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Chongming ficou em silêncio ao olhar para elas: o sol a brilhar no azimute de bronze, os pinheiros negros curvados sob o peso da neve, a grande tartaruga de pedra ainda parada nas sombras, a fitar impassível as árvores que cresciam e largavam as suas sementes nas encostas, que morriam e voltavam a rebentar, morriam e voltavam a rebentar.

Havíamos embrulhado os restos do bebé em linho branco, e eu atara-o com um caule de jasmim amarelo. Numa loja do Terraço da Chuva de Flores comprara um qipao branco, de forma a poder vestir-me de forma tradicional no enterro. Era a primeira vez na vida que vestia branco e achei que a cor me ficava bem. Shi Chongming vestia um fato e pusera um fumo na manga. Disse que nenhum pai chinês iria ao funeral de um filho. Disse, enfiando-se na cova, que não devia estar ali e muito menos na sepultura, a colocar aquele pequeno embrulho no chão. Devia ter seguido o ritual, postando-se à esquerda da sepultura, desviando os olhos.

— Mas — disse enquanto cobria de terra o pequeno sudário —, o que é que ainda se mantém como antigamente?

Fiquei em silêncio. Uma libelinha observava-nos. Parecia-me tão estranho que um pequeno insecto que não devia estar vivo no meio do Inverno tivesse vindo pousar num ramo perto da sepultura para nos ver enterrar um bebé. Fitei-a até Shi Chongming me tocar no braço, dizer algo em voz baixa, e eu me voltar para a sepultura. Ele acendeu um pauzinho de incenso, espetou--o no chão e eu fiz o sinal da cruz cristão, porque não sabia o que mais fazer. Depois, juntos, regressámos ao carro por entre as árvores. Atrás de nós, a libelinha levantou voo do ramo e o fumo do incenso elevou-se, subindo pela encosta da montanha sobre as copas dos plátanos e desvanecendo-se no céu.

Shi Chongming morreu seis semanas mais tarde num hospital da Estrada de Zhongshan. Eu encontrava-me ao seu lado.

Nos últimos dias estava sempre a fazer-me a mesma pergunta: Diga-me, o que acha que ela sentiu? Não sabia o que lhe responder. Sempre foi para mim claro que o coração humano se vira do avesso para pertencer a alguém, que tenta aproximar-se do primeiro e mais próximo afecto; porque haveria de ser diferente

o coração de um bebé? Mas não disse isto a Shi Chong-ming, porque tive a certeza de que nos seus momentos mais sombrios ele deve ter perguntado a si mesmo se o único ser humano por quem a sua filha sentira algo, a única pessoa que amara, teria sido Junzo Fuyuki.

E, se não consegui responder a Shi Chongming, restar-me-á alguma esperança de te responder, minha filha sem nome, a não ser para te dizer que agi por ignorância, a não ser para te dizer que penso em ti todos os dias, muito embora nunca saiba como medir a tua vida, a tua existência? Talvez nunca tenhas sido uma alma — talvez não tenhas chegado tão longe. Talvez fosses um espectro, ou um raio de luz. Talvez uma pequena alma de lua.

Nunca deixarei de me perguntar onde estás — se voltarás a aparecer num mundo diferente, se já o fizeste, se agora vives em paz, rodeada de amor, num país distante que nunca irei visitar. Mas de uma coisa tenho a certeza: tenho a certeza de que, se regressaste, a primeira coisa que farás é voltar o teu rosto para o Sol. Porque, minha filha desaparecida, se chegaste a aprender alguma coisa, terás aprendido que neste mundo nenhum de nós tem muito tempo.

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Nota da Autora

1937, quatro anos antes de os EUA se verem envolvidos na guerra no Pacífico com o ataque a Pearl Harbor, as forças japonesas avançaram para a China e destruíram a capital, Nanquim. Os acontecimentos que se seguiram ultrapassaram os piores receios de todos os cidadãos chineses quando o exército invasor deu início a um mês de violações, torturas e mutilações.

Durante muito tempo, debateu-se o que terá levado um exército normalmente disciplinado a agir desta forma (para uma excelente exploração da psique do soldado japonês, leiam o clássico de Ruth Benedict, O Crisântemo e a Espada: Padrões da Cultura Japonesa). Mas talvez o tema de maior controvérsia seja o número de mortos. Há na China quem afirme que foram quatrocentos mil nesse Inverno; há no Japão quem diga que não foram mais que uma mão-cheia. A história, como nos recordam constantemente, é escrita pelos vencedores, mas é também reescrita por muitas outras facções: revisionistas; políticos; académicos sedentos de fama; e até, em certa medida, por muitos americanos que tentaram apaziguar o Japão, reconhecendo na sua posição geográfica uma vantagem estratégica na luta contra o comunismo. A história pode mudar como um camaleão, reflectindo a resposta que lhe é exigida: e com todas as agências envolvidas a afirmarem coisas diferentes, há pouca esperança de alguma vez se chegar a uma contagem de mortos internacionalmente aprovada.

Numa vala comum parcialmente aberta, onde é hoje o Museu de Jiangdongmen, os visitantes de Nanquim podem inspeccionar os restos desordenados dos cidadãos não identificados

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mortos durante a invasão de 1937. Ao olhar para estes ossos, tentando avaliar a verdadeira extensão do massacre, ocorreu-me que, independentemente do número real de mortos, seja ele grande ou pequeno, quatrocentos mil ou dez, cada um daqueles cidadãos esquecidos merece o nosso reconhecimento por aquilo que representa: a grande tragédia da pequena vida humana.

Chegaram até nós algumas provas fragmentadas do massacre: depoimentos de testemunhas, fotografias, alguns metros de um filme de 16 mm pouco nítido feito pelo reverendo John Magee. O filme de Shi Chongming é ficcional, mas é muito possível que existam mais filmes que não tenham sido trazidos a público com receio de represálias por aqueles que negam o holocausto japonês — a verdade é que uma cópia do filme de Magee, levada para o Japão por um civil que tencionava distribuí-lo, desapareceu misteriosamente sem deixar rasto. Dadas estas provas dispersas e anedóticas, não é fácil, quando se constrói um relato ficcionado do massacre, distinguir entre os sensacionalistas e os ofuscadores. Na tentativa de manter uma visão isenta, baseei-me essencialmente no trabalho de duas pessoas: íris Chang, cujo livro, The Rape of Nanking, foi a primeira tentativa séria de alertar um público mais vasto para o massacre, e Katsuichi Honda, talvez mais importante ainda.

Honda, um jornalista japonês, trabalha desde 1971 para levar a verdade à sua nação céptica. Apesar de ter havido recentemente uma alteração na forma como os Japoneses encaram o seu passado — a invasão de Nanquim foi cuidadosamente reintroduzida nos currículos escolares, e ninguém que tenha assistido ao acontecimento irá esquecer as lágrimas chocadas e espantadas dos pais japoneses de meia-idade ao saberem a verdade pelos filhos —, Honda prefere viver no anonimato com receio de represálias da direita conservadora. O seu livro, The Nanjing Massacre, contém vários depoimentos com descrições da montanha de cadáveres, algures na região da montanha do Tigre, incluindo a coluna de seres humanos vivos a tentarem atingir a segurança no meio do ar. Também inclui um relato quase intolerável acerca de uma criança arrancada do ventre da mãe por um oficial japonês.

Para além do trabalho de Honda, vasculhei ainda o das seguintes pessoas: John Blake; Annie Blunt, da Bright Futures Mental Health Foundation; Jim Breen, da Universidade Monash


(cuja excelente base de dados de kanji pode ser encontrada no site csse.monash.edu.au); Nick Burton; John Dower {Embracing Defeat); George Forty (Japanese Army Handbook); Hiro Hitomi; Hiroaki Kobayashi; Alistair Morrison; Chigusa Ogino; Anna Valdinger; e todos os funcionários do Instituto Britânico em Tóquio. Todos os erros que possam ter ocorrido são da minha responsabilidade.

Obrigada à cidade de Tóquio por me ter permitido alterar a sua extraordinária geografia, também a Selina Walker e Broo Doherty, pela sua fé e energia. A habitual gratidão também a Linda e Laura Downing; Jane Gregory; Patrick Janson-Smith; Margaret O. W. O. Murphy; Lisanne Radice; Gilly Vaulkhard. Um sorriso especial para Mairi. E, acima de tudo, obrigada aos meus constantes, os melhores constantes que um coração pode desejar: Keith e Lotte Quinn.



Por uma questão de clareza, todos os nomes japoneses foram apresentados segundo a tradição ocidental: nome próprio seguido do apelido. Contudo, os nomes chineses são apresentados da forma tradicional, o apelido a preceder o nome próprio. Os nomes e os termos chineses foram na sua maioria transcritos no sistema pinyin oficial da República Popular da China. Há excepções, como os nomes ou termos bem conhecidos no Ocidente na sua forma Wade-Giles. Estes incluem (com o pinyin entre parênteses) o clássico tauista I-Ching (Yijing), Sun Yat-sen (Sun Yi-xian), o Kuomintang (Guomindang), o Iansequião (Yangzi), Chang Kai-Chek (Jiang Jieshi), e a cidade de Nanquim, como era conhecida na década de 1930, agora conhecida em pinyin por Nanjing.

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