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45na

minha volta, o quarto emergia lentamente da escuridão. Eu estava sentada imóvel no fitton, o coração a bater descompassadamente, à espera que os ruídos lá de fora se tornassem identificáveis. Mas, de cada vez que julgava que isso acontecia, o barulho desvanecia-se nos sons da tempestade. Sobras de folhas transportadas pelo vento passavam pela janela e, assim sentada na semiescuridão, comecei a imaginar uma série de coisas: imaginei que a casa era uma pequena jangada no escuro, empoleirada sobre as ondas, que fora do meu quarto a cidade desaparecera, pulverizada num ataque atómico.

O som novamente. O que seria? Virei-me para a porta. O meu primeiro pensamento foram os gatos do jardim. Vira algumas vezes as crias, penduradas como macacos nas redes mosquiteiras, miando para os nossos quartos como pássaros-bebés. Talvez estivesse um gatinho num dos outros quartos, rastejando rede acima como um sapo. Ou talvez fosse...

JasorP. — murmurei, endireitando-me com um arrepio. Daquela vez era mais alto, um som estranho e ululante a ciciar pela casa. Gatinhei até à porta, abri-a um pouco, sem fazer barulho, tentando sustentar o peso de forma a ela não chiar nas calhas. Espreitei lá para fora. Vários estores tinham sido abertos e em frente ao quarto do Jason havia uma janela escancarada, como se ele tivesse parado ali depois da nossa discussão para fumar um cigarro. Lá fora, o jardim agitava-se ao vento — havia ramos quebrados, e perto da janela um saco de plástico, trazido pelo vento e preso a uma árvore, agitava-se e fazia barulho, projectando

a sua sombra sobrenatural pelo corredor, pelas paredes e pelas esteiras de tatami.

Mas não fora a tempestade que me acordara. Quanto mais olhava para o corredor familiar, maior certeza tinha de que havia qualquer coisa errada. Era qualquer coisa na luz. Normalmente não estava assim tão escuro. Normalmente deixávamos acesas as luzes do tecto, mas agora a luz que entrava por baixo das portas proveniente do cartaz do Mickey Rourke era a única fonte de iluminação, e, em vez de uma fileira de lâmpadas, vi estilhaços de vidro. Pestanejei algumas vezes, os meus pensamentos curiosamente lentos e calmos, dando-me tempo para registar aquilo. As lâmpadas do corredor tinham sido partidas, como se uma mão gigante as estivesse esmurrado.

«Está alguém na casa, pensei, ainda estranhamente calma. Está mais alguém na casa. Respirei fundo e saí para o corredor sem fazer barulho. Todas as portas naquele lado da casa estavam fechadas — até a porta da cozinha. Normalmente deixávamo-la aberta, para o caso de alguém ter fome ou sede durante a noite. A porta da casa de banho também se encontrava fechada. Dei alguns passos no corredor, passando por cima dos vidros partidos, tentando ignorar o vento, tentando concentrar-me no ruído. Vinha da terceira secção do corredor, onde este fazia uma curva e onde ficava o quarto do Jason. O ruído foi começando a separar-se, destacando-se do vento, e, quando finalmente o reconheci, a minha pulsação disparou. Era o som de alguém a gemer baixinho.

Dei alguns passos de lado e abri uma nesga de uma das janelas. Ouvi outro barulho da mesma parte da casa: um remexer estranho, furtivo, como se todos os ratos da casa tivessem convergido para um dos quartos. As árvores dobravam-se com o vento, mas dali eu podia ver o corredor mais distante do outro lado do jardim. Quando os meus olhos se habituaram às sombras das árvores a deslizarem pelo vidro, o que vi fez-me acocorar, agarran-do-me à parede com dedos trémulos, tentando espreitar sobre o parapeito.

A porta de Jason encontrava-se aberta. Na penumbra, apercebi-me de uma forma no quarto dele: uma forma horrenda, curva, mais uma sombra que outra coisa. Parecia uma hiena debruçada,
sobre a refeição, concentrada a desmembrar o seu troféu, estranhamente inclinada, como se tivesse caído do tecto em cima da presa. Os meus pêlos arrepiaram-se. A enfermeira. A enfermeira estava na casa... E então vi outro vulto no quarto, ligeiramente mais ao lado, meio dobrado como se olhasse para qualquer coisa no chão. Também estava à sombra, de costas para mim, mas algo na forma dos seus ombros me disse que eu estava a olhar para o homem que jurara fidelidade a Fuyuki algumas horas antes: o chimpira.

Pestanejei algumas vezes, a mente a fervilhar: «O que é isto? Porque estão eles aqui? Será alguma piada? Endireitei-me um pouco e vi então a cabeça e os ombros de Jason: estava de cara para baixo, de bruços, preso ao chão pelo chimpira, cujo pé se encontrava pousado em cima da sua nuca. Nesse momento, a enfermeira mudou ligeiramente de posição e sentou-se, os seus joelhos grandes e musculados nas meias pretas bastante afastados e à altura dos ombros, os braços direitos entre eles. Aquele som horrível e débil que eu ouvira era o Jason a implorar, tentando libertar-se. Ela não o ouvia — estava muito concentrada a fazer o que tinha para fazer, os ombros curvados, abanando-se calmamente para trás e para a frente. As mãos, que eu não conseguia ver, efectuavam movimentos curtos e controlados, como se ela efectuasse uma operação complexa e delicada. Não sei como percebi, mas tive um momento de rara clareza: «Estás a observar uma violação. Ela está a violá-lo.

Saí do transe. O suor cobriu-me as costas e levantei-me, abrindo a boca para falar. Como se me tivesse cheirado no ar, a enfermeira levantou a cabeça. Fez uma pausa. Depois os seus enormes ombros elevaram-se, a cabeleira brilhante girou na sua grande cabeça angulosa, que ela inclinara um pouco para trás, como se tivesse acabado de interromper uma refeição. Estaquei: parecia que o mundo inteiro era um telescópio, comigo numa extremidade, a enfermeira na outra. Ainda agora pergunto a mim mesma como lhe teria eu parecido, quanto teria ela visto: uma sombra furtiva, dois olhos a brilharem numa janela mal iluminada na extremidade oposta e isolada da casa.

Nesse momento, uma rajada de vento soprou no jardim,


fazendo um barulho semelhante ao de um avião, enchendo a casa de som. A enfermeira inclinou ligeiramente a cabeça e disse qualquer coisa em voz baixa ao chimpira, que imediatamente ficou hirto. Devagar, endireitou-se e virou-se para o corredor comprido onde me encontrava. Depois endireitou as costas e abriu e fechou as mãos. Começou a avançar na minha direcção.

Afastei-me da janela e corri para o meu quarto, batendo com a porta e trancando-a, tropeçando e andando para trás como um caranguejo, chocando ruidosamente com os livros e os papéis na escuridão e com os móveis. Encostei-me à parede, a olhar para a porta, o peito retesado como se me tivessem batido nas costelas. «Jason, pensei, febrilmente. Jason, eles vieram cá por tua causa. Que joguinhos tens feito com ela?

A princípio, ninguém veio. Pareceram ter passado minutos — minutos em que podiam estar a fazer qualquer coisa a Jason, minutos em que pensei abrir a porta, chegar ao telefone, ligar para a polícia. Então, quando já começava a pensar que o chimpira não vinha, que ele e a enfermeira deviam ter saído da casa em silêncio, ouvi distintamente, acima do vento, um dos seus passos no corredor.

Corri para a janela lateral, tentando agarrar a extremidade da rede mosquiteira e partindo as unhas. Um dos fechos cedeu. Arranquei a rede, escancarei a janela e olhei para baixo. A cerca de um metro, um aparelho de ar condicionado capaz de aguentar com o meu peso destacava-se no prédio ao lado. A partir dali, havia uma longa descida pelo espaço estreito entre os edifícios. Virei-me e olhei para a porta. Os passos tinham parado e, no silêncio angustiante, o chimpira murmurou qualquer coisa. Depois deu um pontapé na frágil porta. Ouvi-o agarrar nela, firmando--se para poder atravessá-la com o pé. Subi para o parapeito. Tive tempo de ver o braço dele entrar pelo buraco, a sua mão no fato cor de alfazema a tactear no escuro à procura do puxador, im-pulsionei-me para fora e aterrei ruidosamente no aparelho de ar condicionado, que estremece sob o meu peso, qualquer coisa a ferir-me o pé. Acocorei-me, deitei-me de barriga para baixo, fiz pender as pernas na escuridão, o vento a fustigar-me o pijama. Larguei-me e aterrei no chão com um ruído ligeiro, tombando


um pouco para a frente de forma que o meu rosto embateu dolorosamente nas ripas de plástico da casa vizinha.

Ouvi outro som de algo a partir-se lá em cima — o som de qualquer coisa metálica, um parafuso ou talvez uma dobradiça, a fazerem ricochete no quarto. Inspirei, pus-me de pé e desatei a correr pela viela, enfiando-me por um espaço entre dois edifícios em frente ao local onde aterrara, com o sangue a pulsar-me nas veias. Passados alguns segundos, ousei inclinar-me um pouco para a frente, as mãos pousadas nas duas paredes, e espreitar para a casa, horrorizada.

O chimpira estava no meu quarto. A luz proveniente do corredor ampliava todos os seus pormenores, como se fosse uma lupa: os fios de cabelo, o quebra-luz a balançar sobre a cabeça dele. Cobri a boca com a gola do pijama, e segurei-a aí com os dois punhos cerrados, os dentes a baterem, a fitá-lo com os olhos tão duros e redondos como se me tivessem deitado adrenalina neles. Adivinharia ele de que forma eu fugira? Conseguiria ver-me?

Hesitou, depois a sua cabeça apareceu. Escondi-me. Ele demorou bastantes minutos a estudar pacientemente a queda da janela. Quando por fim voltou a meter a cabeça no quarto, a sua sombra deteve-se um pouco, depois ele desapareceu, quase em câmara lenta, deixando o quebra-luz a balançar no quarto. Comecei de novo a respirar.

Podemos ser tão corajosos e confiantes quanto quisermos, podemos convencer-nos de que somos invulneráveis, que sabemos com o que estamos a lidar. Achamos que as coisas não vão ficar muito sérias — que haverá uma espécie de aviso antes de chegarem a esse ponto, uma música que indicará o perigo, talvez a tocar fora de cena, tal como nos filmes. Mas parece-me que os desastres não são assim. Os desastres fazem as maiores emboscadas da vida: arranjam forma de nos saltar em cima quando os nossos olhos estão fixos noutra coisa.

A enfermeira e o chimpira ficaram na nossa casa mais do que uma hora. Vi-os percorrerem os corredores, arrancar os estores das janelas. Foram partidos vidros e algumas portas arrancadas. Tombaram móveis e arrancaram o telefone da parede. Durante


todo esse tempo, fiquei agachada e imóvel entre as duas casas, a gola do pijama a cobrir-me a boca, a pensar: «Shi Chongming. Não devia ter-me deixado meter nisto. Não devia ter-me deixado meter em coisas tão perigosas. Porque aquilo era muito diferente do que eu imaginara.
46

Lembro-me do resto da noite como se esta fosse um daqueles documentários em que vemos uma flor abrir-se, ou o Sol a deslocar-se sobre uma rua — aos solavancos, com pessoas a mudarem subitamente de um local para outro. Só que no meu filme tudo tinha uma coloração amarelada ameaçadora e o som tinha uma qualidade lenta e subaquática, como aquele que imaginamos que os grandes navios emitem. Zoom, e ali estava a sombra terrível da enfermeira e de Jason, fazendo-me recordar algo que vira num livro de Dennis Potter, «besta com duas costas / besta com duas costas, depois zoom!, ali estou eu agachada entre os edifícios, os olhos lacrimejantes, os músculos das minhas coxas contraindo-se de fadiga. Observo a enfermeira e o chimpira a abandonarem a casa, detendo-se por momentos junto ao carro para observarem a rua, o chimpira com as chaves na mão, a enfermeira a apertar o cinto da gabardina antes de desaparecerem no escuro. Tenho o corpo gelado e dormente, e ao tocar no meu rosto, onde bati na parede, não me dói tanto como devia. Há apenas um pouco de sangue a sair-me do nariz, e também da boca, por ter mordido a língua. Depois outra vez zoom, e a enfermeira não voltou — a viela está calma há tanto tempo, e a porta da frente escancarada, foi arrancada dos gonzos, por isso esgueiro-me até ela e subo as escadas, a tremer imenso, hesitando a cada passo. Depois estou no meu quarto, olhando incrédula para a devastação — as minhas roupas espalhadas no chão, a porta estragada e todas as gavetas abertas e vasculhadas. Depois zoom... um grande plano terrível do meu rosto. Estou parada no meio do quarto, a olhar para uma mala vazia, o coração


apertado porque foi naquela mala que guardei todo o dinheiro que ganhei nos últimos meses. Até ali, nunca me ocorrera guardá-lo num local seguro, mas agora percebo que a enfermeira e o chimpira foram até ali não só para torturar Jason, mas também para deitarem mão a tudo o que fosse possível.

Fiquei algum tempo do lado de fora do quarto a olhar para o longo corredor. Era de madrugada. A luz que entrava pelas janelas partidas projectava sombras irregulares na esteira de tatami e tudo estava imóvel e ameaçadoramente silencioso, com excepção do barulho das gotas a pingarem da torneira. Todas as assoalhadas haviam sido pilhadas: as portas encontravam-se escancaradas, o ar gelado, móveis empoeirados e a apodrecer tombados por todo o lado. Parecia que passara por ali um furacão. Só a porta de Jason estava fechada. Chamava a atenção, aquela porta, até desde a outra extremidade do corredor. Havia algo envergonhado e sinistro nela, a julgar pela forma como se encontrava fechada.

Em vez de bater, dirigi-me ao quarto de Irina. Sou mesmo cobarde. Quando abri a porta, dois vultos encolheram-se no escuro: Svetlana e Irina, a tremerem de medo, recuando como se pudessem trepar pelas paredes como ratazanas.

— Sou eu — murmurei, erguendo as mãos para as tranquili


zar. O quarto cheirava a medo. — Sou eu.

Elas levaram algum tempo a descontrair, e escorregaram para o chão, agarradas uma à outra. Agachei-me junto delas. Irina tinha um ar terrível — as faces manchadas pelas lágrimas, a maquilhagem a borrar-lhe a cara toda.Quero ir casa — murmurou ela. — Quero ir casa.O que aconteceu? O que fez ela? Svetlana acariciou as costas de Irina.



Aquilo — sussurrou. — Aquilo, não ela. Aquilo entrar aqui... empurrar nós para aqui, e o outro roubar o dinheiro. Tudo.Ela magoou-te?

Svetlana fez ruído de desdém. Percebi que estava a fingir. A sua bravata habitual desaparecera.

— Não. Mas não é preciso tocar nós para fazer... zzzt!
Com um gesto da mão, indicou a corrida de ambas para o canto do quarto cheias de medo.

Irina limpou os olhos à T-shirt, cobrindo com ela o rosto e exercendo pressão sobre os olhos. Quando a afastou, vi as manchas do rímel.É um monstro, aquela! Um verdadeiro dyavol.Como saberem que temos dinheiro, hum? — Svetlana tentava acender um cigarro, mas as suas mãos tremiam tanto que não era capaz de controlar a chama. Desistiu e olhou para mim. — Disseste alguém quanto dinheiro ganharmos?Eles não vieram por causa do dinheiro — respondi.Claro vieram. É sempre tudo causa do dinheiro.

Não respondi. Roí as unhas e olhei para a porta enquanto pensava: «Não. Não compreendes. Foi o Jason quem os trouxe aqui. Estamos a pagar o preço pelo que ele disse ou fez à enfermeira na festa. O silêncio que emanava do quarto dele fazia-me gelar o sangue. O que iríamos encontrar quando abríssemos a porta? E se — lembrei-me da fotografia na pasta de Shi Chong-ming —, ao abrirmos a porta, encontrássemos...

Levantei-me.

— Temos de ir ao quarto do Jason.

Svetlana e a Irina ficaram em silêncio. Olharam para mim muito sérias.O que foi?Não ouviram o barulho que ele fez?Algum... estava dormir.Bem, nós... — Svetlana conseguira acender o cigarro. Reteve o fumo nos pulmões durante algum tempo e expeliu-o com os lábios tensos. — Ouvimos tudo. — Olhou para Irina como se para confirmar isto. — Hum. E nós não ir agora ver nada.

Irina fungou e abanou a cabeça.

— Não, não vamos.

Olhei para uma e para outra, sentindo um aperto no coração.

— Não — ecoei com voz seca. — Claro que não. — Fui até


a porta e olhei para a porta do quarto de Jason. — Claro que tenho de ser eu.

Svetlana aproximou-se de mim e pousou-me uma mão no


ombro. Espreitou para o corredor. Em frente à porta, encontrava-se uma mala encostada à parede, o conteúdo a tombar para o chão — a roupa dele espalhada por todo o lado, o passaporte, um envelope cheio de papéis.Meu Deus — murmurou ela ao meu ouvido. — Que confusão.Eu sei.

Tens certeza que partiram? Olhei para as escadas silenciosas.Tenho.

Irina juntou-se a nós, ainda a limpar a cara, e ficámos assim as três a olhar receosas para o corredor. Havia um cheiro — um cheiro forte que me fez pensar, inexplicavelmente, nas vísceras que se viam nas montras dos talhos. Engoli em seco.

— Ouçam... talvez tenhamos de... — Hesitei. — Que tal


um médico? Talvez tenhamos de chamar um médico.

Svetlana mordeu o lábio pouco à vontade, trocando um olhar com a Irina.Se o levar ao médico, Grey, ele querer saber o que aconteceu, e depois politsia vem cá cheirar, cheirar, e depois...A imigração. — Irina fez um ruído com a língua encostada ao céu da boca. — A imigração.E quem pagar médico? — Svetlana virou o cigarro e olhou para a ponta acesa, com se este lhe tivesse dirigido a palavra. — Não há dinheiro. — Assentiu. — Não há dinheiro casa.Davai. — Irina encostou a mão à depressão no fundo das minhas costas e empurrou-me suavemente. — Vai ver. Vai ver, depois falar.

Avancei devagar, passei por cima da mala, parei em frente à porta dele com as mãos pendentes ao lado do tronco e olhei para o puxador, o silêncio terrível a ecoar-me aos ouvidos. E se eu não encontrasse o corpo dele? Se tivesse razão quanto a Fuyuki e ao seu medicamento? Ocorreu-me a palavra caçada. Teria a enfermeira ido ali caçar? Olhei para trás, para as russas, Irina com as mãos sobre os ouvidos como se estivesse prestes a ouvir uma explosão.

— Muito bem — murmurei. Virei-me, pousei uma mão trémula no puxador e respirei fundo. — Muito bem.


Fiz força, mas a porta continuou imóvel.O que foi? — sibilou a Svetlana.Não sei. — Abanei-a. — Está trancada. — Encostei a boca à porta. — Jasoril

Fiquei à escuta, e ouvi apenas silêncio. —Jason... estás a ouvir-me?— Bati na porta com os nós dos dedos. — Jason, estás a ouvir-me? Estás...

Vai-te foder. — A voz dele soara abafada. Parecia estar a
falar debaixo do edredão. — Afasta-te da minha porta e vai-te fo
der.

Recuei um passo, apoiando-me à parede com os joelhos trémulos.Jason, estás... — Respirei fundo várias vezes. — Precisas de um médico? Levo-te a Roppongi se quiseres...Eu disse para te ires foder.... dizemos-lhes que pagamos para a semana quando...Es surda?Não — respondi, fitando a porta. — Não sou surda.

Ele estar bem? — murmurou Svetlana. Olhei para ela.O quê?Ele estar bem?

— Hum... — fiz eu, limpando a cara e olhando para a porta


com ar de dúvida. — Bem, acho que sim, acho que está.

Levámos bastante tempo a acreditar que a enfermeira não iria regressar. E ainda mais a reunir coragem para inspeccionar a casa. Os estragos eram enormes. Demos uma pequena arrumação às coisas e revezámo-nos a tomar banho. Lavei-me como que em transe, esfregando a cara inchada com a luva. Tinha os pés arranhados; devia ter feito aquilo quando saltara da janela. Por coincidência, os arranhões eram exactamente no sítio onde o bebé do sonho me mordera. Podiam ser marcas de dentes de bebé. Olhei para elas durante muito, muito tempo, tremendo tanto que os meus dentes não paravam de bater.

Irina descobrira algum dinheiro no bolso de um casaco que o cbimpira não vira e concordou emprestar-me mil ienes. Quando terminei o banho, arrumei o meu quarto, varrendo cuidadosamente os vidros partidos e os fragmentos de madeira da porta,
meti os livros dentro do roupeiro, arrumei os papéis e as pinturas, depois guardei o dinheiro de Irina no bolso e apanhei a linha Maranouchi até Hongo.

O complexo universitário ensopado de chuva parecia diferente da última vez que ali estivera. A espessa camada de folhas V desaparecera e via-se até ao lago, o complexo e ornamentado telhado do ginásio elevando-se acima das árvores. Era cedo, mas Shi Chongming já tinha um aluno com ele, um rapaz alto e bexigoso de camisola cor de laranja que dizia «Bathing Ape na parte da frente. Pararam ambos de falar quando entrei com o casaco abotoado até acima. Tinha nódoas negras no rosto, sangue seco ainda nas narinas, as mãos cerradas, e tremia descontroladamente. Estaquei no meio do gabinete e apontei para Shi Chongming.

— Fez-me ir muito longe — afirmei. — Fez-me ir muito
longe, mas não consigo ir mais além. Está na altura de me dar o
filme.

Shi Chongming levantou-se devagar. Apoiou-se à bengala, depois levantou a mão e indicou ao aluno a porta.

— Depressa, depressa — murmurou ele, ao ver que o rapaz
ficava imóvel na cadeira a olhar para mim. — Sai daqui, de
pressa.

O aluno levantou-se com cuidado. Tinha uma expressão séria e os seus olhos não se desviaram dos meus enquanto avançava de lado para a porta. Por fim, saiu e fechou-a quase sem ruído.

Shi Chongming não se virou imediatamente. Ficou algum tempo de costas, com a mão na porta. Depois de estarmos sozinhos quase há um minuto e percebermos que não seríamos interrompidos, ele virou-se para mim.Então já está mais calma?Calma? Sim, estou calma. Muito calma.Sente-se. Sente-se e conte-me o que aconteceu.

47

Nanquim, 20 de Dezembro de 1937

1 > ao há nada tão doloroso, tão agonizante, como um homem orgulhoso admitir que estava errado. Depois de termos saído da fábrica, deixando a criança morta na rua, chegámos ao local onde teríamos de nos separar e o Liu pousou a mão no meu braço.

— Vá para casa e espere por mim — murmurou. — Vou ter
consigo assim que deixar o jovem Liu em casa. As coisas vão
mudar.

E, menos de vinte minutos depois de eu ter chegado a casa, ouvi uma série codificada de pancadas na porta e, ao abri-la, lá estava ele com uma pasta grosseira de cânhamo de bambu debaixo do braço.

— Temos de falar — murmurou, certificando-se de que a
Shujin não nos ouvia. — Tenho um plano.

Descalçou os sapatos em sinal de respeito e entrou na salinha do rés-do-chão que usávamos para ocasiões formais. A Shujin mantinha a sala sempre arrumada, com as suas cadeiras e uma mesa vermelha lacada que tinha incrustadas peónias e dragões em madrepérola. Instalámo-nos nela, dispondo a roupa à nossa volta. A Shujin não perguntou qual o motivo da visita do Liu. Foi lá acima pentear-se e, pouco depois, ouvi-a sair para a cozinha e pôr água ao lume.

— Para lhe oferecer só tenho chá e um resto das bolinhas de
trigo que a sua mulher fez, Liu Runde — afirmei. — Mais nada.
Lamento.

Ele baixou a cabeça.

— Não precisa de se explicar.
Na pasta tinha um mapa de Nanquim bastante pormenorizado. Devia ter trabalhado nele durante os últimos dias. Quando o bule de chá foi posto na mesa e as nossas chávenas foram cheias, ele espalhou-o à minha frente.Aqui — disse ele, fazendo um círculo à volta de um ponto à saída de Chalukou — fica a casa de um velho amigo. Um vendedor de sal, bastante abastado, e a casa é grande, tem um poço de água potável, romlzeiras, e despensas bem recheadas. Não fica muito longe da montanha Púrpura. E isto... — Fez uma cruz já mais perto da cidade. — ... é o portão de Taiping. Consta que a muralha foi bastante danificada pelas bombas nesta zona, e é possível, com a deslocação para oeste, que os Japoneses não tenham deixado muitos homens a guardá-lo. Partindo do princípio que conseguimos passar, dali continuaremos por ruas secundárias, seguindo a principal estrada para Chalukou, chegando ao rio já bastante a norte da cidade. Chalukou não deve ter qualquer interesse estratégico para os Japoneses, por isso, se tivermos sorte, encontramos um barco e na outra margem desapareceremos na província de Anhui. — Ficámos ambos em silêncio durante algum tempo, pensando no que seria fazer as nossas famílias atravessar todos esses locais perigosos. Passado um pouco, como se eu tivesse expressado uma dúvida, o Liu assentiu. — Sim, eu sei. Para isto resultar, os Japoneses têm de estar concentrados mais acima junto ao rio, em Xiaguan e Meitan.Dizem na rádio que qualquer dia será anunciada a formação da comissão governativa.

Ele olhou para mim muito sério. Nunca lhe tinha visto uma expressão tão nua.

— Meu caro Shi. Sabe perfeitamente, tal como eu, que se ficarmos aqui pareceremos ratazanas num esgoto, à espera que os
Japoneses nos encontrem.

Pousei a cabeça nas mãos.Sim, é verdade — murmurei. Sentia lágrimas nos olhos, lágrimas que não queria que o Liu visse. Mas ele é velho e sábio. Percebeu logo qual era o problema.Amigo Shi, não se sinta muito culpado... compreende? Eu próprio não me saí melhor. Também sou culpado de orgulho.


Uma lágrima correu-me pela cara e caiu na mesa, mesmo em cima do olho de um dragão. Olhei para ela, entorpecido.

— O que fiz eu? — murmurei. — O que fiz à minha mulher? Ao meu filho?

O velho Liu inclinou-se para a frente na cadeira e cobriu a minha mão com a sua.

— Enganámo-nos. Apenas nos enganámos. Portámo-nos como homenzinhos ignorantes, mas mais nada. Apenas um pouco


ignorantes, você e eu.

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