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MÁXIMO GORKI:


(O teatro a serviço da revolução – 1901 / 1914)

Maria Luiza Faria Brito


“O escritor é o porta-voz emocional de seu país e de sua classe, é seu ouvido, olhos, coração; é a voz de sua época. Deve saber tanto quanto seja possível o passado para melhor compreender o seu tempo; e quanto melhor o conheça, mais veraz e profundamente apreenderá o ca-ráter universalmente revolucionário de nossa época e o alcance de suas tarefas”.


GORKI, Máximo. Como aprendi a escrever, pág. 89.

“(...) o mérito de Gorki não está no fato de ter agradado, e sim ter sido o primeiro na Rússia e, de um modo geral, no mundo, a falar com desprezo e aversão da pequena burguesia, e de ter falado justo no momento em que a sociedade estava preparada para este protesto”.


Anton Pavlovitch Tchekhov

1. Introdução
Aleksei Maksimovitch Pechkov nasceu em 16 de março de 1868, pelo calendário russo antigo, na pequena cidade de Nijni Novgorod – depois rebatizada de Gorki em sua homenagem –, e morreu em Moscou em 18 de junho de 1936. Durante sua vida, adotou o pseudônimo literário Maksim “Gorki”, palavra russa que significa “amargo”.
Considerado o maior escritor russo do século XX, sua vida abrangeu um período bastante turbulento na história do país, marcado pela crise e o fim do czarismo e o início e a consolidação do regime bolchevista. Autor de uma obra extensa, sua produção literária será fruto da sua experiência de vida, surgindo como uma verdadeira crônica do cotidiano do povo russo.
Autor de inúmeros romances e peças teatrais, Gorki destacou-se desde o início de sua produção literária como um feroz opositor do regime czarista, lutando por profundas transformações que trouxessem felicidade ao povo russo. Mais do que tudo, sua obra será isso, um apelo incansável à revolução. Romancista brilhante, mas é sobretudo para o Gorki dramaturgo que este trabalho se voltará.

(Maksim Gorki, 1900)


O trabalho cobrirá a produção teatral gorkiana em um período histórico que se estende de 1901, quando escreve a sua primeira peça, até o final de 1913, ano que marca o seu retorno à Rússia após um processo de anistia promovido pelo czar Nicolau II1. Com a Revolução de outubro de 1917, sobretudo a partir de 1928, durante a época stalinista, quando do seu novo retorno da Itália coberto de glórias, o seu teatro vai perdendo o fervor revolucionário, sendo apropriado pela propaganda bolchevista. Desde então, de uma arma a serviço da revolução, transforma-se ( com sua conivência? ) em um instrumento da propaganda revolucionária.
2. O Contexto Histórico: a Rússia Czarista
A Rússia, no final do século XIX e início do XX, era o país de maior população da Europa. A maioria dos seus habitantes vivia no campo, constituindo uma sociedade tipicamente agrária na qual predominava as relações de trabalho servil, em acelerado processo de desintegração.
A situação do camponês era precária, vivendo em condições miseráveis, assolado pelas doenças, subnutrição, fome e analfabetismo. Sua vida esteve vinculada à terra até 1861, quando o Czar Alexandre II (1855-1881), impondo medidas modernizadoras ao país, libertou os servos da tutela dos senhores da terra.
A libertação dos servos, contudo, não se deveu a uma atitude humanitária do Czar. Ao contrário, resultou da compreensão de que o atraso do país e a humilhante derrota sofrida na Guerra da Criméia (1854- 1856) se deviam a esta instituição que era a servidão. O Czar percebeu o problema e antecipou-se a resolvê-lo, como se pode ver na frase dita em uma audiência com a nobreza: “Melhor abolir a servidão de cima para baixo do que permitir que ela seja abolida de baixo para cima”.
A terra estava dividida em grandes e pequenas propriedades, e nos mirs, comunidades organizadas por aldeias, os camponeses lavravam coletivamente a terra. Essas comunidades aldeãs, institucionalizadas pelo “Estatuto de Abolição da Servidão”, poderiam, pela reforma agrária proposta, comprar terras, organizando um fundo comum para serem periodicamente redistribuídas entre os camponeses.
Contudo, se à primeira vista essa medida poderia servir para reforçar a propriedade comunitária, outros dispositivos legais acabariam por impor a sua desintegração. Por exemplo, as reformas levadas adiante pelo ministro Stolypin, em 1906, estabeleceriam que, se um camponês pudesse pagar pela terra de uma só vez, ele não só escolheria o seu lote como também se tornaria proprietário.
Com o tempo, isso vai provocando uma certa diferenciação social nas aldeias, fazendo surgir uma categoria de camponeses independentes e com melhor padrão de vida (os kulaks), ameaçando assim seria-mente a solidariedade de classe. Embora a comuna sobrevivesse até a revolução de 1917, ela perdeu sua força, corroída pelo aparecimento dos kulaks e pelo desenvolvimento de relações capitalistas no campo.
Se a situação do camponês era ruim, a do trabalhador urbano não diferia muito. Suas condições de vida eram precárias, a jornada média de trabalho situava-se entre 12 e 15 horas diárias, não havia escolas, sendo obrigado desde os nove anos a ir para as fábricas. Percebe-se isso ao ler o depoimento de um operário russo da época: “Nós nos vendemos aos capitalistas por um pedaço de pão preto; guardas nos agridem a socos para nos habituar à dureza do trabalho; nós nos alimentamos mal, nos sufocamos com a poeira e o ar viciado”.
O proletariado russo, concentrado em grandes centros urbanos desde o século XIX, mostrou-se socialmente reivindicativo e politicamente contestador. Greves e motins eram frequentes, apesar da proibição que vigorou até 1905, a organização de sindicatos era proibida, sendo violenta a repressão por parte da polícia do czar a qualquer movimento popular.
A burguesia russa, relativamente fraca e pouco numerosa, representava os interesses das peque-nas e médias empresas, pois o grande capital industrial estava sob o controle estrangeiro. De um modo geral, voltava-se para o liberalismo, almejando transformar a Rússia numa monarquia constitucional, ao estilo inglês.
Do ponto de vista da estrutura política, o Estado russo organizava-se numa monarquia absolutista, exercendo o czar poderes ditatoriais, governando por decretos e por instrumentos jurídicos de exceção. Impe-rava a ausência de liberdade individual, a censura à imprensa, a proibição de greves e o direito de reunião, sendo arbitrária a decretação de penas de prisão e de exílio para aqueles que não se submetessem à vontade do soberano. Enfim, era uma época de terror.
A burocracia, a aristocracia, o exército e a Igreja Ortodoxa eram os grandes sustentáculos do poder na Rússia czarista. Numeroso, mas fraco, o exército era frequentemente utilizado na repressão às camadas populares e às nacionalidades não-russas, sobretudo a partir de 1881, quando se adotou uma forte política de russificação em relação às demais nacionalidades (finlandeses, letões, ucranianos, georgianos, lituanos, armênios etc.) que faziam parte do império.
De um modo bastante resumido, seria esse o contexto histórico no qual nasceu e viveu Gorki. Con-texto, aliás, que ele a partir do seu trabalho artístico lutou efetivamente para transformar.

3. A politização da Arte: “o teatro a serviço da Revolução”
O menino nasceu2 em uma família pobre na cidade de Nijni-Novgorod, à beira do Volga, filho de Maksim Savatievitch Pechkov, marceneiro, e de Varvara, filha do tintureiro Basílio Karchirin e de Akoulina Ivanovna. (GORKI, 2007)
Sua infância e juventude foram marcadas por muitas dificuldades. Órfão de pai aos seis anos, e sofrendo com as sucessivas ausências da mãe, é criado na casa dos avôs maternos, onde sofreu violência física. Com a morte da mãe, logo após o seu sepultamento, o avô manda-lhe com seus dez anos partir por entre os homens, ir ganhar o seu pão. Depois de viver e trabalhar nos mais diversos ofícios, cada vez mais triste e amargurado, e sempre tolhido do seu maior prazer, a leitura, Gorki tenta sem sucesso o suicídio, o que lhe deixaria profundas sequelas para o resto da vida. (GORKI, s/d)

(Casa do avô, onde Gorki viveu quando criança – primeira casa à esquerda).


Tendo frequentado pouco a escola, tenta sem sucesso alcançar a universidade, descobrindo então que na Rússia esse lugar não era para pobres. Mas não desiste do sonho de instruir-se e tornar-se um escritor. Sua verdadeira universidade, contudo, dirá mais tarde, será as andanças que fez pelo país, na qual sentiria de perto as dores e as dificuldades do povo russo, de onde tiraria a inspiração para produzir os seus livros.
Na Geórgia aproxima-se de grupos de orientação marxista, iniciando efetivamente a sua militância política. Paralelamente, começa a escrever com regularidade, publicando em 1892 na revista Kavras o seu primeiro conto, Makar Tchundra, considerado por ele a obra que lhe abrirá as portas do mundo literário. A partir desse momento, passa a assinar Máximo “Gorki” (o amargo).
Deste então, não para mais de escrever. Publica em 1893 os contos Na Estepe e A Velha Izergui. Porém, só se faz notar como escritor em 1895, quando publica em um influente jornal de São Petersburgo sua novela Tchelkach. Em 1897 publica Malva, Konovalov e Gente Esquecida. Dois anos depois, em 1899, escreve Vinte seis e uma e, em capítulos na revista marxista Jizn ( Vida ), Foma Gordeiev, texto considerado aqui como o fechamento de um ciclo, menos político e mais literário.
Já possuindo uma certa fama como escritor, e seguindo um conselho de Tchekhov3, Gorki muda-se em 1899 para São Petersburgo, então capital do império, passando na cidade até 1906 a maior parte do seu tempo, época em que se aproxima cada vez mais do Partido Social-Democrata Russo. Em 1901 publica na revista Jizn ( Vida ) o seu poema revolucionário Canto do pássaro da tempestade, sendo de imediato o seu exemplar recolhido pela polícia. Nesse ano é preso, sendo logo libertado por pressão da opinião pública.
É nesse período que dará uma grande virada na sua atividade literária, quando, mais uma vez influenciado pelos conselhos do amigo Tchekhov, descobre o teatro4. Essa descoberta transformará a arte de Gorki num poderoso instrumento de luta, que ele porá efetivamente a serviço da conscientização do povo russo, da revolução socialista. “Na cena – diz GOURFINKEL (1964: 20) – o homem novo de Gorki encontrava um acréscimo de ressonância, graças ao poder emotivo da acção directa no público que faz do teatro uma arte revolucionária por excelência. A partir de então seus textos ganham uma dimensão mais política e panfletária.
Com a popularidade em alta, após ter sido eleito em 1902 acadêmico honorário pela Academia Russa, e a escolha vetada a pedido o czar5, Gorki recebe do Teatro Artístico de Moscou um convite para encenar a sua primeira peça, Pequenos Burgueses ( Meschane )6.
O texto da peça, escrito em 1901, recebe a princípio o título de “Cena em Casa dos Bessemenov: Esboço dramático em Quatro Atos”. Avaliando o perigo que ela poderia oferecer, a censura faz na obra inúme-ros cortes, o que chegou a provocar grande desagrado entre os seus leitores. Mesmo em parte censurado, o livro obtém na época um grande sucesso de vendagem, sendo acolhido com grande entusiasmo pelo público.
Na peça, cuja ação se passa numa cidade de província da Rússia nos primeiros anos do século XX, Gorki aborda de maneira vigorosa o conflito de geração no seio de uma família da pequena burguesia, como um micro-cosmo da sociedade russa na época czarista, procurando mostrar a oposição entre os poderosos, representantes de um modo de vida tradicional, e os grupos sociais emergentes que a eles se opunham. (GORKI, 1976) Os seus personagens – seis se apresentam com maior destaque – vivem em um meio mesquinho, revelando-se quase sempre impotentes para vencer as barreiras impostas por esse meio.
O velho Vassili Bessemenov, o mais conservador e o mais inflexível, é o patriarca falido que, apesar de todo o esforço pelo bem-estar da família, não consegue concretizar algumas de suas expectativas em relação aos filhos. Trabalhou sem descanso, se esforçou ao máximo, trapaceou para melhorar de vida, para descobrir que tudo isso foi em vão. Com sua visão conservadora do mundo, não consegue compreender o seu tempo, nem as novas gerações com os seus valores e comportamento, encarando tudo como extravagância, imoralidade e final dos tempos.
A velha Akoulina Ivanovna, mulher dedicada ao marido e aos filhos, vivia constantemente angustiada pelo permanente desejo de evitar o conflito no seio da família, tentando de tudo para fazer com que todos se amassem. Bessemenov e Akoulina, aferrados aos antigos valores, culpam a tudo pela desagregação da famí-lia, estando prontos a condenar todos aqueles que se opunham às suas idéias.
Os filhos, Tatiana e Piotr, cada um por seus motivos, não conseguem romper com os valores sociais que asfixiam a vida familiar, vivendo cercados por um muro de falsos deveres e obrigações. Piotr vive as turras com o pai por causa da sua atividade política, é apaixonado por Elena, a quem o velho atribui uma conduta imoral. Tatiana é uma solteirona de 28 anos que os pais desejariam ver casada, pelo menos para evitar as insinuações dos amigos e dos vizinhos.
O casal Nil Vassilievitch, operário e afilhado de Bessemenov, e sua namorada Polia, são os perso-nagens que na peça representam o modelo do “homem novo” – indivíduo sem nenhum compromisso com a ordem social opressora, rebelde e amante da liberdade, o anunciador da nova sociedade. Ambos se assemelham, sendo a moça descrita “como uma pessoa modesta e simples, capaz de qualquer heroísmo, sem nenhuma ostentação”, estando os seus valores em permanente oposição aos da família Bessemenov.
Ansiosamente aguardada pelo público, não se sabia ao certo se a peça chegaria a estrear. Em meio à grande tensão política da época, sua encenação foi a princípio recusada. Cercada de preocupação por parte das autoridades de segurança, a peça é enfim liberada com alguns cortes e somente para a apresentação perante um público seguro. Sua estreia é então marcada para o dia 26 de março na cidade de São Petersburgo.
O afluxo de público foi grande na estreia, motivado não só pelo interesse cultural que despertava a peça, mas também pelo desejo de promover um desagravo ao autor quanto ao veto a sua escolha como membro honorário pela Academia Russa. O clima era tenso; o elenco antes da apresentação pede à plateia que se mantivesse calma para que o autor não fosse prejudicado e assim pudesse continuar escrevendo.
Nos espetáculos que se seguem, antes do seu início, Nemirovitch-Dantchenko – um dos diretores do grupo teatral – tinha o cuidado de dirigir-se para a parte popular do teatro, cujos lugares eram gratuitamente distribuídos para o público estudantil, para pedir-lhes que se abstivessem de quaisquer manifestações mais calorosas. Por precaução a polícia substituiu os arrumadores por agentes. Depois de São Petersburgo, a peça é apresentada em Moscou e em outras cidades da Rússia, ultrapassando em dezembro do mesmo ano as fronteiras do país, sendo encenada em Berlim e Viena.
Como os Pequenos Burgueses não havia dado problema à polícia, a censura resolveu autorizar a encenação de uma nova peça de Gorki, Albergue Noturno7. Escrita durante o ano de 1902, a peça estreou no dia 18 de dezembro, alguns meses depois da primeira, também encenada pelo Teatro Artístico de Moscou. Com ela Gorki permanece na sua linha de utilizar-se do teatro como uma arma de luta pela revolução.
Em Albergue Noturno, Gorki trata de uma hospedaria onde convivem pessoas que tiveram boas posi-ções sociais, mas agora decadentes, com pessoas do povo, todas vivendo de uma forma miserável (no sentido econômico da palavra), mal tendo o que comer e como se agasalhar. A importância do albergue é aqui crucial dado à impossibilidade de se viver na rua durante o terrível inverno russo. (GORKI, 1972)
Dos inúmeros personagens que vivem no albergue, destaca-se a figura de Luka – na peça, o modelo dohomem novo” –, um humanista que filosofa sobre a condição humana dos que vivem no fundo do poço, e que consegue manter-se íntegro, embora massacrado, porque, apesar de tudo, tem uma grande esperança na humanidade. Mergulhado no mesmo ambiente de miséria em que viviam os personagens do albergue, Luka era diferente, porquanto desejava uma transformação radical da sociedade.
Gorki participou ativamente da montagem da peça, que na capital se constituiu num grande sucesso. Contudo, foi na província que o público reagiu com maior exaltação teatral, a ponto de lá a censura requerer uma autorização especial para cada montagem, tendo o texto que ser previamente aprovado. A peça foi ainda proibida nos teatros populares e nas outras línguas do império. Apesar disso, teve inúmeras encenações em diferentes cidades.
Além de alcançar um grande sucesso de público, a obra teve também um grande êxito de livraria, vendendo na primeira edição cerca de 40.000 exemplares, ficando sua venda esgotada em duas semanas. Durante o período de um ano, havia sido vendido em todo país um total de 75.000 exemplares, superando as vendas do livro anterior. Antes da sua estreia, o amigo Anton Tchekhov leu e cobriu de elogios a obra8.
(Tchekhov e Gorki, 1900).
A peça que se segue ao Albergue Noturno é escrita dois anos depois, em 1904, recebendo o título de Os Veranistas ( Datchniki ). Nela, a tendência ao manifesto panfletário tornou-se ainda mais evidente.
Sem ter, contudo, alcançado o sucesso obtido pelos dois trabalhos anteriores, a peça não deixou de fazer algum barulho, sendo acolhida pelo público como um comício político. Durante uma apresentação em São Petersburgo, a parte mais conservadora da plateia tentou fazer uma manifestação contrária, sendo logo abafada pela parte progressista, em maioria, fazendo uma aclamação ao autor que se encontrava no teatro.
A situação política e social no país tornava-se cada dia mais tensa, era grande o perigo de uma convulsão social. A gota d’água deu-se no dia 9 de janeiro de 1905, quando em um movimento pacífico os operários, apoiados pelo padre Gapon, decidiram realizar uma caminhada ao Palácio de Inverno para entregar uma petição ao czar Nicolau II pedindo melhores condições de vida e de trabalho. O ato terminou em uma grande chacina. Indignado com a selvageria realizada pela guarda imperial, Gorki escreve o manifesto Apelo a todos os cidadãos russos e à opinião publica dos Estados Europeus. Identificado o seu autor, é preso em 11 de janeiro e encarcerado na fortaleza Pedro e Paulo, sendo solto no dia 20 de fevereiro mediante pagamento de fiança9.
Durante o tempo em que passou na prisão, Gorki escreve a peça Os Filhos do Sol ( Dieti Solntza ), considerada por ele mesmo como de pouco brilho. Em seu texto, Gorki faz uma severa crítica à intelectualidade russa que não se alinhava com a luta revolucionária. Na obra o seu discurso assume um aspecto político e panfletário ainda mais radical, com um teor mais forte e incisivo.
A crise no país se aprofunda após o massacre em frente ao Palácio de Inverno, episódio conhecido como o “domingo sangrento”. Por todo lado ocorrem greves e manifestações populares, situação agravada pela revolta de marinheiros10. As elites russas prevendo o pior pressionam o czar que, não vendo outra saída, promulga no dia 17 de outubro de 1905 um decreto em que se comprometia em transformar a Rússia numa monarquia constitucional, prometendo ampliar as atribuições do recém-criado Parlamento ( Duma ) e a garantir ao povo o exercício das principais liberdades democráticas. Essas concessões não foram oficialmente cumpridas.
Em dezembro explode o processo revolucionário.11 O governo manda prender os principais líderes de oposição ao regime, sendo Lênin exilado na Finlândia e Trotsky mandado à Sibéria. Nesse clima de intensificação da perseguição política, Gorki é convencido pelos amigos a deixar o país, o que faz em janeiro de 1906. Atravessando a fronteira com a Finlândia, chega a Berlim, indo depois para Paris. A seguir, cruza o Atlântico com objetivo de buscar refúgio nos Estados Unidos.
Sua passagem pelos Estados Unidos é muito fecunda. Em 1906 escreve a peça Os Inimigos ( Vragi ), onde o tema central é a luta de classes, nela tratando da relação conflituosa entre patrões e empregados. Como era de se esperar, a sua apresentação foi proibida pelas autoridades na Rússia12. No país a peça só seria encenada em 1933 pelo Teatro Acadêmico Dramático de Leningrado e, dois anos depois, remontada pelo Teatro Acadêmico de Moscou.
No mesmo ano, começa a escrever talvez o seu romance mais famoso, A Mãe ( Mat’ ). Inspirado em fatos reais que havia presenciado nas fábricas de Sormovo e, na figura do operário Zamalov – representado no romance pelo personagem Pavel Vlassov –, o romance é publicado numa revista americana, só recebendo versão em russo numa edição impressa em Berlim. A imprensa operária logo dela se apropriou, espalhando pela Europa milhões de exemplares sob a forma de folhetins. Na Rússia só circulavam, e de modo clandestino, os exemplares da edição alemã em russo, somente sendo impressa legalmente no país a partir de 1917.
Em outubro de 1906, impedido de retornar à Rússia, Gorki fixa residência em Capri, onde permanece até o final de 1913. Nessa sua passagem pela Itália escreve alguns romances, como: Os Bárbaros em 1906, A Vida de um Homem Desnecessário em 1908 e, no mesmo ano, A Confissão, dedicada ao amigo Chaliapin. Em 1909 escreve A vida de Matvei Kozhemiakin e, no ano seguinte, A cidadezinha de Okurov.
Ainda em Capri, no ano de 1908, escreve a peça Os Últimos, onde busca retratar o conflito entre pais e filhos e a ruína de uma família burguesa no período da crise do czarismo.
Na peça Ivan Kolomnitzev, o chefe da família é um policial corrupto que não hesita em prender um jovem suspeito de cometer um atentado contra o czar, apesar de sua evidente inocência. Ciente disso, seus filhos Piotr e Vera tomam partido do jovem contra o pai, sendo apoiado pelos outros irmãos, Nadia e Alexan-dre. Aqui Gorki põe em discussão um tipo de sociedade que estimula a corrupção e a existência de pessoas venais, como o caso do personagem Kolomnitzev. No final do último ato, só resta à mãe, a impotente Sofia, pedir perdão aos filhos por tê-los postos no mundo.
(Maksim Gorki volta à Rússia, caricatura de 1914).
No final de 1913, com a ameaça de guerra na Europa e aproveitando-se da anistia concedida pelo czar por ocasião do 300º aniversário do advento da dinastia dos Romanov, Gorki decide regressar à Rússia. Mesmo tendo as ações contra ele arquivadas, o serviço de segurança do Estado lhe impõe severa vigilância. Porém, seu ânimo não arrefece, continua junto com os bolchevistas a trabalhar pela revolução.
3. Conclusão
A atividade teatral nunca foi para Gorki uma profissão, nem um agradável passatempo, tampouco algo lucrativo que serviria para entreter a elite abastada e a pequena burguesia russa. Ao contrário, o teatro sempre lhe serviu como uma poderosa arma de luta, um precioso instrumento para a construção de um novo homem, aquele que iria edificar uma nova sociedade.
Não sendo a transformação da sociedade algo espontâneo e nem a tomada de consciência por parte dos homens um processo imediato, Gorki acredita poder fazer do teatro um instrumento de conscientização do povo russo, um elemento a mais posto a serviço da ação revolucionária. Deste modo, o teatro perde o seu papel de “arte pela arte”, ganhando na concepção de Gorki uma dimensão político-pedagógica, cuja função é servir como um elemento difusor de uma nova concepção de mundo que se contraponha aos valores sociais dominantes incutidos ao longo do tempo nas gerações de trabalhadores: trabalho, hierarquia, obediência, propriedade, ordem, patriotismo e muitos outros.
Concluindo, o teatro deixa de ser para Gorki apenas arte e diversão, é agora um instrumento para a construção do “novo homem” na Rússia, uma arma posta a serviço da Revolução.

TEATRO: difusão de uma nova concepção de mundo.

(ação político-pedagógica).

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Edificação do “homem novo”.



Revolução Socialista

(sociedade mais justa e igualitária)
Cronologia:
1861 – Abolição da servidão na Rússia.
1868 – Nasce em Nijni-Novgorod Aleksei Maksimovitch Pechkov.
1892 – Gorki publica seu primeiro conto, Makar Tchundra.
1898 – Fundação do Teatro Artístico de Moscou, por Stanislavski e Nemirovitch-Dantchencko.
1902 – Gorki é eleito acadêmico honorário pela Academia Russa de Ciência, sendo a sua escolha vetada pela interferência do czar Nicolau II.

– Recebe do Teatro de Moscou o convite para encenar a primeira peça teatral, Pequenos Burgueses.


1905 – 9 (22) de Janeiro: “O Domingo Sangrento”; manifestação de operários conduzida pelo padre Gapon, realizada em frente ao Palácio de Inverno do czar, brutalmente reprimida pela guarda imperial.

1906 – Em janeiro Gorki deixa a Rússia buscando refúgio nos Estados Unidos.


– Em outubro fixa residência na ilha de Capri, na Itália, onde permanece até o final de 1913.
1914 – Início da Primeira Guerra Mundial.
– Aproveitando-se da anistia concedida pelo governo imperial, Gorki retorna à Rússia.
1936 – 18 de Junho: Morte de Gorki em consequência de uma pneumonia.

BIBLIOGRAFIA


ANGELIDES, Sophia. “O Diálogo Epistolar entre Tchekhov e Gorki”. Revista da USP. Dezembro / Janeiro e Fevereiro de 1990. pp. 175-180.
GOURFINKER, Nina. Gorki por ele próprio. Portugal: Portugália Editora, 1964. (Col. Escritores de Sempre; vol 1).
GORKI, Máximo. Infância. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
_______ . Ganhando meu pão. São Paulo: Editora Brasiliense, s / d.
_______ . As Minhas Universidades. São Paulo: Livraria Exposição do Livro, 1964.
GORKI, Máximo. A Mãe. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

_______ . Os Vagabundos. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1965. (Clássicos de Bolso).



GORKI, Máximo. Pequenos Burgueses. Rio de Janeiro: Technprint, 1986. (Universidade de Bolso).
_______ . Albergue Nocturno. Portugal: Publicações Europa-América, 1972. (Col. Livros de Bolso Europa-América; vol. 37).
_______ . Os Inimigos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1966. (Col. Brasiliense de Bolso; série Teatro Universal; vol.19).
KONDER, Leandro. Os Marxistas e a Arte. Breve estudo histórico-crítico de algumas tendências da estética marxista, Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1967. (Col. Perspectivas do Homem; vol. 25).
LÊNIN, Vladimir Ilitch. O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia. O Processo de Formação do Mercado Interno para a Grande Indústria. São Paulo: Abril Cultural, 1982. (Col. Os Economistas).

11. Anistia concedida pelo Czar Nicolau II por ocasião do 300º aniversário do advento da dinastia dos Romanov, o que fez regressar ao país muitos dos adversários políticos do regime.

22. Assim Gorki conta sobre o seu nascimento: “No ano de 1868, a 14 do mês de Março, às duas horas da noite, (...) a natureza fez-me nascer duma pincelada objetiva. A despeito da importância deste fato, não conservo dele nenhuma recordação pessoal; mas minha avó disse-me que, logo que me foi conferido espírito humano, soltei um grito. Quero crer que foi um grito de indignação e de protesto”. (Apud. GOURFINKEL, 1964: 110)

33. Eis o conselho dado por Tchekhov em uma carta endereçada a Gorki, datada de 22 de maio de 1899: ”Um homem de letras não pode viver impunemente na província. (...) A condição natural de um escritor é manter-se junto às esferas literárias. (...) Mude-se para Petersburgo ou Moscou”. (Apud. ANGELIDES, 1990: 177)

44. Tchekhov tem um papel decisivo no direcionamento de Gorki para a dramaturgia, tanto pelo incentivo quanto pelo fato de aproximá-lo de Stanislavski, diretor do Teatro Artístico de Moscou, grupo teatral do qual sua esposa participava. Em uma carta a Gorki, datada de 6 de março de 1900, assim escreve: “Você precisa aproximar-se desse teatro e observá-lo, a fim de escrever uma peça”. (Apud. ANGELIDES, 1990: 177)

55. Na primavera de 1902, Gorki é eleito pela Academia Russa de Ciência, em sua secção literária, acadêmico hono-rário. Ao tomar conhecimento da homenagem, o czar Nicolau II escreveu uma carta para o ministro da Instrução pública reprovando o fato. Suspensa a escolha, Tchekhov e Korolenko, acadêmicos honorários, em solidariedade a Gorki, apresentaram as suas demissões, fazendo ainda mais aumentar a sua popularidade como escritor.

66. Os meschane eram indivíduos que não pertenciam nem a nobreza, nem ao campesinato e nem ao clero, sendo eles os habitantes da cidade (burgo). No sentido moral, meschanin (no singular) é o homem extremamente mesquinho, incapaz de apreciar tudo quanto seja grande e belo.

77. No original em Russo “Na Die”, significando exatamente “No fundo”. Traduzida para a língua francesa como “Les Bas-Fonds”, e para o português, segundo a edição aqui utilizada, como “Albergue Nocturno”. A obra recebeu, conforme as traduções, diferentes títulos: “Ralés”, “No Fundo”, “Os Ex-homens” e “O Submundo”.

88. Em carta escrita a Gorki, datada de 19 de julho de 1902, assim se manifesta sobre a obra: “Li sua peça No Fundo. É nova e, sem dúvida, excelente. O segundo ato é muito bom: é o melhor e mais forte, e, quando eu lia, especial-mente o final, quase dancei de alegria. O tema é escuro e opressivo; talvez a platéia, não acostumada com essas coisas, saia do teatro e você tenha que dar adeus à sua reputação de otimista”.

99. A perseguição por parte da polícia czarista foi uma constante na vida de Gorki. Em outubro de 1889 é preso em sua cidade natal, Nijni-Novgorod, por causa da descoberta de uma tipografia clandestina, mas logo solto por falta de provas. Em 5 de maio de 1898 é mais uma vez preso em sua cidade e conduzido para Tbilisi, sendo encarcerado no castelo de Metek, mas também logo solto. Em 4 de março de 1901 é detido ao tomar parte da manifestação de estudantes ocorrida em São Petersburgo – transformada em uma chacina por parte da polícia a cavalo – sob a acusação de ser o autor do manifesto “Refutação da Versão Governamental”, sendo outra vez libertado por falta de provas.

1010. Caso da revolta ocorrida no encouraçado Potemkin, navio de guerra russo sediado no Mar Negro.

1111. “O estopim da revolução foi o fuzilamento, em 9 de janeiro de 1905, da massa operária que se concentrara pacificamente diante do Palácio de Inverno. A partir daí, sucedem-se amplas mobilizações proletárias e campo-nesas: no verão, os operários de Ivanovo-Voznessensk criam o primeiro sóviet, em junho subleva-se a tripulação do encouraçado Potemkin e em outubro eclode a greve geral nacional. A 17 de outubro, o czar é obrigado a publicar um manifesto, prometendo a promulgação de uma constituição contemplando a liberdade de expressão, de reunião etc. A promessa não foi cumprida. Em dezembro, explodiu a revolução pelas armas: somente empregando a artilharia o governo controlou Moscou. Em 1906, mais de um milhão de operários participaram de greves, e, no primeiro semestre, a rebelião camponesa atingiu mais da metade dos distritos do país. Contra as massas, o governo passou a empregar o método das expedições punitivas, que realizaram verdadeiras carnifici-nas. O fracasso da revolução, porém, não impediu a grande influência que ela exerceu tanto na preparação político-revolucionária das massas (Lênin caracterizou os anos de 1905/07 como um “ensaio geral” para o levante de 1917), quanto no estímulo a outras movimentações populares, especialmente na Ásia (Turquia, Pérsia e China)”. (LÊNIN, 1982: 9; Prefácio à Segunda Edição, Nota do Tradutor).

1212. No relatório da censura, datado de 13 de fevereiro de 1909, proibindo a encenação da peça, lê-se: “Nessas cenas representa-se com vigor sua inimizade mortal entre os operários e patrões, sendo os primeiros representados como firmes, lutadores, que avançam conscientemente para a meta estabelecida – a destruição do capital – enquanto os segundos aparecem como egoístas tacanhos. Aliás, segundo uma das personagens, é de todo indiferente quais sejam as qualidades do patrão; basta que ele seja ‘patrão’, para que constitua em inimigo para os operários. O autor prevê, pela boca da mulher do diretor da usina, Tatiana, a vitória dos operários. Essas cenas são do começo ao fim uma pregação contra as classes possuidoras, e por isso não se pode autorizar sua encenação”. (GORKI, 1966: 108-09)


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