Uerj I colóquio de Semiótica



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Desenho da língua
um entre-lugar da arte e da palavra


Maria Suzett Biembengut Santade (UERJ, FIMI e FMPFM)

Resumo


O trabalho objetiva-se no desenho como um entre-lugar da manifestação estético-artística e da linguagem expressiva usado pelo ser humano desde os tempos mais remotos. O desenho é a arte de representar visualmente objetos ou figuras através de traços e forma e, também, é esboço de qualquer arte por mais simples que seja. As ciências utilizam o desenho como um passo primeiro na idealização do objeto para depois materializá-lo na industrialização. O desenho artístico ou técnico representa as indagações do homem influenciado pelo sociocultural. Antes das imagens fotográficas, cinematográficas e televisivas, o desenho era praticado pelos artistas na representação fiel da natureza e da figura humana. Como arte mais primitiva, o desenho não se perde no percorrer dos séculos e, a cada instante, fortalece-se em efeitos computadorizáveis comungados à linguagem verbalizada. Na infância o desenho apresenta características ligadas ao desenvolvimento cognitivo e afetivo da criança que se expressa por meio do desenho para a compreensão daquilo que a circunda. Nas sugestões metodológicas escolares, estabelece-se o apelo visual mais adequado à aula de língua, privilegiando a atividade ilustrativa como um caminho para a exploração de conteúdos, respondendo assim à necessidade de aperfeiçoar a competência no discurso, espontâneo e de cunho literário, a propósito do desenho ilustrativo.

Palavras-chave: desenho; ensino-aprendizagem; metodologia visual.

Palavras Iniciais

Na essência da palavra, o desenho é a arte de representar visualmente objetos ou figuras através de traços, formas. Na verdade, o desenho é o esboço de qualquer arte por mais simples que seja. As ciências utilizam o desenho como um passo primeiro na idealização do objeto para depois materializá-lo na industrialização. O desenho artístico ou técnico representou e representa as indagações do homem influenciado por seu meio sócio-cultural. Antes das imagens fotográficas, cinematográficas e televisivas, o desenho era praticado pelos artistas na representação fiel da natureza e da figura humana. Hoje a arte de desenhar multiplica-se em desenhos técnico-industriais, artísticos, humorísticos e satíricos, gráficos, figurativos, etc. No entanto, o desenho na infância apresenta características ligadas ao desenvolvimento cognitivo e afetivo da criança. Ela se expressa através do desenho a compreensão daquilo que a circunda.

O desenho tem sido um meio de manifestação estético e uma linguagem expressiva para o homem desde os tempos pré-históricos. Neste período, porém, o desenho, assim como a arte de uma forma geral, estava inserido em um contexto tribal-religioso em que se acreditava que o resultado do processo de desenhar possuísse uma "alma" própria: o desenho era mais um ritual místico que um meio de expressão. À medida que os conceitos artísticos foram, lentamente, durante a Antiguidade separando-se da religião, o desenho passou a ganhar autonomia e a se tornar uma disciplina própria. Não haveria, porém, até o Renascimento, uma preocupação em empreender um estudo sistemático e rigoroso do desenho enquanto forma de conhecimento.

A partir do Século XV, paralelamente à popularização do papel, o desenho começou a tornar-se o elemento fundamental da criação artística, um instrumento básico para se chegar à obra final (sendo seu domínio quase uma virtude secundária frente às outras formas de arte). Com a descoberta e sistematização da perspectiva, o desenho virá a ser, de fato, uma forma de conhecimento e será tratado como tal por diversos artistas, entre os quais destaca-se Leonardo da Vinci.1

Assim, o desenho como a arte mais primitiva do homem, não se perde no percorrer dos séculos e no século XXI, a cada instante, fortalece-se em efeitos computadorizáveis comungados à linguagem verbalizada.

A semiótica peirceana conclama três tipos de signo que se integram, mas o desenho parece ser bem mais espontâneo e também consiste na recepção e reprodução de um objeto concreto, ou melhor, de um mapeamento de algo da realidade; e, ainda, o desenho pode representar seres alegóricos, fictícios, imaginários, fantásticos dentro do impossível possível. Essa representação do fantástico acontece quando a poesia redesenha a vida comum. Nas palavras de Fernando Pessoa “A minha alma é como um barco pintado/ que flutua qual cisne adormecido/ Sobre as ondas prateadas do teu doce canto.”2

Em síntese, dependendo do modo como se estabelece a relação entre signo e referente, assim se definem os três tipos de signos segundo Peirce (1978): (i) Ícone (semelhança) – corresponde à classe dos signos cujo significante mantém uma analogia com o que representa, isto é com o seu referente. Um desenho figurativo, uma fotografia de uma casa, são ícones na medida em que se “parece” com uma casa; (ii) Índice (contigüidade, proximidade) – corresponde à classe dos signos que mantém uma relação causal de contigüidade física com o que representam. É o caso dos signos ditos “naturais”, como a fumaça para o fogo e também com base na experiência, na história (como por exemplo, a cruz para o cristianismo, pois a base de transferência é a contigüidade histórica); e, Símbolo – corresponde à classe dos signos que mantém uma relação com seu referente. Os símbolos clássicos, como a pomba para a paz, a balança para a justiça entram nessa categoria, junto com a linguagem, aqui considerada como um sistema de signos convencionais.

Desenho da língua

Desde os tempos mais remotos o ser humano tem registrado suas marcas através de desenhos, sinais, ícones, etc. Os registros em forma de desenhos e pinturas nas cavernas apresentam a história do homem na sua vivência cultural. Na Idade Média os manuscritos tornam-se ilustrados no intuito de retratar as indagações culturais e religiosas da época. As antigas tapeçarias também espelham o conhecimento matemático da geometria no uso das cores, dos diagramas, das imagens.

Na Renascença a imagem passou a ocupar um espaço fixo nas artes plásticas e o desenho sempre se tornou significativo como base das pinturas, esculturas, arquiteturas e quaisquer ilustrações. Mas a iconização é um fenômeno moderno das sociedades ocidentais pós-industrializadas como comunicação técnica por meio de imagens, como afirma Almeida Jr. (1989:8). Através da imagem, das estórias em quadrinhos, da televisão, a imagem popularizou-se a partir do século XX, chegando às casas de diferentes pessoas de quaisquer estratos sociais. Não se pode esquecer de que a linguagem escrita é visual e os signos escritos hoje tão abstratos foram no passado desenhos os quais representavam a cultura do homem há mais de quatro milênios antes de Cristo. Assim confirma Almeida Jr. (1989: 9) que “o processo de iconização só foi possível graças ao processo tecnológico dos veículos de comunicação experimentado desde o início do século XX com o cinema, a televisão e, especialmente, com as novas técnicas de impressão jornalística”.

Com o progresso eletrônico a imagem passou a fazer parte do cotidiano das pessoas no mundo. Assim a linguagem oral vem acompanhando essa linguagem visual, massificando também o conteúdo das gerações atuais. Há o lado negativo da massificação da linguagem verbal e visual, fazendo que a população atual seja condicionada a não refletir sobre sua pessoa como elemento integrante dessa comunicação de massa.

Além da comunicação visual do movimento televisivo e cinematográfico emergem-se outras artes visuais como fotografias, cartazes, pôsteres, painéis, propagandas, placas, pichações, cartuns, etc., transmitindo mensagens a todo o instante aos leitores e transeuntes da zona urbana. Toda a contaminação da imagem tem chegado rapidamente às zonas rurais, modificando assim o comportamento do homem do campo. Quando se caminha pela cidade, mesmo pequena, observam-se as imagens estáticas em diálogo com os andantes, transformando o comportamento e as relações humanas. O comércio transforma-se através das propagandas, cartazes, seduzindo o consumidor na aquisição dos produtos. A persuasão acontece através das imagens dinâmicas e estáticas. As revistas, os jornais são veículos da comunicação escrita colaborados na ilustração pela linguagem visual. Há, também, os aspectos ideológicos dessas comunicações verbo-visuais em redes. As imagens esclarecem as matérias escritas, chocando ou interferindo faticamente o leitor. No entanto, a imagem traduz o sentido da mensagem de forma imediata, facilitando através da contemplação a compreensão do leitor-visual. Para um povo analfabeto e semi-analfabeto, a imagem comunica sem tampouco empobrecer totalmente a compreensão dele. Quando um indivíduo faz compras num shopping e/ou supermercado, ele consegue decodificar através do signo visual o conceito do produto. É claro que a imagem não dá conta de toda a compreensão verbal, porém é um facilitador para os não leitores-verbais.

A linguagem visual provoca sinestesia àquele que a interpreta. Através da imagem os cinco sentidos provocam-se nos anúncios publicitários, nas capas de revistas, etc. Observando as propagandas de produtos alimentícios, o paladar e o olfato instigam-se pelas cores, pelo efeito da comida em horários de refeição. Por exemplo, os sanduíches e os refrigerantes são representados pelas cores vermelhas e amarelas porque estas instigam o paladar. As cores frias nos produtos de limpeza instigam a higiene. A imagem produz num determinado grupo social reações próprias do mesmo. Por isso que o fenômeno da imagem emerge satisfatoriamente no momento histórico-social de determinada sociedade a qual nunca permanece igual em tempos diversos.

Quando a imagem emite ao receptor a mensagem, este participa do diálogo na completude da comunicação. Ao ser persuadido pela imagem, o sujeito transforma-se, integrando-se não mais de modo ingênuo no processo visual. O mesmo fenômeno acontece com a linguagem verbalizada. O texto transmite a informação e o leitor interagido nele (no texto) contextualiza-o, transformando, como ser sócio-histórico na prática lingüística. O discurso de cada indivíduo acentua-se na prática, e na enunciação o sujeito torna-se polifônico. Portanto, ao ser seduzido pela imagem, o sujeito materializa-se nela a qual o retrata no contexto social ao qual pertence. Nas palavras de Almeida Jr. (1989: 16) constata-se que “o fenômeno da comunicação social por imagens é uma manifestação concorrente com a produção da cultura de massa, essa forma recente de cultura ‘industrializada’, produzida nos países capitalistas altamente industrializados, a partir da segunda metade do século XX”. Portanto, a sociedade não se tornou icônica nesse século de forma inocente. Houve um interesse de poder capitalista entre o produtor e o receptor.

Como educadoras, não utilizamos o desenho, os diagramas, os gráficos no intuito de tornar a metodologia “modernosa” em sala de aula, nem tornar os alunos passivos na absorção dos conteúdos através das imagens. Porém, a alfabetização visual materializa os conceitos abstratos da gramática tradicional e, num caminho não-convencional, chega-se à compreensão lingüística. A passividade do aluno diminui nas práticas integradas, pois ele utiliza a sua criatividade visual na concretude das formas verbais. Quando se coloca o aluno no processo da significação dos aspectos formais lingüísticos, através de seus próprios desenhos, ele sente-se integrado na construção do conteúdo. Muitas vezes os conceitos lingüísticos ficam adormecidos no percurso escolar, mas quando a imagem aparece imediatamente ele recupera o conhecimento aprendido. Os literatos-poetas a partir da década de 50 passaram a utilizar as imagens na construção de suas poesias, chamadas concretas. Tais poesias relatavam (relatam) a oralidade, a linguagem visual e a linguagem formal da palavra. Nessa tríade lingüística constrói-se a significação poética na visualização das palavras as quais se arranjam, traduzindo o conceito intencional do sujeito-poeta.

Atualmente a computação gráfica utiliza a construção formal das palavras, comungadas com a imagem na propagação das mensagens. Os signos icônicos tornaram-se, na linguagem da multimídia, universais. A cada dia a linguagem visual reflete o conceito único da humanidade. As diferenças de interpretação acontecem na contextualização cultural de cada povo. No entanto, as oportunidades de encontro com outras culturas tornam-se reais com a Internet, com as imagens via satélite, etc. Já desde a Antigüidade a linguagem visual transmite as indagações sócio-culturais e históricas do homem. No rastro da evolução humana constrói-se uma leitura universal da imagem, mas cada indivíduo não pode perder seu imaginário, tornando-se alienado na sociedade em que vive. Com a globalização de informações o homem perde seus preconceitos e não deve perder a si mesmo enquanto sujeito criador.

O processo de gerar conhecimento como ação é enriquecido pelo intercâmbio com outros, imersos no mesmo processo, por meio do que chamamos comunicação. A descoberta do outro e de outros, presencial ou historicamente, é essencial para o fenômeno vida. Embora os mecanismos de captar informação e de processar essa informação, definindo estratégias de ação, sejam absolutamente individuais e mantenham-se como tais, eles são enriquecidos pelo intercâmbio e pela comunicação, que efetivamente são um pacto (contrato) entre indivíduos. O estabelecimento desse pacto é um fenômeno essencial para a vida. Em particular, na espécie humana isso é o que permite definir estratégias para ação comum. Isso não pressupõe a eliminação da capacidade de ação própria de cada indivíduo, inerente à sua vontade (livre-arbítrio), mas pode inibir certas ações, isto é, a ação comum que resulta da comunicação pode ser interpretada como uma in-ação resultante do pacto. (D’Ambrosio, 1998:24)

Nenhum é igual a outro na sua capacidade de captar e processar informações de uma mesma realidade. (D’Ambrosio, 1998: 25)

A escola utiliza a linguagem da imagem simplesmente para se encaixar na modernidade do hoje. A parafernália “jogada” na escola, como televisão, computadores, livros didáticos, não permite ao aluno refletir por ele mesmo. Há uma intenção político-pedagógica na distribuição de materiais os quais chegam fragmentados à escola, dando a impressão de uma escola preparada à imagem. Não há sucessos nessa utilização se não houver a conscientização pedagógica do educador. É natural na criança a compreensão de mundo pelo desenho. Desde cedo ela (a criança) traduz o seu interior e o mundo físico, desenhando suas indagações e participações no contexto social em que vive. Assim diz Almeida Jr. (1989:30) que “participando desse ambiente cultural desde criança e habituado a consumir informações de natureza iconológica, o educando chega à escola com seu apetite perceptivo para as imagens despertado e ampliado pelos meios de comunicação social”.

Ao analisar os conflitos pessoais de um paciente, que era cego, no aprendizado-novo sobre o mundo com as cores quando este paciente depois de 45 anos passou a enxergar após uma cirurgia, Oliver Sacks define a percepção visual com clareza científica. Desse modo, cada pessoa constrói seu mundo interior da forma como vê o mundo exterior. Nessa ação entre dois mundos processa-se o conhecimento visual. Na compreensão visual do mundo exterior, a pessoa cresce em suas atividades perceptivo-cognitivas. Assim também o aluno se encoraja a expressar-se cada vez mais através da linguagem visual, satisfazendo-se no aprendizado dos conteúdos-programáticos em sala de aula.

Não é um esforço para pessoas com a visão normal construir formas, contornos, objetos e cenas a partir de sensações puramente visuais; elas fazem essas construções visuais, um mundo visual, desde o nascimento e para tanto desenvolvem um vasto e desembaraçado aparato cognitivo. (Normalmente, metade do córtex cerebral é dedicada ao processamento visual). (Sacks, 1995: 149)

Todavia, os processos perceptivo-cognitivos, enquanto fisiológicos, também são pessoais – não se trata de um mundo que a pessoa percebe e constrói, mas de seu próprio mundo , e levam a, estão ligados a, um eu perceptivo, com uma vontade, uma orientação e um estilo próprios. (Sacks, 1995: 149)

Desenho na percepção da língua

Na construção da gramática, os filósofos se preocupavam com a contextualização dos significados da palavra. A significação da palavra multiplica-se em vários conceitos os quais podem ser denotativos ou conotativos de acordo com o contexto trabalhado. Há uma geografia sócio-lingüística onde as palavras são usadas de diferentes formas semânticas num mesmo país e até numa mesma região, dependendo do grau de instrução, idade, raça, sexo, entre outros.

O mesmo fenômeno acontece na imagem, pois cada leitor-visual interpreta-a de múltiplas maneiras perceptivas. Segundo Almeida Jr. (1989:95) “o significante do signo icônico situa-se no plano da expressão e é de natureza material (linhas, pontos, contornos, cores, etc.), enquanto que o significado ou a pluralidade de significados possíveis (polissemia) situam-se no plano lógico do conteúdo, sendo de natureza conceitual e cultural”.

A interação feita em sala de aula entre a informação gramatical e o desenho é simplesmente uma provocação perceptiva para que a aprendizagem do educando escoe numa metodologia leve sem distanciá-lo do conteúdo-programático necessário no avanço escolar (cf. Biembengut Santade, 2006). O aluno deve sentir sua pessoa na participação da oralidade e sua voz deve sair da cavidade bucal numa prévia produção dos fonemas, depois de ter passado pelo processo de decodificação e codificação. Ao escrever o texto, deve refletir sobre a produção do mesmo, pois cada palavra reproduz em leitura seu pensamento. O pensamento deixa de silenciar-se a partir do barulho da palavra articulada. Quando se lê ou fala, as imagens internalizadas em cada indivíduo concretizam as palavras. O discurso surge da/na prática, e do/no vivido de cada ser e a compreensão das palavras formam a enunciação dirigida pelas polissignificações de cada uma delas e juntas formam a enunciação. Na enunciação espraiam as imagens de cada enunciado que somadas formam a ideologia do texto.

Considera-se que o desenho é um método de conhecimento e de expressão e que assume, sempre, a dupla qualidade de exercício de percepção e exercício de representação. Neste sentido, o desenho constitui uma metodologia artística ou, se se quiser, uma estratégia artística, porque enquadra os processos sensoriais, perceptivos e intuitivos, de natureza estética e simbólica, envolvidos no processo de projeto.

Note-se, antes de mais, que Desenho é aqui tomado como produção gráfico-visual, que representa, compreende e comunica. Como um efetivo método de conhecimento. Note-se, ainda, que este texto estabelece diferenças importantes entre quatro termos, a saber: Semiótica, Semiose, semiótica ou semióticas e Semiologia. Entende-se a Semiótica como a teoria geral dos signos ou da Semiose, fundada e desenvolvida por C. S. Peirce entre 1867 e 1914. No interior desta teoria, entende-se a Semiose como a ação dos signos, isto é, o funcionamento e a operação dos signos, a interpretação de um signo e, também, a inferência a partir dos signos. Por sua vez, entende-se que a semiótica ou semióticas descrevem, organizam e explicam os vários sistemas de interpretação que são os sistemas específicos de signos; é neste sentido que se fala de uma semiótica da Arquitetura ou de uma semiótica do Desenho. Por fim, entende-se a Semiologia como uma translingüística que estuda os sistemas de signos reportando-os à linguagem verbal ou, se se quiser, à ciência lingüística tal como foi proposta por Saussure e desenvolvida, posteriormente, por Hjelmslev, Buyssens, Barthes.3

Santaella (1998:36), apoiada na teoria geral dos signos peirceanos, relata que o processo perceptivo acontece entre o frescor das coisas em si mesmas e o processo da aprendizagem. Assim, diz que, dentre as centenas de definições de signo, ou variações em torno de um mesmo tema, Peirce nos legou a definição de signo dando múltiplas possibilidades fenomenológicas na compreensão da realidade. Na visão peirceana, Santaella diz que o signo representa o objeto porque, de algum modo, é o próprio objeto que determina essa representação. Porém, aquilo que está representado no signo não corresponde ao todo do objeto, mas apenas a uma parte ou aspecto dele. O signo é sempre incompleto em relação ao objeto. Para a autora, a percepção, que na sua realidade de acontecimento sempre aqui e agora está sob o domínio da secundidade, o que não quer dizer que ela não tenha também a marca da terceiridade, pois é essa marca que lhe dá condições de generalidade para significar.

Vejamos a definição de signo segundo Peirce (apud Santaella, op. cit., 38):

Um signo intenta representar, em parte (pelo menos), um objeto que é, portanto, num certo sentido, a causa ou determinante do signo, mesmo que o signo represente o objeto falsamente. Mas dizer que ele representa seu objeto implica que ele afete uma mente, de tal modo que, de certa maneira, determina, naquela mente, algo que é mediatamente devido ao objeto. Essa determinação da qual a causa imediata ou determinante é o signo e da qual a causa mediata é o objeto pode ser chamada de interpretante. (CP 6.347)

Para Santaella, essa definição a agrada muito, pois há um grande número de modalizações do tipo: “em parte (pelo menos)”... “num certo sentido”... “de certa maneira”... “pode ser”... A autora, valendo-se da citação mencionada, afirma que as expressões indicam indeterminação que cerca a definição embora haja a lógica de indeterminação na relação do signo com o objeto e na relação do signo com o interpretante. Assim extrai da definição (1998:39): (1) que o signo é determinado pelo objeto, isto é, o objeto causa o signo, mas (2) o signo representa o objeto, por isso mesmo é signo; (3) o signo só pode representar o objeto parcialmente e (4) pode até mesmo representá-lo falsamente; (5) representar o objeto significa que o signo está apto a afetar uma mente, isto é, produzir nela algum tipo de efeito; (6) esse efeito produzido é chamado de interpretante do signo; (7) o interpretante é imediatamente determinado pelo signo e mediatamente determinado pelo objeto, isto é, (8) o objeto também causa o interpretante, mas através da mediação do signo.

Valendo-nos dessa indeterminação da apreensão do signo com o objeto e do signo com o interpretante, observamos que o domínio perceptivo do intérprete-aluno em sala de aula aguça-se através dos seus próprios desenhos na compreensão dos aspectos da língua, pois o espontâneo das idéias passa a criar formas imagéticas no seu julgamento lingüístico. Santaella acredita que a percepção é o processo mais privilegiado para colocar na frente do nosso pensamento a massa dos três elementos de que somos feitos: o físico, o sensório e o cognitivo. O papel cognitivo na percepção é desempenhado pelo julgamento perceptivo. No que diz respeito ao julgamento, a autora (1998: 91-92) observa que:

O julgamento de percepção, por ser um signo, ocupa a posição de um primeiro. Diante da porta que vemos, o que vem primeiro é o julgamento de percepção. Este é o efeito que ela produz em nós, caso contrário estaríamos totalmente desprovidos de qualquer capacidade de sobrevivência, incapazes de orientação, reação e compreensão. Mas o julgamento de percepção, da natureza de um signo, é determinado por um objeto dinâmico, que tem primazia real sobre o signo. Esse é o percepto. É na interação corpo-a-corpo com ele que o papel físico da percepção é desempenhado.

O percepto é aquilo que aparece e se força sobre nós, brutalmente, no sentido de que não é guiado pela razão. Não tem generalidade. É físico, no sentido de que é não-psíquico, não-cognitivo, quer dizer, ele aparece sob uma vestimenta física. É um acontecimento singular que se realiza aqui e agora, portanto irrepetível. Trata-se de um cruzamento real entre um ego e um não-ego, secundidade. Percepto etimologicamente tem o significado de apoderar-se, recolher, tomar, apanhar, ou seja, alguma coisa, que não pertence ao eu, é tomada de fora. É algo compulsivo, teimoso, insistente, chama a nossa atenção. Algo que se apresenta por conta própria e, por isso, tem força própria.

Palavras Finais

O processo metodológico diferenciado para o ensino-aprendizagem da língua portuguesa levou-nos a desenhar a língua e, de alguma forma, a reconhecer os inúmeros aspectos nela implicados. Assim, é pertinente refletir nos conceitos gramaticais fora da compreensão do aprendiz, em especial, nas séries intermediárias do ensino fundamental, e que muitas vezes são utilizados de forma fragmentada, nas diferentes categorias da norma lingüística sem os materiais de recursos impressos e tecnológicos. Vale ainda assinalar que, na diversidade das características territoriais, socioeconômicas e culturais múltiplas, nas diferentes demandas e necessidades dos alunos, a língua está sendo posta e exposta na escola como objeto fora dos usuários da língua.

Conclui-se que o desenho da língua torna-se um entre-lugar da arte e da palavra. O desenho da língua não busca, em princípio, a formalidade de regras, pois a arte é signo. No imaginário das crianças, o ícone é o signo da criatividade e está ligado à faculdade de ver os desenhos nos aspectos lingüísticos e de sentir a vida ilustrada. No entanto, na teoria dos signos Peirce relata que, como a própria primeiridade, o ícone puro simplesmente não poderia existir se não houvesse a interação da comunicação. E, para isso, o signo depende não só de uma lei, ou melhor, de uma forma fixa, mas principalmente dos atos perceptivos da língua.

Referências Bibliográficas

ALMEIDA JR., João Baptista de. Ter olhos de ver: subsídios metodológicos e semióticos para a leitura da imagem. Dissertação de Mestrado, FE-UNICAMP, 1989.

BIEMBENGUT SANTADE, Maria Suzett. A palavra e o desenho: uma interação da semântica e da semiótica na aprendizagem da língua. Pesquisa de Pós-Doutoramento realizada no Instituto de Letras da UERJ-Rio de Janeiro sob supervisão de Darcilia Simões, 2006.

D’AMBROSIO, Ubiratan. Educação matemática: da teoria à prática. 4ª ed. Campinas: Papirus, 1998.

DESENHO. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Desenho . Consultado em 15/10/2007.

LISBOA, Fernando. A semiótica de Charles Sanders Peirce: Ensaio preliminar. Disponível em http://home.kqnet.pt/id010313/html/8.html . Consultado em 15/10/2007.

PEIRCE, Charles Sanders. Ecrits sur lê signe. Seuil, 1978.

PESSOA, Fernando. O teu doce canto. Disponível em http://www.prahoje.com.br/pessoa/

SACKS, Oliver W. Um antropólogo em Marte: sete histórias paradoxais. Trad. Bernardo Carvalho. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.



SANTAELLA, Lúcia. A percepção: uma teoria semiótica. 2ª ed. São Paulo: Experimento, 1998.

1 Cabe relembrarmos os grandes mestres do desenho nos séculos XV e XVI incluem Leonardo da Vinci, Albrecht Dürer, Michelângelo e Rafael. No século XVII, destacam-se Claude, Nicolas Poussin, Rembrandt e Peter Paul Rubens. No século XVIII, Jean-Honoré Fragonard, Francisco Goya, Giovanni Battista Tiepolo e Antoine Watteau. No XIX, Jacques Louis David, Edgar Degas, Theodore Gericault, Odilon Redon, Henri de Toulouse-Lautrec, Paul Cézanne e Vincent Van Gogh. Finalmente, no século XX, pode-se destacar Max Beckmann, Willem De Kooning, Jean Dubuffet, Arshile Gorky, Paul Klee, Oscar Kokoschka, Henri Matisse, Jules Pascin, Pablo Picasso e Jackson Pollock. Informação retirada do dicionário Wikipédia, a enciclopédia livre. Página anteriormente citada.

2 PESSOA, Fernando. O Teu Doce Canto. Texto disponível em: http://www.prahoje.com.br/pessoa/

3 Cf., a este respeito, LISBOA, Fernando. A Semiótica de Charles Sanders Peirce: Ensaio Preliminar. Texto disponível em: http://home.kqnet.pt/id010313/html/8.html





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