Trabalho de Conclusão de Curso



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UNIVERSIDADE NOSSA SENHORA DO PATROCÍNIO – CEUNSP

FACULDADE DE FILOSOFIA, CIÊNCIAS E LETRAS

CURSO DE LETRAS


ANTONIO RODRIGUES JOTA

OS CAMINHOS DA LITERATURA BRASILEIRA

E O SONHO DE APROXIMAR FALA E ESCRITA.

ITU

2006


ANTONIO RODRIGUES JOTA


OS CAMINHOS DA LITERATURA BRASILEIRA

E O SONHO DE APROXIMAR FALA E ESCRITA.
Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado

para obtenção do grau de Licenciatura no Curso

de Letras da Faculdade Nossa Senhora do

Patrocínio- CEUNSP.

Orientador: Profª Adelma F. M. M. Casarini.

ITU/SP

2006



_____________________
_____________________
_____________________

Dedico este trabalho a

Odete Stievano

Davi

Família Campos.

AGRADECIMENTOS.

Agradeço a todos que contribuíram direta ou indiretamente para a concretização deste trabalho que na verdade é o resultado prático do curso inteiro. Realizei-o com imensurável satisfação e quero dividir com todos os professores que tive durante o curso. Injusto, porém, seria se não mencionasse Nirlei e Adelma. Está por despertar em mim o prazer pelo trabalho científico e àquele por ter-me tão bem lapidada a alma, fazendo-a transbordar brasilidade sem culpa ou complexo. Inclusa Nancy Romanato pelas dicas de Informática.

“Dali avistamos homens que andavam pela praia...

pardos, todos nus...”

Pero Vaz de Caminha.

“Uma parte de mim


é só vertigem:
outra parte,
linguagem.”

Ferreira Gullar.

RESUMO.

Através de uma linguagem acessível, tenciona-se mostrar principais movimentos literários expressivos no Brasil em período compreendido entre Pero Vaz de Caminha e Ferreira Gullar, ou mesmo Antonio Jota, autor do texto Um Lobo, cuja finalidade é mostrar a possibilidade real de fusão entre a fala e a escrita. Prova que uma linguagem simples não tira a grandeza do texto nem interfere no que se pretende dizer e pode perfeitamente ser classificado como um texto produzido dentro da tradição literária brasileira. É ainda uma tentativa de reavivar o sonho ‘sonhado’ por José de Alencar - abraçado por Adolfo Caminha e Rachel de Queiros – que é, senão acabar, diminuir a distância entre o que se fala e o que se escreve., criando assim caminhos para que melhor se expresse a identidade nacional tão almejado por quase todos os intelectuais de diferentes denominações literárias. Almeja-se fazer brotar, não apenas da boca pra fora, mas das entranhas da alma, um senso de brasilidade tão compacto, tão bem resolvido que conduza o individuo vida afora e que o norteie por entre as grandes nações da terra. O conto já citado “Um Lobo” pretende mostrar que é possível padronizar uma forma de linguagem que possa ser usada em favor da população pouco escolarizada sem ridicularizar o rigor formal e sem rupturas drásticas. É, ainda, um chamamento para um meio termo, um acordo entre o popular e o culto. Um passo para a concretização de uma linguagem normativa, mas que seja compreendida, de fato, pelos falantes. Para que serve um idioma cheio de artifícios - lexicais e gramaticais - tão complexos que induz o falante a pensar que jamais será capaz de compreendê-lo?



Palavras-Chave: Fala. Escrita. Linguagem.

SUMMARY.

Through an accessible language, it is intended to show main expressive literary movements in Brazil in a period understood between Pero Vaz de Caminha and Ferreira Gullar, or even Antonio Jota, author of the text A Wolf, whose purpose is to show the real possibility of coalition between the speech and the writing. It proves that a simple language doesn't remove the greatness of the text nor it interferes in the one that is intended to say and it can perfectly be classified as a text produced inside   the Brazilian literary tradition. It is still an attempt of reviving the dream 'dreamed' for José de Alencar - hugged by Adolfo Walks and Rachel de Queiróz - that is, except ending, to reduce the distance among what is spoken and what is written., so  the national identity is expressed so longed for almost all the intellectuals of different literary denominations. It is longed for to do to sprout, not just of the mouth   out, but of the bowels of the soul, a sense of such compact "brasilidade", so well resolved that drives the individual life out and it orientates him  for among the great nations of the earth. The story already mentioned (A Wolf) intends to show that it is possible to standardize a language form to be used in favor of the population little educated without ridiculing the formal rigidity and without drastic ruptures. It is still a calling for a middle term, an agreement between the popular and the cult. A step for the materialization of a normative language, but it is understood, in fact, for the speakers. So that it serves a language full of artifices - lexical and grammatical - so complex that it induces the speaker to think that it will never be capable to understand him?


Key words: Speaking. Written. Language.

SUMÁRIO.


1. INTRODUÇÃO .......................................................................................................

2. A LITERATURA E SEUS CAMINHOS..................................................

2.1. Literatura Informativa.......................................................................

2.2. Literatura Jesuítica............................................................................

2.3. Literatura Barroca.............................................................................

2.4. Literatura Arcadista..................................................................

2.5. Literatura Romântica...............................................................

2.6. Literatura Real/Naturalismo......................................................

2.7. Literatura Parnasianista ...........................................................
2.8. Literatura Simbolista................................................................

2.9. Literatura Pré-Modernista.....................................................
2.10. Literatura Modernista............................................................
2.11. Literatura/Romance de 30.....................................................

2.12. Literatura Contemporânea...........................................................
3. A LITERATURA E SEUS CAMINHOS EM FRAGMENTOS..........

3.1. Literatura Informativa...................................................................

3.2. Literatura Jesuítica........................................................................

3.3. Literatura Barroca.........................................................................

3.4. Literatura Arcadista......................................................................

3.5. Literatura Romântica....................................................................

3.6. Literatura Parnasianista........................................................

3.7. Literatura Pré-Modernista..................................................

3.8. Literatura Modernista...........................................................

3.9. Literatura/Romance de 30.......................................................

3.10. Literatura Contemporânea........................................................

3.11. Literatura/Geração 45.........................................................

4. TRANSCRIÇÕES............................................................................................

5. CONTO: O LOBO...........................................................................................

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS..........................................................................

REFERÊNCIAS...................................................................................................

OBRAS CONSULTADAS..................................................................................

APÊNDICES......................................................................... ..............................

NOTA DO AUTOR.....................................................................

1. INTRODUÇÃO.
Através das características de cada movimento literário, iniciando com a Carta1 de Pero Vaz de Caminha, notarão mutações ocorridas na nação em formação, influências diversas sofridas por vários povos e interesses; a começar pelo próprio Pero Vaz que desejava encantar o rei para, em seguida, pedir benevolência em julgamento de parente.

Fragmentos literários que exemplificam os movimentos literários através dos conteúdos, formas e tendências. Cada texto transcrito tem por finalidade apresentar as características da Escola a que pertence. Como o próprio subtítulo sugere, esta narra as impressões dos europeus com os brasileiros primitivos.

As citações reforçam o sonho de uma linguagem facilmente assimilada, despojada do ‘gramaticismo’ e se define como mediadora no drástico vácuo entre o que se fala e o que se escreve.

Nítidos são os brasis apartados pela fala e isto vai culminar em evasão escolar, exclusão de toda natureza, já que a escola é caminho único para inserção social vigente. É inadmissível que a comunicação seja veículo para segregação social. Este trabalho foi dividido em três partes: a primeira leva o leitor a um entendimento breve dos principais movimentos literários ocorridos no Brasil; a segunda parte é composta por fragmentos literários que exemplifica cada fase, identificado-a plenamente através de suas características elementares; a terceira compõe-se do conto O Lobo, que deseja ilustrar a linguagem ‘abrasileirada’, capaz de dizer tudo, sem prejuízos berrantes para a beleza e pureza do idioma.



2. A LITERATURA E SEUS CAMINHOS.

2.1. A Literatura Informativa: Século XVI.

A arte de compor o retrato da alma de um povo iniciou-se juntamente com a descoberta do Brasil. Ocidentais desbravadores se valiam de conceitos próprios sobre arte literária para dizer da Nova Terra aos seus países de origem através de cartas, diários de bordo e relatos.

Em tais documentos diziam das condições gerais do território conquistado: fauna e flora, paisagem paradisíaca enfeitada com cachoeiras e rios de águas cristalinas, onde os nativos deleitavam-se sem as preocupações do velho mundo. Vestimentas? Não existia porque o Éden era aqui.

Espalhou-se pela Europa visão utópica sobre o mundo tropical; e a existência humana era pintada com as mais lindas e belas cores. O sexo farto e livre era apenas uma das muitas evidencias de que o velho paraíso desaparecido nas entranhas do rio Tigre, ressurgia imponente abaixo da linha do Equador, onde nem pecado existia.

Por não haver perfeição nem mesmo no ‘paraíso’, os nativos brasileiros cometiam um ou outro deslize: comiam gente, por exemplo!

Mero detalhe se comparado com o inacreditável desprendimento de trocar qualquer bugiganga por ouro, prata ou qualquer outra coisa de boa valia para os invasores!

Principais obras e autores:

-A Carta, de Pero Vaz de Caminha2.

-Duas Viagens ao Brasil, de Hans Staden3.

-Viagem à terra do Brasil, de Jean de Léry4.


2.2 Literatura Jesuítica: Meados do Século XVI.

Prenuncia-se o fim da visão idílica e o branco resolve europeizar o paraíso. Vestir o índio e catequizá-lo são os primeiros passos. Desembarcam no litoral brasileiro, fervorosos portadores de idéias salvacionistas dispostos a encarar a gigantesca e árdua empreitada: os jesuítas.

Dentre estes, José de Anchieta. Autor de vasta literatura catequista (inclusive em latim como a satisfazer suas mais profundas necessidades espirituais), com a finalidade de incutir nos indígenas a fé cristã. Eterno confronto entre o bem e o mal; este associado aos deuses, pajés e mitos nativos, aquele diretamente identificado com santos e anjos católicos, prontos para redimir quantos aceitasse a nova crença.

E o Brasil torna-se imenso cenário para a fabulosa obra do autor e padre que fazia da aldeia palco, dos nativos espectadores de seu incansável evangelizar, através de refinada obra literária e didática: poemas, monólogos, canções, hinos e peças teatrais.

Genuíno representante do semear da literatura brasileira que em solo fértil nasceu, cresceu, floresceu e ganhou o mundo.

Principal obra e autor:

- Poesias, José de Anchieta5.
2.3. Literatura Barroca: Século XVII.
Prosopopéia (Bento Teixeira) dá inicio a literatura Barroca no Brasil que termina com a publicação de Obras Poética (Cláudio Manuel da costa) coincidindo com o declínio da sociedade açucareira nordestina, no final do século XVII.

Entretanto na arquitetura e artes plásticas, atingirá seu ponto alto somente nos séculos XVIII e inicio do XIX, em Minas Gerais.

O Homem barroco vivia o intenso conflito entre o antropocentrismo - que consistia em tomar nas mãos as rédeas do seu próprio destino e viver a vida livre inspirada no Adão seminu da Capela Cistina de Michelangelo; ou continuar vivendo o cômodo teocentrismo - onde Deus cuidava de tudo desde que o cristão vivesse ajoelhado diante da religião e seus dogmas.

O exagero extremado, a crônica falta do meio termo, bem caracterizou esta Escola Literária. A crise Renascentista6, as guerras religiosas, atingiram em cheio a estrutura social aristocrático-burguesa; a contra-reforma combatia os hereges e os jesuítas propagavam sua implacável ideologia teocêntrica no mundo católico. Conflito entre corpo e alma, a celebração da carne, os prazeres mundanos, o gosto pelo pecado e o cuidados com a alma em busca da vida eterna.

Abraçar a liberdade inspirada pelo Renascimento ou ir morrendo aos poucos a existência efêmera? Garantir o céu fazendo a vontade de deus ou arriscar ser condenado ao eterno inferno de fogo tão avivado em sua mente pelas igrejas católica ou protestante?

A linguagem é ornamental, complexa, cheia de antíteses, inversões, metáforas, paradoxos – entendida como jogo verbal, muitas vezes sugerindo mais do que dizendo. Um estilo intrincado que bem traduz os conflitos existenciais do homem barroco.

Principais obras e autores:

- Poesias, de Gregório de Matos7 (Boca do Inferno8).

-Os Sermões, de Antonio Vieira9.

2.4. Literatura Arcadista (ou Neoclassicismo): Século XVIII.
Neste período ocorre a ascensão da burguesia e seus valores. A literatura e invadida pelos novos hábitos e costumes, prevalecendo o objetivismo e a razão, cultua-se linguagem mais simples, ainda que de transição. Menos carregada na religiosidade e conflitos íntimos pessoais.

Porém acena firmemente sua direção: Arcádia10. Nasce e cresce o arcadismo afirmativo e orgulhoso de suas características peculiares: razão, verdade, simplicidade e clareza.

A idealização da mulher e da natureza passa a ser valorizada juntamente com o bucolismo da vida pacata, cultuado por poetas criadores dessa filosofia na Grécia Antiga.

Destacam-se ainda a arte ligada ao iluminismo que se contrapunha ao poder da igreja; culto à simplicidade no sentido de guiar-se por modelos já experimentados feito se uma volta ao estilo de vida passado; mimese dos clássicos pastoris – tema teorizado pioneiramente por Aristóteles – que seria imitação da vida interior dos homens, suas paixões, caráter e comportamento; endeusamento da natureza e do equilíbrio que dá ares de paraíso perdido e propicia ao homem serenidade e harmonia, eterno idílio entre o ser e o meio.

Os autores arcadistas descartaram a subjetividade – não adotando o próprio eu – e criavam pseudônimos singelos condizentes com a vida pastoril; e rasgavam o amor galante compreendido como conjunto de regras convencionais.

Indeléveis marcas do arcadismo na sociedade brasileira: urbanização resultante da atividade mineradora; criação de academias onde artistas e literatos se refugiaram da apatia do meio; instituição em caráter regular de um sistema literário cujos autores e leitores partilhavam da mesma linha de pensamento; a relação de neoclassicistas com a Inconfidência Mineira: Tomás Antonio Gonzaga degredado, Cláudio Manuel da Costa suicidou na prisão.

Pela primeira vez no país, um grupo de escritores, poetas e intelectuais reuniam-se compartilhando com o mesmo ideal.

As obras poéticas e artes marcam a transição do rococó para o arcadismo: sentimentos de brevidade da vida, temas referentes ao sofrimento humano, gosto pela antítese, soneto camoniano, pastoralismo e renúncia à visão religiosa de vida e sociedade.

A obra de Tomás Antonio Gonzaga está presa ao esquema bucólico, pastoril, tipicamente árcade; a paisagem de Cláudio Manuel da Costa foge dos padrões vigentes e mostra cenários tipicamente mineiros, evidenciando suas raízes: pedras, grutas, penhascos; Basílio da Gama aborda a conquista militar das Missões Jesuíticas (RS, 1756) por tropas luso-espanholas a mando do Marquês de Pombal: índios na condição de heróis (pastores árcades) enfrentando a civilização européia (brancos conquistadores) e o próprio mal, representado pelos jesuítas; Santa Rita Durão inspira-se em Os Lusíadas para narrar a historia de Diogo Álvares Correia que ganhou a admiração dos nativos ao disparar um tiro de arcabuz na Bahia no século XVI, casou com Paraguaçu, a filha do cacique, passando a viver entre eles. Destaque para a cena em que morre Moema, tragada pelas ondas, quando nada tentando alcançar o navio que leva Diogo e Paraguaçu para a Europa.

Principais obras e autores:

- Marília de Dirceu, de Tomás Antonio Gonzaga11.

- Poesias, de Cláudio Manuel da Costa12.

- Uraguai, de Santa Rita Durão13.

2.5. Literatura Romantista: Século XIX.
Consolidada a ascensão da burguesia, explode a corrida para tê-lo, ao liberalismo econômico, jurídico, filosófico e ocorre à consolidação do capitalismo. Especificando algumas características da Escola Literária: nacionalismo, individualismo, idealização da mulher, espírito criativo e sonhador, apreçam a liberdade, exacerbado uso de metáforas e destaque dos fatos históricos expressivos.

Vultosos acontecimentos ocorridos no Velho Mundo, resvalavam em terras tupiniquins e a modernização brasileira é largamente sinalizada e recheia a literatura, artes e comportamento da ocasião14.

Já em 1808 a Quinta dos Infernos15 passa a abrigar a Família Real Portuguesa; fato histórico que muito influenciou a vida do povo provinciano tupiniquim.

Pouco depois de uma década novo acontecimento bombástico: a Independência do Brasil. Inicia-se aí o nascimento de uma nação que construía sua própria identidade através dos cacos que a Coroa Portuguesa não quis.

A arte ganha aspecto de mercadoria, pondo fim ao mecenatismo e propiciando liberdade de criação ao artista. Já que podia comerciar livremente seu produto artístico em mercados, tornava-se dispensável a figura de um patrocinador e norteador de sua produção.

O romantismo brasileiro apresenta forte sentimento nacionalista, identificação com a independência política, valorização do indianismo e regionalismo, imponentemente representado pelo cearense José de Alencar e sua incansável luta na criação de uma língua nacional, ainda que desprovida do luxo europeu. O que realmente importava era uma cara brasileira genuína, enfeitar o feio para que um dia se tornasse belo.

A poesia romântica é classificada em três gerações: a primeira: nacionalista; representada por Gonçalves de Magalhães e Gonçalves Dias exploram temas como enaltecimento ao indígena, à natureza, saudades da pátria e ao amor sofrido, impossível; a segunda: individualista, tem como ícones Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu. Este fala de temas peculiares à época e da morte do filho; àquele aborda temas sobre o mal do século, presságio da morte, humor irônico, amor orgíaco, medo do amor e angustia sobre o sentido da vida. Em sua obra as mulheres são deusas ou prostitutas, ou seja, inatingíveis ou desprezíveis; a ultima geração: liberal, social (ou condoreira) é representada por Castro Alves que aborda aspectos sociais: o abolicionismo, educação, progresso, a natureza e o amor como desejo sexual.

Convém lembrar que a poesia condoreira tem linguagem forte, retórica discursiva e imagens extraídas dos mais grandiosos aspectos da natureza. A poesia lírica em linguagem simples, coloquial e de plasticidade expressiva, quase visual.

Desta terceira geração, de certo modo, também fez parte Sousândrade – Joaquim de Sousa Andrade - que foi desprezado por todos em sua época por criar linguagem cheia de elipses e fusões vocabulares, fugindo das banalidades sentimentais dos românticos, abordando temas como o capitalismo vicioso. Foi reabilitado pelos concretistas como precursor genial da livre expressão modernista.

Principais obras e autores:

- O guarani e Iracema, de José de Alencar16.

- Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães17.

- Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo18.

- Espumas Flutuantes, de Castro Alves19.


2.6. Literatura Real/Naturalismo: Final do século XIX.
Declínio do romantismo e seus temas. O paraíso imaginário empresta suas cores fortes para que se desenhe o cenário real. Artistas, escritores e intelectuais passam a tratar de problemas, conflitos inerentes ao homem e a vida cotidiana. A linguagem popular volta à baila, acompanhada das seguintes peculiaridades: objetivismo, trama psicológica, critica social, visão irônica da sociedade, descrição do cotidiano em cenas triviais e a valorização de personagens baseadas na realidade.

A produção literária realista deveria dar impressão de genuína verdade, retrato fiel do acontecimento, numa frenética busca de verossimilhança, onde se traduzia desejo de perfeição formal no contar das análises sociais, psicológicas e religiosas decadentes.

O naturalismo apresentava as mesmas características, excetuando apenas a análise psicológica (o homem pode mudar a si e ao meio) que era substituída pelo determinismo de Taine (o homem é apenas um fantoche do meio e não consegue mudar seu destino).

Pode-se afirmar que o naturalismo é a soma do realismo mais o cientificismo fervilhante da época: determinismo, evolucionismo, positivismo, socialismo e a medicina experimental. Deste termo, vem o nome dado por Zola ao movimento repleto de ideologias e cientificismos: romance experimental.

Para provarem suas teorias, criavam personagens com patologias diversas. Entre tantas, vale ressaltar o cientificismo sociológico e biológico: este tentava provar que o homem age conforme a raça, temperamento e caracteres hereditários, assim sendo agente passivo da existência; àquele dizia que o homem é produto do meio sendo manipulado pelas condições históricas, político-sociais e não consegue mudar a vida como sujeito ativo de sua existência.

Como condutores das ações humanas o instinto e o subconsciente; quase animalizando o homem que despudoradamente mostra suas facetas na tentativa de satisfazer desejos nem sempre aceitos pela sociedade. O patrono da época, Machado de Assis, abordou fartamente temas singulares, tais: hipocrisia, adultério, parasitismo social, egoísmo, indefinição entre loucura e razão, ações mesquinhas justificadas por força maiores e o caráter ambíguo feminino.

Destaque para o processo lingüístico e narrativo machadiano que beiram à perfeição formal. Quebra da estrutura linear em constante digressão do narrador que se faz presente opinando, afirmando, negando, julgando, relativizando; afirma uma idéia e em seguida a destrói, dependendo do interesse pessoal de cada um. Nada é absoluto ou definitivo. É imperativo dizer que a literatura brasileira da época ganhou aspecto universal, por mostrar aspectos idênticos à espécie humana, perdendo ares provincianos ou imitativos e alçando vôos altos. Destaque para Machado de Assis.

Principais obras e autores:

- A Normalista, Adolfo Caminha20.

- O Cortiço, Aloísio de Azevedo21.

- O Ateneu, Raul Pompéia22.
2.7. Literatura Parnasianista: Final do século XIX e Início do Século XX.
Parnaso é o lugar simbólico onde viviam os poetas adversos ao lirismo romântico e ás preocupações do mundo concreto, segundo um grupo de literatos franceses, amantes da poesia descritiva e forte rigor formal; usavam linguagem culta, vocabulário esmerado, motes mitológicos e descrições minuciosas. Não retratavam problemas sociais e foram tachados de criadores de literatura burguesa e um alienado fazer arte pela arte.

Caracterizava o movimento a tentativa de reação à poesia romântica preterida à realista, culto à forma entendida como versificação, métrica e rimam, fórmulas fixas como o soneto, objetividade e impassibilidade do poeta ao sofrimento dos que não detinham a palavra para protestar, alegando que a arte só tem compromisso com a beleza, a arte pela arte. Jamais como meio de clamores sociais, ideológicos, humanitários. A função da arte é encantar e desencadear sentimentos bons.

E dentro desta filosofia os parnasianos, que só conseguiram encantar o Brasil23, exploraram temas como antiguidade grego-romana, discussão sobre a poesia e suas formas, descrição da natureza e de objetos.

Literatura que não tinha compromisso nem com elites nem com o proletário, imperou no Brasil por quatro décadas quando, por oposição, desencadeia a Semana de Arte Moderna, em 1922.

Principais autores24:

- Olavo Bilac25.

- Raimundo Correia26.

- Alberto de Oliveira27.



2.8. Literatura Simbolista: Fim do século XIX.
Movimento literário e artístico em reação ao Realismo e Parnasianismo por sua visão simbólica e espiritual do mundo. Situava o valor da obra de arte na combinação subjetiva de sentimentos e de pensamentos, de figuras e de formas regidas por leis próprias, sem necessidade de traduzir a realidade em verdade explícita.

Imbuído do sentimento de que a poesia deve ser uma maneira de sugestão, sugerir mais do que dizer ou nomear, reagiam ao descritivismo e rígidas fórmulas poéticas dos parnasianos. Cultuaram a linguagem cifrada, através de símbolos, metáforas, a musicalidade (aliterações), misticismo, espiritualidade e o mistério; profundidade psíquica, domínio do vago, nebuloso, inefável...

No Brasil ocorreu de forma curiosa assim como a vida do seu criador. Surgiu em províncias intelectualmente sem expressão na época: Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná.

O precursor, João da Cruz e Sousa, natural de Desterro28, negro - criado como filho por família branca responsável pela alforria dos pais - vítima de perseguição racial, foi proibido de assumir o cargo de Promotor Publico em Laguna - SC, migrou para o Rio de Janeiro onde conseguiu trabalho na Estrada de Ferro Central; casou-se com negra, teve três filhos, contraiu tuberculose e morreu na miséria em Minas Gerais.

Broqueis foi sua única obra publicada enquanto vivo e tratava com obsessão da cor branca, erotismo sublimado, sofrimento da condição humana e negra, espiritualidade e religiosidade; destaque para a linguagem metafórica e ricamente musicada.

Principais obras e autores:

- Broqueis, João da Cruz e Sousa29.

- Câmera Ardente, de Alphonsus de Guimaraens30.


2.9. Literatura Pré-Modernista: (1902 a 1922).
Época marcada pela linguagem coloquial escancarada no caloroso regionalismo, positivismo, frenética busca aos valores tradicionais, exposição de questões e problemas sociais que tanto massacrava o homem sem voz das décadas iniciais do século XX.

Tendências muitas, heranças pungentes, misturas várias – diversos escritores, artistas e intelectuais sem um norte comum, pensam a sociedade e as mazelas humanas e brasileiras.

Traduz bem tal caldeirão de idéias Euclides da Cunha em sua obra de linguagem elaborada, ornamental, antíteses barrocas e cheia de cientificismo, principalmente o determinismo de Taine.

Partindo de reportagens que enviava ao jornal onde trabalhava, Cunha retratou conflito entre sertanejos fanáticos e soldados do exército, a conhecida Guerra de Canudos31 liderada pelo cearense Antonio Conselheiro32 no sertão baiano.

Avivara a consciência do brasileiro para os problemas internos do país sem unidade, sem núcleo comum; e através do conflito, tentava provar a existência de dois brasis: um mergulhado no arcaísmo e misérias; o outro moderno e rico.

Os Sertões foi divido em três partes, conforme as teses cientificistas que o define (principalmente Taine e Zola33), muito em voga na época:

-A Terra, o meio (o homem tem a existência determinada pelo ambiente físico-social-politico que o cerca; mero produto do meio)

-O Homem, raça (o sertanejo é visto como raça inferior, apresentando oscilações no proceder: ora um forte titã de cobre ora um degenerado).

-A luta, o momento (em profunda análise da nação brasileira, vale-se de tudo: texto científico, relatos históricos, denuncia de chacina contra os sertanejos, analise da guerra em reportagens, que resultam numa bela narrativa romanesca).
Principais obras e autores:

- Os Sertões, de Euclides da Cunha34.

- Urupês/O sitio do pica pau amarelo, Monteiro Lobato35.

- O Triste fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto36.


2.10. Literatura Modernista: (1922 a 1930).

Movimento literário e artístico inaugurado com a chamada Semana de Arte Moderna (1922), o qual deu início a uma nova fase na literatura e nas artes plásticas brasileiras. Caracterizou-se pela ruptura com as tradições acadêmicas, pela liberdade de criação, pesquisa estética, e pela busca de inspiração nas fontes mais autênticas da cultura e da realidade brasileiras – assim o Dicionário Aurélio define talvez o mais expressivo movimento literário em relação ao rompimento com o já estabelecido, o predominante.

Foram atacadas as artes plásticas, a música, a literatura - todas as formas de expressões artísticas preferidas pelo público. Era proposto novo pensar baseado em movimentos vanguardista europeus como dadaísmo, cubismo, surrealismo e principalmente, o futurismo que propunha ruptura total com normas e hábitos vigentes.

Contribuíram sobremaneira para a eclosão da Semana de Arte Moderna fatos tais: veementes críticas de Monteiro Lobato à exposição de Anita Malfatti37 em 1917; e no mesmo ano, vários jovens autores publicaram obras prenunciadoras da colisão; traziam a público o latente anseio de uma forma nacional de expressão.

E então veio 1922, Teatro Municipal de São Paulo e o golpe fatal nas regras predominantes: A Semana de Arte Moderna que na realidade foram três dias de amostragem da nova ordem. Estrondosos recitais, apaixonadas conferências, exposições e a leitura do poema de Manuel Bandeira (Os sapos – crítica severa ao gosto parnasiano do público) por Ronald de Carvalho fez o ponto alto da festa de transição. Tal foi o sucesso da Semana que toda mídia subscreveu o atestado de óbito dos cultores e admiradores de Parnaso.

Destruição do velho e os tropeços na experimentação do novo. O anseio de mudança inflava os corações brasileiros ansiosos por identidade própria. A mídia e os historiadores faziam conjecturas, ligavam fatos e apontavam como conseqüências imediatas a Revolta Tenentista38 e a criação do Partido Comunista39. Nítida a busca pela expressão nacional, desintegração do academicismo, bacharelismo e a adoção das conquistas vanguardistas.

Mário de Andrade, apontado como o pai da criança, sintetiza os ideais da Semana: firmar consciência nacional expressa em todas as formas de artes, direito a inovações estéticas, pesquisas e equiparação intelectual com vanguardistas europeus.

Criaram outros movimentos em suporte às idéias primeiras ou mesmo contrario a exageros: Manifesto da Poesia Pau-Brasil (moderno e arcaico nacional); Antropofagia (amplia as idéias nacionalistas e tenta criar a ‘cara’ brasileira);Verde –Amarelo e Anta (oponham-se aos dois primeiros).

Caracterizou o Modernismo a liberdade de expressão (“Não quero mais saber de lirismo que não é libertação”, Manuel Bandeira); valorização da realidade (“Que importa a paisagem, a glória, a baía, alinha do horizonte? O que eu vejo é o beco” – Manuel Bandeira); linguagem coloquial (“Para telha dizem teia, para telhado dizem teiado, e vão fazendo telhados” – Oswald de Andrade) e inovações técnicas (verso livre, paronomásia, enumeração caótica, colagem e montagem cinematográfica, destruição de nexos e liberdade na pontuação).

Entre muitos, alguns dos principais da Escola:

- Poesia do pau-brasil/O rei da vela, de Osvald de Andrade40.

- Macunaíma/Paulicéia desvairada, Mário de Andrade41.

- Cobra Norato, Raul Bopp42.

- Cinza das horas/Estrela da manhã, Manuel Bandeira43.

- O romanceiro da inconfidência, Cecília Meireles44.

- Rua dos cataventos, Mário Quintana45.

- Poemas negros, Jorge de Lima46.

- As metamorfoses, Murilo Mendes47.

- Novos poemas, Vinicius de Moraes48.

- A rosa do povo, Carlos Drummond de Andrade49.


2.11. Literatura/Romance de 30.
Aplacadas as paixões dos primeiros anos modernos, novamente do norte surgiam estrelas literárias como a personalizarem a tão sonhada cara brasileira idealizada pelos expoentes do movimento. Oriundos das oligarquias em franca decadência, produziam suas críticas sociais e ideológicas em linguagem parecida como o realismo. Daí o nome neo-realismo, também conhecido como regionalismo.

Preterido do experimentalismo estético da geração de 1922, ressaltavam linearidade narrativa e verossimilhança; explícita tipificação das classes sociais, construção do ambiente que dava impressão de abrangência e totalidade, consciência da diferença entre classes sociais: miséria e riqueza; denuncia da opressão camponesa e urbana (trabalhadores rurais e operários) e a comunicação com as massas em linguagem coloquial.

Temáticas usadas para mostrar mundos agrários e urbanos. Este denunciava a nova realidade que se constituía nas camadas periféricas, operariado, setores médios e marginais. Àquele a relatar ascensão e queda dos coronéis, drama dos rurais e o confronto entre os brasis: rural e urbano.

Principais obras e autores:

- A bagaceira, José Américo de Almeida50.

- O quinze, Raquel de Queiroz51.

- Menino de Engenho, José Lins do Rego52.

- Caetés, Graciliano Ramos53.

- Jubiabá, Jorge Amado54.



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