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Nanquim, 1 de Março de 1937

Quanto tempo pareço gastar a preocupar-me com a minha mulher! A pensar nas nossas diferenças! Para muitos dos meus colegas, este casamento combinado e estranho vai contra todos os seus ideais e, realmente, eu sempre esperara fazer uma aliança razoável, talvez com alguém da universidade, uma daquelas pensadoras progressistas que dedicam algum do seu tempo, tal como o nosso presidente Chiang Kai-Chek, a pensar realmente sobre a China e o seu futuro. Mas eu também não esperara a intervenção da minha mãe no assunto.

Que enfurecedor! Pensar na minha mãe hoje. Tremo de embaraço quando penso nela, quando penso em toda a minha antiquada família cheia de superstições. A família que era abastada, mas que nunca sentiu vontade nem conseguiu fugir da aldeia de província, nem libertar-se das cheias de Verão do Poyang. Talvez eu também nunca consiga fugir verdadeiramente, e talvez esta seja a pior das verdades a meu respeito: o jovem linguista orgulhoso da Universidade de Jinling, que no fundo é apenas um rapaz de uma China que não olha para a frente nem muda — que se limita a ficar quieto e a aguardar a morte. Penso naquele campo todo verde e amarelo, salpicado por cabras brancas e junípe-ros, planícies onde um homem cultiva apenas o suficiente para alimentar a sua família, onde os patos vagueiam selvagens e os porcos afocinham nos feijoeiros, e pergunto a mim mesmo: conseguirei fugir ao meu passado?

Com o olhar nítido do presente, vejo que a minha mãe sempre teve planos para a Shujin. Tinham ido juntas ao adivinho da aldeia, um velho que recordo sem ternura, um cego de longa


barba branca, persistentemente conduzido pela aldeia, como um urso amestrado, por uma criança com sandálias de palha. O adivinho anotou cuidadosamente a data, a hora e o local de nascimento da Shujin, e com uns caracteres gatafunhados e um agitar das suas misteriosas tabuinhas de marfim, pouco depois, para gáudio da minha mãe, afirmou achar que a Shujin tinha a proporção perfeita dos cinco elementos, o equilíbrio correcto entre metal, madeira, água, fogo e terra, para me dar miríades de filhos.

Claro que resisti. E teria resistido até hoje se a minha mãe não tivesse adoecido. Para minha fúria, desespero, nem à medida que se aproximava da morte ela recusava abandonar as crenças do seu país, a sua desconfiança em relação às novas tecnologias. Em vez de ir, a meu fervoroso pedido, para os bons e modernos hospitais de Nanquim, ela decidiu confiar nos malucos locais, que passavam horas sem fim a examinar-lhe a língua, saindo do seu quarto com declarações de «Um excesso impossível de yin. É um mistério, um escândalo, o doutor Yuan não ter comentado isto mais cedo. Apesar das suas poções, das suas infusões e dos seus prognósticos, ela foi ficando cada vez mais doente.Lá se vão as suas superstições — disse-lhe eu junto à cama. — Compreende que está a destruir-me ao recusar-se a ir até Nanquim?Escuta. — Ela pousou-me a mão no braço. A sua mão castanha, gasta pelos anos no campo, pousada na manga engomada do fato ocidental que eu tinha vestido. Lembro-me de olhar para ela e de pensar: Foi mesmo esta a carne que me deu vida? Foi mesmo? — Ainda me podes fazer feliz.Feliz?Sim. — Os olhos dela brilhavam de febre. — Faz-me feliz. Casa com a filha dos Wang.

E por fim, mais por um sentimento de culpa que por outra coisa, capitulei. Realmente, o poder tremendo que as nossas mães têm! Até o grande Chiang Kai-Chek era igualmente dominado pela mãe, até ele se sujeitou a um casamento combinado para a fazer feliz. Os meus receios eram terríveis — que combinação desastrosa: a rapariga da aldeia com os seus almanaques ri shu, os seus calendários lunares, e eu, o calculador de olhar
límpido, cativo da sua lógica e dos seus dicionários estrangeiros. Preocupava-me muito o que os meus colegas iriam dizer, porque sou, tal como a maior parte deles, um republicano devoto, um admirador da ideologia transparente e progressista do Kuomin-tang, um adepto fervoroso de Chiang Kai-Chek, profundamente céptico em relação à superstição e a tudo o que manteve a China tão atrasada durante tanto tempo. Quando o casamento teve lugar, na minha aldeia natal, eu não disse a ninguém. Não houve colegas a testemunhar a cerimónia, ninguém para me ver submeter aos humilhantes rituais — o regatear com as damas de honor à porta, pêndulos de ciprestes, a procissão tortuosa evitando poços ou casas de viúvas, e tudo isto sempre com as pessoas a saltar como coelhos assustados por causa das bombinhas festivas.

Mas a minha família ficou satisfeita e fui considerado um herói. A minha mãe, talvez sentindo que fora libertada das suas obrigações terrenas, morreu pouco depois. «Com um sorriso no rosto que dava gosto ver, se for a acreditar nas minhas queridas irmãs. A Shujin tornou-se uma verdadeira carpideira, ajoelhan-do-se para encher o chão da casa dos meus pais com pó de talco:Iremos maravilhar-nos com as suas pegadas quando o espírito dela regressar até nós.Por favor, não digas essas coisas — retorqui com impaciência. — Foram essas crenças campónias que a mataram. Se tivesse dado ouvidos aos ensinamentos do nosso presidente...Pf! — fez a Shujin, pondo-se de pé e sacudindo o pó das mãos. — Já ouvi o suficiente sobre o teu querido presidente, obrigada. Esses disparates todos sobre a Vida Nova. Diz-me, o que é essa fabulosa Vida Nova que ele tanto prega se não esta, a nossa vida velha, recriada?

Agora, ainda de luto pela minha mãe, com os meus cartões--de-visita ainda impressos em papel branco, encontro-a no lugar dela, como se uma substituta tivesse surgido do mesmo botão de flor, esta mulher problemática, infinitamente frustrante e fascinante. Digo fascinante porque o que é estranho, o que é totalmente inesperado e improvável é que — e estremeço ao escrever isto —, apesar da minha impaciência com a Shujin, apesar do seu atraso, apesar de tudo, ela provoca em mim alguma agitação.

Isto embaraça-me muito. Seria incapaz de o admitir a quem


quer que fosse — certamente não aos meus colegas, que desafiariam as crenças ridículas dela a todos os níveis! Ela nem sequer pode ser considerada bonita, pelo menos segundo os seus padrões. Mas de vez em quando dou por mim perdido, durante vários minutos, no hábito de observar os olhos dela. São muito mais pálidos que os das outras mulheres, e noto isto particularmente quando ela estuda qualquer coisa, porque nessas alturas eles parecem abrir-se anormalmente e absorver a luz, ficando com umas riscas tigradas. Até um sapo feio sonha em comer um belo cisne, segundo dizem, e este sapo feio, este sapo magro, truncado e pedante, sonha todos os dias com a Shujin. Ela é a minha fraqueza.

1 Nanquim, 5 de Março de 1937 (vigésimo terceiro dia do primeiro mês, pelo calendário da Shujin)

A nossa casa é pequena mas moderna. É uma das casas brancas de dois andares que apareceram a norte do cruzamento da Zhongshan com a Zhongyang. A porta da frente abre-se para um pequeno pedaço de terra murado, e dali para uma viela alcatroada; nas traseiras, depois da cozinha, há um pequeno terreno com romãzeiras e tecas e um poço nunca usado cuja água estagna no Verão. Não precisamos do poço, temos água corrente: o que é de admirar nesta parte de Nanquim, onde ainda se vêem barracas feitas apenas com pneus e caixotes de madeira. E não só temos água como electricidade, uma lâmpada em cada assoalhada, e papel de parede às flores importado no quarto! Esta casa deveria fazer com que a Shujin fosse a inveja do bairro, no entanto a Shujin move-se nela como um caçador, procurando todas as ranhuras e nesgas por onde os maus espíritos possam entrar. Agora, em todas as assoalhadas há altares aos deuses da casa, panos e escovas só para os limpar; uma parede contra os espíritos junto à porta da frente e espelhos ba-gua virados para as portas interiores. A estatueta de um qilin apareceu por cima da nossa cama para nos ajudar a conceber um filho, e há pequenos mantras amarelos presos a todas as portas e janelas, e até às árvores lá fora.


— Sinceramente — digo. — Não percebes que foi este tipo
de comportamento que atrasou a nossa nação?

Mas para ela o conceito de nação não existe, nem o de progresso. Teme o que é novo e desconhecido. Ainda usa calças sob o qipao e acha que as raparigas de Xangai, com as suas meias de seda e saias curtas, são escandalosas. Receia que eu não a ame porque os seus pés não foram envoltos em ligaduras e conseguiu de alguma forma comprar um velho par de socas de estilo manchu com a parte de cima bordada, que conferem aos seus pés um aspecto pontiagudo, como se tivessem estado ligados desde que ela era criança. As vezes, senta-se na cama a olhar para os pés, a pressioná-los e a mexer os dedos como se uns pés naturais e livres fossem motivo de repulsa.Tens a certeza, Chongming, de que estes pés são bonitos?Não digas disparates. Claro que tenho a certeza.

Ainda ontem à noite, quando me preparava para deitar, pondo óleo no cabelo e vestindo o pijama, ela começou de novo com a lengalenga.

— Tens mesmo a certeza? Tens?

Suspirei e sentei-me no banquinho, tirando da cómoda uma tesoura com cabo de marfim.

— Não há nada — cortei a unha do polegar —, mas nada


bonito nuns pés mutilados.Oh! — fez a Shujin atrás de mim. — Oh, não! Baixei a mão e virei-me.O que foi agora?

Ela estava sentada muito direita, perturbadíssima, o rosto muito corado.O que foi? Estu O que raio estás a fazer? Olhei para as mãos.Estou a cortar as unhas.

— Mas... — ela tapou o rosto com as mãos, horrorizada —
... Chongming, está escuro lá fora. Não reparaste? A tua mãe
não te ensinou nada?

E então recordei-me de uma superstição da minha infância: cortar as unhas depois do anoitecer atrai demónios para dentro de casa.

— Bem, sinceramente, Shujin — disse eu num tom professoral —, acho que estás a levar isto um pouco longe de mais...
— Não! — insistiu ela, pálida. — Não. Queres atrair a morte e a destruição para a nossa casa?

Olhei para ela durante bastante tempo, sem saber se deveria rir-me. Por fim, quando percebi que não valia a pena antagonizá-la, abandonei as minhas unhas e voltei a guardar a tesoura na caixa.

— Sinceramente — murmurei baixinho —, um homem já
não tem liberdade na sua própria casa.

Só muito mais tarde, quando ela já estava a dormir e eu pude meditar, a olhar para o tecto, é que voltei a recordar as palavras dela. Morte e destruição. Morte e destruição, as últimas coisas em que deveríamos pensar. E, contudo, às vezes interrogo-me sobre esta paz, estes longos dias em que eu e a Shujin jazemos no nosso desacordo sob os céus escuros de Nanquim. Serão estes dias demasiado tranquilos? Demasiado cheios de sonhos? E a seguir pergunto a mim mesmo: por que motivo o terrível nascer do Sol da semana passada está sempre a regressar ao meu pensamento?


D urante a adolescência, no hospital e na universidade, sempre que pensava no futuro não imaginava a riqueza associada a ele, por isso não sabia bem o que fazer ao dinheiro. Nessa noite, quando juntei a gorjeta ao salário do serão, e percebi que era o equivalente a um pouco mais do que cento e cinquenta libras, enfiei o dinheiro no fundo do saco, corri o fecho, enfiei-o rapidamente no fundo do roupeiro e recuei com o coração a bater descompassado. Cento e cinquenta libras! Olhei para o saco. Cento e cinquenta libras!

Juntara o dinheiro de que precisava para a renda e não havia necessidade de regressar ao clube, mas acontecera uma coisa estranha. Aqueles clientes a ouvirem-me fizeram com que uma pequena parte de mim se abrisse como uma flor.

— Eu percebo sempre quando uma mulher se divertiu — disse secamente o Jason ao final da noite, quando seguíamos todos no elevador. — Por causa do sangue. — Encostou as costas da mão ao meu rosto, fazendo com que eu me encolhesse contra a parede de vidro. — Por causa da forma como o sangue aflui à pele. Fascinante. — Baixou a mão e piscou-me o olho. — Amanhã voltas.

E ele tinha razão. No dia seguinte, o meu instinto dizia-me para ir à universidade de Shi Chongming, mas como poderia abordá-lo depois da cena irada da véspera? Sabia que tinha de ter paciência e esperar o resto da semana. Mas em vez de esperar na casa entre os meus livros e apontamentos, fui até Omotesando e comprei o primeiro vestido que não me ficava acima dos joelhos e não revelava os meus seios. Uma túnica de uma espécie de


bombazina preta tesa, com mangas a três quartos. Era elegante e não dizia muito, a não ser sou um vestido. Nessa noite, Mama Strawberry lançou-lhe um olhar rápido e assentiu. Humedeceu um dedo e afastou uma madeixa do meu cabelo, depois deu-me uma palmadinha no braço, apontou para uma mesa com clientes e mandou-me logo trabalhar, no meio de uma amálgama de cigarros acesos, bebidas servidas e inúmeros cubos de gelo enfiados em copos.

Ainda consigo ver-me nessa primeira semana, sentada no clube a olhar para a cidade, perguntando-me qual das luzes seria a de Shi Chongming. Tóquio estava a ser assolada por uma onda de calor e o ar condicionado funcionava na potência máxima, por isso as acompanhantes estavam todas sentadas nos lagos de luz frescos, os seus ombros nus destacando-se nos vestidos de noite e prateados como o luar. Na minha mente vejo-me do lado de fora do edifício e é como se estivesse suspensa no nada, a minha silhueta brilhante e difusa atrás do vidro duplo da janela, o meu rosto inexpressivo obscurecido de tantos em tantos segundos pelo balouço de Marilyn, sem ninguém desconfiar dos pensamentos que fervilhavam na minha mente.

Strawberry parecia gostar de mim, e isso foi uma surpresa porque os padrões dela eram lendários. Gastava milhares e milhares de dólares por mês em flores: próteas laranja-avermelhadas vindas em caixas refrigeradas da Africa do Sul, açucenas, grandes lírios amarelados e orquídeas dos cumes da Tailândia. Às vezes olhava para ela abertamente, porque ela se punha muito direita e parecia adorar parecer sensual. Era sensual e sabia-o. E mais nada. Eu invejava a confiança dela. Ela adorava as suas roupas: todas as noites trazia uma coisa diferente: cetim cor-de-rosa, crepe branco, um vestido magenta com alças de lantejoulas, do filme Como Conquistar Um Milionário disse-me ela, baixando o braço, inclinando as ancas para um lado e olhando por cima do ombro para os clientes, fazendo boquinha.

— é cetim, sabes — disse ela, como se fosse uma coisa que toda a gente devesse saber. — Strawberry não consegue andar com elegância se não vestida como Marilyn. — E brandia a sua boquilha de madrepérola na direcção de quem estivesse a ouvi--la. — Marilyn e Strawberry mesma constituição. Mas Strawberry mais petite.


Fervia em pouca água, estava sempre a ralhar, mas só na minha quinta noite do clube é que a vi realmente zangada. Aconteceu algo que revelou uma faceta completamente diferente de Mama Strawberry.

Estava uma noite quente, tão quente que da cidade parecia emanar vapor, uma espécie de condensação que se elevava acima dos prédios e desfocava o pôr do Sol vermelho. Todos se moviam languidamente, até Strawberry, deslocando-se pela pista de dança, reluzente no seu vestido de lantejoulas comprido, igual ao que a actriz usara ao cantar HappyBirthday, Mr. President. Parava de vez em quando para murmurar qualquer coisa ao pianista, ou para pousar a mão nas costas de alguma cadeira e inclinar a cabeça para trás ao ouvir uma anedota de um cliente. Eram cerca das dez da noite, e ela retirara-se para o bar, onde se encontrava a beber champanhe, quando algo a fez pousar o copo de forma ruidosa. Endireitou-se no banco e olhou com uma expressão empedernida para a entrada, com o rosto pálido.

Seis homens enormes e pesados, de fato e cabelo com permanente, tinham entrado pelas portas de alumínio, os punhos da camisa a cobrir os pulsos, os dedos a tentarem afastar os colarinhos dos pescoços grossos. No centro do grupo vinha um homem magro com uma camisola preta de gola alta, o cabelo amarrado num rabo-de-cavalo. Empurrava uma cadeira de rodas na qual vinha sentado um homem minúsculo, frágil como uma iguana envelhecida. A sua cabeça era pequena, a pele tão seca e enrugada como a de uma noz, e o seu nariz era apenas um minúsculo triângulo isósceles, com dois orifícios mais escuros como narinas — como os de uma caveira. As mãos velhas que saíam das mangas do casaco eram compridas, castanhas e secas como folhas mortas.

Dame! Konaide yo! — Mama Strawberry deslizou do banco, pôs-se de pé muito tesa, levou o copo à boca e bebeu o champanhe de um trago sem tirar os olhos do grupo. Meteu um cigarro na boquilha, alisou o vestido nas ancas, girou sobre os sapatos de salto e atravessou o clube, o cotovelo encostado ao tronco, o cigarro em ângulo recto. O pianista, inclinando-se para trás, a fim de ver o que causara o alvoroço, desafinou algumas notas.


A pouca distância da mesa principal, junto à janela voltada para este com a melhor vista panorâmica de Tóquio, Strawberry deteve-se. Tinha o queixo levantado, os pequenos ombros sólidos puxados para trás. Encostou os pés um ao outro e virou-se ousadamente para o grupo. Percebia-se que ela se esforçava por controlar os sentimentos. Pousou uma mão numa cadeira, e ergueu a outra num movimento rígido, fazendo-lhes sinal para que se aproximassem, fazendo aquele gesto descendente com a mão tipicamente japonês.

A medida que os outros clientes se aperceberam dos recém--chegados, o ruído das conversas foi diminuindo e todos os olhares pousaram no grupo que avançava lentamente pelo clube. Mas outra coisa chamara a minha atenção. Atrás da recepção havia uma pequena alcova recortada na parede, uma zona rectangular com uma mesa e cadeiras. Embora não houvesse porta, en-contrava-se num ângulo em que qualquer pessoa podia ali sentar-se sem ser vista pelos outros clientes e por vezes Mama Strawberry tinha ali reuniões particulares, ou os motoristas usavam-na para beberem o seu chá e aguardar pelos clientes. À medida que o grupo se afastava da zona da recepção, um vulto separou-se, dirigindo-se para a alcova e desaparecendo nela em silêncio. O movimento foi tão discreto, as sombras naquele lado do clube tão densas, que eu pouco mais vi que um vislumbre, mas o que vi fez-me inclinar um pouco para a frente, fascinada, pouco à vontade.

O vulto estava vestido de mulher, com um casaco de lã preto e uma saia afunilada, mas, se pertencia a uma mulher, esta era incrivelmente alta. Pareceu-me ver uns ombros largos, masculinos, braços compridos, pernas musculadas e uns enormes sapatos pretos de salto alto e fino. Mas o que realmente me fascinou foi o cabelo dela: cortado todo a direito pela altura do queixo e com franja, tão brilhante que devia ser uma peruca, e usado solto de forma a ocultar praticamente o rosto.

Enquanto eu a observava, de boca ligeiramente aberta, o grupo chegara à mesa. Os empregados começaram a pô-la muito atarefados, e o inválido foi colocado à cabeceira, onde ficou, pequeno e preto como um besouro, enquanto o homem de rabo--de-cavalo indicava aos empregados onde deviam colocar os copos,

as garrafas de água. Dos cantos escuros do clube, vinte acompanhantes pousaram os seus olhares nervosos em Strawber-ry, que se movia por entre as mesas, murmurando nomes, chamando-as para que se sentassem com o grupo. No seu rosto havia uma expressão estranha e lívida semelhante a raiva. Durante um momento não fui capaz de situar aquela expressão, mas quando ela inclinou a cabeça para trás e avançou na minha direcção, percebi. Todos os pequenos músculos do seu rosto se contraíam. Strawberry estava nervosa.

— Grey-san — disse ela, inclinando-se para mim e falando


em voz baixa. — Mister Fuyuki. Agora sentar ao pé dele.

Estendi a mão para a mala, mas ela deteve-me levando um dedo aos lábios.

— Tem cuidado — murmurou. — Muito cuidado. Não dizer nada sobre nada. Há motivo pessoas terem medo dele. E...Hesitou e olhou fixamente para mim. Os seus olhos tinham--se semicerrado e apenas um pouco da íris castanha se via atrás das lentes de contacto azuis. — E mais importante tudo é ela.Levantou o queixo, indicando a alcova. — Ogawa. Enfermeira dele. Não tentes falar com ela nem olhá-la nos olhos. Percebes?

— Sim — disse eu com voz trémula, olhando para a enorme


sombra. — Sim, acho que sim.

Percebia-se em qualquer parte de Tóquio a presença da yaku-za: os gangues clandestinos que afirmavam ser descendentes da tradição samurai. Eram dos homens mais temidos e violentos da Ásia. Às vezes eram apenas os sons dos gangues bozosoku de motos que nos recordavam a sua existência, como uma onda de crómio a descer Meiji Dori a meio da noite, levando tudo à frente, os caracteres da palavra kamikaze pintados na parte da frente dos capacetes. Mas noutras vezes apercebemo-nos da presença dos membros dos gangues de formas menos tangíveis: estranhos vislumbres de um Rolex num café, um homem entroncado com uma permanente a levantar-se da mesa de um restaurante e enfiando o pólo dentro das calças pretas, um par de sapatos reluzentes de pele de cobra num dia quente no metro. Ou uma tatuagem na mão que comprou um bilhete à nossa frente na fila. Não pensei muito nisso até essa noite no clube

quando, no silêncio que se abatera sobre a sala, ouvi alguém sentado perto da pista de dança murmurar Yakuza.

Na mesa reinava um silêncio absoluto. Todas as acompanhantes pareciam ter mergulhado dentro de si próprias, evitando com nervosismo olhar para as outras pessoas. Todas pareciam determinadas a não se sentarem de costas para a enfermeira, que continuava sentada na alcova, imóvel como uma cobra. Atribuíram-me um lugar perto da cadeira de rodas de Fuyuki e fiquei suficientemente próxima para poder estudá-lo. Tinha o nariz tão pequeno que parecia ter sido devorado num incêndio, e respirava de forma ruidosa. Mas o seu rosto, se não exactamente bondoso, era pacífico, ou atento, como o de um velho sapo. Não tentou falar com ninguém.

Os homens dele estavam sentados em silêncio, as suas mãos pousadas respeitosamente na mesa, enquanto esperavam que o do rabo-de-cavalo preparasse a bebida de Fuyuki. Fez aparecer um pesado pequeno copo embrulhado num guardanapo de linho branco, encheu-o até acima com uísque de malte, rodou-o duas vezes, deitou o uísque no balde do gelo, limpou cuidadosamente o copo com o guardanapo e voltou a enchê-lo. Ergueu a mão, dando a entender aos outros homens que ainda não deviam beber, e houve um breve hiato enquanto passou o copo a Fuyuki, que o ergueu com uma mão trémula e bebericou. Pousou o copo, encostou uma mão ao estômago, a outra à boca para abafar o arroto e, satisfeito, acenou com a cabeça.

Omaetachi mo yare. — O homem do rabo-de-cavalo ergueu o queixo, dando a entender aos outros que podiam beber. — Nonde.

Os capangas descontraíram-se. Ergueram os copos e beberam. Alguém se levantou e despiu o casaco, outro sacou de um charuto e cortou-lhe a extremidade. Lentamente, o ambiente suavizou-se. As raparigas tornaram a encher os copos, puseram gelo e mexeram as bebidas com pauzinhos de plástico do Quanto Mais Quente Melhor, usando as pequenas silhuetas plásticas de Marilyn para empurrarem o gelo à volta do copo e não tardou muito para que todos começassem a falar ao mesmo tempo e a conversa tivesse um tom mais alto do que o de qualquer outra mesa. Em menos de uma hora, todos os homens estavam
bêbedos. A mesa ficou cheia de garrafas e pratos meio cheios de rábano em vinagre, inhame e hóstias de lagosta.

Irina e Svetlana pediram o meishi de Fuyuki. Não era um pedido incomum — por uma questão de hábito, a maior parte dos clientes entregavam-nos logo os seus cartões-de-visita pouco depois de se sentarem, mas Fuyuki não lhes deu o seu cartão de ânimo leve. Franziu o sobrolho, tossiu e olhou as russas de cima a baixo. Foi preciso bastante tempo e persuasão para o levar a enfiar a mão no fato — o seu nome, reparei quando ele se mexeu, estava bordado a ouro por cima do bolso de dentro —, tirar de lá alguns meishi e distribuí-los pela mesa, agarrando-os com o indicador e o dedo médio acastanhados, a palma virada para baixo. Inclinou-se para o homem do rabo-de-cavalo e murmurou numa voz seca e áspera:

— Diz-lhes que não me tratem como um macaco amestrado. Não quero ninguém a ligar-me e a convidar-me para vir ao
clube. Virei quando me apetecer.

Olhei para o cartão que tinha nas mãos. Nunca vira nenhum tão bonito. Era de papel artesanal, áspero, a orla irregular. Ao contrário da maioria dos cartões, não tinha morada nem tradução inglesa no verso. Exibia apenas o número de um telemóvel e o kanji de Fuyuki, apenas o seu segundo nome, com uma caligrafia manual a tinta.

— O que foi? — murmurou Fuyuki. — Algum problema?

Abanei a cabeça e continuei a olhar para o cartão. O pequeno kanji era lindo. Estava a pensar como aquele antigo alfabeto era bonito — quão rudimentar e pobre a língua inglesa parecia em comparação com esta.

— O que foi?

— Árvore de Inverno — murmurei. — Árvore de Inverno.


Um dos homens na ponta da mesa começou a rir antes de

eu terminar. Quando mais ninguém se lhe juntou, ele transformou o riso num ataque de tosse, cobrindo a boca com um guardanapo, pegou no copo e bebeu um gole. O silêncio abateu-se sobre a mesa, e Irina exibiu uma expressão desdenhosa, abanando a cabeça. Mas Fuyuki inclinou-se para a frente.

— O meu nome. Como é que soube o que o meu nome
quer dizer? Fala japonês? — perguntou ele.
Olhei para ele, muito pálida.Sim — respondi a medo. — Um bocadinho.Também consegue ler?Apenas quinhentos kanji.Quinhentos? Sugoi. Isso é bastante. — As pessoas estavam a olhar para mim como se só naquele momento se tivessem apercebido de que eu era um ser humano, e não uma peça de mobiliário. — E de onde disse que era?Inglaterra? — A resposta saiu como uma pergunta a medo.Inglaterra? — Ele inclinou-se para a frente e pareceu estar a observar-me. — Diga-me, as mulheres são todas assim tão bonitas em Inglaterra?

Ter alguém a dizer-me que eu era bonita... bom, ainda bem que isso não acontecia muitas vezes, porque era nessas alturas que eu ficava nervosa e pouco à vontade, lembrando-me de todas as coisas que provavelmente nunca iriam acontecer-me. Embora eu fosse bonita. O comentário do velho Fuyuki fez-me corar e retrair-me. Não abri a boca a partir desse momento. Fiquei sentada em silêncio, a fumar cigarro após cigarro e inventei todas as desculpas para me levantar da mesa. Se havia um copo limpo para ser trazido do bar, ou um novo prato de aperitivos, eu levantava-me de um pulo e ia buscá-lo sem pressas.

A enfermeira quase não se mexeu durante toda a noite. Não pude evitar lançar-lhe uns olhares de vez em quando — à sua sombra praticamente imóvel na parede da alcova. Percebi que os empregados estavam pouco à vontade com a sua presença: normalmente um deles dirigia-se à alcova para perguntar ao ocupante se queria beber alguma coisa, mas naquela noite parecia que só Jason tinha coragem para falar com ela. Quando me dirigi ao bar para ir buscar uma toalha quente lavada, vi-o lá. Levara-lhe a carta dos uísques, movendo-se com confiança, sem receio, e estava encostado à mesa muito descontraído, de braços cruzados, a olhar para ela. Dispus de alguns segundos para a estudar.

Estava sentada de lado em relação a mim e tinha um aspecto espantoso — todos os centímetros da sua pele se encontravam


cobertos por um pó branco, tapando as pregas do pescoço, as rugas dos pulsos. O único sítio onde não havia pó era nos estranhos olhos, pequenos e escuros como marcas de dedos na massa de um bolo, com as pálpebras muito lisas, muito distantes do nariz, tão encovados que as órbitas pareciam vazias. Mama Strawberry avisara-me para não olhar para a enfermeira, mas seria impossível cruzarmos o nosso olhar com o dela, mesmo que tentássemos, e a sua posição estranha devia significar que ela era míope, porque segurava a carta muito próximo do rosto, quase como se estivesse a cheirá-la. Não me virei nem voltei logo para a mesa, mas demorei-me alguns momentos no bar, fingindo estar ocupada com a inspecção da toalha quente, como se alguma coisa pudesse estar errada.

— Ela é sensual — ouvi Jason dizer aos empregados do bar quando regressou com o pedido. Pousou os cotovelos no balcão e falou para o ar. — Sensual de uma forma sadomasoquista. — Olhou por cima do ombro para a enorme cabeça escura dela, com um sorriso divertido a bailar-lhe nos lábios. — Acho que seria capaz de fazer aquilo com ela se tivesse de ser. — Nessa altura voltou-se e viu-me parada no bar a olhar para ele em silêncio. Piscou-me o olho e arqueou as sobrancelhas, como se estivesse a partilhar comigo uma piada. — Umas belas pernas — explicou ele, indicando a enfermeira. — Ou talvez sejam os saltos que me excitam.

Não respondi. Peguei na oshibori e virei-lhe costas, com um rubor estúpido espalhando-se-me pela cara e pelos ombros. Jason provocava-me sempre vontade de chorar.

Tem graça a forma como as pessoas são capaz de nos meter ideias na cabeça. Nessa noite, bastante mais tarde, olhei para as minhas pernas, cruzadas sob a mesa. Já estava bastante bêbeda e lembro-me de as ver cruzadas nos tornozelos e de pensar: Como serão umas pernas bonitas? Alisei a saia nas minhas coxas e afastei um pouco os joelhos, de forma a poder ver melhor o interior das minhas pernas. Virei-as de forma a conseguir ver a barriga da perna e o seu retesar quando flecti os pés. Será que umas belas pernas se pareciam alguma coisa com as minhas?


10

Nanquim, 4 de Abril de 1937, Festival do Claro e do Brilhante

minha mãe deve estar a rir-se neste momento — deve estar a olhar para mim e a rir-se por causa das minhas reservas e da minha impaciência em relação a este casamento. Porque, segundo parece, a Shujin e eu vamos ter um bebé! Um bebé! Ima-gine-se. O Shi Chongmíng, o sapinho feio, pai! Eis, finalmente, algo que comemorar. Uma criança que ponha ordem nas leis da física e do amor, uma criança que revele a razão por detrás dos subtis códigos da sociedade. Uma criança que me ajude a abraçar o futuro de bom grado.

A Shujin, naturalmente, encontra-se mergulhada num frenesi de superstição. Há tantas coisas importantes a considerar. Observo-a divertido, tentando abarcar tudo, tentando tratar tudo com a máxima seriedade. Em primeiro lugar, esta manhã, surgiu uma enorme lista de alimentos proibidos — ela não irá permitir a entrada de lulas, polvos e ananases em casa, e eu terei de ir diariamente ao mercado comprar galinha preta, fígado, ameixas, sementes de lótus e bolas de sangue de pato coalhado. E de hoje em diante cabe-me a responsabilidade de matar as galinhas que vierem vivas do mercado, porque se a Shujin matar um animal, nem que seja para comer, parece que o nosso bebé adquirirá a forma dele e ela dará à luz uma galinha ou um pato!

Mas, e isto é o mais importante de tudo, não devemos referir-nos ao nosso filho (ela tem a certeza de que iremos ter um filho) como bebé ou criança, porque assim os maus espíritos iriam ouvir-nos e tentariam roubá-lo à nascença. Em vez disso, ela atribuiu-lhe um nome para confundir os espíritos, um «nome


de leite, como ela lhe chama. Daqui em diante, trataremos o nosso filho por «Lua, de cada vez que nos referirmos a ele.Não imaginas como são os seres malignos capazes de roubar um recém-nascido. A alma da nossa Lua é o bem mais precioso que um demónio pode esperar ter. E — aqui ela levantava uma mão e silenciava a minha interrupção —, não te esqueças... a nossa pequena Lua é muito frágil. Por favor, não grites nem discutas ao pé de mim. Não devemos perturbar a sua alma.Estou a ver — respondi, com um ligeiro sorriso nos lábios, porque achava maravilhosa a ingenuidade dela. — Bem, nesse caso, preserve-se a alma da Lua. E que haja apenas paz dentro destas quatro paredes daqui emdiante.

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