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5

O dia estava tão quente que os passeios se haviam tornado peganhentos. O suor condensado pingava dos ares condicionados para os peões lá em baixo e Tóquio parecia pronta a deslizar da placa continental e desaparecer a borbulhar no oceano. Descobri um quiosque que vendia revistas e comprei uma lata de chá verde fresco e chocolate de coco Lotte que se derreteu na minha boca. Comi e bebi enquanto coxeava pela rua e pouco depois senti-me um pouco melhor. Meti-me no metro e viajei como sardinha em lata entre os passageiros resplandecentes, o meu casaco sujo a roçar nas suas camisas lavadas. Reparei que as pessoas de Tóquio não cheiravam a nada. Era engraçado. Não era capaz de cheirá-las, e elas não diziam muita coisa: as carruagens andavam cheias, mas silenciosas, como se estivesse ali encarnada com mil manequins.

A casa de Jason ficava numa zona chamada Takadanobaba, o «pasto de cavalos elevado. Quando o metro parou e tive de sair, fi-lo com muito cuidado, pondo os pés na plataforma e olhando curiosamente para as máquinas e para os anúncios das bebidas energéticas. Alguém chocou comigo, e houve um momento de confusão quando o resto da multidão saltou, se desviou e tentou não cair. «Lembra-te há regras na sociedade que terás sempre de levar em conta.

Fora da estação, as ruas estavam apinhadas de estudantes da Universidade Waseda. Ao cimo da rua, junto a um Citibank, saí da avenida principal e, de repente, tudo mudou. Encontrei-me num pedaço da velha Tóquio. Longe do zumbido electrónico do comércio, havia vielas silenciosas e frescas: um aglomerado de
ruazinhas típicas enfiadas nos recantos atrás dos arranha-céus, os recantos escuros e latejantes como o solo da floresta. Sustive a respiração e olhei em volta, espantada: era tal e qual as imagens nos meus livros! Casas de madeira tortas apoiadas umas nas outras, podres e partidas — sobreviventes esgotadas de décadas de terramotos, incêndios, bombardeamentos. Nas nesgas entre as árvores, amontoavam-se viçosas plantas de aspecto carnívoro.

A casa de Jason era a maior, a mais antiga e a mais decrépita que eu vira em Tóquio até àquela altura. Na esquina de duas ruazinhas, tinha todas as janelas do rés-do-chão entaipadas, pregadas, ou fechadas a cadeado, e do passeio tinham irrompido trepadeiras tropicais que se enrolavam em volta delas com a tenacidade dos espinhosos arbustos que mantinham a Bela Adormecida no seu suporífero leito. Na parte lateral da casa, protegida dos elementos por um telhado de plástico ondulado, havia uma escada que levava ao primeiro andar, guardada por uma pequena porta de madeira e uma campainha velha e suja.

Lembro-me exactamente do que Jason tinha vestido quando abriu a porta. Uma camisa verde-azeitona, calções e umas velhas botas de explorador, desapertadas, com os pés enfiados nelas como se fossem chinelos. No pulso tinha uma pulseira com ar de ter sido comprada numa feira de artesanato e na mão uma lata prateada de cerveja, com a palavra Asahi escrita, cheia de condensação. Tive uma breve oportunidade de o observar à luz do Sol — tinha a pele clara e sem manchas das pessoas que passam muito tempo dentro de casa. Achei-o lindo.

— Ei — disse ele, surpreendido por me ver. — Olá, esquisi


ta. Mudaste de ideias? Acerca do quarto?

Levantei a cabeça e olhei para a casa.

— Quem mais é que cá vive?
Ele encolheu os ombros.Eu. Duas raparigas do nigbtclub. Alguns fantasmas. Não sei quantos, para ser franco.Fantasmas?É o que toda a gente diz.

Fiquei em silêncio durante algum tempo, a olhar para os telhados, para os beirais revirados para cima e decorados com dragões e golfinhos. Parecia realmente maior e mais escura do que as outras casas da rua.


— Está bem — acabei por dizer, pegando no saco. — Não
me importo com os fantasmas. Quero viver aqui.

Ele não se ofereceu para levar o meu saco e, de qualquer forma, eu não saberia o que dizer se ele o tivesse feito. Segui-o pelas escadas, com os nossos passos a ecoar no ferro forjado.

— O rés-do-chão está fechado — disse ele, apontando na direcção das janelas entaipadas com a lata de cerveja. — Não há
forma de lá entrar. Nós vivemos lá em cima e temos de entrar e
sair por aqui.

No cimo das escadas, parámos. Encontrávamo-nos a um canto da casa numa galeria escura com estores, que virava em ângulos rectos à direita e à esquerda. Eu conseguia ver cerca de cinco metros em ambas as direcções, depois os longos corredores empoeirados pareciam minguar, como se acabassem ao longe, em partes frescas e ensombradas de Tóquio que eu podia apenas adivinhar. Passava do meio-dia e a casa encontrava-se em silêncio.A maior parte está fechada. O valor do terreno em Tóquio aumentou imenso, mas o senhorio ainda está a tentar chegar a acordo com um empreiteiro. Se conseguir, deitam isto tudo abaixo e constroem outro arranha-céus, por isso a renda é praticamente zero. — Jason descalçou as botas. — Claro, é preciso não te importares com o facto de a casa estar a cair. — Gesticulou vagamente na direcção do corredor da direita. — As raparigas dormem ali, naquela ala. Passam o dia inteiro na cama. São russas. Hás-de reparar que aqui... agora que alguém abriu a porta do canil, os Russos espalharam-se por todo o planeta. Parece que ainda não ouviram dizer que o Japão está a atravessar uma recessão. Toma... — Empurrou uns chinelos de serapilheira na minha direcção e ficou a observar-me enquanto eu desatava os atacadores, me descalçava e enfiava os pés com meias nos chinelos. — Não te aleijam? — Apontou para os sapatos. — Têm ar de aleijar.Sim. Estou cheia de bolhas.Não tens mais nada para vestir?Não.O que tens no saco? Parece pesado.Livros — respondi.



  • Livros?

Sim.Que tipo de livros?Livros com fotografias.

Jason riu-se. Acendeu um cigarro e divertiu-se a observar-me enquanto eu calçava os chinelos. Endireitei o casaco, passei as mãos pelo cabelo e parei em frente dele, e isso fê-lo voltar a rir.Então como te chamas?Grey.Grey? Que raio de nome é esse?

Hesitei. Era tão estranho estar num local onde ninguém me conhecia. Inspirei e tentei falar com naturalidade.

— E o meu apelido. Toda a gente me trata pelo apelido.

Jason levou-me pelo corredor da direita, detendo-se para indicar algumas coisas pelo caminho. A casa era curiosamente macia e orgânica — o soalho encontrava-se coberto de esteiras tata-mi e cada movimento libertava o aroma secreto de casulos de insectos. Os quartos ficavam de um lado do corredor; do outro, velhos biombos de madeira ocultavam a parede do meio para cima.

— A casa de banho é tradicional, por isso tens de te pôr de


cócoras. Achas que consegues? — Olhou-me de cima a baixo. —
Acocorares-te? Lavares-te com um balde? Sabes que é esse o sentido de se viver no Japão... fazer as coisas de maneira diferente.
— Antes de eu poder responder, ele virou-se para o outro lado
do corredor e subiu um estore. A luz do Sol entrou por uns vidros sujos. — O ar condicionado está avariado, por isso no Verão temos de manter isto sempre fechado.

Encontrávamo-nos a uma janela e olhámos para um jardim murado. Era fundo e luxuriante como uma selva, cobrindo as janelas do rés-do-chão, cheio de diospireiros escuros e de folhas pesadas que faziam estalar as paredes e roubavam a luz do Sol. Pus as mãos na janela, o nariz encostado ao vidro, e olhei lá para fora. Ao fundo do jardim, via-se a parte de trás de um arranha-céus branco.

— O Edifício Sal — disse Jason. — Não sei porque é que se
chama assim, o nome foi passando, acho, como os quartos, de
uma pessoa para outra.
Estava prestes a virar-me quando vi, a cerca de cem metros de distância, sobre as copas das árvores, um telhado vermelho ao sol.O que é aquilo?Aquilo? — Encostou o nariz à janela. — É a terceira ala. Também está fechada.Faz parte desta casa?Sim. Ocupamos um código postal. O Palácio Proibido. Há talvez vinte quartos nesta casa que eu sei que existem mesmo, e outros vinte de que só ouvimos falar.

Apercebi-me naquele momento da área que a casa ocupava. Cobria a maior parte de um quarteirão e estava disposta em redor do jardim, ocupando três lados de um quadrado. O Edifício Sal bloqueava o quarto lado. A casa estava a apodrecer; a degradação começara na ala mais afastada e Jason disse que não queria sequer imaginar como seriam os quartos fechados lá de baixo.

— É lá que param os fantasmas — disse ele revirando os
olhos —, segundo as gémeas baba yaga.

Passámos por inúmeras portas de correr shoji, algumas fechadas, outras abertas. Vislumbrei algumas peças no escuro, móveis empilhados, empoeirados e esquecidos — um altar de teca (um butsudari), um relicário antigo, vazio com excepção de alguns frascos de vidro. Os meus chinelos faziam barulho. Diante de nós apareceu a porta para a ala fechada, trancada a cadeado e com uma barra de ferro. Jason estacou na barricada.

— Por aqui não se vai. — Encostou o nariz à porta e fun
gou. — Credo, quando está calor, isto manda cá um pivete.
Limpou a cara e virou-se, batendo na última porta do corredor.
— Não te preocupes, aqui ficas bem... este pode ser o teu quarto.

Fez deslizar a porta. O sol entrava pelo intervalo entre dois lençóis sujos que tapavam as janelas. As paredes haviam outrora estado cobertas com seda castanho-clara, e os restos da seda pendiam, desintegrando-se em farrapos longos, como se um animal grande tivesse estado ali trancado. As esteiras tatami estavam a desfiar-se, havia moscas mortas no parapeito e teias de aranha nas lâmpadas.

— O que achas?
Entrei e parei no meio do quarto, girando devagar. Na parede mais próxima havia uma alcova tokonoma, com uma velha cadeira de balouço de palhinha encostada à parede, no sítio onde tradicionalmente deveria estar pendurada uma pintura.

— Podes arranjá-lo como te apetecer. O senhorio está-se nas


tintas. A maior parte das vezes esquece-se de vir receber a renda.

Fechei os olhos e estendi as mãos, sentindo a suavidade do ar, o sol empoeirado nas minhas costas. Tinha o dobro do tamanho do meu quarto em Londres e parecia estar a dar-me as boas--vindas. Pairava num ar um cheiro suave, a seda podre e a palha.Então?E... — disse eu, abrindo os olhos e tacteando a seda nas paredes — ... é lindo!

Jason afastou o lençol que cobria a janela e abriu-a, deixando entrar no quarto algum ar quente.

— Ali — disse ele, apontando —, é o recreio da Godzilla.


Na ida para ali, sentindo-me minúscula por causa dos arranha-céus, não me apercebera do quanto tivera de subir para chegar a Takadanobaba. Só naquele momento percebi. Os telhados dos edifícios estavam alinhados com a minha janela e de todo o lado rostos gritavam dos ecrãs de vídeo pendurados bem alto. Um grande cartaz publicitário, apenas a quinze metros de nós, ocupava a maior parte da vista. Era uma enorme fotografia sépia de uma estrela de cinema com um sorriso de esguelha, erguendo um copo mesmo à nossa frente, como se brindasse ao Takadanobaba. O copo tinha as palavras «Reserva Suntory gravadas.O Mickey Rourke — disse Jason. — Atrai as miúdas, evidentemente.Mickey Rourke — repeti. Nunca ouvira falar dele, mas gostava da cara. Gostava da forma como ele nos sorria. Agarrei--me ao parapeito e debrucei-me um pouco para fora. — Para que lado fica Hongo?Hongo? Não sei... acho que é... para ali, talvez.

Pus-me em bicos de pés, olhando de lado por sobre os telhados distantes, os anúncios de néon e as antenas de televisão douradas pelo sol. Devia ser a quilómetros de distância. Nunca seria capaz de ver o gabinete de Shi Chongming por entre todos aqueles edifícios. Mas senti-me melhor por pensar que ficava ali, algures ao longe. Voltei a meter-me para dentro.

Quanto custa?Duzentos dólares por mês.Só preciso dele para uma semana.Então são cinquenta dólares. É um achado.Não posso pagar isso.Não podes pagar cinquenta dólares? Quanto achas que custa viver em Tóquio? Cinquenta dólares é escandalosamente barato.Não tenho dinheiro.

Jason suspirou. Acabou de fumar o cigarro, atirou-o para a rua e apontou para os prédios.

— Olha — disse ele, inclinando-se para fora. — Olha para
ali, para sudoeste. Aqueles prédios altos são Kabuki Cho. E consegues ver para além deles?

Ao longe, destacando-se negro contra o céu, um mamute de vidro escuro, suportado por oito colunas pretas imponentes, elevava-se acima de todos os outros arranha-céus. Quatro gigantescas gárgulas de mármore preto acocoravam-se em cada um dos cantos do telhado, e saídas de gás nas respectivas bocas lançavam jactos de fogo a quinze metros, até o céu parecer estar em fogo.

— É um edifício privado. É um dos prédios dos irmãos Mo-
ri. Mas estás a ver aquilo, no último andar?

Semicerrei os olhos. Impulsionada por um braço mecânico no cume do arranha-céus, estava a enorme silhueta de uma mulher sentada num balouço.Eu sei quem ela é — disse eu. — Reconheço-a.É a Marilyn Monroe.

Marilyn Monroe. Devia ter dez metros desde os sapatos de salto alto brancos até ao cabelo oxigenado, e balançava-se para trás e para a frente em arcos de quinze metros, néon a piscar, fazendo com que o seu vestido branco de Verão parecesse estar levantado acima da cintura.É o Quanto Mais Quente Melhor. O clube onde trabalhamos... eu e as baba yagas. Levo-te lá esta noite. Arranjas dinheiro para pagar a renda da semana em poucas horas.Oh — fiz eu, afastando-me da janela. — Oh. Não... já me falaste disso. É um clube de acompanhantes.Não há crise, descontrai-te... a Strawberry vai gostar bastante de ti.

Não — repeti, subitamente pouco à vontade e desajeitada. — Não digas isso, porque ela não vai gostar nada.Porque não?Porque... — E calei-me. Não conseguia explicar aquilo a uma pessoa como Jason. — Não. De certeza que ela não me iria contratar.Acho que estás enganada. E, seja como for, quer-me parecer que não tens alternativa.


acompanhantes que viviam nos quartos da ala norte, as baba yagas, eram gémeas de Vladivostoque. Svetlana e Irina. Ja-son levou-me a vê-las quando o Sol começava a baixar e o calor diminuíra. Estavam no quarto de Irina, a preparar-se para o trabalho no clube, quase idênticas nos collants pretos e nos sutiãs elásticos: altas como estivadores, e bem nutridas, com braços fortes e pernas musculadas. Pareciam passar bastante tempo ao sol e tinham as duas muito cabelo ondulado comprido. A única diferença era que o de Irina era louro e o de Svetlana preto. Eu vira a tinta, Preto de Nápoles, numa desbotada caixa cor-de-rosa na prateleira da cozinha.

Sentaram-me num banco em frente ao pequeno toucador e começaram a fazer-me perguntas.Conhecias o Jason? Antes de vires para cá?Não. Conheci-o esta manhã.Esta manhã No parque.

As raparigas trocaram um olhar.

— Ele trabalha depressa, hem? — Svetlana emitiu um ruído


com a garganta e piscou-me o olho. — Trabalha rápido.

Ofereceram-me um cigarro. Eu gostava de fumar. No hospital, a rapariga da cama ao lado ensinara-me a fumar, e aquilo fazia-me sentir muito adulta, mas quase nunca tinha dinheiro para comprar tabaco. Olhei para o maço que Irina segurava nos dedos com unhas pintadas de vermelho.

— Não tenho nada para te dar em troca.

Irina baixou os olhos e esticou os lábios como se estivesse a beijar o ar.

— Não problema. — Tornou a aproximar de mim o maço.
— Não problema. Toma.

Peguei num, e durante algum tempo ficámos todas a fumar e a olhar umas para as outras. Se o cabelo delas não fosse tão diferente, seria quase impossível distingui-las: tinham ambas um brilho confiante no olhar que eu já vira em algumas raparigas da universidade. Eu devia parecer-lhes muito estranha, ali sentada no banco, toda amarfanhada como um embrulho de roupa suja.

— Vais trabalhar no clube?

— Não — respondi. — Não hão-de querer-me.


Svetlana fez estalar a língua.Não sejas estúpida. E fácil, fácil, fácil. Fácil como comer um doce.É sexo?Não! — Riram-se. — Não é sexo! Se queres sexo, fazes lá fora. A mama não quer ouvir falar nisso.Então o que fazem?O que fazemos? Nada! Falamos com cliente. Acendemos cigarro dele. Dizemos que é fantástico. Pomos gelo na merda da estúpida bebida da merda dele.Falam de quê?

Elas olharam uma para a outra e encolheram os ombros.

— Fazemos ele apenas feliz, fazemos ele gostar de nós. Fazemos ele rir. Ele gostar logo de ti porque és inglesa.

Olhei para a pesada saia preta que tinha vestida, comprada em segunda mão. A primeira dona devia lembrar-se da Guerra da Coreia. A minha camisa preta custara-me cinquenta pence na loja da Oxfam de Harrow Road e os meus collants eram grossos e opacos.

— Olha.

Levantei o rosto. Svetlana tinha na mão um saquinho dourado com maquilhagem.O quê?Pinta-te. Temos de sair em vinte minutos.



As gémeas dominavam a arte de manter duas conversas ao mesmo tempo. Tudo o que faziam era feito com o telefone colado
à orelha, o cigarro entre os dentes. Estavam a fazer a ronda de telefonemas nocturnos para os clientes.Vais lá noite, hein? Fico tão sabishi sem ti. — Enquanto falavam, pintavam as sobrancelhas, fixavam as pestanas, enfiavam-se em calças brancas reluzentes e em sandálias prateadas im-possivelmente altas. Observei-as em silêncio. Svetlana, que passou muito tempo em frente ao espelho em sutiã, os braços levantados, a observar as axilas à procura de pêlos, achava que eu devia vestir qualquer coisa dourada para ficar mais bonita.Tens de parecer sofisticada. Queres levar meu cinto, hein? Meu cinto é dourado. Preto e dourado bonito.Havia de ficar com ar de estúpida.Então prateado — disse Irina. Eu tentava não olhar para ela. Tirara o sutiã e estava em topless perto da janela, com um rolo de fita adesiva nas mãos de unhas compridas, rasgando tiras compridas com os dedos. — Se fores de preto, pareces viúva.Eu ando sempre de preto.O quê? Estás de luto?Não — respondi com firmeza. — Não sejas parva. Havia de estar de luto por quem?

Ela observou-me durante um momento.

— Muito bem. Se és feliz assim... Mas se vais ao clube vestida dessa maneira, fazes homens chorar. — Pôs uma extremidade
da fita adesiva entre os dentes, empinou os seios o mais que pôde, e colocou a fita debaixo deles desde o sovaco esquerdo até ao
direito, e depois novamente para o esquerdo. Quando os largou,
eles mantiveram-se naquela posição, precariamente erguidos por
uma prateleira de fita adesiva. Vestiu um top sem ombros e ficou
em frente ao espelho, alisando-o e verificando a silhueta sob o
tecido fino. Roí as unhas, desejando ter coragem para cravar outro cigarro.

Svetlana acabou de se pintar — os lábios estavam delineados com lápis escuro. Pôs-se de joelhos, vasculhou numa das gavetas e tirou de lá um agrafador.Anda cá — disse ela para mim. — Anda cá.Não.Sim. Anda cá. — Aproximou-se de mim ainda ajoelhada,


com o agrafador na mão. Apanhou a bainha da minha saia, do-brou-a várias vezes para cima e apertou o agrafador, prendendo a bainha ao forro.Não — pedi, tentando afastá-la. — Não.O que foi? Tens pernas bonitas, tens de mostrá-las. Agora está quieta.Por favor!Não queres arranjar trabalho?

Cobri o rosto com as mãos, revirando os olhos sob os dedos, e respirei fundo enquanto Svetlana se movia à minha volta, agra-fando-me a bainha. Pela aragem, senti que ela me pusera os joelhos à mostra. Qual seria o aspecto das minhas pernas? O que fariam as pessoas quando me vissem?Não...Chiu! — Svetlana pousou as mãos nos meus ombros. — Deixa nós trabalhar.

Fechei os olhos e respirei várias vezes pelo nariz. Irina tentava delinear-me os lábios com um lápis. Dei um salto.

— Por favor, não...

Irina recuou um passo, espantada.

— O que foi? Não queres ficar bonita?

Agarrei num lenço de papel e limpei o batom. Tremia.Fico esquisita. Fico apenas esquisita.São só velhos japoneses. Velhos caquéticos. Não te tocar.Não percebes.

Svetlana arqueou uma sobrancelha.Não percebes? Olha, Irina, querida, não percebes.Não, a sério. Vocês não percebem mesmo.

Não é preciso perceber o sexo para desejar fazê-lo. Daí a história das abelhas e dos passarinhos. Eu era a pior combinação que podia imaginar-se — completamente ignorante em relação a tudo, mas imensamente fascinada. Talvez não seja de admirar que me tenha metido em sarilhos.

A princípio, os médicos tentaram levar-me a dizer que fora violação. Por que outro motivo uma rapariga de treze anos permitiria que cinco adolescentes lhe fizessem uma coisa daquelas, se não fora violação? A menos que fosse maluca, claro. Ouvi


aquilo com uma espécie de perplexidade alheada. Porque estariam a centrar-se naquela parte do que acontecera? Seria essa parte igualmente errada? Eu ter-me-ia livrado de muitos problemas se tivesse concordado com eles e dito que fora violação. Talvez nessa altura não tivessem começado a dizer que só o meu comportamento sexual indicava que havia algo de muito errado comigo. Mas teria sido mentira. Eu tinha-os deixado fazerem-me aquilo. Desejara-o talvez ainda mais do que os rapazes. Dera-lhes as boas-vindas naquela carrinha, estacionada na estrada rural.

Fora uma daquelas manhãs de início de Verão com alguma neblina, quando o céu nocturno se mantém de um azul intenso a oeste e conseguimos imaginar todo o tipo de danças pagãs espantosas a acontecerem para lá do horizonte, no sítio para onde o Sol fugiu. Havia relva fresca e uma brisa e o som do trânsito ao longe, e quando eles pararam a carrinha eu olhei para o vale e vi as fantasmagóricas manchas brancas de Stonehenge.

Na parte de trás, havia um velho cobertor aos quadrados que cheirava a erva e a óleo. Despi-me, deitei-me e abri as pernas, que estavam muito brancas, embora fosse Verão. Um a um, eles entraram e revezaram-se, fazendo os amortecedores ferrugentos ranger. Foi o quarto rapaz — de cabelo louro, um rosto encantador e barba a despontar — que falou comigo. Fechou as portas da carrinha atrás dele para não entrar luz e para que os outros sentados ali perto a fumar não pudessem ver-nos.

— Olá — disse ele.

Pousei as mãos nos joelhos e abri ainda mais as pernas. Ele não avançou para mim. Ajoelhou-se à minha frente, a olhar para o meio das minhas pernas com uma expressão estranha e pouco à vontade.

— Sabes que não tens de fazer isto, não sabes? Sabes que


ninguém está a forçar-te?

Fiquei em silêncio durante algum tempo, fitando-o com ar intrigado.Sei.E continuas a querer fazê-lo?Claro — respondi, estendendo os braços. — Porque não?Alguém falou em protecção? — A enfermeira que não gostava de mim disse que aquilo só vinha provar que doenças


como o herpes, a gonorreia e a sífilis estavam a espalhar-se pelo mundo graças à falta de controlo de pessoas nojentas como eu. — Não me venhas dizer que nenhum daqueles rapazes sugeriu o uso de um preservativo. — Fiquei deitada em silêncio, os olhos fechados. Não ia contar-lhe a verdade, que de facto não sabia o que era um preservativo, que não soubera que ia fazer uma coisa errada, que a minha mãe preferiria ter morrido a falar-me daquelas coisas. Não ia deixá-la continuar a arengar sobre a minha estúpida ignorância. — E quanto a ti! Nem sequer tentaste detê-los. — Passou a língua pelos lábios, fazendo um som semelhante ao de pernas a baterem no escuro. — Se queres saber a minha opinião, és a pessoa mais doente que já conheci.

Os médicos disseram que era tudo uma questão de controlo.

— Todos nós temos impulsos, todos temos desejos. São eles que nos tornam humanos. A chave para uma vida feliz e equilibrada é aprender a controlá-los.

Mas nessa altura, claro, eu pouco podia fazer para corrigir as coisas. Não é possível fazê-lo sem praticar e bastava apenas lançar um olhar aos meus relatórios no hospital, ou ver-me nua, para perceber que não iria haver muito sexo para mim no futuro.



7

No fim, eu e as russas chegámos a um acordo. Eu deixei-as manter os agrafos na minha saia, elas deixaram-me alisar o cabelo e limpar a sombra iridescente. Substituí-a por riscos cuidadosamente desenhados por cima das pestanas, porque quando me sentava a pensar sobre maquilhagem a única coisa que me ocorria eram as fotografias que vira num livro sobre a Audrey Hepburn. Achei que teria gostado da Audrey Hepburn se a tivesse conhecido. Tinha sempre um ar bondoso. Limpei o blush e pintei os lábios com um batom vermelho-mate. As gémeas recuaram e observaram o resultado.

— Não está mau — admitiu Irina, com uma expressão azeda. — Continuas com ar de viúva, mas agora viúva menos feia.

Jason não disse nada quando me viu. Olhou pensativo para as minhas pernas e soltou uma gargalhada seca, como se soubesse uma piada porca a meu respeito.

— Vá — disse ele, acendendo um cigarro. — Vamos andando.

Caminhámos em fila pelo passeio. O Sol estava baixo no horizonte, iluminando as partes laterais dos prédios. Nas ruas mais pequenas estavam a preparar as lanternas para a festa do O-Bon que teria lugar mais para o final da semana — as bancas e os estandartes iam ser montados no Parque Toyama, e um cemitério por que passámos estava cheio de legumes, fruta e arroz para os espíritos. Olhei para aquilo tudo em silêncio, parando de vez em quando para verificar os sapatos. Irina emprestara-me uns sapatos
pretos de salto que eram demasiado grandes, por isso metera papel na ponta e tinha de caminhar muito concentrada.

Não era preciso um mapa para chegar ao clube: o prédio era visível a quilómetros, as gárgulas cuspindo as suas chamas para a noite. Chegámos à porta quando caiu a noite. Fiquei parada a olhar para ele até os outros se terem fartado de estar à espera e me pegaram no braço, conduzindo-me até um elevador de vidro que subia pelo exterior do arranha-céus até lá ao cimo, onde a Marilyn Monroe se balançava entre as estrelas. O elevador de cristal, disseram-me eles que se chamava, porque era como um cristal a captar e a difundir todas as luzes de Tóquio. Encostei o nariz ao vidro enquanto nos elevávamos, espantada com a rapidez com que a rua engordurada se afastava debaixo de nós.

— Espera aqui — disse Jason quando o elevador parou. Estávamos numa recepção com chão de mármore separada do clube por portas de alumínio industrial. O modelo gigante de uma
rosa vermelha, com um metro e meio de altura, erguia-se numa
jarra enorme a um canto. — Vou mandar chamar a mama-san.
— Apontou para uma chaise longe de veludo e desapareceu com
as russas pelas portas. Avistei um clube tão grande como um rin
que de patinagem — ocupando todo o último andar do prédio,
com os arranha-céus reflectindo-se no chão polido, numa constelação de luzes. Depois a porta fechou-se e fiquei sentada na
chaise longue, tendo apenas o cimo da cabeça da rapariga da recepção, visível acima do balcão, por companhia.

Cruzei as pernas, depois descruzei-as. Olhei para o meu reflexo ténue nas portas de alumínio. Escritas a stencil nas portas estavam as palavras «Quanto Mais Quente Melhor.

A mama-san do clube, Strawberry Nakatani, era velha, de acordo com Jason. Fora call girl nos anos sessenta, famosa por aparecer nos clubes nua sob o casaco branco de peles, e quando o marido, um empresário do mundo do espectáculo e criminoso de pequena monta, morrera, deixara-lhe o clube.

— Não faças um ar admirado quando a vires — preveniu


Jason. A vida dela era dedicada à Marilyn Monroe, disse ele. Fizera uma operação plástica ao nariz e convencera uns cirurgiões
com pouca ética no Waikiki a conferir traços ocidentais às suas
pálpebras. — Age como se achasses que ela está deslumbrante.
Pousei as mãos na saia, premindo-a contra as coxas. É preciso, ser muito corajoso ou estar desesperado para aguentar certas coisas, e eu estava prestes a desistir, a levantar-me e a dirigir-me ao elevador quando as portas de alumínio se abriram e ela apareceu: uma mulher pequena e oxigenada, com um vestido de lamé dourado à Marilyn Monroe, trazendo uma boquilha ornamentada e uma estola de pele. Era entroncada e musculada, como um cavalo de guerra chinês, e o seu cabelo asiático fora oxigenado e ferozmente penteado e fixado à Marilyn. Avançou na minha direcção sobre os sapatos de salto alto e fino, atirando a estola para trás do ombro, lambendo os dedos e alisando o penteado. Parou a alguns centímetros de mim, sem dizer nada, deixando o seu olhar pousar no meu rosto. «E agora, pensei, «vai expulsar-me daqui.

— Levanta-te.


Eu levantei-me.De onde és? Hum? — Descreveu um círculo à minha volta, olhando para os meus collants enrugados, para os sapatos de Irina cheios de papel. — De onde vens?De Inglaterra.De Inglaterra? — Recuou e enfiou um cigarro na boquilha, semicerrando os olhos. — Sim. Pareces rapariga inglesa. Queres para quê trabalhar aqui? Hum?Pela mesma razão por que todos querem trabalhar aqui.E qual ela é, hum? Gostas homens japoneses?Não. Preciso do dinheiro.

Elevou um canto da boca, como se estivesse divertida. Acendeu o cigarro.Okay — disse. — Muito bem. — Inclinou a cabeça e soprou o fumo por cima do ombro. — Experimenta esta noite. Se fores simpática cliente, dou três mil ienes hora. Três mil. Okayi Isso quer dizer que quer que eu trabalhe?Porquê admirada? Queres mais coisas? Três mil. Aceita, ou voa daqui, menina. Não dar mais.

— Está bem — gaguejei. — Só pensei que...
Mama Strawberry ergueu uma mão para me silenciar.

— E se correr muito bem esta noite, amanhã voltas vestido


bonito. Okay? Se não vestido bonito, pagas multa dez mil ienes.
Multa. Percebes, menina? Isto ser clube de categoria.
O clube pareceu-me o sítio mais mágico que tinha visto — o chão como uma piscina iluminada pelas estrelas a flutuar cinquenta andares acima do mundo, rodeado por uma vista panorâmica da cidade de Tóquio, os ecrãs dos prédios vizinhos a passarem noticiários e telediscos. Avancei pela sala, nervosa e com uma espécie de temor, olhando para os arranjos florais ikebana, para as luzes indirectas. Já lá estavam alguns clientes, homens pequenos de fato, espalhados pelas mesas, alguns em banquinhos, outros em cadeirões fundos de cabedal, lagos de fumo a pairar por cima das mesas. Numa plataforma subida, um pianista de rosto fino e laço ao pescoço aquecia o ambiente com uns acordes. O único sítio onde a vista da cidade era interrompida era onde Marilyn — o reverso negro da figura, com traves, móvel e sustentado por vigas de metal — chiava e balançava para trás e para a frente na noite, tapando completamente a vista de dez em dez segundos.

Mama Strawberry estava sentada a uma secretária dourada, imitação de luís-catorze, mesmo em frente ao balouço da Marilyn Monroe, fumando pela elaborada boquilha e teclando números numa máquina de calcular. Não muito longe dela estava uma mesa à volta da qual se sentavam as acompanhantes, à espera de serem contratadas por um cliente, fumando e tagarelando — ao todo éramos vinte, todas japonesas com excepção das russas e de mim. Irina dera-me uma mão-cheia de cigarros Sobrante Pinks e eu estava sentada em silêncio, a fumar muito concentrada, a olhar para as portas de alumínio do outro lado do clube, por onde os clientes entrariam.

Por fim, ouviu-se a campainha do elevador e um grande grupo de homens de fato entrou pelas portas de alumínio.

— Ela vai sentar-te com eles — murmurou Irina, deslizando na minha direcção e ocultando a boca com a mão. — Estes deixam sempre gorjeta raparigas favoritas. A mama-san vai ver se tu consegues gorjeta. Vai ser teu teste, querida!

Fui convocada, discretamente, juntamente com as russas e três acompanhantes japonesas, e enviada para uma mesa junto à janela panorâmica, onde aguardámos formalmente com as mãos pousadas nas costas das cadeiras que os homens atravessassem o

Tóquio


soalho de parque envernizado. Imitei as outras, sustendo o peso alternadamente em cada pé, desejando poder baixar a saia. Uma série de empregados de mesa apareceram vindos de nenhures, estendendo rapidamente toalhas de linho alvas nas mesas, pondo lá um candelabro de prata, copos reluzentes, e terminando a tarefa no momento em que os homens se aproximaram e se sentaram, puxando as cadeiras para trás e desabotoando os casacos.Irasshaimase — disseram as raparigas japonesas, fazendo uma vénia, sentando-se e tirando toalhas quentes do prato de bambu que aparecera em cima da mesa.Bem-vindos — murmurei, seguindo o exemplo das outras.

Apareceu uma garrafa de champanhe e outra de uísque. Arrastei a minha cadeira para a frente e sentei-me, a olhar para toda a gente, à espera de ver o que teria de fazer em seguida. As raparigas rasgavam os invólucros das toalhas, desdobravam-nas e colocavam-nas nas mãos expectantes dos homens, por isso imi-tei-as rapidamente, colocando uma nas mãos do homem à minha esquerda. Ele não me agradeceu. Pegou na toalha, limpou as mãos, atirou-a para a mesa, para a minha frente, e virou-se para falar com a acompanhante do outro lado. As regras eram claras: o meu trabalho era acender cigarros, servir uísque, dar acepipes aos homens e falar com eles. Nada de sexo. Só conversa e lisonja. Estava tudo escrito num cartão laminado para que as novas raparigas lessem. «É melhor dizeres coisa divertida, murmurara-me Mama Strawberry. Clientes Strawberry querem descontrair.

— Olá — disse Svetlana cheia de ousadia, pousando o traseiro numa das cadeiras, transformando os homens em anões,
agitando-se de um lado para o outro como uma galinha a chocar, de forma que todas tiveram de arranjar espaço para ela. Tirou um copo do centro da mesa e fê-lo tinir contra a garrafa. —
Shampansky, querido. Que bom! — Despejou a garrafa para
quatro copos, depois brandiu-a acima da cabeça, indicando ao
empregado que devia trazer mais.

Os homens pareciam gostar das gémeas, elas estavam sempre a cantar músicas que deviam ser da televisão ou da rádio porque eu não as conhecia: «Double the pleasure, double the fun... Give


me that little lift. Come and get you some! Todos se riam e aplaudiam, e a conversa, num misto de japonês e inglês rudimentar, recomeçava. As gémeas ficaram bêbedas rapidamente. A pintura dos olhos de Svetlana estava borrada e Irina passava o tempo a levantar-se para acender os cigarros dos homens com um isqueiro de plástico da Thai Air, debruçando-se sobre a mesa, entornando as tigelinhas de algas e choco seco.

— Não faça rir! — exclamava ela, quando alguém dizia uma


piada. Estava corada e já enrolava as palavras. — Se fizerem rir
mais, expludo

Eu estava sentada em silêncio, sem atrair as atenções, fingindo que tudo aquilo era normal, que já fizera aquilo um milhar de vezes e não me importava que ninguém falasse comigo, de não conhecer as piadas, de não reconhecer as canções. Por volta das nove horas, quando já começava a pensar que podia ficar calada toda a noite e que talvez eles se esquecessem da minha presença, alguém perguntou subitamente:

— E você?

O silêncio abateu-se sobre a mesa. Levantei a cabeça e reparei que toda a gente se tinha calado a meio das frases e olhava para mim com curiosidade.

— E você? — repetiu alguém. — O que acha?

O que é que eu achava? Não fazia a mínima ideia. Estivera muito longe dali, perguntando a mim mesma se os pais daqueles homens, os seus tios, os seus avós, teriam estado na China. Perguntei-me se pressentiriam sobre o que é que as suas vidas haviam sido construídas. Tentei imaginar os seus rostos nos colarinhos subidos do uniforme do Exército Imperial Japonês, nas ruas cheias de neve de Nanquim, um deles levantando uma catana reluzente...E você?E eu o quêi

Trocaram olhares, pouco habituados àquela má educação. Alguém me deu um pontapé debaixo da mesa. Levantei o olhar e vi Irina a fazer-me uma careta, indicando com a cabeça o meu peito, levantando os seios com as duas mãos, os ombros para trás.

— Endireita-te — diziam os seus lábios em silêncio. — Põe


peito para fora.
Virei-me para o homem sentado ao meu lado, respirei fundo e disse a primeira coisa que me veio à cabeça.

— O seu pai combateu na China?

O rosto dele alterou-se. Alguém reteve a respiração. As acompanhantes franziram o sobrolho e Irina pousou a bebida com um tinido chocado. Mas o homem ao meu lado continuava a pensar no que eu havia perguntado.E uma pergunta estranha. Porque pergunta?Porque — comecei a medo, com um aperto no coração —, porque é o que tenho estudado de há nove anos para cá. Nove anos, sete meses e dezanove dias.

Ele ficou em silêncio durante algum tempo, olhando para o meu rosto, tentando adivinhar-me o pensamento. Ninguém à mesa parecia respirar: estavam todos inclinados para a frente, quase à beira das cadeiras, à espera de ouvir a resposta dele. Passado bastante tempo, ele acendeu um cigarro, puxou algumas baforadas, e pousou-o com cuidado e deliberação no cinzeiro.

— O meu pai esteve na China — respondeu ele muito sério,
inclinando-se para trás e cruzando os braços. — Na Manchúria.
E, enquanto foi vivo, não falou no assunto. — O fumo do cigarro elevava-se até ao tecto num fio longo e ininterrupto, semelhante a um dedo branco. — Os meus livros da escola tinham
todas as menções ao assunto tapadas. Não faziam qualquer menção a isso. Lembro-me de estar sentado na sala de aula, eu e os
meus colegas a olharmos para o papel a contraluz, para nos certificarmos de que não conseguíamos ler o que estava debaixo da
tinta preta. Talvez... — disse ele sem olhar para ninguém, mas
dirigindo as palavras para o ar— ... talvez você me queira falar
do assunto.

Eu estivera boquiaberta com ar estúpido, com receio do que ele pudesse dizer. Lentamente, apercebi-me de que ele não ficara zangado. A cor regressou ao meu rosto. Inclinei-me para a frente, excitada.

— Sim — disse eu, avidamente. — Claro. Posso dizer-lhe
tudo o que quiser saber. Tudo... — De súbito, as palavras aglomeravam-se na minha garganta, à espera de sair. Prendi o cabelo
atrás das orelhas e pousei as mãos na mesa. — Bem, acho que a
parte mais interessante foi o que aconteceu em Nanquim. Não.
Por acaso, não o que aconteceu precisamente em Nanquim,
mas... deixe-me... deixe-me explicar isto de outra maneira. A coisa mais interessante foi o que aconteceu quando as tropas estavam a marchar de Xangai para Nanquim. Nunca ninguém percebeu realmente o que aconteceu, sabe, por que motivo mudaram...

E foi assim que comecei a falar. Falei e falei e falei até meio da noite. Falei da Manchúria e de Xangai e da Unidade 731. Acima de tudo, claro, falei sobre Nanquim. As acompanhantes estavam com cara de tédio, a olhar para as unhas, ou inclinando-se umas para as outras para murmurarem, lançando-me olhares estranhos. Mas todos os homens estavam inclinados para a frente em silêncio, com expressões de total concentração. Falaram muito pouco nessa noite. Foram-se embora em silêncio e, ao final da noite, quando Mama Strawberry se aproximou de nós com as gorjetas e uma expressão azeda no rosto, fui eu quem ela destacou. Os homens tinham-me deixado a maior gorjeta. Mais do triplo do que tinham deixado para as outras.




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