Trabalho: 45: Educação e Cultura no Riacho Fundo II



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Anais do 2º Congresso Brasileiro de Extensão Universitária

Belo Horizonte – 12 a 15 de setembro de 2004


Educação e Cultura no Riacho Fundo II

Área Temática de Educação


Resumo

O artigo versa sobre o Projeto Alfabetização e Comunidade Educativa no Riacho Fundo II. Desenvolvido pela Universidade Católica de Brasília desde 2001, tem por objetivo desencadear um processo em que a comunidade, a partir da alfabetização, reconheça seu potencial educativo. A metodologia utilizada parte da construção de textos, a partir das experiências e realidades dos alfabetizandos. Num período posterior, os saberes de cada um são partilhados a fim de gerar alternativas de auto-gestão e melhoria da qualidade de vida na comunidade. A partir de atividades de reconhecimento de seu potencial cultural, como o cine clube aqui apresentado, trabalha-se o resgate e a reconstrução da identidade dos sujeitos e da comunidade. Além dos... alfabetizados, foram desenvolvidos cursos de profissionalização básica que gerou emprego para os participantes.


Autores

Adriano José Hertzog Vieira Vieira – Mestre em Educação

André Luiz Carvalho – Especialista em Comunicação Social

Elizabeth Aiko Oda – Mestra em Ciências Sociais


Instituição

Universidade Católica de Brasília - UCB


Palavras-chave: educação; cultura; qualidade de vida.

Introdução e objetivo


Há, no pensamento ocidental, uma anteposição entre Cultura e Natureza que embasa a noção de sociedade, civilização e desenvolvimento. Esta concepção atribui à cultura um valor instrumental, com perspectivas tecnológicas, que é tanto mais progressiva quanto mais estiver o Ser Humano afastado daquilo que o Ocidente forjou como “natureza”. O presente trabalho procura mostrar que cultura é emergência da natureza no ser humano e se tornam integradas quando se vive numa perspectiva de conscientização do próprio viver como qualidade do existir de sujeitos e de uma comunidade.

O Projeto Alfabetização e Comunidade Educativa no Riacho Fundo II é uma iniciativa que nasceu do diálogo entre a comunidade da cidade satélite Riacho Fundo II e a Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Católica de Brasília (UCB). Ouvindo as problemáticas da comunidade, a UCB ofereceu uma perspectiva inovadora para contribuir com a melhoria da qualidade de vida do Riacho Fundo II: a criação de uma “Comunidade Educativa”. Tratava-se de construir com a comunidade, numa metodologia dialógica, a consciência de seu potencial cultural, a apropriação do mesmo como instrumento de capacitação e auto-gestão em vistas da melhoria da qualidade de vida.

Num primeiro momento apresentamos o projeto no contexto da comunidade. Em seguida partilhamos com o leitor a reflexão sobre educação e cultura que tem orientado o projeto a partir dos frutos do percurso já realizado. Finalmente presenteamos aos que lêem este trabalho com a descrição de uma das ações desenvolvidas no projeto, a fim de oferecer elementos que nos permitam verificar a possibilidade de recriação da cultura quando a comunidade é educativa.

Visualizando o início da comunidade educativa

Em 2001, quando o Projeto Alfabetização e Comunidade Educativa iniciou, o Riacho Fundo II era uma sub-administração do Riacho Fundo I. Composto por famílias, em sua maioria, vindas de ocupações do Distrito Federal como a da Estrutural, Samambaia e SIA - Setor de Indústrias e Abastecimento. Pessoas migrantes dos Estados mais diversos, principalmente do Nordeste. O que a maioria tinha em comum era a situação de pobreza e a esperança de estarem conseguindo ali um lote para construir sua casa.
Metodologia

No início do projeto a equipe fez contatos com diversos segmentos sociais e políticos do Riacho Fundo II. Dessas articulações, surgiram pessoas interessadas em conhecer a proposta, mas principalmente em procurar descobrir o que poderiam “ganhar” da Universidade. Em uma região administrativa e política que acostumou seus eleitores a serem movidos por assistencialismo e sistema de trocas, nem sempre justas, o fato da Universidade ir a um lugar carente, criava uma curiosidade na população sobre o que poderiam receber. Havia e ainda há, na população, uma relação de dependência para com governos e instituições, historicamente reforçada, para garantir o poder de comando e o controle de suas administrações.

A proposta do projeto, no entanto, não privilegiava nenhum desses espaços e optou por fazer com que as pessoas que se envolvessem pudessem se tornar sujeitos dessa nova construção. Essa tarefa não foi fácil e nem simples, porque exigiu uma etapa de diálogos para convencer as pessoas que a UCB não estava ali para dar alguma coisa ou trazer algum donativo para a comunidade. Mas que o trazer algo ou desenvolver algo na comunidade poderia ser conseqüência do trabalho coletivo ali iniciado. A partir do momento que essa idéia foi conquistando lucidez na mente das pessoas que participavam das reuniões. Aqueles que de fato se interessavam pela proposta ficaram e participaram com freqüência de um grupo mais restrito e permanente.

Ultrapassada essa primeira etapa, a equipe passou a desenvolver um trabalho de formação de identidade de grupo. O grupo era composto de diversas pessoas, homens e mulheres, jovens e adultos: todos estudantes. Desde alfabetizandos, ensino fundamental e supletivo do ensino médio. Todos trabalhadores, com origens diferentes, motivações diferenciadas, sonhos distintos, mas com algo essencial em comum: pessoas preocupadas em melhorar suas vidas, mas dispostas, para isso, a melhorar o Riacho Fundo II. Pessoas com horizontes amplos de expectativas, com idéias concretas, à espera do encontro com outras pessoas que pudessem caminhar juntas. Estava composto o grupo gestor da comunidade educativa.

O terceiro momento foi o de consolidar o grupo gestor e pensar coletivamente o RFII. Mas para isso, era preciso resgatar os elementos culturais de cada um através da história individual de cada pessoa do grupo e fazer com que isso estivesse presente na construção da cidade. As imagens do RFII em fotografias foram fundamentais para o momento inicial do planejamento participativo do grupo. Esse momento desdobrou-se em outras etapas como a contextualização da realidade local, identificação de problemas, propostas, avaliação. O planejamento resultou em propostas de sub-projetos sobre cultura, meio ambiente e profissionalização, além de uma determinação do grupo em conseguir um centro de múltiplas funções, um espaço onde a comunidade pudesse reunir-se e operacionalizar seus objetivos, para desenvolvimento de atividades culturais e educativas.

O final do planejamento aflorou no grupo a necessidade de tornar conhecidas as suas propostas e o projeto. Tornou-se evidente que o grupo gestor tinha a consciência de que a melhoria da qualidade de vida no RFII não dependia da centralização em si mesmo. Nota-se aí uma mudança de concepção política, em que há a necessidade de tornar participativa as decisões e ações, que até o momento estavam sempre vindo de cima para baixo. A melhor forma encontrada para divulgar o projeto foi a de desenvolver algumas atividades que o grupo gestor planeja, promove e realiza. A demora em começar a realizá-las, característica comum de grupos que ainda não têm a experiência de planejar as estratégias de preparação e execução de atividades, enfrentando as demandas de tempo a serem empregadas para esses objetivos, gerou uma certa inquietação no grupo, que estava ansioso para dar início à pratica.

No estágio atual, o grupo gestor tem desenvolvido atividades de grande impacto para a comunidade: cine-clube, cinema, teatro de bonecos, sempre com excelente participação e interação dos participantes.

Essas ações se traduzem em avanços do grupo gestor como a elevação da auto estima e busca de melhoria da qualidade de vida, maior participação na comunidade, consciência crítica da sua situação e do projeto; a identificação como grupo, que ressalta o convívio, a troca de idéias, os laços de amizade e a criação de projetos com possibilidades de tornarem-se realidade.

Educação e cultura

A construção de um pensamento autônomo, como alternativa para a melhoria da qualidade de vida de um grupo humano, constitui-se no agregar reflexivo e reformulado do próprio pensamento que se vai historicamente compondo entre sujeito-sujeito, sujeito-comunidade. Daí decorre uma compreensão da ação educativa como recriar a prática tendo um sujeito livre e criador, participante do processo e, por isso, esperançoso. Trata-se da construção, no sentido de fazer-se autor, ou seja, da responsabilidade por fazer-se sujeito inteiro e histórico. E esse é, fundamentalmente, um exercício da consciência histórica.

Sob a óptica do pensamento moderno a razão passou a dominar como pensamento hegemônico, vendo o humano fundamentalmente como ser racional. Jogado no senso comum este pensamento tomou o rumo de um individualismo encarcerador e auto-definhador. Encarcerador porque nada do que passa dos limites do racional é considerado humano. Uma supervalorização da razão tornou o humano cativo em apenas uma das dimensões que o constituem. Auto-definhador porque a desconsideração das demais potencialidades humanas coisificou a pessoa. Como conseqüência surge uma sociedade fragmentada e um ser humano fragmentado. Uma compreensão absoluta de dominação da noção de autonomia produz o sujeito dono, os bens privados e o capital. Legitima-se a cultura da competição e do capital como referência do existir.

A consciência está relacionada com a abertura da razão para acolher pensamentos que, em determinado momento, não estavam presentes na atividade racional. Brincando com a palavra poderíamos dizer que “consciência” é a ciência com. Ou seja, o pensamento de outrem, que pode estar fora de minha racionalidade, enquanto compreensão mais ampla, e é acolhido como outro pensar é a ciência de outro que se agrega a minha sem negá-la. Nessa compreensão a razão passa a ser instrumento da consciência e não o inverso. Daí que, uma proposta metodológica a partir do diálogo, a comunidade, partindo de suas ações e pensamentos que são, a um só tempo, produto e produtoras da consciência, se torna educativa.

Pensar o sujeito e sua práxis como exercício de uma liberdade real, construída no cotidiano do pensar-agir-criar, tendo a consciência como referência dessa práxis, conduz a pensar a intersubjetividade como consciência histórica coletiva. É proposta de busca que se realiza na própria prática.

Em meio a esta busca incontida, no movimento andarilho e dissociado de nosso tempo, apresentamos a “Comunidade Educativa” como uma das tantas alternativas emergentes para a construção da cultura como exercício da consciência.

Para Ernani Maria Fiori, educador e filósofo brasileiro, cultura e conhecimento são dois movimentos entrelaçados de um mesmo fenômeno de conscientização do ser humano na criação da história e do mundo. A cultura é uma espécie de lugar da consciência, da construção e elaboração do conhecimento. Ambos estão de tal forma vinculados, que um não se dá sem o outro. Por isso, para ele, “cultura significa, originariamente, cultivo da natureza, cultivo dos campos (...). No caso do homem, há também cultivo, cultivo da pessoa, que, desenvolvendo suas virtualidades, afirma-se na linha da personalidade” (Fiori, 1991, p. 19).

O autor concebe o humano numa perspectiva de gerência de si, pela consciência. Por isso usa a expressão “virtualidade”. A expressão traz uma dinâmica da força interna, da virtus. O ser humano é sujeito porque virtuoso, a partir de sua interioridade se faz, se re-cria, fazendo e re-criando o mundo. Há uma força interna que o atualiza. Tal virtualidade é desencadeada na relação com os outros, na comunidade. Os moradores do Riacho Fundo II manifestam a consciência da importância da cultura, nesta perspectiva, quando afirmam: “A cultura pra mim é como a minha raiz. Assim como uma planta precisa da raiz pra viver, sem cultura eu não vivo” (Moradora participante de uma sessão de Cine Clube).

A cultura, no humano, é, ao mesmo tempo, expressão de sua interioridade histórica e produção de nova história, em ato. A construção histórica do humano, mesmo que determinada, não é determinante. De outro lado, para Fiori, a natureza humana é fundada na liberdade. Por isso, em última análise, o humano é sujeito porque, mesmo tendo sido marcado por situações que colaborem com uma certa fisionomia que o constitui é capaz de criar a história.

A educação, a partir daí, se constitui, ao mesmo tempo, como resultado e instrumento da cultura. Nesse sentido, o Projeto Alfabetização e Comunidade Educativa no Riacho Fundo II é gestado de tal forma que “a experiência de aprender é vivenciada como um desejo de embelezamento das pessoas, da comunidade e do meio ambiente” (Cunha F., 2001, p.3 - texto digitado). A metodologia desenvolvida é um constante convite para que os integrantes da comunidade assumam suas virtualidades ensinando o que sabem e aprendendo o que os outros tem para ensinar. Desse modo, apropriam-se do legado cultural e o recriam em vista de alternativas para tornarem-se mais humanos. É este exercício que confirma o que diz Fiori: “O feito só é feito através do fazer (...) e enquanto o feito, no processo cultural, se transmite, transmite-se em vista do fazer, porque, em si mesmo, o feito é algo de morto” (Fiori, 1991, p. 20). É a comunidade que, na ação educativa, vivifica a cultura.

Seguindo esse caminho, podemos afirmar que conhecer e agir são sinônimos. É um posicionamento criador frente ao mundo. Por isso é político: ação na polis. “E a cultura, ao tomar a dimensão da cidade, feição política em sentido amplo, faz-se civilização, a cultura, na perspectiva do civil, da cidade, é civilização” (Fiori, 1991, p. 21). Daí decorre uma concepção de ação cultural como uma das dimensões da política. Por isso, é possível pensar a comunidade educativa como decorrência e criadora da cultura, portanto, inteiramente política. Talvez, por esta consciência, um dos moradores do Riacho Fundo II, tenha afirmado “A cultura forma a nação, porque um povo tem que ter cultura”.

É por esta via que a atuação da comunidade educativa não está, jamais, alheia de qualquer outro momento humano. A educação, nesse sentido, é organísmica, porque inter-age com outros espaços/tempos da comunidade. De tal forma isto é posto, que o ensino nunca é só ensino do fato, mas sempre é novo fato. A pessoa é que, tornando-se sujeito na intersubjetividade, cria e re-cria a cultura, o mundo, a humanidade.

Daí que é possível pensar o fazer como processo de sujeitificação. Todo processo de sujeitificação possui um movimento que implica o sujeito, enquanto indivíduo, e a intersubjetividade (comunidade). A sujeitificação ocorre nas relações entre os sujeitos. Só nesse movimento o humano sujeitifica-se, educa-se. Como isso só se dá na comunidade, esta é, necessariamente, educativa. O processo educativo é, portanto, processo cultural. Sendo a cultura produto e possibilidade do fazer na intersubjetividade, é fundamental, nos processos educativos a participação de toda a comunidade.

Fiori usa o termo “comunidade” “para significar uma associação que se realiza não de fora para dentro, mas comunhão que surge de dentro para fora, entre os que se unem nas exigências vitais do espírito e da cultura” (Fiori, 1991, p. 23). A comunidade, na intersubjetivação, é capaz de fazer emergir os feitos para refazê-los. A ação educativa, nessa perspectiva, constitui-se como problematizadora e, em certa medida, conflitiva. A intersubjetivação faz-se espaço de presentificação dos sujeitos que são distintos entre si. Sendo a comunidade o lugar de presença dos sujeitos diferentes entre si, os pensamentos e os atos criados se tornam problematizadores uns dos outros e convocam a novas elaborações de cada sujeito e da comunidade. Cada sujeito, participante do processo educativo, ao perceber-se educador e educando, “existência seu pensamento numa pedagogia em que o esforço totalizador da práxis humana busca, na interioridade desta, retotalizar-se como ‘prática da liberdade” (Fiori, 1991, p. 52). A prática da liberdade na ação educativa supõe a consideração das biografias dos sujeitos envolvidos, seus desejos, suas dimensões e potencialidades. Por isso o sujeito existencia-se no fazer. A ação pedagógica, neste caso, não se resume numa técnica, mas se move numa perspectiva da consciência de encontros de existências, por isso não é uma simples prática, mas práxis. E é prática da liberdade por ver no outro um sujeito de virtualidades e ações constantemente perpassadas umas pelas outras. Nesta prática, os sujeitos se aproximam, autorizados pela acolhida uns dos outros e vão tornando-se comunicadores de suas diferenças: “Meu pai conhece um ‘boi’ onde só homem participava. Vão fazendo verso, mulher não participa não. E não era este ritmo aí”.

Essa consideração do já vivido e do já pensado como possibilidade de novos viveres e novos pensares na comunidade encaminha para um conhecimento não dogmático, por isso criador e libertador, por isso esperançoso. E é esse movimento do conhecer que, numa perspectiva da intersubjetividade, vai constantemente re-criando a consciência de sujeito com sujeitos na experiência.

O Projeto Alfabetização e Comunidade Educativa no Riacho Fundo II traz o movimento de uma construção do conhecimento como inter-relação entre os envolvidos no processo de conhecer. Nesse sentido a experiência e o saber tornam-se o lugar do diálogo, da conversa criadora e re-criadora de novos saberes. Porque se trata de um processo que não exclui os dados trazidos, mas, ao contrário, re-configura-os numa prática que é existência e, por isso, da consciência que se descobre e re-des-cobre continuamente como criadora da história. Daí que a metodologia desenvolvida no projeto concebe a alfabetização como ato de “aprender a ler e escrever para tornar-se capaz de compreender o mundo para além de suas manifestações imediatas” (Cunha F., 2002, p.3 – digitado). É processo de alfabetização que abre-se para a vida como experiência que passa a ser grafada, bio-grafada, passa a ser história e faz-se cultura. Por isso, o ato de ler o mundo e escrevê-lo é fundamentalmente um ato de humanização, porque implica, sobretudo, uma consciência de sujeito naquele que lê e escreve o mundo. Para Fiori: “Talvez seja este o sentido mais exato da alfabetização: aprender a escrever a sua vida, como autor e como testemunha de sua história, isto é, biografar-se, existenciar-se, historicizar-se” (Fiori, 1991, p. 53).

Nesse sentido, é possível arriscar a afirmação de que a alfabetização deixa de ser um momento de aprender a decodificar alguns símbolos e passa a ser um modo de posicionar-se frente ao mundo no cotidiano. Relativizando, assim, uma abordagem cronológica do momento de alfabetização e tornando a leitura do mundo uma atitude constante do sujeito que, em lendo e escrevendo o mundo, vai sujeitificando-se.
Resultados e discussão

A construção da educação e da cultura pelo olhar sobre as imagens

Uma das estratégias de mobilização da comunidade e de construção do saber local que vem sendo realizada recentemente no Riacho Fundo II é o Cine-Clube. Constituído como um espaço itinerante de exibição e discussão de documentários brasileiros de curta (até 15 min.) e média (de 16 a 50 min.) metragem, com uma freqüência mensal, o Cine-Clube nasce de uma necessidade dos jovens do Riacho Fundo II que integram o grupo gestor do projeto. A sua origem encontra-se em uma oficina de vídeo comunitário, Oficina de Imagem Popular, realizada na Universidade Católica de Brasília, de 01 de julho a 02 de agosto de 2002. Essa atividade fora proposta por uma empresa privada, a Karibu Cinema, e viabilizada pela Pró-Reitoria de Extensão da UCB.

Durante um mês e um dia, jovens com idade entre doze e vinte anos, de quatro localidades do Distrito Federal (Riacho Fundo II, Areal, Taguatinga e Ceilândia), participaram de uma oficina de produção de vídeo, dividida em três etapas: sensibilização e introdução à linguagem audiovisual, desenvolvimento de roteiro e noções técnicas, produção e finalização dos documentários. O resultado foi a elaboração de quatro vídeos pelos vinte e quatro participantes da atividade – “Parque do Areal”, “Retratos não Registrados”, “Albergue de Imigrantes” e “Cidade dos Cavalos” -, sob a supervisão de cinco oficineiros e quatro monitores. Dentre os vídeos produzidos, o “Cidade dos Cavalos”, que trata de uma área invadida por carroceiros no Riacho Fundo II, acabou selecionado por diversos festivais regionais e nacionais de vídeos universitários e para o XXXV Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Terminada a Oficina de Imagem Popular, surge então a proposta de continuidade de um espaço permanente de exibição de vídeos no Riacho Fundo II. O Cine-Clube acontece, portanto, em conseqüência de uma ação democratizadora do acesso à linguagem audiovisual como forma de expressão, capaz de abrir uma perspectiva de disseminação de um saber experimentado, que agora é compartilhado entre esses jovens e a comunidade. E, nesse sentido, vale ressaltar a importância de se estar iniciando um trabalho de “alfabetização visual”, defendido por Dondis como “algo além do simples enxergar, como algo além da simples criação de mensagens visuais. O alfabetismo visual implica a compreensão e meios de ver e compartilhar o significado a um certo nível de universalidade” (Dondis, 1991, p.227).

Abre-se uma perspectiva permanente de leitura crítica e política da imagem técnica (fotografia, cinema e vídeo), com uma expectativa de explicitar sua estrutura interna, discutir sua sintaxe, analisar seus artifícios e verificar suas potencialidades. Essa orientação começa a despertar novos interesses à medida que a comunidade percebe na imagem uma maneira de identificar, valorizar e reconstruir sua cultura: em um dos encontros do grupo gestor, uma moradora do Riacho Fundo II sugere a realização de uma oficina de produção fotográfica, justificando seu interesse em elaborar suas próprias fotografias e seu descontentamento em apenas ser fotografada pelos professores e estagiários da UCB, como mero registro das reuniões. Estabelece a importância de se constituir também sujeito e não somente objeto da história do grupo gestor. Quer assumir o fazer, colocar-se atrás da câmera, recortar a realidade segundo seu olhar próprio, subjetivo e criador. E ai vale lembrar Debray: “Olhar não é receber, mas colocar em ordem o visível, organizar o seu sentido do olhar, assim como o escrito na leitura” (Debray, 1993, p.91). Em outras palavras, podemos dizer que a comunidade do Riacho Fundo II manifesta o desejo de escrever com a imagem.

Além de uma proposta de alfabetização visual e de formação de público para o documentário independente - cuja temática encontra-se muitas vezes voltada para a realidade brasileira, mas, no entanto, não encontra espaço no circuito comercial da tv aberta e do cinema -, o Cine-Clube constitui-se em um território promissor de re-elaboração das percepções de mundo e, portanto de produção de conhecimento. Segundo Vilém Flusser, “o caráter aparentemente não simbólico, objetivo, das imagens técnicas faz com que seu observador as olhe como se fossem janelas, e não imagens. O observador confia nas imagens técnicas tanto quanto confia em seus próprios olhos. Quando critica as imagens técnicas (se é que as critica), não o faz enquanto imagens, mas enquanto visões do mundo” (Flusser, 2002, p.14). Quando falamos de um vídeo, na maioria das vezes nos referimos mais diretamente à sua história do que à sua forma.

Nesse sentido, o documentário audiovisual apresenta uma forte ligação com o seu referente, ou seja, com um determinado contexto que, por ter existido, pôde ser gravado e transformado em vídeo. A imagem técnica pressupõe a existência de uma realidade anterior a ela, a partir da qual foi elaborada, sua origem, sua matéria-prima. E a certeza da existência desse referente no tempo passado, algumas vezes distante, representa um terreno privilegiado para a reflexão do contexto que se está vivendo no presente e, portanto, próximo.

O documentário restringe-se a um dado recorte no tempo e no espaço, tem começo, meio e fim, limites que não esgotam a totalidade do assunto tratado. E como qualquer forma de expressão, apresenta uma série de lacunas de significação a serem preenchidas pelos seus leitores. Atua, desse modo, como “um relê, que aciona nossa imaginação para dentro de um mundo representado (tangível ou intangível), fixo na sua condição documental, porém moldável de acordo com nossas imagens mentais, nossas fantasias e ambições, nossos conhecimentos e ansiedades, nossas realidades e nossas ficções”(Kossoy, 1999, p.46). Ao término da exibição do Cine-Clube, o audiovisual passa a representar tão somente o ponto de partida para a construção de uma série de teias de significados, construídos por cada leitor/ator/sujeito, tendo como eixo um tema único (a estória narrada), mas dentro da subjetividade de filtros culturais, religiosos, sociais, políticos, morais dos moradores do Riacho Fundo II. Assim, está garantido o diálogo, respeitando-se as diferenças de visões das partes (sujeitos), na busca de um entendimento mais abrangente da totalidade (intersubjetividade).

As sessões do Cine-Clube são realizadas sempre aos sábados, por volta das 19 horas, em locais distintos da cidade, como escolas e galpão comunitário. O intenção desta organização itinerante é garantir o acesso às diferentes localidades do Riacho Fundo II. Segundo os membros do grupo gestor, por se tratar de uma cidade dormitório - o que inviabilizaria exibições em horários comerciais e durante a semana – essa é a hora mais apropriada para reunir a comunidade, que, na partilha de suas impressões, opiniões e vivências a partir do documentário, torna-se mais educativa. Antes das sessões, os vídeos são apresentados e discutidos pelo grupo gestor. A divulgação é feita nas proximidades do local onde ocorrerá o evento, e o público não deve ultrapassar cinqüenta pessoas, na tentativa de assegurar um diálogo mais produtivo e com a maior participação dos presentes. Essa estratégia tem garantido uma heterogeneidade dos presentes, sem a predominância de alguma faixa etária ou gênero específicos. As exibições costumam levar, no máximo, quarenta minutos, para não cansar os espectadores, e os debates, de quarenta minutos a uma hora.


Conclusões

O Projeto Alfabetização e Comunidade Educativa no Riacho Fundo II articula uma noção de relação entre cultura e natureza no ser humano de tal modo que ambas estão imbricadas no compromisso pela construção do mundo. A noção de conhecimento é, assim, existencial, na medida em que a ação não é simples ação, mas expressão do sujeito, existencialização. Por isso a prática metodológica desenvolvida no projeto não é uma ação isolada, mas dialogada na intersubjetividade. Ação composta de fazer-ser de quem, em fazendo, existencia-se. O ato de conhecer, portanto, é ato criador de alternativas que efetivem a melhoria da qualidade de vida da comunidade.


Referências bibliográficas

CUNHA F., José Leão da. Algumas notas para o Projeto Comunidade Educativa. Brasília: UCB/PROEx/DPE/PCE, 2001 – digitado.

DEBRAY, Régis. Morte e Vida da Imagem. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993.

DONDIS, Donis A. Sintaxe da Linguagem Visual. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

FIORI, Ernani Maria. Textos Escolhidos: v. I.: Metafísica e História. Porto Alegre: L&PM, 1987.

_____. Textos Escolhidos: v. II.: Educação e Política. Porto Alegre: L&PM, 1991.



FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

KOSSOY, Boris. Realidades e Ficções na Trama Fotográfica. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.

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