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19

quando cheguei lá acima, a casa pareceu-me muito escura e fresca depois do jardim quente. Tomei banho na velha casa de banho cheia de eco, com o seu bolor verde entre os azulejos e os canos à mostra. Lavei-me com cuidado, olhando pensativa para o meu reflexo, para a forma como a água corrente ampliava a minha pele branca, os cabelos prateados e os poros. Shi Chong-ming queria que eu fizesse Fuyuki falar. O que ele queria dizer, sem dúvida, era que eu tinha de namoriscar com ele. Que eu tinha de ser sensual.

No hospital nunca se haviam cansado de me admoestar por causa do meu comportamento sexual, por isso eu decidira bastante cedo que não seria boa ideia contar-lhes o que sentira em relação aos rapazes da carrinha. Calculava que me respondessem: Ah! Estás a ver? Uma resposta muito adequada! Por isso não admiti a verdade: que depois de os rapazes terem feito o que tinham a fazer, de nos termos vestido todos e percorrermos a A303 na direcção inversa à que nos tinha trazido ali, eu me sentia mais feliz do que alguma vez sentira. Não lhes contei como tudo parecera luminoso, com as estrelas a brilharem e o risco branco na estrada a desaparecer sob a carrinha. Os quatro lá atrás estavam sempre a gritar ao condutor para não passar as lombas tão depressa, e eu ia sentada à frente a cantarolar e a ouvir uma cassete de uma banda chamada xtc pelas colunas estragadas da carrinha. Sentia-me leve por dentro, como se algo escuro e secreto tivesse sido expulso de dentro de mim pelos rapazes.

Chegámos ao sítio na estrada rural onde eles me tinham


apanhado e o condutor abrandou e encostou à berma. Com o motor ainda a trabalhar, ele inclinou-se sobre mim e abriu a porta. Olhei para ele, sem perceber.Bem, vemo-nos então por aí — disse ele.O quê?Vemo-nos por aí.É para eu sair agora?Sim.

Fiquei em silêncio durante algum tempo, a olhar para o lado da cara dele. Tinha algumas borbulhas no pescoço, logo acima do colarinho.

— Não vou ao pub convosco? Disseste que iam ao pub. Eu
nunca estive dentro de um.

Ele tirou o cigarro da boca e atirou-o pela janela. Havia uma fina linha azul-turquesa ainda no horizonte, sobre o ombro esquerdo do rapaz, e as nuvens deslizavam por ele como se estivessem em ebulição.

— Não sejas estúpida — respondeu ele. — És demasiado
nova para entrar num pub. Fazias com que nos expulsassem.

Virei-me e olhei para a parte de trás da carrinha. Quatro cabeças viraram-se noutra direcção que não a minha, fingindo olhar pelas janelas. O rapaz de cabelo cor de areia estava mesmo lá atrás, e olhava-me com uma expressão séria, como se me tivesse apanhado a roubar. Olhei para o condutor, mas ele fitava intensamente um ponto no exterior da janela, tamborilando com os dedos no volante. Abri a boca para falar, depois mudei de ideias. Pus os pés de fora da carrinha e deixei-me cair para o chão.

O condutor inclinou-se e puxou a porta com estrondo. Encostei as mãos à janela e comecei a falar, mas ele já destravara. As mudanças arranharam na caixa, o pisca acendeu-se e a carrinha arrancou. Fiquei à beira da estrada, a ver as luzes diminuírem e acabarem por desaparecer ao longe. No céu, as nuvens rolavam e rolavam até obscurecerem por completo a Lua, e a pequena parte de Inglaterra em que me encontrava ficou às escuras.

E assim tive de concordar com os médicos — o resultado imediato do sexo não fora o que eu esperara. E da forma como o


meu corpo estava agora, provavelmente nunca iria ter oportunidade de descobrir se as coisas poderiam ser diferentes no futuro. Não ousei dizer isso aos médicos, não ousei dizer o quanto desejava ter um namorado, alguém com quem fosse para a cama: sabia que, se contasse alguma coisa, eles diriam que os meus impulsos escandalosos eram a raiz de um mal maior, que eu tinha um lobo dentro de mim. Ouvi as lições sobre dignidade pessoal e sobre o respeito por nós próprios, todas as coisas complexas sobre consentimento e autodomínio, e não levei muito tempo a decidir que o sexo era perigoso e imprevisível, tal como a garça mágica do passado de Shi Chongming, fosforosa num dia nublado. Cheguei à conclusão de que estaria melhor se fingisse não existir.

No fim, foi a rapariga na cama ao lado da minha, a que me ensinou a fumar, que me apresentou uma espécie de solução. Ela costumava masturbar-se todas as noites. Chamava-Ihe «uma esfrega.

— Eu vou ficar aqui para sempre. Não me importo. Desde que tenha os meus cigarros e uma boa esfrega fico bem.

Fazia-o debaixo dos cobertores depois de as luzes se apagarem. Não sentia vergonha. Eu estava na cama ao lado, com os cobertores puxados até ao queixo, a olhar de olhos arregalados para os cobertores que subiam e desciam. Ela fazia tudo parecer tão alegre, como se não houvesse o mínimo mal.

Quando saí do hospital e deixei de ser vigiada todo o tempo, comecei as minhas experiências cheia de sentimentos de culpa. Em breve aprendi a fazer-me vir, e, embora nunca me tenha acocorado sobre um espelho (a outra tinha-me jurado que havia pessoas que o faziam), estava certa de que nenhuma outra rapariga à face da terra conhecia o tracto escuro entre as suas pernas como eu conhecia o meu. Às vezes perguntava a mim mesma onde estaria o lobo. Receava um dia levar a mão lá abaixo e sentir o seu nariz húmido com as pontas dos dedos.

Ali na casa de banho em Takadanobaba, enxaguei a flanela e olhei pensativa para o meu reflexo, um espectro de membros delgados sentado no banquinho de borracha. A rapariga que podia ir para o túmulo havendo apenas tido como amores da sua vida os cinco rapazes na parte de trás de uma Ford Transit.


enchi a tigela de plástico, misturando a água quente e a água fria, e verti-a sobre o meu corpo, deixando a água fazer remoinho na depressão da minha clavícula, deslizar pelas cicatrizes do meu estômago. Pousei a tigela e, devagar, com uma expressão sonhadora, pousei as mãos no ventre, unindo os polegares e abrindo os outros dedos, olhado vagamente para a forma como a água se acumulava nas depressões, prateada, reflectindo a luz como mercúrio.

Ninguém, a não ser os médicos e um homem da polícia que as fora fotografar, vira as minhas cicatrizes. Nos meus sonhos acordada eu imaginava que deveria existir alguém que compreendesse — alguém que olharia para elas sem se encolher, que ouviria a história e, em vez de esconder a cara e desviar o olhar, diria algo doce, triste e compreensivo. Mas claro que eu sabia que isso nunca iria acontecer, porque nunca chegara tão longe. Nunca. Se imaginava despir a roupa, se me imaginava a contar a verdade a alguém, ficava com uma sensação estranha no ouvido interior que me fazia fraquejar os joelhos e puxar freneticamente a roupa que tivesse vestida, encostando-a à barriga como se pudesse esconder o que lá estava.

Imagino que temos de ser adultos em relação a algumas coisas. Às vezes, temos de respirar fundo e dizer: «Não posso esperar ter isto na minha vida. E se o dissermos vezes suficientes, ficamos surpreendidos — passado algum tempo aquilo deixa de parecer horrível.

Enquanto estava na casa de banho a pensar em Fuyuki, as russas tinham-se vestido e dirigiam-se naquele momento para o jardim. Deviam ter-me visto lá fora e decidido que se eu pudera aventurar-me, elas também poderiam. Svetlana envergava apenas um reduzido biquini verde-lima e um chapéu de palha que fixava à cabeça com a mão livre. Depois de me ter secado e vestido, parei na galeria do primeiro andar a observá-la a abrir caminho por entre a vegetação, os membros bronzeados aparecendo por entre as folhas. Irina apareceu atrás, vestida com a parte de cima de um biquini, calções cor-de-rosa, óculos em forma de coração e um boné de basebol rosa-choque, com a pala para trás para fazer sombra ao pescoço. Meteu um maço de tabaco debaixo da


alça do biquini. Foram avançando pelo meio da vegetação, dando gritinhos e levantando bem os pés calçados com saltos altos como aves estranhas a balançarem-se, enfrentando a luz do Sol a pestanejar.

— Sol! Sol! — exclamaram em coro, ajustando os óculos escuros e olhando para o céu.

Encostei o nariz à janela e vi-as esfregarem-se com bronzea-dor, abrirem embalagens de pastilha elástica e beberem cerveja por latas geladas que tinham comprado nas máquinas da rua. Svetlana tinha um berrante verniz vermelho nas unhas dos pés. Olhei para os meus pés brancos, perguntando a mim mesma se teria coragem de pintar as unhas. De repente, senti uma espécie de afrontamento, muito quente, que me fez estremecer e esfregar os braços — algo sobre o tempo desperdiçado e como elas tinham sorte por se sentirem bem nas suas peles. Por se mexerem e deitarem e estarem à vontade ao sol, sem que ninguém as acusasse de serem loucas.

E foi nesse preciso momento que me decidi. Desde que estivesse vestida, desde que a minha barriga estivesse tapada, não havia marcas físicas que dessem a entender fosse o que fosse. Se não se soubesse, e ali em Tóquio ninguém sabia, as pessoas olhavam para mim e diziam que eu era normal. Conseguiria ser tão sensual como outra rapariga qualquer.


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não conseguia deixar de pensar em Fuyuki. De cada vez que a campainha tocava e as acompanhantes se viravam para a porta e gritavam em uníssono Irasshaimase! Bem-vindos!, eu sentava-me à beira da cadeira, o pulso acelerado, pensando que estaria prestes a ver a cadeira dele a rolar pelo chão. Mas nessa noite ele não foi ao clube, nem na seguinte.

Durante os dias que se seguiram, eu pegava várias vezes ao dia no cartão dele e ficava a fitá-lo. Às vezes entrava numa espécie de transe enquanto o tinha na mão, virando-o vezes sem conta nos meus dedos. O nome dele significava Arvore de Inverno e algo na combinação da caligrafia com a natureza dos caracteres era tão poderoso que me bastava olhar de relance para o preto sobre o branco para visualizar, com uma clareza assombrosa, uma floresta coberta de neve. Voltava a desenhar o kanji com os meus pincéis de caligrafia, imaginando a encosta de uma montanha, um pinhal, neve acumulada e pingentes de gelo nas árvores.

Agora que sabia o que levaria Shi Chongming a ceder e a entregar-me o filme, agora que eu ia dar o salto, tornara-me uma atenta estudante do erotismo. Comecei a observar as japonesas na rua com os seus saiotes vitorianos e sapatilhas de renda, as suas meias descaídas e saias axadrezadas curtas. No Japão tradicional, o erotismo era algo esguio e pálido como o caule de uma flor — o erótico era o pequeno bocado de carne desnuda na parte de trás do pescoço de uma gueixa. E uma coisa que vai variando em todo o mundo. Observei durante horas as russas, com os seus enormes saltos altos e bronzeados cor de laranja.
Tinha de parte vários pacotes com dinheiro dos meus ordenados, guardados numa mala dentro do roupeiro, sem servirem para nada a não ser para me deixarem nervosa. Por fim, reuni coragem e comecei a fazer compras. Fui a locais espantosos em Ginza e Omotesando, a grutas atulhadas de chinelas de lantejoulas, negligês cor-de-rosa, chapéus enfeitados com penas de mara-bu e veludo rosa. Havia sapatos cor de cereja com salto de plataforma, e malas azul-turquesa cobertas com centenas de Elvis Presleys autocolantes. As vendedoras com os seus totós e saias de bailarina não faziam ideia de como deviam lidar comigo. Roíam as unhas e observavam-me com as cabeças ligeiramente inclinadas enquanto eu percorria os corredores estupefacta, aprendendo de que forma as pessoas se punham sensuais.

Comecei a comprar coisas — vestidos de tafetá e de veludo, pequenas saias de seda. E sapatos, muitos sapatos: de saltos largos, finos, rasos, sandálias de tiras pretas. Num local chamado Sweet Girls Emporium and Relax Centre, comprei uma caixa de meias de seda com uma faixa de silicone que se prendia à coxa. Nunca tinha usado meias de seda na minha vida. Arrastei para casa pilhas de sacos, carregada como uma formiga.

Mas, é claro, não tive coragem de usar nada daquilo. Continuou tudo guardado no roupeiro, dia após dia, todos os vestidos envoltos em papel de seda vermelho. Mas pensava neles, pensava bastante neles. Certas noites efectuava uma pequena cerimónia que mantive no maior segredo. Quando os outros estavam na cama, abria o roupeiro e tirava de lá todas as coisas que comprara. Enchia um copo com licor de ameixa gelado e arrastava o pequeno toucador para debaixo da luz, de forma a iluminar bem o espelho. Depois ia até ao roupeiro e tirava um vestido do cabide.

Era horrível e excitante. De cada vez que me via ao espelho, estendia automaticamente a mão para o fecho de correr, pronta a despi-lo, e pensava em Fuyuki sentado na cadeira de rodas a dizer: As raparigas são todas assim tão bonitas em Inglaterra? Depois parava, respirava fundo, voltava a subir lentamente o fecho e obrigava-me a olhar, a estudar a parte de cima dos meus seios, muito branca, as minhas pernas dentro das meias de seda


escuras, como água manchada de tinta. Calçava sapatos muito altos e pintava os lábios de vermelho-forte, puro como o sangue do coração. Pintava as sobrancelhas com lápis e depois treinava o acender e o fumar de cigarros. Tentei imaginar-me, sentada formalmente em casa de Fuyuki, inclinada para ele, o fumo do cigarro a sair-me pelos lábios pintados. Na minha mente, uma das minhas mãos encontrava-se pousada numa arca trancada, a outra esticada elegantemente, a palma para cima, para receber uma enorme chave que Fuyuki estava a entregar-me.

Passado um longo tempo, abria os olhos, ia até ao roupeiro e desembrulhava tudo do papel de seda, dispondo a roupa em seguida à minha volta. Lá estavam as sandálias com tiras de veludo, os negligês cor de tangerina e cremes, um sutiã escarlate em forma de borboleta, ainda dentro do celofane. Coisas, coisas e mais coisas, estendendo-se pelas sombras. Então deitava-me, estendendo os braços nus, e rolava, misturando-me com os meus pertences, cheirando a novo, deixando as coisas afagarem-me a pele. Às vezes, agrupava as coisas de acordo com regras diferentes: pelo material, por exemplo, malha pique preta sobre seda cor de pêssego, ou por cor, de açafrão a acobreado, prateado com azul-esverdeado, lilás e rosa-eléctrico e cinzento. Segurava-as junto do rosto e inspirava os seus perfumes caros. E, porque devo ser um pouco estranha, o ritual conduzia sempre à mesma coisa: as minhas mãos dentro das minhas cuecas.

A casa de Takadanobaba era grande, mas o som difundia-se como água pelas madeiras e pelas telas de papel de arroz muito fino. Eu tinha de estar em silêncio. Pensei que tinha tido cuidado até que uma noite, já muito tarde, depois de ter acabado, fiz deslizar a porta para a casa de banho e descobri Jason a poucos metros no corredor banhado pelo luar, debruçado à janela, com um cigarro entre os dedos.

Quando ouviu a porta abrir-se, olhou para mim. Não disse nada. Lançou um olhar preguiçoso aos meus pés descalços, depois à yukata curta, à pele afogueada do meu peito. Deixou que o fumo lhe saísse da boca e sorriu, arqueando uma sobrancelha, como se eu fosse uma grande e agradável surpresa.

— Olá — disse.
Não respondi. Fechei a porta com estrondo e tranquei-a, deslizando até ao chão com as costas apoiadas a ela. Vestir-me como uma pessoa sensual era uma coisa. Mas Jason... bem, Jason fazia-me pensar acerca do sexo coisas que eram muito, mas muito mais assustadoras.

T

21

Nanquim, 13 de Dezembro de 1937, ao cair da noite

eles estão aqui. Eles estão aqui. E real.

Saí de casa ao meio-dia, e as ruas pareceram-me silenciosas. Não vi vivalma, apenas casas fechadas, as lojas entaipadas — algumas com cartazes afixados às portas indicando o distrito rural onde os seus proprietários poderiam ser encontrados. Virei à direita para a Estrada de Zhongyang e segui-a até depois da linha do comboio, onde tomei um atalho por uma viela, a fim de ir ter à Estrada de Zhongshan. Ali vi três homens a correrem na minha direcção o mais depressa que podiam. Vinham vestidos de camponeses e estavam todos manchados de negro, como se devido a uma explosão. Quando olhei para longe, para lá das casas na zona do portão de Shuxi, uma nuvem de fumo erguia-se cinzenta no céu. Os homens continuaram a correr em silêncio na direcção de onde eu tinha vindo, ouvindo-se apenas o bater dos seus sapatos de palha no pavimento. Fiquei parado na rua, a olhar para eles, ouvindo a cidade à minha volta. Agora que não estava a andar, ouvia ao longe buzinas de carros, misturando-se horrivelmente com vagos gritos humanos. Senti um aperto no coração. Continuei para sul, esperando o pior enquanto avançava furtivamente pelas ruas, mantendo-me rente às casas, pronto a entrar numa a qualquer momento ou a prostrar-me e a gritar: Dongyang Xiansheng! Senhores do Oriente!

Nas ruas mais próximas do centro de refugiados, tinha havido coragem para abrir uma ou duas lojas, e os proprietários estavam parados à porta com ar ansioso, a olhar para a rua na direcção dos portões orientais.

Esgueirei-me por entre os edifícios, correndo agachado,


virando e voltando às vezes atrás pelas ruas familiares, o coração a bater muito depressa. Ouvia o murmúrio de uma multidão algures mais à frente, e por fim cheguei a uma rua lateral que conduzia à Estrada de Zhongshan e ali, no seu início, vi um enorme aglomerado de pessoas que se empurravam umas às outras, tentando avançar na direcção do portão de Yijiang — o grande portão da água que dá para o Iansequião —, ostentando expressões abatidas. Todos empurravam carrinhos de mão carregados de haveres. Um ou dois olharam para mim com curiosidade, por verem alguém que não fugia, outros ignoraram-me, baixando as cabeças e inclinando-se para a frente, para os carrinhos de mão. As crianças observaram-me em silêncio dos seus poleiros em cima dos carrinhos, protegidos contra o frio por casacos acolchoados, com as mãos enfiadas em luvas de lã. Um cão vadio corria entre eles, na esperança de roubar alguma comida.Eles já estão na cidade? — perguntei a uma mulher que se destacara da multidão e corria pela rua onde me encontrava. Estaquei à frente dela, fazendo-a parar, pousando as mãos nos seus ombros. — Os Japoneses já tomaram as muralhas?Corra! — Tinha uma expressão enlouquecida. O carvão com que pintara a cara estava esborratado devido às lágrimas. — Corra!

Libertou-se das minhas mãos e afastou-se a gritar qualquer coisa a plenos pulmões. Vi-a desaparecer, enquanto atrás de mim os gritos da multidão iam aumentando e o som de pés se espalhava pelas ruas à minha volta. Então, lentamente, muito lentamente, o ruído dos passos foi diminuindo. Avancei a medo e espreitei para a rua principal. À minha esquerda, a ocidente, vi o fim da multidão a arrastar-se para o rio, um ou dois vagabundos, os idosos e os doentes, a tentarem apanhar os outros. A estrada à minha esquerda encontrava-se vazia e o solo transformado em lama pelas centenas de pares de pés.

Avancei a medo e, com o coração na garganta, virei-me na direcção de onde tinham vindo. Caminhei quase sem fazer barulho. No exterior do arruinado Palácio Ming, onde na véspera eu conversara com o professor de História, alguns tanques nacionalistas progrediam, levantando nuvens de pó, os soldados gritavam-me e e faziam-me sinal para que saísse das ruas. Então, aos
poucos, o silêncio voltou a abater-se sobre a cidade e fiquei sozinho, a andar em silêncio pelo meio da Estrada de Zhongshan.

Por fim, parei. A minha volta nada se movia. Até as aves pareciam ter sido silenciadas nos seus poleiros. As árvores podadas de ambos os lados estendiam-se a perder de vista na estrada carbonizada, completamente imóvel e vazia; a cerca de oitocentos metros, o sol de Inverno incidia sobre os arcos triplos do portão de Zhongshan. Parei no meio da estrada, respirei fundo e abri devagar as mãos, levantando-as para o céu. O coração batia-me de forma tão ruidosa que parecia quase estar na minha cabeça e não no peito.

Estaria o solo debaixo de mim a tremer, como estaria durante um tremor de terra distante? Olhei para os meus pés e, ao fazê-lo, na direcção do portão ocorreu uma explosão que rasgou o silêncio, fazendo dobrar os plátanos como se soprasse um vento forte, as aves elevando-se no céu em pânico. As chamas atravessaram o ar e uma nuvem de fumo e de pó surgiu por cima do portão. Acocorei-me, com as mãos sobre a cabeça, ocorreu outra explosão. Depois ouviu-se um som semelhante a chuva distante que foi crescendo até se transformar num rugido, e subitamente o céu ficou escuro, pó e pedras caíram-me em cima e vi, vindos do horizonte pouco nítido, dez ou mais tanques, com as suas frentes ferozes a avançar pela Estrada de Zhongshan, e a terrível bandeira Hi No Maru a adejar atrás deles.

Levantei-me de um pulo e corri na direcção de casa, o som da minha respiração e dos meus passos abafado pelo ribombar dos tanques e pelo estrépito agudo dos apitos atrás de mim. Corri e corri, com os pulmões a doerem-me, subindo a Estrada de Zhongyang, virando para uma rua lateral, depois esgueiran-do-me pelas traseiras da casa de Liu e entrando na viela onde por fim a chuva constante de pó e de pedras abrandou. A casa estava em silêncio. Bati na porta até as trancas se abrirem e aparecer a Shujin, que me fitou como se estivesse a olhar para um fantasma.

— Eles estão aqui — disse ela quando viu a minha cara e reparou na minha falta de ar. — Não estão?

Não respondi. Entrei e fechei a porta com cuidado atrás de mim, correndo todas as trancas e ferrolhos. Então, depois de ter


recuperado o fôlego, subi as escadas e sentei-me na cama, arranjando espaço entre os livros de japonês, cobrindo os pés com uma manta.

E... o que posso eu escrever? Apenas que aconteceu. E que foi simples. Nesta tarde fria, que devia ter sido bela, eles tomaram Nanquim com tanta facilidade como uma criança estende a mão para cima e aperta uma libelinha. Tenho medo de olhar pela janela — a bandeira japonesa deve estar a cobrir toda a cidade.



Nanquim, 14 de Dezembro de 1937, de manhã (o décimo segundo dia do décimo primeiro mês, pelo calendário lunar)

Durante a noite nevou, e agora, para lá das muralhas da cidade, a montanha Púrpura, a grande Zijin, não está branca, mas vermelha devido ao fogo. As chamas tingem tudo à volta da cor do sangue, projectando um terrível halo no céu. A Shujin passa muito tempo a olhar para aquilo, parada junto à porta aberta, a sua silhueta recortada no céu, o ar frio a entrar até a casa ficar gelada e eu conseguir ver o vapor da minha respiração a sair da boca.

— Estás a ver? — pergunta ela, virando-se muito hirta para
mim. Tem o cabelo solto e caído sobre as costas da túnica, e os
seus olhos triunfantes têm um brilho vermelho. — Zijin está a
arder. Não é exactamente como eu disse?

— Shujin — respondo —, afasta-te da porta. Não é seguro.


Ela obedece, mas demora algum tempo. Fecha a porta e vem

sentar-se em silêncio num canto, segurando junto à barriga os dois rolos dos antepassados que trouxe de Poyang, com as faces vermelhas do frio.

Passei a maior parte da manhã sentado à mesa com um bule de chá, as trancas corridas na porta, o chá nas chávenas a arrefecer. Na noite passada conseguimos dormir descansados alguns minutos, ambos vestidos e ainda calçados, para o caso de termos de fugir. De vez em quando um de nós sentava-se e olhava para os estores corridos, mas nenhum falou muito, e agora, embora
seja dia claro lá fora, aqui as assoalhadas estão às escuras e em silêncio. De meia em meia hora ligamos o rádio. As notícias são confusas — uma mistura impossível de propaganda e de desinformação. Quem sabe o que é verdade? Podemos apenas tentar adivinhar o que está a acontecer. De vez em quando, reconheço o ribombar dos tanques na Estrada de Zhongshan, e ouço disparos ocasionais, mas tudo parece distante e intervalado por silêncios tão longos que às vezes o meu pensamento vagueia e esqueço por breves momentos que fomos invadidos.

Por volta das onze, ouvimos algo que pode ter sido um morteiro, e os nossos olhares cruzam-se fugazmente. Depois surgiram explosões distantes, uma-duas-três-quatro em sequência, e de novo silêncio. Dez minutos mais tarde, um troar ensurdecedor ecoou pela viela. Fui até às traseiras, espreitei por entre um estore e vi que uma cabra conseguira escapar à corda que a prendia e estava agora em pânico — correndo à toa pelos pátios, dando coices e patadas nas árvores e nas construções de zinco. Esmagou sob as patas as romãs podres do Verão até a neve parecer estar suja de sangue. Não apareceu ninguém para apanhar a cabra, os donos já deviam ter fugido da cidade, e foram precisos vinte minutos para ela descobrir a saída para a rua e o silêncio voltar a abater-se sobre a nossa viela.



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