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As russas disseram que não era de admirar que Jason dissesse piadas sobre a enfermeira. Disseram que sempre desconfiaram que ele era estranho. Disseram que as paredes do quarto dele estavam cobertas com fotografias horríveis, que ele recebia muitas vezes revistas especializadas plastificadas da Tailândia, e que às vezes desapareciam lá de casa coisas de pouco valor: a estatueta de Irina, de um urso de combate com pêlo verdadeiro, uma luva de pêlo de lobo, uma fotografia dos avós das raparigas. Talvez, especulavam elas, ele fosse um adorador do Diabo.

— Ele vê coisas nojentas, tão nojentas que dão vontade vomitar. Os vídeos dele, sempre vídeos com morte.

Víamos os vídeos de que elas falavam nas prateleiras dos clubes de vídeo da Rua Waseda. Tinham títulos como Rostos da Morte, Loucura Mortuária e as letras pareciam ser feitas com gotas de sangue. Imagens verdadeiras de uma autópsia!, vangloriavam-se as capas, e éramos capazes de pensar que eram vídeos de sexo quando víamos as multidões de rapazes adolescentes que estavam sempre naquele canto do clube de vídeo. Eu nunca vira nenhuma daquelas cassetes lá em casa, por isso não sabia que as russas estavam a dizer a verdade. Mas já vira as fotografias de Jason.

— Estou na Ásia há quatro anos — dissera-me ele. — Podes


ficar com os teus Taj Mahals e os teus Angkor Vats. Eu procuro... — fizera uma pausa e esfregara os dedos uns nos outros, como se tentasse moldar as palavras com ar. — Eu procuro algo
mais... algo diferente.
Uma vez eu passara pelo quarto dele, vira a porta aberta e ninguém lá dentro. Não consegui resistir e entrei.

Vi aquilo a que as russas se referiam. Havia fotografias a cobrirem todos os centímetros de parede, e as imagens eram tão horríveis como elas tinham dito: aqui um homem bastante aleijado, nu, com excepção de uma grinalda de cravos-de-defunto, sentado com ar abatido no que supus ser a margem do Ganges, ali uns jovens filipinos crucificados, acolá abutres a prepararem--se para saborear carne humana nas incríveis Torres do Silêncio num funeral pársi. Até reconheci as bandeiras de orações e o ju-nípero fumegante junto a um cadáver oferecido aos abutres perto de Lhasa, porque estudara o Tibete num módulo da universidade. Mas, pensei, olhando para a fotografia de uma coluna de fumo a elevar-se de uma forma indistinta numa plataforma, com as palavras pira funerária varanasi escritas em baixo, havia algo estranhamente belo em tudo aquilo, e pairava no ar uma espécie de aroma a curiosidade. Quando, por fim, saí do quarto sem que ninguém me visse, decidira que as russas estavam enganadas. Jason não era esquisito nem mórbido, era fascinante.

Era aparentemente empregado de mesa no clube, mas durante toda a semana eu nunca o vira pegar num tabuleiro. As vezes detinha-se junto às mesas a falar com os clientes, como se fosse ele, e não a Strawberry, o dono.

— Ele empregado mas não faz nada — murmurou Irina. — Não precisa trabalhar porque Mama Strawberry adora ele.

Parecia gostar do estatuto que ser empregado de mesa gaijin lhe proporcionava. E depois havia o aspecto dele. As acompanhantes japonesas riam e coravam sempre que ele passava por elas. Sentava-se muitas vezes à secretária da Strawberry a beber champanhe, o smoking aberto, revelando o seu corpo, enquanto ela sorria afectadamente e ajeitava as alças do vestido, às vezes inclinando-se para trás na cadeira e afagando o corpo com as mãos.

Ele não passava muito tempo em casa — e deparar com o quarto dele aberto era pouco habitual. Normalmente a porta estava fechada, todos tínhamos cadeados nas portas dos nossos quartos, e muitas vezes ele trancava a porta e saía antes de acordarmos, ou apanhava um táxi no clube e só voltava na noite


seguinte. Talvez estivesse nos parques, à procura de mulheres a dormir em bancos. Mas havia marcas da sua presença em toda a parte — uns mocassins nas escadas, creme de barbear a cheirar a lima a secar na prateleira da casa de banho, cartões-de-visita rosa-claros encostados à chaleira, com nomes como Yuko e Moe escritos com letra feminina.

Fingi não me sentir abalada com tudo aquilo, mas sentia. Secretamente, estava fascinada por Jason.

Comprei um diário na Kiddyland, uma loja de meninas da escola em Omotesando. Era cor-de-rosa, com uma capa de plástico transparente tendo lá dentro gel com brilhantes que se mexia. Eu segurava-o contra a claridade e maravilhava-me com a luz reflectida nos pequenos brilhantes. Tinha comprado uns autocolantes perfumados e todos os dias colava um no diário. Às vezes, apanhava o comboio até Hongo e sentava-me no restaurante Bambi, vendo o sol a brilhar no enorme portão Akamon enquanto os estudantes entravam e saíam. Mas não vi Shi Chongming. Faltavam ainda cinco dias, quatro dias, três dias, dois dias. Ele dissera uma semana. Faria uma semana no domingo. Mas o domingo chegou e ele não telefonou.

Eu mal podia crer. Ele quebrara a promessa. Esperei o dia inteiro, sentada no sofá da sala, com os estores baixos por causa do calor, os meus livros espalhados à minha volta. Fartei-me de olhar para o telefone. Mas das únicas vezes que tocou era para Jason. Eu atendia-o a correr e ouvia do outro lado uma miúda japonesa a suspirar, recusando-se a acreditar em mim quando eu lhe dizia que ele não se encontrava em casa.

Nesse domingo atendi cinco chamadas para ele, todas de raparigas diferentes. A maior parte delas era simpática e ficava triste, outras eram mal-educadas. Uma delas soltou uma interjeição chocada ao ouvir a minha voz e gritou-me em japonês:

— Quem diabo és tu? Porque diabo estás a atender o telefone? Chama o Jason à porra do telefone! JÁ!

Passei algum tempo a tomar nota dos nomes. Desenhei rostos ao pé deles, tentando imaginar o aspecto das raparigas. Depois, quando isso se tornou aborrecido, sentei-me com o queixo apoiado nas mãos, a olhar carrancuda para o telefone que não tocou para mim nem de dia nem de noite.
12

Nanquim, 1 de Setembro de 1937

aproximam-se sarilhos de leste. E tal como eu pensava. Os Japoneses estão em Xangai e lutam pela cidade rua a rua. Poderão ser realmente os Japoneses, e não os comunistas, a maior ameaça à nossa estabilidade? Poderão os comunistas estar certos ao querer forçar esta aliança militar com Chiang? Pu Yi, a marioneta japonesa, está no seu trono emprestado na Manchúria há seis anos, sem que nisso haja qualquer responsabilidade do nosso presidente, e há cinco anos os Japoneses bombardearam Xangai. Mas ninguém falou da nossa segurança em Nanquim. Até agora. Agora, e só agora, é que os cidadãos começam a tomar algumas precauções. Passei esta manhã a pintar de preto as telhas azuis do telhado, para o ocultar dos bombardeiros japoneses que, segundo nos disseram, surgirão um dia por detrás da montanha Púrpura, vindos com o sol-nascente.

Por volta das dez, quando já tinha terminado metade do telhado, algo me fez deter. Não sei se foi um ruído ou uma premonição, mas algo me vez voltar para este ali em cima das escadas. Recortados no céu da cidade havia talvez outros vinte homens como eu, empoleirados nas escadas, magros, com os seus telhados meio pintados a brilhar sob eles. E mais além, muito mais além, o horizonte. A montanha Púrpura. O Este vermelho.

A Shujin disse sempre que havia qualquer coisa má no futuro de Nanquim. No seu jeito profético e fatalista, ela sempre falou disso. Diz que soube que estava encurralada ali desde que saíra do comboio. Diz que o peso do céu se abateu sobre ela e que o ar lhe infectou os pulmões e que o futuro da cidade exerceu


tanta pressão sobre si que teve dificuldade em manter-se de pé. Nem o comboio preto brilhante do qual acabara de sair, e que abrira caminho através da luz leitosa, servia de fuga. Nesse momento, parada na plataforma da estação de Nanquim, olhou para o círculo de montanhas, escuras, semelhantes a uma caixa torácica aberta na paisagem, e soube que eram perigosas. Prendê--la-iam como uma garra, aquelas montanhas venenosas, e os comboios deixariam de circular enquanto ela ali estivesse. Então Nanquim tê-la-ia e usaria o seu ar fraco e ácido para a dissolver no seu âmago.

Sei que algo importante lhe aconteceu nesse dia, quando a acompanhei até Nanquim desde o lago Poyang, porque me recordo vivamente de um grão de cor na viagem de comboio. Um guarda-sol rosa-forte. Uma rapariga nos arrozais parara para esperar que a cabra que a seguia se aproximasse. Quando o animal parou teimosamente, a rapariga puxou a corda, sem muita força, mais preocupada com a ociosidade da observação do que com o animal que vinha na direcção dela. Tínhamos parado algures a sul de Wuhu e toda a gente no comboio interrompeu o que estava a fazer e se virou para as janelas, a fim de observar a rapariga à espera da cabra. O animal acabou por ceder e a rapariga continuou, e pouco depois não restava nada a não ser o arrozal verde-esmeralda. Os outros passageiros afastaram-se das janelas e regressaram aos seus jogos, às suas conversas, mas a Shujin continuou imóvel, ainda a olhar para o pedaço de terra onde a rapariga estivera.Para onde estás a olhar? — murmurei, inclinando-me para ela.Para onde estou a olhar? — A pergunta pareceu intrigá-la. — Para onde estou a olhar? — Repetiu aquilo várias vezes; a mão na janela, ainda a olhar para o espaço vazio deixado pela rapariga. — Para onde estou a olhar?

Só agora, muitos meses depois, é que compreendo exactamente para onde a Shujin estava a olhar. Ao olhar para a rapariga debaixo do guarda-sol rosa-forte, estava a olhar para ela própria. Estava a despedir-se. A rapariga do campo que existia nela ia partir. Quando chegámos a Nanquim, demorou-se um pouco em alguns lugares — nas linhas suaves na parte de trás dos
joelhos, no tom dos seus braços e no dialecto jiangxi pouco cadenciado que os habitantes de Nanquim achavam tão divertido — mas no resto a mulher começava a surgir, involuntariamente, emergindo pestanejante e espantada numa cidade grande. A cidade que ela cria que nunca a deixaria partir.

13

V, Shi Chongming chegar à Universidade Todai às oito horas da manhã seguinte. Eu estava lá desde as seis e meia, primeiro à espera na esquina, depois no café Bambi, quando abriu. Pedi um pequeno-almoço abundante — sopa de miso, lascas de atum sobre arroz, chá verde. Antes de a empregada entregar o meu pedido na cozinha, murmurou-me o preço. Fitei-a, sem perceber. Depois fez-se luz: ela não queria que eu pensasse que ia comer outra vez de graça. Levei o talão à caixa e paguei. Quando ela me trouxe a comida, dei-lhe três notas de mil ienes. Ela olhou para o dinheiro em silêncio, em seguida corou e meteu-o no avental com folhos.

Estava um dia quente, mas Shi Chongming envergava uma camisa de algodão azul ao estilo de Mao, umas sapatilhas pretas de borracha, daquelas elásticas, como as que as crianças inglesas usam nas aulas de Educação Física, e o seu estranho chapéu de pescador. Andava muito devagar e com cuidado, os olhos postos no chão. Não me viu junto ao portão até eu ter saído de debaixo das árvores e me ter posto diante dele. Viu os meus pés e estacou, com a bengala no ar, a cabeça baixa.

— O senhor disse que telefonava.

Devagar, muito devagar, Shi Chongming levantou a cabeça. Os seus olhos eram escuros, como berlindes manchados.

— Está outra vez aqui — disse ele. — Disse que não voltaria.O senhor ficou de me ligar. Ontem. Ele semicerrou os olhos.Você está diferente. Por que é que está diferente?
— O senhor não me telefonou.

Ele fitou-me durante mais um instante, assimilando a minha última frase, depois emitiu um ruído e começou a afastar-se.Você é muito mal-educada — murmurou. — Muito mal--educada.Mas esperei uma semana — retorqui, apanhando-o e caminhando atrás dele. — Não lhe liguei, não vim até aqui, fiz o que devia, mas o senhor esqueceu-se.Eu não prometi ligar-lhe...Sim, pro...Não. Não. — Ele parou e ergueu a bengala, apontando-a para mim. — Não prometi nada. Tenho uma excelente memória e sei que não lhe prometi nada.

— Não posso esperar para sempre.
Ele soltou uma gargalhada.Gosta de velhos ditados chineses? Quer ouvir uma verdade profunda sobre uma folha de amoreira? Quer? Nós costumamos dizer que a paciência transforma uma folha de amoreira em seda. Seda! Imagine só, seda a partir de uma velha folha seca. Só é necessário paciência.Bem, isso é estúpido — disse eu. — As lagartas é que a transformam em seda.

Ele fechou a boca e suspirou.Sim — disse. — Sim. Não estou a ver grande futuro nesta amizade. E você?Claro que não, se o senhor não me telefona quando prometeu. Tem de cumprir as suas promessas.Eu não tenho de coisa nenhuma.Mas... — a minha voz começava a elevar-se e alguns alunos lançaram-nos uns olhares curiosos — ... eu trabalho de noite. Como é que sei que o senhor não me telefona à noite? Não tenho atendedor de chamadas. Como sei que não me liga uma noite, e depois nunca mais? Se eu não estiver em casa quando me ligar, tudo correrá mal e depois...Deixe-me agora — interrompeu ele. — Já falou de mais. Agora, por favor, quero ficar sozinho.

E lá foi atravessando o complexo universitário, deixando-me especada à sombra de um ginko.
— Professor Shi! — chamei. — Por favor. Não queria ser mal-educada. Não era minha intenção.

Mas ele continuou a andar, acabando por desaparecer atrás da sebe, na floresta. Aos meus pés, as sombras dos gingkos mo-viam-se. Virei-me e dei um pontapé da vedação baixa na borda do caminho, depois ocultei o rosto nas mãos e comecei a tremer.

Fui para casa numa espécie de transe, indo direita ao meu quarto, sem me deter para falar com as russas que estavam a ver televisão na sala e soltaram um ooooh sarcástico na direcção das minhas costas. Fechei a porta do quarto com estrondo e en-costei-me a ela, de olhos fechados, a ouvir o bater do meu coração.

Quando sabemos que estamos certos a respeito de uma coisa, o importante é continuar.

Passado bastante tempo, abri os olhos e aproximei-me do sítio onde tinha as tintas guardadas, encostadas à parede na alcova. Misturei algumas tintas, pus os pincéis e a água num frasco e abri a janela. Já estava a ficar escuro, e da rua vinha um aroma a comida queimada; Tóquio começava a iluminar-se para a noite. A cidade estendia-se para longe como uma pequena galáxia distante. Imaginei-a vista do espaço — prédios como montanhas, ruas brilhantes como os rios de mercúrio do imperador Qin Shi Huangdi.

Como podia isto ser? Quando os ataques aéreos tinham terminado, quando o último bombardeiro americano desaparecera sobre o Pacífico azul, havia cento e sessenta quilómetros quadrados de ruas destruídas em Tóquio. A cidade estava irreconhecível. Os carros não podiam circular porque ninguém sabia onde acabavam as ruas e começavam os edifícios. Nos bairros de lata ao longo do rio, o tadon que eles queimavam, um misto mal-cheiroso de pó de carvão e alcatrão, pairava sobre a cidade como uma nuvem.

As coberturas de seda das paredes do meu quarto haviam sido arrancadas até à altura da cintura. Para baixo estavam intactas. Mergulhei o pincel em cobalto e comecei a pintar. Pintei telhados destruídos e os caibros das casas calcinadas. Pintei incêndios fortíssimos e ruas cheias de entulho. Enquanto pintava, a minha
mente vagueava. Estava tão longe dali que às sete horas as russas tiverem de vir bater-me à porta e perguntar se eu tencionava ir trabalhar nessa noite.

— Ou vais ficar aqui? Como caranguejo, hein?

Abri a porta e olhei para elas, de pincel na mão, a cara salpicada de tinta.

— Meu Deus! Vens assim?

Pestanejei. Na altura não sabia, mas ainda bem que elas me bateram à porta: se não o tivessem feito, eu poderia ter perdido uma das noites mais importantes que passei em Tóquio.

14


Nanquim, 12 de Novembro de 1937 (o décimo dia do décimo mês)


X


ngai caiu a semana passada. A enormidade desta notícia ainda não foi interiorizada. As melhores tropas do nosso presidente estavam a defender a cidade: éramos dez para um em relação aos fuzileiros japoneses, e contudo a cidade caiu. Diz-se que as ruas estão desertas, habitadas apenas pelas latas vazias de gás vesicante dos Japoneses, espalhadas nas valetas, e pelos animais do jardim zoológico mortos e a apodrecer nas jaulas. Consta que o Exército Imperial Japonês está a espalhar-se pelo delta e agora parece inevitável um ataque a Nanquim. Dez divisões estão a avançar pelo país na nossa direcção: a pé, em motos e carros blindados. Consigo imaginá-los, com as suas grevas ensopadas de lama amarela do rio, certos de que, se conseguirem tomar Nanquim, a grande capital da nossa nação, terão o coração do gigante no seu punho.

Mas naturalmente isso não irá acontecer. O nosso presidente não irá permitir que o mal chegue à sua cidade. E contudo algo mudou nos cidadãos, houve um vacilar da fé. Quando me dirigia a casa hoje, depois da aula da manhã (só apareceram quatro alunos, o que hei-de pensar?), o nevoeiro que tem pairado sobre a cidade levantou e ficou sol, como se o céu se houvesse apiedado de Nanquim, mas reparei que ninguém estendeu roupa, como é hábito assim que o Sol aparece. Em seguida notei que os borrifadores da rua, os pobres cules maltrapilhos que limpam as vias públicas, não tinham aparecido, e que havia pessoas de porta em porta, carregando mais haveres do que parecia necessário. Levei algum tempo a perceber o que está a acontecer e, quando percebi, senti um aperto no coração. As pessoas estão a fugir.


A cidade está a fechar. Envergonho-me de dizer que até alguns professores da universidade começam a falar em fugir para o interior. Imagine-se! Imaginem uma tamanha falta de fé no nosso presidente. Imaginem o que ele irá pensar ao ver-nos fugir da sua grande cidade.

A Shujin parece quase feliz por Xangai ter sido tomada. Aquilo veio provar tudo o que sempre afirmou a respeito dos nacionalistas. Também ela foi contagiada pelo desejo de fugir da capital. Quando regressei a casa, encontrei-a a meter coisas numa arca.Ora aí estás — disse ela. — Tenho estado à espera. Agora traz por favor o carrinho de mão do quintal.O carrinho de mão?Sim! Vamo-nos embora. Vamos regressar a Poyang. — Dobrou um pano branco do cui sheng da avó e guardou-o na arca. Reparei que ela reservara a maior parte do espaço para um cofre de tartaruga que pertencera à minha mãe — um cofre que eu me recordava de conter várias passagens do / Cbing, escritas com sangue e embrulhadas em tecido. A minha mãe depositara toda a sua fé naquelas palavras, contudo elas tinham sido incapazes de a salvar. — Oh, não faças essa cara ansiosa! — exclamou a Shujin. — O meu almanaque indica que hoje é um dia bastante auspicioso para viajar.Olha lá, não há qualquer necessidade de ter pressa... — comecei.Não há? — Ela apoiou-se sobre os calcanhares e olhou para mim com ar pensativo. — Eu acho que há. Vem comigo. — Levantou-se e fez-me sinal para que me aproximasse da janela, abriu-a e apontou para a montanha Púrpura, onde se encontra o mausoléu de Sun Yat-sen. — Além — disse ela. Estava a fazer-se tarde e atrás da montanha a Lua começava já a surgir, baixa e alaranjada. — Zijin.O que tem?Chongming, escuta por favor, marido. — A voz dela ficou baixa e séria. — A noite passada tive um sonho. Sonhei que Zijin estava a arder...Shujin — comecei —, isso é um disparate...Não! — declarou ela. — Não é um disparate. É real. No
meu sonho, a montanha Púrpura estava a arder. E quando vi isso, soube. Soube imediatamente que um desastre se vai abater sobre Nanquim...Shujin, por favor...Um desastre como nunca ninguém viu, nem sequer durante a rebelião dos cristãos.Francamente! Diz-me, és tão sábia como os cegos nos festivais, que apregoam ter esfregado nas pálpebras um... não sei, o fluido do olho de um cão ou um disparate parecido? Um adivinho? Vamos pôr já um fim a este disparate. Não se pode, não se pode adivinhar o futuro.

Mas ela não se deixava demover. Manteve-se muito direita ao meu lado, com os olhos postos na montanha Púrpura.Pode sim — murmurou ela. — Pode advinhar-se o futuro. O futuro é uma janela aberta. — Pousou a mão nos estores. — Tal como esta. É fácil olhar em frente porque o futuro é o passado. Tudo na vida dá uma volta, e eu já vi exactamente o que vai acontecer. — Virou-se e olhou para mim com os seus olhos amarelos, e por momentos pareceu estar a olhar-me para o coração. — Se ficarmos em Nanquim, morremos. Tu também o sabes. Vejo-o nos teus olhos; sabe-lo muito bem. Sabes que o teu querido presidente é demasiado fraco para nos salvar. Nanquim não tem a mínima hipótese nas mãos dele.Não vou ouvir nem mais uma palavra — declarei, subitamente firme. — Não vou permitir que fales do generalíssimo dessa maneira. Proíbo-o. Proíbo-o terminantemente. Chiang Kai-Chek irá salvar esta cidade.Esse cão de estimação dos estrangeiros! — Ela fungou com desdém. — Primeiro, os generais dele têm de o obrigar a lutar e agora nem sequer consegue derrotar os Japoneses... o próprio exército que o treinou!Basta! — exclamei, trémulo de ira. — Já ouvi o suficiente. Chiang Kai-Chek vai defender Nanquim e nós, sim, eu e tu, estaremos aqui para ver. — Peguei no pulso dela e conduzi-a até junto da arca. — Sou teu marido e tens de confiar nas minhas opiniões. Tira as coisas da arca. Não vamos a parte alguma... e muito menos de volta a Poyang. Poyang matou a minha mãe e estou a dar-te indicações precisas, como é próprio de um marido:


irás depositar a tua fé em Chiang Kai-Chek, o juiz supremo, um homem muito maior, muito mais forte que todas as tuas superstições juntas.

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Nanquim, 16 de Novembro de 1937

Como me arrependo agora daquelas palavras. Agora que estou aqui, sozinho no meu escritório, com a porta trancada, a orelha encostada furtivamente ao rádio, como me arrependo da minha postura orgulhosa. Tenho medo de deixar que a Shujin ouça as notícias porque ela crocitaria radiante ao ouvir o terrível relatório de hoje, tão terrível que até estremeço ao escrevê-lo aqui. Irei escrevê-lo em caracteres pequenos para ser mais fácil de suportar: Chiang Kai-Chek e o governo Kuomintang fugiram da cidade, deixando-a nas mãos do general Tang Shengzhi.

Agora que escrevi esta frase escandalosa, resta-me ficar a olhar para ela, o sangue a latejar na minha cabeça. O que irei fazer? Não sou capaz de ficar sentado, nem de ficar de pé, nem de pensar noutra coisa. O comandante Chiang foi-se embora? O general Tang ocupou o lugar dele? Poderemos confiar nele? Deverei rastejar até junto da Shujin e dizer-lhe que me enganei? Permitir que ela me veja fraquejar? Não posso. Não posso recuar. Estou preso numa maldita teia feita por mim, mas tenho de manter-me firme, por muito que me custe. Irei barricar a casa e aguardar a chegada das forças imperiais. Mesmo que o impensável aconteça e as nossas tropas sejam derrotadas, sei que os Japoneses nos tratarão bem. Visitei Quioto quando era estudante e falo bem a língua. Eles comportam-se com um cuidado e uma sofisticação infinitos... basta estudarmos a sua conduta na guerra com a Rússia para percebermos que são um povo civilizado. A Shujin irá ficar admirada ao perceber que eles têm coisas para nos ensinar. Irei elaborar um cartaz em japonês a dizer «Bem--vindos e estaremos a salvo. Hoje vi duas famílias numa viela a seguir à Estrada de Hanzhong a fazerem cartazes semelhantes.

Mas enquanto escrevo, enquanto a noite tomba sobre Nanquim fora dos muros da casa, à medida que a cidade vai ficando



T

em silêncio, com excepção de um ou outro tanque nacionalista a percorrer a Estrada de Zhongshang, o meu coração parece gelo. Tenho de o pôr assim para evitar descer as escadas e confessar os meus receios à Shujin.

Ela modificou o seu comportamento para comigo desde que recusei regressar a Poyang. Repito todos os dias a lista de razoes para não fugirmos, fingindo não saber quão ocas soam: no campo não haverá médicos, nem meios sofisticados para o nascimento da nossa criança. Tentei pintar um quadro de desastres que se seguiriam se estivéssemos presos no campo, apenas com uma velha camponesa para ajudar a Shujin no parto, mas, de cada vez que digo isto, ela lança-se a mim com fogo nos olhos:

— Uma velha camponesa? Uma velha camponesa? Ela havia


de saber mais que os teus médicos estrangeiros! Cristãos!

E talvez eu já a tenha persuadido, porque ela passou a estar em silêncio. Passou a maior parte do dia sentada na cadeira, com as mãos unidas sobre o ventre. Não consigo deixar de pensar naquelas mãos, tão pequenas, tão brancas. Durante todo o dia não fui capaz de desviar os olhos delas. Devem ter-lhe pousado de forma inconsciente na barriga, porque ela nunca a afagaria de propósito... tem a certeza de que fazer isso tornaria a criança mimada e exigente, as mesmas palavras que a minha mãe empregava em relação a mim:

— Francamente, devo ter acariciado a barriga demasiadas vezes para agora ter uma criança tão orgulhosa e obstinada.

Quando considero a possibilidade de a nossa criança ser obstinada, ou arrogante, ou egoísta, ou possuidora de outra característica indesejável, apetece-me chorar. Orgulhosa e inflexível ou mimada e exigente — todas estas coisas dependem de uma coisa: de antes de mais haver vida na nossa criança. Tudo depende de a Shujin sobreviver ao inevitável ataque a Nanquim.


15

X. alvez o pior que nos possa acontecer seja perder uma pessoa e não saber onde a procurar. Os Japoneses acreditam que na noite da festa do O-Bon os mortos regressam para junto das pessoas amadas. Saem do éter, sugados do seu sono eterno pelo chamamento de todos os descendentes vivos. Sempre imaginei a noite do O-Bon terrivelmente caótica, com espíritos a pairar no ar, a derrubar pessoas por irem demasiado depressa. Agora que me encontrava no Japão, perguntava a mim mesma o que acontecia àqueles que não sabiam onde jaziam os seus mortos. O que acontecia se eles tinham morrido num outro país? Será que os espíritos conseguiam atravessar continentes? Se não conseguiam, como conseguiriam regressar para junto das famílias?

Era em espíritos que eu estava a pensar naquela noite, sentada na penumbra com os meus intermináveis cigarros, tentando decidir de que forma poderia convencer Shi Chongming a falar comigo, quando Junzo Fuyuki e os seus homens apareceram no clube pela segunda vez.

Strawberry fez-me sinal para que me juntasse a eles. Estavam sentados em volta da habitual mesa comprida — todos com excepção da enfermeira, que já desaparecera na alcova escura, a luz deformando a sombra dela na parede, semelhante a um cavalo de um tabuleiro de xadrez; tão alta que quase parecia não se erguer do chão, mas sim estar suspensa do tecto pelos ombros. Fuyuki aparentava estar bem-disposto, e havia um novo conviva sentado ao meu lado, um homem enorme num fato prateado, com o rosto congestionado e o cabelo tão curto que as pregas de gordura no crânio eram visíveis. Já estava bêbedo — a dizer piadas,
a fazer bater a cadeira no chão de cada vez que chegava à parte mais engraçada de uma anedota, arqueando as sobrancelhas comicamente e murmurando qualquer coisa que fazia os homens rebolarem-se de riso. Falava com sotaque de Osaka, tal como eu pensava que a Yakuza falava, mas não pertencia ao grupo. Era amigo de Fuyuki e as japonesas disseram-me que ele era famoso — riam-se para ele, cobrindo a boca com as mãos, e suspirando.

— Chamo-me Baisho — disse ele às russas num inglês afec


tado, acenando-lhes com os dedos gordos cobertos de anéis. —
Os meus amigos chamar Bai, porque tenho dobro dinheiro e
sou dobro... — fez subir e descer as sobrancelhas sugestivamente
— ... dobro homem!

Eu estava sentada em silêncio, a pintar mentalmente o kanji para Bai. Bai-san atribuía-lhe um duplo significado, mas tinha outros; podia significar ameixa se escrito com uma árvore combinada com o símbolo para todas, ou marisco, ou cultivo. Mas no que Bai-san me fez pensar foi naquilo a que o seu nome soava em inglês: bisonte.

— Meu trabalho cantor. Eu cantor japonês número um. —
Com um gesto da mão, indicou as pessoas que estavam a ouvi-lo. — E meu novo amigo — continuou, apontando com o cha
ruto para o espectro preto na cadeira de rodas —, Mister Fuyu
ki. Ele homem número um em Tóquio! — Fechou a mão num
punho e apertou-o, fazendo flectir os músculos. — Mais velho
de Tóquio, mas saudável e forte como se tem trinta anos. Forte,
muito forte. — Virou-se meio trôpego para ele e disse em japo
nês, muito alto, como se o velho fosse surdo: — Fuyuki-san, o
senhor é muito forte. O senhor é o maior, o homem mais velho
que conheço.

Fuyuki assentiu.

— Pois sou. Pois sou — murmurou ele. — Sou mais forte
hoje do que quando tinha vinte anos.

Bisonte ergueu o copo.

— Ao homem mais forte de Tóquio.

— Ao homem mais forte de Tóquio! — ecoaram todos.


As vezes é um erro exibirmo-nos — nunca se sabe ao certo

quando as coisas vão mudar, e fazemos figura de parvos. Menos


de meia hora depois de se ter vangloriado da sua saúde, Fuyuki começou a ficar adoentado. Ninguém chamou a atenção para isso, mas eu percebi — ele respirava a custo, murmurou qualquer coisa e agarrou no braço do homem do rabo-de-cavalo, que se inclinou para a frente e escutou atentamente, os olhos inexpressivos. Pouco depois assentiu, levantou-se, alisando a camisola, e arrumou a cadeira. Atravessou discretamente o clube até à alcova, hesitou e a seguir entrou.

Um dos outros homens estava sentado perto de Fuyuki, ob-servando-o discretamente, mas de resto pareciam todos esforçar--se por fingir que nada acontecera, como se fosse uma falta de respeito chamar a atenção para o desconforto do velho. Fui a única a seguir o homem do rabo-de-cavalo com o olhar. Vi-o sentado onde Jason estivera, a sombra a ocultar-lhe o rosto enquanto falava com a enfermeira. Houve uma ligeira pausa, em seguida a enfermeira meteu a mão dentro do casaco e tirou de lá uma bolsa, de onde retirou um frasquinho. Com os seus longos dedos brancos, segurou-o delicadamente de lado, verteu qualquer coisa para um copo, encheu-o com água de um jarro e en-tregou-o ao homem, que o cobriu com um guardanapo branco e regressou em silêncio à mesa, entregando-o a Fuyuki. O velho bebeu um gole trémulo, depois outro. Reparei que ficava no copo um resíduo semelhante a noz-moscada. Na alcova, a enfermeira meteu a bolsa no casaco, enfiando-a bem dentro de um bolso. Alisou a cabeleira com as suas mãos enormes.

Ao meu lado, Bisonte emitiu um ruído fascinado com a garganta, inclinando-se para a frente com um cotovelo assente na mesa, o charuto nos dedos cheio de cinza. Observou, fascinado, Fuyuki beber o resto do líquido, pousar o copo na mesa e recostarse na cadeira de rodas, as mãos nos braços desta, a cabeça inclinada para trás, respirando ruidosamente pelo minúsculo nariz.

Bisonte começou a rir. Abanou a cabeça e riu-se até o seu corpo estremecer e o rosto ficar vermelho. Inclinou-se na minha direcção e dirigiu-se a Fuyuki numa voz arrastada.

— Ei, onii-san — disse, indicando a bebida com o charuto. — Não tem um remédio desses para mim? Uma coisa que me faça ficar muito direito, como quando eu tinha vinte anos? — Fuyuki não respondeu. Continuava a respirar com esforço. —
Sabe a que me refiro, bode velho. Uma cura que me mantenha tão forte como quando tinha vinte anos. — A mesa, algumas conversas foram interrompidas, e as pessoas viraram-se para olhar. Bisonte fez estalar os lábios e fez um gesto com a mão. — Uma coisa que mantenha as senhoras felizes? Ei? — Deu-me uma cotovelada. — Gostava disso, não gostava? Não gostava? Gostava de um homem de vinte anos, que pudesse levantar-se. — Pôs-se de pé, cambaleando contra a mesa e fazendo cair um prato ao chão. — É isso que quero. Quero levantar-me como Mister Fuyuki! Como o meu onii-san, quero viver para sempre! O vizinho tocou-lhe na manga; um dos outros homens encostou um dedo aos lábios.

— Quero levantar-me bem hirto como dantes — cantarolou


Bisonte, na sua voz de cançonetista romântico, com as mãos no
peito. — Tão hirto como aos dezoito. Oh, diga-me, kami sarna,
isso é pedir de mais?

Ao ver que ninguém se ria, ele estacou, as palavras morrendo-lhe na boca. Toda a gente se calara, e o homem do rabo-de-cavalo, com um gesto quase imperceptível, sem sequer levantar os olhos, apertava discretamente os lábios com o polegar e o indicador. O sorriso de Bisonte desapareceu. Abriu as mãos, como quem perguntasse O quê? O que foi que eu disse? Mas o homem do rabo-de-cavalo já retirara os dedos dos lábios e fingia estar a observar as unhas, como se nada tivesse acontecido. Mais alguém tossiu, um ruído de embaraço. Depois, quase como se tivesse havido um sinal, todas as conversas recomeçaram. Bisonte olhou em volta.

— O que foi? — perguntou ele. — O que foi?

Mas ninguém lhe ligou. Todos se viraram na direcção oposta, encontrando coisas mais interessantes para onde olhar, coisas mais importantes sobre que falar, fazendo rodar os copos, pigarreando, acendendo charutos.

Após uma longa e intrigada hesitação, ele sentou-se muito, muito devagar. Pegou numa toalha quente, encostou-a ao rosto, e respirou fundo.

— Meu Deus — murmurou, baixando a toalha e olhando


com uma expressão ansiosa para a sombra da enfermeira na parede. — Não pode ser verdade...
— O que dizer ele? — murmurou a Irina, inclinando-se para mim. — O que dizer ele?

— Não sei — respondi, sem olhar para ela. — Não percebi.


Durante algum tempo, as conversas prosseguiram num tom

alto, ligeiramente forçado. Fuyuki recuperou gradualmente. Acabou por limpar a boca e embrulhar o copo com o guardanapo. Guardou-o no bolso e ficou a olhar para o tecto durante algum tempo. Os homens continuaram a falar, as raparigas encheram--lhes os copos e ninguém se referiu ao incidente. Só Bisonte não se juntou à conversa — mantinha um silêncio atordoado, às vezes olhando carrancudo para o volume do copo no casaco de Fuyuki, outras vezes olhando para a sombra ameaçadora da enfermeira. Tinha o rosto húmido, os olhos lacrimejantes, e durante o resto da noite a sua maçã-de-adão andou para cima e para baixo, como se ele estivesse prestes a vomitar.


16

j Nanquim, 9 de Dezembro de 1937 (sétimo dia do décimo primeiro mês, pelo calendário da Shujin)

xnstalou-se o pânico na cidade. Na semana passada as forças japonesas tomaram Suchou, a Veneza da China, e começaram a avançar para norte do lago Tai Wu. Devem ter viajado rapidamente, descrevendo um arco ao longo do Iansequião e vindo do Norte, porque há quatro dias Zhanjiang caiu. O general Tang prometeu fazer todos os possíveis para nos defender, mas nada nele inspira confiança aos cidadãos, e agora todos os que se podem dar a esse luxo estão a fugir. «Vai ser novamente como a invasão de Taiping, murmuram. Os camiões estão cheios até acima, os pobres e os desesperados penduram-se dos lados, os veículos balouçam carregados e desaparecem ao longe. Rezo para que as manchas que vemos de vez em quando cair dos camiões à medida que vão desaparecendo em direcção ao ferry em Xiaguan, os objectos escuros que se soltam e caem em câmara lenta contra o pano de fundo enevoado, rezo para que sejam haveres; cestos ou galinhas que se tenham desprendido. Rezo para que não sejam os filhos dos pobres.

Hoje a Cruz Vermelha emitiu um aviso. Definiram uma zona de refugiados centrada na universidade, não muito longe da nossa casa, a sul da linha do comboio, e estão a incitar todos os não combatentes a juntar-se ali por uma questão de segurança. A maior parte das salas de aula e dos gabinetes foi convertida em dormitórios. Perguntei a mim mesmo se teria encontrado uma solução para as minhas ansiedades: numa zona segura não se falaria em sair de Nanquim, em não confiar no Kuomintang. E, contudo, ali eu conseguiria proteger a Shujin.


Com isto em mente dirigi-me furtivamente até essa zona, onde vi uma enorme multidão de pessoas aglomerada à entrada com os seus parcos haveres, as sirenas dos ataques aéreos soando no céu. Alguns dos refugiados traziam animais com eles, galinhas, patos, até um búfalo, e vi uma família discutir com os oficiais sobre se poderiam entrar com um porco. Por fim, foram convencidos a abandonar o animal e este desapareceu, desorientado, na multidão. Detive-me algum tempo a observar o porco, até que outro refugiado mais atrás o viu, o reclamou e o conduziu lentamente pelo meio das pessoas até ao portão, onde a discussão com o oficial recomeçou.

Fiquei durante bastante tempo a olhar para aquele aglomerado de pobres e itinerantes, alguns a tossir, outros descontraida-mente acocorados na valeta a defecar, como ainda devia ser hábito em algumas comunidades rurais. Por fim, virei-me, subindo a gola, e regressei a casa de cabeça baixa. Não posso levar a Shujin para ali. Seria o mesmo que arrastá-la para a outra margem do Iansequião de regresso a Poyang.

Somos das últimas pessoas que restam na viela — só estamos nós e alguns trabalhadores da fábrica de brocados na Estrada de Guofu. Vivem no dormitório à entrada da viela e são muito pobres — duvido que tenham família ou um local para onde fugir. Às vezes, em segredo, vou até à rua e fico a olhar para a nossa viela, tentando vê-la através dos olhos do exército invasor. Estou convencido de que iremos ficar em segurança — a viela não dá para lado nenhum e poucas pessoas necessitam de passar pela nossa casa. Com os estores fechados, até parece que não vive ninguém cá em casa. No pequeno pátio da frente, onde a Shujin seca legumes em frigideiras, empilhei vários jin de lenha, frascos selados de óleo de amendoim, várias sacas de sorgo e reservas de carne seca. Até há um cestinho de caranguejos secos, um luxo! Faço votos para que esteja adequadamente preparado. Até tenho vários recipientes antiquados de água guardados porque a reserva da cidade é incerta e o nosso velho poço não pode ser usado.

Enquanto estou aqui sentado a escrever à janela, as gelosias abrem-se, dou por mim a olhar para a rua lá em baixo, e o que vejo? Uma mulher a empurrar um carrinho de mão na direcção do portão de Shangyuan. Vai carregado de colchões e móveis e

Tóquio

sacas de soja. Em cima do monte vai amarrado um cadáver, nu. O marido dela, talvez, ou um familiar que ainda está à espera do dinheiro para o funeral. Que visão! Estaremos loucos? Estaremos tão desejosos de abandonar a nossa cidade que nem sequer enterramos aqui os mortos?



Nanquim, 10 de Dezembro de 1937

Junto ao meu cotovelo estão duas pequenas cartas. Certificados de refugiados. Um para a Shujin, outro para mim. Se os Japoneses entrarem na cidade, usá-los-emos presos à roupa. Fui buscá-los esta manhã à Sociedade da Suástica Vermelha. Quando o Sol apareceu, ia eu a caminho de casa, tirei o boné. Um dos professores dissera-me para fazer isso. Decidira não ficar em Nanquim: vai dirigir-se ao rio, esperando conseguir atravessá-lo algures mais acima, e rumar a Chongqing. Quando nos despedimos, ele fitou-me intensamente.Se hoje estiveres lá fora ao sol, tira o boné — disse. — Bronzeia a testa. Ouvi dizer que eles arrancam os bonés aos civis, e se eles tiverem a testa branca, consideram-nos militares.Mas nós somos civis — protestei.

Sim — disse ele, olhando para mim com uma espécie de piedade. — Sim.Somos civis — repeti, e ele afastou-se. Tive de levantar a voz. — E se a coisa chegar a esse ponto, os Japoneses reconhecerão que somos civis e deixar-nos-ão em paz.

Fiquei ali mais um pouco, com o coração a bater irritado, enquanto o professor desaparecia no corredor. Só muito depois é que voltei à rua. Caminhei um pouco, e em seguida olhei por cima do ombro. Do complexo universitário já não me conseguiam ver, por isso tirei rapidamente o boné, enfiei-o no bolso e fiz o resto do caminho até casa com a cabeça para trás, o rosto virado para o Sol, e as palavras que a minha mãe disse no leito de morte a ecoarem-me na cabeça: «Vira o rosto para o Sol, meu rapaz. Lembra-te de que a vida é curta. Vira o teu rosto para o Sol sempre que puderes.


À noite nevou. Durante toda a noite ouvi o silêncio abafado, a Shujin calada ao meu lado. Ela já tem de se deitar de lado porque está a ficar enorme, e sinto os pés dela, as pontas dos dedos frias quando tocam em mim de vez em quando. Ela anda tão calada ultimamente que quase parece transparente, como se um dia pudesse dissolver-se e deixar um bebé no seu lugar. Tão contida. Talvez pense que estes são os dias cruciais, a altura em que o nosso bebé está exposto às forças humanas primordiais — amor, verdade, compaixão e justiça — e talvez ela precise de ficar calada e de se concentrar para que estes elementos venham na sua forma mais pura. Já quase nunca fala em partir.

— Chongming, o que está a acontecer? O que está a acontecer a leste? — pergunta-me ela de vez em quando.

E nunca tenho palavras para ela, apenas mentiras.

— Nada. Nada. Está tudo como devia estar. O general Tang


controla as coisas.

Quando afastámos as cortinas da cama esta manhã, os vidros das janelas estavam cheios de condensação, e lá fora a neve tinha uma grande altura. Normalmente ao meio-dia já estava reduzida a lama pelas carroças, mas naquele dia Nanquim estava estranhamente silenciosa. Apenas os veículos do exército se deslocavam na rua e quando fui a um mercado perto das ruínas do Palácio Ming, para comprar trancas para as portas e pregos para barricar a casa, fiquei admirado ao ver que apenas uma mão-cheia de comerciantes montara as bancas, com os flocos de neve sibilando nos seus queimadores de carvão. Comprei cadeados a um vendedor que me cobrou dez vezes mais que o normal. Quase de certeza que são roubados, mas ele não parecia ter dificuldade em vendê-los.

— Senhor Shi!

Virei-me e fiquei admirado ao ver um professor de Literatura da Universidade de Xangai, o Liu Runde. Só o tinha visto uma vez antes e não percebi logo por que motivo ele se encontraria num mercado de Nanquim.

Uni as mãos enluvadas formando uma espécie de taça, ele-vei-as acima do rosto e fiz uma vénia.

— Que estranho vê-lo aqui em Nanquim — disse eu, bai


xando as mãos.

Que estranho vê-lo, Senhor Shi. — Usava a tradicional túnica, as mãos unidas em redor de um braseiro dentro das enormes mangas, e, incongruentemente, um chapéu ocidental com uma faixa cinzenta larga. Tirou o braseiro de dentro das pregas da túnica, baixando-se para o pousar no chão, de forma a poder retribuir a vénia. — Que estranho ver alguém. Pensei que toda a gente da Universidade de Jinling tinha fugido da cidade.Oh, não. Não, não. Eu não. — Apertei o casaco junto ao pescoço e tentei parecer descontraído, como se ficar ali tivesse sido sempre a minha intenção. — A minha mulher está à espera de bebé, sabe. Precisa de ficar perto dos hospitais, do centro de saúde da cidade. E um belo instituto, tem algumas das tecnologias mais recentes. — Bati com os pés no chão algumas vezes, como se não estivesse nervoso e quisesse apenas manter afastado o frio. Ao ver que ele não dizia mais nada, olhei para a rua deserta e a seguir aproximei-me dele. — Porquê? — murmurei. — Acha que é insensato?Insensato? — Ele olhou para a rua, por cima do meu ombro, para os telhados galvanizados, para leste, com uma expressão pensativa. Pouco depois, a sua expressão suavizou-se, e as suas faces adquiriram alguma cor. Olhou para mim com um sorriso.

Não, não é nada insensato. Antes pelo contrário. Pestanejei, sentindo-me mais animado.Pelo contrário?

Sim. Oh, não duvidemos que há muitos que não têm a menor fé no nosso presidente... às vezes, parece que toda a China perdeu a confiança nele e está a fugir para o interior. E eu? Eu tomei uma decisão. Fugi de Xangai, admito isso, mas os meus dias de fuga acabaram.Há quem diga que o Tang é fraco, pouco empenhado. O que acha disto? Há quem diga que os Japoneses vão passar por cima dele. Há quem diga que eles entrarão na cidade e nos matarão nas nossas casas.Ora! Há quem tenha medo da mudança, se quer saber a minha opinião. São precisos homens como nós, como eu e o senhor, Mestre Shi, para se manterem firmes. Para esquecerem a nação cobarde e atrasada que deixámos atrás de nós; para


mostrarem fé na nossa cidade, no general que o nosso presidente escolheu. Senão, o que somos? Um bando de cobardes de rosto pálido, mais nada. Para além disso, as forças nacionalistas têm muitos truques na manga. Basta olhar para além, para lá dos muros orientais. Consegue ver o fumo?Sim.Estão a arder prédios no exterior das muralhas orientais. Incendiados pelos nossos homens. Aos que dizem que Chiang Kai-Chek não tem uma política militar, tomem lá disto: terra queimada. A política da terra queimada. Que os Japoneses não encontrem nada, nada com que subsistam enquanto marcham. Isso acabará corri eles em menos de nada.

O alívio que senti foi indescritível. De repente, após todo este tempo, senti-me vingado, certo de que não estou sozinho. Ali parado, tive de repente a sensação de que estava com um velho amigo muito querido. Falámos e falámos, a neve a tombar-nos nos ombros, e quando, a meio da conversa, descobrimos que ele e a família estão a viver, por coincidência, a menos de meia de mim e da Shujin, decidimos continuar a conversa em casa dele. Caminhámos de braço dado até chegar a uma casa térrea de estuque com um tecto de colmo, sem pátio e sem electricidade, na qual viviam o velho Liu, a sua mulher e o filho adolescente, uma coisinha escura que parecia ter sido esfregada com terra.

O Liu trouxe muitas coisas de Xangai, luxos estrangeiros: latas de leite condensado e cigarros franceses, que fumámos enquanto conversávamos, como dois intelectuais parisienses da moda. Parece que no começo deste Verão o Liu trancou a sua casa perto do Bund de Xangai e mandou a mulher e o filho à frente aqui para Nanquim, enquanto ele ficava na universidade, a dormir nas salas de aulas e tentando manter o emprego o máximo de tempo possível. Quando por fim a cidade foi dominada ele conseguiu não ser preso escondendo-se num barril, na cozinha da universidade, e chegara a Nanquim juntamente com uma multidão de camponeses, à frente do exército japonês, por todo o lado chatas e sampanas cheias de fugitivos acocorados sob os juncos.

— Quando cheguei a Suchou, vi logo os soldados japoneses.


Vi-os saltar sobre os canais. A saltarem sobre a água como demónios,
de arisakas às costas. São tão ágeis que nada os pode deter. Os riben guizi.

Ao ouvir aquilo, senti-me pouco à vontade. Ali, na privacidade do seu lar, o Liu Runde parecia menos corajoso e zeloso do que parecera na rua — de vez em quando, esfregava o nariz ou olhava com nervosismo na direcção das janelas. Ocorreu-me que, apesar de toda aquela conversa, ele podia estar tão ansioso como eu.Sabia — disse ele, arqueando as sobrancelhas e inclinan-do-se para mim com um sorriso — que vi Xangai, toda a cidade de Xangai, a flutuar sobre as planícies?Xangai? Como é isso possível?

Sim. Pensa que estou louco. Ou a sonhar. Mas é a verdade. Parei numa escarpa e vi Xangai a flutuar terra adentro.

Franzi o sobrolho.

— Não compreendo.
Ele riu-se.Sim! Esse olhar! Foi exactamente o mesmo olhar que eu tinha ao ver aquilo. Levei algum tempo a acreditar que não estava a enlouquecer. Sabe o que estava realmente a ver?

Não.Estava a ver o pânico dos residentes de Xangai. Desmantelaram edifícios inteiros. Fábricas completas. Imagina? Deslocaram-nos para o interior em juncos ou barcos a vapor, para sudoeste até Chongqing. Vi turbinas a flutuarem pelo Iansequiao, uma fábrica inteira, uma fábrica têxtil... — Ergueu a mão e imitou o movimento ondulante de um barco no horizonte. — Xangai inteira a subir o rio até Chongqing.

Sorriu-me, incitando-me a comentar, mas fiquei calado. Havia ali algo de errado. Um pouco antes, a mulher do Liu pusera na mesa uma tarte de castanha ralada. Decorara-a com o carácter que significa boa sorte a gema de ovo, e o meu olhar foi atraído naquele momento para o carácter familiar. Olhei para o corredor, para onde ela se retirara, e voltei a olhar para a tarte. Tinha achado o comportamento dela demasiado reservado, e de repente percebi tudo.

Claro. Claro. Percebi tudo. Olhei para o velho Liu, com o seu rosto atormentado e o seu cabelo grisalho, e compreendi. Ele


travava com a mulher a mesma batalha que eu travava com a Shujin. Não há dúvida de que ele teme os Japoneses, mas teme ainda mais anos de superstição e crenças retrógradas. Estamos na mesma cama, eu e o Liu, e, ao contrário do velho ditado, temos exactamente o mesmo sonho.

— Velho Liu. — Inclinei-me um pouco para a frente e falei


num murmúrio. — Perdoe-me. — Engoli em seco e bati com
os dedos na mesa. Era difícil dizer aquilo. — Perdoe-me se não
o percebi. Creio que ainda há pouco disse que não havia nada a
temer dos Japoneses.

Ao ouvir isto, o rosto do Liu transformou-se. Corou intensamente e esfregou várias vezes o nariz, como se tentasse não espirrar. Endireitou-se na cadeira e olhou na direcção do local onde a mulher se encontrava.

— Sim, sim — disse, em tom de bravata. — Sim, foi exacta
mente isso que eu disse. — Ergueu um dedo reprovador. — De
vemos fazer os possíveis por nos lembrarmos disto: os que duvidam do Kuomintang irão sempre olhar para nós, à procura da fé
nos nossos olhares. Mantenha a fé, Mestre Shi, mantenha a fé.
Estamos a fazer o que deve ser feito.

Enquanto me dirigia para casa na neve, tentei caminhar de cabeça levantada. Mantenha a fé. Estamos a fazer o que deve ser feito. Mas começava a recordar-me de outra coisa a respeito da nossa reunião que me deixava pouco à vontade. Quando conversámos no mercado, reparei que as mulheres de Nanquim andavam a esconder-se. Observei-as enquanto conversava, vendo-as por cima do ombro do professor, e já quase me esquecera disso. Elas tinham ido ao mercado como de costume, mas tapavam as cabeças com os xailes e tinham enegrecido os rostos com carvão. Caminhavam quase dobradas ao meio, como velhas, embora eu soubesse que muitas delas eram novas.

Senti-me subitamente zangado. Sabia aquilo que temiam às mãos dos Japoneses. Sabia que estavam a esconder-se, voltando--se para dentro como animais em hibernação, desaparecendo dentro delas próprias. Mas terá isso de acontecer? Terá a cor do nosso país de mudar? Nós, os Chineses, um povo inteiro, uma nação cobarde e retrógrada, estamos a desaparecer na nossa paisagem.

A fugir e a escondermo-nos. Disfarçando-nos como os camaleões contra uma rocha no deserto de Góbi. Preferimos morrer e mergulhar na nossa terra a erguermo-nos e olhar os Japoneses nos olhos.


17

J ason disse que a casa pertencera à mãe do senhorio, que ela ficara muito doente, talvez louca, e que os pisos térreos se tinham degradado tanto que acabaram por tornar-se inabitáveis. Nuvens de mosquitos esvoaçavam constantemente junto às janelas entaipadas e Svetlana disse que lá em baixo havia fantasmas. Contou-nos que os Japoneses acreditavam numa criatura estranha: um duende alado, um homem da montanha com penas — chamavam-lhe Tengu —, um raptor de seres humanos, que podia esvoaçar com tanta facilidade como uma traça. Svetlana jurou que ouvira um restolhar no jardim e que vira qualquer coisa pesada a avançar por entre os diospireiros.

— Chiu — dizia ela, interrompendo-se dramaticamente a meio de uma história, levando um dedo aos lábios. — Ouviram aquilo? Lá em baixo?

Jason ria-se dela, e Irina olhava-a com ar condescendente. Eu ficava calada. Não ia pronunciar-me sobre o assunto dos fantasmas. Adorava a casa e as suas singularidades — habituei--me depressa às paredes com o papel a cair, aos quartos fechados bolorentos, aos muitos aquecedores eléctricos kotatsu nas arrecadações, mas havia certas alturas no meu quarto, tão próximo da ala barricada, em que me sentia como a última linha da defesa. Defesa contra uma coisa que eu desconhecia. As ratazanas? O vazio? Não sabia ao certo. Já vivia sozinha há tanto tempo que devia ter-me habituado a que grandes espaços vazios se encostassem à minha cama à noite, mas houve alturas em Takadanobaba em que eu acordava à noite, hirta de medo, con-
vencida de que alguém acabara de passar junto à porta do meu quarto.Há ali alguma coisa à espera — disse Shi Chongming quando viu a casa pela primeira vez. Telefonou no dia a seguir aos tipos da Yakuza terem voltado ao clube. Queria ver-me. Foi disso que gostei — da escolha de palavras dele: ele queria ver-me. Apressei-me, agitada, indo comprar chá e bolos e dando uma limpeza ao quarto, enquanto ele atravessava Tóquio rumo a Ta-kadanobaba. Agora estava parado no corredor, naquele seu jeito hirto com as mãos pendentes junto ao corpo, os olhos fixos num ponto distante na escuridão do corredor. — Alguma coisa está à espera de ser descoberta.E muito velha. — Eu estava a fazer chá na cozinha, chá verde, e comprara uns mochi de castanha, uns bolinhos de massa de feijão embrulhados em papel semiopaco. Esperava que ele não se apercebesse do meu nervosismo. — Quem me dera tê-la visto quando foi construída. Resistiu ao terramoto Kanto, até resistiu ao bombardeamento. Aconteceu muita coisa aqui. Muita coisa.

Dispus os mochi pálidos num pequeno tabuleiro lacado, entreabrindo ligeiramente o papel de cada um, de modo a que se assemelhasse a pétalas que deixam entrever gordos estames secretos. Nunca preparara comida japonesa, e nada me levava a pensar que Shi Chongming pudesse ligar a isso, mas queria fazer tudo bem, não um chiqueiro, e passei bastante tempo a escolher o local onde pousar o bule no tabuleiro. Dizem os Japoneses que um homem come primeiro com os olhos. Todos os objectos têm de ser olhados com atenção, o seu impacte nos objectos vizinhos considerado ao pormenor. Ao lado do bule, coloquei as pequenas chávenas japonesas — mais tigelas de barro do que chávenas —, peguei no tabuleiro, virei-me para o corredor e vi que Shi Chongming se aproximara do estore e erguera as mãos, como se sentisse o calor do Sol a passar por ele. Tinha uma expressão concentrada.

— Senhor Shi?

Ele virou-se para mim. Parecia subitamente pálido nas sombras do corredor.

— O que está do lado de fora?
— O jardim. Abra-as.

Ele hesitou um momento, depois subiu o estore e olhou através dos vidros sujos. O jardim estava completamente imóvel à luz do Sol, nada se movia naquele calor latejante. As árvores e as trepadeiras pareciam empoeiradas e quase irreais. Shi Chong-ming ficou ali durante bastante tempo, até eu ficar sem saber se ele estava ou não a respirar.

— Gostaria de ir até ao jardim, se puder ser. Levemos o chá
para o jardim.

Eu nunca estivera ali em baixo. Nem sequer sabia se havia algum acesso para lá. As russas tinham saído, por isso tive de acordar Jason para lhe perguntar. Ele apareceu à porta todo desalinhado e a bocejar enquanto vestia uma T-shirt, com um cigarro na boca. Olhou Shi Chongming de cima a baixo em silêncio, e encolheu os ombros.

— Sim, claro. Há um caminho. — Conduziu-nos a um sítio, apenas a dois quartos de distância do meu quarto, onde ha
via uma porta que dava para uma escada de madeira.

Fiquei abismada. Não me tinha apercebido de que havia escadas para baixo — imaginara que o rés-do-chão estava completamente selado. Mas ali, ao fundo das escadas escuras, havia um quarto, sem móveis, apenas com algumas folhas secas no chão. A nossa frente estava uma tela de papel shoji rasgada, com uma tonalidade verde devido à luz proveniente do jardim. Shi Chongming e eu ficámos a olhar para ela.

— Tenho a certeza de que não deve haver nada onde nos
possamos sentar — afirmei.

Shi Chongming encostou a mão à tela. Um som mecânico, um zumbido talvez proveniente de um pequeno gerador, se calhar um dos ares condicionados do Edifício Sal, ecoava ao longe. Ele deteve-se um momento, depois empurrou. A porta de tela estava perra: resistiu por pouco tempo, depois cedeu subitamente, deslizando para o lado, e a vegetação semelhante a uma selva encheu a abertura de verde. Ficámos em silêncio a olhar para ela. Uma glicínia, tão grossa e musculada como os punhos duros de um lutador, fora ignorada durante tanto tempo que já não dava flores, mas tornara-se uma jaula viva que se estendia a partir da porta. À volta dela enrolavam-se musgo e trepadeiras


trupicais, os mosquitos esvoaçavam nos espaços escuros, diospireiros e bordos lutavam por espaço, enfeitados com musgo e hera.

Shi Chongming avançou para a vegetação, andando rapidamente apoiado à bengala, com a luz verde e amarela incidindo na nuca da sua estranha cabeça. Segui-o, caminhando com cuidado, equilibrando o tabuleiro nas mãos. O ar parecia espesso devido ao calor, aos insectos e à seiva amarga das árvores. Um enorme besouro elevou-se junto aos meus pés, oscilou como um pássaro feito pelo homem, e voou na direcção da minha cara. Recuei um passo para o evitar, entornando um pouco de chá no tabuleiro lacado, e vi-o descrever uma espiral junto ao meu rosto, e subir, cristalino e mecânico, clac-clac-clac, até chegar aos ramos. Pousou lá em cima, tão grande como um rouxinol, esticando as suas asas castanhas brilhantes, e começou a emitir o zumbido mecânico que eu julgara pertencer ao gerador. Olhei para ele, fascinada. O semi-no-koe do poeta Basho, pensei. A voz da cigarra. O som mais antigo do Japão.

A minha frente, Shi Chongming fora dar a uma clareira. Segui-o, chegando à luz, encolhendo-me por causa das teias de aranha nos meus braços e semicerrando os olhos devido ao sol reflectido no Edifício Sal, recortado contra o céu azul. O jardim era maior do que eu imaginara: à minha esquerda havia uma zona pantanosa, um lago com lótus, cheio de folhas podres, nuvens de mosquitos a pairar nas sombras de um bordo gigante.

Shi Chongming parara ao lado, nos despojos cheios de musgo de um jardim de pedras japonês. Estava a olhar para o jardim, a cabeça movendo-se de um lado para o outro, como se se esforçasse por vislumbrar qualquer coisa, como um homem que deixou fugir um cão para uma floresta e tenta avistá-lo de fora. Estava tão concentrado que me virei para olhar na mesma direcção. Atrás dos bambus, vi as malhas vermelho-ocre da grade das janelas do rés-do-chão, vi uma ponte a desmoronar-se sobre o lago de lótus, mas não vi o que chamara a atenção de Shi Chongming. Olhei de novo para os olhos dele, segui a sua trajectória e acabei por ver um banco de pedra e uma lanterna de pedra, esta junto ao lago de lótus.

— Senhor Shi?

Ele franziu o sobrolho e abanou a cabeça. Depois pareceu


recompor-se, reparando pela primeira vez que eu transportava um tabuleiro.

— Por favor. — Tirou-mo das mãos. — Por favor, sentemo-


-nos. Vamos beber.

Encontrei umas espreguiçadeiras cheias de míldio e sentámo--nos junto ao jardim de pedras, à sombra, fora do alcance dos raios de sol. Estava tanto calor que eu tinha de fazer tudo muito devagar — servir o chá, passar a Shi Chongming um mochi num tabuleiro lacado individual. Chongming pegou nele, inspeccio-nou-o, depois pegou no garfo e fez cuidadosamente um risco no meio do bolo, cortando-o de forma a ele se abrir em duas metades. Um mochi tem uma cor farinhenta e pálida até se abrir, e depois revela uma surpreendente pasta vermelho-escura, como carne crua junto a um pouco de pele em tons pastel. A expressão de Shi Chongming alterou-se um pouco quando viu aquilo: vi-o hesitar, depois levar educadamente um pedaço do bolo à boca. Mastigou-o a medo, engolindo a custo. Como se tivesse medo de comer, pensei.Diga-me — começou ele por fim, bebendo um gole de chá e limpando a boca com um lenço —, parece muito mais feliz do que quando a vi pela primeira vez. E é? É feliz aqui em Tóquio?Feliz? Não sei. Não pensei nisso.Tem um sítio onde viver. — Indicou a casa com uma mão, a galeria do primeiro andar onde algumas nuvens gordas estavam reflectidas nas janelas sujas. — Um local seguro para viver. E tem dinheiro suficiente.

Sim.

E gosta do seu trabalho? Olhei para o prato.Mais ou menos.Trabalha num clube? Disse-me que trabalhava à noite.Sou acompanhante. Não é muito excitante.



Tenho a certeza de que não é. Sei alguma coisa sobre esses clubes, não sou o velho ignorante que aparento ser. Onde trabalha? Há duas áreas principais: Roppongi e Akasaka.Yotsuya. — Indiquei com a mão a direcção aproximada. — O edifício grande eYotsuya. O preto.
— Ah, sim — disse ele, pensativo. — Sim, sei.

Algo na voz dele fez com que eu levantasse a cabeça. Ele não olhava para mim, os seus olhos leitosos fitavam um ponto no ar, como se ele estivesse a pensar numa coisa muito intrigante.

Engoli em seco.

— Professor Shi? Veio falar-me do filme?

Ele inclinou a cabeça, o olhar ainda distante. Não era um sim, e não era um não. Esperei que continuasse, mas ele não o fez, parecia ter-se esquecido da minha presença.Sabe... — disse ele de repente, numa voz calma. — Esconder o passado não é uma coisa rara.O quê?

Ele olhou-me com ar pensativo, como se meditasse não sobre Nanquim, mas sobre mim. Sustive o olhar dele, ficando cada vez mais corada.O quê?Não é uma coisa fora do comum. E um truque que se baseia no silêncio.Não sei do que é que está a falar.

Ele enfiou a mão no bolso e tirou de lá o que parecia ser uma pequena garça em origami do tamanho de uma caixa de fósforos, feita com papel washi vermelho. Tinha a cabeça inclinada para trás, as asas abertas dramaticamente.

— Olhe para isto... para este pássaro perfeito. — Pousou a


garça na minha mão. Olhei para ela. Era mais pesada do que
aparentava; parecia estar presa na base por uma complexa estrutura de elásticos. Olhei para ele com ar interrogador. Ele assentia
de olhos postos no pássaro. — Imagine que isto, este passarinho
calmo, é o passado. Imagine.

Olhei para a garça sem perceber. Depois vi qualquer coisa acontecer. O pássaro estava a tremer. Sentia o tremor no meu pulso, nos meus braços, na minha pele. As asas vermelhas tremiam. Abri a boca para falar, mas o pássaro pareceu explodir. Do seu centro saltou algo vermelho e assustador, como um caixa de surpresas: o rosto horrendo de um dragão chinês saltou na minha direcção, fazendo-me deixá-lo cair e levantar-me de um salto. A cadeira tombou, e fiquei de pé a tremer, as mãos afastadas do corpo, a olhar para onde o estranho dragão de papel, em


forma de acordeão, se retorcia no chão, os elásticos a desenrolarem-se.

Shi Chongming levantou-o com a bengala e meteu-o em seguida no bolso.

— Não se preocupe. Não sou mágico.

Olhei para ele, ruborizada, o coração a bater com força.

— E apenas um truque infantil. Não fique assim. Por favor,
sente-se.

Passado algum tempo, quando tive a certeza de que o dragão não ia saltar-lhe do bolso, levantei a cadeira e sentei-me, olhan-do-o desconfiada.Queria que compreendesse que quando fala do passado é como pôr uma bola de fósforo sob um céu nublado. O passado tem uma energia transformadora. A energia do vento ou do fogo. Precisamos de ter respeito por algo tão destrutivo. E você pede para caminhar direita a ele sem hesitar? É um terreno perigoso. Tem de ter a certeza de que quer ir em frente.Claro que tenho — respondi, observando-o com desconfiança. — Claro que quero.Havia um professor que queria fazer o melhor pela sua universidade na China. — Shi Chongming segurava a sua chávena muito direito, os pés juntos. Enquanto falava, não permitia que o seu olhar se cruzasse com o meu, mas dirigia as suas palavras ao ar. — Espero que compreenda o que quero dizer. Este professor ouviu dizer que havia uma empresa em Hong Kong, um fabricante de remédios chineses, que queria ligar-se a uma universidade para analisar de forma científica a medicina tradicional. Ele sabia que era muito importante a sua universidade conseguir essa parceria, mas também sabia que a sua equipa de investigadores teria de encontrar algo especial que interessasse a empresa. — Shi Chongming inclinou-se para a frente e baixou a voz. — Então um dia ele ouviu uns boatos, por portas e travessas, sobre a existência de um tónico que tinha efeitos extraordinários. Dizia-se, entre outras coisas, que curava a diabetes, a artrite e até a malária. — Arqueou as sobrancelhas. — Imagina o quão extraordinário seria se isso fosse verdade?

Não respondi. Ainda me sentia pouco à vontade, receosa de
Shi Chongming e do dragão de papel no seu bolso. Não sabia o que esperara daquela reunião — a sua aquiescência, talvez, ou simplesmente mais obstinação. Não esperara aquele olhar concentrado e determinado no seu rosto, enquanto falava.

— O professor sabia que, se a sua universidade conseguisse


descobrir os ingredientes deste tónico, talvez fossem capazes de
fazer a tal parceria com a empresa. Foi preciso muito trabalho
árduo e muitas perguntas feitas em segredo, mas por fim ele detectou alguém que, segundo constava, estava na posse do tónico.
Havia apenas um problema. Essa pessoa vivia no Japão.

Pousou a chávena e endireitou-se ainda mais na sua cadeira, pousando as mãos hirtas nas coxas, como se fosse uma criança num confessionário.Não fui completamente honesto com a Universidade To-dai. Lá julgam que estou interessado nas tradições chinesas que o exército japonês trouxe para casa. E, de um modo geral, isso é verdade. Mas há mais qualquer coisa. Obtive este trabalho na Todai com um objectivo: vir para o Japão e localizar os ingredientes.Quer dizer que mentiu. Mentiu-lhes para conseguir esta colocação.

Ele sorriu com secura.Se quiser colocar as coisas dessa forma. Sim, menti. A verdade é que estou em Tóquio para assegurar o futuro da minha universidade. Se conseguisse descobrir qual é a tal substância misteriosa, as coisas mudariam... não só para mim, mas para centenas de outras pessoas. — Esfregou os olhos, cansado. — Infelizmente, a minha chegada a Tóquio não foi o fim da caçada. Foi antes o começo. O homem com quem quero falar é bastante idoso, tem mais de oitenta anos, e é um dos mais poderosos do Japão. Está rodeado por pessoas que foram absolutamente proibidas de falar e a maior parte da informação que transpira são rumores e superstições. — Shi Chongming sorriu. — Para resumir, cheguei a um beco sem saída.Não sei porque está a contar-me isso. Não tem nada a ver comigo.

Ele assentiu, como se pela primeira vez eu estivesse certa.

— Só que, quando se sente bem, ele visita às vezes os clubes
de acompanhantes de Tóquio. Sim. E um dos locais onde às vezes é visto é no clube onde você trabalha. Talvez agora compreenda o meu raciocínio.

Hesitei com a chávena a caminho dos lábios. As coisas estavam a tornar-se mais claras. Shi Chongming estava a falar de Junzo Fuyuki.

— Sim? — perguntou ele com malícia, ao ver o meu ar de
surpresa. — O que foi? Perturbei-a?

— Sei a quem se refere. Acho que já o vi. O Junzo Fuyuki.


Os olhos de Shi Chongming brilharam, inteligentes e argutos.Já o viu — disse ele, inclinando-se um pouco para a frente. — Os meus instintos estavam certos.Ele está numa cadeira de rodas?Sim.Professor Shi. — Baixei a chávena devagar. — O Junzo Fuyuki é um gangster. Sabia isso?Claro. E o que tenho estado a dizer-lhe. Ele é o oyabun, o padrinho do gumi Fuyuki. — Pegou na chávena, bebeu delicadamente alguns goles e voltou a pousá-la na mesa. Pareceu crescer um pouco, adquirindo a sua anterior postura formal, quase de parada militar. — Agora vou perguntar-lhe uma coisa. Às vezes, o Fuyuki é simpático para com as acompanhantes do clube. Às vezes, recebe convidados no seu apartamento, onde, estou certo, guarda o ingrediente de que estivemos a falar. Também gosta de beber, e estou certo de que às vezes baixa a guarda. Acho que talvez falasse consigo. Acho que você conseguirá descobrir a verdadeira natureza do ingrediente.Eu já o vi. Quero dizer, já o vi tomar qualquer coisa. Algo... um... — Afastei o polegar e o indicador cerca de três centímetros, para indicar o tamanho do frasco da enfermeira. — Um fluido. Com um pó acastanhado.

Shi Chongming olhou para mim durante bastante tempo. Esfregou os lábios como se estivessem gretados.Acastanhado? — perguntou por fim, numa voz controlada.Não era o que esperava?Não, é sim — respondeu, tirando um lenço do bolso e


limpando a testa com ele. — É exactamente o que eu estava à espera. Um pó. Uma decocção. — Acabou de limpar a testa e voltou a guardar o lenço no bolso. — Muito bem — disse, e apercebi-me de que tinha de fazer um esforço para manter a voz firme. — Então é aqui que você pode ajudar-me. Preciso de saber o que é esse pó.

A princípio, não respondi. Inclinei-me para a frente, pousei a chávena no tabuleiro com cuidado, e voltei a endireitar-me, colocando as mãos entre os joelhos, curvada, a olhar para a chávena e a pensar no que ele dissera. Ao fim de algum tempo, pigarreei e olhei para ele.Está a dizer-me que se eu descobrir o que é aquele pó me deixa ver o filme?Não leve as coisas de ânimo leve. Não está a compreender o perigo da situação. Se alguém souber, ou desconfiar, que andei a fazer perguntas... — Levantou um dedo, com uma expressão muito intensa no rosto. — Ele nunca pode saber que andei a fazer perguntas. Você não pode abordá-lo directamente. Tem de trabalhar com a máxima discrição. Mesmo que demore semanas, meses.Não foi isso que lhe perguntei. Perguntei-lhe se me deixa ver o filme se eu conseguir descobrir a informação que pretende.Irá fazê-lo?Deixa-me ver o filme?

Ele não pestanejou. A sua expressão não se alterou. Fitou-me com uma expressão empedernida.Então? Deixa-me ver o f...Sim — interrompeu ele abruptamente. — Sim. Deixo. Hesitei, boquiaberta.Deixa?Sim.Então sempre existe. O filme existe. Não o inventei? Ele suspirou, baixou a cabeça e levou uma mão à têmpora.Existe — murmurou. — Você não o inventou. Baixei a cabeça nessa altura para ocultar um sorriso. Os

meus ombros estremeciam e tive de tapar o nariz com o indicador e o polegar e abanar a cabeça, sentindo o alívio subindo por mim como bolhas de riso.


— Agora, vai fazê-lo ou não? — perguntou. — Vai ajudar-
-me?

Por fim, quando deixei de sorrir, baixei a mão e olhei para ele.

Parecia-me mais pequeno, mais amarfanhado e frágil com o seu casaco puído sobre os ombros. As suas pupilas estavam muito reduzidas, e havia alguma transpiração na cana do nariz.

— Vai fazê-lo?

Que coisa espantosa. Fazer um acordo com um professor idoso, que podia, tanto quanto eu sabia, ser tão louco como todos diziam que eu era. Não é uma surpresa constante as coisas que as pessoas fazem para ter paz de espírito? Ficámos muito tempo a olhar um para o outro, o som dos insectos a ecoar na minha cabeça, enquanto, bem acima de nós, os aviões que rumavam a Narita deixavam rastos de vapor no céu azul. Por fim, assenti.

— Sim — respondi calmamente. — Sim, vou fazê-lo.

Havia um portão para a rua no rés-do-chão, formando um túnel sob o primeiro andar da casa. Foi uma surpresa descobrir, quando Shi Chongming se foi embora ao princípio da tarde, que a chave enferrujada na fechadura ainda funcionava e que o velho portão podia ainda, após algum esforço, abrir-se, permitin-do-Ihe sair directamente para a rua.

— Na China — disse-me ele já na rua com o chapéu posto


— não pensamos no futuro como vocês no Ocidente. Acreditamos que o nosso futuro... que o nosso futuro pode ser visto no
nosso passado. — Os olhos dele voltaram a pousar no jardim,
como se algo tivesse murmurado o seu nome. Levantou uma
mão, como se estivesse a sentir o ar, ou um hálito na palma.

Virei-me e olhei para a lanterna de pedra.

— O que é que vê, Shi Chongming? — perguntei. —
O que é que vê?

Quando me respondeu, parecia novamente calmo.

— Vejo... um jardim. Vejo um jardim. E vejo o futuro dele.
A espera de ser descoberto.

Depois de ele se ter ido embora, tranquei os portões e fiquei um momento à somb do túnel, onde o gesso começava a


esboroar-se a partir da parte de baixo do primeiro andar, revelando ripas cinzentas com teias de aranha. Olhei para o jardim. Imaginei a mãe e o pai do senhorio ali — os chinelos dela a bater nas pedras tobi-ishi, um guarda-sol escarlate, talvez um pente de osso branco em forma de borboleta, acidentalmente esquecido no chão, meio debaixo de uma folha, onde permaneceu escondido e, ao longo dos anos, se transformou lentamente em pedra. O xintoísmo atribui espíritos às árvores, plantas, aves e insectos, mas em Tóquio havia poucas zonas verdes e as únicas flores eram os fios com rebentos de cerejeira em plástico pendurados no exterior das lojas nas alturas dos festivais. Nunca se ouviam pássaros. Talvez, pensei, todos os espíritos da cidade se tenham ido ocultar em locais esquecidos como aquele.

Nesse momento, parada ali à sombra, sabendo que Shi Chongming tinha o filme que daria sentido àquilo que me acontecera, àquilo que eu julgava ter lido num livrinho cor de laranja havia tantos anos, soube que a resposta que pretendia se encontrava algures bastante perto — que dali a pouco eu estenderia o braço e descobriria, quando recolhesse a mão, que ela avançara para mim e estava firmemente alojada na minha palma.

18

Nanquim, 12 de Dezembro de 1937 (décimo dia do décimo primeiro mês), final da tarde

XLstou a escrever isto à luz de uma única vela. Não podemos arriscar-nos a usar candeeiros a petróleo ou lâmpadas. As nossas casas têm de parecer desabitadas.

Ontem, durante todo o dia, ouvimos explosões vindas da direcção do Terraço da Chuva de Flores. Disse à Shujin que deviam ser os nossos soldados a abrir trincheiras no exterior da muralha da cidade, ou a destruir as pontes sobre o canal, mas nas ruas ouvi pessoas murmurarem: São os Japoneses. Os Japoneses. Então, ao início desta tarde, depois de um longo período de silêncio, ouvimos uma explosão enorme que fez estremecer a cidade; eu e a Shujin parámos o que estávamos a fazer e virámo--nos um para o outro com uma palidez mortal nos rostos.

— O portão! — gritou um rapaz na rua. — O portão de Zhonghua! Os Japoneses!

Fui à janela e vi-o ali parado, de braços abertos, à espera que os estores se abrissem, que algumas vozes lhe respondessem, como seria normal. Habitualmente as nossas vidas são passadas nâs ruas, mas nesta ocasião a única coisa que se ouvia ali no bairro era o barricar furtivo das portas e das janelas. O rapaz não demorou muito a reparar no silêncio. Baixou os braços e afastou--se.

Virei-me. A Shujin estava sentada como uma coluna de pedra, as mãos no regaço, o seu rosto comprido imóvel como mármore. Envergava um qipao comprido de trazer por casa e calças da cor do bronze que conferiam à sua pele uma aparência lívida. Observei-a durante algum tempo, de costas para os estores


abertos, a rua fria em silêncio atrás de mim. A luz na cidade, nestes tempos, é bastante estranha, muito branca e límpida: fluiu para a sala, iluminando a pele dela com grande pormenor — como se eu estivesse sentado muito próximo dela. Fitei-a. O seu rosto, pescoço e mãos estavam eriçados como pele de galinha e as suas pálpebras pareciam quase translúcidas, como se eu conseguisse ver os seus temores secretos movendo-se debaixo deles.

Nesse momento, enquanto olhava para ela, algo básico pareceu crescer dentro de mim, algo que sabia a açafrão e ao fumo espesso das panelas em Poyang, algo que me fez engasgar e lacrimejar. Mudei o peso do corpo de um pé para outro, vacilando ante a escolha de palavras: «Shujin, estou errado, tu estás certa. Não sou capaz de te dizer quanto medo tenho. Vamos sair da cidade. Depressa, vai fazer um pouco de guoba, vamos fazer as malas, vamos embora. Estaremos no porto de Meitan à meia-noite. Ou então, algo mais digno: Shujin, houve uma pequena alteração de planos...Shujin — comecei. — Shujin, talvez... devêssemos...Sim? — perguntou ela, arqueando as sobrancelhas. — Talvez devêssemos...?

Eu estava prestes a responder quando se ouviu um grito atrás de mim e algo entrou disparado pela janela, batendo na minha nuca e atirando-me ao chão. De imediato, a sala encheu-se com um ruído terrível. Gritei ali estendido no chão, as mãos sobre a cabeça. No meio da confusão partiu-se uma tigela, a água espalhou-se pela mesa e a Shujin levantou-se de um pulo, derrubando a cadeira com o pânico. Junto ao tecto, uma coisa grande e escura batia furiosamente de parede em parede. Com cautela, as mãos protegendo-me o rosto, olhei para cima.

Era uma ave, uma ave enorme e desajeitada, esvoaçando desesperadamente, embatendo nas paredes e no chão. Havia penas espalhadas por todo o lado. A Shujin estava de pé, a olhar embasbacada para a ave enquanto esta piava e batia com as asas, fazendo tombar alguns objectos. Por fim, cansou-se. Caiu no chão, onde deu uns saltinhos desanimados durante algum tempo, batendo nas paredes.

A Shujin e eu avançámos um passo e eu observei a ave com descrença. Era um faisão dourado. A ave que alguns dizem
representar a China. Inacreditável. Até hoje eu só vira um faisão dourado em quadros, não teria ficado mais admirado se o próprio feng huang me tivesse entrado pela janela. As suas penas cor de laranja eram tão brilhantes como se um fogo tivesse sido aceso no centro da nossa casa. De cada vez que eu dava um passo, ela pulava para longe, tentando fugir, chocando com os móveis. Eu não percebia porque é que ela entrara por ali adentro. Só quando a ave deu um salto desesperado no ar e passou bem perto de mim, é que vi os olhos dela e compreendi.Afasta-te — disse para a Shujin, tirando o meu changpao brocado da cadeira, abrindo-o e lançando-o como se fosse uma rede para cima da ave. Esta entrou em pânico, pulando, batendo as asas e elevando uma pata no ar, e por momentos o tecido pareceu mover-se sozinho pela sala — um espírito de patchwork colorido a deslizar no chão. Em seguida acocorei-me ao lado dele, encurralando rapidamente a ave com as duas mãos. Endirei-tei-me, descobri a ave com cuidado, expondo a sua cabecinha, os seus olhos cegos, e em seguida as suas asas para que a Shujin pudesse ver.É cega — murmurei.Cega?Sim. Talvez as explosões em Zhonghua...Não! — A Shujin cobriu o rosto com as mãos. — Não, é o pior dos azares, o pior! Um faisão dourado! A ave da China. Cega às mãos dos Japoneses! — Cravou os dedos no escalpe como uma louca, olhando freneticamente em volta como se procurasse uma forma miraculosa de escapar. — É verdade... agora vai mesmo acontecer. A terra, o nosso solo. Os Japoneses vão fazer mal à terra... vão destruir as linhas do dragão no chão e...Agora, chiu. Não existe qualquer linha do dragão...Vão destruir as linhas do dragão e na China haverá apenas sede e fome. Todos os faisões ficarão cegos, não apenas este. Todos eles. E todos os seres humanos também. Seremos mortos nas nossas camas e...Shujin, por favor. Por favor, mantém-te calma. É apenas uma ave.Não! Não é apenas uma ave... é um faisão dourado! Vamos todos morrer! — Movia-se pela sala em círculos, errática e
febril, levantando e baixando as mãos, desesperada. — O presidente, o teu querido presidente, o teu juiz supremo, fugiu como um cão acossado até Chongqing, e em Nanquim ficaram apenas os pobres e os doentes e...Basta!Oh! — fez ela, baixando as mãos e olhando para mim com uma enorme angústia. — Oh, verás! Verás! Eu tenho razão. — E com isso saiu da sala a correr, os pés martelando nas escadas.

Fiquei parado muito tempo a olhar para o sítio por onde ela desaparecera, admirado por tudo ter mudado tão depressa. Estivera disposto a ceder à Shujin, preparado para fugir da cidade. Mas os receios dela fizeram-me assumir a defesa de uma posição sobre a qual não tenho certezas.

Podia ter ficado ali para sempre, a olhar para as escadas vazias, se o faisão não tivesse começado a lutar. Peguei nas patas dele com uma mão e sacudi-o no ar, com aquele movimento rápido e enrolado que a minha mãe me ensinara quando eu era criança, sacudindo-o junto a mim como se estivesse a sacudir água de um pano, uma vez, duas vezes, até o pescoço da ave estar partido e eu ter na mão apenas um aglomerado inerte de penas. Fechei as janelas e levei a ave morta, as asas elevando-se de-bilmente num espasmo de morte, para a cozinha.

Raramente vou à cozinha da Shujin, mas naquele momento era o único sítio onde me apetecia estar. Reconfortava-me. Quando eu era rapaz, sentava-me no chão da cozinha e via a minha mãe a mergulhar frangos em água fervente para amolecer as penas. Enchi um tacho com água, acendi o lume e esperei que as bolhas se elevassem até à superfície. Movendo-me como que hipnotizado, escaldei a ave, segurando-a pelas patas, depois sen-tei-me à mesa, a depená-la, a esfregar as penas do peito, deixando que a minha mente vagueasse até à imagem familiar da cozinha da minha mãe. Lembro-me do rosto dela na época antes de o negócio do meu pai ter começado a prosperar e de termos podido comprar um amah, quando ela passava os dias inteiros na cozinha, a conservar pacientemente em sal patos cozinhados, embrulhando-os num pano para os resguardar, enrolando os intestinos das aves num espeto para secarem na despensa.


chiangKaiChek, pensei abatido, quer que a China olhe em frente. Mas será assim tão fácil para uma nação arrancar a história do seu coração?

Acabei de depenar a ave e pus-lhe a cabeça debaixo da asa, amarrando-a com o fio como vira a minha mãe fazer, como as chinesas faziam há gerações. Depois meti-a no tacho e sentei-me, com as brilhantes penas molhadas coladas aos meus braços, para ver a espuma ensanguentada elevar-se até à superfície.



Nanquim, 13 de Dezembro, da parte da tarde

Na noite passada pus tábuas em todas as janelas e portas, fixando-as com pregos. (A Shujin não me ajudou porque as suas superstições diziam-lhe que pregar um prego causava uma deformidade na criança.) Durante toda a noite ouvimos barulhos estranhos vindos de leste, e antes de nos deitarmos encostei uma barra de ferro à parede contra os espíritos. Quem sabe se não terei de a utilizar caso seja preciso? Esta manhã fomos acordados por um ribombar distante, semelhante a um trovão, e há meia hora a Shujin encheu um tacho para cozer massa para o almoço. Quando quis enxaguar os dedos, a torneira estremeceu e deitou apenas um fio de um líquido acastanhado. O que significa isto? Significa que os Japoneses...

Está a acontecer enquanto escrevo! A lâmpada que pendia do tecto acabou de se apagar. Agora estamos... estamos na semiescuridão e mal consigo ver as palavras no papel. Lá fora na rua, o barulho das máquinas a desligarem-se é terrível. A cidade está a apagar-se à nossa volta. A Shujin vasculha a cozinha, tentando encontrar os nossos candeeiros a petróleo, e ao fim da viela ouvi alguém gritar histericamente.

Não posso estar aqui sentado mais tempo. Não posso estar aqui sentado à escuta. Vou investigar.




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