Um balanço teórico sobre a interdisciplinaridade e o meio ambiente



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Um balanço teórico sobre a interdisciplinaridade e o meio ambiente.1
Marília d’Ottaviano Giesbrecht. 2

Os conflitos epistemológicos são sempre, inseparavelmente, conflitos políticos; assim, uma pesquisa sobre o poder no campo científico poderia perfeitamente só comportar questões aparentemente epistemológicas”.

Pierre Bourdieu

Este trabalho tem como objetivo oferecer um balanço do debate teórico acerca do tema da interdisciplinaridade, visando, em particular, compreender a relação e a influência deste debate no campo dos estudos ambientais. Neste sentido, trata-se de tentar entender, como e porque as questões relativas ao meio ambiente tornaram-se fóruns privilegiados na discussão da temática interdisciplinar.

A revisão da literatura produzida sobre a noção de interdisciplinaridade aponta para um quadro teórico bastante heterogêneo, sobretudo, do ponto de vista da sua definição. Contudo, é possível visualizar um certo esquema conceitual que norteia a produção de alguns autores que aqui serão tratados. O primeiro e grande dissenso, que divide tais autores, está calcado na própria origem histórica atribuída ao termo “interdisciplinaridade”. Se, de um lado, há teóricos que entendem que a idéia da interdisciplinaridade retoma uma antiga ambição do pensamento científico, como um movimento “natural” da ciência na busca de uma sistematização do conhecimento. Por outro lado, há aqueles que defendem o surgimento da interdisciplinaridade como uma temática recente, que data da segunda metade do século XX, respaldada por um movimento crítico social mais amplo, que questiona a fragmentação da produção do conhecimento.

Além da discussão que se estabelece em torno da origem do conceito de interdisciplinaridade, é possível verificar também duas vias de acesso ao debate: uma que se concentra no arsenal crítico que a noção de interdisciplinaridade aciona com relação a produção disciplinarizada, fragmentária e superespecializada do conhecimento, e a outra que parte da suposta especificidade de alguns “objetos” científicos, que necessitariam de uma compreensão mais alargada do que os compartimentos disciplinares poderiam oferecer.

Esta última argumentação parece ser um caminho interessante para pensar o caso do meio ambiente enquanto um objeto científico privilegiadamente interdisciplinar, ou melhor, um objeto que turvaria os limites dos campos de conhecimento natural e social. Entretanto, para entender esse caráter “híbrido” (LATOUR, 1994) da questão ambiental é necessário refletir acerca do processo de construção deste objeto enquanto tal e, neste sentido, pretende-se mostrar que a incursão das ciências sociais e humanas no campo de estudos ambientais foi de fundamental importância.
* * *
O primeiro desafio posto a quem se propõe estudar o tema da interdisciplinaridade é a sua própria definição. Como ficará claro mais adiante, não há, ainda hoje, uma significação precisa e consensual tanto ao termo interdisciplinaridade, quanto com relação à própria procedência do conceito.

Ainda que a origem etimológica da palavra seja uma derivação da raiz “disciplina”, um termo que veio a ser largamente utilizado na divisão de áreas de especialidade científica principalmente ao fim do século XIX, alguns autores defendem que uma certa idéia de integração e síntese do conhecimento, contida no conceito da interdisciplinaridade, estava presente entre os intelectuais do humanismo e Iluminismo europeu (KLEIN, 1990:19). E não raro, pode-se encontrar teóricos da ciência que, ao se debruçarem sobre o tema da interdisciplinaridade, fazem recorrentes referências a filósofos como Platão, Aristóteles ou Hegel.

Em contrapartida, uma outra tendência teórica concebe a interdisciplinaridade enquanto um fenômeno eminentemente do século XX, resultado de uma reflexão crítica sobre os rumos do desenvolvimento da ciência moderna, da reforma educacional e universitária. Neste caso, a interdisciplinaridade estaria ligada às questões recentes da ciência e problematizaria a super especialização das áreas – crítica essa, freqüentemente associada às pressões do mercado e a intrusão da lógica fabril na construção do conhecimento científico – e fundamentalmente, a perda da capacidade explicativa de fenômenos complexos contemporâneos que escapariam ao âmbito disciplinar.

Temos, portanto, uma corrente que associa a história da interdisciplinaridade com um movimento relativo a ambição da unificação do conhecimento: “a necessidade para a interdisciplinaridade tem se refletido em escritos epistemológicos desde as origens da ciência ocidental” (GUSDORF apud KLEIN, 1990). Ao passo que a outra atribui ao fenômeno, um movimento de reação recente, contrário ao desenvolvimento das rígidas fronteiras do conhecimento e dos problemas associados a sua fragmentação ligados à demandas sociais contemporâneas.

A idéia da origem da noção de interdisciplinaridade, mais do que uma curiosidade pitoresca, nos informa algo sobre a concepção que se quer atribuir ao termo e também os usos que se quer fazer do mesmo. Segundo Julie Klein essa divergência se expressa em implicações conceituais diferentes, para esta autora: no primeiro caso a base conceitual está assentada na justificativa da síntese e no segundo na justificativa pragmática, ou seja, prática e instrumental. Se a discussão sobre a origem da idéia de interdisciplinaridade aparece de forma fundamental para as elaborações teóricas e conceituais no campo epistemológico, resta-nos entender quando e como essas elaborações tomam contornos institucionais relevantes dentro deste campo.

Nos finais da década de 1960, a Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OECD), por intermédio de seu “Centro para a Educação, Pesquisa e Inovação”, promoveu a primeira investigação internacional sobre o conceito de interdisciplinaridade, esforço esse, que culminou na organização de um seminário sobre os problemas da interdisciplinaridade em pesquisa e ensino no ano de 1970, na França.

Reunindo nomes como Erich Jantsch, Guy Berger, Jean Piaget, Leo Apostel entre outros, o I Seminário da OECD rendeu uma das publicações mais importantes sobre o tema: o livro, Interdisciplinaridade: problemas de ensino e pesquisa na universidade3, editado em 1972. Bibliografia obrigatória para a área, essa coletânea de artigos é marcada por uma forte influência do pensamento estruturalista e pelo apego à teoria geral dos sistemas (KLEIN, 1990), foi descrita como um trabalho seminal, ou “the starting point for new thought and action” (MICHAUD, 1972:281), e de fato é o texto mais referenciado ainda hoje, particularmente no tocante às definições apresentadas pelos seus autores e a distinção entre os termos: multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade.

Entendidos como uma hierarquia terminológica esses conceitos distinguem os diferentes níveis de interação entre as disciplinas no processo de determinadas investigações científicas. Assim, a multi ou pluridisciplinaridade, para Berger (1972), se define como uma justaposição de disciplinas sem necessária relação aparente entre elas. Piaget (1972) acrescenta ainda, que essa interação ocorre quando a solução de um problema requer a obtenção de informações de duas ou mais ciências, sem que as disciplinas, que são convocadas por aqueles que as utilizam sejam alteradas ou enriquecidas.

Em um outro estágio, a interdisciplinaridade seria uma “simples comunicação de idéias para a integração mútua de conceitos, metodologias, procedimentos, epistemologias, terminologia, dados e organização de pesquisa e educação em um grande campo” (BERGER, 1972:25). Piaget acredita que essa integração significa uma assimilação recíproca entre as disciplinas participantes. E finalmente, a transdisciplinaridade seria, nas palavras de Jantsch “um grau último de coordenação” (1972: 98), tratando-se, portanto, de uma etapa posterior à interdisciplinaridade que não apenas atingiria as interações ou reciprocidades entre as investigações especializadas, como também situaria estas relações no interior de um sistema total, sem fronteiras estáveis entre as disciplinas.

Este trabalho aponta também para uma série de caminhos e opções metodológicas (apresentadas a partir de uma constelação de categorizações como: interdisciplinaridade auxiliar, complementar, compositória, unificadora, restritiva) que poderiam, segundo seus autores, viabilizar as interações entre as disciplinas tanto nas práticas de pesquisa quanto no ensino (HECKHAUSEN, 1972). É interessante notar, que a atenção destes teóricos, engajados em um certo movimento interdisciplinar nos anos de 1960, está amplamente ligada ao tema do ensino e da pesquisa, mais precisamente com as propostas de uma reestruturação fundamental das universidades e a crítica ao crescente distanciamento desta instituição com a realidade social, em um tom propositivo afinado aos movimentos de contestação social, como o estudantil, na Europa daquele final de década.

Apesar de fundamental, a iniciativa do grupo patrocinado pela OECD não foi a única neste período. De acordo com Fazenda (1995), já em 1961, Georges Gusdorf apresentou à Unesco4 um projeto de pesquisa interdisciplinar para as ciências humanas, cujo objetivo se pautava na reunião de um grupo de cientistas, de reconhecida notoriedade, que pudesse trabalhar a partir de uma convergência, orientada para a diminuição das distâncias teóricas nas ciências humanas. Este projeto, no entanto, fora publicado apenas em 1967, pela Universidade de Estrasburgo, com o título de Les sciences de l´homme sont des sciences humaines (GUSDORF apud FAZENDA, 1995). Fazenda comenta também, que George Gusdorf foi responsável por popularizar a “totalidade”, tema por excelência de seus principais trabalhos, como uma categoria fundante nas discussões sobre interdisciplinaridade daquele momento. Categoria essa, que ainda hoje, se apresenta como um poderoso argumento nas teorias sobre interdisciplinaridade.

Ainda sobre o histórico da discussão, Klein (1990) conta que o período de 1979-1980 foi bastante significativo com o aparecimento de outra grande publicação sobre o tema, o livro Interdisciplinarity and Higher Education, uma coletânea de ensaios elaborados por pesquisadores de pós-doutoramento durante um seminário sobre interdisciplinaridade (1975-76), promovido pela Universidade Estadual da Pensilvânia em seu Programa Interdisciplinar em Humanidades. Esse livro aponta para as variações das definições sobre interdisciplinaridade, metodologia interdisciplinar e problemas de ordem teórica e prática de projetos interdisciplinares de pesquisas. Desta coletânea destaca-se a perspectiva crítica dos autores com relação ao estruturalismo e a idéia de unidade no movimento da ciência como um subsídio para uma teoria geral da interdisciplinaridade, assumindo, portanto, uma postura mais relativisada com relação ao tema do que o I Seminário da OECD (KLEIN, 1990: 37-39).

Neste mesmo ano de 1979, surgem duas associações profissionais: a Associação para Estudos Integrados (AIS), de origem Norte Americana e a Associação Internacional para Estudos de Pesquisas Interdisciplinares (INTERSTUDY). E no seguinte, 1980, a OECD lança uma nova formulação sobre interdisciplinaridade em uma conferência internacional, levando em conta uma pesquisa sobre o aumento da demanda pela interdisciplinaridade fora da universidade.5

De uma maneira geral, parece que os assuntos relativos à interdisciplinaridade, principalmente no tocante a literatura voltada à educação e a metodologia de pesquisa, começam a mobilizar uma parte expressiva da filosofia da ciência e da teoria epistemológica que se produz a partir da segunda metade do século XX. As obras de autores como Edgar Morin e Jean Piaget, são fortes exemplos desta tendência.

Edgar Morin tem uma particular relevância para a reflexão da interdisciplinaridade, tal como essa discussão desdobrar-se-á principalmente no campo dos estudos ambientais. Acredito que isto se deve, em parte, a duas grandes características de seus trabalhos: a primeira diz respeito à inspiração intelectual heterogênea de Edgar Morin, que lhe proporciona um trânsito constante entre os diversos tipos de conhecimentos na construção de sua filosofia, que reserva uma particular atenção no contato entre os temas do universo das ciências da natureza e as ciências da cultura e sociedade. A segunda característica é a própria ambição de seu projeto filosófico, cuja abrangência teórica cria um terreno fértil para o estabelecimento de uma identidade intelectual alternativa às formulações disciplinares.

Dono de um estilo sofisticado e sedutor, Edgar Morin circula entre os lexos dos mais divergentes campos de conhecimento para forjar suas metas-categorizações, empreitada que resulta em um audacioso hibridismo teórico e conceitual. Com relação às influências teóricas, o próprio pensador francês destaca sua dívida com a Teoria Geral dos Sistemas e a literatura sobre a noção de organização. Em entrevista recente para o jornal “Le Monde”, por ocasião do lançamento do sexto e último volume da obra O Método, comenta:

“A agitação intelectual de onde emergiu esse conjunto de livros teve seu epicentro durante minha estadia no Instituto Salk de Pesquisas, na Califórnia, em 1969-70. Para que a idéia desse trabalho me viesse à cabeça, foi preciso que eu descobrisse a teoria dos sistemas e uma série de obras como Von Foerster, Von Neumann, Wiener, Bateson, entre outros, que eram – e, em muitos casos, continuam a ser – ignoradas pelas ciências humanas, filósofos e também cientistas” (MORIN, 2005: 3).
Segundo Floriani, a noção de auto-organização será fundamental para Morin na articulação entre o físico, o biológico e o cultural, bem como sua inspiração em autores da filosofia e história da ciência para sua “aventura transdisciplinar” (FLORIANI, 2004:104-116). Entre eles, Castoriadis, Serres, Popper, Kuhn, Lakatos e Feyerabend.

A “complexidade”, enquanto uma idéia–chave na epistemologia de Morin se fundamenta pela explicação de que a “originalidade da matéria viva não é uma diferença de substância, mas de organização: esta, muito mais complexa, dotada de autonomia, fez emergir as qualidades próprias à vida” (MORIN, 2005:3). Edgar Morin acredita ter encontrado na idéia de organização complexa, uma categoria poderosa que fornece subsídios teóricos e metodológicos para a emergência de um novo paradigma de pensamento. O “paradigma da complexidade”, tal como o define, trata-se de um modelo que pretende abranger uma visão ampliada do universo no que há de físico, biológico e “antropossocial” através de certos princípios de inteligibilidade unidos entre si. Ao mesmo tempo em que preconiza uma relação integradora no conhecimento, Morin admite que a emergência de um novo paradigma não deve renunciar aos diferentes domínios da ciência e da especialização, mas sim, colocá-los em uma situação de comunicação constante, sem reduzir seus conteúdos científicos às unidades elementares e às leis gerais (MORIN, 1999; FLORIANI, 2004).


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Apesar de apresentar uma história difusa, um panorama teórico e conceitual amplo e divergente, o tema da interdisciplinaridade vem sendo cada vez mais explorado nas discussões que dizem respeito à produção de conhecimento e da ciência. De uma certa forma, trata-se de um campo de debates inspirador que ganha terreno tanto no mundo das idéias, com a adesão de importantes intelectuais contemporâneos, quanto do ponto de vista institucional, a partir das iniciativas em universidades, centros de pesquisas e associações.

Atingindo um relativo grau de internalização na comunidade acadêmica e, até mesmo, no âmbito do mercado e de instituições sociais de outra ordem, o discurso da interdisciplinaridade tem sido freqüentemente associado a um “modismo”, como mais uma expressão de uso generalista e simplificador, tal como se toma, muitas vezes, as categorias “globalização” e “complexidade” e, por esse motivo, tem enfrentando duras críticas. Entretanto, o perigo da rotinização dessa concepção é largamente tratado pela maioria dos teóricos da área, que apontam para a necessidade em elaborar uma definição satisfatória para o conceito e, mais do que isso, definir os limites de seu uso. Certamente essa tarefa tem sido, desde a emergência deste campo de discussão, o “motor” do debate sobre a interdisciplinaridade.

Com efeito, cabe aqui destacar o livro de Guy Palmade, Interdisciplinaridade e Ideologias, como um exemplo de estudo que se preocupa com os possíveis caminhos da interdisciplinaridade enquanto um discurso. Neste intento, Palmade empreende uma análise sobre a experiência de um grupo de pesquisa interdisciplinar francês que atuava sobre a questão urbana, nos anos de 1969 a 1971. Para esse autor, que escreve em 1979, a literatura disponível referente à interdisciplinaridade, “tem se mostrado mais preocupada – o que em certo modo é compreensível – em atrair a adesão do leitor do que produzir análises realistas de experiências interdisciplinares, com as dificuldades e desgostos que estas podem se deparar” (PALMADE, 1979:18).

A perspectiva defendida por Palmade, em lançar um olhar crítico e “realista” sobre o tema através de investigações mais criteriosas de experiências interdisciplinares, marca uma série de estudos cuja preocupação se concentra mais nos problemas da interdisciplinaridade, do que propriamente nas suas qualidades. Indagações como: A interdisciplinaridade só é possível na experiência de grupo? Quais as questões que podem ou devem ser tratadas interdisciplinarmente? Como lidar com as diferenças estruturais que definem e distinguem as disciplinas? Como superar a hierarquia entre os campos de conhecimento? Como promover institucionalmente a interdisciplinaridade? Ou ainda, “que tipo de interdisciplinaridade é preciso fazer?” 6, norteiam as reflexões dentro do campo, gerando distintas visões a cerca do conceito e os limites da interdisciplinaridade. Nesse sentido, é fundamental notar que o campo que concerne à interdisciplinaridade ganha um espectro ainda mais amplo, pois abre a perspectiva de mobilização de outros temas que ganham sentido dentro da discussão, tais como a relação entre o sujeito/objeto, objetividade/subjetividade.


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Mesmo levando em conta o universo vasto e diversificado (em termos conceituais, teóricos e temáticos) que a literatura sobre a interdisciplinaridade tem se firmado até os dias de hoje, é possível identificar duas grandes inspirações teóricas que motivam essas obras: uma primeira que vislumbra na concepção de interdisciplinaridade um poderoso potencial crítico capaz de colocar em questão as formas de produção do conhecimento científico e a segunda, dotada de um tom mais pragmático, se apóia no enfoque direto aos objetos científicos denunciando o suposto “alargamento” de alguns fenômenos cuja compreensão ultrapassaria as fronteiras disciplinares. O exemplo mais contundente deste último caso é a afirmação do “meio ambiente”, enquanto objeto por excelência interdisciplinar.

Dito de outra forma, por mais divergentes que se apresentem as concepções teóricas que tematizam a questão interdisciplinar, parece haver um consenso significativo no que diz respeito ao seu caráter crítico frente à idéia de uma ciência fragmentada e superespecializada, imposta pelo regime disciplinar à tarefa intelectual. Uma outra via de acesso nessa discussão concebe a interdisciplinaridade enquanto uma demanda oriunda dos próprios objetos da ciência. Entretanto, cabe ressaltar que ambas as perspectivas não necessariamente, aparecem de maneira excludente. De fato, há autores, como Enrique Leff (2002), cuja obra é dedicada á teorização de uma interdisciplinaridade calcada na área ambiental e onde se encontram as duas perspectivas, como veremos a diante. Para Leff,


“A questão ambiental, com sua complexidade, e a interdisciplinaridade emergem no último terço do século XX como problemáticas contemporâneas, compartilhando o sintoma de uma crise de civilização, de uma crise que se manifesta pelo fracionamento do conhecimento e pela degradação do meio ambiente” (LEFF, 2001: 19).
A visão que privilegia a potencialidade crítica da concepção de interdisciplinaridade, de um certo modo, ultrapassa a própria dicotomia existente na discussão sobre a origem do conceito, ressaltada no começo deste capítulo. Mesmo autores, como George Gusdorf, que entendem a ambição interdisciplinar enquanto um elemento fundante na história do pensamento ocidental a partir da constante busca pela sistematização, não deixam de fazer deste revisionismo teórico um argumento crítico ao desenvolvimento especializado do pensamento moderno. Nas palavras de Gusdorf,
“O especialista, dizia G.K. Chesterton, é aquele que possui um conhecimento cada vez mais extenso relativo a um domínio cada vez mais restrito. O triunfo da especialização consiste em saber tudo sobre nada. Os verdadeiros problemas de nosso tempo escapam à competência dos experts, via de regra, são testemunhas do nada. A parcela de saber exato e preciso detida pelo especialista perde-se no meio de um oceano de não-saber e de incompetência” (GUSDORF, 1976: 8).
O ataque ao movimento da superespecialização do saber que Gusdorf associa como uma patologia da modernidade, se sustenta pela crítica da perda da capacidade da compreensão da totalidade. Neste sentido, o saber especializado é restrito, fragmentado, incompleto. Ao mesmo tempo, o texto de Gusdorf também faz referência ao enfoque nos objetos do conhecimento, quando diz que, os verdadeiros problemas de nosso tempo escapam à competência dos experts.

Por um outro lado, a corrente que advoga pela noção da interdisciplinaridade enquanto um fenômeno emergente no século XX, além de atribuir-lhe um arsenal crítico ainda oferece um conjunto de explicações para seu surgimento, dando desta forma um embasamento teórico legítimo à sua própria pertinência. Ou seja, para esses autores não basta criticar o regime disciplinar e o movimento de especialização do conhecimento, sem entender como e porquê tal movimento tornou-se o modelo privilegiado de desenvolvimento do pensamento científico e como a interdisciplinaridade pode ser uma inspiração transformadora desta tradição. Neste sentido, destacam-se as explicações de cunho “externo” – que tende a firmar-se nas prerrogativas sociais de onde se constrói o pensamento científico – e “interno” – que busca a compreensão na própria dinâmica do discurso científico. 7

O principal argumento crítico “externo” que se faz quanto ao movimento de fracionamento do saber é a associação deste, com a crescente demanda pelo conhecimento especializado advinda do campo de desenvolvimento tecnológico. Neste sentido, o conhecimento cientifico estaria subordinado à “racionalidade tecnológica” e esta amplamente comprometida com a lógica do mercado. Visto desta maneira, haveria uma submissão direta do pensamento científico ao modelo das relações capitalistas.

Esta crítica da intrusão da racionalidade capitalista no desenvolvimento científico, e o “ataque” à tecnologia será vastamente desenvolvida pela Teoria Crítica que se firmou na chamada Escola de Frankfurt.8 Não por acaso, Enrique Leff afirma que um dos principais indícios que a temática interdisciplinar é produto do Século XX será a publicação do livro O Homem Unidimensional, em 1968, de Herbert Marcuse, um dos mais proeminentes representantes da tradição frankfurtiniana. Com isso, Leff atribui a emergência da idéia de interdisciplinaridade ao desenvolvimento de um pensamento crítico aflorado neste período, destacando não apenas os frankfurtinianos, bem como a corrente “descontrutivista”, representada nas obras de J. Derrida e Michel Foucault (LEFF, 2001).

Do ponto de vista de uma explicação “interna” ao próprio discurso científico, um dos mais freqüentes argumentos em favor ao movimento interdisciplinar, recai na necessidade de “superar” o paradigma cartesiano que orientou o desenvolvimento das ciências nos últimos séculos que, segundo seus críticos, fez do modelo da disciplinarização a forma privilegiada de produção de conhecimento. É importante ressaltar, que a matriz teórica que está na base desta argumentação é claramente devedora da obra de Thomas S. Kuhn que, com seu A estrutura das revoluções científicas (1962), tornou-se um dos mais influentes historiadores da ciência. A interpretação Kuhniana além de introduzir a noção de paradigma – como um conjunto de valores que conformam uma visão de mundo da qual emergem “tradições coerentes e específicas da pesquisa científica” (KUHN, 2001:30), formuladas em teorias, leis, aplicações e instrumentação – também oferece uma explicação a respeito dos processos de mudanças, inscritos nas atividades científicas ao longo de sua história. Os momentos de “revolução científica” são, segundo ele, os períodos de crise do paradigma quando se torna possível a sua superação.

Partindo desta concepção kuhniana de paradigma, a formulação a respeito da gigantesca e revolucionária influência do pensamento seissentista de René Descartes no desenvolvimento da ciência moderna, tornou-se lugar comum na historiografia da ciência. A representação da natureza a partir da metáfora da máquina teve implicações filosóficas profundas tanto no que diz respeito à função do trabalho intelectual e científico, quanto na organização dos saberes. Nas palavras de Fritjof Capra, “Descartes deu ao pensamento científico sua estrutura geral – a concepção da natureza como uma máquina perfeita, governadas por leis matemáticas exatas” (CAPRA, 1995: 56). Segundo este autor, o paradigma cartesiano, suplantou a visão de mundo da Idade Média que compreendia a natureza como uma entidade orgânica, influindo radicalmente na maneira de pensar e agir das pessoas com relação ao meio ambiente natural.

Coube à chamada “nova física”, desenvolvida nas primeiras décadas do Século XX e atribuída essencialmente às idéias de Albert Einstein, deferir o primeiro e decisivo golpe contra a hegemonia do modelo cartesiano, através do questionamento da teoria mecânica de Isaac Newton. A teoria Geral da Relatividade de Einstein, bem como as investigações experimentais dos átomos neste período, abalaram os alicerces da física clássica Newtoniana, que se mantinha viva já há três séculos. Capra ressalta que: “a nova física exigia profundas mudanças nos conceitos de espaço, tempo, matéria, objeto, causa e efeito” (CAPRA, 1995:72), trazendo a tona, princípios como o de complementaridade da realidade (onde se observa dois fenômenos aparentemente paradoxais coexistindo em um mesmo objeto) e o principio da relação ou interconexão (onde se observa que um sistema é constituído de partes diferentes, mas que e essas partes só fazem sentido quando vistas em relação).9

Entretanto, para os autores da interdisciplinaridade, essas mudanças promovidas pelos cientistas do início do século XX, tiveram alcance limitado, no que diz respeito ao pensamento científico de uma maneira geral, ficando restrita a algumas áreas do conhecimento “exato”. Os impactos filosóficos e epistemológicos dessas novas idéias ainda têm sido pouco explorados, e a crescente busca pela especialização é um exemplo de que o modelo cartesiano da realidade está presente na atividade cientifica contemporânea.10 Para Capra, a visão de mundo apresentada pela nova física é sistêmica e dinâmica, portanto, transcende a metáfora mecanicista da realidade objetiva que Descartes almejou, e sobre esses princípios que a necessidade de um pensamento interdisciplinar holístico deve se impor (CAPRA, 1995).

O “projeto interdisciplinar” de Capra se baseia na crítica da visão mecanicista e fragmentária arraigada na cultura ocidental que, segundo ele, produziu um mundo desigual e “doente”, cujo efeito mais nítido é a relação predatória da sociedade em relação à natureza. Para ele, os problemas ecológicos são sintomáticos de uma crise de percepção do real enquanto um “todo integrado” complexo e dinâmico e, desta forma, apenas uma mudança drástica no pensar e agir, que resgatasse a dimensão holística e dinâmica das coisas poderia minimizar “o lado sombrio do crescimento”.

Morin, contrariamente a Capra, rejeita a idéia de uma “teoria holística”, ao dizer que uma elaboração com essa pretensão é tão redutora quanto o modelo cartesiano, pois “fecha o real numa caixa” e, portanto, não dá conta da sua diversidade. Desta forma, ele prefere dizer que seus escritos oferecem um método que desnuda os princípios de complexidade, opondo-se à filosofia de Descartes quando resgata na atividade científica: a incerteza, a subjetividade, o sujeito, a relação, a pluralidade ao invés da verdade, da objetividade, da separação do sujeito e o objeto, da fragmentação e da redução que o paradigma cartesiano supõe (MORIN, 1999).

A potencialidade crítica da idéia de interdisciplinaridade é, como pode-se notar, o aspecto mais consensual no campo de discussões aberto pela temática, o que não significa dizer, que os autores compartilham de uma mesma definição ou de um mesmo projeto teórico. Os temas mobilizados, bem como os recursos explicativos que são acionados em defesa da interdisciplinaridade têm a ver, entre outras coisas, com a posição da qual o autor se coloca, ou quer se colocar, neste campo de discussão.

Uma outra via de acesso no debate sobre a interdisciplinaridade pode ser encontrada partindo da análise direta aos objetos, particularizando, ou melhor, circunscrevendo o tema na dimensão precisa de alguns fenômenos: os chamados “fenômenos interdisciplinares”. Deste ponto de vista, o que está em jogo, ao menos em um primeiro momento, mais do que a própria definição de interdisciplinaridade, é a afirmação da existência de objetos singulares que colocam em cheque as fronteiras disciplinares, na medida em que são vistos como fenômenos multidimensionais, permeados, ao mesmo tempo, por distintas lógicas de apreensão oriundas dos diversos campos do conhecimento. Por estarem em vários lugares esses objetos não estão em nenhum lugar, se não no “meio das disciplinas”. É importante ressaltar que tal perspectiva tem sido freqüentemente associada a uma concepção instrumental de ciência, ou melhor, uma elaboração que se define mais pela busca de soluções metodológicas para problemas práticos do que propriamente pela contribuição teórica ao debate da interdisciplinaridade. Entretanto, obras como a de Enrique Leff, contradizem esse tipo de associação, trazendo contribuições interessantes ao campo de discussão interdisciplinar através de seu projeto teórico sobre as questões ambientais e o Saber.

Neste sentido, acredito, que os fenômenos relacionados ao meio ambiente são os exemplos mais bem acabados de objeto interdisciplinar. E a crescente institucionalização de um campo de estudos próprio deste objeto constitui um processo expressivo da sua legitimidade enquanto tal. Dito de outra maneira, a fundamentação teórica do caráter interdisciplinar do meio ambiente é central para o estabelecimento de um campo preciso de discussão focado neste objeto.

A temática ambiental, tal como é entendida hoje, encerra questões de ordem natural e social. Mais do que isso, a concepção de “meio ambiente” é o produto direto de uma relação entre o mundo natural e o mundo social. É justamente esta visão relacional que garante à concepção de ambiente um estatuto distinto da idéia de natureza, tratando de uma natureza modificada pela ação social. Nas palavras de Leff, “o ambiente não é a ecologia, mas a complexidade do mundo; é um saber sobre as formas de apropriação do mundo e da natureza através das relações de poder que se inscreveram nas formas dominantes de conhecimento” (2002: 17).

Definindo-se a partir da relação, o tema ambiental constitui-se como um objeto interdisciplinar exemplar, que prescinde de uma reflexão conjugada entre domínios tradicionalmente apartados: as ciências sociais e as ciências naturais. Dada sua complexidade, a colaboração entre ciências físico-naturais, disciplinas técnicas e ciências sociais torna-se absolutamente imprescindível em sua compreensão (FLORIANI et.al, 2002).

Em Jamais fomos modernos (1994), Bruno Latour elabora a partir da metáfora reveladora do “híbrido” a angústia classificatória que certos objetos, ou, em suas palavras os “quase-objetos”, suscitam no mundo contemporâneo e com os quais a ciência, tradicionalmente pactuada com a “Constituição Moderna”, se recusa lidar. Para este autor, os “híbridos” são coisas produzidas entre os pólos opostos da natureza e da cultura, são mistos dessas duas ordens e, portanto, monstruosos, impuros e freqüentemente perigosos.11 Neste ensaio crítico de antropologia simétrica, tal como assegura seu subtítulo, Latour propõe uma interpretação das chamadas “redes sociotécnicas” que operam no cenário científico e político contemporâneo, desnudadas a partir da proliferação dos híbridos. A sua principal hipótese é a que a “Constituição Moderna”, cujo sistema de representação do mundo, se fundamenta na separação radical entre natureza de um lado e a cultura de outro, na prática realizou-se por meio da proliferação de objetos misturados de cultura e natureza. Os híbridos que ela se nega a tratar. Em suas palavras:


“Como classificar o buraco do ozônio, o aquecimento global do planeta? Onde colocar esses híbridos? Eles são humanos? Sim, humanos pois são nossa obra. São naturais? Sim, naturais porque não foram feitos por nós. São locais ou globais? Os dois. As massas humanas, que as virtudes e os vícios da medicina e da economia multiplicaram também não são fáceis de mapear. Em que mundo abrigar essas multidões? Estamos no campo da biologia, da sociologia, da história natural, da sócio-biologia?” (LATOUR, 1994:54).
A imagem que Bruno Latour oferece dos híbridos, sobretudo tomando como exemplo a temática ambiental, é interessante, pois, de certa maneira, endossa a natureza “dúbia” do meio ambiente enquanto objeto, que os teóricos da área irão chamar a atenção para afirmar sua interdisciplinaridade. Latour desenvolve em sua obra uma perspectiva crítica sobre os estudos da ciência, particularmente atentando para a insuficiência destes estudos em lidar com esses “novos objetos impuros” que povoam o mundo, indo desta forma, ao que ele atribui o centro da questão que são os alicerces dicotomizados do pensamento moderno e sua ciência (LATOUR, 1994).12 Deste modo, apesar de Bruno Latour não tratar explicitamente sobre a questão da interdisciplinaridade, as suas idéias são bem vindas e ganham, cada vez mais, espaço dentro do campo dos estudos interdisciplinares sobre o meio ambiente.

Enrique Leff, como Latour, investe na “problemática ambiental” enquanto um ponto de partida analítico para desenvolver sua crítica à produção do conhecimento e ao modelo da “sociedade moderna”. Mas, enquanto o antropólogo francês esforça-se em fazer dos “híbridos”, o exemplo contundente da contradição intrínseca ao projeto de modernidade, Leff busca na “complexidade ambiental” a maximização da potencialidade crítica do argumento interdisciplinar vislumbrada e explorada no seu projeto de “epistemologia ambiental”.



Para Leff, a inspiração central de sua reflexão teórica e epistemológica a partir do ambiente foi, em seus termos: “o encontro da epistemologia materialista e do pensamento crítico com a questão ambiental que emerge nos finais dos anos de 1960 como uma crise de civilização” (LEFF, 2002: 15). A idéia de que o ambiente, “sempre ultrapassa os âmbitos epistemológicos que tentam nomeá-lo, circunscrevê-lo, codificá-lo e administrá-lo dentro dos cânones da racionalidade científica e econômica da modernidade” (Idem, Ibidem) revela sua característica “subversiva” enquanto objeto, e ao mesmo tempo, a possibilidade de se pensar uma nova e própria epistemologia. Assim, a epistemologia ambiental,
“Parte do esforço por pensar a articulação de ciências capazes de gerar um método e um pensamento integrador do real, para desembocar num saber que vai além do conhecimento científico, para problematizar a racionalidade modernizadora que provoca a crise ambiental” (LEFF, 2002: 17-18).
O pensamento de Leff, em seu esforço de estabelecer um principio teórico de caráter crítico para o campo dos estudos interdisciplinares ambientais, rendeu-lhe uma notória posição de prestígio nesta área onde seu nome é apontado como “um dos mais ativos protagonistas” (VIEIRA, 2002: 11).13 Todavia, suas provocantes idéias são também polêmicas e não escapam às críticas. Paulo Freire Vieira – em sua apresentação à edição brasileira de Epistemologia Ambiental ressalta que as perspectivas de aplicação da pesquisa sistêmica ao entendimento e à confrontação da crise sócio-ambiental defendidas por Leff são discutíveis. Além disso, Vieira chama atenção ao fato de que o autor deveria dar mais atenção à teoria Popperiana, na medida em que esta oferece uma “noção de ciência desprovida de fundamentos seguros, capaz em princípio de alimentar um processo em aberto de autocrítica permanente, que privilegia mais o jogo das percepções criativas do que a manipulação dogmática de fórmulas feitas” (VIEIRA, 2002:14).

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