Três livros fundamentais para entender a “Longa Duração”



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PÓS-MODERNISMO e HISTORIOGRAFIA
RESUMO
Busca-se discutir o conceito de Pós-Modernidade em sua aplicabilidade relativa à Historiografia, além de apresentar um panorama envolvendo as diversas posições dos historiadores com relação ao pós-modernismo historiográfico. Quais são as principais características da historiografia pós-moderna, e que historiadores podemos trazer como exemplos possíveis de se enquadrarem nesta categoria? Qual o estado do atual debate sobre o Pós-Modernismo Historiográfico? Qual o contexto de surgimento e atualização deste debate nas décadas recentes? O artigo procura situar estas questões diante de referências bibliográficas que se tem tornado já clássicas para o tema.
Palavras chaves: Pós-Modernidade; Historiografia Pós-Modernista; Historiografia Contemporânea

ABSTRACT
This article aims to discuss the concept f “Post-Modernity” in its applicability related to Historiography, beyond to present a panoramic view involving the various positions of the historians in relation to the historiographical postmodernism. What are the main features of the post-modern historiography, and which historians can be proposed as examples of this category? What is the situation of this dabet about post-modern historiography? What is the context of emergence and maintenance of this debate in recent decades? The article aims to bring this questions acompainned by the references that had already become classics for the theme.
Key-Words: Post-Modernism; Post-Modern Historiography; Contemporary Historiography

PÓS-MODERNISMO e HISTORIOGRAFIA
Pós-Modernidade: referências iniciais
“Pós-Modernismo”, e seu correlato “Pós-Modernidade”, constituem conceitos que têm se apresentado de maneira polissêmica, e não raro com ambigüidades, na intrincada polêmica que se inicia nas últimas décadas do século XX e que, nos anos 1980, atinge o seu nível mais intenso. Há já livros que se ocuparam de discutir estas noções e de historiar a polêmica, tal como o pequeno ensaio de Perry Anderson, publicado em 1998 com o título As Origens da Pós-Modernidade. Há também os que oferecem visões panorâmicas e setoriais sobre as várias teorias e esferas de aplicação envolvidas na Pós-Modernidade, como a obra Cultura Pós-Moderna, publicada em 1989 por Steven Connor. E não há como esquecer o lúcido ensaio de Boaventura de Souza Santos, que procura balizar certos aspectos metodológicos que apontariam para um novo paradigma científico discutido em sua Introdução a uma Ciência Pós-Moderna (1989).

Da mesma forma, a polêmica da Pós-Modernidade já tem os seus clássicos, tal como a provocativa obra publicada em 1979 por Jean-François Lyotard com o título A Condição Pós-Moderna – na verdade um dos primeiros ensaios filosóficos a adotarem esta noção que já adentrara há algum tempo o campo da arte e da arquitetura, e que já tinha registrado aparições isoladas em outros campos do saber. Clássicos, também, são os livros de Fredric Jameson, a começar pela primeira conferência do historiador marxista sobre o Pós-Modernismo em 1982, mais tarde desenvolvida em um ensaio mais extenso que foi publicado pela revista New Left (1984) sob o título “Pós-Modernismo: a Lógica Cultural do Capitalismo Tardio” (2006). O ensaio de Jameson é uma resposta veemente ao livro de Lyotard, e ambos constituem o núcleo mínimo da já histórica discussão sobre o Pós-Modernismo. Mas posteriormente adentrariam o debate outros autores, também no âmbito do Materialismo Histórico, que procuraram aprofundar as linhas mestras levantadas por Jameson em três direções de estudo: a Política, com o texto “Contra o Pós-Modernismo” de Alex Callinicos (1989), a Economia, com o ensaio Condições da Pós-Modernidade de David Harvey (1990), e a Ideologia, com o livro “As Ilusões do Pós-Modernismo” de Terry Eagleton (1996). Outras referências importantes estão nas obras do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a partir do ensaio “Mal Estar da Pós Modernidade” publicado em 1997, ou no nome do sociólogo francês Jean Baudrillard, com obras como Simulacros e Simulação (1981).

O texto que aqui desenvolveremos buscará refletir sobre as relações entre História e Pós-Modernidade, de modo que são incontornáveis – para além da óbvia menção a Michel Foucault – os textos historiográficos que discutem a interação entre História e Discurso, ou mesmo reduzem uma instância à outra, de modo que estaremos nos aproximando reflexivamente de obras como A Meta-História, publicada em 1973 por Hayden White, ou como o pequeno livro publicado em 1991 por Keith Jenkins com o título A História Repensada, ou ainda o provocativo artigo “Historiografia e Pós-Modernismo”, publicado em 1989 na Revista History and Theory por Ankersmit, com a conseqüente geração de réplicas que polarizaram uma discussão com Perez Zagorin.

O objetivo principal será pontuar algumas questões que fazem parte do circuito de polêmicas historiográficas pós-modernas, como a aproximação entre História e Ficção, a multiplicação de modelos narrativos e outras formas de exposição para trabalhos historiográficos, o crédito ou descrédito da Historiografia como texto que projeta um referente sobre o Passado Vivido, a Crise dos grandes paradigmas historiográficos, ou a pulverização da História em objetos desconectados, e que de acordo com François Dosse teria conduzido a “Uma História em Migalhas” (1987). Partiremos, inicialmente, de um clareamento do campo conceitual correlacionado à Pós-Modernidade.



Pós-Modernismo: o conceito, e algumas análises clássicas
Não é fácil definir o conceito de Pós-Modernismo, como já bem notavam Willem Van Reijen (1947-1987) e W. Hudson em um paralelo contrastante elaborado em 1986 com vistas a opor “Modernos e Pós-Modernos” (HUDSON e REIJEN, 1986)1. O primeiro clareamento conceitual a ser trabalhado, em nosso entender, diz respeito à diferença entre Pós-Modernidade – muito habitualmente referida a um período específico no limite da História Contemporânea – e Pós-Modernismo, que diz respeito a um campo ou circuito cultural2. Lyotard, em seu texto inaugural, também já havia introduzido um elemento complicador, pois ao se referir a uma “condição pós-moderna”, generaliza o predomínio de uma certa tendência comportamental, mercadológica e cognitiva para todo o mundo humano capitalista pós-industrial, ou seja, aquele que corresponde ao contexto do período que chamou de pós-modernidade3. Mas a verdade é que se pode postular que Pós-Modernidade e Pós-Modernismo não se recobrem necessariamente em todas as análises. Assim como se entende que, no interior do período ou ambiente histórico denominado “modernidade” – aquele que se inicia com a Revolução Industrial – apenas cerca de 100 anos depois o Modernismo veio a se expressar enquanto movimento artístico ou tendência cultural, e mesmo assim sem abarcar o todo e constituir a única alternativa, pode-se igualmente postular que “nem tudo é pós-modernista na época pós-moderna”, e que em nosso Presente convivem o moderno, o pós-moderno, ou mesmo o tradicional.

Esse ponto será particularmente importante para a nossa posterior discussão sobre História Pós-Moderna. Se considerarmos a historiografia pós-moderna como uma das tendências historiográficas possíveis no mundo contemporâneo, veremos que, aqui, não são de fato co-extensivos a Pós-Modernidade – se aceitarmos esta denominação como equivalente a um período específico – e o Pós-Modernismo, enquanto adjetivo que se cola a um sujeito produtor de arte ou conhecimento, a uma certa prática ou a determinada corrente cultural, tal como é o caso por exemplo de uma pretensa historiografia pós-moderna. Por este viés, torna-se perfeitamente legítimo o debate e contraposição entre historiadores pós-modernos e historiadores pertencentes a outras propostas historiográficas, que questionam a idéia de que o pós-modernismo histórico tenha se tornado ou vá se tornar a corrente historiográfica predominante em nosso tempo. O historiador inglês Michael Bentley, por exemplo, compara e contrapõe o uso de pós-moderno para definir um certo repertório de “ferramentas e enfoques” ao uso de “iluminista” ou “romântico” para designar homens do século XVIII ou XIX, mostrando que na verdade as convicções iluminista e romântica já não alcançavam senão um parcial domínio sobre as especulações de seus séculos. Menos abrangente ainda, o pós-moderno deveria ser relacionado mais adequadamente a uma “fase particular do pensamento” (BENTLEY, 1999, p.140). O questionamento do Pós-Moderno como extensivo a uma faixa maior da cultura contemporânea também é recolocado por Terry Eagleton4. Por fim, vale lembrar que poucos historiadores assumem explicitamente o rótulo de pós-modernistas, embora certamente haja um modo específico de fazer a história para o qual a designação parece ser razoavelmente adequada.



A Condição Pós-Moderna (1979), de François Lyotard, foi um dos primeiros livros a abordarem como uma mudança geral na condição humana o Pós-Moderno, caracterizado pelo autor, entre outros aspectos, pela “morte dos centros” e por uma significativa perda da credibilidade nas grandes Meta-Narrativas ou explicações totalizadoras que procuravam dar conta da história ou de outras instâncias do mundo humano. Relativamente à História, as Meta-Narrativas mais conhecidas eram aquelas que traçavam a História como um grande movimento coerente e teleológico do Singular Coletivo – em especial a Meta-Narrativa Iluminista e as derivações da Meta-Narrativa Hegeliana, mas também a Meta-Narrativa Marxista. A Meta-Narrativa Iluminista, gestada no século XVIII, como também a sua contraparente Positivista no século XIX, contava a história do progressivo avanço do Conhecimento e situava a Humanidade como sujeito triunfante a caminho da plena Liberdade no futuro; a Meta-Narrativa Hegeliana contava a história igualmente progressiva (mas também dialética) da aventura do Espírito Absoluto como sujeito universal que tomava conhecimento de si na sua igualmente triunfante caminhada para a Verdade. A filosofia da História proposta pelo Materialismo Histórico incluía na sua Meta-Narrativa a inevitável caminhada da Humanidade para a sociedade sem classes, considerando-a um pouco, por assim dizer, como uma caminhada olímpica na qual a “tocha da liberdade” deve ser entregue a cada período histórico para a classe revolucionária da ocasião. Vale ainda dizer, as meta-narrativas condenadas à morte histórica pela pós-modernidade lyotardiana incluíam também a Psicanálise, já que esta também tinha a pretensão de “tudo explicar”, só que através da decifração do Inconsciente.

É uma longa e polêmica discussão a que se pode estabelecer sobre as razões para o descrédito das Meta-Narrativas, e não procuraremos esgotá-las aqui. Para além de crises diversas que abalam a primeira metade do século XX como a Segunda Guerra Mundial, os Totalitarismos à Direita e à Esquerda, as crises no Socialismo Real, e de movimentos vários como o da Contra-Cultura, podem ser indicadas também outras razões. Frank Ankersmit, em seu artigo sobre “Historiografia e Pós-Modernismo” (1989), menciona o fato de que, à medida que a Europa deixava de ser o centro do mundo, no segundo pós-guerra – e que a História da Europa não podia mais ser vendida como a História do Mundo – as grandes meta-narrativas sobre o ‘triunfo da Razão’ ou sobre a ‘emancipação do Proletariado’ revestiram-se de importância apenas local, e portanto deixavam de ser “meta-narrativas apropriadas” (ANKERSMIT, 1989, p.129).

Há os autores que chegam a falar, mais do que em uma “crise das meta-narrativas”, em uma “crise das ideologias”5. Remo Bodei, por outro lado, sustenta no seu ensaio A História tem um Sentido? (1997, p.76), que o que entra em crise nas últimas décadas do século XX não são propriamente as ideologias ou mesmo as filosofias da história, mas sim a aliança estabelecida desde fins do século XVIII entre “história e utopia”. O que estaria sendo questionado, nos tempos recentes, seria um antigo padrão historiográfico que se fora formando e no qual as utopias haviam deixado de serem irrealizáveis “não-lugares” aprisionados no imaginário literário (a Cocanha medieval) ou então espacialmente apartados (a Atlântida, de Platão, ou a Utopia, de Morus), para se converterem em “não-lugares” temporalizados, situados no futuro, e agora não mais realidades impossíveis de serem atingidas. As utopias que a certo momento foram transformadas em projetos realizáveis em longo prazo, ou ao menos em pontos modelares para a direção dos quais a história deveria apontar, haviam constituído todo um grande padrão historiográfico que abrangia inúmeras variações – das positivistas às historicistas e marxistas – e agora era esta aliança entre história e utopia que se via contestada. Um mundo historiográfico descrente das utopias, mas não necessariamente sem ideologias, seria essencialmente a faceta do pós-moderno, de acordo com a análise desenvolvida por Remo Bodei6.

Dependendo do conceito central no qual se fundamente a nossa análise das crises da modernidade e da pós-modernidade, reconfigura-se certamente, a avaliação dos impasses e dilemas da historiografia contemporânea. ‘Crise das meta-narrativas’, ‘crise das ideologias’, ‘crise da aliança entre utopia e história’ apresentam certamente nuances importantes que podem reorientar as análises do pós-modernismo historiográfico em uma direção ou outra. Do mesmo modo, é possível deslocar o olhar analítico para o que está por trás das ‘meta-narrativas’ ou da ‘aliança entre utopia e história’, conforme o caso. Surge então a idéia de que a pós-modernidade introduz a ‘Crise da idéia de Progresso’. A idéia de Progresso, como tão bem esclarece Robert Nisbet em seu ensaio sobre A História da Idéia de Progresso (1985), passara a desempenhar no século XVIII um papel central na maior parte das visões de mundo desenvolvidas no Ocidente, constituindo um fator importante para a Identidade das sociedades, grupos e indivíduos (DIEHL, 2002, p.21-44). Deste modo, conforme observa Alain Tourraine em seu artigo “Modernidade e Especificidades Culturais” (1989, p.43-457), a ‘Crise da idéia de Progresso’ não poderia deixar de levar à Crise da Identidade, repercutindo em setores diversos e dando origens a outras crises, tal como a Crise da Legitimidade dos Sistemas Políticos. Estas idéias também foram bem desenvolvidas por Tourraine em seu ensaio Crítica da Modernidade (1995), e certamente ilumina aspectos importantes do complexo contexto social, cultural e político dos tempos recentes.

A mais brilhante análise da pós-modernidade encontra-se provavelmente nas teses de Fredric Jameson7 sobre a temática, estas que procuram enxergar, como já diz o título de seu principal livro: o “Pós Modernismo como Lógica Cultural do Capitalismo Tardio”8. Não poderemos nos deter demasiado nesta precisa análise, uma vez que logo teremos que abordar a questão da História e Pós-Modernidade, contudo, lembraremos o vivo quadro que Jameson desenha de um mundo no qual, em um novo momento do capitalismo multinacional, ocorrera uma extraordinária expansão tecnológica e comunicacional que passara a se tornar a principal fonte de lucro e inovação sob o contexto do predomínio empresarial das corporações multinacionais e o concomitante deslocamento do trabalho industrial para o universo de baixos salários dos países periféricos. Nesse mundo que incluía um poder sem precedentes da Mídia, a cultura expandira-se a ponto de se tornar co-extensiva à economia, gerando uma sociedade globalizada na qual todo objeto material ou serviço imaterial transforma-se em produto vendável. Guardemos este ponto, pois vai nos ajudar mais adiante a explicar porque a Historiografia se transforma ela mesma em produto de consumo que, em alguns casos, predispõe alguns dos sujeitos produtores do conhecimento histórico a toda ordem de concessões à Grande Mídia, pulverizando seus objetos de estudo para oferecer às diferentes faixas do público consumidor o produto historiográfico de sua predileção em um novo padrão de operação historiográfica no qual por vezes se deslocam para segundo plano instâncias que até então sempre haviam sido centrais para a história, como a precisão no trabalho com a base documental ou a obrigação de se ater a enunciados verdadeiros (embora mediados pelas diversas subjetividades que o historicismo moderno e outras correntes haviam reconhecido como inerentes ao trabalho do historiador).

A Cultura, agora convertida na carne e na trama da vida e da existência no Capitalismo Avançado, transformava-se em uma “segunda natureza” (JAMESON, 2006, p.13). Afirmavam-se nos setores mais relativistas, céticos e desiludidos da intelectualidade ocidental, a “Morte do Sujeito”, o rompimento das identidades tradicionais, os abalos violentos naquilo que Koselleck chama em seu livro Futuro Passado de “campo da experiência” e “horizonte de expectativas”, ocasionando na pós-modernidade capitalista a sensação de um Passado sem Memória e um Futuro sem Esperança como tendência existencial predominante9. Estamos aqui diante de uma das principais características do Pós-Moderno apontadas por Jameson: a “perda da historicidade” (2006, p.13-14). Como poderia a Historiografia, tão dependente do senso de Passado e das expectativas de Futuro, atravessar este vendaval sem produzir os seus questionáveis simulacros de História, prontamente incorporados pelo Mercado Mundial como agradáveis objetos de consumo? Tinha-se também aqui, de acordo com um dos desdobramentos analisados por Jameson, “a ascendência do espacial sobre o temporal”, conseqüência da instituição cotidiana da simultaneidade de eventos através da unificação virtual do planeta. Como não ver aí mais contragolpes a serem enfrentados criativamente pela Historiografia contra um mundo de superficialidades e de ausência de afetos, agora fascinado pelo “Histérico Sublime”? Oscilando entre a euforia do entusiasmo consumidor e a depressão niilista, o mundo pós-moderno encontra aqui a sua patologia existencial.

Uma parte importante da análise de Jameson, e que talvez seja útil para a análise de certos setores pós-modernos da historiografia contemporânea, foi a identificação do “Pastiche” como uma forma pós-moderna privilegiada. Em uma reflexão sobre este aspecto da análise jamesoniana, Perry Anderson assinala em seu livro As Origens da Pós-Modernidade a emergência de algumas tendências literárias:

“baralhar não apenas estilos mas as próprias épocas à vontade, revolvendo e emendando passados artificiais, misturando o documental com o fantástico, fazendo proliferar anacronismos, numa revitalização do que – ainda deve ser chamado de – romance histórico” (ANDERSON, 1998, p.73)

Sem registrar aqui um posicionamento em favor ou contra esta ou aquela alternativa historiográfica, vale aqui examinar o mercado livresco para verificar como tem crescido o número de historiadores que, ainda que sem possuir uma boa formação literária, tem se arriscado a experimentar uma espécie de romance histórico na qual não fica claro para o leitor se ele está atuando como historiador – de acordo com os parâmetros habituais da prática disciplinar – ou como literato. Naturalmente que, entre aqueles que são por natureza polivalentes e capazes tanto para a história como para a literatura, há também soluções extremamente interessantes. Mas deixemos este aspecto para outro momento da análise.

Fenômeno também abordado por Jameson é o do esboroamento dos limites da investigação cultural no ambiente intelectual pós-moderno. Aqui, o crítico marxista expressa-se em termos de uma “diluição das fronteiras entre as disciplinas”10. Disciplinas as mais diversas parecem, segundo a perspectiva de Jameson, “cruzar-se em investigações híbridas e transversas que não mais podiam ser situadas em um ou em outro domínio” (ANDERSON, 1998, p.73)11. Eis, enfim, alguns dos aspectos assinalados por Fredric Jameson em uma das mais lúcidas análises elaboradas sobre o contexto da Pós-Modernidade Capitalista e alguns de seus resultados no mundo da Cultura. Para além dos aspectos mencionados, seria possível trazer para este contexto ainda outros fatores, como a “revolução informacional” examinada por Jean Lojkine, dez anos depois, no livro que leva este nome (LOJKINE, 1995), e que avalia para as décadas recentes o aparecimento de uma nova época, já distinta do período industrial, na qual se interpenetram informação e produção. Passaremos,em seguida, a abordar algumas questões já mais propriamente historiográficas. Será oportuno iniciar a discussão com algumas questões lançadas por Ankersmit no seu texto sobre “Historiografia e pós-modernismo” (1989).


Historiografia e Pós-Modernismo: a polêmica de Ankersmit
Frank Ankersmit (n.1945), no artigo que publicou na revista History and Theory em 1989 sobre “Historiografia e Pós-Modernismo”, conseguiu ao mesmo lançar no meio acadêmico uma polêmica que teve bastante repercussão, levantar algumas expectativas e propostas para as décadas seguintes, e também estabelecer um bom balanço de algumas questões importantes que se fizeram incidir na prática historiográfica através das vertentes pós-modernistas e as tendências comportamentais da Pós-Modernidade como um todo. Antes de abordá-las, vale a pena lembrar a data em que foi escrito: 1989.

O ano de 1979 havia sido um momento primordial para as nascentes reflexões sobre o Pós-Modernismo e outras radicais críticas à racionalidade contemporânea. Daquele ano podemos citar o próprio texto de Lyotard sobre a Condição Pós-Moderna, mas também a publicação de uma conferência de Michel Foucault intitulada A Verdade e as Formas Jurídicas, o artigo de Lawrence Stone sobre “O Retorno da Narrativa” e o lançamento do livro O Retorno de Martim Guerre, de Natalie Davis, com um Prefácio de Carlo Ginzburg denominado “Provas e Possibilidades” no qual são encaminhadas algumas críticas à Meta História de Hayden White (1973). Uma década depois, 1989 logo se transformaria em um importante ano de balanços, referenciando esta polêmica sobre pós-modernidade que fora tão intensa nos anos 80. São deste ano não apenas o balanço de Ankersmit, do qual aqui trataremos, como também outro polêmico artigo de David Harlan, que teceu para a American History Review inquietantes considerações sobre os abalos provocados na História por aquilo que chamou de “Retorno da Literatura” (1989). De igual maneira, o mercado editorial receberia neste mesmo ano o livro Cultura Pós-Moderna, de Steven Connor, e o ensaio “Contra o Pós-Modernismo” de Alex Callinicos, que logo seria seguido, em 1990, pelo ensaio Condições da Pós-Modernidade de David Harvey. Dois anos antes, François Dosse havia publicado seu livro A História em Migalhas (1987), e é oportuno lembrar que 1989 – para aproveitar o já emblemático bicentenário da Revolução Francesa – também seria alçado a data comemorativa em torno dos sessenta anos da Escola dos Annales, o que também motivaria novos balanços historiográficos importantes sobre o movimento da Nouvelle Histoire. Naturalmente que, à contraluz deste ambiente intelectual, também estariam as repercussões da queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, que também forçariam uma rediscussão sobre os caminhos históricos do Socialismo Real e que constituíam o lance final de um processo que já havia motivado Francis Fukuyama a publicar no mesmo ano de 1989 o seu bombástico artigo no qual anunciara “O Fim da História” (1989)12.

Para além do contexto social e editorial acima citado, 1989 também foi o ano de publicação de uma importante obra de Frank Ankersmit intitulada O Efeito de Realidade na Escrita da História (1989), obra na qual o autor incorpora o conceito de “efeito da realidade” que havia sido proposto por Roland Barthes nos ensaios “O Efeito de Realidade” e “O Discurso da História”, ambos publicados no livro O Rumor da Língua, também editado no ano de 1989. O ano de publicação do polêmico artigo de Ankersmit sobre “Historiografia e Pós-Modernismo”, portanto, é um marco que explicita a sua adesão a interesses temáticos voltados para as relações entre História e Discurso, e isto se refletiria por toda a sua produção historiográfica e filosófica subseqüente através de obras que se movimentam entre noções como “metáfora” e “representação”, tal como nos seus ensaios mais recentes sobre “A Representação Histórica” (2001) e “A Representação Política” (2002).

Naquele momento de grandes balanços que foi o ano de 1989, Ankersmit resolve escrever o seu artigo sobre “Historiografia e Pós-Modernismo”. Irá situar entre os grandes traços da pós-modernidade (uma época) a tendência ao “anti-essencialismo” e ao “anti-fundacionalismo” (ANKERMAN, 1989, p.130), o que de alguma maneira dialoga com a idéia de que a crise das meta-narrativas seria o traço principal da Condição Pós-Moderna, tal como proposta dez anos antes por Lyotard (1979). Mas, ao mesmo tempo, Ankersmit irá falar nesse artigo de “pós-modernismo” e de uma “historiografia pós-modernista”. Isto é, pretende abordar uma tendência de quebra de paradigma que se relaciona a uma nova postura historiográfica que é gerada nesta pós-modernidade, mas que não exclui outras posturas nesta mesma época (embora, ao final do seu artigo, Ankersmit deixe no ar uma espécie de conclamação aos historiadores para aderirem ao novo tipo de história, que é precisamente o que provocou réplicas como a de Zagorin). Vejamos, antes de mais nada, a parte do artigo de Frank Ankersmit que constitui o balanço do momento atual, e que começa por discutir a questão da super-produção na área de História, até certo ponto uma conseqüência da própria superpopulação de historiadores, já que haveria nos dias de hoje mais historiadores em atividade do que o total efetivo de historiadores desde Heródoto até os anos 60 (ANKERSMIT, 1989, p.115).

O ponto de partida desta primeira querela pós-moderna é uma questão que já havia sido tratada por Michel Foucault e que logo seria retomada pelo filósofo francês em A Ordem do Discurso (1992) em uma passagem na qual ressaltava a crescente afirmação de um gênero na ordem do discurso: o dos “Comentários”. As últimas duas décadas haviam trazido, de acordo com as colocações iniciais de Ankersmit, uma proliferação de ensaios sobre outras obras. Para se aproximar de um determinado pensador, não mais se abordava diretamente a obra deste, mas tinha-se à disposição um grande número de textos sobre o texto: infindáveis discussões sobre a Interpretação da obra dos vários autores iconizados como significativos. O Comentário do Comentário – e as suas infindáveis cadeias de réplicas e tréplicas – tornara-se um gênero que seduzia bastante a intelectualidade, e o texto original que motivara uma determinada guerra de interpretações praticamente parecia desaparecer, soterrado por inúmeros outros textos e transformado em mero pretexto – fetichizado, sim, mas esboroado e empalidecido ou, para utilizar a metáfora empregada por Ankersmit, “uma aquarela na qual as linhas se fundem” (ANKERSMIT, 1989, p.113).

O efeito mais imediato desta superprodução incentivada pela academia e pelo mercado parece ser, desta maneira, a inevitável cobertura de qualquer texto ou tema mais significativo por uma “espessa e opaca crosta de interpretações”. Resumindo a primeira questão indicada por Ankersmit, “não temos mais texto, mais passado, apenas interpretações deste” (ANKERSMIT, 1989, p.113). Realizava-se, na Pós-Modernidade, a questão para a qual Nietzsche lançara um fatídico alerta em 1874, nas suas Considerações Extemporâneas sobre as “Os Usos e Desvantagens da História para a Vida”: a historiografia em si parecia impedir a visão sobre o passado, convertendo-se na própria realidade (ANKERSMIT, 1989, p.114).

A superprodução historiográfica recente, que seguiu pelas duas décadas posteriores ao ensaio de Ankersmit, foi apenas um dos aspectos tratados em “Historiografia e Pós-Modernismo”, que entre outros assuntos buscou refletir sobre os caminhos da especialização na pós-modernidade, os usos e o fetiche da informação, a desconstrução da discussão sobre a cientificidade da História, os imbricamentos entre Linguagem e História, ou o rompimento com a tradicional distinção entre “forma” e “conteúdo” – aspecto que traz para primeiro plano a questão da escolha ou da importância do estilo narrativo e das escolhas formais para os historiadores que se aproximam do viés pós-modernista (mas também para outros).

Os pontos mais polêmicos do artigo de Ankersmit, contudo, e que provocaram uma réplica de Zagorin na mesma revista History and Theory, em 1990, referem-se ao paralelo final entre historiografia modernista e historiografia pós-modernista, com algumas implicações que o levaram a propor um caminho para o futuro. Os três pontos principais, replicados por Zagorin e com suas próprias palavras críticas, seriam respectivamente (1) a idéia de que o historiador, daqui em diante, deveria renunciar à idéia de explicação e ao princípio de causalidade; (2) a renúncia à Verdade Histórica; e (3) a redução da historiografia a uma atividade estética (Zagorin, 2001, p.140). Vejamos, contudo, como o próprio Ankersmit encaminha sua argumentação,

Ankersmit sustenta, antes de mais nada, uma posição distinta de modernistas e pós-modernistas no que se refere ao trato ou à maneira de conceber as fontes históricas (“evidências”, segundo o seu vocabulário). A historiografia modernista sempre se teria baseado fundamentalmente na idéia de que o historiador utiliza as evidências para encontrar por trás dela uma realidade histórica, que é o seu objetivo último. Já para o olhar pós-modernista, as evidências não apontariam para o passado, mas para interpretações do passado (ANKERSMIT,1989, p.124).

Ankersmit utiliza como exemplificação o posicionamento transmitido por George Duby em uma célebre entrevista a Lardreau datada de 1980. Nesta, Duby afirma que a principal evidência, para ele, está no não-dito, naquilo que uma época não diz a respeito de si mesma. Exatamente o que é mais característico a uma época (como a água para um peixe, segundo uma metáfora de Ankersmit) é o que uma época não pode perceber sobre si mesma, de modo que o historiador deve buscar essa apreensão da essência de uma época precisamente através “do que não foi dito, do que foi apenas sussurrado, ou do que foi expresso em detalhes insignificantes” (ANKERSMIT, 1989, p.125). Esta perspectiva apresentada por George Duby parece se aproximar, de alguma maneira, de algumas das proposições dos micro-historiadores italianos, uma vez que também estes incluem entre seus procedimentos a possibilidade de reconhecer um período, uma sociedade ou uma prática não através daquilo que lhe é mais característico, mas sobretudo daquilo que lhe escapa, como a pista que o criminoso deixa inadvertidamente no local de um crime depois de falsificar todos os aspectos importantes da cena do crime, ou como o falsificador de quadros que, ao imitar um artista, copia rigorosamente todos os gestos estilísticos mais característicos mas termina por deixar uma abertura para que se perceba a falsificação em um detalhe de menor importância. Esta argumentação sobre a necessidade de atentar para o detalhe revelador é desenvolvida por Carlo Ginzburg em seu famoso texto “Raízes de um Paradigma Indiciário” (1986).

Voltando às reflexões de Georges Duby sobre o trato dos historiadores contemporâneos com as evidências do passado – e à releitura que delas faz Ankersmit em uma seqüencia na qual comparará a historiografia pós-moderna à psicanálise – essa maneira singular de lidar com as evidências não aponta para algo que se esconde por trás destas evidências no passado, mas sim para algo que “adquire significado e importância quando confrontado com a mentalidade da época posterior, na qual vive o historiador” (ANKERSMIT, 1989, p.125). Os traços essenciais de uma época revelam-se apenas por contraste com um outro período, e o historiador estaria apto a apreender algo do Passado a partir das evidências precisamente no momento em que “projeta um padrão sobre os vestígios”. O interesse, então, recai na interpretação, e não em algo que já existe por trás das fontes independentemente da ação do historiador.

A perspectiva proposta por Duby, enfim, aponta para a possibilidade de construir a História através do não-dito, do que foi suprimido (intencionalmente ou não), do detalhe, do que teria parecido irrelevante para uma época mas que se torna revelador para outra. Extrair conclusões de um silêncio, por fim, introduz o historiador diretamente em uma perspectiva de interação com as fontes, já que não é possível simplesmente buscar uma verdade escondida atrás de um silêncio, sendo necessário fazer incidir uma pergunta, um padrão sobre este silêncio para que ele fale a uma outra época e revele traços que a própria época histórica examinada não percebeu sobre si mesma, não quis perceber, ou buscou suprimir, seja a partir dos caminhos intencionais, involuntários, conscientes, ou inconscientes. E mais, se tal abordagem pôde (e teve que ser utilizada necessariamente) com o silêncio, é perfeitamente possível estendê-la também para o dito, mas examinando-o agora de uma nova maneira: a evidência seria examinada não para dar perceber o que já está escondido previamente atrás dela pela própria época, mas para dar a perceber o que também só adquirirá visibilidade através do padrão sobre ela lançado pelo historiador.

Naturalmente que algumas críticas devem ser feitas, em outros pontos, ao texto de Ankersmit. A certa altura ele parece delinear a história pós-moderna como a das mentalidades. Isto não coincide com os desenvolvimentos historiográficos das últimas décadas: as mentalidades, ou a “História das Mentalidades” (ANKERSMIT, 1989, p.126), foi se configurando mais em um campo histórico, como a História Cultural ou a História Econômica. Já uma história pós-moderna deveria ser entendida como uma outra maneira de conceber a história, independente da modalidade de história ou dimensão pela qual se interessa o historiador (a Cultura, a Política, a Economia, as Mentalidades, etc). Dificilmente poderia se chamar de “pós-moderno” ao historiador marxista Michel Vovelle, que a si mesmo se define como historiador das mentalidades. Uma História Pós-Moderna (ou melhor dizendo, uma História Pós-Modernista) deveria ser considerada como a proposta de um outro paradigma, em contraste com a História Modernista (ela mesma também podendo se interessar pelos campos da Cultura, Economia, Mentalidades, e outros). O pós-Moderno – a História Pós-Moderna – poderia e deveria ser comparado a alternativas no âmbito de paradigmas como o Positivista, o Historicista, o Modernista-Estruturalista, e outros13.

Isso, destarte, acaba sendo empreendido por Ankersmit na continuidade do seu artigo, já que opõe o “paradigma pós-moderno” ao conjunto de todos os paradigmas anteriores, cuja marca teria sido a busca de identificação de uma “essência do passado”, e que Ankersmit unifica sob o rótulo de uma ‘tradição essencialista’ (e, em outro momento, um tanto contraditoriamente, de um “existencialismo historiográfico”) (1989, p.128, 127). O paradigma pós-modernista para Ankersmit, que utiliza a metáfora da árvore, não recai mais sobre o tronco ou sobre os galhos, mas sobre as folhas. Ou sobre o que ele também chama de as “migalhas”, embora não pejorativamente. A expressão, é claro, referencia o termo “História em Migalhas” que se popularizara dois anos antes através da extraordinária repercussão da tenaz crítica de François Dosse contra a Nouvelle Histoire (a terceira geração dos Annales) que ele via em ruptura com relação à Escola dos Annales propriamente dita (DOSSE, 1987). Na verdade, a expressão “história em migalhas” havia sido proferida em uma entrevista por Pierre Nora, o principal organizador de livros do grupo da Nouvelle Histoire, que não a utilizara depreciativamente, é claro. Também não haverá uso depreciativo da expressão da parte de Ankersmit. De todo modo, teria chegado o momento de pensar o passado, mais que de investigá-lo, e Ankersmit propõe a idéia de que “o nosso insight sobre o passado e a nossa relação com ele serão, no futuro, de natureza metafórica, e não real” (ANKERSMIT, 1989, p.131).




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