Über die entwicklung der persönlichkeit



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C. G. Jung

O desenvolvimento da personalidade

CÍRCULO DO LIVRO

Edição integral Título do original: "Über die entwicklung der persönlichkeit"
Tradução: Frei Valdemar do Amaral
Revisão técnica: Dora Ferreira da Silva

ISBN 85-332-0813-8

Sumário

Prefácio dos editores suíços ............................................................ 2



I. Sobre os conflitos da alma infantil............................................... 3

II. Introdução à obra de Francês G. Wickes

Análise da alma infantil ............. .................................................... 35

III. A importância da psicologia analítica para a educação ............ 42

IV. Psicologia analítica e educação................................................. 57

V. O bem-dotado............................................................................. 123

VI. A importância do inconsciente para a educação individual ...... 133

VIL Da formação da personalidade................................................. 148

VIII. O casamento como relacionamento psíquico ......................... 167

Bibliografia ..................................................................................... 179

Prefácio dos editores suíços

A personalidade como expressão da totalidade do homem foi circunscrita por C. G. Jung como sendo o ideal do adulto, cuja realização consciente por meio da "individuação" representa o marco final do desenvolvimento humano para o período situado além da metade da existência. Jung, em todas as suas últimas obras, dedica atenção especial à compreensão e à descrição desse escopo. No entanto, é fato evidente que o "eu" se forma e se fortalece na infância e na adolescência. Seria inconcebível ocupar-se alguém com o "processo da individuação" sem considerar devidamente esta fase inicial do desenvolvimento.

O presente volume é uma compilação de trabalhos de Jung sobre a psicologia infantil. A parte mais importante é constituída por três preleções sobre "Psicologia analítica e educação". Jung considera que a psicologia dos pais e educadores é de importância decisiva no processo do crescimento e do amadurecimento da criança, sobretudo no caso da criança superdotada. Destaca mesmo como causa importante de distúrbios psíquicos na infância o relacionamento psíquico insuficiente entre os pais. Por isso, pareceu natural incluir-se igualmente a dissertação de Jung "O matrimônio como relacionamento psíquico". Também convinha ligar a problemática da infância à do amadurecimento do adulto (Selbstwerdung), e assim incluir ainda o ensaio "Sobre a formação da personalidade". É justamente esse ensaio que fornece o título e o tema para este volume.

Existe ainda o preconceito, muito difundido, de que a psicologia de C. G. Jung se refira unicamente à segunda metade da existência ou que seja válida apenas para essa fase da vida; mas os escritos aqui apresentados constituem por si mesmos a refutação de tudo isso. Em uma época em que se questionam os princípios educacionais, qualquer pessoa que tiver de ocupar-se com problemas de educação sairá lucrando se considerar devidamente as contribuições de Jung. Ninguém conseguirá educar os outros sem antes educar a si próprio; do mesmo modo, ninguém atingirá o amadurecimento pessoal sem a conscientização prévia.

Pela organização dos índices de pessoas e de assuntos, queremos agradecer cordialmente à sra. Elisabeth Imboden-Stahel e à Sra. Lotte Boesch-Hanhart.

Janeiro de 1972


Os editores (suíços)

I
Sobre os conflitos da alma infantil


[Publicado pela primeira vez em Jahrbuch fürpsychoanalytische und psychopathologische Forschungen II ("Anuário para pesquisas psicanalíticas e psicopatológicas" II) — Viena e Leipzig 1910, p. 33-58. Reimpressão como brochura em 1910 e 1916. Nova edição com o mesmo título, mas com novo prefácio, na Editora Rascher — Zurique 1939. Ligeiramente ampliado e acompanhado dos tratados IV e V deste volume, em Psychologie und Erziehung ("Psicologia e educação"), na Editora Rascher — Zurique 1946. Nova edição (Paperback) 1970.

Prefácio da segunda edição


Este pequeno trabalho permanece sem alterações nesta segunda edição. Ainda que, de fato, desde a primeira publicação destas observações em 1910 até o presente, se tenham mudado e ampliado as próprias concepções a respeito, mesmo assim sou de parecer que essas modificações posteriores nem por isso me autorizam a considerar que os pontos de vista apresentados na primeira edição estejam errados, como me vem sendo atribuído de certa parte. Conservam todo o seu valor tanto as observações relatadas como as concepções a respeito delas. Uma concepção jamais pode ser abrangente, pois sempre está dependendo do ponto de vista adotado. O ponto de vista escolhido para este trabalho é o da psicologia. Naturalmente, este ponto de vista não é o único possível, mas pode haver outro ainda, ou mesmo outros modos de considerar. Assim, mais de acordo com o espírito da psicologia freudiana, este tratado de psicologia infantil poderia ser considerado do ponto de vista puramente hedonístico; nesse caso, o processo psíquico seria visto como um movimento determinado pelo princípio do prazer. Os motivos seriam então o desejo e a busca daquela atuação da fantasia que proporcionasse o maior prazer e a maior satisfação possíveis. Ou por outra, segundo a proposta de Adler, o mesmo material poderia ser visto à luz do princípio do poder, que seria um modo tão válido em psicologia como o princípio do prazer. Seria possível ainda adotar-se a maneira estritamente lógica de considerar, visando acompanhar o desenvolvimento do processo lógico na criança. E até mesmo seria possível adotar-se o ponto de vista da psicologia da religião, com o intuito de destacar os começos na formação do conceito de Deus. Contentei-me em conservar uma posição intermediária, que mantivesse a linha de simples consideração psicológica das coisas, sem tentar acomodar o material a este ou àquele princípio fundamental, hipotético apenas. Com isso, naturalmente, não pretendo impugnar a possibilidade desses princípios, pois todos eles estão inclusos na natureza humana; apenas um especialista parcial poderia declarar como universalmente válido algum princípio heurístico, que fosse de valor especial para a sua disciplina ou para seu modo pessoal de considerar as coisas. Justamente por existirem vários princípios possíveis, é essencial em psicologia humana jamais tentar conceber as coisas à luz de um único desses princípios, mas sim procurar considerá-las sob diversos aspectos.

A concepção adotada neste livro tem por base a suposição de que o interesse sexual desempenha um papel causal no processo da formação do pensamento infantil, que de modo algum poderá ser negligenciado. Este pressuposto, certamente, não deverá encontrar nenhuma oposição mais séria. A posição oposta já teria certamente contra si um número muito grande de fatos bem observados, mesmo sem se tomar em conta que seria extremamente inverossímil dar-se o fato de um instinto, tão importante na psicologia humana, não começar a manifestar-se já na alma infantil, ainda que de forma rudimentar.

Em contrapartida, acentuo neste trabalho que o pensar e a elaboração dos conceitos são de grande importância para a solução de conflitos psíquicos. O que segue deveria bastar para esclarecer de uma vez que o interesse sexual incipiente, em sua atuação causal, apenas muito impropriamente tende para um alvo sexual determinado; sua atuação causal se orienta muito mais para o desenvolvimento do pensar. Se assim não fosse, a solução do conflito seria conseguida unicamente pelo fornecimento de um alvo sexual, e não pela ajuda em modificar a concepção intelectual. Mas é justamente este último caso que se dá. Daí será lícito concluir, invertendo a ordem, que a sexualidade infantil não apresenta exatamente a mesma natureza que a sexualidade adulta. A sexualidade adulta jamais aceita uma elaboração de conceito como sucedâneo pleno e equivalente, mas reclama que lhe seja fornecido o alvo sexual real e adequado ao uso da função normal, de acordo com a exigência da natureza. É verdade que a experiência nos mostra que também a sexualidade infantil pode levar à prática sexual real, na forma de masturbação, caso os conflitos não sejam resolvidos. É por meio da formação de concepções intelectuais que a libido encontra o caminho livre e apto para o desenvolvimento, de modo que lhe esteja assegurada sua atuação permanente. Quando o conflito atinge certa intensidade, a falta de formação da concepção intelectual passa a atuar como impedimento, repelindo de volta a libido para os rudimentos da sexualidade; é isto que constitui a causa de esses rudimentos ou germes serem desviados precocemente para um desenvolvimento anormal. Forma-se deste modo uma neurose infantil. Principalmente as crianças bem-dotadas, nas quais as exigências na ordem do pensar começam a desenvolver-se muito cedo devido a esses dotes intelectuais, correm perigo muito sério de descambar para a atividade sexual precoce, provocada pelas repressões pedagógicas de uma curiosidade tida como inconveniente.

Como se deduz desta explanação, não considero a função intelectual como se fosse apenas uma função surgida da perplexidade frente à sexualidade, que, por se ver tolhida em sua atuação na forma de prazer, seja forçada pela necessidade a transformar-se em função intelectual. Meu ponto de vista é que, na verdade, a sexualidade infantil primordial já encerra em si tanto os rudimentos da atividade sexual futura como também constitui a matriz em que germinam as funções intelectuais superiores. Em abono disso, tem-se o fato de ser possível resolver os conflitos infantis por meio da formação das concepções intelectuais, como também o fato de que, mesmo na idade adulta, os remanescentes da sexualidade infantil constituem a matriz onde germinam importantes funções intelectuais. Mesmo aceitando que também a sexualidade adulta se desenvolve a partir desses germes polivalentes, não se pode concluir de modo algum que a sexualidade infantil primordial seja pura e simplesmente sexualidade. Por isso, impugno a exatidão do conceito freudiano de que a criança é, por natureza, um perverso polimorfo. Trata-se apenas de uma disposição natural polivalente. Se quiséssemos proceder segundo o modelo freudiano para a formação de conceitos, então deveríamos, em embriologia, designar a membrana exterior como cérebro, porque dela provém o cérebro, ao longo do processo de formação. Mas, além do cérebro, também se formam a partir dela os órgãos dos sentidos e outras coisas.

Dezembro de 1915.

C. G. Jung


Prefácio da terceira edição

Já se passaram quase trinta anos desde que este trabalho foi publicado pela primeira vez. Parece, todavia, que esta pequena obra nada perdeu de sua vida própria; continua mesmo a ser procurada sempre de novo pelo público. De certo ponto de vista, certamente, ela não se tornou antiquada, enquanto relata simplesmente o desenrolar de fatos, que podem repetir-se por toda a parte, de modo mais ou menos parecido. Esta obra chama ainda a atenção para algo muito importante, tanto na teoria como na prática; trata-se da tendência específica da fantasia infantil de ultrapassar seu próprio mundo real, substituindo pela interpretação "simbólica" o racionalismo das ciências naturais. Esta tendência constitui uma manifestação natural e espontânea que, exatamente por isso, não poderá ser reduzida a qualquer repressão. Procurei destacar este ponto no prefácio da segunda edição, e esta observação também nada perdeu de sua atualidade, visto que o mito da "sexualidade infantil polimorfa" ainda vem sendo aceito com muito ardor pela maioria dos especialistas. Dá-se ainda valor exagerado à teoria da repressão, mas, de outra parte, continuam subestimados, se não completamente ignorados, os fenômenos naturais da "transformação da alma". A estes fenômenos dediquei em 1912 um extenso trabalho, do qual não se pode afirmar, até o momento, que já tenha chegado ao conhecimento geral dos psicólogos. Faço votos de que esta modesta relação de fatos desperte a reflexão do leitor. No campo da psicologia podem as teorias ter efeitos extremamente devastadores. Precisamos, com certeza, de alguns pontos de vista teóricos, por causa de seu valor orientador e heurístico, mas devem ser sempre vistos como meros modelos auxiliares, que podem ser abandonados a qualquer momento. É tão pouco ainda o que conhecemos da alma, que se tornaria deveras ridículo acreditar que já estivéssemos em condições de podermos estabelecer teorias gerais. Ainda nem sequer conseguimos determinar o ambiente empírico da fenomenologia psíquica. Nestas circunstâncias, como seria possível sonhar com teorias gerais? A teoria representa, inegavelmente, o melhor escudo para proteger a insuficiência experimental ou a ignorância. As conseqüências, porém, são lamentáveis: mesquinhez, superficialidade e sectarismo científico.

Pretender rotular os germes polivalentes da criança com a terminologia tirada do estágio de desenvolvimento pleno da sexualidade, será, certamente, empreendimento muito duvidoso. Este proceder levará a estender a interpretação sexual a todas as outras disposições infantis; deste modo, o conceito de sexualidade se tornará demasiadamente inflado e nebuloso, enquanto que os fatores espirituais aparecerão apenas como meras deformações do instinto. Tais considerações conduzem a um racionalismo que se torna incapaz de lidar com a natureza polivalente das disposições infantis, ainda que apenas de maneira aproximada. O fato de a criança já se ocupar com questões que para o adulto têm indubitável tonalidade sexual nem de longe quer significar que a maneira pela qual a criança se ocupa disso também deva ser considerada como sexual. Em estudo prudente e consciencioso dos fenômenos infantis, o emprego da terminologia sexual, no máximo, pode ser tomado como um "modo peculiar de falar" (façon de parlcr). E se isto é oportuno, também é questionável.

Assim, pois, permito que este escrito volte a ser publicado sem nenhuma alteração; apenas com pequenas correções.

Dezembro de 1938.

C. G. Jung
Prefácio da quarta edição
A leitura dos prefácios das edições anteriores permite concluir que o presente escrito tem de ser considerado como um produto que não deve ser retirado nem da época nem das circunstâncias em que surgiu. Deve conservar a forma de uma experiência única, qual marco miliário ao longo da estrada percorrida pelos conhecimentos em seu lento amadurecer. As observações contidas neste escrito continuarão a despertar o interesse do educador; por isso é que foram incorporadas ao presente volume. Assim como não é permitido tirar do lugar os marcos que indicam as milhas ou os limites, do mesmo modo nada foi mudado nesta obra, desde sua primeira publicação há trinta e cinco anos.

Junho de 1945

C. G. Jung

Na mesma época em que FREUD publicou seus comunicados sobre "Joãozinho"1, recebi de certo pai, entendido em psicanálise, uma série de observações a respeito de sua filhinha de quatro anos.

1. Freud, Análise da fobia de um menino de cinco anos.
Essas observações se pareciam em muitos pontos com os comunicados de Freud sobre "Joãozinho", e em outros até os complementavam. Senti-me, pois, quase que obrigado a tornar esse material acessível a um público maior. A incompreensão, para não dizer a indignação que o caso de "Joãozinho" provocou, foi para mim mais um motivo para publicar o material presente, que, sem dúvida, não se compara em extensão ao de "Joãozinho". Contudo aqui se encontram certas passagens que podem confirmar o quanto de típico trouxe "Joãozinho". A chamada crítica científica, na medida em que se dignou tomar conhecimento dessas coisas importantes, também dessa vez tornou a agir com precipitação, dando mostras de não ter aprendido ainda a examinar primeiro para depois julgar.

A menina, que, por sua intuição e vivacidade intelectual, nos forneceu as observações seguintes, é uma criança sadia e bem disposta, de índole um tanto temperamental. Nunca esteve seriamente doente; também jamais foram notados nela quaisquer "sintomas" causados pelo sistema nervoso.

Interesses sistemáticos mais vivos despertaram nessa criança por volta dos três anos: ela começou a fazer perguntas e a manifestar desejos fantasiosos. Os comunicados a seguir, lamentavelmente, carecem de uma apresentação concatenada, pois constam de pequenas narrações isoladas (Anekdoten), que descrevem uma vivência única, extraídas de todo um ciclo de coisas semelhantes; justamente por isso não permitem uma apresentação sistematizada cientificamente, mas apenas a forma novelesca. É um modo de apresentação que ainda não podemos condenar no estado atual de nossa psicologia, por estarmos ainda muito distante do ponto em que será possível distinguir com segurança infalível, em todos os casos, entre o típico e o bizarro.

Certa vez, quando a menina, à qual daremos o nome de Aninha, contava cerca de três anos, desenrolou-se entre ela e a avó o diálogo seguinte:

Aninha: "Vovó, por que teus olhos são tão murchos?"

Avó: "Porque eu já sou velha".

Aninha: "Mas ficarás jovem de novo, não é?"

Avó: "Não; bem sabes que vou ficar cada vez mais velha, e depois vou morrer".

Aninha: "Está bem, e depois?"

Avó: "Então eu me torno anjo..."

Aninha: "E depois disso, vais ser de novo uma criancinha pequenininha?"

Neste diálogo a criança encontra uma ocasião oportuna para resolver provisoriamente um problema. Já há algum tempo vivia perguntando à mãe se algum dia ela não poderia ter também uma boneca viva, uma criancinha, talvez um irmãozinho; a isso seguiam-se normalmente as perguntas acerca da origem dos bebês. Como tais perguntas surgiam apenas de maneira espontânea, e sem despertar atenção, os pais não lhes davam grande importância, mas tão-somente as entendiam com a mesma despreocupação com a qual a criança parecia perguntar. Assim, certo dia, lhe deram a explicação jocosa de que os bebês eram trazidos pela cegonha. Aninha, entretanto, já escutara de qualquer modo outra versão um pouco mais séria, a de que as criancinhas são anjos e moram no céu, mas um dia a cegonha as traz cá para baixo. Parece que esta teoria se converteu no ponto de partida para a atividade pesquisadora da pequena. Na conversa com a avó já se mostra que esta teoria pode ter uma aplicação geral. Por meio dela se resolve de modo mais suave o pensamento aflitivo da morte, como também o enigma sobre a origem dos bebês. Aninha parece dizer a si mesma: Quando uma pessoa morre, ela se torna anjo, e depois se torna criancinha outra vez. Soluções como esta, que conseguem matar pelo menos dois coelhos de uma só cajadada, não só costumam manter-se obstinadamente na ciência, como também, mesmo em uma criança, não podem ser desfeitas sem provocar certos abalos. Nesta simples concepção se encontram os elementos da teoria da reencarnação, que - segundo consta - continua viva na mente de milhões de pessoas.

Na história de "Joãozinho", o ponto crítico surgiu com o nascimento da irmãzinha; o mesmo ocorreu neste caso com a chegada de um irmãozinho, quando Aninha já estava quase com quatro anos. Com isso se tornou atual o problema da origem dos bebês, o qual, antes, pouco aparecia. A gravidez da mãe parecia, por ora, ter passado despercebida; pelo menos, não se notou nenhuma manifestação da criança a respeito disso. Mas à noitinha, na véspera do parto, quando já se manifestavam as dores na mãe, achava-se a menina na sala de trabalho com o pai. Este a tomou no colo e lhe perguntou: "Escuta, que é que acharias se hoje à noite ganhasses um irmãozinho?" "Então, eu o mataria" foi a resposta imediata. A expressão "matar" parece muito perigosa, mas, quando bem analisada, é até completamente inofensiva. "Matar” e "morrer" para a mente infantil apenas significam "afastar", de modo ativo ou passivo, como aliás Freud já o havia mostrado várias vezes. Eu mesmo tratei, certa ocasião, de uma mocinha de quinze anos, em cuja análise surgiu repentinamente uma idéia que retornou outras vezes. Era a poesia de SCHILLER Lied vou der Glockc ("Cantiga do sino"). A mocinha ainda nem tinha lido essa poesia, mas apenas a tinha folheado uma vez; somente se recordava de ter lido algo sobre uma "catedral". Não conseguia lembrar-se de mais nada. A passagem é a seguinte:

Da catedral,

Grave e temeroso,

Toca o sino

Um canto fúnebre etc.
Ai! É a esposa, a querida,

Ai! É a mãe fiel,

Que o negro príncipe das sombras

Retira dos braços do esposo etc.


Naturalmente, a filha ama a mãe e nem de longe pensa na morte dela, contudo a situação presente é esta: a filha deve acompanhar a mãe numa viagem de cinco semanas para visitar parentes; no ano anterior, a mãe tinha viajado sozinha, enquanto a filha (filha única e mimada) ficara sozinha em casa, com o pai. Infelizmente, nesse ano "a pequena esposa" é "retirada" dos braços do esposo, ao passo que, na verdade, seria preferível para a filhinha que "a mãe fiel" se separasse da filha.

"Matar" na boca de uma criança é por isso algo de inofensivo, tanto mais quando se sabe que ela usa a palavra "matar" indiferentemente para todos os modos possíveis de destruição, afastamento, aniquilamento etc. Em todo caso, merece alguma consideração a tendência que aí se manifesta. 2

2. Cf. com a análise do "Joãozinho".
Na manhã seguinte, bem cedo, ocorreu o parto. Depois de terminada a limpeza do quarto e apagados os vestígios de sangue, entrou o pai no quarto onde Aninha ainda dormia. Ela acordou com a entrada dele. O pai lhe deu a notícia da chegada do irmãozinho, e Aninha a acolheu com cara de espanto e de tensão. O pai tomou-a então no colo e a levou para o aposento em que a mãe ficaria durante o resguardo. A pequena lançou primeiro um olhar rápido para a mãe ainda meio pálida, e logo a seguir deixou perceber em seu rosto um misto de acanhamento e desconfiança, como se estivesse pensando: "E agora, que é que vai acontecer?" Aparentemente não demonstrava nenhuma alegria a respeito do recém-nascido, de maneira que os pais se decepcionaram um tanto com esse acolhimento tão frio. No decorrer de toda a manhã, a menina se manteve visivelmente afastada da mãe, o que despertou atenção tanto maior, porque ela era sempre muito agarrada à mãe. Mas, certo momento, quando a mãe estava sozinha, Aninha entrou correndo no quarto, e, enlaçando-a pelo pescoço, murmurou apressadamente: Então não ias morrer agora?

Torna-se então clara para nós uma parte do conflito que havia na alma da criança. A teoria da cegonha nunca tinha pegado direito, mas muito mais a hipótese da reencarnação, segundo a qual uma pessoa morre para que uma criancinha comece a viver. Nesse caso, a mãe deveria morrer - e como poderia Aninha nessas condições sentir qualquer alegria por causa do recém-nascido, contra o qual já se insurge o ciúme infantil? Por isso, no momento oportuno, precisa certificar-se se a mãe deve morrer ou não. A mãe não morreu. Esse desfecho feliz resultava, porém, em rude golpe para a teoria da reencarnação. E daqui para a frente, como deverá ser explicado o nascimento do irmãozinho, e de modo geral a origem dos bebês? Apenas restava a teoria da cegonha, que, sem dúvida, nunca tinha sido afastada expressamente, mas apenas de modo implícito, ao aceitar a teoria da reencarnação.3 As tentativas imediatas para chegar a uma conclusão explicativa, infelizmente, permaneceram ocultas aos pais, pois a menina foi mandada para a casa da avó, a fim de passar lá umas semanas. Como se evidenciou através dos relatos da avó, mais de uma vez retomou a conversa sobre a teoria da cegonha, de certo fomentada pela anuência do ambiente.

3 Aqui cabe propor-se a questão:

Em que se baseia, de modo geral, a suposição de que crianças desta idade possam interessar-se por tais teorias? A resposta está no fato de as crianças terem interesse muito intenso por tudo o que acontece ao redor delas e pode ser percebido pelos sentidos. Isto já transparece nas conhecidas e infindáveis perguntas do tipo "Por quê?" a respeito de todas as coisas possíveis. A seguir, convém tirar por uns instantes "os óculos da cultura", quando se pretende compreender a psicologia infantil. O nascimento de uma criança ê simplesmente o acontecimento mais importante para qualquer pessoa. Para o pensar civilizado, contudo, perdeu o nascimento muito daquilo que o faz em biologia algo de único e original. O mesmo vale também para a sexualidade em geral. Mas o espírito deve ter conservado em algum lugar aquela apreciação biologicamente correta, que as dezenas de milhares de anos nele deixaram impressa. E que outra coisa se poderia esperar com maior probabilidade do que o fato de que a criança ainda a possui e manifesta, antes que o véu da civilização se estenda sobre o modo primitivo de pensar?



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