Título da edição original



Baixar 1.15 Mb.
Página1/20
Encontro15.04.2018
Tamanho1.15 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   20




Título da edição original: Tokyo

Copyright © Mo Hayder 2004

Direitos de publicação desta obra em Portugal reservados por:
GÓTICA

Denominação social: Gótica 2000, Sociedade Editora e Livreira, Lda,

Sede social: rua das Tulipas, N. 40 C

Miraflores 1495-159 - Algés - PORTUGAL

Telefone: 21412 35 10

Fax: 21412 35 19 E-mail: gotica@kqnet.pt

Capa: Rogério Petinga

Pré-impressão: Fotocompográfica

Impressão e acabamento: Tilgráfica, Braga

Outubro de 2004

Distribuição DIFEL

rua das Tulipas, . 40 C

Miraflores, 1495159 Algés PORTUGAL

Telefone: 21412 35 10

Fax: 21 412 35 19

Depósito legal n. 216 209/04 ISBN 9727921388

A editora Gótica é uma empresa do grupo Difel

Prólogo


Nanquim, China: 21 de Dezembro de 1937

A,

v

ueles que combatem a superstição e se revoltam contra ela, digo apenas o seguinte: porquê? Porquê admitir com tamanho orgulho e vaidade que desprezais anos de tradição? Quando o camponês de rosto envelhecido vos diz que as grandes montanhas da antiga China foram destruídas por deuses zangados, que há centenas de anos os céus foram rasgados, o país desestabilizado, porque não acreditar nele? Sois muito mais espertos que ele? Sois mais espertos que todas as gerações de antepassados dele juntas?

Eu acredito nele. Agora, finalmente, acredito. Tremo ao escrevê-lo, mas acredito em tudo aquilo que a superstição nos diz. E porquê? Porque não há outra forma de explicar as coisas imprevisíveis deste mundo, nenhuma outra ferramenta para traduzir este desastre. Por isso volto-me para o folclore em busca de consolo, e confio no camponês quando ele diz que a ira dos deuses fez com que a terra tombasse para este. Sim, confio nele quando me diz que tudo, rio, lama e lugares, deve acabar por resvalar para o mar. Nanquim também. Um dia também Nanquim resvalará para o mar. A sua viagem poderá ser a mais lenta, porque ela já não é bem como as outras cidades. Estes últimos dias alteraram-na ao ponto de a tornar irreconhecível e quando ela começar a mover-se fá-lo-á devagar, pois está amarrada à terra pelos seus cidadãos não sepultados, e pelos fantasmas que a seguirão até à costa e regressarão.

Talvez deva considerar-me um privilegiado por vê-la tal como ela é agora. Desta minúscula janela consigo espreitar pela grade e ver em que estado os Japoneses a deixaram: os edifícios enegrecidos, as ruas vazias, os cadáveres empilhados nos canais e


nos rios. Depois olho para as minhas mãos trémulas e pergunto a mim mesmo por que motivo sobrevivi. O sangue já está seco. Quando esfrego as mãos uma na outra, ele desprende-se, as escamas pretas espalhando-se sobre a folha, mais escuras que as palavras que escrevo porque a tinta é aguada: a tinta-da-china está a acabar e falta-me a força, a coragem e a vontade para ir à procura de mais.

Se pousasse a minha caneta, me encostasse à parede fria e ficasse numa posição pouco confortável com o nariz encostado às gelosias, conseguiria ver a montanha Púrpura, coberta de neve, erguendo-se para lá dos telhados destruídos. Mas não o farei. Nada pode forçar o meu corpo a adoptar uma posição pouco natural porque nunca mais voltarei a olhar para a montanha Púrpura. Quando esta entrada do diário terminar, não terei vontade de me recordar naquelas encostas, um vulto andrajoso, acompanhando desesperado o percurso do soldado japonês, seguindo a sua pista como um lobo através dos riachos gelados e dos montes de neve...

Passaram menos de duas horas. Duas horas desde que consegui apanhá-lo, junto ao arvoredo perto dos portões do mausoléu. Ele estava de costas para mim junto a uma árvore, a neve a derreter nos ramos a pingar-lhe para os ombros. Tinha a cabeça ligeiramente inclinada para a frente, a fim de olhar para a floresta, porque as encostas da montanha são um local perigoso para se estar. A câmara de filmar pendia-lhe de lado.

Segui-o há tanto tempo que estava cheio de dores e coxeava, com os pulmões doridos devido ao ar frio. Avancei devagar. Não consigo, agora, imaginar como consegui manter-me tão controlado, porque tremia da cabeça aos pés. Quando me ouviu, virou--se, agachando-se instintivamente. Mas eu não sou um homem grande, nem forte, tenho bem uns vinte centímetros menos que ele; por isso, quando me viu, o soldado descontraiu-se um pouco. Pôs-se de pé devagar, vendo-me aproximar até estarmos bem perto um do outro, e reparou nas lágrimas que me molhavam a cara.

— Isto não significa nada para ti — disse ele, com uma nota de piedade na voz —, mas quero que saibas que lamento. Lamento muito. Percebes o meu japonês?

Tóquio

— Sim.


Ele suspirou e esfregou a testa com a luva estalada de pele de porco.

— Não foi como eu tinha desejado. Nunca é. Por favor,


acredita. — Levantou a mão na direcção do Templo de Linggu.
— E verdade que... ele gostou. Gosta sempre. Mas eu não. Ob-
servo-os. Filmo o que eles fazem, mas não retiro nenhum prazer
disso. Por favor, acredita, não retiro nenhum prazer.

Limpei a cara com a manga, afastando as lágrimas. Avancei um passo e pousei uma mão trémula no ombro do soldado. Ele não se mexeu — manteve-se firme, tentando ler a minha expressão, intrigado. Não revelava medo: considerava-me um civil indefeso. Desconhecia a pequena faca que eu trazia escondida na mão.Dá-me a câmara — disse eu.Não posso. Não penses que faço estes filmes para eles se divertirem, para os soldados. Tenho aspirações mais altas.

Dá-me a câmara. Ele abanou a cabeça.De maneira nenhuma.

O mundo à nossa volta parecia estar a abrandar. Algures nas encostas distantes mais abaixo, a artilharia sampohei japonesa lançava um pesado fogo de morteiros, expulsando das montanhas as unidades nacionalistas de renegados, cercando-as e obri-gando-as a regressar à cidade, mas nas encostas mais altas eu não me apercebia de qualquer som, salvo do bater dos nossos corações, do gelo a derreter-se nas árvores à nossa volta.Já disse para me dares a câmara.E eu repito: de maneira nenhuma.

Então abri a boca, inclinei-me um pouco para a frente e libertei um uivo directamente para a boca dele. O uivo fora crescendo dentro de mim enquanto eu o perseguia pela neve, e naquele momento gritei como um animal ferido. Lancei-me para a frente, cravando-lhe a pequena faca através do uniforme verde--seco, atravessando o cinto senninbari. Ele não emitiu um único som. O seu rosto moveu-se, a sua cabeça inclinou-se para trás tão depressa que o boné caiu, e recuámos ambos um passo, surpreendidos, a olhar para o que eu tinha feito. Gotas de sangue
caíam na neve e o interior da sua barriga saiu como fruta cremosa pelo rasgão do uniforme. Ele fitou-o durante momentos, como que perplexo. Depois, a dor atingiu-o. Largou a espingarda e levou as mãos à barriga, tentando voltar a recolher as entranhas.

Kuso! — exclamou. — O que fizeste?

Cambaleei para trás, atirando a faca para a neve, tacteando às cegas à procura de uma árvore à qual me pudesse apoiar. O soldado virou-me as costas e mergulhou na floresta. Uma mão na barriga, a outra ainda a segurar a câmara, foi avançando com passo pouco firme, a cabeça erguida com uma dignidade peculiar, como se se dirigisse para um local importante, como se um mundo melhor e mais seguro se encontrasse algures no meio daquelas árvores. Fui atrás dele, tropeçando na neve, com a respiração rápida e quente. Dez metros depois, ele tropeçou, quase perdeu o equilíbrio e gritou algo: o nome de uma mulher em japonês, talvez o da mãe, ou o da mulher. Levantou um braço e o movimento deve ter solto algumas coisas no seu interior, porque uma parte escura e comprida dele deslizou da ferida, caindo na neve. Ele escorregou nela, tentou recuperar o equilíbrio, mas já estava muito fraco e foi apenas capaz de cambalear, em círculo, com um cordão comprido e vermelho pendendo atrás dele, como se fosse um nascimento e não uma morte.

— Dá-ma. Dá-me a câmara.

Ele não foi capaz de responder. Perdera a capacidade de raciocinar: já não tinha consciência do que estava a acontecer. Caiu de joelhos, os braços ligeiramente levantados, e tombou de lado. Um segundo depois, eu estava junto dele. Tinha os lábios azuis e sangue a cobrir-lhe os dentes.

— Não — murmurou quando soltei a câmara dos seus dedos enluvados. Os seus olhos já haviam cegado, mas ele pressentia onde eu estava. Tacteou à procura do meu rosto. — Não a


leves. Se a levares, quem vai contar ao mundo?

Se a levares, quem vai contar ao mundo?

Aquelas palavras ficaram comigo. Continuarão comigo até ao fim da minha vida. Quem vai contar? Olho durante muito tempo para o céu por cima da casa, para o fumo preto que atravessa a Lua. Quem vai contar? A resposta é: ninguém. Ninguém

r

Tóquio


vai contar. Acabou tudo. Esta será a última entrada do meu diário. Nunca mais voltarei a escrever. O resto da minha história ficará no filme dentro da câmara, e o que aconteceu hoje permanecerá em segredo.

Tóquio, Verão de 1990

vezes temos mesmo de fazer um esforço. Mesmo quando estamos cansados e famintos e nos vemos num local completamente desconhecido. Tal como eu em Tóquio naquele Verão, parada em frente à porta do professor Shi Chongming a tremer de ansiedade. Tinha alisado o cabelo e passara imenso tempo a tentar compor a minha saia comprada em segunda mão, escovando o pó e passando a ferro os vincos da viagem com as palmas das mãos. Pusera o velho saco de viagem que trouxera comigo no avião atrás dos pés para não ser a primeira coisa que ele visse, pois era muito importante ter um aspecto normal. Tive de contar até vinte e cinco e respirar fundo várias vezes antes de arranjar coragem para falar.

— Bom dia — disse eu a medo, com o rosto próximo da
porta. — Está aí?

Aguardei um momento, à escuta. Ouvi uns passos lá dentro, mas ninguém abriu a porta. Esperei mais um pouco, com o coração acelerando cada vez mais ruidosamente, e bati.

— Consegue ouvir-me?

A porta abriu-se e recuei um passo, surpreendida. Shi Chongming estava ali, muito elegante e correcto, olhando-me em silêncio, com as mãos pendentes ao lado do tronco como se esperasse ser inspeccionado. Era incrivelmente pequeno, como um boneco, e em volta do delicado triângulo do seu rosto pendia um cabelo cortado pela altura dos ombros, completamente branco, como se tivesse um manto de neve sobre os ombros. Fiquei muda, a boca ligeiramente aberta.

Ele encostou as mãos às coxas e fez-me uma vénia.

Boa tarde — disse num inglês suave, quase sem sotaque. — Sou o professor Shi Chongming. Quem é você?Eu... eu sou... — engoli em seco. — Sou uma estudante. Mais ou menos. — Puxei para cima a manga do casaco de malha e estendi-lhe a mão. Esperava que ele não reparasse nas minhas unhas roídas. — Da Universidade de Londres.

Ele olhou-me com ar pensativo, abarcando o meu rosto branco, o meu cabelo fraco, o casaco de malha e o grande saco de viagem informe.Toda a gente faz isso da primeira vez que me vê, e a verdade é que, por muito que tentemos fingir, nunca nos habituamos a que olhem para nós.Há muitos anos que quero conhecê-lo — disse eu. — Aguardo este momento há nove anos, sete meses e dezoito dias.Nove anos, sete meses e dezoito dias? — Arqueou uma sobrancelha, divertido. — Assim há tanto tempo? Nesse caso, é melhor entrar.

Não tenho muito jeito para saber o que os outros estão a pensar, mas sei que podemos ver uma tragédia, uma verdadeira tragédia, no olhar de alguém. Se olharmos com atenção, quase somos capazes de ver onde uma pessoa esteve. Levara tanto tempo a localizar Shi Chongming! Ele era septuagenário e eu achava espantoso que, apesar da idade e do que devia sentir pelos Japoneses, ele se encontrasse exactamente ali, como professor visitante na Todai, a maior universidade do Japão. O gabinete dele dava para o pavilhão dos arqueiros da universidade, onde as copas escuras das árvores se aglomeravam em redor dos complexos telhados, onde o único som era o crocitar dos corvos que falavam de carvalho para carvalho. O gabinete estava quente e abafado, e o ar poeirento era agitado por três ventoinhas que rodavam de um lado para o outro. Entrei a medo, assustada por finalmente me encontrar ali.

Shi Chongming tirou uma pilha de papéis de uma cadeira.

— Sente-se. Sente-se. Vou fazer chá.

Deixei-me cair na cadeira, com os sapatos pesados rigidamente juntos e o saco no regaço, muito encostado à barriga. Shi Chongming coxeou pelo gabinete, encheu a chaleira eléctrica na torneira, não se apercebendo de que a água lhe salpicava e
escurecia a túnica de estilo mandarim. A ventoinha agitava suavemente as pilhas de papéis e de velhos livros que enchiam as prateleiras, do chão ao tecto. Assim que ali entrara vira, pelo canto do olho, um projector. Um projector de 16 mm empoeirado, quase invisível no meio das altas pilhas de papéis. Quis virar-me e observá-lo, mas sabia que não devia. Mordi o lábio e pousei o olhar em Shi Chongming. Estava embrenhado num longo monólogo sobre a sua investigação.

— Poucos fazem ideia de quando a medicina chinesa chegou


ao Japão, mas basta pensar no período Tang para encontrar provas da sua existência. Sabia isso? — Fez-me chá e tirou de qual
quer sítio uma bolacha embrulhada. — O sacerdote Jian Zhen
divulgava, aqui mesmo, no século oitavo. Agora vemos lojas
kampo para onde quer que olhemos. Basta sair do complexo universitário para as ver. Fascinante, não é?

Pestanejei.Pensei que o senhor era linguista.Linguista? Não, não. Outrora, talvez, mas tudo se alterou. Quer saber o que sou? Eu digo-lhe... se pegar num microscópio e observar cuidadosamente o pequeno nexo para onde por vezes conseguem as atenções do biotécnico e do sociólogo... — Sorriu, deixando entrever uns longos dentes amarelos. — É aí que me encontra: Shi Chongming, um homem muito pequeno com um título grandioso. A universidade diz-me que sou uma excelente aquisição. Aquilo que me interessa é saber quanto de tudo isto... — com uma mão abarcou os livros, as ilustrações coloridas de animais mumificados, até um gráfico na parede intitulado Entomologia de Hunan — ... quanto de tudo isto veio com Jian Zhen, e quanto foi trazido para o Japão pelo exército em mil novecentos e quarenta e cinco. Por exemplo, deixe-me ver... — Passou as mãos pelos volumes que lhe eram tão familiares, pegou num livro antigo e cheio de pó e pousou-o à minha frente, abrindo-o num intrigante diagrama de um urso, dissecado de forma a mostrar os seus órgãos internos pintados nuns tons pastel rosa e esverdeados. — Por exemplo, o urso tibetano. Foi depois da guerra do Pacífico que decidiram utilizar a vesícula biliar do urso-negro-do-tibete para os problemas de estômago? — Pousou as mãos na mesa e olhou para mim. — Calculo que


seja aqui que você entra, não? O urso negro é um dos meus interesses. É o assunto que traz a maior parte das pessoas à minha porta. Você é uma conservacionista?Não — respondi, surpreendida pela firmeza da minha voz. — Por acaso, não. Nunca ouvi falar no... no urso-negro-do--tibete. Eu... — Forcei-me a olhar para Shi Chongming. — Quero dizer, não vim aqui para falar de medicina chinesa.Não? — Ele baixou os óculos e olhou para mim cheio de curiosidade. — Não veio?Não. — Abanei a cabeça. — Não, de maneira nenhuma.Então... — Ele fez uma pausa. — Então está aqui porque...?Por causa de Nanquim.

Ele sentou-se à secretária, franzindo o sobrolho.Desculpe. Quem é que disse que era?Sou aluna da Universidade de Londres. Pelo menos, era. Mas não estava a estudar medicina chinesa. Estava a estudar atrocidades de guerra.Pare. — Ele ergueu uma mão. — Veio ter com o homem errado. Não tenho qualquer interesse para si.

Começou a levantar-se, mas eu abri à pressa o fecho do saco de viagem e tirei de lá um monte de apontamentos muito manuseados presos por um elástico, deixando cair alguns com o nervosismo, voltando a pegar neles e pousando-os na secretária entre nós.

— Passei metade da minha vida a investigar a guerra na China. — Tirei o elástico e espalhei os papéis. Havia folhas de traduções feitas na minha letra pequena, fotocópias de testemunhos


de livros de bibliotecas, esboços que eu fizera para me ajudarem
a visualizar o que acontecera. — Especialmente Nanquim. Olhe.
— Peguei num papel amarrotado coberto com caracteres minúsculos. — Isto é sobre a invasão... é o organograma da hierarquia
militar japonesa, está tudo escrito em japonês, vê? Fi-lo quando
tinha dezasseis anos. Sei escrever japonês e um pouco de chinês.

Shi Chongming olhou para tudo aquilo em silêncio, voltando a sentar-se devagar na cadeira, com uma expressão estranha no rosto. Os meus esboços e diagramas não são muito bons, mas já não me importo que as pessoas se riam deles — cada um


significa algo importante para mim, ajuda-me a ordenar os meus pensamentos, recorda-me que a cada dia que passa estou mais próxima da verdade sobre algo que aconteceu em Nanquim em 1937.

— E isto... — desdobrei um esboço e ergui-o; tinha sido feito numa folha A3 e ao longo dos anos haviam surgido umas linhas transparentes no sítio das dobras — ... isto é supostamente


a cidade no fim da invasão. Levei um mês a fazê-lo. Isto é uma
pilha de cadáveres. Vê? — Olhei para ele, ansiosa. — Se olhar
com atenção, percebe que isto foi construído com imenso cuidado. Pode verificar agora, se quiser. Há exactamente trezentos mil
corpos nesta imagem e...

Shi Chongming levantou-se de repente e saiu de trás da secretária. Fechou a porta, foi até à janela que dava para o pavilhão dos arqueiros e baixou os estores. Coxeava ligeiramente para a esquerda, e o seu cabelo era tão fino que a nuca parecia quase calva, a pele ondulada, como se ali não houvesse crânio e conseguíssemos ver as dobras e as fendas do seu cérebro.

— Sabe o quanto este país é sensível a qualquer referência a
Nanquim? — Voltou a sentar-se à secretária, com lentidão artrí
tica, inclinando-se para mim e falando num sussurro: — Sabe
quão poderosa é a direita no Japão? Sabe quantas pessoas foram
atacadas por referirem esse assunto? Os Americanos... — apon
tou um dedo trémulo para mim, como se eu fosse a representação mais próxima da América — ... os Americanos, MacArthur,
certificaram-se de que os tipos da direita eram os mercadores de
medo que são hoje. E muito simples: não falamos no assunto.

Baixei a voz e falei num sussurro.Mas eu percorri meio mundo para vir vê-lo.Então vai ter de dar meia volta e regressar — respondeu. — Está a falar do meu passado. Não vim para aqui, para o Japão, para falar dos erros do passado.O senhor não está a perceber. Tem de me ajudar.Tenho?É sobre um tipo de actos que os Japoneses praticaram. Já sei quase tudo sobre a maior parte das atrocidades, dos concursos de decapitação, as violações. Mas estou a falar de uma coisa específica, de uma coisa que o senhor presenciou. Ninguém


acredita que ela tenha realmente acontecido, acham que não passa de invenção minha.

Shi Chongming endireitou-se e olhou para mim. Normalmente, quando digo às pessoas aquilo que estou a tentar descobrir, elas olham para mim incomodadas e cheias de pena, como se dissessem: Deves ter inventado isso. E porquê? Porque irias inventar uma coisa horrível como essa? Mas este olhar era diferente. Este olhar era duro e irado. Quando falou, a voz dele adquirira um tom amargo.O que foi que disse?Houve um testemunho sobre isso. Li-o há muitos anos, mas não consegui voltar a encontrar o livro, e toda a gente diz que também inventei isso, que o livro nunca existiu. Mas não faz mal, porque parece que também há um filme, rodado em Nanquim em mil novecentos e trinta e sete. Descobri isso há seis meses. E o senhor sabe tudo acerca disso.Que disparate. Não há qualquer filme.Mas... mas o seu nome veio num jornal académico. Veio sim, a sério, eu vi-o. Dizia que o senhor tinha estado em Nanquim. Dizia que tinha visto o massacre, que vira este tipo de tortura. Dizia que, quando o senhor esteve na Universidade Jiangsu em mil novecentos e cinquenta e sete, corria o boato de que tinha um filme, e é por esse motivo que aqui estou. Preciso de saber... de saber o que os soldados fizeram. Apenas um único pormenor do que fizeram, para eu ter a certeza de que não imaginei isto. Preciso de saber se, quando eles levaram as mulheres e...Por favor! — Shi Chongming bateu com as mãos na secretária e pôs-se de pé. — Não tem compaixão? Isto não é um kaffèeklatscbl — Tirou uma bengala de trás da cadeira e coxeou pelo gabinete, destrancando a porta e pegando na placa com o seu nome que lá estava fixa. — Está a ver? — perguntou ele, usando a bengala para fechar a porta. — Professor de Sociologia. Sociologia. A minha área é a medicina chinesa. Já não tenho nada a ver com Nanquim. Não há qualquer filme. Acabou. Agora, se me dá licença, estou muito ocupado e...Por favor. — Agarrei-me à secretária, com o rosto muito corado. — Por favor. Há um filme. Há. Estava no jornal, eu vi.


O filme de Magee não mostra nada, mas o seu mostra. É o único filme no mundo e...

— Chiu! — fez ele, brandindo a bengala na minha direcção.


— Basta. — Os seus dentes eram compridos e descoloridos, como velhos fósseis retirados do Góbi; de um amarelo polido com
arroz e carne de cabra. — Ora, eu tenho o máximo respeito por
si. Tenho respeito por si e pela sua estranha pesquisa. Bastante
estranho. Mas deixe-me pôr-lhe as coisas de forma clara: não há
qualquer filme.

Quando costumamos tentar provar que não somos loucos, as pessoas como Shi Chongming não ajudam nada. Ler uma coisa, preto no branco, só para nos virem dizer logo a seguir que a imaginámos — bem, esse é o tipo de coisa que nos pode deixar tão loucos como dizem que somos. Era a mesma história mais uma vez, precisamente a mesma que acontecera com os meus pais e no hospital quando eu tinha treze anos. Toda a gente dizia que a tortura era apenas fruto da minha imaginação, que fazia parte da minha loucura — que nunca podia ter havido tamanha crueldade. Que os soldados japoneses eram bárbaros e implacáveis, mas que não podiam ter feito uma coisa daquelas, uma coisa tão inominável que até os médicos e as enfermeiras, que admitiam ter visto muita coisa no seu tempo, baixavam a voz quando falavam dela.Tenho a certeza de que acreditas que a leste. Tenho a certeza de que para ti é muito real.E real — respondia eu, olhando para o chão, o rosto em brasa devido ao embaraço. — Li mesmo. Num livro. — Fora num livro de capa cor de laranja com uma fotografia de cadáveres empilhados no porto de Meitan. Estava cheio de histórias sobre o que acontecera em Nanquim. Até ler aquilo nunca tinha ouvido falar de Nanquim. — Encontrei-o em casa dos meus pais.

Uma das enfermeiras, que não gostava nada de mim, costumava vir até à minha cama quando as luzes estavam apagadas, quando julgava que ninguém a ouvia. Eu ficava deitada muito quieta, e fingia estar a dormir, mas ela agachava-se na mesma junto à minha cama e murmurava-me ao ouvido, com o seu hálito quente e fermentado:
— Deixa-me dizer-te uma coisa — murmurava ela, noite após noite, quando as sombras das flores das cortinas se projectavam imóveis no tecto da enfermaria. — Tens a imaginação mais doentia que já vi nos meus dez anos de trabalho nesta maldita profissão. és realmente louca. Não só louca, mas também má.

Mas eu não tinha inventado nada...

Tinha medo dos meus pais, especialmente da minha mãe, mas quando tive a certeza de que ninguém no hospital acreditava que o livro existia, quando eu começava a pensar que talvez eles tivessem razão, que tinha de facto imaginado tudo, que era louca, reuni toda a minha coragem e escrevi para casa, pedindo--lhes que procurassem nas pilhas de livros de bolso um livro de capa cor de laranja, intitulado, quase de certeza, O Massacre de Nanquim.

Recebi a resposta quase de imediato: «Tenho a certeza de que acreditas que esse livro existe, mas uma coisa te garanto: não leste essa porcaria na minha casa.

A minha mãe sempre tivera a certeza de controlar aquilo que eu sabia e pensava. Não queria que uma escola me enchesse a cabeça de coisas erradas, por isso durante anos fui educada em casa. Mas se alguém assume uma responsabilidade dessas, se se tem tanto medo (por qualquer razão particular e angustiada) de que os filhos aprendam coisas sobre a vida que se censuram todos os livros que entram em casa, às vezes arrancando páginas ofensivas aos romances, então é necessário ser-se meticuloso. Pelo menos mais meticuloso do que a minha mãe foi. Não se apercebia da complacência a entrar na casa dela, a entrar pelas janelas quase cobertas de ervas, deslizando pelas pilhas húmidas de livros de bolso. Sem saber como, deixara escapar o livro sobre Nanquim.

«Vasculhámos de cima a baixo, com a intenção de te ajudar, a ti, a nossa única filha, mas lamento dizer que, quanto a este assunto, estás enganada. Escrevemos ao médico responsável por ti a informá-lo disso.

Lembro-me de ter deixado cair a carta no chão da enfermaria, e de me ocorrer uma coisa terrível. E se eles tivessem razão? E se o livro não existisse mesmo? E se eu tinha realmente inventado tudo aquilo? Isso, pensei, com uma moinha latejante a começar-me na barriga, seria a pior coisa que podia acontecer.


Às vezes tem de se ir muito longe para provar as coisas. Mesmo que estejamos a prová-las apenas para nós próprios.

Quando finalmente tive alta do hospital, soube exactamente o que tinha de fazer em seguida. No hospital, fiz todos os meus exames através da unidade de ensino (tive a nota mais alta na maior parte deles, e isso surpreendeu toda a gente — agiam todos como se pensassem que a ignorância fosse sinónimo de estupidez) e descobri que lá fora havia instituições de caridade para pessoas como eu, que me podiam ajudar a candidatar à universidade. Ajudaram-me nas coisas que eu achava difíceis — telefonemas e viagens de autocarro. Tinha estudado sozinha chinês e japonês, a partir de livros da biblioteca, e pouco depois consegui entrar para o curso de Estudos Asiáticos da Universidade de Londres. De repente, pelo menos por fora, eu parecia quase normal: alugara um quarto, tinha um trabalho a tempo parcial a entregar brochuras, um passe de estudante para o comboio e um orientador que coleccionava estatuetas Ioruba e postais pré--rafaelitas. («Tenho um fetiche por mulheres pálidas, disse-me ele um dia, olhando-me com ar pensativo. Depois acrescentara baixinho: «Desde que não sejam malucas, claro.) Mas enquanto os outros alunos pensavam na licenciatura, talvez até numa pós--graduação, eu pensava em Nanquim. Para haver paz na minha vida eu tinha de saber se me lembrava correctamente dos pormenores do livro cor de laranja.

Passei horas na biblioteca, a folhear livros e jornais, tentando encontrar outro exemplar do livro ou, se isso fosse impossível, outra publicação que falasse no mesmo depoimento. Havia um livro intitulado O Horror de Nanquim publicado em 1980, mas estava esgotado. Nenhuma biblioteca, nem sequer a do Congresso, tinha exemplares e, de qualquer maneira, eu não tinha a certeza de que fosse o mesmo livro. Mas isso não importava porque eu encontrara outra coisa. Para meu espanto, descobrira que havia filmagens do massacre.

Eram dois filmes distintos. O primeiro era o do reverendo Magee, que fora missionário na China, nos anos trinta. O seu filme fora roubado por um colega, que ficara tão assustado com o que vira que cosera o filme dentro do forro do seu casaco de


pêlo de camelo, a caminho de Xangai. Depois o filme ficara esquecido numa cave quente da Califórnia durante vários anos, desintegrando-se, tornando-se peganhento e retorcido, até ter sido redescoberto e enviado para a videoteca da Biblioteca do Congresso. Eu vira uma cópia do filme na biblioteca da Universidade de Londres. Vira-o vezes sem conta, estudando todos os fotogramas. Mostrava o horror de Nanquim — mostrava coisas nas quais não gosto de pensar nem à luz do dia —, mas não mostrava o tipo de tortura sobre o qual lera há vários anos.

O segundo filme, pelo menos segundo a referência que eu descobrira, era o de Shi Chongming. Assim que tive conhecimento deste facto novo, esqueci tudo o resto.

Estava no meu segundo ano na universidade. Numa manhã de Primavera, quando Russell Square estava cheia de turistas e de narcisos, encontrava-me na biblioteca, sentada a uma mesa pouco iluminada atrás das estantes com os trabalhos de ciências humanas, debruçada sobre um jornal obscuro. O meu coração batia com força — encontrara finalmente uma referência àquele tipo de tortura. Era uma referência oblíqua, vaga, na verdade, e sem os pormenores cruciais, mas uma das frases deixara-me sobressaltada: «De certeza que em Jiangsu, no final da década de cinquenta, se mencionou a existência de um filme de 16 mm documentando esta tortura. Ao contrário do filme de Magee, este nunca saiu da China.

Agarrei no jornal e apontei o foco de luz do candeeiro de mesa para o fim da página, sem acreditar no que estava a ver. Era incrível haver um registo visual daquilo — imagine-se! Podiam dizer que eu era maluca, podiam dizer que eu era ignorante, mas ninguém podia dizer que eu inventara aquilo — estava ali, preto no branco.

«Diz-se que o filme pertencia a um tal Shi Chongming, um jovem professor assistente na Universidade de Jiangsu, que esteve em Nanquim na altura do grande massacre de 1937...

Estremecendo ligeiramente, a cabeça a latejar, reli o parágrafo vezes sem conta. Começava a sentir algo que nunca sentira antes, algo que fora reprimido durante muitos anos pelos descrentes funcionários do hospital. Só quando o aluno na mesa ao lado suspirou de impaciência é que me apercebi que estava de


pé, a abrir e a fechar as mãos e a murmurar. Tinha os pêlos dos braços em pé. Este filme nunca saiu da China...

Devia ter roubado aquele jornal. Se tivesse aprendido bem a lição no hospital, teria posto o jornal debaixo do casaco de malha e saído logo da biblioteca com ele. Assim teria algo para mostrar ao professor Shi Chongming, uma prova de que a minha imaginação doentia não inventara tudo aquilo. Assim ele não poderia tê-lo negado, e posto novamente em causa a minha sanidade.



Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   20


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal