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D epois daquela noite, Jason começou a vigiar-me. Ganhou o hábito de olhar directamente para mim quando nos dirigíamos para casa depois do clube, quando eu estava a cozinhar, ou quando estávamos todos sentados na sala a ver televisão. Às vezes eu virava-me para acender o cigarro de um cliente e deparava com Jason a alguns metros, a olhar para mim como se estivesse fascinado com tudo o que eu fazia. Era simultaneamente horrível, assustador e excitante — nunca ninguém olhara para mim assim e eu não imaginava o que faria se ele alguma vez se aproximasse. Arranjava sempre desculpas para me manter longe dele.

Chegou o Outono. O calor avinhado, o metal quente, o cheiro a fritos e a esgotos de Tóquio deu lugar a um Japão mais fresco e puro que há muito devia aguardar perto da superfície. Os céus ficaram sem a sua neblina, os bordos encheram a cidade de castanho-avermelhado, e o cheiro a fumo de madeira surgiu de nenhures, como se tivéssemos regressado ao Japão do pós--guerra e às fogueiras da velha Tóquio. Da galeria bastava-me estender a mão para apanhar dióspiros maduros directamente do ramo. Os mosquitos abandonaram o jardim e isso deixou Svetla-na triste — disse que, agora que eles se tinham ido embora, estávamos todos condenados.

Fuyuki continuou a não aparecer no clube. Shi Chongming manteve-se tão obstinado e calado como sempre, e às vezes eu sentia que a oportunidade de alguma vez chegar a ver o filme começava a escapar-me. Um dia, quando senti que não aguentava mais, apanhei o metro até Akasaka e numa cabina telefónica marquei o número que estava no cartão de Fuyuki. A enfermeira,
tenho a certeza de que era a enfermeira, atendeu com um Moshi moshi feminino e eu estaquei, o auscultador encostado ao ouvido, toda a minha coragem desaparecendo em segundos. Moshi moshi? repetiu ela, mas eu já mudara de ideias. Bati com o auscultador no descanso e afastei-me da cabina o mais depressa que consegui, sem olhar para trás. Talvez Shi Chongming estivesse certo quando dissera que eu nunca conseguiria fazer seda a partir de uma folha de amoreira.

Na Kinokuniya, a grande livraria em Shinjuku, eu comprava todas as publicações que conseguia arranjar sobre medicina alternativa. Também comprei alguns dicionários de chinês/japonês, e vários ensaios sobre a Yakuza. Durante os dias seguintes, enquanto esperava que Fuyuki regressasse ao clube, trancava-me no quarto durante horas a fio a ler coisas sobre a medicina chinesa até saber tudo sobre a moxibustão e a acupunctura com agulhas de pedra de Bian Que, sobre as primeiras operações de Hua Tuo e as suas experiências com anestésicos. Em breve compreendi os exercícios Qi Gong, «movimentos dos cinco animais, de trás para a frente, e conseguia recitar a taxonomia das ervas da Matéria Medica de Shen Nong. Li coisas sobre ossos de tigre e geleia de tartaruga e sobre as vesículas biliares dos ursos. Fui a lojas kampo e arranjei amostras grátis de óleo de enguia e bílis de urso-negro-do-tibete. Andava à procura de algo que pudesse reverter todos os princípios de regeneração e degeneração. De uma chave para a imortalidade. Era uma busca que decorria de uma forma ou de outra desde o princípio dos tempos. Até o humilde toju, diziam eles, fora criado por um imperador chinês na sua procura da vida sem fim.

Mas Shi Chongming falava de uma coisa que nunca ninguém havia encontrado. Algo rodeado de secretismo.

Um dia peguei nas minhas tintas e desenhei com cuidado nas muralhas da minha Tóquio do tempo da guerra a imagem de um homem entre prédios. O rosto dele ficou tristonho, como o de um actor kabuki, por isso acrescentei uma camisa havaiana e atrás dele um carro americano, o tipo de carro que um gangster conduziria. Espalhados junto aos seus pés, desenhei frascos de medicamentos, um alambique, uma fotografia da cena de um


crime. Algo que era tão precioso — ilegal? — que nunca ninguém se lhe referia.

— É lindo — disse Shi Chongming. — Não é?

Olhei pela janela para o complexo universitário, para as árvores que iam ficando douradas e vermelhas. O musgo no ginásio adquirira uma tonalidade verde-escura e avermelhada, como uma ameixa ainda não madura, e de vez em quando uma figura fantasmagórica com máscara e roupa de praticante de kendo passava pelas portas abertas. Os gritos do dojo ecoavam pelo complexo universitário, levando os corvos a voarem para as árvores em grandes nuvens. Era lindo. Não entendia por que motivo era incapaz de separar aquilo do seu contexto. Não conseguia deixar de pensar que tudo se encontrava encurralado pela cidade moderna, pelo Japão sedento de poder. Quando continuei a olhar pela janela, Shi Chongming riu-se.

— Então você também é uma das que não consegue perdoar.

Virei-me e fitei-o.Perdoar?O Japão. Por aquilo que ele fez.

Lembrei-me das palavras do historiador sino-americano que estudara na universidade: «Os Japoneses são de uma brutalidade para lá da imaginação. Elevaram a crueldade a uma forma de arte. Se fosse publicada uma desculpa oficial, isso seria o suficiente para perdoarmos?

— Porquê? — perguntei. — Está a dizer-me que conseguiu
perdoar?

Ele assentiu.

— Como é que conseguiu?

Shi Chongming fechou os olhos, com um pequeno sorriso no rosto. Ficou em silêncio durante bastante tempo, a pensar naquilo, e eu poderia pensar que ele tinha adormecido se as suas mãos não continuassem a mexer-se e a crispar-se, como aves moribundas.

— Como? — acabou ele por repetir, olhando para cima. —
Como, realmente... Parece uma coisa impossível, não é? Mas
dispus de muitos, muitos anos para pensar no assunto... anos em
que não pude sair do meu país, anos em que não pude sair da minha casa. Até sermos apedrejados na rua e exibidos na nossa própria cidade com propaganda ao pescoço... — afastou o polegar e o indicador sobre o peito e lembrei-me imediatamente das fotografias da Revolução Cultural, homens quase amontoados, rodeados pela Guarda Vermelha, com cartazes pendurados ao pescoço que diziam Renegado Intelectual e «Elemento Anti-partido — ... até termos experimentado isto não dispomos de ferramentas para compreender a natureza humana. Demorei muito tempo, mas consegui compreender uma coisa simples. Compreendi a ignorância. Quanto mais o estudava, mais se tornava claro que o comportamento deles se devia à ignorância. Oh, havia soldados em Nanquim, uma mão-cheia deles, que eram realmente cruéis. Não discuto isso. Mas os outros? O seu maior pecado foi a ignorância. Simplesmente isso. Ignorância. Eu julgava saber muito disso.

— O que fizeram no seu filme. E disso que está a falar? Isso


foi ignorância?

Shi Chongming não respondeu. A sua expressão ficou impávida e ele fingiu estar ocupado com alguns papéis. A menção do filme fizera-o retrair-se.

— Era disso que estava a falar? Professor Shi?

Ele afastou os papéis limpando a secretária, pronto a trabalhar.Venha — disse, chamando-me com um gesto. — Não falemos disso agora. Venha sentar-se e dizer-me por que motivo está aqui.Quero compreender o que estava a dizer. Que eles fizeram o que fizeram aos...Por favor! Por favor... hoje não veio até aqui para nada. Veio até mim com ideias... vejo-as no seu rosto. Sente-se.

Aproximei-me da secretária com relutância. Sentei-me diante dele, com as mãos no regaço.Então? — perguntou ele. — O que é? Suspirei.Tenho andado a ler livros sobre medicina chinesa.Muito bem.Havia um mito. Uma história sobre um deus, o agricultor
divino, que separou as plantas por ordens. Estou certa, não estou?Gosto, temperatura e qualidade. Sim. Está a referir-se a Shen Nong.Então o que tenho de fazer é decidir se a cura de Fuyuki se encaixa nessa ordem. Tenho de a meter numa categoria?

Shi Chongming não desviou o olhar do meu.

— O que foi? O que foi que eu disse?

Ele suspirou e reclinou-se com as mãos sobre a mesa, batendo ao de leve com os dedos no tampo.Chegou o momento de lhe falar um pouco mais a meu respeito.Sim?Não quero que perca tempo. Tem de saber que eu tenho uma ideia muito clara daquilo que procuramos.Então não precisa que eu...Ah! — exclamou ele com um sorriso. — Preciso, sim.Porquê?Porque não quero ouvir aquilo que quero ouvir. Não quero que um papagaio venha ter comigo, muito alegre e obsequioso, e me diga: «Sim senhor, sim senhor, o senhor teve sempre razão, oh grande sábio. Não. Eu quero a verdade. — Tirou uma pasta bastante usada da pilha de livros em cima da mesa. — Ando a trabalhar nisto há demasiado tempo para agora cometer um erro. Vou dizer-lhe tudo o que precisa de saber. Mas não vou dizer-lhe exactamente o que julgo procurarmos.

Da pasta, tirou várias folhas amareladas presas com uma fita preta velha. As folhas arrastaram com elas aparas de lápis, clipes, lenços de papel amarfanhados.Demorei muito tempo a encontrar Fuvuki, mais anos do que me apetece pensar. Descobri muitas, muitas coisas a seu respeito. Tome. — Empurrou um molho de papéis na minha direcção. Olhei para eles, uma grande pilha que ameaçava escorregar para o chão. Estavam escritas em chinês e em japonês, cartas oficiais, fotocópias de jornais; uma parecia ser um memorando de um departamento governamental. Reconheci o kanji da Agência de Defesa Nacional.Para o que estou a olhar?
— Para anos e anos de trabalho. A maior parte foi feita antes
de eu obter autorização para viajar até ao Japão. Cartas, artigos
de jornal e... talvez o mais arriscado... relatórios de investigadores especiais. Não espero que consiga compreendê-los, mas tem
de saber quão perigoso é o Fuyuki.

— Já me tinha dito isso.


Ele sorriu com ar pensativo.Sim. Entendo o seu cepticismo. Ele parece ser um homem muito velho. Talvez até amável. Benevolente?Não se pode dizer como é uma pessoa até falarmos um pouco com ela.Interessante, não é? O agiota sarakin mais poderoso de Tóquio, um dos maiores fabricantes e importadores ilegais de metanfetaminas... é interessante parecer tão inócuo. E, contudo, não se deixe enganar. — Shi Chongming inclinou-se para a frente, observando-me atentamente. — Ele é implacável. Não imagina quantos morreram por causa da determinação dele em estabelecer as rotas de anfetaminas entre Tóquio e vários portos pobres da Coreia. E talvez o mais intrigante seja o cuidado com que ele escolhe as pessoas que o rodeiam. Tem uma técnica única... está tudo nesses papéis, se soubermos procurar. É um manipulador bastante habilidoso! Lê os jornais à procura de detenções, selecciona cuidadosamente determinados criminosos e financia a sua defesa. Se eles conseguem escapar à condenação, prestam juramento eterno ao Fuyuki.Sabe alguma coisa sobre... — Inclinei-me para ele, baixando instintivamente a voz. — ... a enfermeira dele?

Shi Chongming assentiu muito sério.

— Sim, sei. É a sua enfermeira e a sua guarda-costas. A Oga-
wa. Aqueles que a temem fazem muito bem em ser cuidadosos.
— Baixou também a voz, como se pudéssemos ser ouvidos. —
Tem de perceber que o Fuyuki dá preferência aos sádicos. As
pessoas que não distinguem entre o bem e o mal. A enfermeira
trabalha para ele por causa da sua excelência criminal, da sua absoluta incapacidade de sentir algo pelas vítimas. — Apontou para a pilha de papéis. — Se perder algum tempo a analisar esses
papéis, verá que a imprensa popular se refere a ela como a Besta
de Saitama. Devido aos seus métodos, é uma lenda viva do Japão, alvo de inúmeras especulações.
— Os métodos?

Ele assentiu, e apertou ligeiramente o nariz, como se tentasse reprimir um espirro ou uma recordação.É claro que — disse ele, baixando a mão e expelindo o ar dos pulmões — a violência é uma parte necessária da vida da Ya-kuza. Talvez não seja de admirar, considerando a confusão sexual dela, talvez não seja de admirar a forma como ela parece impelida a... — o seu olhar fixou-se num ponto acima da minha cabeça — ... a embelezar os seus crimes.Embelezar?

Ele não respondeu.Nunca a vi, mas constou-me que é invulgarmente alta, não é? — perguntou, esticando os lábios.Algumas pessoas no clube pensam que ela é um homem.E no entanto é uma mulher, uma mulher com um... não sei qual a palavra em inglês... problema no esqueleto, talvez. Mas basta. Não vamos passar a manhã com especulações. — Olhou para mim atentamente. — Preciso de saber. Tem a certeza absoluta de que quer continuar?

Movi os ombros, com um ligeiro estremecimento a percorrer-me as costas.

— Bem — acabei por dizer, esfregando os braços —, bem,
por acaso, sim. É essa a questão, sabe? Isto é a coisa mais importante da minha vida. Há nove anos, oito meses e vinte e nove
dias que a persigo, e nunca pus sequer a hipótese de desistir. Às
vezes acho que aborrece as pessoas. — Pensei naquilo durante
um momento, e em seguida olhei para o professor. — Sim,
aborrece as pessoas.

Ele riu-se e reuniu os papéis. Enquanto voltava a guardá-los na pasta, reparou numa fotografia que estivera escondida no fundo da pilha.

— Ah! — exclamou, pegando nela. — Ah, sim, será que você está interessada nisto? — Fê-la deslizar sobre a mesa, com a
sua longa mão castanha a cobrir metade da imagem. Consegui
ver um carimbo oficial no canto superior direito, o kanji para
Departamento da Polícia, e, sob a mão dele, uma imagem a preto e branco cheia de grão. Vi o que julguei ser a fita amarela da
polícia, um carro com o porta-bagagens aberto. Havia qualquer
coisa lá dentro, algo que não consegui reconhecer, até Shi Chongming levantar a mão.Oh — murmurei, cobrindo instintivamente a boca com a mão. Parecia que o sangue me abandonara o rosto. A fotografia mostrava um braço... um braço humano com um relógio caro, pendendo sem vida do porta-bagagens. Eu já vira fotografias semelhantes de vítimas da Máfia na biblioteca da universidade, mas era do que estava sob o tubo de escape do carro que eu não conseguia desviar os olhos. Disposta de forma quase ritualista, enrolada como uma jibóia, estava uma pilha de... — O que são? — perguntei com voz fraca. — São o que penso que são? São humanos? São dele?Sim.Era a isto que se referia quando disse... embelezar?Sim. É um dos crimes da Ogawa. — Pousou calmamente o dedo na fotografia e puxou-a sobre a mesa. — Um dos crimes atribuídos à Besta de Saitama. Consta que, ao ver o corpo, a polícia não conseguiu perceber como é que os... os... os órgãos internos tinham sido removidos. Ainda continuam a espantar-me as formas engenhosas que os homens e as mulheres inventam para fazer mal. — Guardou a fotografia e começou a fechar a pasta com a velha fita preta. — Oh, e a propósito, o que lhe queria dizer é que se fosse a si não perdia muito tempo com as classificações de Shen Nong.

Pestanejei na direcção dele, perplexa.Desculpe?Disse que não perdesse muito tempo com as classificações de Shen Nong. Você não anda à procura de uma planta.



23

tinha deixado de dormir. A fotografia da pasta de Shi Chongming estava sempre a acordar-me, a infectar os meus pensamentos, obrigando-me a interrogar-me até onde estaria disposta a ir para lhe agradar. E quando não eram os «embelezamentos da enfermeira, era Jason que me fazia sofrer e me enchia a pele de electricidade estática ao roçar nos lençóis à noite. As vezes, quando ele aparecia onde eu menos esperava, no corredor à porta do meu quarto, ou no bar quando me levantava para ir buscar um copo lavado, e me observava em silêncio com os seus olhos calmos, dizia a mim própria que estava a provocar-me — a executar um elaborado pas de deux para seu gáudio, a dançar à minha volta nos recantos escuros da casa, um arlequim a deslizar pelo corredor durante a noite. Mas às vezes, especialmente quanto me observava enquanto seguíamos a pé para casa vindos do clube, eu tinha a sensação de que tentava olhar para dentro de mim — que tentava ver debaixo das minhas roupas. Depois tinha aquela sensação esquisita na barriga e era obrigada a fechar melhor o casaco, a subir a gola, a cruzar os braços e a andar mais depressa para que ele ficasse para trás, e só ter de me preocupar com os comentários mordazes das gémeas.

A casa parecia cada vez mais sozinha. Numa manhã, alguns dias depois da minha visita a Shi Chongming, acordei cedo e fiquei deitada no futon à escuta, apercebendo-me dos vários quartos que se estendiam em ambas as direcções, dos estalidos dos soalhos e dos cantos cheios de pó, repletos de segredos e talvez de mortes inesperadas. Quartos trancados dentro dos quais nunca entrara ninguém que estivesse agora vivo. Os outros continuavam
a dormir e, subitamente, não consegui suportar o silêncio. Levantei-me, comi um pouco de pato com café, em seguida pus um vestido de linho, peguei nos meus blocos, nos meus livros de kanji, e levei tudo para o jardim.

Estava um dia estranhamente quente e imóvel — quase parecia Verão. Uma daquelas manhãs de meados do Outono em que o céu está tão límpido que quase receamos largar as nossas coisas com medo de elas serem arrebatadas para o azul e desaparecerem para sempre. Nunca imaginara que o céu japonês era tão límpido. As espreguiçadeiras ainda ali se encontravam, rodeadas por pilhas húmidas de beatas deixadas pelas russas quando ali se tinham sentado a tagarelar no Verão. Pus todas as minhas coisas em cima de uma e olhei em volta. Junto ao velho lago, vi o que restava de um carreiro — pedras ornamentais que serpenteavam sob a vegetação em direcção aos aposentos selados. Dei alguns passos nele, com os braços estendidos como se tentasse equilibrar-me. Contornei o lago, passei pela lanterna e pelo banco de pedra, até ao local que Shi Chongming achara tão fascinante. Cheguei à beira da vegetação e parei, olhando para os pés.

O carreiro continuava rumo às árvores, mas no centro da pedra onde eu parara encontrava-se um seixo branco, do tamanho de um punho e envolto como se fosse um presente em bambu já podre. Num jardim japonês tudo tem um significado — um seixo colocado numa pedra é um sinal para os visitantes: Não avance mais. Isto é particular. O Sol escondeu-se atrás de uma nuvem e esfreguei os braços, com frio. O que acontece se infringimos as regras num local estranho? Respirei fundo e dei um passo em frente.

Detive-me, à espera que algo acontecesse. Uma avezinha com asas compridas elevou-se do chão e pousou numa das árvores, mas de resto o jardim ficou em silêncio. A ave ali ficou, parecendo observar-me, e durante algum tempo retribuí o olhar. Depois, consciente de que ela me observava, continuei a avançar por entre as raízes e as sombras da ala selada até me encontrar junto à parede, num local onde conseguia ver todas as janelas entaipadas cobertas de trepadeiras. Transpus um ramo caído e parei junto de uma das grades de segurança, o metal fundido




aquecendo a minha pele. Encostei o nariz a ele e senti o cheiro do pó e do bolor dos quartos fechados. A cave, ao que parece, estava inundada e era perigosa. Jason estivera lá havia alguns meses, dissera-nos. Havia pilhas de lixo e de coisas que ele não quis observar muito de perto. Os canos tinham-se partido durante os tremores de terra e alguns dos quartos pareciam lagos subterrâneos.

Tornei a virar-me para o jardim, pensando nas palavras de Shi Chongming: O futuro está à espera de ser descoberto. O futuro está à espera de ser descoberto. Tive uma sensação estranha. A sensação de que o futuro daquele jardim se centrava exactamente no sítio onde me encontrava: a zona em redor da lanterna de pedra.

24

Nanquim, 14 de Dezembro de 1937, meio-dia

verdade começa a surgir na rádio. Não é boa. Ontem, depois da explosão do portão de Zhongshan, parece que o Exército Imperial Japonês entrou por duas aberturas na muralha da cidade. Tive a sorte de escapar a tempo. Durante a tarde, eles avançaram pela cidade com os seus tanques, os seus lança--chamas, os seus obuses. Pela noite, os Japoneses já tinham tomado todos os edifícios governamentais de Nanquim.

Quando ouvimos isto, eu e a Shujin baixámos as nossas cabeças. Não falámos durante bastante tempo. Acabei por me levantar, desliguei o rádio e pousei as mãos nos ombros dela.

— Não te preocupes. Estará tudo acabado antes do nosso...Hesitei, olhando para a cabeça dela, para o cabelo preto espesso, para a faixa vulnerável de pele branca no risco. — Estará tudo acabado antes de a pequena Lua chegar. Temos comida e água suficientes para mais de duas semanas. E para além disso...respirei fundo e tentei soar razoável e calmo — ... os Japoneses são civilizados. Não tardará muito para que nos digam que é seguro regressarmos às ruas.

— O nosso futuro é o nosso passado e o nosso passado é o
nosso futuro — murmurou ela. — Já sabemos o que vai acontecer...

Já sabemos o que vai acontecer?

Talvez ela tenha razão. Talvez todas as verdades estejam dentro de nós à nascença. Talvez durante anos a única coisa que façamos seja nadar para longe daquilo que já conhecemos, e talvez só a velhice e a morte nos permitam nadar de volta para trás, para junto de algo que é puro, algo inalterado pelo acto da sobrevi
sobrevivência. E se ela tiver razão? E se tudo já lá estiver — o nosso destino, e os nossos amores e os nossos futuros filhos? E se eles estiverem todos em nós desde o dia em que nascemos? Se for assim, já sei o que irá acontecer em Nanquim. Só preciso de estender a mão para a resposta...

I Nanquim, 15 de Dezembro de 1937, meia-noite (o décimo terceiro dia do décimo primeiro mês)

Ah! Olhem para nós agora. Bastou passar um curto dia para a minha confiança se ter esgotado. A Shujin, a minha clarividente, não previu isto! A comida desapareceu! Por volta da uma da manhã, ouvimos um barulho no pátio da frente. Quando me aproximei sorrateiramente da janela, vi dois rapazes maltrapilhos a arrastar a saca de sorgo e a carne seca para o outro lado do muro. Tinham atirado uma corda e estavam a trepar por ela. Gritei e corri escadas abaixo, agarrando na barra de ferro e gri-tando-lhes enraivecido, mas quando destranquei a porta e corri para a rua, tombando velhos barris de água, eles tinham desaparecido.O que foi? — A Shujin apareceu à porta, de camisa de dormir até aos pés. Tinha o cabelo solto pelos ombros e segurava um candeeiro a petróleo. — Chongming? O que aconteceu?Chiu. Dá-me o meu casaco, volta para dentro de casa e tranca a porta. Não a abras até eu voltar.

Caminhei por entre as casas abandonadas e pelos terrenos baldios até chegar à rua do Liu. A casa dele era a única habitada na viela, e, quando dobrei a esquina, vi-os aos três no exterior da casa a fazer qualquer coisa à luz débil do luar. A mulher do Liu chorava, e o filho dele encontrava-se ao cimo da viela, virado para a rua, a tremer de fúria. Segurava um braço do carrinho de mão como se estivesse pronto a agredir alguém. Ainda antes de me aproximar, soube que a família dele sofrera o mesmo contratempo que a minha.

Twíram-nie oara dentro de casa. O Liu e eu acendemos um
cachimbo e sentámo-nos junto ao fogão a lenha para nos mantermos quentes, com a porta para a viela escancarada, porque o filho dele insistia em ficar junto dela, naquela posição acocorada que os jovens acham tão natural, os joelhos perto dos ombros como asas ossudas. O pau encontrava-se junto aos seus pés, pronto a ser agarrado. Os seus olhos estavam vigilantes, tão brilhantes como os de um tigre, fixos na rua ao cimo da viela.

— Devíamos ter saído da cidade há muito tempo — disse a


mulher do Liu amargamente, voltando-nos costas. Vamos todos morrer aqui.

Vimo-la afastar-se e pouco depois ouvimos soluços abafados vindos de um quarto nas traseiras. Lancei um olhar embaraçado ao Liu, mas ele continuou impavidamente a olhar na direcção da porta, para lá da porta onde, ao longe, uma coluna de fumo cinzento encobria as estrelas. Apenas o latejar no seu pescoço denunciava o seu alvoroço interior.

— O que acha? — acabou ele por perguntar, sem se virar
para mim. — Temos comida para dois dias, depois morremos à
fome. Acha que devíamos ir lá fora dar uma olhadela?

Abanei a cabeça.Não — respondi, observando a tonalidade vermelha trémula que iluminava a parte de baixo do fumo. — A cidade caiu. Não tarda, voltará a ser seguro abandonarmos as nossas casas. Talvez dois dias, talvez menos. Em breve vão dizer-nos que é seguro voltarmos a sair.Devemos esperar até lá?Sim. Acho que devemos esperar. Não falta muito.



Nanquim, 17 de Dezembro de 1937

Há dois dias que não comemos. Não sei quanto tempo mais a Shujin conseguirá aguentar. A paz já não deve demorar a ser restaurada. Sabemos pela rádio das tentativas de se criar uma comissão que governe a cidade — dizem que não tardará a que possamos andar livremente pela rua e que a Cruz Vermelha irá distribuir rações gratuitas na Estrada de Xangai. Mas nada foi


ainda anunciado e pergunto a mim mesmo o que irei fazer. Apanhei o arroz que se entornara durante o assalto e juntei-o aos restos dos legumes em vinagre que a Shujin guardara por acaso na cozinha, e isso deu-nos para duas refeições; e como a mulher do Liu estava preocupada com a Shujin, distribuíram o pouco que tinham. Mas agora não resta nada. Isto é a vida nua até ao osso. A Shujin não se queixa, mas, e o bebé? Às vezes, a meio da noite, tenho a estranha sensação de que algo na Shujin, algo intangível, como uma essência ou um espírito, está a estender-se, e não consigo deixar de pensar que a alma da nossa Lua estende a mão para nós, faminta.

Deixo o trabalho para depois do anoitecer — despejar o bacio e trazer lenha para o lume. Guardo religiosamente o pouco petróleo que me resta para o candeeiro. Faz um frio de rachar e até durante o dia andamos embrulhados nos cobertores e nos casacos. Começo a esquecer que há coisas boas no mundo — livros e crenças, e névoa sobre o lansequiao. Esta manhã encontrei seis ovos cozidos que tinham sido embrulhados num qipao e enfiados numa arca ao fundo da cama. Estavam tingidos de vermelho.

— O que é isto? — perguntei, levando-os para o rés-do-
-chão, onde estava a Shujin.

Ela não olhou.Vai pô-los onde os tiraste.Para que são?Já sabes qual é a resposta.

— Para o man yueh da nossa Lua? É isso?
Ela não respondeu.

Olhei para os ovos que tinha na mão. É surpreendente como dois dias sem comida podem modificar uma pessoa. A minha cabeça ficou como que mais leve quando pus a hipótese de partir aqueles ovos e de os comer. Pousei-os rapidamente sobre a mesa, diante da Shujin, e recuei um passo.

Come — disse, apontando para eles. — Depressa. Come-
-os agora.

Ela sentou-se a olhar para eles, bem embrulhada no casaco, uma expressão distante no rosto.

— Disse para os comeres. Come-os agora.

Daria azar à alma da nossa Lua.Azar? Não me fales em azar! Achas que não sei o significado do azar? — Começara a tremer. — come!

Mas ela manteve obstinadamente o silêncio, o rosto inexpressivo, enquanto eu andava de um lado para o outro, a minha frustração a querer explodir de dentro de mim. Como podia ela ser tão idiota — pôr assim a saúde do bebé em perigo? Por fim, com uma suprema força de vontade, virei costas aos ovos, bati com a porta e fui para o meu escritório, onde tenho estado desde essa altura, incapaz de me concentrar no que quer que seja.

Nanquim, 17 de Dezembro de 1937, parte da tarde

Enquanto escrevi a última entrada, aconteceu algo terrível. Tive de parar, pousar a caneta e levantar a cabeça, admirado. Um cheiro estranho entrou pelas janelas. Um cheiro simultaneamente terrível e maravilhoso. O cheiro de carne a assar! Alguém aqui perto deve estar a cozinhar carne. O cheiro arrancou-me da cadeira e-.fez-me aproximar da janela, onde fiquei, a tremer, com o nariz encostado às frinchas, a sorver faminto o ar. Imaginei uma família — talvez logo na viela seguinte — sentada a uma mesa, a olhar para montes macios de arroz, bolos de milho, porco suculento. Poderiam ser os ladrões, a cozinhar o que nos tinham roubado? Se sim, então esqueceram-se da lenda do frango do mendigo, esqueceram-se daquilo que todos os ladrões em Jiangsu devem saber — cozinhar a comida roubada debaixo do solo e não ao ar livre, onde o cheiro se propaga a todos os narizes.

Tenho de parar de me levantar da secretária, seduzido pelo aroma. E tão doce, tão pungente. Aquilo fez-me decidir. Se as pessoas se sentem suficientemente em segurança para cozinharem às claras — para permitir que o cheiro paire livremente pelas ruas —, então a paz só pode estar a algumas horas de distância. Deve ser seguro ir lá fora. Vou sair agora. Vou procurar comida para a Shujin.
25

é uma planta. Foi isso que Shi Chongming disse. Não é uma planta.

Nessa manhã pensei naquilo, debruçada sobre os meus livros na espreguiçadeira. Há quase uma hora que estava a ler e parecia não ir a lado nenhum. Fui distraída por algo. A menos de meio metro de mim, uma ninfa de cigarra arrastava-se para fora do solo, primeiro uma antena, depois um rosto pequeno como o de um dragão recém-nascido. Pousei o livro e observei-a. Trepou por um pedaço de madeira podre e, após alguns minutos de repouso, começou o laborioso processo de tirar as asas do casulo, uma de cada vez, com um vagar excruciante, o casulo de um tom iridescente. Lera num dos livros que as asas das cigarras podem ser utilizadas na cura tradicional das dores de ouvidos. Pensei no pó seco agarrado às paredes do copo de Fuyuki. «Você não anda à procura de uma planta. Se não era uma planta, então...?

A cigarra endireitou-se, nova e confusa, as suas asas muito brancas, e olhou em volta. Porque teria saído só agora do casulo? As outras haviam nascido e partido havia semanas.

— Com que estás a sonhar?

Dei um salto. Jason viera pelo túnel de glicínias. Estava apenas a alguns metros de mim com uma caneca de café na mão. Vestia calças de ganga e uma T-shirP, tinha o rosto bronzeado. Olhava para as minhas pernas e braços nus com uma expressão que parecia querer dizer que eles o faziam recordar algo.

Instintivamente, abracei os joelhos e inclinei-me um pouco para a frente, debruçada sobre o livro que havia estado a ler.


— Uma cigarra — disse. — Estás a ver?

Ele acocorou-se e observou-a, protegendo os olhos do sol com a mão. Os seus braços eram da cor de manteiga queimada e devia ter ido cortar o cabelo nessa manhã, porque eu conseguia ver a sua cabeça redonda e o declive agradável do pescoço no sítio onde se encontrava com os ombros. O corte de cabelo revelava um pequeno sinal logo abaixo da orelha.Pensei que já tinham morrido todas — afirmei. — Que estava demasiado frio.Mas hoje está calor. E neste jardim estão sempre a acontecer coisas esquisitas, sabes? Pergunta à Svetlana. Parece que todas as regras foram suspensas.

Sentou-se na espreguiçadeira ao lado da minha com a caneca pousada na coxa, os pés cruzados.

As baba yagas foram ao Parque Yoyogi ver os rapazes roc-


kabilly — disse. — Estamos sozinhos.

Não respondi. Mordi o lábio e olhei para as janelas.Então?Então o quê?No que é que estavas a pensar?

Não estava a pensar em nada. Ele arqueou as sobrancelhas.Em nada — repeti.

Sim, já ouvi. — Terminou o café e virou a caneca ao contrário para que algumas gotas castanhas cor de lama caíssem na terra seca. Depois olhou-me de esguelha. — Diz-me uma coisa.O quê?

— Diz-me... por que é que estou sempre a olhar para ti?
Baixei o olhar e mexi na capa do livro, fingindo que ele não

dissera nada.

— Perguntei por que é que estou sempre a olhar para ti. E a
pensar que estás a esconder qualquer coisa realmente interessante.

De repente, apesar do sol, a minha pele arrefeceu. Pestanejei.Desculpa — disse eu a medo. — O que é que estavas a dizer?Que estás a esconder qualquer coisa. — Ergueu os braços


e usou as mangas da T-shirt para limpar o suor da testa. — É fácil. Basta-me olhar para ti para perceber isso. Não sei o que é exactamente, mas o meu... o meu instinto diz-me que é algo de que vou gostar. E que sou um... — ergueu dois dedos e bateu com eles ao de leve na testa — ... um visionário no que toca às mulheres. Sinto-o no ar. Credo, a minha pele! — Estremeceu e esfregou os braços. — A minha pele praticamente muda de cor.Estás enganado. — Cobri imediatamente a barriga com as mãos. — Não estou a esconder nada.Estás sim.Não estou.

Ele fitou-me com ar divertido. Por momentos, julguei que ia rir-se. Em vez disso, suspirou. Levantou-se e espreguiçou-se languidamente, passando as mãos pelos braços, pela T-shirt, deixan-do-me entrever o seu ventre liso.

— Não — disse ele, olhando pensativo para o céu. — Não.Baixou as mãos e virou-se na direcção do túnel de glicínias.Claro que não estás.
26

uma vez uma história sobre uma rapariga japonesa encurralada num jardim quando as cigarras saíram da terra. Saíram todas ao mesmo tempo. A rapariga olhou para cima e lá estavam elas, por todo o lado, colonizando o ar e as árvores, tantas que os ramos estavam carregados e curvados com o peso. O chão à volta dela parecia cheio de borbulhas, um milhão de ninfas a trepar para os ramos, o barulho ficando cada vez mais forte, ecoando nas paredes até se tornar quase ensurdecedor. Apavorada, correu a abrigar-se, esmagando cigarras, fracturando as suas asas, fazendo-as sair dos seus estojos protectores e girar no chão como rodas de fogo-de-artifício partidas, à roda e à roda, um turbilhão de asas castanhas e pretas. Quando por fim encontrou um caminho para sair do jardim, correu direita para os braços de um rapaz que lhe pegou ao colo e a levou para um lugar seguro. Na altura ela não sabia, mas as cigarras haviam sido uma bênção. Aquele era o rapaz que ela estava destinada a amar. Um dia, seria mulher dele.

Dei um salto. Algo me batera no pé. Endireitei-me rapidamente e olhei em volta. O jardim estava diferente — escuro. O Sol pusera-se. Estivera a sonhar acordada. No meu sonho fora Jason quem pegara na rapariga e a levara. Tinha a camisa aberta no pescoço e, enquanto a transportava, murmurava-lhe algo rude e sedutor ao ouvido, fazendo-a corar e cobrir o rosto. Senti qualquer coisa a tocar-me no braço e levantei-me da cadeira em choque, deixando cair os livros. Por todo o lado apareciam no chão pequenas covinhas, e o pó levantara-se como se alguém disparasse tiros para o chão. Chuva. Era apenas chuva, mas eu continuava
na minha história, com a rapariga japonesa, um milhão de cigarras a saltar do pó e a prender-se no cabelo dela. As gotas nos meus braços pareciam ácido. Rapidamente, reuni o máximo de livros que pude e atravessei o jardim a correr na direcção do túnel de glicínias.

Fiz deslizar a porta. As escadas estavam frescas; havia folhas mortas nos recantos dos degraus. Atrás de mim, a chuva batia na tela de papel de arroz e imaginei o jardim a ficar cada vez mais escuro, as cigarras a abanarem os ramos e a unirem-se em cima deles, como um enorme remoinho de pó a subir acima dos telhados. Na penumbra, descalcei os sapatos e subi as escadas a correr.

Jason encontrava-se lá em cima, parado no corredor, como se me aguardasse. Estava vestido para sair, mas ainda descalço. Parei à frente dele e deixei cair os livros no chão.O que foi?Cortou-me — respondi, esfregando os braços com as mãos, imaginando asas de cigarra a passarem-me pela pele. — Acho que a glicínia me cortou.

Ele baixou-se e apertou os meus tornozelos com o polegar e o indicador. Encolhi-me e puxei instintivamente a perna para trás.

— O que estás...?

Ele encostou um dedo aos lábios.

— O que estou...? — imitou, olhando para mim e arqueando as sobrancelhas. — O que estou o quê?

Fiquei paralisada, as pernas entreabertas, a olhar para Jason em silêncio, enquanto ele passava calmamente as mãos pela barriga das minhas pernas, como um moço de estrebaria a apalpar um cavalo. As suas mãos detiveram-se nos meus joelhos, alguns centímetros acima da bainha da saia, semicerrando os olhos como se os seus dedos fossem um estetoscópio e ele tentasse ouvir alguns danos. O suor brotou dos meus ombros, da parte de trás do meu pescoço. Ele endireitou-se, levantou a mão direita e pas-sou-a pelo meu braço, parando no cotovelo, e voltando a descer para passar o polegar pela pele fina do meu pulso. O barulho da chuva ecoava por toda a casa, em especial nos frágeis corredores, como se fosse granizo. Jason pousou a mão direita no meu


ombro direito, levantou-me o cabelo e prendeu-mo atrás do pescoço, do lado esquerdo, passando os dedos por ele. Sentia o meu sangue pulsar de encontro à mão dele.

— Por favor...

Ele esboçou um sorriso de esguelha, mostrando um dente partido.

— Es limpa — disse ele. — Muito limpa.

Apeteceu-me tapar os olhos com as mãos porque senti alguns clarões de luz na retina. Vi o sinal no pescoço dele e, por baixo, o pulsar do seu sangue.Sabes que horas são agora? — perguntou ele.Não. Que horas são?Horas de nós fazermos aquilo. — Pegou na minha mão, segurando-a com o polegar e o indicador. — Anda. Vamos descobrir o que tens andado a esconder.

Apertei os joelhos, fincando os calcanhares no chão. A minha pele estava muito retesada, como se tivesse todos os pêlos no ar, como se o meu corpo lutasse para deter um eu-fantasma que queria sair dali e seguir Jason. Dois fios de suor distintos cor-riam-me pelo meio das omoplatas.Então — disse ele com um sorriso travesso. — Não te preocupes... eu tiro os cascos antes de começarmos.Larga-me — pedi, libertando a mão e dando um passo para trás, quase tropeçando. — Por favor, deixa-me em paz.

Reuni os meus livros desajeitadamente e corri para o quarto ligeiramente inclinada para a frente, com os livros apertados contra a barriga. Fechei a porta com força e encostei-me a ela, na semiescuridão, com o coração a bater ruidosamente durante bastante tempo. Não conseguia ouvir mais nada.

As seis da tarde já estava escuro e a luz do Mickey Rourke entrava no quarto filtrada pelas cortinas. Conseguia apenas ver a minha silhueta no espelho orlada a dourado, sentada num silêncio trémulo, uma coluna ondeante de fumo de cigarro a elevar--se no ar. Estava ali sentada quase há cinco horas, sem fazer nada a não ser fumar cigarro atrás de cigarro, e a sensação ainda não tinha desaparecido. Uma sensação efervescente de euforia, como se tivesse bolhas a saírem-me da pele. Quando ela se atenuava,


bastava-me recordar Jason a dizer «Vamos descobrir o que tens andado a esconder e voltava tudo ao início.

Passado algum tempo afastei uma madeixa de cabelo da testa e apaguei o cigarro. Estava na hora de me arranjar para o clube. Tremia quando me levantei, quando me despi, abri o guarda-fatos e tirei de lá alguns sacos. As vezes chegamos a um ponto na vida em que só nos resta suster a respiração e saltar.

Encontrei um par de cuecas com perna em seda iridescente, com fitas largas de gorgorão em baixo, a zona central em veludo, centenas e centenas de flores medievais vermelho-escuras entrançadas nessa parte central e a emergirem na seda como as iluminuras dos salmos. Meti-me dentro delas, puxando-as para cima até ter o cós sobre o umbigo. Depois virei-me e olhei para o meu reflexo. Tinha a barriga tapada, desde o umbigo à parte de cima das coxas. Não se conseguia ver nada.

Na outra extremidade da casa, as russas gritavam uma com a outra, discutindo como era normal sempre que se preparavam para ir trabalhar. Alguns gritos irados ecoavam pelo corredor, mas eu mal os ouvia. Enfiei um dedo dentro das cuecas por baixo e afastei para o lado a renda. Conseguia-se entrar dentro delas sem que a parte do cós se mexesse. Assim não se sabia que havia um problema lá em cima. Talvez a vida pudesse mudar, pensei. Talvez me tivesse enganado, talvez afinal conseguisse fazê-la mudar.

Vesti-me como que em transe, metendo-me num vestido justo de veludo preto. Sentei-me no banco, com os pés ligeiramente afastados, pus a cabeça entre os joelhos como vira fazer às russas, e apliquei laca no cabelo de forma que, quando me endireitei, ele ficou pesado e brilhante, muito preto contra a minha pele. O vestido preto apertava-me nas zonas onde eu engordara, tocando-me, dando-me vontade de o afastar em certos sítios.

Lá fora as russas continuavam a gritar, a discussão subindo e descendo o corredor. Limpei o excesso de batom com todo o cuidado, peguei numa malinha de pele, pu-la debaixo do braço, calcei sapatos de salto alto e saí do quarto, percorrendo o corredor um pouco insegura nos saltos, os ombros para trás, a cabeça bem erguida.

Havia I117 na cozinha, lason encontrava-se lá, de costas para
a porta, a cantarolar para tentar ignorar o barulho e a andar de um lado para o outro a abrir os armários, o frigorífico, enquanto preparava um martini.

— Russas parvas — cantarolava ele. — Miúdas parvas, espalhafatosas.

Calou-se quando me ouviu passar. Não abrandei o passo. Já ia no fundo do corredor quando ele me chamou bem alto.

— Grey.


Estaquei, com as mãos cerradas, os olhos fechados. Esperei até a minha respiração se acalmar e em seguida virei-me. Ele estava no corredor, de calças de ganga e camisola verde-azeitona, a olhar para mim como se tivesse visto um fantasma.

— Sim? — perguntei.

Ele olhou para a minha maquilhagem, para o meu cabelo, para os sapatos pretos de salto alto.

— Sim? — repeti, sabendo que começara a corar.

— É novo — acabou ele por dizer. — O vestido. Não é?
Não respondi. Fixei os olhos no tecto, a cabeça a latejar.

— Eu sabia — disse ele, e havia no seu tom uma presunção


fascinada. — Sempre soube que, por baixo dessa fachada, tudo
se resumia a sexo puro.

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