lobato era crítico de arte reconhecido em São Paulo e publicava regularmente suas opiniões na coluna de crítica do jornal O Estado de São Paulo e na Revista do Brasil, informação em geral omitida quando se faz referência ao assunto, como se o texto de Lobato fosse produto de uma reação pontual e intempestiva de um escritor passadista que se tivesse sentido incomodado com os transgressores quadros que vira expostos. Seus textos sobre artes plásticas seriam reunidos no volume Idéias de Jeca Tatu, publicado em 1920, e só então o referido artigo, que fora primeiramente publicado no jornal com o sóbrio título “A propósito da exposição Malfatti”, passaria a ser designado “Paranóia ou mistificação”, a fim de reafirmar a posição de Lobato frente aos ataques que vinha sofrendo de Menotti Del Picchia e Mário de Andrade.

Esta “querela” é detalhadamente estudada por Tadeu Chiarelli em seu livro Um Jeca nos vernissages, no qual analisa detidamente o projeto estético que embasa os pontos-de-vista de Lobato sustentados em seus artigos. Para Chiarelli, a crítica negativa de Lobato teria se tornado a explicação providencial apresentada pelos modernistas para o que chamaram de “recuo” de Anita Malfatti, que na verdade já estaria em 1917 se afastando por iniciativa própria da estética expressionista, o que comprometia crucialmente a imagem do grupo. Atribuindo a Lobato a responsabilidade pela mudança de rumo da pintura de Anita Malfatti, primeiro Menotti Del Picchia e depois Mário de Andrade estariam dando os primeiros passos para o que Chiarelli chama de “história ideal do Modernismo”.

Observando os argumentos usados nos ataques a Lobato, salta aos olhos a escolha de aspectos biográficos a que os autores recorrem para desautorizar sua crítica. Menotti foi o primeiro a tocar no “caso”, em crônica publicada por ocasião de uma nova exposição de Anita Malfatti, em 1920 : “Lobato é um grande artista com fama de mau pintor”.(CHIARELLI, 1995, p. 25) A partir de 1924, quando faz o primeiro balanço da Semana de Arte Moderna, e sempre que voltar a este assunto, Mário de Andrade passará a se referir a Lobato como pintor, e pintor frustrado – desviando assim para suas motivações pessoais o foco das réplicas, e passando ao largo das questões estéticas e formais por ele levantadas. Mário de Andrade superestima a crítica de Lobato, aumentando sua importância e atribuindo-lhe o título que só passaria a ter quando da publicação em livro: “Dentre as críticas aparecidas uma ficou inesquecível pela influência que teve sobre o espírito da artista. Assinava a descompostura um nome feito: Monteiro Lobato. ‘Paranóia ou mistificação’, chamava-se a tolice, depois eternizada pelo bilioso.”(BATISTA, 1972, p. 69)

É realmente curiosa a insistência em tratar Lobato como pintor. De fato ele pintava aquarelas nas horas vagas. Tendo quando quando jovem pensado estudar artes e seguir a carreira de pintor, teria sido desestimulado pelo avô que insistiu no curso de Direito. Mas nunca fez uma exposição, e era como amador, “curioso” como gostava de dizer, que sempre se relacionou com pincéis e tintas. Pode-se dizer dele que prezasse uma estética naturalista, figurativa, mas não que se originasse no despeito pela pintora suas opiniões negativas em relação ao chamado futurismo.

É igualmente curioso que Edgard Cavalheiro, ao publicar muitos anos depois, em 1956, a biografia de Lobato, vá acolher a versão “modernista” dos fatos, já então de certa forma hegemônica, e fazer uma leitura apressada de sua crítica de arte.
Vida ou obra?
Toda biografia é uma construção narrativa de um sujeito que busca conferir sentido à vida narrada. Caso o objeto da biografia seja um escritor, é quase inevitável que o biógrafo atribua a seus escritos o status de testemunho, o que resulta numa biografia permeada de citações autógrafas do biografado, numa inextrincável costura de vida e obra em que a primeira sempre oferece as chaves de leitura da segunda. Edgard Cavalheiro não foge a este padrão, sobretudo por ter sido o biógrafo escolhido por Lobato, que entregou-lhe em vida seus arquivos pessoais, numa espécie de perfilhação simbólica que Cavalheiro conta no prefácio de Monteiro Lobato: vida e obra.

Cavalheiro constrói sua biografia baseada principalmente na correspondência reunida no arquivo, que Lobato passara a suas mãos antes de ir para a Argentina, e nas cartas a Godofredo Rangel publicadas por Lobato sob o título A barca de Gleyre. Seu texto de certa forma assume o ponto de vista de Lobato, assimilando longos trechos de sua autoria. Cavalheiro detém-se bastante na análise das obras publicadas, das quais apresenta um resumo, opiniões da crítica, revisões e alterações feitas por Lobato nas sucessivas edições. Ainda que tenha por Lobato uma evidente admiração, procura apresentar opiniões desfavoráveis para mostrar isenção de juízo.

Um exemplo do procedimento que adota, aqui apresentado a título de ilustração, está nos comentários a propósito da publicação de Urupês, em 1918, valendo-se de informações e opiniões que circularam naquela época. Começa afirmando que o livro “cai como um bólido na pasmaceira em que vegetava a literatura brasileira”, marcando “um acontecimento sem precedentes nas letras nacionais”, caracterizando-se o movimento literário então “por uma completa pasmaceira”, “pelo menos com referência aos prosadores” . (CAVALHEIRO, 1956, p. 201) Faz um sucinto levantamento dos autores publicados no período anterior a 1918, minimizando sua importância: os regionalistas Afonso Arinos, Simões Lopes Neto e Valdomiro Silveira não alcançariam a importância de Lima Barreto, apontado como “o único caso realmente digno de menção”. Em seguida cita Lucia Miguel Pereira, que observa “com toda justeza” que “com exceção de Lima Barreto, a ficção brasileira após o simbolismo (que não daria grandes prosadores, mas somente poetas), não passou de puro diletantismo”, o que constituía segundo a autora “alarmante sintoma de esgotamento, de fim de época” . (CAVALHEIRO, 1956, p. 202).

Edgar Cavalheiro não era um crítico literário, e é compreensível que tenha a eles recorrido para legitimar o que seria o aspecto “obra” de seu trabalho, assim como recorreu a testemunhos e depoimentos de pessoas próximas a Lobato para a construção do aspecto “vida”. Procedimentos que apontam para questões que dizem respeito aos padrões de escrita biográfica. A própria palavra do biografado abre a possibilidadede se observarem conflitos e contradições na construção biográfica, como por exemplo em uma carta que escreve da Argentina, certamente em resposta a carta anterior de Cavalheiro contando sobre entrevistas feitas em Areias, onde Lobato residira:


Não me lembro do tal Laurindo, e o que ele diz não é reflexo de impressões. “O Dr. Lobato era um grande homem.” Falso, falsíssimo. Eu não era coisíssima nenhuma, nem sequer um promotor decente. E nunca o vi mais gordo, nem ele a mim. Já as impressões da Ingrácia estão certas. Ela era irmã de Dona Júlia, a esposa do Julinho Sampaio tabelião, o meu único amigo e companheiro de prosa em Areias; morava em casa da irmã, única que frequëntávamos, e também vinha às vezes à minha casa. Essa não está inventando. (LOBATO, 1959, t. 2,, p. 196)
Os comentários de Lobato são úteis para a reflexão a respeito da construção de biografias em geral, e da sua em particular, sobretudo porque o trecho citado será parcialmente utilizado por Cavalheiro. Transcrevo a nota em que a referida carta é citada:
Quando Lobato estava na Argentina, mandei-lhe o depoimento de Dona Engrácia, e em carta de 14/9/1946, respondeu-me o seguinte: “As impressões de Dona Engrácia estão certas. Ela era irmã de Dona Júlia, a esposa do Julinho Sampaio, tabelião, e meu único amigo e companheiro de prosa em Areias; morava em casa da irmã, única quefreqüentávamos, e também vinha, às vezes, à minha casa. Essa não está mentindo.” (CAVALHEIRO, 1956, p. 704).
Cavalheiro omite as restrições que Lobato faz sobre “o tal Laurindo”, e transcreve apenas a segunda parte do comentário, justamente para conferir credibilidade a seu texto, apagando as pistas que revelariam para o leitor o que há de “falso” em qualquer construção biográfica e reafirmando a sua como “verdadeira”.

Esta biografia será a obra de referência para todos que quiserem se aproximar de Lobato a partir de então, e terá alguns trechos retomados e reutilizados por outros autores, cristalizando imagens e idéias continuamente reafirmadas, como faz, por exemplo, Wilson Martins em sua História da inteligência brasileira.

Seu volume VI, publicado em 1978, que aborda o período compreendido entre 1915 e 1930, inicia-se com um detalhado panorama do sentimento nacionalista que dominava a sociedade brasileira no final dos anos 10. O livro é organizado cronologicamente, apresentando as publicações ano a ano, e pode-se constatar a tradução deste sentimento em inúmeros livros publicados no período, de autores como Conde de Afonso Celso e Alberto Torres, e na fundação, em 1916, da Revista do Brasil.

Os comentários de Wilson Martins sobre Monteiro Lobato são baseados na biografia de Edgard Cavalheiro, embora às vezes o autor emita juízos sobre a obra que revelam uma visão pré-concebida e pouco simpática, fazendo uma análise demasiadamente psicologizante e redutora, como se toda a produção de Lobato fosse originada em rancor e desejo de vingança.

Em sua opinião, o único livro que Lobato realmente escreveu foi Urupês, e considera desastrada a inclusão no volume dos artigos “Velha Praga” e “Urupês” porque estes teriam monopolizado as atenções da crítica e acirrado o rancor de seu autor pelo Jeca. Devido ao sucesso alcançado com seu primeiro livro, Lobato teria raspado o que havia nas gavetas e reunido textos antigos que resultaram em volumes desiguais – Cidades Mortas e Negrinha – e, a partir de então, teria abandonado a literatura e se tornado um homem de ação. Ao que parece, nem Edgard Cavalheiro nem Wilson Martins consideram literatura os textos produzidos para crianças ou as crônicas e artigos publicados em periódicos e depois reunidos em volumes. Ao desprestígio da obra literária de Lobato, Wilson Martins contrapõe um enaltecimento da atividade editorial, supervalorizando a importância de sua atuação, como aponta o próprio autor mais adiante, sem contudo escapar da armadilha.

No capítulo intitulado “Policarpo Lobato, ou as idéias de Jeca Tatu”, Wilson Martins apresenta Monteiro Lobato como a encarnação na vida real do personagem de Lima Barreto, apresentado no capítulo imediatamente anterior. Ao herdar a fazenda do avô, Lobato teria sido tomado de “sôfrego entusiasmo pelas possibilidades que se lhe apresentavam”, nas palavras de Edgard Cavalheiro que ele reproduz. O fracasso do empreendimento do fazendeiro teria dado origem ao personagem Jeca Tatu, “o antimito do nacionalismo baboso, o símbolo desmistificador, simétrico ao Policarpo Quaresma” (MARTINS, 1978, p. 13) e que Martins considera o primeiro manifesto do que passaria para a história com o nome de Modernismo.

O comentário de Wilson Martins é um ótimo exemplo da mistura de vida e obra, principalmente porque neste caso mistura a vida de um autor com a obra de outro. Ao aproximar o fazendeiro Lobato do personagem Policarpo Quaresma está tratando o autor de carne e osso como personagem de ficção e transpondo-o para o mundo das letras, procedimento que poderia ser produtivo em outro contexto, mas que soa estranho no livro em questão e desloca mais uma vez a análise da obra de Lobato para considerações biográficas, segundo as quais a criação do Jeca Tatu seria a vingança do fazendeiro mal sucedido contra o caboclo, como afirma Martins repetindo Cavalheiro.
Novas leituras, novas versões
Em vez de prosseguir nessa trilha, uma aproximação entre as obras de Lobato e Lima Barreto seria mais interessante e fecunda, sobretudo se feita à luz da correspondência trocada entre eles. Lobato registra, em carta a seu amigo Godofredo Rangel de outubro de 1916, suas primeiras impressões já então elogiosas sobre o autor que acaba de descobrir:
Conheces Lima Barreto? Li dele, na Águia, dois contos, e pelos jornais soube do triunfo do Policarpo Quaresma, cuja segunda edição já lá se foi. A ajuizar pelo que li, este sujeito me é romancista de deitar sombras em todos os coevos e coelhos, inclusive o Neto. Facílimo na língua, engenhoso, fino, dá impressão de escrever sem torturamento – ao modo das torneiras que fluem uniformemente a sua corda d’água. Vou ver se encontro um Policarpo e aí o terás. Bacoreja-me que temos pela proa o romancista brasileiro que faltava. (LOBATO, 1964, t. 2, p. 108)
Na nota de apresentação da correspondência entre Lima Barreto e Monteiro Lobato, Francisco de Assis Barbosa atribui ao entusiasmo de Lobato dois equívocos cometidos na carta a Rangel: a revista portuguesa Águia, editada no Porto, só publicou um conto de Lima Barreto, “Um e outro”, e a segunda edição de Policarpo Quaresma é de 1943, a menos que Lobato considerasse como a primeira a publicação em folhetim do Jornal do Comércio.

Aqui cabe uma rápida explicação sobre o destinatário desta carta. Lobato e Godofredo Rangel, jovem mineiro que também viria a se tornar escritor, se conheceram na faculdade de Direito, em São Paulo, e deram início a uma amizade alimentada fundamentalmente pela literatura. Findo o curso, cada um seguiu seu rumo, Rangel voltando para Minas Gerais e morando em várias pequenas cidades onde atuava como juiz, e mantiveram por toda a vida uma correspondência que girava a princípio em torno das leituras e escritos de cada um. Depois que Lobato torna-se editor, as cartas passam a tratar também dos livros publicados, das traduções de obras estrangeiras feitas pelos dois, do movimento da editora. Lobato organizou em vida o volume reunindo as cartas de sua autoria, guardadas por Rangel, e publicou-o em 1944 sob o título A barca de Gleyre. As cartas de autoria de Rangel, apesar de suas promessas, nunca foram publicadas.

Nessas cartas Lobato emite opiniões, ainda que rápidas, sobre tudo o que lê, e quando o autor lhe agrada recomenda-o ao amigo. É portanto compreensível o entusiasmo com que se refere a Lima Barreto, percebendo-lhe as qualidades literárias e elogiando em seu estilo precisamente aquilo que para muitos à epoca pareceu defeito. Ao apontar que era “facílimo na língua”, Lobato estava reconhecendo em Lima Barreto um adversário dos preciosistas então em voga, representado por Coelho Neto, e um aliado em seu próprio projeto de ampliação do público leitor na medida em que escreve numa língua mais próxima do falante brasileiro.

É Lobato quem vai dar início à correspondência com Lima Barreto, quando, à frente da Revista do Brasil, dirige a ele, em setembro de 1918, um convite para que se torne colaborador da revista:


Prezadíssimo Lima Barreto

A Revista do Brasil deseja ardentemente vê-lo entre os seus colaboradores. Ninho de medalhões e perobas, ela clama por gente interessante, que dê coisas que caiam no goto do público. E Lima Barreto, mais do que nenhum outro, possui o segredo de bem ver e melhor dizer, sem nenhuma dessas preocupaçõezinhas de toilette gramatical que inutiliza metade de nossos autores. Queremos contos, romances, o diabo, mas à moda do Policarpo Quaresma, da Bruzundanga, etc. A confraria é pobre, mas paga, por isso não há razão para Lima Barreto deixar de acudir ao nosso apelo.

Aguardamos, pois, ansiosos a resposta, uma resposta favorável.

Do confrade

Monteiro Lobato

P.S. – Pelo amor de Deus, leia e rasgue isto. L.


É provavelmente por receio de que tais considerações chegassem aos ouvidos de “medalhões e perobas” que Lobato pede a Lima Barreto que rasgue o bilhete, pedido que não foi atendido. O tom de Lobato é de velho amigo, como se sentisse de fato uma grande afinidade pelo interlocutor. Note-se ainda que para Lobato é fundamental publicar “coisas que caiam no goto do público”, o que ele de fato consegiu, pois ampliou muito o número de assinantes e leitores da revista. Também chama a atenção que afirme que “a confraria é pobre, mas paga”, o que indica a profissionalização do trabalho do escritor para a qual o Lobato editor muito concorreu.

Lima Barreto parece ter atendido ao convite propondo a publicação do livro Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, idéia que Lobato aceitou com entusiamo, respondendo em novembro de 1918 com a exposição de cálculos e possíveis formas de pagamento ao autor. Junto com a carta seguinte, na qual agradece o dinheiro e o contrato recebidos, Lima Barreto envia um exemplar de Isaías Caminha, livro sobre o qual Lobato escreve a Rangel:


Como ainda estou de resguardo e preso em casa, leio como nos bons tempos de Taubaté. Fechei neste momento um romance de Lima Barreto, Isaías Caminha. É dos legíveis de cabo a rabo. Romancista de verdade. Amanhã vou assinar com ele contrato para a edição dum livro novo, Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá, cujos originais já estão aqui. A letra é infamérrima e irregularíssima. Há trechos em que o autor positivamente cambaleia, e outros em que pára para “destripar o mico.” Mas quanto talento e do bom! (LOBATO, 1964, t. 2, p. 186)
A partir de então, há nas cartas de Lobato para Lima Barreto muitas informações do editor sobre o andamento do trabalho para a publicação, provas a serem revistas pelo autor. Em 28 de dezembro de 1918, Lobato parece interromper o trabalho de revisão do novo livro para enviar-lhe suas impressões:
Recebi as últimas provas, e acabo de rever eu mesmo os primeiros capítulos do teu livro. Que obra preciosa estás a fazer! Mais tarde será nos teus livros e nalguns de Machado de Assis, mas sobretudo nos teus, que os pósteros poderão “sentir” o Rio atual com todas as suas mazelas de salão por cima e Sapucaia por baixo. Paisagens e almas, todas, está tudo ali. (LIMA BARRETO, 1956, p. 55)
O livro todavia não terá boas vendas, o que Lobato atribui ao título pouco chamativo. Os dois continuarão trocando cartas, com opiniões sobre as respectivas obras, “retalhos” de jornal com resenhas que interessem a um ou outro. Uma correspondência fundada na literatura e por ela alimentada, e que foi interrompida pela morte de Lima Barreto, em novembro de 1922, e que fornece interessantes dados sobre a vida literária daquele peródo..

Penso portanto que seria melhor, em vez de aproximar Monteiro Lobato do personagem de Lima Barreto, aproximá-lo de seu autor, observando em suas respectivas obras princípios e compromissos semelhantes, como por exemplo os que aponta Silviano Santiago em ensaio sobre o romance Triste fim de Policarpo Quaresma:


A posição isolada e intrigante de Lima Barreto explica-se pelo fato de ter ele assumido uma estética popular numa literatura como a brasileira, em que os critérios de legitimação do produto ficcional foram sempre os dados pela leitura erudita. (SANTIAGO, p. 166)
Voltando à questão do recorte biográfico privilegiado por Wilson Martins – o Monteiro Lobato fazendeiro, à semelhança de Policarpo Quaresma, – e à insistência dos modernistas em se referir a ele como pintor quando tratam dos problemas referentes a Anita Malfatti, fica clara a supervalorização de um ou outro aspecto, conforme o que se queira demonstrar. E é em sua biografia, muito mais do que em sua obra, que se tem buscado os elementos para sustentar esta ou aquela posição.

Referências bibliográficas
BARRETO, Lima. Correspondência. São Paulo: Brasiliense, 1956. t. 2

BATISTA, Marta R. (org.) Brasil: primeiro tempo modernista 1917/29. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros, 1972.

CAVALHEIRO, Edgard. Monteiro Lobato: vida e obra. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1956.

CHIARELLI, Tadeu. Um jeca nos vernissages. São Paulo: EDUSP, 1995.

LOBATO, Monteiro. Cartas escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1959. 2 t.

______. A barca de Gleyre. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1964. 2 t.

MARTINS, Wilson. História da inteligência brasileira. vol. VI. São Paulo: Cultrix: Edusp, 1978.

SANTIAGO, Silviano. Uma ferroada no peito do pé. Vale quanto pesa: ensaios sobre questões político-culturais. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.








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