Título: o ideal, o real e o possível sobre a avaliação na Educação Infantil



Baixar 35.84 Kb.
Encontro13.06.2018
Tamanho35.84 Kb.


AVALIAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL:

UMA EXPERIÊNCIA NO COLÉGIO DE APLICAÇÃO UNIVALI
Saionara Costa – UNIVALI/SCi

Lourdes Furlanetto – UNIVALI/SCii

Avaliar na Educação Infantil significa acompanhar o desenvolvimento da criança, a partir da observação e reflexão permanente do professor, nas diferentes situações de aprendizagem que vivencia na escola. Este ato promove reflexões referentes ao próprio significado que se tem sobre a educação, sobre a criança e o seu desenvolvimento, além de apontar caminhos para um efetivo trabalho pedagógico.

Nesta perspectiva, na Educação Infantil do Colégio de Aplicação UNIVALI procuramos desenvolver uma prática avaliativa que contemple a análise e interpretação dos avanços da aprendizagem do aluno, sendo coerente com a proposta curricular desenvolvida neste nível de ensino.

Nossa proposta prioriza a organização do ambiente como elemento estimulador para a construção das aprendizagens das crianças, mediante a exploração dos materiais oferecidos em quantidade e variedade nas áreas de trabalho da sala de aula: área da linguagem, da arte, dos blocos e jogos e área da casa.

Nesta direção, acreditamos que o ser humano (criança e adulto) constrói o seu conhecimento em interação com os objetos e as pessoas. Por isso, vemos a importância de se pensar e priorizar a organização de espaços adequados, para promover interações de qualidade e a construção do conhecimento. Nestes espaços, a presença do adulto é constante, partilhando com as crianças o controle das atividades desenvolvidas ao longo das tardes. Assim, nossa rotina é organizada da seguinte forma: tempo em pequenos grupos organizado pelo professor, oferecendo às crianças materiais por elas pouco explorados; tempo de grande grupo que consiste num espaço de troca entre crianças e adultos envolvendo a música, histórias, novidades do final de semana, projetos de pesquisa, etc; tempo de trabalho nas áreas da sala, as quais são pensadas e realizadas pela criança, sendo avaliadas na companhia dos seus pares e professores; oficinas extraclasse (inglês, informática, música e educação física); e os tempos do lanche, higiene e parque.

Diante das atividades e possibilidades de escolha oferecidas às crianças, como avaliá-las em momentos distintos, respeitando seus ritmos, interesses, necessidades e capacidades?

Entendemos que, acompanhar as experiências vivenciadas pelas crianças neste ambiente, requer um olhar cuidadoso do professor que dê conta de analisar e interpretar as aprendizagens realizadas por elas. Este “olhar” remete a prática da avaliação em uma dimensão formativa, valorizando a interpretação e o uso de critérios bem definidos, refletindo numa intervenção pedagógica consistente.

De acordo com Borba (2001 p.146):

... o olhar do professor precisa ampliar-se para além da sala de aula, atento ao inesperado e ao movimento do cenário, exigindo dele uma sucessão rápida de microações, sem, no entanto, desconsiderar os referenciais de qualidade que pretende alcançar. Nesse sentido, a avaliação formativa é a intervenção pedagógica que ocorre no curso da ação de ensinar e aprender.


Sob esta ótica, acompanhar a criança em seu desenvolvimento exige, um olhar teórico-reflexivo sobre seu contexto sócio-cultural e manifestações decorrentes do caráter evolutivo do seu pensamento, bem como a importância do professor em respeitar as individualidades e suas sucessivas e gradativas conquistas de aprendizagem em todas as áreas do conhecimento.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação, sancionada em dezembro de 1996, estabelece, na Seção II, referente à Educação Infantil, art.31 que a avaliação far-se-á mediante o acompanhamento e registro do seu desenvolvimento, sem o objetivo de promoção mesmo para o acesso ao ensino fundamental.

Sendo assim, pretendemos relatar, por meio de um recorte do trabalho realizado na Educação Infantil do CAU, a prática avaliativa desenvolvida em uma de nossas turmas com crianças na faixa etária entre 3anos e 11meses a 4anos e 8 meses. Nesta turma, o acompanhamento das brincadeiras e das interações realizadas por crianças de diferentes faixas etárias, sensibiliza o professor para que, ao compreender a importância da brincadeira, participe destes momentos, ora como espectador, observando as crianças enquanto brincam e ora como atores, escolhendo papéis, negociando modificações, enfim, brincando com as crianças. Assim, através dos objetivos elaborados para o trabalho, observamos o que cada criança realiza mediante a intervenção do outro e propomos novos desafios para a sua aprendizagem.

Para Hoffmann (1999, p.53), o professor é o mediador nesse processo e a avaliação enquanto ação se realiza à medida em que ele intervém, ele “faz educação”, a partir do que observou e interpretou em termos do desenvolvimento da criança.

Desta forma, organizamos a avaliação no Grupo Coraçãoiii, por meio de uma ficha de observação, onde registramos as ações e diálogos ocorridos entre os componentes do grupo, nos diferentes tempos propostos em sala, procurando identificar, de acordo com o Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil – RCNEI (1998)iv, a que eixo de trabalho as aprendizagens observadas pertencem (matemática, linguagem oral e escrita, música, movimento, natureza e sociedade, identidade e autonomia e artes visuais) e as habilidades que as crianças desenvolvem neste momento.

As habilidades a serem desenvolvidas nas diferentes faixas etárias, estão contidas nos objetivos de aprendizagem apontados pelo RCNEI (1998), a partir dos quais elencamos os critérios de avaliação a serem utilizados nos instrumentos de observação. Podemos citar como exemplo, os critérios selecionados para o 1º trimestre referentes ao eixo Identidade e Autonomia: expressão de escolhas; resolução de problemas; iniciativa para a cooperação nas rotinas diárias; relação com adultos e relação com as crianças.

Sendo assim, para que se possa acompanhar o processo educativo vivido pelas crianças, a avaliação deve se dar de forma sistemática e contínua, permitindo ao professor, de acordo com o RCNEI (1998, vol.1, p.61), selecionar falas, ações, reações e determinadas produções das crianças, ao longo de um período, para obter com mais precisão informações sobre sua aprendizagem.

Nesta direção, a forma de avaliar realizada pela professora do grupo Coração, é fruto de vários ensaios sobre a melhor forma de registrar o desenvolvimento do grupo e das crianças. No início deste ano letivo, elaboramos uma ficha para registrar os acontecimentos do grupo, sendo esta retomada diariamente, o que nos possibilitou acompanhar o processo evolutivo do grupo, além de redimensionar a ação educativa.


O QUE?


(o que está acontecendo, ou o que está sendo observado)

COMO?

(de que forma está acontecendo)

POR QUE?

(a origem, o motivo, ou o objetivo do que está acontecendo)

COM QUEM?

Qual(is) a(s) pessoa(s) envolvida(s)

Registro do trabalho que está sendo desenvolvido e depoimentos dos alunos e professores.




Tabela 1 Ficha de observação de acontecimentos do grupo

Os registros exigem tempo do professor, pois além de registrar as situações da sala, faz-se necessário o aprimoramento destas observações, selecionando as afirmações e a maneira como irá analisá-las para socializar com os pais, outros professores, coordenação, além de contribuir para a organização do portfólio do grupo.

Uma segunda ficha de observação utilizada em nosso trabalho, avalia a criança, registrando as suas aprendizagens.


Criança

(identificação)



Tempo

(em que tempo da rotina diária acontece)



Interação

(com quê ou quem a criança está trabalhando)



Comentários

(descrição da atividade, ação e reação da criança)



Eixos de Trabalho

Artes

Ling.

Mat.

Mov.

Mús.

N. e S.

I. e A.
































Tabela 2 Ficha de Observação do processo de aprendizagem
Esta ficha é mais utilizada no tempo em que as crianças escolhem a área de trabalho que desejam atuar. Este tempo incentiva a livre iniciativa, o respeito às regras, aguça a curiosidade, desenvolve a responsabilidade e autonomia.

Menos ênfase, é dada a um produto final, e sim ao processo da atividade, valorizando o desenvolvimento da criança, as negociações que consegue realizar e as conclusões e descobertas que obtém neste processo. Além disso, enfatizamos a capacidade da criança em aprender a ouvir, pensar, criar e elaborar estratégias para a tarde seguinte. À medida que o trabalho acontece, regras são construídas pelo grupo, combinadas de acordo com as atividades, necessidades e conflitos que surgem durante este tempo.

Neste sentido, a avaliação do grupo Coração, é composta por outros instrumentos como: registro de fotos que documentam e ilustram os relatos de experiência no portfólio do grupo; e os pareceres descritivos que relatam trimestralmente as vivências da criança e do grupo, sinalizando aos pais, as atividades realizadas pelo seu filho quanto ao desenvolvimento e aprendizagem, além de referências às formas de intervenção para superação das dificuldades.
CONCLUSÕES:
Neste relato procuramos expressar a caminhada e estudos realizados pela equipe da Educação Infantil do CAU, sobre a prática de avaliação formativa. Entendemos que as inquietações a respeito deste tema necessitam de mais reflexão e estudos, pois a essência do processo avaliativo é de compreender e acompanhar a criança para lhe oportunizar o desenvolvimento pleno.

Desta forma, diante dos estudos e do trabalho que viemos realizando, o que fica claro é que precisamos refletir sobre o agir e o pensar a respeito de todos os elementos da ação educativa, o que refletirá na concepção de avaliação que teremos.

Os avanços no processo de avaliação da aprendizagem exigem fundamentos teóricos que dêem suporte para tal intento. De acordo com Hoffmann (1999, p.50), a avaliação deve ter por fundamento uma concepção de educação que respeite cada momento de vida da criança, no seu tempo de ser e se desenvolver, ao contrário de parâmetros de julgamento de atitudes que a rotulam, estigmatizam comportamentos, julgam-na precocemente incapaz.

Enfim, enquanto mediação, a avaliação insere-se no processo educativo como um instrumento de reflexão, auxiliando o professor a tomar consciência do que deve mudar em sua ação docente, reorganizando o seu saber didático, além de reunir dados e reflexões sobre as crianças, suas aprendizagens, desenvolvimento e habilidades adquiridas, o que possibilita a formação de uma criança que interage com o grupo, questiona, discute e reflete sobre suas ações.


REFERENCIAS:
BORBA, Amândia Maria de. Identidade em construção: investigando professores na prática da avaliação escolar. São Paulo: EDUC, Santa Catarina: UNIVALI, 2001.

BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº 9.394/96. de 20 de dezembro de 1996.

HOFFMANN, J. Avaliação na Pré-Escola: um olhar sensível e reflexivo sobre a criança. Porto Alegre: Mediação, 1999.

SOUZA, P. R. Carta do Ministro. In: Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. _ Brasília: MEC/SEF, 1998, 3 V.



i Aluna do Programa de Mestrado Académico em Educação UNIVALI/SC. Professora do “grupo Coração”, da Educação Infantil do Colégio de Aplicação UNIVALI. E-mail: saio@univali.br


ii Mestre em Educação pela Universidade do Vale do Itajaí. Coordenadora Pedagógica da Educação Infantil do Colégio de Aplicação UNIVALI/SC. E-mail: lurdinha@univali.br


iii Nome escolhido pelas crianças no início do ano letivo, para identificar o grupo.


iv RCNEI - Documento instituído pelo MEC em 1998, como referencial para a Educação Infantil, o qual orienta também a nossa prática pedagógica.




Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal