Trabalho e troca: Adam Smith e o surgimento do discurso econômico



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TEXTO PARA DISCUSSÃO N 142
TRABALHO E TROCA: ADAM SMITH E O SURGIMENTO DO

DISCURSO ECONÔMICO
Hugo E. A. da Gama Cerqueira
Agosto de 2000

Ficha catalográfica


330.8


C416t

2000

Cerqueira, Hugo Eduardo Araújo da Gama.

Trabalho e troca : Adam Smith e o surgimento do discurso econômico / por Hugo Eduardo Araújo da Gama Cerqueira. Belo Horizonte: UFMG/Cedeplar, 2000.

25p. (Texto para discussão ; 142)
1. Smith, Adam, 1723-1790. 2.Economia - História. 3. Economia - Metodologia. I. Universidade Federal de Minas Gerais. Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional. II. Título. III. Série.



UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

FACULDADE DE CIÊNCIAS ECONÔMICAS

CENTRO DE DESENVOLVIMENTO E PLANEJAMENTO REGIONAL

TRABALHO E TROCA:

ADAM SMITH E O SURGIMENTO DO DISCURSO ECONÔMICO*

Hugo E. A. da Gama Cerqueira

CEDEPLAR/UFMG e da FAFICH/UFMG (E-mail: hugo@cedeplar.ufmg.br )




SUMÁRIO

O PLANO DIVINO E A FILOSOFIA MORAL DE SMITH ................................................................... 8

O TRABALHO E AS TROCAS ............................................................................................................. 13

O PARADOXO DA RIQUEZA E A DIVISÃO DO TRABALHO ........................................................ 15

ÉTICA E ECONOMIA ............................................................................................................................ 20

NOTAS CONCLUSIVAS ....................................................................................................................... 21

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................................................... 23

Palavras-chave: ética e economia; história do pensamento econômico; Adam Smith.

JEL codes / Códigos JEL: B12; B30; B40

Resumo: Este artigo discute as razões que tornaram a obra de Smith um ponto de inflexão na história do pensamento econômico. A constituição de um discurso econômico e a delimitação de um domínio da economia são atribuídos: i) à natureza específica da filosofia moral de Smith; ii) à sua maneira de conceber as ações econômicas compondo um domínio ontológico articulado em torno de dois pólos: o do trabalho e o das trocas. O texto discute ainda os nexos entre a filosofia moral e as concepções econômicas de Smith, e sugere que as leituras convencionais subestimam sua variedade e complexidade.


Abstract: This article explores why Smith's work is a turning point in the history of economic thought. The constitution of an economic discourse and the delimitation of the economy sphere are attributed to: i) the specific nature of Smith’s moral philosophy; ii) his way of conceiving economic action as composing an ontological domain structured upon two axis: labor and exchange. The text indicates the connections between Smith's moral philosophy and his economic thought, suggesting that the conventional interpretations underestimate their variety and complexity.
.

Há, hoje em dia, uma longa e bastante imponente linhagem de economistas, de Adam Smith até o presente, que têm procurado mostrar que uma economia descentralizada e motivada pelo auto-interesse (...) seria compatível com uma disposição coerente dos recursos econômicos que pode ser considerada, num sentido bem definido, como superior a uma grande conjunto de disposições alternativas possíveis.(...) É importante compreender quão surpreendente essa asserção deve ser para alguém não exposto a esta tradição. A resposta imediata do ‘senso comum’ à questão ‘Como será uma economia impelida pela ambição individual e controlada por um grande número de diferentes agentes?’ é, provavelmente: Haverá o caos. (Arrow e Hahn, citados por Evensky, 1993: 203)

Se a paternidade da economia ainda é objeto de disputa entre os historiadores do pensamento econômico,1 poucos deixariam de reconhecer na obra de Adam Smith um momento de inflexão no curso do pensamento econômico. Nela, a economia política adquire as feições de uma ciência autônoma - ciência, em oposição ao caráter eminentemente prático e prescritivo dos escritos mercantilistas, autônoma, pois não mais subordinada à esfera da reflexão política e moral como ainda permanecia no pensamento fisiocrático (Dumont, 1977; Rubin, 1979: 167-176).

Dito de outra maneira, Smith procura fornecer uma descrição do estatuto ontológico da esfera econômica, apresentando-a como um sistema de liberdade natural. Eliminadas as restrições ao comércio impostas pelos mercantilistas ou a preferência dada à agricultura pelos fisiocratas, o funcionamento desimpedido da economia ocorreria, segundo Smith, de modo ordenado e capaz de proporcionar o máximo bem-estar possível para a sociedade. Neste sentido, o estudo da economia poderia prescindir de uma referência direta à moral: “Tal visão ontológica do sistema de livre mercado permite ao economista estudar as leis deste sistema natural da mesma maneira que Newton estudou a natureza.” (Ver Eecke, 1998: 330).

Essa concepção da economia ganhou uma expressão clássica na metáfora da “mão invisível”. Não deixa de ser sugestivo que a única vez em que o conceito aparece na Riqueza das nações seja no contexto de uma crítica às restrições mercantilistas ao comércio.2 Do ponto de vista econômico, esta metáfora é a expressão da admiração de Smith pelo funcionamento eficiente e elegante do mercado como mecanismo de coordenação das decisões individuais dos produtores e consumidores, que impede que uma economia descentralizada e guiada apenas pelas motivações individuais de inúmeros agentes degenere no caos. Mas, do ponto de vista da filosofia moral de Smith, a “mão invisível”, além de coordenar as escolhas individuais, “deve moldar os indivíduos em seres sociais construtivos – seres éticos” (Evensky, 1993: 197).

Explicitar o duplo sentido desta metáfora que permite constituir a economia numa disciplina autônoma constitui o objetivo deste ensaio. A próxima seção discute alguns conceitos básicos da filosofia moral de Smith que permitirão mostrar como até mesmo aquelas ações motivadas apenas por interesses pessoais podem ser virtuosas. A seção seguinte expõe a maneira como Smith concebe as ações econômicas compondo um domínio ontológico articulado em torno de dois pólos: o do trabalho e o das trocas. Finalmente, a terceira seção procura explicitar os nexos entre a filosofia moral de Smith e sua concepção da sociabilidade mercantil para estabelecer o discurso econômico como um domínio autônomo do saber.



O PLANO DIVINO E A FILOSOFIA MORAL DE SMITH
O projeto de Adam Smith era realizar para a filosofia moral e para os fenômenos sociais aquilo que Isaac Newton fizera no domínio da filosofia da natureza. Se o último desvelara as conexões ocultas que unem os vários fenômenos naturais, Smith pretendeu revelar os princípios que conectam e ordenam a vida em sociedade. Sua admiração pela obra de Newton não é velada e se expressa em diferentes contextos. Ao discutir em suas lições sobre retórica a função de uma espécie particular de escrita que ele denomina Didática (Didactick) e que consiste na exposição de um sistema de qualquer ciência, Smith compara o método aristotélico com a maneira adotada por Newton, segundo a qual:

“podemos estabelecer no início certos princípios conhecidos ou provados a partir dos quais explicamos os vários fenômenos, conectando-os todos juntos pela mesma cadeia. Esse último [método], que podemos chamar de método newtoniano, é sem dúvida o mais filosófico e em cada ciência, quer se trate da moral ou da filosofia natural etc., é imensamente mais engenhoso e, por esse motivo, mais atraente que o outro. Nos dá prazer ver os fenômenos que considerávamos os mais inexplicáveis todos deduzidos de algum princípio (normalmente um princípio bem conhecido) e todos unidos em uma cadeia ...” (LRBL II.133-4)

Para Newton e Smith, tais princípios refletiriam o plano (design) de um grande artífice, aquele que planejou e executou essa obra (handiwork), um ser divino. Seguindo uma analogia freqüente entre os autores da Modernidade, Deus estaria para o universo assim como o relojoeiro está para o relógio. A mão divina arranjaria e poria em movimento as peças que compõem a natureza. Para nós, os espectadores de sua obra, essa mão é invisível e apenas podemos acompanhar o resultado de seu trabalho, assim como só podemos observar o movimento dos ponteiros do relógio, mas não podemos distinguir as mãos daquele que reuniu suas peças (Evensky, 1993: 199).

Este tipo de concepção, ligada a um argumento teleológico sobre a existência de Deus, foi aplicada à filosofia moral pelos discípulos de Newton, entre os quais Lord Shaftesbury (1671-1713), Joseph Butler, Lord Kames (1696-1782) e Francis Hutcheson (1694-1746). É através de suas obras - mas também por influência do jusnaturalismo e da filosofia estóica, com suas idéias sobre uma harmonia universal -,3 que Smith formula o projeto de expor a cadeia invisível que liga as ações humanas e conduz a sociedade ao melhor dos mundos. Neste sentido, o plano divino é não apenas uma norma ética para a qual tendem as sociedades, mas também um padrão analítico em relação ao qual o estágio evolutivo de cada sociedade pode ser avaliado (Evensky, 1989: 243-5).

Em sua Teoria dos sentimentos morais,4 Smith parte do princípio de que os homens estão dotados de um conjunto variado de sentimentos. Nossas experiências sensíveis atuam sobre eles, que, por sua vez, determinam nossas reações e comportamentos. O que importa frisar é que, para Smith, os diferentes sentimentos não são em si mesmos bons ou maus. A moralidade de uma ação é ditada apenas pela sua harmonia com o plano divino, ou seja, pelo fato de estar de acordo com as intenções da divindade. Um homem é virtuoso, na medida em que combina e contrabalança seus sentimentos de modo a ser capaz de agir em conformidade com o plano divino, ou seja, agir de modo justo, prudente e benevolente:

“Portanto, o amor-próprio não é necessariamente mau. Ele é um sentimento válido e útil. Apenas quando permitimos que atue com paixão desenfreada é que estamos agindo de uma maneira imprópria para a realização do plano da Providência. A benevolência, como prova do que foi dito, não é a rainha dos sentimentos. Ela é muito frágil, segundo Smith, para cumprir aquele papel e não proporciona o estímulo necessário para instigar o ardor produtivo” (Evensky, 1987: 452-3).

Com efeito, Smith reconhece que o amor-próprio (self-love) ou a busca do interesse pessoal (self-concern) são sentimentos naturais nos homens: “Sem dúvida, todo homem é por natureza recomendado, primeira e principalmente, ao cuidado de si mesmo; e como ele é mais apto ao cuidado de si mesmo que ao de alguma outra pessoa, é apropriado e correto que seja assim.” (TMS II.ii.2.1). Esse “egoísmo” deve, no entanto, ser controlado, pois de outro modo ele poderia nos levar a violar os direitos dos outros homens e, consequentemente, a inviabilizar a convivência em sociedade.

De onde decorre essa capacidade de autodomínio? Para Smith, ao mesmo tempo que os homens são inclinados ao interesse próprio, eles também se preocupam com os outros homens, com sua felicidade ou seu sofrimento: “Por mais egoísta que se possa admitir que o homem seja, existem evidentemente alguns princípios em sua natureza que o levam a se interessar pela sorte de outros e tornam a felicidade destes necessária para ele, apesar de não obter nada disso, a não ser o prazer de vê-la” (TMS I.i.1.1). Como não temos acesso direto aos sentimentos dos outros homens, só podemos formar uma idéia da maneira como eles se sentem imaginando como é que nos sentiríamos se estivéssemos em sua posição. Este sentimento de solidariedade (fellow-feeling), quer pela dor, quer pela alegria dos outros homens é o que Smith denomina de simpatia.5 Um sentimento como este é possível de ser concebido até mesmo por quem julga os homens movidos apenas pelo egoísmo, pois todo homem sente um prazer genuíno de perceber nas pessoas que o rodeiam aquele sentimento de solidariedade para consigo, da mesma maneira que se atormenta quando isso não ocorre (TMS I.i.2.1).

Porém, como sabemos que os outros homens não são capazes de sentir nossas emoções com a mesma intensidade que nós, somos levados a moderar nossos sentimentos para que os demais possam compartilhar deles e exibir sua simpatia para conosco. Ou seja, somos levados a conhecer e moderar nossos sentimentos, projetando-nos no lugar dos outros para procurar compreender como eles nos percebem, de modo a tornar nossos sentimentos mais próximos dos deles: “Para Smith, a origem de nossa habilidade para controlar nossas paixões repousa nessa capacidade auto-reflexiva de enxergar nossa situação através dos olhos dos outros que estão intrinsecamente menos interessados nela.” (Muller, 1995: 102).

Somos levados em nossa busca pela simpatia dos demais a moderar nossos sentimentos, inclusive o nosso egoísmo ou amor próprio, pois aprendemos a julgar nossas ações tal como elas devem parecer aos outros, ou ainda, tal como elas pareceriam a um “espectador imparcial” (impartial spectator). É através deste padrão ideal, ou ainda, do balanço entre o nosso egoísmo e o nosso desejo de que os outros simpatizem conosco, que Smith é capaz de derivar aquela virtude - herdada dos estóicos - que ocupa um lugar destacado em sua filosofia moral: o autodomínio (self command), ou seja, “aquele domínio das paixões que submete todos os movimentos da nossa natureza ao que a nossa própria dignidade e honra, e a correção de nossa própria conduta requerem...” (TMS I.i.5.1).

É este mesmo autodomínio que está na base da possibilidade de manter a ordem social, prescindindo em larga medida de um controle direto do Estado, pois cada indivíduo tem em si uma motivo para observar as normas de comportamento adequadas. Cada homem deriva de sua relação com o espectador imparcial aquela virtude mínima a partir da qual a vida em sociedade se torna possível, o sentido de justiça:

“Todos os membros de uma sociedade humana precisam cada um do auxílio dos outros e estão, da mesma maneira, expostos a danos mútuos. A sociedade floresce e é feliz onde o auxílio necessário é fornecido reciprocamente pelo amor, gratidão, amizade e estima. (...) [Por outro lado] a sociedade pode subsistir entre homens diferentes, assim como entre diferentes comerciantes, por uma compreensão de sua utilidade, sem qualquer amor ou afeição mútuos. (...) A sociedade, entretanto, não pode subsistir entre aqueles que estão sempre prontos para prejudicar e lesar uns aos outros.” (TMS II.ii.3.1-3).

Desse modo, a caridade (beneficence) é uma virtude superior, que consiste em promover a felicidade dos outros e que permite à sociedade florescer e ser feliz. Não se deve, no entanto, esperar que todos os homens ajam em relação aos demais com essa motivação desinteressada e nem isso é condição para que a sociedade exista. O requisito para a existência da sociedade consiste apenas na virtude da justiça: “A caridade, portanto, é menos essencial para a existência da sociedade que a justiça. A sociedade pode subsistir sem a caridade, ainda que não no estado mais satisfatório; mas o predomínio da injustiça deve destruí-la inteiramente.” (TMS II.ii.3.3).

A virtude da justiça consiste naquele sentido de imparcialidade que emerge de nosso diálogo com o espectador imparcial. Ela depende, portanto, da nossa capacidade de avaliar os efeitos de nossas ações colocando-nos no lugar daqueles a quem podemos ofender:

“Perturbar a felicidade dele [a de um outro homem] apenas porque ela encontra-se no caminho da nossa, tirar dele aquilo que lhe é realmente útil apenas porque pode ser tão ou mais útil para nós, ou favorecer, dessa maneira, às custas de outras pessoas, a preferência natural que cada homem tem por sua própria felicidade acima daquela de outras pessoas é aquilo com que nenhum espectador imparcial pode concordar.” (TMS II.ii.2.1).

Sem a justiça – aqui concebida de modo semelhante à tradição do direito natural, como o direito de cada um ao que é seu - a sociedade não pode existir. É com base nisso que o Estado deve fazer cumprir o direito de cada indivíduo a sua vida e propriedade, punindo aqueles que violam esta regra (TMS II.ii.3.6):

“Na corrida por riqueza, fama e honrarias, ele [o indivíduo] pode correr tão esforçadamente quanto for capaz, e empregar ao máximo cada nervo e músculo para ultrapassar todos os seus competidores. Mas se ele porventura atropela ou derruba qualquer um deles, a complacência dos espectadores termina por completo. Trata-se de uma violação do jogo limpo que eles não podem admitir. (...) Portanto, eles logo simpatizam com o ressentimento natural do prejudicado e o infrator torna-se o objeto de seu ódio e indignação.” (TMS II.ii.2.1; cf. Muller, 1995: 111).

Esta breve apresentação do argumento moral de Smith deve ser suficiente para nos assegurar uma compreensão correta da maneira como ele foi capaz de fundar a reflexão econômica como uma disciplina separada da filosofia moral. Durante um longo período, prevaleceu uma interpretação de sua obra que estabeleceu um dualismo e, no limite, uma contradição entre os princípios expostos na Teoria dos sentimentos morais e aqueles apresentados na Riqueza das nações. Esta leitura consistia em afirmar que o primeiro livro tratava das ações humanas motivadas pela simpatia, enquanto o segundo se referia às ações baseadas no egoísmo. Em algumas dessas interpretações, os princípios eram tomados como características complementares. Em outras, foram entendidos como sinais de uma transição na obra de Smith, que – depois de travar contato com os filósofos franceses nos anos sessenta - teria abandonado uma teoria “altruísta” por uma concepção “egoísta” (ou “materialista”).

O equívoco básico destas leituras consiste em contrapor simpatia e egoísmo como motivações das ações humanas. Ora, para Smith a simpatia não é uma motivação, mas a operação por meio da qual é possível explicar nossos juízos morais.6 De outro lado, na Teoria dos sentimentos morais, Smith afirma sem hesitar que a busca do interesse pessoal é uma das motivações de nossas ações, inclusive das ações virtuosas, o que evidencia que não há qualquer contradição entre sua filosofia moral e sua teoria econômica (Raphael e Macfie, 1982: 20-25).

Isso nos deixa diante da seguinte questão: qual a relação entre a Teoria dos sentimentos morais e a Riqueza das nações? Desde logo, é preciso afirmar que o segundo livro não é contraditório com as teses do primeiro, mas representa sua continuação.7 Por outro lado, o seu escopo é menos abrangente, já que se refere essencialmente às ações econômicas, cuja motivação consiste no interesse pessoal. É exatamente isso que permite a Smith tratar dos fenômenos econômicos a partir de um ponto de vista próprio ou específico, pois além de poderem ser descritos de maneira sistemática, eles têm uma natureza peculiar. Essa natureza consiste no fato de que as ações econômicas permitem alcançar o máximo bem-estar para a humanidade sem qualquer recurso à benevolência ou à caridade, mas deixando-se motivar apenas pelo amor-próprio (self-love) com que a Divindade dotou todos os homens: “Não é por conta da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos obter nosso jantar, mas sim da atenção que eles dedicam ao seu próprio interesse.” (WN I.ii.2; trad. modificada). Vale dizer, Smith lida na Riqueza das nações com situações em que o único requisito moral consiste na virtude da justiça, situações em que o vínculo social se apoia apenas na “troca mercenária de bons serviços conforme uma avaliação acordada.” (TMS II.ii.3.2; cf. Campbell e Skinner, 1981: 19).

O que é decisivo é que, perseguindo apenas seus interesses próprios e tendo assegurada uma condição mínima de justiça, as ações econômicas terminam proporcionando o bem-estar para a nação, sem que o Estado tenha que intervir diretamente sobre elas ou direcioná-las e sem que os homens tenham que contar com a generosidade e benevolência de seus semelhantes:

“Na esfera da moralidade, o sujeito é convertido num ser social através da ação da simpatia. (...) Na esfera da economia, ao contrário, o que chamaríamos em nosso jargão de ‘socialização’ dos atos humanos é executada por um mecanismo automático, uma propriedade não consciente que é equiparada à operação da Mão Invisível. A esfera econômica é o domínio particular onde a paixão predominante, o egoísmo, pode com boa justificativa ser deixada livre sob a forma do interesse pessoal. Globalmente, Adam Smith distinguiu a ação econômica no interior das ações humanas em geral como sendo o tipo particular de ação que escapa à moralidade sem ser contrária à moral em sentido amplo.” (Dumont, 1977: 70).

Analisar de que modo ações guiadas exclusivamente pelo amor próprio, seguindo o curso natural consistente com os princípios do plano divino, geram conseqüências involuntárias que produzem o bem comum é a tarefa da Riqueza das nações. É neste momento, na descrição do mecanismo econômico, na análise da interdependência dos fenômenos econômicos, que o conceito de trabalho ganha um papel decisivo.

O TRABALHO E AS TROCAS
As páginas iniciais da Riqueza das nações são eloqüentes sobre o novo papel assumido por este conceito: é o trabalho, trabalho em geral, a única fonte da riqueza de uma sociedade. De um lado, Smith se distancia das convicções mercantilistas, que supunham que a riqueza de uma nação só poderia provir de seu comércio externo (vale dizer, que a vantagem de uma nação só poderia advir da desvantagem das demais), mas também supera a visão unilateral da fisiocracia, que atribuía ao trabalho do agricultor - e só a ele - a capacidade de produzir riquezas.8

Essa inflexão já se apresenta nas primeiras linhas: “O trabalho anual de cada nação constitui o fundo que originalmente lhe fornece todos os bens necessários e os confortos materiais que consome anualmente.” (WN I.1). Seguindo uma sugestão de Rubin (1979: 177), basta comparar o trecho acima com o início do Tesouro da Inglaterra [England’s Treasure by Forraign Trade] 9 para percebermos que estamos diante de uma nova maneira de abordar os fenômenos econômicos. Se para Thomas Mun “os meios ordinários para aumentar nossa riqueza e tesouro são pelo comércio exterior...” (Mun, 1954: 58), Smith, por sua vez, não busca mais a origem da riqueza no comércio, e nem cogita confundi-la com o tesouro, pois já a entende como o conjunto dos bens materiais disponíveis para o consumo. Para ele, a fonte da riqueza é o trabalho de uma nação, dividido entre os indivíduos que a compõem e que se distribuem pelos diferentes ramos de produção: trabalho em geral, sans phrase (sem rodeios), e não apenas o trabalho aplicado na agricultura. E é sobre este par de conceitos, riqueza e trabalho, que Smith apoiará sua reflexão: o desejável crescimento da riqueza é, antes de tudo, o resultado da divisão do trabalho.

Alguém poderia objetar que isso não basta para estabelecer a originalidade da abordagem de Smith. De um lado, o abandono de uma perspectiva estritamente monetária sobre a riqueza (tesouro), que é característica do mercantilismo, e sua identificação com as mercadorias produzidas pelo trabalho humano já poderia ser observada em trabalhos anteriores, como os de Petty10, Cantillon11 e Hume12.

No mesmo sentido, há um relativo consenso na literatura de que as proposições de Smith sobre a divisão do trabalho não contêm qualquer novidade em relação ao tratamento que seus antecessores deram ao tema.13 Petty (1683), por exemplo, já havia se referido ao fato de que a reunião de manufaturas numa grande cidade dá origem ao surgimento de novos ramos de manufaturas, cada qual dividido em tantas partes quanto possível, de modo a tornar o trabalho de cada artesão mais simples e fácil e o resultado de sua produção melhor e mais barato do que se fosse feito por um único homem. Na Aritmética política, ele retorna ao assunto:

“Os panos têm que ser mais baratos quando um carda, outro fia, outro tece, outro estende, outro prepara, outro passa a ferro e embrulha, do que quando todas as operações mencionadas são realizadas desajeitadamente pela mesma mão.” (Petty, 1983b: 121).

Considerações semelhantes podem ser encontradas em obras deste período, como os textos de Mandeville (1924: II,141-2), Ferguson (1995: 172-9) e Turgot (1978: 123-4).14

Nem mesmo a famosa descrição do funcionamento de uma manufatura de alfinetes, que ilustra o princípio da divisão do trabalho no primeiro capítulo da Riqueza das nações, tem qualquer traço de originalidade. Ao contrário do que uma leitura desatenta poderia sugerir, não se trata de um relato cuidadoso de observações empíricas feitas por Smith, já que ele mesmo afirma estar apenas retomando “um exemplo, tirado de uma manufatura muita pequena, mas na qual a divisão do trabalho tem sido muitas vezes notada.” (WN I.i.3; grifo nosso).15

Enfim, se não é nos conceitos de riqueza e divisão de trabalho que podemos encontrar aquilo que é original na Riqueza das nações, onde estaria a novidade capaz de tornar essa obra um divisor de águas na história do pensamento econômico? A resposta de Marx e Schumpeter é que ela reside no peso dado à divisão do trabalho. A de Rubin – que nos parece mais precisa – é que a diferença consiste no lugar ocupado pelo princípio da divisão do trabalho:

“mas que feliz intuição aquela que o levou a colocar a descrição da divisão do trabalho bem no início do livro. Por conta disso, a sociedade mercantil emerge imediatamente como uma sociedade baseada, de um lado, na divisão do trabalho, e de outro, na troca entre unidades econômicas individuais – em outras palavras, como uma sociedade baseada no trabalho e na troca (uma ‘sociedade comercial’, para empregar o termo usado por Smith).” (Rubin, 1979: 178).

Trabalho e troca formam então um par inseparável, pois é a propensão inata dos homens à troca e à barganha que dá origem à divisão do trabalho. Esta última torna-se o fio condutor da exposição, pois é a principal causa da “opulência universal”. Troca e trabalho são apresentados, então, como os princípios básicos a partir dos quais a imensa variedade de fenômenos econômicos pode ser explicada (Coutinho, 1993: 110-1).

Como Dulgart Stewart - o primeiro biógrafo de Smith - já notara há mais de duzentos anos, o problema de estabelecer a natureza da originalidade e o mérito de Adam Smith como fundador da economia política pode ser resumido da seguinte maneira: “o mérito de um trabalho como o do Sr. Smith deve ser avaliado não tanto pela novidade dos princípios que contém, mas pelos raciocínios empregados para sustentar estes princípios e pela maneira científica pela qual eles são expostos em sua ordem e conexão apropriadas.” (Stewart, 1982: 322-3). Ordem e conexão, vale lembrar aqui, são idéias que nos remetem mais uma vez à sua intenção fundamental: fazer para os fenômenos sociais aquilo que Newton fizera para a natureza.



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