Título da edição original



Baixar 1.15 Mb.
Página2/20
Encontro15.04.2018
Tamanho1.15 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   20

2

XI/m frente ao enorme portão Akamon lacado a vermelho à entrada da Universidade Todai, havia um pequeno café chamado Bambi. Quando Shi Chongming me pediu que saísse do seu gabinete, fi-lo, reunindo obedientemente os meus apontamentos e voltando a enfiá-los no saco de viagem. Mas não desistira. Ainda não. Fui para o café e escolhi um lugar perto da janela, com vista para o portão, de forma a poder ver toda a gente a entrar e a sair.

Acima de mim, tão altos quanto a vista alcançava, os arranha-céus de Tóquio erguiam-se reluzentes até ao céu, reflectindo o sol no seu milhão de janelas. Sentei-me inclinada para a frente, a admirar aquela vista incrível. Sabia bastante sobre aquela cidade fénix, sobre como Tóquio se erguera das cinzas da guerra, mas ali, ao vivo, ela não me parecia muito real. Onde estaria a Tóquio do tempo da guerra?, perguntei a mim mesma. Onde está a cidade de onde vieram aqueles soldados? Estará enterrada debaixo desta} Era tudo tão diferente das imagens escuras que eu vira durante todos aqueles anos, de uma velha relíquia suja de carvão, das ruas bombardeadas e dos riquexós — decidi que consideraria o aço e as construções de ferro e de cimento uma encarnação de Tóquio, uma coisa sobreposta à cidade autêntica, o verdadeiro coração pulsante do Japão.

A empregada estava a olhar para mim. Peguei na ementa e fingir estar a lê-la, corando. Não tinha dinheiro, pois não fizera planos para todas as contigências. Para pagar o bilhete de avião trabalhara numa fábrica, a embalar ervilhas congeladas, ferindo a pele dos dedos. Quando disse na universidade que queria ir até


ali à procura de Shi Chongming, disseram-me que era a última gota. Que eu podia ficar em Londres e terminar os estudos, ou abandonar a universidade. Parece que eu estava «destrutivamente preocupada com certos acontecimentos em Nanquim: chamaram-me a atenção para os módulos inacabados, para as aulas de Direito onde eu não chegara a pôs os pés, para as vezes em que eu fora apanhada no salão de leitura a fazer desenhos de Nanquim em vez de estar a tomar notas sobre a dinâmica económica da região asiática do Pacífico. Não valia a pena pedir-lhes fundos de investigação para a viagem, por isso vendi as minhas coisas, alguns CDs, uma mesinha, a velha bicicleta preta em que me deslocara por Londres ao longo dos anos. Depois do bilhete de avião, não sobrara muita coisa — apenas uma mão-cheia de ienes enfiados no bolso lateral do saco de viagem.

Continuei a olhar para a empregada, perguntando a mim mesma quanto tempo passaria até eu ter de pedir qualquer coisa. Ela começava a ficar chateada, por isso escolhi a coisa mais barata da ementa — um bolo de melão coberto com açúcar. Quinhentos ienes. Quando a comida chegou, contei o dinheiro com atenção e coloquei-o num pires, tal como via os outros clientes fazerem.

Havia alguma comida no meu saco. Talvez ninguém reparasse se eu a tirasse. Guardara lá oito pacotes de bolachas Rich Tea. Havia ainda uma saia de lã, duas blusas, dois pares de collants, três livros sobre a guerra no Pacífico, um dicionário e três pincéis. Fora um pouco vaga em relação ao que aconteceria depois de deitar as mãos ao filme de Shi Chongming, não pensara nos pormenores práticos. «Pronto, aí tens, Grey», pensei. O que estavam os médicos sempre a dizer-te? Precisas de arranjar forma de prever as coisas — há regras na sociedade que terás sempre de levar em conta.

Grey.


Claro que este não é o meu nome verdadeiro. Nem os meus pais, enfiados na sua velha casa, onde não passavam estradas nem carros, eram assim tão estranhos. Não. Foi no hospital que arranjei este nome.

Veio da rapariga na cama ao lado da minha, uma rapariga


pálida com um brinco no nariz e cabelo baço que ela passava os dias a esfregar: «Estou a tentar penteá-lo à dred, só quero penteado um pouco à dred. Snifara demasiada cola, e uma vez endireitara um cabide de arame, trancara-se na casa de banho e enfiara a extremidade aguçada na pele, do pulso até ao sovaco. (O hospital tentava manter juntas pessoas como nós, vá-se lá saber porquê. Éramos a enfermaria da «automutilação.) A rapariga dos dreds parecia ter sempre um sorriso confiante no rosto e eu nunca pensei que ela fosse dirigir-me a palavra. Então um dia estávamos na fila para o pequeno-almoço e ela pressentiu-me atrás de si. Virou-se, olhou para mim e vi na sua expressão que me reconhecera.

— Oh, já percebi. Acabei de me lembrar daquilo com que te


pareces.

Pestanejei.O quê?Um cinzento. Lembras-me um cinzento.Um quê*.Sim. Quando cá chegaste, ainda estavas viva. Mas — sorriu e apontou um dedo ao meu rosto — já não estás, pois não? és um fantasma, Grey, como todas nós.

Um cinzento. Ela acabou por ter de arranjar o desenho de um cinzento para explicar aquilo de que estava a falar: era um extraterrestre com uma cabeça grande, olhos semelhantes aos de um insecto colocados no alto rosto, e uma estranha pele sem cor. Lembro-me de estar sentada na cama, a olhar para a revista, as minhas mãos cada vez mais frias, o sangue a parar-me nas veias. Não havia nada vivo em mim. Um fantasma.

Sabia porquê. Era porque eu já não queria acreditar. Os meus pais não me apoiavam, e havia outras coisas que faziam com que os médicos pensassem que eu era maluca — para começar, todas as coisas relacionadas com sexo. E depois havia a minha estranha ignorância relativamente ao mundo.

A maior parte dos funcionários do hospital pensava que a minha história era um pouco escandalosa, por estar só ligada aos livros, sem intervenção da rádio ou da televisão. Riam-se sempre que eu saltava assustada por ouvir um aspirador a ser ligado, ou quando um autocarro passava na rua. Não sabia utilizar um
walkman ou um comando à distância e às vezes dava comigo em locais estranhos, a pestanejar, sem me lembrar porque é que ali fora. Não acreditavam que era por causa de eu ter crescido isolada, distanciada do mundo real. Em vez disso, decidiram que fazia tudo parte da minha loucura.

— Calculo que consideres a ignorância uma forma de desculpa. — A enfermeira que costumava ir ao meu quarto a meio da noite, murmurar todas as suas opiniões ao meu ouvido, achava que a minha ignorância era o maior dos pecados. — Não é uma desculpa, sabes, não é uma desculpa. Não. De facto, quanto a mim, a ignorância não é diferente da maldade pura. E o que fizeste é precisamente isso — uma maldade.

Depois de a empregada se ter afastado, abri o fecho do saco e tirei de lá o meu dicionário de japonês. Há três alfabetos no Japão. Dois são fonéticos e fáceis de compreender. Mas há também um terceiro, que evoluiu há séculos dos caracteres pictóricos usados na China, e é muito mais complexo e muito, muito mais bonito. Chama-se kanji. Há anos que ando a estudá-lo, mas às vezes quando vejo kanji ainda sou levada a pensar na pequenez da minha vida. Quando paramos para considerar toda a história e a intriga escondidas numa imagem mais pequena que uma formiga, como conseguimos não nos sentir um desperdício de ar? O kanji tinha para mim uma bela lógica. Eu percebia por que motivo o símbolo para orelha encostado ao símbolo para portão significava «ouvir». Percebia por que motivo três mulheres juntas significava barulhento» e por que motivo acrescentar uns riscos à esquerda de cada carácter alterava o seu significado de forma a incluir água. Um campo com um símbolo de água acrescentado significava mar.

O dicionário era o meu companheiro constante. Era pequeno e macio e branco e familiar, com uma encadernação que podia ser de couro de bezerro, e cabia nas minhas mãos como se tivesse sido moldado nelas. A rapariga com os dredlocks roubara-o de uma biblioteca quando saíra do hospital. Enviara-mo pelo correio como presente quando se espalhou entre os doentes que eu ia finalmente ter alta. Pusera entre as páginas um cartão: Acredito em ti. Os outros que se lixem. Vai e prova-o, miúda.


Mesmo passados todos aqueles anos, eu continuava secretamente encantada com o cartão.

Abri o dicionário na primeira folha, a folha com o carimbo da biblioteca. Os caracteres para o nome chinês de Shi Chong-ming queriam dizer qualquer coisa como «Aquele que vê com clareza tanto a história como o futuro. Com uma caneta de feltro vermelha tirada do fundo do saco, comecei a desenhar os kanji, entrelaçando-os, virando-os de pernas para o ar, de lado, até a página estar coberta de vermelho. Depois, nos intervalos, com letras muito pequenas, escrevi Shi Chongming em inglês, vezes sem conta. Quando já não havia mais espaço, abri-o na última folha e desenhei um mapa do complexo universitário, acrescentando algumas sebes e árvores. O complexo universitário era tão bonito. Vira-o apenas por minutos, mas parecera-me um país das maravilhas no meio da cidade: gingkos frondosos envolviam os carreiros brancos de gravilha, e havia telhados ornamentados e sons tranquilos de um lago escuro na floresta. Desenhei o pavilhão dos arqueiros, depois acrescentei algumas lanternas de pedra tiradas da minha imaginação. Finalmente, por cima do gabinete de Shi Chongming, desenhei-me de pé junto a ele. Estávamos a apertar a mão. Na mão livre, ele segurava a bobina de um filme numa caixa metálica e estava prestes a entregar-mo. Na minha imagem, eu tremia. Ao fim de nove anos, sete meses e dezoito dias, ia finalmente obter uma resposta.

As seis e meia, o sol continuava quente, mas as grandes portas de carvalho do Instituto de Ciências Sociais estavam trancadas e, quando encostei o ouvido a elas, não ouvi barulho nenhum lá dentro. Virei-me e olhei em volta, perguntando a mim mesma o que iria fazer em seguida. Tinha esperado por Shi Chongming no café Bambi durante seis horas e, embora ninguém me tivesse dito nada, sentira-me obrigada a continuar a comprar cafés gelados. Bebera quatro. E mais quatro bolos de melão, molhando os dedos e apanhando o açúcar do prato; enfiando sub-repticiamente a mão no saco para tirar umas bolachas Rich Tea sempre que a empregada não estava a olhar. Tive de as partir debaixo da mesa e levar de vez em quando a mão à boca, fingindo que estava a bocejar. A mão-cheia de notas de ienes foi
diminuindo. Apercebi-me de que fora uma perda de tempo. Shi Chongming devia ter-se ido embora há muito tempo por uma saída diferente. Talvez tivesse adivinhado que eu estava à espera.

Regressei à rua e tirei várias folhas dobradas do saco. Uma das últimas coisas que fizera em Londres fora fotocopiar um mapa de Tóquio. Tinha uma escala bastante grande: estendia-se por várias folhas. Fiquei ali parada ao sol do fim da tarde, com a multidão a passar por mim, a olhar para as folhas. Em seguida, olhei para um lado e para o outro da via onde me encontrava. Parecia um desfiladeiro devido ao facto de os prédios serem tão densos e altos, e por causa da multidão e dos anúncios de néon e das lojas e do barulho. O que deveria eu fazer? Abandonara tudo para ir até ali ver Shi Chongming, e agora não tinha para onde ir, nada mais para fazer.

Depois de ter olhado para as folhas durante dez minutos e ainda não ter decidido o que fazer, voltei a enfiá-las no saco, pu--lo a tiracolo, fechei os olhos e comecei a dar voltas, contando o seu número em voz alta. Quando cheguei a vinte e cinco, abri os olhos e, ignorando os olhares de estranheza dos outros peões, avancei em frente.
aminhei por Tóquio durante horas, espantada com os arranha-céus que se assemelhavam a escarpas de vidro, os anúncios a tabaco e bebidas em toda a parte, as vozes metálicas que flutuavam por todo o lado, fazendo-me imaginar hospícios lá em cima, no céu. Descrevi vários círculos, tão aleatoriamente como um verme, desviando-me dos peões, dos ciclistas, das criancinhas solitárias nos seus fatos imaculados de marinheiro, com as suas mochilas de cabedal tão brilhantes como asas de besouros. Não faço ideia da distância que percorri, nem para onde fui. Depois de a cidade ter ficado às escuras, de o suor me ter empapado a roupa, de a alça do saco ter feito um sulco no meu ombro e de ter os pés cheios de bolhas, parei. Encontrava-me junto a um templo, rodeada de bordos e ciprestes, de sombras salpicadas das cameleiras. Estava fresco e o silêncio era apenas interrompido pelo rumorejar de centenas de papéis com orações budistas presos aos ramos, que adejavam na brisa da tarde. Depois vi, alinhadas num silêncio fantasmagórico sob as árvores, filas e filas de efígies de crianças em pedra. Centenas delas, cada uma com uma boina vermelha tricotada à mão.

Sentei-me num banco, chocada, e olhei para elas. Erguiam--se em filas, algumas com um moinho de vento ou um ursinho na mão, outras envergando pequenos bibes. Filas e filas de rostos tristes virados para mim. Eram capazes de nos fazer chorar, aquelas crianças e a sua expressão, por isso levantei-me e fui para outro banco onde não tivesse de olhar para elas. Descalcei os sapatos e os collants. Os meus pés nus gostaram do ar fresco — ergui-os à minha frente e mexi os dedos. A entrada do templo ha-


via uma bacia com água. Estava ali para os fiéis purificarem as mãos, mas aproximei-me e usei a colher de bambu para derramar água sobre os pés. Era fresca e limpa, e bebi uns goles. Quando terminei e me virei, as crianças de pedra pareciam ter-se movido. Pareciam ter dado um passo colectivo para trás como se tivessem ficado chocadas com o meu comportamento naquele local sagrado. Olhei para elas durante algum tempo. Depois regressei ao banco, tirei uma embalagem de bolachas do saco e comecei a comer.

Não tinha para onde ir. A noite estava quente e o parque tranquilo, com a grande Torre Tóquio vermelha e branca bem iluminada acima de mim. Quando o Sol se pôs, acendeu-se um candeeiro entre as árvores e pouco depois os sem-abrigo juntaram-se a mim nos bancos circundantes. Os mendigos, por muito miseráveis que parecessem, pareciam todos ter sempre pequenas refeições com eles, com pauzinhos e tudo, algumas em pequenas caixas bento lacadas. Fiquei sentada no meu banco a comer as bolachas e a observá-los. Eles comeram o seu arroz e observaram-me.

Um dos sem-abrigo trouxera com ele uma pilha de cartão que colocou junto à entrada de mosaicos do templo, e empoleirou-se nela, vestido apenas com umas calças de fato de treino sujas e cheias de nódoas, e sujo de terra na barriga redonda. Passou bastante tempo a olhar para mim e a rir — fazia lembrar um pequeno buda que tivesse rebolado em fuligem. Não me ri. Continuei sentada no banco a olhar para ele em silêncio. Fez-me lembrar uma fotografia num dos meus livros que mostrava um habitante de Tóquio faminto, após a guerra. Naquele primeiro ano em que MacArthur instalou o seu quartel-general, os Japoneses viveram de serradura e bolotas, cascas de amendoins e folhas de chá, talos e sementes de abóbora. As pessoas morriam à fome nas ruas. O homem do meu livro tinha um pano estendido no chão à sua frente, com duas colheres grosseiras pousadas em cima. Não havia nelas nada de especial, não eram de prata nem tinham gravações, eram apenas umas colheres vulgares. Provavelmente tudo o que lhe restava no mundo e, porque precisava de comer, estava a tentar vendê-las a alguém a quem não faltasse nada, a não ser duas vulgares colheres.

Chamavam-lhe a isto «a.existência rebento de bambu, a vi


da cebola, cada camada que se retirava fazia-nos chorar ainda mais, e, mesmo que se conseguisse encontrar comida, não se podia levá-la para casa porque a disenteria fervilhava na lama das ruas e podia-se levá-la para a família. Apareciam crianças no cais, acabadas de sair da Manchúria independente, com as cinzas dos familiares em caixas de glicínia branca penduradas ao ombro. Talvez fosse esse o preço da ignorância, pensei, olhando para o vagabundo nu. Talvez o Japão tivesse de pagar pelas coisas ignorantes que fizera em Nanquim. Porque a ignorância, como eu me cansara de ouvir, não é desculpa para a maldade.

Os sem-abrigo tinham-se ido embora quando acordei na manhã seguinte. No seu lugar, a observar-me do banco em frente, os pés afastados, os cotovelos nos joelhos, estava um homem ocidental com mais ou menos a minha idade. Vestia uma T-shirt desbotada com as palavras Big Daddy Blake/Killtime Mix, e tinha um fio de couro ao pescoço com o que parecia ser um dente de tubarão. Os seus tornozelos estavam bronzeados e ele sorria como se eu fosse a coisa mais divertida que já vira.

— Olá — disse ele, levantando uma mão. — Parecias tão
confortável. O sono dos anjos.

Sentei-me rapidamente, e o meu saco caiu para o chão. Agarrei no casaco de malha e embrulhei-me nele, ajeitando o cabelo com as mãos, lambendo os dedos e passando-os em torno da boca, dos olhos. Sabia que ele estava a sorrir-me e tinha aquela expressão perplexa que já me habituei a ver nas pessoas que olham para mim.

— Ouviste o que eu disse? — Aproximou-se de mim, fazen
do sombra sobre o meu saco. — Perguntei se ouviste o que eu
disse. Falas inglês? — Tinha um sotaque estranho. Podia ser da
Inglaterra, da América ou da Austrália. Ou dos três sítios. Soava
como se tivesse acabado de chegar de uma praia. — Falas inglês?

Assenti.


— Ai sim?
Tornei a assentir.

Ele sentou-se ao meu lado e estendeu-me a mão — bem junto à minha cara, para eu não poder deixar de a ver.

— Bem, então olá. Sou o Jason.
Olhei para a mão dele.

— Eu disse olá, disse que era o Jason.

Apertei-lhe a mão rapidamente, depois inclinei-me de lado para não ter de lhe tocar, e tacteei debaixo do banco à procura do saco. Era sempre assim na faculdade, os rapazes a gozarem comigo por eu estar sempre tão à defesa, sempre a fazerem-me sentir que devia enfiar-me num buraco. Encontrei os meus sapatos dentro do saco e comecei a tirá-los.

— Esses são os- teus sapatos? — perguntou ele. — Vais mesmo calçá-los?

Não respondi. Os sapatos eram bastante antiquados. Eram pretos, de atacadores, com um ar bastante sisudo, calculei, e de solas grossas. Não eram nada apropriados para um dia quente em Tóquio.

— És sempre assim tão mal-educada?

Calcei os sapatos e comecei a atar os atacadores, apertando--os mais do que o necessário, com os dedos um pouco brancos devido à pressão. Nos tornozelos, as bolhas roçaram no cabedal rijo.

— Fixe — disse ele, divertido. — És mesmo esquisita.


Houve qualquer coisa na forma como falou que me levou a

interromper o atar dos sapatos e a olhá-lo. O Sol passava por entre as árvores atrás dele, e pareceu-me ver cabelo escuro, bastante curto, ligeiramente maior na nuca e junto às orelhas. Às vezes, embora ninguém pudesse adivinhá-lo nem eu o admitisse, às vezes eu só pensava em sexo.Bem, por acaso és — disse ele. — Não és? Esquisita, quero eu dizer. De uma forma agradável. De uma forma inglesa. Vens de Inglaterra?Eu... — Atrás dele, as fantasmagóricas crianças de pedra erguiam-se nas suas fileiras, e o sol começava a tocar os ramos por cima delas, reflectindo-se no orvalho dos seus ombros e boinas. Ao longe, os calmos arranha-céus reflectiam uma Tóquio tão limpa e cintilante como o lago de uma caverna. — Eu não... não sabia onde dormir.Não tens hotel?Não.Acabaste de chegar?


— Sim.
Ele riu-se.Tenho um quarto em minha casa. Tenho cerca de cem quartos na minha casa.

Na tua casa?Claro. Na minha casa. Podes alugar lá um quarto.Não tenho dinheiro.Oh! Estamos em Tóquio. Não ligues aos economistas, ainda há aqui uma pipa de massa para ganhar. Basta abrires os olhos. Continua a haver clubes de acompanhantes em cada esquina.

As raparigas da faculdade costumavam imaginar-se a trabalhar nos clubes de acompanhantes de Tóquio. Falavam horas a fio de quanto iriam ganhar, das prendas que receberiam. Eu costumava sentar-me a um canto em silêncio, pensando que devia ser bom ser-se tão confiante.

— Eu sirvo à mesa num — disse ele. — Se quiseres, apresento-te à mamasan.

Senti o rosto afoguear-se. Um clube de acompanhantes. Ele não imaginava como aquilo me fazia sentir. Virei-me e acabei de atar os sapatos. Pus-me de pé e alisei a roupa com as mãos.

— A sério. Ganha-se uma pipa de massa. A recessão ainda


não atingiu os clubes. E a mama-san gosta de pessoas esquisitas.

Não respondi. Subi o fecho do casaco de malha, icei a alça do saco acima da cabeça e pu-lo a tiracolo.

— Desculpa — disse eu, desajeitada. — Tenho de ir an
dando.

Cruzei os braços e afastei-me de Jason pelo parque. Nesse momento soprou uma brisa que agitou os moinhos de vento das crianças. Lá em cima, o céu reflectia-se nos arranha-céus.

Apanhou-me à saída do parque.

— Ei! — exclamou. Não parei, por isso caminhou ao meu


lado, sorrindo. — Ei, esquisita! Aqui tens a minha morada. —
Estendeu a mão e parei para olhar para ela. Segurava um bocado
de um maço de tabaco com uma morada e um número de telefone rabiscados. — Vá lá, pega nisto. Havias de ficar bem na
nossa casa.

Olhei para o cartão.


Vá lá.

Hesitei, depois peguei no cartão, voltei a recolher a mão debaixo do sovaco, inclinei a cabeça para a frente e continuei o meu caminho. Atrás de mim, ouvi-o rir e aplaudir.

— És um espanto, esquisita. Gosto de ti.

Nessa manhã, quando a empregada do café Bambi me trouxe o café gelado e o bolo, pousou também na mesa um enorme prato de arroz, algumas bolas de peixe frito, dois pires de legumes avinagrados e uma tigela de sopa de miso.

— Não — disse eu em japonês. — Não. Não encomendei
isto.

Ela olhou para o gerente, que verificava os recibos na caixa registadora, depois virou-se para mim, olhou para o tecto e encostou um dedo aos lábios. Mais tarde, quando me trouxe a conta, reparei que só me cobrara o bolo. Fiquei ali sentada mais um pouco, sem saber o que dizer, observando-a enquanto servia as outras mesas, tirando o bloco do bolso no avental, coçando a cabeça com uma caneta cor-de-rosa Maruko Chan. Não é todos os dias que se vê aquele tipo de generosidade, pelo menos que eu saiba. De repente, perguntei a mim mesma quem seria o pai dela. O avô. Se ele alguma vez lhe falara do que acontecera em Nanquim. Durante muitos anos não tinham falado do massacre nas escolas. Todas as referências à guerra tinham sido retiradas dos livros escolares. A maior parte dos adultos japoneses fazia apenas uma vaga ideia do que acontecera na China em 1937. Perguntei a mim mesma se a empregada de mesa conheceria sequer o nome Nanquim.

Tem de estudar-se durante bastante tempo uma coisa antes de a compreender. Nove anos, sete meses e dezanove dias. E, afinal, mesmo esse tempo não é suficiente para determinadas coisas. Apesar de tudo o que li sobre os anos durante os quais o Japão invadiu a China, continuo sem saber por que motivo o massacre aconteceu. Os peritos — os sociólogos, os psicólogos e os historiadores — parecem todos compreender. Dizem que foi por medo. Dizem que os soldados japoneses tinham medo, estavam cansados e famintos, que lutaram com unhas e dentes por
Xangai, que combateram a cólera e a disenteria, que marcharam por meia China, estavam à beira da ruptura quando chegaram à capital. Alguns deles dizem que os soldados japoneses eram meros produtos de uma sociedade sedenta de poder, que haviam sofrido lavagens cerebrais para considerarem os Chineses uma espécie inferior. Alguns dizem que um exército daqueles, ao entrar em Nanquim e encontrar centenas de milhar de cidadãos indefesos escondidos em edifícios bombardeados... Bem, há quem diga que talvez o que aconteceu a seguir não tenha sido uma surpresa.

O Exército Imperial Japonês foi rápido e eficiente. Em apenas algumas semanas, tinha morto cerca de trezentos mil civis. Quando os soldados terminaram, assim rezam as histórias, não eram precisos barcos para se atravessar o rio lansequião de uma margem para a outra. Podia atravessar-se por cima dos cadáveres. Foram muitos inventivos nas novas formas de morte que arranjaram. Enterravam os jovens até ao pescoço na areia e faziam passar os tanques por cima das suas cabeças. Violaram mulheres de idade, crianças e animais. Decapitaram, desmembraram e torturaram; usaram bebés para praticar com as baionetas. Seria de esperar que quem tivesse sobrevivido ao holocausto nunca mais voltasse a confiar nos Japoneses.

Eu vira um projector de 16 mm no gabinete de Shi Chong-ming. Passara a noite inteira a pensar nele. Sempre que começava a achar que imaginara a referência no jornal, murmurava comigo mesma: Para que precisa um professor de Sociologia de um projector?

Ele chegou à universidade pouco antes das dez horas. Vi-o ao longe, tão pequeno como uma criança, movendo-se a custo. A sua túnica azul-escura estava presa com laços de um dos lados de uma forma muito pouco japonesa, e ele ia cambaleando com a bengala, avançando a metade da velocidade dos outros transeuntes, com um chapéu de plástico preto de pescador enfiado sobre o cabelo branco comprido. Quando chegou ao portão vermelho lacado, eu já o esperava, observando-o a descer a rua na minha direcção.

— Bom dia. — Dei um passo em frente e Shi Chongming estacou.
Olhou para mim irritado.Não fale comigo — balbuciou ele. — Não quero falar consigo. — Coxeou na direcção do instituto. Segui-o, caminhando lado a lado com ele. Deve ter parecido um gesto cheio de consideração, um pequeno professor a coxear, fingindo que não havia uma rapariga estrangeira desengonçada com roupas estranhas a acompanhá-lo. — Não gosto do que me está a trazer.Mas o senhor tem de falar comigo. Isto é a coisa mais importante do mundo.Não. Você enganou-se na pessoa.Não enganei. É o senhor. Shi Chongming. Há quase dez anos que ando à procura do que está nesse filme. Nove anos, sete meses e...E dezoito dias. Eu sei. Eu sei. Eu sei. — Estacou e olhou para mim. A ira fizera-lhe surgir nas íris pequenas manchas cor de laranja: pareciam berlindes. O professor olhou para mim durante muito, muito tempo e lembro-me de ter pensado que devia fazê-lo recordar-se de alguma coisa, pois a sua expressão era muito intensa e pensativa. Por fim, suspirou e abanou a cabeça. — Onde é que está hospedada?Aqui, em Tóquio. E já são sete meses e dezanove dias.Então diga-me onde posso contactá-la. Talvez daqui a uma ou duas semanas, quando já não estiver tão ocupado, possa dar-lhe uma entrevista sobre o tempo que passei em Nanquim.Uma semana? Oh, não, não posso esperar uma semana. Não tenho...

Ele fez um ruído de impaciência.Diga-me uma coisa: sabe o que alguns ricos pequineses são capazes de fazer para que os filhos aprendam inglês?Desculpe?Sabe o que eles são capazes de fazer? — Levantou a língua e apontou para o tecido de ligação na base. — São capazes de cortar a língua aos filhos, aqui, aqui debaixo, quando os rapazes têm apenas três ou quatro anos. Para que eles consigam dizer o som r inglês. — Confirmou. — Pois. Diga-me: o que acha do meu inglês?É perfeito.Mesmo sem pais ricos, sem mutilação?

Sim.Trabalhei muito para chegar a este ponto. É tudo. Vinte anos de trabalho árduo. E sabe uma coisa? Não passei vinte anos a aprender inglês para agora estar a desperdiçar palavras. Disse--lhe uma semana. Ou até duas. E era isso que eu queria dizer. — Começou a afastar-se a coxear.

Fui atrás dele.Olhe, lamento. Uma semana. Tudo bem, tudo bem. — Ultrapassei-o e virei-me para ele levantando as mãos para o fazer parar. — Sim. Uma semana. Eu... eu... eu ligo-lhe. Daqui a uma semana, venho cá vê-lo.Não vou estar sujeito ao seu horário. Contacto-a quando estiver preparado.Eu ligo-lhe. Daqui a uma semana.Não me parece. — Shi Chongming desviou-se e passou por mim.Espere. — A minha mente trabalhava a grande velocidade. — Olhe, está bem. — Tacteei a roupa desesperada, tentando pensar no que fazer. Encontrei qualquer coisa. O pedaço do maço de tabaco que Jason me entregara. — A minha morada. Aqui está. Dê-me só um momento para a escrever.

pareceu alguém na minha vida. De repente. Não podia ter sido mais mal recebida. Fui apanhado duas vezes desprevenido por ela, zumbindo à minha volta como um besouro persistente. Duas vezes! Grita e resmunga, ergue os braços para o ar e lança-me olhares funestos, como se eu sozinho fosse responsável por todos os males do mundo. Diz que quer falar de coisas que aconteceram em Nanquim.

Quer? Não, realmente quer não é a palavra indicada. É muito mais do que isso, muito mais do que «quer. É uma doença. Está louca de desejo por ouvir falar de Nanquim. Como me arrependo das poucas vezes em Jiangsu, naqueles dias distantes, anteriores à revolução, quando estava tão confortável na minha posição na universidade, em que me descontraí o suficiente para falar! Como me admoesto agora pelas poucas alusões vagas que fiz aos acontecimentos do Inverno de 1937. Acreditei que não haveria consequências. Acreditei mesmo. Acreditei que ninguém abriria a boca. Como podia eu saber que um dia as minhas divagações apareceriam num jornal ocidental, para serem descobertas e analisadas obsessivamente por esta desconhecida? Estou um pouco desesperado com isto. Já lhe disse duas vezes para me deixar em paz, mas ela recusa-se a dar-me ouvidos, e hoje fui implacavelmente encurralado até me ter visto na humilhante posição de concordar com um futuro encontro, apenas para a fazer desistir.

Mas (oh, e aqui vem o ponto crucial) o que realmente me incomoda é algo mais profundo que a teimosia dela. Porque algo na sua insistência veio desestabilizar as coisas. Sinto uma inquietação
nova, tenebrosa, e não consigo deixar de me perguntar se ela é um prenúncio de qualquer coisa, se a sua presença aqui, a sua determinação súbita para remexer nas cinzas de Nanquim significa que o último capítulo está ainda mais próximo do que eu julgara.

Isto é uma loucura! Durante todos estes anos, jurei nunca mais revisitar aquele Inverno, nunca ler as palavras que escrevi nesse ano. Mantive rigidamente a promessa, e contudo, hoje, por um motivo que está para além da minha compreensão, quando regressei ao meu gabinete depois de ter falado com ela, abri instintivamente a gaveta da secretária para tirar de lá o velho e gasto diário e coloquei-o em cima da secretária, onde posso agora vê-lo mas não tocar-lhe. Por que motivo, pergunto a mim mesmo, por que motivo, após todos este anos, tenho vontade de o abrir na primeira página? Mal consigo conter-me para não pegar nele e devorá-lo. Que desejo fatal é que ela despoletou? Encontrei a solução — vou enterrá-lo. Sim. Algures... talvez aqui, sob as pilhas de livros e apontamentos. Ou talvez o tranque num destes armários, onde poderei esquecer-me dele, onde nunca mais me distraia.

Ou (e aqui a minha voz tem de ser abafada)... ou irei lê-lo. Irei abri-lo e lê-lo. Apenas uma frase. Apenas um parágrafo. Afinal de contas, se pensarmos bem nas coisas, qual é o objectivo de transportar aquelas quarenta mil palavras, quarenta mil palavras para o massacre, se não eram para ser lidas? Que mal me podem fazer nas palavras? Poderão rasgar-me a carne? E quem se importa se quebrar a minha promessa e engordar a comer aquelas palavras? Talvez as promessas sejam feitas para ser quebradas...

Será que irei reconhecer-me? Será que irei importar-me?



Nanquim, 28 de Fevereiro de 1937 (décimo oitavo dia do primeiro mês, pelo calendário da Shujin)

O que aconteceu ao Sol? Algo na natureza deve ter-se desequilibrado para que o sol-nascente tenha aquele aspecto. Estou sentado junto a esta janela familiar, a única janela na casa que dá

Tóquio

para este, para a cidade, e sou invadido por uma enorme inquietação. A minha mão treme enquanto escrevo. O Sol está vermelho. E pior... por causa de um truque qualquer, de alguma conspiração da atmosfera e da paisagem, os seus raios dispõem-se simetricamente e atravessam o céu em riscas vermelhas sólidas. Parece exactamente... exactamente...



Céus! O que se passa? Não ouso sequer escrever as palavras. Isto é uma espécie de loucura. Ver sinais no céu! Devo virar-lhe costas e tentar que os meus pensamentos não vagueiem desta maneira. Corro o perigo de soar como a Shujin, ou de ficar como ela — a perder tempo com superstições. Sinceramente, preo-cupo-me todos os dias com a Shujin. Se ela agora estivesse acordada, inclinaria a cabeça para um lado, olharia para o horizonte com ar pensativo e recordaria de imediato uma das pérolas da sabedoria popular que se entretém a decorar: a lenda dos dez sóis que se revezam a erguer-se a este, nadando em fila pelo submundo para dar a volta e de novo nascerem. Olharia para este sol durante algum tempo e a seguir declararia que algo correra mal durante o seu mergulho pelo submundo, que sofrera um ferimento — uma premonição de que algo terrível estava para vir. Porque se há coisa em que ela insiste, é nesta: a crença de que o tempo se move em redor de nós como um barril — rolando diante dos nossos olhos, rolando. Diz, e nunca se cansa de o repetir, que é capaz de ver o futuro pela simples razão de que o futuro é o nosso passado.

Não discuto a sua sabedoria popular, fico-impotente ante a sua veemência. «Nunca tentes mudá-la, disse-me a minha mãe, antes de morrer. As presas de um elefante nunca cresceram da boca de um cão. Sabes isso.

Mas por muito maleável que me tenha tornado, não sou um idiota completo. Embora seja verdade que não há necessidade de a mudar, também não é preciso encorajar esta sua natureza histérica. Não é preciso, por exemplo, levantá-la agora da cama e trazê-la aqui para o meu escritório, onde estou sentado na minha cama diurna a olhar receoso para o Sol.

Ele está agora ali a pairar, como um gigante a observar a cidade, terrível e vermelho. A Shujin diria que é um presságio. Faria alguma coisa ridícula se o visse, desataria talvez a correr pela


casa aos gritos. Por isso, guardo-o para mim. Não contarei a ninguém que hoje vi o Sol chinês a nascer com a forma e a cor do Hi No Maru — o disco vermelho da bandeira do Exército Imperial Japonês.

Pronto! Está feito! Deveria largar o livro e cobrir o rosto de vergonha. Quebrei a minha promessa. Que estranho, após todos estes anos, ter desistido tão súbita e inesperadamente, numa manhã de Verão tão normal como qualquer outra, que estranho ter sucumbido. Agora, enquanto percorro com os meus dedos as páginas dos livros, pergunto a mim mesmo se terei aprendido alguma coisa. O papel é velho, a tinta está esbatida, e a minha grafia kaishu parece bastante singular. Mas — e isto é engraçado, descobrir que as coisas importantes continuam as mesmas —, o temor não é diferente. O temor que senti naquela manhã, há mais de cinquenta anos, é algo que reconheço bem. É o mesmo sentimento que tenho agora, quando levanto o estore e olho pela janela para o Sol que se abate sobre Tóquio.




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   20


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal