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27

Jason „„ nessa noite,e enquanto nos dirigíamos para o clube, não se calou um minuto.

— Vestiste isso por minha causa, não foi? — repetiu vezes sem conta caminhando ao meu lado, as mãos suspensas na alça do saco sobre o peito, um cigarro na boca. — E para mim, não é? Vá lá... admite-o.

As russas acharam que aquilo era a coisa mais divertida dos últimos tempos, mas eu não consegui encontrar palavras para responder. Estava certa de que a minha pele começara a ruborizar-se no lado voltado para ele, e as cuecas com perna pareciam deslizar para um lado e para o outro sob o vestido, como se tivessem vida própria e quisessem comunicar a sua presença ao Ja-son. «Sim, foi isso... ela vestiu-o para ti.

Ele acabou por desistir e fez o resto do caminho em silêncio com uma expressão divertida e pensativa no rosto. Quando entrámos no elevador panorâmico, ele virou-se de costas para nós, com as mãos nos bolsos, a contemplar Tóquio, elevando-se em bicos de pés e voltando a pousar os calcanhares no chão. Olhei para a nuca dele e pensei: «Estás a falar a sério? Não estás a gozar comigo? Por favor, espero que isto não sejas tu a gozar comigo. Seria demasiado...

O clube encontrava-se cheio — um grupo de Hitachi ocupara quatro mesas e mama estava de bom humor. Por causa do vestido de veludo todos olhavam para mim, como se eu fosse incandescente, como a lanterna de uma gueixa a brilhar numa viela de Quioto. E espantoso como a lisonja e o sexo podem ser sedutores — só quando o grupo de Fuyuki entrou no clube é que


me apercebi de que não pensara no medicamento de Shi Chongming durante toda a noite. Quando os vi junto à porta endirei-tei-me na cadeira, sentindo-me estranhamente viva.

A mesa foi posta. Strawberry pôs os empregados numa roda--viva a tirar as flores murchas dos arranjos, a pôr mais toalhas na casa de banho dos homens, certificando-se de que as garrafas de uísque de Fuyuki estavam polidas e brilhavam com a luz, e chamou-me, juntamente com mais seis acompanhantes. O grupo estivera a fazer apostas nos barcos de corrida de Gamagori em Ai-chi e parecia de bom humor. A enfermeira deixara-se ficar para trás, não indo para a alcova mas ficando à espera no vestíbulo, sentada numa chaise-longe, com as pernas cruzadas. Eu conseguia vislumbrar o pé dela dentro do sapato de salto alto de cada vez que as portas de alumínio se abriam, e de cada uma dessas vezes esquecia-me do que estava a dizer e recordava a fotografia do crime. A Besta de Saitama. Lembro-me da expressão tensa de Shi Chongming quando pronunciara a palavra «embelezar. Seria preciso ser-se muito forte para matar um homem? Perceber muito de anatomia para remover o que estava dentro dele sem deixar marcas no exterior? Ou teria Shi Chongming inventado essa parte para me assustar?

Fuyuki estava muito comunicativo. Ganhara bastante dinheiro e ainda nessa noite iria dar uma festa em casa. Em breve corria pela mesa que ele passara pelo clube a fim de recrutar acompanhantes para levar. Tal como Shi Chongming previra. «A casa dele, pensei, passando os dedos pelo cabelo, pelas pernas, a fim de alisar os collants, «talvez o local onde se encontrava guardado o segredo dele. Endireitei o vestido, de forma a ficar direito nos ombros. «São todas assim tão bonitas em Inglaterra?

Para meu espanto, o Bisonte estava lá. Ainda confiante, vestido como um mafioso, os cotovelos pousados na mesa, as mangas do casaco enroladas para revelar os antebraços maciços e ainda a entreter o grupo com histórias — o circuito dos clubes em Akasaka, um esquema em que se viu metido, acções de um clube de golfe inexiste que haviam sido vendidas. As histórias foram sendo contadas, mas no rosto dele faltava qualquer coisa. Parecia abatido, o sorriso pronto do comediante desaparecera e fiquei com a sensação de que ele fora coagido a estar presente — o


anão da corte. Fingi estar a ouvi-lo enquanto fumava e assentia com ar pensativo, mas na verdade estava a observar Fuyuki, tentando arranjar maneira de fazer com que ele memorizasse a minha existência.Já tinham vendido as acções quase todas quando descobriram — disse Bisonte, abanando a cabeça. — Imaginem. Quando o Bob Hope soube que tinha sido dado o seu nome a um clube de golfe japonês quase caiu de quatro.Com licença — disse eu, apagando o cigarro no cinzeiro e empurrando a cadeira para trás. — Com licença, volto já.

As casas de banho ficavam no canto adjacente ao vestíbulo da entrada. Teria de passar junto à cadeira de rodas de Fuyuki para lá chegar. Alisei o vestido, endireitei os ombros, deixei pender os braços ao lado do corpo e comecei a andar. Tremia, mas obriguei-me a continuar, devagar, com um bambolear pseudo--sensual que me fez corar e quase ficar sem força nas pernas. Mesmo com a música, conseguia ouvir o barulho do nylon quando as minhas pernas roçavam uma na outra. A pequena cabeça de Fuyuki encontrava-se a pouca distância de mim, e, quando me aproximei, inclinei a anca para um lado de forma a bater nas costas da cadeira dele e a sobressaltá-lo.

— Peço imensa desculpa. — Pousei as mãos na cadeira para
a endireitar. — Lamento. — Ele levantou ligeiramente os braços, tentando virar o pescoço hirto para poder olhar para mim.
Acalmei-o, pousando os dedos nos seus ombros, encostando propositadamente a perna direita de novo contra ele, deixando que
a estática do nylon e da carne quente fossem sentidas por ele. —
Lamento imenso — repeti, empurrando a cadeira para o lugar
onde se encontrara. — Isto não volta a acontecer.

Os capangas estavam a olhar para mim. E então vi Jason no bar, imóvel com um copo de champanhe nos lábios, os olhos pousados em mim. Não esperei. Endireitei o vestido e prossegui caminho. Cheguei à casa de banho e tranquei-me lá dentro, tremendo descontroladamente; olhei para o meu rosto transtornado no espelho. Aquilo era incrível. Estava a transformar-me numa vampira. Quem olhasse para mim agora não dizia que eu era a mesma pessoa que chegara a Tóquio há dois meses.


— O meu conselho é: não vás — disse Strawberry. — Fuyu-
ki convidar-te para apartamento, mas Strawberry achar má ideia.Quando o grupo chegara, ela mandara preparar a mesa, depois retirara-se mal-humorada para trás da secretária, onde ficara toda a noite, a beber champanhe o mais depressa possível e a observar-nos a todos com os seus olhos estreitos e desconfiados. Quando o clube ficou vazio, quando todas as cadeiras estavam em cima das mesas e um homem com uma enceradora industrial se movia em silêncio entre elas, Strawberry estava furiosamente bêbeda. Debaixo da maquilhagem à Marilyn, a pele encontrava--se rosa-escura em volta das narinas, rente ao cabelo, no pescoço.Não percebes. — Apontou para mim com a boquilha, como que apunhalando o ar. — Tu não seres como raparigas japonesas. Raparigas japonesas percebem pessoas como Fuyuki.

E as russas? Elas vão.As russas! — Fungou indignada, afastando uma madeixa de cabelo oxigenado da testa. — As russas!Não percebem melhor do que eu.Okay. — Levantou a mão para me deter. Esvaziou o copo, endireitou-se, limpou a boca e passou a mão pelo cabelo, tentando recompor-se. — Okay — repetiu, inclinando-se para a frente e apontando a boquilha para mim. Às vezes quando estava embriagada como naquele momento mostrava os dentes e as gengivas. O mais engraçado é que com todas as operações que fizera nunca conseguira mandar arranjar os dentes — continuavam descoloridos, um ou dois até mesmo pretos. — Se vais apartamento Fuyuki, tem cuidado. Okay} Se fosse eu, não comer nada lá na casa.Não fazer o quê?Não comer carne.

Os pêlos do meu pescoço arrepiaram-se.O que quer dizer com isso? — perguntei com voz débil.Muitas histórias.Que histórias?

Strawberry encolheu os ombros. Os seus olhos vaguearam pelo clube. Os carros de Fuyuki aguardavam cinquenta andares mais abaixo e a maior parte das raparigas já se encontrava no bengaleiro, a recuperar as malas e os casacos. Lá fora levantara-se


um vento frio e das janelas panorâmicas via-se que provocara cortes na electricidade. Algumas zonas da cidade estavam às escuras.O que quer dizer? — repeti. — Que histórias? Que carne?Nada! — Ela sacudiu a mão, ainda sem me olhar nos olhos. — São apenas piadas. — Soltou então uma gargalhada aguda e artificial e reparou que o cigarro se apagara. Enfiou outro na boquilha e brandiu-o na minha direcção. — É melhor acabar isto. Discussão acaba agora. Acaba.

Fitei-a, a minha mente a trabalhar. Não comas a carne? Tentava pensar numa maneira de dissuadi-la, de convencê-la a falar, certa de que iria obter uma pista importante, quando Jason apareceu de repente e se sentou ao meu lado, inclinando-se para a frente e virando a minha cadeira para si.

— Vais a casa do Fuyuki? — murmurou.

Já trocara o smoking por uma T-shirt cinzenta com as palavras Goa Trance meio esbatidas. Tinha o saco a tiracolo, e estava pronto a ir para casa.As gémeas disseram-me. Tu vais.Sim.Então também tenho de ir.O quê?Porque vamos passar juntos a noite. Tu e eu. Já tínhamos combinado.

Abri a boca para falar, mas não saiu nada. Devo ter ficado com um aspecto estranho, as pupilas dilatadas, a boca aberta, suor a brilhar-me no pescoço.

— A enfermeira — disse Jason, como se eu lhe tivesse feito


uma pergunta. — É por isso que serei bem-vindo. — Lambeu
os lábios e olhou de lado para Strawberry, que fumava outro cigarro, e arqueara as sobrancelhas com ar sabedor enquanto ouvia
a nossa troca de palavras. — Deixa-me pôr as coisas da seguinte
maneira: ela anda com comichão por minha causa. Percebes?
28

Xuyuki e os seus acompanhantes tinham seguido à frente, deixando uma fileira de carros, com as palavras Lincoln Continental escritas numa espécie de itálico no porta-bagagens, na rua para levar as convidadas. Fui uma das últimas a sair do clube e quando cheguei à rua quase todas as acompanhantes, e Jason, o tinham seguido, deixando apenas um carro. Instalei-me no banco de trás com três acompanhantes japonesas cujos nomes desconhecia. Durante a viagem falaram sobre os clientes, mas eu man-tive-me em silêncio, a fumar e a olhar para o fosso do Palácio Imperial junto ao qual passávamos. Quando atravessámos Nishi Shinbashi, passámos pelo jardim onde eu tinha conhecido Jason. A princípio não o reconheci: ele quase ficara para trás quando reparei que as estranhas fileiras que brilhavam ao luar eram as crianças de pedra silenciosas alinhadas sob as árvores. Rodei no banco de modo a olhar para elas através do vidro de trás.Que sítio é aquele? — perguntei em japonês ao motorista. — O templo?E o Templo de Zojoji.Zojoji? Para que são todas aquelas crianças?

O motorista olhou para mim pelo espelho retrovisor, como se eu o tivesse surpreendido.

— Elas são os Jizo. Os anjos das crianças mortas. Das crianças que nasceram sem vida. — Ao ver que eu não respondia,


perguntou: — Percebe o meu japonês?

Virei-me para olhar para as filas fantasmagóricas sob as árvores. Senti um aperto no coração. Nunca sabemos ao certo o que se passa no nosso subconsciente. Talvez eu tenha sempre sabido


o que eram as estátuas. Talvez tenha sido por isso que decidi dormir naquele parque.

— Sim — respondi num tom distante, a boca seca. — Sim,


percebo.

Fuyuki vivia perto da Torre Tóquio num prédio imponente que se erguia em jardins privados atrás de portões de segurança. Quando os três Continentais desceram o caminho de acesso, o vento vindo da baía fez agitar as grandes palmeiras. O guarda ergueu-se atrás de um balcão mal iluminado, avançou e acocorou--se para abrir o trinco baixo das portas de vidro, e acompanhou--nos pelo vestíbulo silencioso de mármore até um elevador particular que abriu com uma chave. Enfiámo-nos todas lá dentro, as japonesas a dar risadinhas e a murmurar.

Quando as portas se abriram no apartamento de cobertura, o homem do rabo-de-cavalo estava à nossa espera. Não abriu a boca nem olhou para ninguém enquanto avançámos em fila pelo vestíbulo, mas virou-se ligeiramente e conduziu-nos por um longo corredor. O apartamento estendia-se em torno de um quadrado central. Um longo corredor com painéis de nogueira ligava todas as assoalhadas e parecia estender-se eternamente; luzes indirectas projectavam lagos redondos de luz à nossa frente, como numa pista, convidando-nos a avançar. Caminhei com cuidado, olhando em volta, perguntando a mim mesma se a enfermeira também viveria ali, se teria o seu covil atrás de uma daquelas portas.

Passámos por uma bandeira japonesa rasgada e manchada dentro de uma moldura iluminada, por uma caixa para cinzas cerimoniais esculpida em madeira, pintada de branco e exibida numa vitrina de vidro. Não havia fechaduras, reparei. Deixei-me ficar para trás. Passámos por um uniforme militar, usado e disposto de uma forma que parecia ter alguma coisa lá dentro. In-clinei-me um pouco quando passei pela vitrina sem tirar os olhos do grupo da frente, e enfiei a mão na base aberta da vitrina, tocando na bainha do uniforme.O que estás a tramar? — perguntou uma das acompanhantes quando regressei para junto do grupo.Nada — murmurei, embora o meu coração batesse muito


depressa. Não havia alarmes. Nem sequer ousara esperar que não houvesse alarmes.

Passámos por um lance de escadas que descia rumo à escuridão. Hesitei, olhando para as trevas, resistindo à vontade de me afastar do grupo e descer as escadas. O apartamento estendia-se por dois andares. Que tipo de assoalhadas existiriam lá em baixo?, perguntei a mim mesma, imaginando de repente, e de forma inexplicável, jaulas. «Você não anda à procura de uma planta...

Nesse momento, o grupo estacou e começou a deixar as malas e os casacos num pequeno bengaleiro. Tive de me afastar das escadas e de me juntar a ele e deixar também ali o meu casaco. Pouco depois começámos a ouvir música baixinha, o tinido suave do gelo em copos, até que entrámos numa sala de tecto baixo, cheia de fumo, e de alcovas cuidadosamente iluminadas e vitrinas. Parei um momento enquanto os meus olhos se habituavam à luz. As acompanhantes que tinham vindo nos primeiros carros já se encontravam instaladas em enormes sofás vermelho-escuros, de copo na mão e a falarem em murmúrios. Jason estava num cadeirão, confortavelmente reclinado, um tornozelo nu pousado num joelho, um cigarro entre os dedos — como se estivesse a relaxar em casa depois de um longo dia de trabalho. Fuyuki en-contrava-se na ponta da sala, numa cadeira de rodas. Envergava uma yukata larga, tinha as pernas nuas, e nesse momento fazia recuar e circular a cadeira à volta da sala, conduzindo Bisonte. Estavam a olhar para gravuras eróticas nas paredes, cortesãs de corpos compridos com pernas brancas esqueléticas, quimonos bordados afastando-se para revelar órgãos genitais enormes.

Não consegui evitar. Fiquei imediatamente fascinada com as gravuras. Pressentia Jason a pouca distância a observar divertido a minha reacção, mas ainda assim não consegui afastar o olhar. Uma das gravuras mostrava uma mulher tão excitada que qualquer coisa pingava entre as suas pernas. Por fim, quando não consegui conter-me mais, virei-me. Jason arqueou as sobrancelhas e sorriu, aquele sorriso longo e lento que revelava apenas o canto do seu dente partido, o sorriso que me dirigira no corredor em Takadanobaba. Corei. Encostei os dedos à cara e virei--me depressa.

Este — disse Bisonte em japonês, apontando com um charuto para uma gravura. — Este com o quimono vermelho.E de Shuncho — respondeu Fuyuki no seu murmúrio áspero. Pôs a bengala no chão e pousou nela o queixo, olhando pensativo para a gravura. — Século dezoito. Segurada por quatro milhões de ienes. Linda, não é? Um pequeno chimpira de Saitama tirou-a de uma casa em Waikiki e deu-ma.

O homem do rabo-de-cavalo tossiu discretamente e Bisonte virou-se. Fuyuki fez girar a cadeira de rodas motorizada, a fim de olhar para nós.

— Venham comigo — murmurou ele às raparigas reunidas.
— Por aqui.

Passámos por um arco e entrámos numa sala onde, debaixo de duas espadas de samurai suspensas do tecto por arames invisíveis, um grupo de homens com camisas havaianas estava sentado a beber uísque por copos de cristal. Os homens semiergueram--se, fazendo vénias quando Fuyuki deslizou junto a eles na cadeira. Havia umas portas de correr abertas para revelar um átrio central de mármore preto reluzente, o céu nocturno reflectido nele como num espelho. No centro, negra como pez, com se feita no mesmo material, uma piscina iluminada, com um ligeiro vapor pairando na sua superfície. Vários aquecedores a gás, altos como postes, estavam espalhados por ali, e em volta da piscina haviam sido dispostas seis mesas grandes, cada uma com tabuleiros de esmalte preto, pauzinhos de prata e copos redondos pesados, os guardanapos adejando na brisa.

Vários lugares já haviam sido ocupados. Homens corpulentos de cabelo curto fumavam charutos e falavam com jovens mulheres dentro de vestidos de noite sem costas. Havia tantas raparigas. Fuyuki devia conhecer muitos clubes de acompanhantes, pensei.

— Senhor Fuyuki — disse eu, aproximando-me dele por


trás quando nos dirigimos às mesas. Ele parou a cadeira de rodas
e virou-a, fitando-me surpreendido. Nenhuma das raparigas ousara ainda dirigir-lhe a palavra. As pernas tremiam-me e o calor
dos aquecedores fizera-me corar. — Eu... eu gostava de me sentar ao seu lado.

Ele semicerrou os olhos. Talvez estivesse intrigado com a


minha rudeza. Dei um passo, parando em frente a ele, suficientemente perto para que se apercebesse dos meus seios e das minhas ancas sob o vestido justo. Num impulso, o vampiro em mim ganhando vida, peguei nas mãos dele e coloquei-as nas minhas ancas.

— Quero sentar-me ao seu lado.

Fuyuki olhou para as mãos encostadas ao meu vestido. Talvez conseguisse sentir as cuecas com perna por baixo, o roçar da seda na seda, o elástico sob os dedos. Talvez pensasse apenas que eu era louca e desajeitada, porque pouco depois soltou uma gargalhada.

— Então venha — murmurou. — Sente-se ao meu lado se


quiser.

Impeliu a cadeira para junto da mesa, e eu sentei-me trémula na cadeira ao lado. Bisonte já estava instalado a algumas cadeiras de distância; pegou num guardanapo, abriu-o com uma sacudidela e prendeu-o no colarinho. Um empregado de calças de ganga e T-shirt pretas aproximou-se com cocktails de vodca gelados em copos brancos foscos. Dos copos subia uma névoa semelhante a gelo seco. Bebi um gole, olhando sub-repticia-mente em volta. Algures, pensei contemplando as janelas, algumas com luz, outras às escuras, algures naquele apartamento estava a coisa que mantinha Shi Chongming acordado à noite. «Não é uma planta. Se não é uma planta, é o quê? Numa das paredes, bem alto, havia uma luz vermelha. Seria um alarme?

A comida chegou à mesa: lascas de atum empilhadas como dominós numa cama de urtigas; taças de tofu salpicado com algas; nabo ralado, estaladiço como sal. Bisonte estava imóvel a olhar para um prato de galinha yakitori, como se ele lhe colocasse um grave problema, o rosto pálido e transpirado, parecendo prestes a vomitar. Observei-o em silêncio, recordando a última vez em que o vira no clube, a sua expressão de espanto, a forma como ficara hipnotizado pelo resíduo no copo de Fuyuki. Tal como Strawberry, pensei. Ele não queria comer carne. Devia ter ouvido a mesma história que ela...

Passei a língua pelos lábios e inclinei-me para Fuyuki.

— Já nos vimos antes desta noite — murmurei em japonês.
— Lembra-se?

Ai sim? — Não olhou para mim.Sim. No Verão. Tinha esperança de voltar a vê-lo. Ele hesitou um momento.Ai sim? Ai sim? — perguntou.

Quando falava, os seus olhos e o seu estranho nariz minúsculo não se moviam, mas a pele do lábio superior colara-se aos dentes e subira para revelar estranhos caninos pontiagudos nos cantos superiores da boca, semelhantes aos de um gato. Olhei para aqueles dentes.

— Gostava de ver o seu apartamento — declarei.Pode vê-lo daqui. — Meteu a mão no bolso e tirou de lá um charuto, o qual desembrulhou, cortou com um discreto utensílio prateado que tirou do bolso do peito, e inspeccionou, fazendo-o girar e tirando dele pequenas aparas de tabaco.Gostaria de dar uma olhadela. Gostaria de... — Hesitei. Apontei para a sala onde as gravuras estavam penduradas e disse baixinho: — De ver aquelas gravuras. Já li coisas sobre shunga. As que o senhor tem são muito raras.

Ele acendeu o charuto e bocejou.Foram voltadas para Japão por mim — respondeu ele, falando num inglês macarrónico. — Voltadas à pátria. O meu passatempo... eigo deha nanto iu no desuka? Kaimodosu kotowa... Ni-hon no bijutsuhinwo Kaimodosu no desuyo.Repatriar — disse eu. — Repatriar arte japonesa.So, so. Sim. Re-pa-tri-ar arte Japão.Gostaria de mas mostrar?Não. — Os olhos dele fecharam-se devagar, como os de um réptil muito velho a descansar, cobrindo-os ao de leve com a mão, como se a conversa chegasse por agora. — Obrigado, agora não.Tem a certeza?

Ele abriu um olho e olhou para mim desconfiado. Abri a boca para falar, mas algo no olhar dele me fez pensar duas vezes. Pousei as mãos no regaço, o pulso acelerado. Ele não pode saber, dissera Shi Chongming. «Nem desconfiar.

— Sim — concordei, pigarreando e mexendo no guardanapo. — Claro. Agora não é a melhor altura. Não é a melhor altura mesmo. — Acendi um cigarro e fumei, virando o isqueiro
vezes sem conta nas minhas mãos, como se o achasse fascinante. Fuyuki observou-me durante mais alguns segundos. Então, parecendo satisfeito, tornou a fechar os olhos.

Depois disso não voltei a falar muito com ele. Dormitou alguns minutos e quando acordou a japonesa ao seu lado direito roubou-me o protagonismo, contando-lhe uma longa história sobre uma americana que fazia jogging sem sutiã, e arrancando--lhe várias gargalhadas e abanos de cabeça entusiásticos. Fiquei em silêncio, a fumar cigarro atrás de cigarro e a pensar: O que faço agora, o que faço agora, o que faço agora? Tinha a noção de que estava a aproximar-me, que sobrevoava algo em círculos. Bebi rapidamente dois copos de champanhe, apaguei o cigarro e, respirando fundo, inclinei-me para ele.Fuyuki-san? — murmurei. — Preciso de ir à casa de banho.Hi hi — respondeu ele distraído. A acompanhante à sua direita fazia um truque com uma carteira de fósforos. Ele esboçou um gesto vago com a mão indicando uma porta dupla de vidro atrás dele. — Por ali.

Olhei para ele. Esperara mais. Alguma resistência. Empurrei a cadeira para trás e levantei-me, olhando para o pequeno crânio castanho à espera que Fuyuki se movesse. Mas isso não aconteceu. Ninguém na mesa olhou sequer para cima, estavam todos muito absortos na conversa. Atravessei o pátio, entrei pelas portas de vidro e fechei-as rapidamente, detendo-me por um instante, as palmas das mãos encostadas ao vidro, a olhar para trás. Ninguém parecia ter reparado na minha saída. Numa das mesas mais afastadas, vi a nuca de Jason entre duas acompanhantes e mais perto de mim encontrava-se Fuyuki, tal como eu o deixara, os seus ombros finos movendo-se quando ele se ria. A acompanhante pegara fogo à carteira de fósforos e pusera-se de pé, erguendo-a sobre a mesa como uma tocha e agitando-a ante os aplausos dos outros convidados. Afastei-me da porta. Encontrava-me num corredor apainelado igualzinho àquele por onde havíamos entrado, cheio com outras tantas vitrinas — vi um fato de actor de teatro nô, uma armadura samurai a reflectir as luzes ténues. Havia inúmeras portas a perder de vista. Respirei fundo e comecei a andar.
A alcatifa abafava os meus passos; o ruído do ar condicionado fazia-me lembrar a atmosfera fechada e encapsulada de um avião. Funguei... que cheiro estava à espera de sentir? «Não comas a carne... Devia haver mais escadas neste lado do apartamento. Passei por várias portas, mas nada de escadas. No fim do corredor, virei para outro, perpendicular àquele onde me encontrava, e o meu pulso acelerou. Ali estava, à direita: a escada, com pesadas portas duplas abertas.

Estava a dez metros dela quando lá ao fundo, na esquina a seguir, uma sombra apareceu no chão.

Estaquei. A enfermeira. Só podia ser ela, a aproximar-se no corredor seguinte. Devia vir a andar depressa porque a sombra dela estava a crescer, trepando rapidamente pela parede até quase chegar ao tecto. Fiquei paralisada, o coração a galopar. Dali a nada ela chegaria à esquina e iria ver-me. Já conseguia ouvir o cabedal dos sapatos dela a ranger. Tacteei a porta seguinte. Ela abriu-se. Uma luz acendeu-se automaticamente e, no preciso momento em que a sombra começou a virar na minha direcção, entrei, fechando a porta atrás de mim com um estalido discreto.

Era uma casa de banho, um aposento sem janelas todo num fabuloso mármore vermelho-sangue, com veios semelhantes a gordura na carne de vaca, uma banheira rodeada de espelhos e uma pilha de imaculadas toalhas engomadas numa prateleira. Fiquei de pé alguns momentos, tremendo descontroladamente, a orelha encostada à porta, a tentar ouvir o que se passava no corredor. Se ela me vira, eu diria o mesmo que dissera a Fuyuki: que andava à procura da casa de banho. Inspirei lentamente, es-forçando-me por ouvir qualquer coisa. Mas os minutos foram passando e não ouvi nada. Talvez ela tivesse entrado noutra assoalhada. Tranquei a porta e a seguir, como as pernas ainda estavam fracas, sentei-me na tampa da sanita. Aquilo era impossível, impossível. Como é que Shi Chongming esperava que eu resolvesse aquilo? Quem julgava ele que eu era?

Ao fim de vários minutos em que nada aconteceu, nem ouvi nada, tirei um cigarro da mala e acendi-o. Fumei-o em silêncio, enquanto roía as unhas e olhava para a porta. Olhei para o relógio, perguntando a mim mesma há quanto tempo estaria ali, se a enfermeira ainda continuaria lá fora. Lentamente, muito lentamente,

os tremores foram passando. Acabei o cigarro, atirei-o para a sanita e acendi outro. Fumei-o bastante devagar. Depois levantei-me e percorri a orla dos espelhos com os dedos, pergun-tando-me se haveria espaço atrás deles para ocultar uma câmara. Abri gavetas e vasculhei as pilhas de sabonetes e de pequenos estojos de toilette com os logotipos da jal e da Singapore Airlines. Ao fim do que me pareceu uma eternidade, puxei o autoclismo, respirei fundo, destranquei a porta e espreitei lá para fora. O corredor encontrava-se vazio. A enfermeira desaparecera e a porta dupla que conduzia às escadas fora fechada. Quando atravessei o corredor e experimentei o puxador, descobri que havia sido trancada.

Lá fora o céu estava limpo, apenas um farrapo de nuvem cor-de-rosa por causa das luzes da cidade deslizava em silêncio diante das estrelas, como o hálito de um gigante num dia frio. Enquanto eu estivera no corredor, os convidados tinham abandonado os seus lugares e encontravam-se sentados em espreguiçadeiras a começar partidas de majongue em mesas articuladas. Os empregados levantaram os pratos. Ninguém notou que regressei e me sentei, ainda trémula, num banco junto à piscina.

Fuyuki fora levado para o canto mais afastado do pátio e a enfermeira encontrava-se com ele, inclinada e ocupada a cobrir--lhe as pernas com um manto de pele. Envergava uma saia muito justa, um casaco de gola subida e os habituais saltos altos. Tinha o cabelo preso atrás das orelhas, revelando o rosto branco, estranhamente bexigoso. Pintara os lábios de vermelho intenso — na sua boca pequena o batom parecia quase azulado. Os homens sentados por perto faziam questão de estar de costas para ela, concentrados nas suas conversas, fingindo não se aperceber da sua presença.

Ela não olhou para mim. Provavelmente já tencionara trancar aquela porta, pensei. Não havia motivo para pensar que soubera que eu estava lá. Fuyuki disse-lhe qualquer coisa, a sua mão frágil tentando agarrar-lhe na manga. Ela aproximou a cabeça da boca dele e eu sustive a respiração enquanto olhava para as unhas dela, pintadas de vermelho-rnate. A unha do dedo mindinho era muito comprida e curva; tradicionalmente, os mercadores
chineses deixavam crescer essa unha assim para mostrarem que não faziam trabalho manual. Perguntei a mim mesma se Fuyuki estaria a contar-lhe a minha insistência em querer ver o apartamento, mas pouco depois ela endireitou-se e, em vez de olhar para mim, desapareceu em silêncio pela porta do outro lado.

Inclinei-me para a frente, tensa, com as mãos firmadas na cadeira, acompanhando mentalmente a enfermeira, seguindo-a todos os centímetros do corredor, talvez até escadas abaixo. Sabia o que ela ia fazer. Sabia-o instintivamente. O barulho da festa pareceu diminuir e eu ouvia apenas o pulsar da noite, o bater da água no filtro da piscina. As minhas orelhas pareceram crescer até todos os pequenos sons estarem amplificados mil vezes e eu achar que era capaz de ouvir o apartamento murmurar à minha volta. Ouvi alguém lavar pratos na cozinha. Ouvi os passos discretos da enfermeira pelas escadas abaixo. Tive a certeza de ouvir cadeados a tinir, portas de ferro a chiar quando se abriram. Ela ia buscar o medicamento de Fuyuki.

E então algo aconteceu. Na piscina, talvez a uma profundidade de dois metros, havia duas janelas subaquáticas cobertas por estores. Não reparara nelas antes porque haviam estado às escuras. Mas numa delas acendera-se uma luz, projectando faixas verticais amarelas na água. Peguei rapidamente na mala, tirei de lá um cigarro e levantei-me, passando pela multidão e dirigindo--me como que por acaso para a beira da piscina. Fiquei de pé, com uma mão atrás das costas, a puxar umas baforadas do cigarro para me acalmar. Então, quando tive a certeza de que ninguém me observava, espreitei para a água. Um dos convidados começou a cantar uma canção enka e uma das acompanhantes riu-se ruidosamente, mas mal dei conta disso. Fechei a minha mente até no mundo existirem apenas as faixas de luz na água e eu.

Tinha a certeza, sem saber como, de que atrás daqueles estores ficava o aposento onde se encontrava guardado o medicamento de Fuyuki. As ripas do estore estavam suficientemente abertas para permitir ver parte do chão e apercebi-me da sombra da enfermeira a mover-se de um lado para o outro. De vez em quando, aproximava-se o suficiente da janela para eu conseguir


ver-lhe os pés dentro dos sapatos brilhantes. Concentrei-me. Havia algo mais no aposento com a enfermeira. Algo feito de vidro. Algo quadrado, como um estojo ou...

— O que estás a fazer?

Dei um salto. Jason encontrava-se ao meu lado, com o copo na mão e a olhar para a água. De repente, todos os barulhos recomeçaram e a cor regressou ao mundo. O convidado cantor estava nas últimas notas da canção e os empregados abriam garrafas de brandy, distribuindo copos pelos convidados.Para onde é que estás a olhar?Para nada. — Olhei rapidamente para o fundo da piscina. A luz apagara-se. A piscina estava de novo às escuras. — Quero dizer, estava a olhar para a água. E tão... tão límpida.Tem cuidado — murmurou Jason. — Muito cuidado.Sim — respondi, afastando-me da piscina. — Claro.

Estás aqui por causa de qualquer coisa, não estás? Olhei-o nos olhos.O quê?Andas à procura de qualquer coisa.

— Não. Quero dizer... não, claro que... mas que coisa mais
estranha para se dizer.

Ele soltou uma gargalhada.

— Esqueces-te de que sei quando estás a mentir. — Olhou
para o meu rosto, depois para o meu cabelo e pescoço, como se
eu tivesse acabado de lhe fazer uma pergunta complexa. Tocou-
-me ao de leve no ombro e a estática fez com que o meu cabelo
se elevasse para ele e se enrolasse nos seus dedos. Ele esboçou
um sorriso. — Vou entrar completamente dentro de ti — disse
baixinho. — Completamente. Mas não tenhas medo, vou fazê-lo
muito, muito devagar.



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