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Nanquim, 18 de Dezembro de 1937, oito horas (décimo sexto dia do décimo primeiro mês)

finalmente consigo escrever. Finalmente tenho alguma paz. Estive fora de casa mais que um dia. Quando, no final da tarde, tomei a decisão de sair de casa, nada poderia deter-me. Prendi o meu certificado de refugiado ao casaco e esgueirei-me para a viela, indo atrás do cheiro. Era a primeira vez que estava fora de casa desde o dia treze. O ar parecia pesado e frio, a neve velha e amarela. Avancei em silêncio, usando ruas secundárias e trepando por portões para chegar a casa do Liu. Ele tinha a porta da frente aberta e estava sentado logo à entrada, como se não se tivesse mexido desde que eu o deixara. Fumava o cachimbo e no rosto tinha uma expressão vaga.

— Liu Runde — disse eu, entrando —, sente este cheiro?
Sente o cheiro da carne a cozinhar?

Ele inclinou-se para a frente e pôs o nariz fora de casa, inclinando a cabeça e olhando pensativo para o céu.Pode ser a comida que nos roubaram — aventei. — Talvez tenham a lata de cozinhá-la.Talvez.Vou procurar nas ruas. A Shujin precisa de comida.Tem a certeza? E os Japoneses?

Não respondi. Recordava com algum embaraço que ele insistira em como estaríamos a salvo, e pensava no exemplo que estaríamos a dar. Após um longo silêncio, levantei-me e dei uma palmadinha no meu certificado de refugiado.

— Não tem... não tem um destes, velho?


Ele encolheu os ombros e levantou-se, pousando o cachimbo.

— Espere aqui — respondeu. — Vou buscá-lo.

Teve uma conversa rápida e sussurrada com a mulher. Via-os no aposento mal iluminado nas traseiras da casa, de frente um para o outro, apenas a manga desbotada de seda azul dela visível da porta, movendo-se de vez em quando sempre que ela levantava a mão para salientar algo. Pouco depois ele regressou até junto de mim, fechou a porta com cuidado e olhou para ambos os lados da viela. Prendeu o certificado no casaco e o seu rosto apresentava uma expressão ansiosa e abatida.

— Nunca esperei que as coisas chegassem a este ponto —


murmurou, levantando o colarinho para se proteger do frio. —
Nunca imaginei. As vezes pergunto-me quem é o mais tolo, se
eu ou a minha mulher...

Chegámos ao início da viela e espreitámos para a rua deserta. Não havia qualquer som ou movimento. Nem sequer um cão. Apenas filas e filas de casas entaipadas, escurecidas pela fuligem, um carro de mão abandonado encostado na vertical a uma das casas. Na estrada ardiam pequenas fogueiras, e na direcção do rio o céu encontrava-se vermelho por causa das chamas. Cheirei o ar. Aquele aroma incrivelmente atormentador parecia mais forte. Quase como se a qualquer momento pudéssemos esperar ouvir os estalidos dos fritos vindos de uma das casas.

Avançámos pela rua como dois gatos famintos, mantendo--nos nas sombras, correndo de porta em porta, rumo ao portão de Zhongyang a norte, na direcção em que os ladrões haviam fugido. De vez em quando, deparávamos com embrulhos de haveres, nenhum dono à vista, e arrastávamo-los para a porta mais próxima, vasculhando-os rapidamente à procura de comida. Em cada uma das casas velhas encostávamos o nariz à porta e murmurávamos: «Quem está a cozinhar? Quem está a cozinhar? Um punho de fome ia avançando pelo meu corpo, tão intenso que eu tinha dificuldade em manter-me direito. Pela expressão do Liu, percebi que ele sentia a mesma coisa.

— Saiam! — murmurávamos para as casas. — Mostrem-


-nos... mostrem-nos o que estão a cozinhar.

na zona este da China, e


pouco depois o Sol tinha-se posto e avançávamos pelas ruas apenas com os clarões das fogueiras a guiar-nos. Estávamos exaustos. Parecíamos ter caminhado vários quilómetros, — sentia-me como se tivesse ido a pé até à Estrada da Ponte do Pagode —, contudo ainda não havíamos atravessado a muralha da cidade. A única criatura viva que vimos para além de nós foi um cão esquelético com ar faminto, selvagem e coberto com tantas chagas que parte da sua coluna vertebral se encontrava exposta. Ele seguiu-nos durante algum tempo, e, embora tivesse um aspecto terrivelmente doente, tentámos atraí-lo até nós: era suficientemente grande para alimentar as nossas duas famílias. Mas o cão estava nervoso e ladrava muito sempre que nos aproximávamos dele, o som ecoando perigosamente nas ruas silenciosas. Por fim, abandonámos a perseguição.É tarde — disse eu, parando algures junto ao portão. O cheiro da carne fora substituído pelo fedor de canos de esgoto. Começávamos a perder o ânimo. Olhei para as casas velhas que ladeavam a rua. — Já não tenho tanta fome, velho. Já não tenho.Você está cansado. Apenas cansado.

Ia responder quando algo atrás do Liu me chamou a atenção.

— Não se mexa — murmurei, agarrando-lhe no braço. —
Não fale.

Ele virou-se. Ao fundo da rua, ao longe, o rosto iluminado por uma pequena lanterna em cima de um cantil, apareceu um soldado japonês de espingarda ao ombro. Ainda há cinco minutos havíamos estado exactamente no sítio onde ele se encontrava.

Corremos para a porta mais próxima, respirando a custo, e espalmámo-nos contra a parede, olhando um para o outro.Há um minuto ele não estava ali — murmurou Liu. — Viu-o?Não.

— Agora como é que vamos conseguir chegar a casa?


Ficámos ali durante bastante tempo, os olhos fixos nele, os

corações a bater com força no peito, ambos à espera que o outro decidisse o que fazer. Eu sabia que aquela rua era em linha recta e que não havia intervalos entre as casas durante bastante tempo


— teríamos de percorrer uma grande distância bem à vista do soldado antes de encontramos uma transversal por onde pudéssemos desaparecer. Respirei fundo, baixei o boné sobre a testa e arrisquei espreitar para a rua, apenas por um segundo, o suficiente para ver o soldado. Voltei a espalmar-me contra a parede, respirando a custo.O que foi? — sussurrou o Liu. — O que é que viu?Ele está à espera de qualquer coisa.A espera? À espera de...

Mas antes de ele conseguir completar a pergunta, a resposta chegou até nós: um som familiar soava ameaçador ao longe, um ribombar baixo e temível que fez estremecer as casas à nossa volta. Ambos sabíamos o que era aquele som. Tanques.

Instintivamente, tentámos afastar-nos da rua fazendo força contra a porta, na esperança de que o barulho dos tanques abafasse os nossos esforços. Estávamos na disposição de trepar pelas paredes acima, se necessário, mas a porta cedeu no momento em que o troar dos tanques ecoou atrás de nós — deviam ter dobrado a esquina. A porta caiu para dentro e chegou-nos ao nariz um ar bafiento; entrámos à pressa, dois montes de suor, medo e roupas pesadas, tropeçando na escuridão.

Estava escuro como breu, e apenas uma nesga de luar entrava por um buraco no telhado.Liu? — A minha voz soava trémula. — Velho, você está aí?Sim. Sim. Estou aqui.

Juntos, tentámos fechar o que restava da porta o melhor que pudemos, depois encostámo-nos às paredes, tacteando em volta do aposento, dirigindo-nos ao buraco no telhado. São espantosos os hábitos rurais que as pessoas importam para a cidade: tinham vivido ali animais, talvez para manter os residentes quentes durante a noite, e o Liu e eu avançávamos pelo meio da palha. O troar dos tanques era cada vez mais elevado na rua, fazendo estremecer a pequena casa, ameaçando fazê-la cair.

— Por aqui — murmurou o Liu. Parara e vi que estava


agarrado a uma escada de mão que conduzia até ao buraco no
telhado. Aproximei-me dele e olhei para cima. Lá no alto o céu
nocturno estava luminoso, as estrelas longínquas frias e brilhantes. — Vamos.
Ele subiu as escadas com mais agilidade que aquela que seria de esperar de um homem da sua idade e parou lá em cima, virando-se para me estender uma mão. Apertei-a e subi à pressa, deixando-o içar-me através da abertura. No cimo das escadas, endireitei-me e olhei em volta. Estávamos ao ar livre: a casa era uma ruína, o telhado há muito que fora destruído, e restavam apenas alguns pés de painço podres e de argamassa ordinária.

Fiz sinal ao Liu e aproximámo-nos da beira, espreitando cautelosamente por cima do muro rachado. Conseguíramos escapar mesmo a tempo. Lá em baixo, os inúmeros tanques avançavam lentamente pelas ruas. O barulho era ensurdecedor. Afunilava-se na rua e subia, como uma vaga de calor, quase suficientemente poderosa para fazer estremecer a Lua. Nas torres dos tanques havia luzes que projectavam sombras estranhas nas paredes das casas. Soldados com espadas e espingardas caminhavam muito direitos de ambos os lados dos tanques, os rostos inexpressivos. Devia ser uma deslocação em massa para um local diferente, porque atrás dos tanques vinham outros veículos: carros de reconhecimento, um camião-cisterna, duas pontes flutuantes puxadas por um camião.

Enquanto os observávamos, vi um cão, talvez o mesmo que tínhamos perseguido, aparecer de nenhures e a ficar preso no meio das pernas dos soldados. Ganindo e latindo deixou-se ser pontapeado com tanta força que pouco depois ficou dentro de um dos trilhos dos tanques, onde desapareceu de vista rapidamente. Dois soldados na torre do tanque repararam nisso e debruçaram-se para observar, divertidos e curiosos, o pobre animal que jazia no trilho, uma pata traseira, a única parte que não estava esmagada, ligeiramente no ar a estremecer. Não sou um grande amante de cães, mas o riso satisfeito dos soldados empeder-niu-me o coração.

— Olhe — murmurei —, olhe para isto, velho Liu. — Começava a aperceber-me de como fora idiota ao imaginar que os Japoneses eram parecidos connosco, imaginar que até estaríamos em segurança com eles. Aqueles homens não eram como nós. Aqueles homens eram como máquinas, insensíveis. Agachei-me atrás do pequeno parapeito e levei as mãos à cabeça. — Cometemos um grande erro. Um erro terrível.


Liu aproximou-se de mim e pousou suavemente a sua mão enorme nas minhas costas. Ainda bem que ele não falou. Ainda bem, porque se eu tivesse aberto a boca para responder, poderia ter dito as seguintes palavras: «Talvez não agora, talvez não esta noite, mas em breve o fim virá. Pode ter a certeza, velho Liu, de que as nossas mulheres afinal estavam certas. Em breve iremos morrer.

30

1 No táxi para casa, Jason e eu seguimos em silêncio. Irina e Svetlana riam-se, fumavam e falavam de vez em quando em russo, mas eu não escutei uma palavra. Tinha consciência de todos os centímetros da minha pele, eriçada como o pêlo de um animal que tivesse sido afagado ao contrário. Não parei quieta no banco até que Irina se irritou e me deu uma cotovelada.

— Pára com isso. Pára de te contorceres como um verme.
Estás maluca?

Do outro lado dela, junto à janela, vi o perfil de Jason a abanar a cabeça, divertido. Baixou o rosto na direcção do regaço, encostou um dedo ao nariz e acenou com a cabeça, como se alguém invisível tivesse acabado de lhe murmurar uma pergunta ao ouvido.

De regresso a casa, as russas foram direitas para a cama e eu despi o casaco, pendurei-o junto ao saco de Jason no cabide ao cimo das escadas e avancei, sem uma palavra, pelo corredor até ao meu quarto. Ele seguiu-me. Quando entrou comigo, percebeu que eu tremia.Sei que estás com medo.Não — retorqui, esfregando os braços. — Não estou com medo.

Ele devia estar a perguntar-se por que motivo me encontrava eu tão afogueada — talvez pensasse em agressões, abuso de menores, violação. Tremia tanto que tinha de respirar fundo de cada vez que ele me tocava. Tentei acalmar-me e imaginar algo sereno, algo escuro e pesado logo abaixo das minhas costelas, de forma a não desmaiar. Mas Jason pareceu não dar por nada até


me encostar ao toucador e ficar entre as minhas pernas abertas, o vestido subido até à cintura. Olhou para baixo, para a zona ruborizada entre as pernas, hipnotizado pelo sítio por onde iríamos ficar unidos. Quando a pele fina no interior das minhas coxas tocou a dele, senti o pulsar do seu coração nos grandes vasos sanguíneos que lhe irrigavam as virilhas.Isto... — disse ele, pondo os dedos dentro do elástico das minhas cuecas. — Tira-as.

  • Não. — Agarrei-me a elas. — Por favor.Ah — fez ele baixinho, parecendo fascinado; olhou para o meu rosto com curiosidade. — E isto? Já encontrei? — Prendeu novamente os dedos no elástico. — E isto que estás a esconder...Não! — Cheguei-me para trás, espalhando as coisas no toucador e atirando-as para o chão. — Por favor, não! Por favor!Meu Deus! — murmurou ele, inspirando, como se eu o tivesse magoado. — Calma, calma. — Deu alguns passos para o lado, pousando as mãos no toucador para recuperar o equilíbrio. — Fode, esquisita. E fácil.

Encostei-me à parede, baixei as pernas e cobri os olhos com as mãos.

— Desculpa — sussurrei. — Desculpa. Por favor. Não as


tires.

A princípio ele não respondeu, e durante bastante tempo não houve nada, apenas um silêncio chocado e o som do meu coração. Desejei poder contar-lhe. Desejei mesmo. Desejei que tudo fosse diferente. Por fim, ele aproximou os lábios do meu pescoço e soprou ligeiramente. Fiquei quieta, com receio do que ele pudesse dizer.Sabes uma coisa, esquisita? Não imaginas o quanto somos parecidos. Sei exactamente no que estás a pensar.

Por favor, não as tires.Não vou fazê-lo. Não agora. Mas deixa-me dizer-te o que vai acontecer. Um dia, um dia em breve, irás contar-me o que é. E sabes que mais?

Baixei as mãos e olhei para ele.Não...Não será sequer nada de especial. Porque..— Olhou pa-


ra as paredes, para o mural de Tóquio, para as imagens de Nanquim coladas às paredes. Os seus olhos brilhavam à média luz. — ... porque tu e eu somos... somos iguais. Sabias?

Abanei a cabeça. Limpei o rosto com as mãos e afastei o cabelo do rosto.Desculpa — disse com voz tensa. — Peço imensa desculpa.Não precisas de pedir. — Beijou-me o pescoço, lambendo-me a pele logo abaixo da orelha, esperando que eu me descontraísse e o absorvesse. — Não precisas de pedir. Agora, o único problema é...Hum?

— Se ficas com elas vestidas, como é que eu te fodo?
Respirei fundo. Afastei-o e subi a saia até à cintura. Depois

enfiei o indicador na perna das cuecas e puxei para o lado. Ele precisou apenas de um momento para perceber como funcionavam as cuecas mágicas.

E depois disso tudo foi perfeito -— foi como se todos os átomos e membranas em mim se tivessem desprendido do meu corpo e rodopiassem livremente entre as estrelas e os planetas. A seguir mal consegui falar. Jason vestiu as calças de ganga, pegou num dos meus cigarros, enfiou-o na boca e acendeu-o, puxando o queixo para trás de modo a que o cigarro parecesse estar a fazer o pino. Cruzou os braços no peito, as mãos enfiadas sob os sovacos e olhou de esguelha através do fumo para as flores das minhas cuecas, como se desconfiasse que eu estava a pregar-lhe uma partida.

— O que foi? — perguntei com nervosismo, alisando as


cuecas na barriga, verificando se nada estava à mostra. — O que
foi?

Ele tirou o cigarro da boca e riu-se.

— Nada!

Sacudiu a cinza no ar com um floreado, como um feiticeiro. Depois dirigiu-se à porta e saiu sem dizer palavra. Ouvi-o ao fundo do corredor a pegar nas chaves, a calçar-se, a descer as escadas. Depois a casa ficou em silêncio. E eu fiquei sozinha, sentada no toucador, apenas vestida com as minhas cuecas mágicas.



Pus-me de pé com um estrondo e fui até à janela. A viela
encontrava-se vazia — Jason não estava à vista. Tinha-se ido mesmo embora. Virei o rosto cheia de coragem para o Mickey Rourke, enfrentando o seu olhar. Ele sorria como se nada tivesse acontecido. Da baía de Tóquio vinha uma ligeira brisa, muito agradável, que fazia oscilar os bambus, e na brisa julguei conseguir cheirar as ilhas do mar do Sul e o camarão a fritar nos juncos distantes. Os únicos sons eram o restolhar do bambu e o zunido longínquo do trânsito.

O que significava aquilo? Ter-me-ia ele abandonado tal como os rapazes da carrinha? Teria eu percebido tudo ao contrário? Sentei-me no chão, a esfregar a barriga. O coração galopava--me no peito. Nunca devia ter deixado as coisas irem tão longe — devia tê-las deixado tal como estavam dantes. Olhei para o preservativo que ele deixara no cesto, e a mesma sensação de vazio que tivera ao ver desaparecer as luzes da carrinha abateu-se sobre mim, como uma náusea. Então ainda não aprendeste a lição?

Por fim, peguei no vestido e enfiei-o pela cabeça. Aproximei-me do cesto, peguei no preservativo com a ponta de uma unha e levei-o até ao corredor. Atirei-o para a sanita, olhei-o durante uns momentos e a seguir puxei o autoclismo. A água deslizou, prateada ao luar, fazendo o preservativo rodopiar algumas vezes. Depois foi sugado e fiquei a olhar para nada.

Na extremidade da casa, a porta bateu e ouvi passos nas escadas.

— Grey?

Ele voltara. Afastei-me da parede, parei no meio do corredor e lá estava ele, com os braços cheios de sacos de uma loja de conveniência aberta toda a noite. Agora parece uma parvoíce, mas na altura, ao perceber que Jason voltara, ele parecera-me mesmo um anjo. Vi garrafas de sake e um enorme saco de choco seco.



— Precisamos de combustível. — Tirou do saco uma embalagem de sembei para me mostrar. — Precisamos de energia para
repetir.

Fechei os olhos e baixei as mãos.O que foi?Nada — respondi com um sorriso estúpido involuntário a surgir-me nos lábios. — Nada.



31

Nanquim, 18 de Dezembro de 1937

-L>/epois dos veículos, depois do barulho ensurdecedor e das luzes, vieram os soldados. Corriam pelas ruas como os diabos que o Liu descrevera em Suchou. De cada vez que a rua ficava em silêncio por uns momentos, e começávamos a ter esperança de já ser seguro sair da casa, ouvíamos o estrépito sinistro das baionetas, o bater de botas, e lá vinham mais três ou quatro soldados do Exército Imperial Japonês, com as espingardas arisa-ka prontas a disparar. O soldado de patrulha no cimo da rua encontrara um caixote e sentara-se em cima dele, a fumar, fazendo sinal aos companheiros para que avançassem. Por fim, exaustos e gelados, o Liu e eu aninhámo-nos um contra o outro para nos aquecermos, encostados à parede, ele com o braço sobre os meus ombros como um irmão mais velho.

Quando já ali estávamos há mais de duas horas, a Lua, que era um disco sólido prateado, tão nítida que conseguíamos ver as crateras e as fendas na sua superfície, avançou mais um grau para ocidente, iluminando subitamente uma anomalia preta deformada no horizonte, com um ligeiro declive, que tapava o céu. Olhámos para ela em silêncio durante algum tempo.O que é aquilo? — sussurrou Liu.A montanha do Tigre?

Dizem que só em algumas partes de Nanquim se consegue ver bem a cabeça do tigre na montanha do Tigre. Tem de ser vista da direcção certa. Daquele ângulo não dava para ver que era a montanha que eu conhecia — apresentava uma forma totalmente distinta, e estranhamente pequena, como se tivesse encolhido com a invasão.

Só pode ser a montanha do Tigre.Não fazia ideia de que estávamos tão próximo.Eu sei — respondi. — Quer dizer que estamos mais perto da muralha do que julgávamos.

Uma nuvem encobriu a Lua, um farrapo prateado e vermelho, e as sombras no nosso terraço pareceram alterar-se. Fechei os olhos e aproximei-me mais do Liu. Ainda conseguíamos ouvir os soldados japoneses atrás de nós, na rua. De repente, abateu-se sobre mim todo o cansaço do mundo: soube que teríamos de dormir ali. O Liu apertou o casaco à volta do corpo e começou a falar baixinho. Falou-me do dia em que o filho nasceu, em Xangai, numa casa não muito longe do fabuloso Bund, de como toda a família fora ao man yue quando o rapaz tinha um mês de idade, trazendo-lhe moedas em envelopes, brincando com ele, fazendo-o espernear, rir e agitar-se de forma a que os pequenos sinos de ouro nos seus pulsos e tornozelos tinissem. O Liu mal podia acreditar que naquele momento vivia numa cabana de um andar numa viela e que calcorreava as ruas atrás de cães doentes para os comer.

Enquanto ele falava, enfiei as mangas nas luvas e dispus a túnica de forma a tapar-me o mais possível. As palavras dele chegavam até mim, e a minha mente vagueou, passando a montanha do Tigre e o Iansequião, afastando-se de Nanquim: vogando sobre as planícies aluviais salgadas que se estendiam para este na direcção de Xangai durante inúmeros quilómetros, por relicários à beira da estrada cheios de cinza dos paus de incenso, por túmulos escavados no solo junto à via-férrea, o grasnar dos patos a serem conduzidos ao mercado, casas esculpidas na pedra amarela — insuportavelmente quentes no Verão, isoladas e seguras no Inverno. Pensei em todas as famílias da China, aguardando pacientemente sob as tecas nas aldeias, principalmente nas aldeias onde as pessoas são honestas e nada é desperdiçado — palha e erva são queimados como combustível, e os balões das crianças são feitos com bexigas de porco. Tentei — tentei muito não imaginar os tanques japoneses a rugir pelo campo. Tentei muito não os imaginar a despedaçar tudo sob as lagartas, as bandeiras do sol-nascente a adejar ao vento enquanto todo o continente estremecia.
Os meus olhos foram ficando cada vez mais pesados e pouco depois deixei de ouvir as palavras de Liu. Elas desvaneceram-se noite adentro com os meus pensamentos e caí num sono leve.

Nanquim, 19 de Dezembro de 1937 (décimo sétimo dia do décimo primeiro mês)

— Acorde.

Abri os olhos e a primeira coisa que vi, muito perto de mim, foi o rosto do Liu Runde, molhado e rosado, as pestanas cheias de neve.

— Acorde e veja.

Era manhã cedo e ele apontava para além do terraço com uma expressão tensa. Dei um salto, estremunhado. Esquecera--me do local onde me encontrava. O terraço estava coberto de neve e a alvorada banhava tudo com um ténue e sobrenatural tom rosa.

— Olhe — incitou ele. — Olhe.

Sacudi rapidamente a camada de neve que me cobrira durante a noite e tentei levantar-me. Estava tão gelado que o meu corpo soltou uns estalidos e o Liu teve de me agarrar nos ombros para me ajudar a sentar; virou-me para ocidente, obrigan-do-me a olhar na direcção da montanha.

— A montanha do Tigre. Está a ver? — Havia um certo temor horrorizado na sua voz, algo que o fazia soar muito jovem e


inseguro. Quedou-se ao meu lado a sacudir a neve das mãos. —
Diga-me, Shi Chongming, aquela é a montanha do Tigre que
conhece?

Pestanejei, ensonado e confuso. No horizonte, o céu estava vermelho devido ao fogo, como se nos encontrássemos no Inferno, a sua luz oblíqua tingida de sangue a iluminar a terrível montanha. Então percebi o que ele queria dizer. Não. Aquilo não era a montanha do Tigre. Eu estava a olhar para uma coisa completamente diferente. Como se a terra tivesse cuspido uma coisa venenosa. Algo demasiado temível para continuar dentro das suas entranhas.


— Não pode ser — murmurei, levantando-me atordoado. — Velho Pai Céu, estarei a imaginar isto?

Era uma centena, não, um milhar de corpos. Haviam sido empilhados ao acaso, uns em cima dos outros, inúmeros níveis de corpos retorcidos, as cabeças viradas em direcções pouco naturais, sapatos pendentes de pés inertes. Liu e eu tínhamos adormecido a olhar para a montanha de corpos ao luar. Não posso relatar aqui tudo o que vi — se escrever a verdade ela pode queimar o papel —, os pais, os filhos, os irmãos, as variações infinitas do pesar. Também havia um barulho, um murmúrio baixo que parecia vir da direcção da montanha. Agora que pensava naquilo, percebi que o barulho já ali estava há muito, ainda antes de eu acordar. Entrara nos meus sonhos.

O Liu levantou-se a avançou a medo pelo terraço, as mãos enluvadas diante de si. Com o corpo gelado e dormente, cambaleei atrás dele. A vista abriu-se diante de mim — toda a Nanquim ocidental ficou visível: à nossa direita, o brilho acinzentado intermitente do Iansequião, a ponta sombria e estreita da ilha de Baguazhou, à nossa esquerda as chaminés castanhas das fábricas de Xiaguan. E no centro, a cerca de meia /*', dominando tudo, a temível montanha de cadáveres, elevando-se da terra.

Pousámos as mãos no muro frágil e, muito devagar, mal respirando, ousámos elevar os narizes acima dele. O chão entre a casa e a montanha, que era terreno baldio sem ruas ou casas, fervilhava de pessoas. Cobrindo completamente o chão avançavam como uma onda, alguns com haveres nos braços, futons, panelas, pequenas sacas de arroz como se estimassem ficar apenas alguns dias fora de casa, uns apoiando os outros, acotovelando-se e tropeçando. No meio deles, viam-se os bonés castanho-mostarda dos oficiais japoneses, as cabeças girando para um lado e para o outro como máquinas oleadas. Prisioneiros a serem reunidos. As nucas estavam iluminadas pelo sol-nascente e, embora não conseguíssemos ver os seus rostos, sabíamos o que estava a acontecer por causa do murmúrio que se elevava das pessoas ao reconhecerem a verdadeira natureza da montanha que se erguia mais à frente. Era o som de um milhar de vozes a murmurar o seu medo.

Eram todos homens, mas não eram todos soldados. Isso em breve se tornou claro. Apercebi-me de algumas cabeças grisalhas.
— São civis — murmurei para o Liu. — Não vê?
Ele pousou a mão no meu braço.

— Caro Shi Chongming — sussurrou pesaroso —, não tenho palavras para isto. Em Xangai não houve nada que pudesse


ser comparado a isto.

Enquanto observávamos, as pessoas que iam à frente devem ter percebido que estavam a ser conduzidas para a morte, porque o seu pânico brotou. Elevaram-se gritos e uma onda de corpos estacou, recuando do destino, tentando desesperadamente fazer marcha atrás. Em vez disso, chocaram com os presos que vinham atrás, criando uma zona de confusão, todos a tentar correr em direcções diferentes. Ao ver o caos, os oficiais japoneses, comunicando de forma misticamente silenciosa, formaram uma espécie de ferradura em volta dos prisioneiros, limitando e confinando a multidão, elevando as espingardas. Quando os prisioneiros mais do lado de fora viram as espingardas e começaram a gritar apavorados, alguns haveres foram levantados em defesa: qualquer coisa — um boné, uma caneca de lata ou um sapato — servia. O som do primeiro disparo ecoou no meio da multidão.

O efeito foi espantoso. Parecia que estávamos a ver uma única entidade, água talvez, ou algo mais viscoso, movendo-se como um único organismo. Uma onda começou. A força dos corpos manteve de pé os feridos e os moribundos, enquanto no centro da multidão apareceu uma prega, uma protuberância no local onde os corpos que faziam força para a frente provocava um empilhamento de pessoas. Ouviram-se mais disparos. Mesmo com os gritos, eu conseguia ouvir o som metálico das espingardas a serem recarregadas, e a pequena elevação do centro começou a crescer cada vez mais, as pessoas a treparem por cima umas das outras a tentar fugir, até que aquilo se transformou numa coluna humana terrível, estendendo-se lentamente, muito lentamente na direcção do céu como um dedo trémulo.

Os gritos chegaram até nós e, ao meu lado, o Liu escondeu o rosto nas mãos, começando a tremer. Não pousei uma mão nas costas dele, pois ficara horrivelmente fascinado pelo dedo trémulo. O espírito humano é tão forte, pensei com distanciamento, talvez consiga erguer-se até ao céu sem nada a que se apoiar.

M

Talvez consiga trepar no ar. Mas poucos minutos depois, quando a coluna parecia impossivelmente alta — talvez com seis metros —, algo na sua estrutura cedeu, e ela dissolveu-se, tombando para fora, esmagando toda a gente em baixo. Segundos depois, a coluna reagrupava-se numa zona diferente da multidão, o início líquido de um dedo elevando-se inquiridor de um lago, em seguida elevando-se cada vez mais até que, pouco depois, apontava rigidamente para o céu, como se gritasse acusador: «Vais mesmo permitir que isto aconteça?



Nesse momento uma zona de actividade emergiu perto da casa onde nos ocultávamos — alguém se libertara da multidão e corria em direcção a nós, seguido de outro vulto. Agarrei no braço do Liu.

— Olhe!


Ele baixou as mãos e ergueu os olhos trémulos para a abertura. Quando o homem se aproximou, vimos um jovem soldado japonês, de cabeça descoberta, a expressão séria e determinada, perseguido por três homens mais velhos, oficiais, calculei, a avaliar pelos uniformes. As espadas balançavam junto às pernas, es-torvando-lhes o progresso, mas eles eram fortes e altos e aproximaram-se rapidamente do fugitivo, tendo-se um esticado para a frente e agarrado na manga dele, fazendo-o rodopiar de braços abertos.

O Liu e eu baixámo-nos ainda mais contra o parapeito. Os homens estavam a apenas metros de nós. Podíamos ter-nos debruçado e cuspido neles.

O fugitivo cambaleou mais alguns passos, movendo-se em círculo com o braço a rodar, conseguindo a custo recuperar o equilíbrio. Parou, com as mãos nos joelhos, respirando a custo. O oficial libertou-o e recuou um passo.

— Endireita-te! — exclamou ele. — Endireita-te, porco!


O homem endireitou-se com relutância. Puxou os ombros

para trás e enfrentou os homens, o peito arfante. Tinha o uniforme torto e de esguelha, e eu estava tão próximo que conseguia ver círculos brancos no seu escalpe.

— O que pensas que estás a fazer? — inquiriu um dos oficiais. — Abandonaste o teu posto.

O soldado abriu a boca para responder, mas tremia tanto


que não conseguiu falar. Virou-se em silêncio e olhou para a cena infernal, para a coluna humana, os homens que caíam como corvos do céu. Quando se voltou de novo para os oficiais, a sua expressão revelava tanta dor que senti piedade dele. As lágrimas corriam-lhe cara abaixo, e isso pareceu enfurecer os oficiais. Reu-niram-se à volta dele com expressões rígidas. Um movia o maxilar, como se estivesse a ranger os dentes. Sem uma palavra, abriu o cinto. O soldado recuou um passo.

— Muda de ideias — ordenou o oficial, avançando para ele.

— Volta para trás.

O soldado recuou outro passo.Muda de ideias e volta para trás.O que estão eles a dizer? — murmurou o Liu.Ele não quer disparar contra os prisioneiros.Volta para trás imediatamente!

O soldado abanou a cabeça. Isso enfureceu ainda mais o oficial. Agarrou no soldado pelas orelhas e fê-lo dar meia volta, tor-cendo-lhe o corpo e atirando-o para o chão.

— Muda de ideias.

Encostou a sola da bota à cara do soldado e fez força. Os outros oficiais aproximaram-se mais.

— Porco.


Fez ainda mais força com a bota até a bochecha ficar esticada para a frente e o rapaz não conseguir manter a saliva dentro da boca. A carne rasgar-se-ia em breve, pensei.Tens mais uma oportunidade; muda de ideias.Não — gaguejou ele. — Não.

O oficial recuou um passo, levantando a espada. O soldado ergueu a mão e tentou dizer qualquer coisa, mas o oficial já ia embalado e deu um passo em frente. A espada desceu, a sua sombra varrendo o chão, a lâmina brilhante a reflectir o sol da manhã. O contacto foi estabelecido e o soldado estremeceu uma vez, depois rolou para a frente, as mãos sobre o rosto, os olhos fechados.

— Não. Céus, não! — murmurou o Liu, cobrindo os olhos.

— Diga-me o que consegue ver? Ele está morto?

— Não.

O soldado contorcia-se e estremecia no chão. O oficial bate-lhe.



apenas com o lado da lâmina, mas isso quase o matara. Quando tentou levantar-se, desequilibrou-se, agitando as pernas na neve. Caiu de joelhos e um dos outros oficiais aproveitou a oportunidade para o esbofetear com a mão enluvada, fazendo-o tombar para trás e deitar sangue da boca. Cerrei os dentes. Ape-tecia-me galgar o muro e agarrar no oficial pelos colarinhos.

Por fim, o soldado fez um derradeiro esforço e conseguiu levantar-se. Encontrava-se num estado lastimoso, trémulo e vacilante, com o sangue a pingar-lhe da boca. Murmurou qualquer coisa, levantou a mão para o capitão e cambaleou de regresso ao massacre. Parou para pegar na espingarda, pô-la ao ombro e avançou aos ziguezagues como se estivesse bêbedo, apontando ao acaso para a multidão, disparando uma saraivada de tiros. Um ou dois soldados na orla da multidão olharam para ele, mas, ao verem os três oficiais a observarem-nos em silêncio com expressões empedernidas, desviaram rapidamente o olhar para os prisioneiros em pânico.

Os oficiais ficaram a observar a retirada, absolutamente imóveis, apenas a suas sombras a diminuírem à medida que o Sol ia subindo. Nenhum deles moveu um músculo, não falou nem sequer olhou para os companheiros. Só quando o soldado mostrou sinais de não querer fugir outra vez é que tornaram a mexer-se. Um passou a mão pela testa, outro limpou a espada e tornou a embainhá-la, o terceiro cuspiu na neve com toda a força, como se não pudesse suportar mais o gosto que tinha na boca. Então, um após o outro, endireitaram os bonés e regressaram ao massacre, mantendo a distância uns entre os outros, com os braços pendentes, as espadas e as sombras arrastando-se pesadamente no chão ao lado deles.



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