Um caloteiro devoto: a contabilidade moral em Dom Casmurro



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Um caloteiro devoto: A contabilidade moral em Dom Casmurro

Bluma Waddington Vilar


Este ensaio é parte de um estudo mais amplo, iniciado com Memórias póstumas de Brás Cubas e a ser estendido aos demais romances da segunda fase de Machado de Assis. Trata-se de um levantamento não exaustivo das metáforas, comparações, imagens, reflexões e situações ligadas ao universo do dinheiro e da economia, com o propósito de compreender o alcance e a fecundidade estilística desse campo semântico na ficção do escritor. A presença dessa imagística relaciona-se à importância do tema do favor no romance machadiano, demonstrada sobretudo por Roberto Schwarz, e do tema mais geral das relações assimétricas, que ali tendem a assumir caráter perverso. A exemplo do que evidenciou o estudo de Memórias póstumas, a análise das metáforas e imagens econômicas de Dom Casmurro (1899) sugere uma contaminação dos sentimentos e da moralidade pela lógica da economia, lógica essa incorporada às esferas afetiva e moral no próprio plano do estilo. E o contágio desse universo por valores mercantis ocorreria mais intensamente pela linguagem que pelas situações.



Em termos sociais, segundo procurei mostrar no ensaio “O comércio sentimental e a contabilidade moral em Memórias póstumas de Brás Cubas1, a dívida, de natureza material ou moral, introduz assimetria na relação entre os indivíduos ou acentua desigualdade já existente2. No caso do favor que um proprietário rico faz a alguém de condição social modesta ou menos privilegiada, ao torná-lo agregado em sua propriedade, a assimetria prévia é reforçada e particularizada. O agregado é inferior à classe dos proprietários em geral, mas sobretudo a um representante dela em particular, com quem fica em dívida. E uma vez devedor, sempre devedor, eis o padrão. Por mais que preste serviços ao proprietário que o acolheu, em troca desse favor, o agregado é um eterno inadimplente. A dívida situa o beneficiado em posição não apenas social, mas também moralmente menos elevada que a de seu benfeitor, dada a nobre generosidade deste em socorrê-lo3. Além de moralmente inferior, sua posição é irremediavelmente suspeita, como vemos na passagem a seguir, na qual o narrador fala de José Dias, num capítulo que se intitula “O agregado”, à diferença dos demais capítulos dedicados a pessoas da casa e batizados com o nome próprio das personagens – “Tio Cosme”, “Dona Glória”, “Prima Justina”:
Teve um pequeno legado no testamento, uma apólice e quatro palavras de louvor. Copiou as palavras, encaixilhou-as e pendurou-as no quarto, por cima da cama. “Esta é a melhor apólice”, dizia ele muita vez. Com o tempo, adquiriu certa autoridade na família, certa audiência, ao menos; não abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao cabo, era amigo, não direi ótimo, mas nem tudo é ótimo neste mundo. E não lhe suponhas alma subalterna; as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da índole4.
As palavras indicativas de apreço são “a melhor apólice”. No contexto da relação entre um agregado e seu protetor, esse tipo de metáfora, sem dúvida um lugar-comum, um perfeito clichê, deixa de ser inócuo, não só recuperando expressividade, mas ganhando também especial relevância. Desse modo, o agregado José Dias equipara algo cujo valor é espiritual àquilo que representa um valor material ou, no vocabulário econômico-jurídico, um valor mobiliário, isto é, pagável ao portador, como ações, apólices da dívida pública, letras de câmbio, notas promissórias e outros papéis ou certificados do gênero. Em suma, tudo são apólices – e tanto a apólice metafórica quanto a propriamente dita têm valor de mercado. Embora já fosse eternamente devedor do pai de Bentinho, José Dias possuía, como bom agregado, “o dom de se fazer aceito e necessário”5 e acabou ganhando benefícios extras, não previstos no contrato original, por assim dizer, mas acrescentados graças ao testamento. Esse “pequeno legado” dá a ele o gosto, igualmente diminuto, de ser proprietário de duas apólices, uma real e outra figurada, vivendo, portanto, a experiência do credor. A primeira apólice atesta a soma devida pelo Tesouro Público; a segunda garante, por determinação testamentária do falecido patriarca, a estima devida pelos Santiagos. No entanto, sabendo-se antes de mais nada devedor, o prudente José Dias não se permite esquecer sua fragilidade enquanto credor: “adquiriu certa autoridade na família, certa audiência, ao menos; não abusava, e sabia opinar obedecendo”.

No fim da passagem, o narrador adverte o leitor, confirmando a suspeita permanentemente lançada até mesmo sobre os atos e palavras mais louváveis do agregado, em decorrência da posição inferior que este ocupa: “E não lhe suponhas alma subalterna; as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da índole.” Tal ressalva constitui um enaltecimento da independência de espírito e um elogio indireto da dissimulação, da hipocrisia, ao menos como forma de resguardar a autonomia de pensamento numa situação de dependência material. Como estratégia de sobrevivência, o servilismo simulado está longe de ser corajoso, mas é defensável: além de requerer autocontrole e habilidade, favorece a manipulação ou, no léxico machadiano, o “cálculo”, talvez o principal recurso das personagens do autor para inverter as posições sociais, transformando controladores em controlados e anulando momentaneamente a assimetria da relação.

O capítulo 7 – “Dona” Glória”, é dedicado à mãe de Bentinho, precocemente viúva aos 31 anos, e também às lembranças vagas e falhas que o protagonista tem do pai e da vida conjugal de ambos. Nesse capítulo, destaco duas passagens. A primeira é esta:
Ora, pois, naquele ano da graça de 1857, Dona Maria da Glória Fernandes Santiago contava quarenta e dous anos de idade. Era ainda bonita e moça, mas teimava em esconder os saldos da juventude, por mais que a natureza quisesse preservá-la da ação do tempo. Vivia metida em um eterno vestido escuro, sem adornos, com um xale preto, dobrado em triângulo e abrochado ao peito por um camafeu.6
Aos 42 anos, restavam a Dona Glória “saldos da juventude”. Se “saldo” é, em contabilidade, a diferença entre receitas e despesas, aqui se trataria, se quiserem, do remanescente na conta da mocidade após os débitos lançados nela pelo tempo. Por isso mesmo, esse saldo é temporário, devendo desaparecer. O tempo é figurado naquele romance como “um velho diabo” que subtrai moedas do pecúlio da vida, transferindo-as para o saco da morte, enquanto registra: “  Outra de menos...”7. Eis a “ação do tempo”: gasta a infância, a juventude, a idade madura, a velhice, calhando demorar mais nessa tarefa, no caso de um, e menos, no caso de outro. Daí o provisório excedente de Dona Glória no aspecto físico. O fato de a viúva Santiago estar sempre “metida em um eterno vestido escuro” não deixa de ser um modo de pôr no saco da morte, o mais eterno dos vestidos, “os saldos de juventude” restantes, abreviando assim o intervalo que ainda a separava do finado marido. Outra metáfora contábil referente à idade e à ação temporal é a utilizada pelo Conselheiro no Memorial de Aires para não escrever nem revelar precisamente quantos anos tem: o total exato “basta que (...) vá sendo contado pelo Tempo no livro de lucros e perdas”8. Ou seja, por que escrever o montante da perda, se o tempo já o registra com pontualidade britânica no livro de contabilização da vida.

O vestido-ataúde da viúva Santiago, essa tentativa simbólica de reduzir a distância temporal entre ela e o falecido esposo, vinha acompanhar outra medida, da mesma natureza, para diminuir a distância espacial, corpórea, segundo observamos no começo do capítulo: Bento esclarece que a mãe, depois de enviuvar, permaneceu na cidade do Rio de Janeiro, em vez de retornar à fazendola em Itaguaí, pois “preferiu ficar perto da igreja em que [s]eu pai fora sepultado”9. E, permanecendo na casa de Matacavalos, “onde vivera os dois últimos anos de casada”10, também preferiu o passado recente, ou seja, mais próximo. Só faltava aproximar o futuro, daí o desejo de impedir que a juventude se prolongasse, de apressar seu fim, encerrando-a num “vestido escuro, sem adornos”, cuja intenção é reiterada por um “xale preto”, “abrochado ao peito por um camafeu”, à guisa de cadeado.

Embora a fidelidade de Dona Glória ao marido se estenda além da morte e seu luto se eternize, ela está longe de desprezar a vida: concentra-se no amor ao filho e entrega-se à administração da casa, à economia doméstica: “Lidava assim, com os seus sapatos de cordavão rasos e surdos, a um lado e outro, vendo e guiando os serviços da casa inteira, desde manhã até à noite”11. E onze anos antes, ao ficar viúva, a mãe de Bentinho já havia tomado uma série de providências de natureza econômica para manter-se próxima do falecido: “Vendeu a fazendola e os escravos, comprou alguns que pôs ao ganho ou alugou, uma dúzia de prédios, certo número de apólices, e deixou-se estar na casa de Matacavalos”12.

A segunda passagem desse mesmo capítulo 7 que gostaria de destacar é esta outra:


Tenho ali na parede o retrato dela, ao lado do do marido, (...) O que se lê na cara de ambos é que, se a felicidade conjugal pode ser comparada à sorte grande, eles a tiraram no bilhete comprado de sociedade13.
O narrador não deduz a “felicidade conjugal” dos pais de suas rarefeitas lembranças, conforme revela no parágrafo seguinte – “Se padeceram moléstias, não sei, como não sei se tiveram desgostos: era criança e comecei por não ser nascido”14. Baseia-se sobretudo nos dois retratos pintados, na impressão que lhe transmitem estes, afinal, segundo ele, “valem por originais”, “[s]ão como fotografias instantâneas da felicidade”15. A expressão dos pais de Bentinho nesses retratos da juventude é apresentada, desse modo, quase como prova documental da harmonia de seu casamento, comparando-se indevidamente a natureza posada da pintura à espontaneidade do flagrante fotográfico. Além disso, como pode o narrador afirmar a semelhança com um original remoto e falhado na memória, tanto do ponto de vista do relacionamento do casal quanto de sua aparência física?

A referência à sorte grande, ao bilhete de loteria premiado, quer em metáforas, quer em símiles, é um clichê utilizado com freqüência por Machado. Em Dom Casmurro, aparece mais três vezes em figuras de linguagem (duas comparações associadas a metáforas, no capítulo 52 – “O velho Pádua”, e no capítulo 134 – “O dia de sábado”16; e uma metáfora, no capítulo 63 – “Metades de um sonho”) e duas vezes em situações que envolvem bilhetes de loteria (uma concreta, no capítulo 16 – “O administrador interino”, e outra onírica, no capítulo 63 – “Metades de um sonho”). Na segunda passagem do capítulo 7, citada acima, o narrador compara a “sorte grande” (o prêmio maior da loteria) à felicidade conjugal e menciona que Dona Glória e o marido “a tiraram no bilhete comprado de sociedade”. Em sentido figurado, a expressão “tirar a sorte grande” significa tanto “enriquecer de modo repentino ou imprevisível” quanto “ser muito afortunado em determinadas circunstâncias” (Aurélio). O exemplo mais corriqueiro desse último significado diz respeito à instituição do casamento, segundo ilustram nossos dicionários: “Tirou a sorte grande, com o marido que tem!” (Aurélio); “com aquele casamento, ele tirou a sorte grande” (Houaiss). Embora constituam elogios ao marido ou à mulher eleita, não é incomum ouvir tais frases no primeiro sentido, como insinuações do caráter venal, mercenário de um dos consortes. Individualmente, os futuros pais de Bentinho já haviam “tirado a sorte grande”, por terem nascido em famílias ricas. Sem dúvida, a união de duas condições privilegiadas é uma fortuna ainda maior. Porém o narrador já estabelece de saída a correspondência entre “felicidade conjugal” e “sorte grande”, quando bastaria o uso do plural “eles a tiraram”, para entendermos que se trata de sentimentos sinceros e não inconfessáveis. Não há um sortudo, mas sim dois premiados na “sociedade” em questão, isto é, um casamento religioso, único com validade jurídica numa época anterior à separação entre Igreja e Estado no Brasil. O termo “sociedade”, entretanto, é comum ao direito civil e ao direito comercial17. De qualquer modo, importa ressaltar que a escolha de metáfora ligada à esfera do dinheiro cria uma ambigüidade. Pode sugerir um casamento originalmente motivado por razões de ordem econômica e de prestígio social, pois unia “Pedro de Albuquerque Santiago”18 e Maria da Glória, “filha de uma senhora mineira, descendente de outra paulista, a família Fernandes”19. Em casamentos desse tipo, o amor é uma aposta tão incerta quanto um bilhete de loteria. Mas a metáfora utilizada pode também indicar uma união entre criaturas já enamoradas, cujo romantismo os interesses socioeconômicos só teriam fortalecido. Em A Princesa de Clèves, Mme de Lafayette explicitava: num meio como a corte de Henrique II, na França do século XVI, “l’amour était toujours mêlé aux affaires et les affaires à l’amour”20. Casamento era em primeiro lugar um negócio, quando não um assunto de Estado. Na escolha matrimonial, guardadas as diferenças entre a nobreza quinhentista francesa e a alta burguesia brasileira do Império, considerações sociais e econômicas sempre precederam motivos de qualquer outra ordem, exceto os políticos, as razões de Estado.

Já nas uniões realizadas no seio da pequena burguesia, como é o caso dos pais de Capitu, não há fortunas a somar ou dividir, mas antes infortúnios, daí a ironia do nome da mãe da personagem, Dona Fortunata, casada com um modestíssimo funcionário público, segundo nos informa o narrador no capítulo 16:


Pádua era empregado em repartição dependente do Ministério da Guerra. Não ganhava muito, mas a mulher gastava pouco, e a vida era barata. Demais, a casa em que morava, assobradada como a nossa, posto que menor, era propriedade dele. Comprou-a com a sorte grande que lhe saiu num meio bilhete de loteria, dez contos de réis21.
Com o prêmio, Pádua quis “atir[ar]-se às despesas supérfluas”22, repetindo o que fizera ao substituir interinamente o administrador de sua repartição e ganhar os honorários do novo cargo. A mulher, porém, aconselhou-o a “comprar a casa e guardar o que sobrasse para acudir às moléstias grandes”23. Depois de muito hesitar, Pádua enfim cedeu ao alvitre da mãe de Bentinho, a quem Dona Fortunata apelara: não “deu jóias à mulher”, não “foi visto em teatros”, nem “chegou aos sapatos de verniz”24, como antes. O narrador faz questão de recordar o episódio anterior, enfatizando assim a vaidade do vizinho e a solicitude materna já naquela oportunidade. A ambição tolhida do pai de Capitu e seu desejo frustrado de ostentar ficam evidentes, em todo o seu ridículo, quando ele se lastima à Dona Glória. Declara-se pronto a cometer suicídio, por não suportar a humilhação decorrente da perda de um cargo temporário, não admitia a vergonha de descer na escala social, retornando com a família ao patamar dos remediados.

No capítulo 52, “O velho Pádua”, o pai de Capitu vai à casa dos Santiagos despedir-se de Bentinho, às vésperas da ida deste para o seminário. Talvez julgando haver o dedo de José Dias no cumprimento da promessa de Dona Glória, que destinara o filho à vida eclesiástica, Pádua assegura a grande estima de sua família pelo rapaz e menciona possíveis intrigas, cuja autoria acaba imputando, sem maiores sutilezas, ao agregado. Busca mostrar-se econômica e moralmente superior ao inimigo, embora menos bem-sucedido em seus propósitos:


(...) Não, eu não sou como outros, certos parasitas, vindos de fora para desunião das famílias, aduladores baixos, não; eu sou de outra espécie; não vivo papando os jantares nem morando em casa alheia... Enfim, são os mais felizes!25
Finda a esperança de que o namoro entre a filha e Bentinho prosperasse em casamento, Pádua agarra-se à possibilidade de laços postiços, extra-oficiais entre sua família e Bentinho. Não podendo ser sogro, propõe ao jovem Santiago outra associação, sem deixar de reconhecer prudentemente sua inferioridade social:
– Mas, como ia dizendo, se algum dia perder os seus parentes, pode contar com a nossa companhia. Não é suficiente em importância, mas a afeição é imensa, creia. Padre que seja, a nossa casa está às suas ordens26.
Pobres em dinheiro e prestígio, os Páduas ofereceriam a compensação da riqueza afetiva. Para quem sempre acalentou o sonho da ascensão social, o ingresso de Bentinho no seminário é um duro golpe:
Tinha os olhos úmidos deveras; levava a cara dos desenganados, como quem empregou em um só bilhete todas as suas economias de esperanças, e vê sair branco o maldito número, – um número tão bonito!27.
Nada tem de inocente essa comparação com o apostador que investe tudo de que dispõe num bilhete lotérico, quantia expressa pela metáfora “todas as suas economias de esperanças”, em que o sentimento subjetivo de confiar na realização de um desejo ganha materialidade de moeda, graças ao uso do plural “economias”. O segundo plural “esperanças” apenas reitera tal concretude. Mediante a comparação e a metáfora monetárias, o narrador desqualifica a afeição propalada pelo pai de Capitu, porque, nesse caso, a esperança de tirar a sorte grande pode ter um óbvio sentido pecuniário. Daí a beleza do número do bilhete, tão bonito como o sonhado casamento com Bentinho ou como o próprio noivo potencial, cuja formosura é assinalada mais de uma vez28. Antes, cabe lembrar, a atitude interesseira de Pádua só havia sido apontada por José Dias29. Aqui, o próprio narrador endossa o diagnóstico do agregado. Reduzindo o afeto à conveniência, aviltando o pai de seu eterno objeto de amor e ódio, Dom Casmurro atinge também Capitu. Se a fruta já estava dentro da casca, se a Capitu adulta já estava na Capitu menina, aqui é sugerido precisamente se não um traço hereditário, ao menos um modelo familiar de comportamento, a influência do ambiente em que fora educada. E os maus exemplos domésticos não se limitam à figura paterna. Sugestão semelhante, embora mais sutil, também é feita em relação à mãe. No capítulo 34, “Sou homem!”, Dona Fortunata entra na sala onde Capitu e Bentinho tinham acabado de dar seu primeiro beijo, na famosa cena do penteado. Uma vez que passos no corredor tinham anunciado a aproximação da mãe, Capitu, já recomposta e sem o menor embaraço, mostra-se até capaz de zombar da inabilidade de Bentinho como cabeleireiro. Igualmente inábil em disfarçar sua comoção, o adolescente permanece mudo diante de ambas. Ao narrar o episódio, Dom Casmurro, bem mais versado, não deixa de realçar o contraste entre a perturbação, a imperícia de Bentinho e a desenvoltura, o talento dissimulador de Capitu, que não faria mais do que seguir o exemplo materno. Eis como o narrador descreve a reação de Dona Fortunata às explicações da jovem sobre o que ali se passara em sua ausência:
(...) Olhava com ternura para mim e para ela. Depois, parece-me que desconfiou. Vendo-me calado, enfiado, cosido à parede, achou talvez que houvera entre nós algo mais que penteado, e sorriu por dissimulação...30
Tal mãe, tal filha. Seja herdada, seja copiada, a capacidade de autocontrole e dissimulação é a característica que o narrador procura sublinhar em Capitu, nem sempre de maneira negativa à primeira vista, embora, ao atribuir-lhe essa feição precoce, esteja preparando a futura acusação de adultério, que partirá dessa premissa do fingimento, entre outras. É inevitável lembrar a célebre advertência do pai de Desdêmona a Otelo, quando descobre que a filha casou sem seu consentimento: “Abre teus olhos, Mouro, e sê bem cauteloso: Se ela enganou o pai, pode enganar o esposo”31. Ou seja, se Capitu dissimulava em menina, que dirá depois de adulta e experiente. Aliás, no capítulo 32, anterior ao do primeiro beijo e no qual o narrador formula a célebre metáfora dos “olhos de ressaca”, Bentinho fita Capitu justamente para ver se ela possuía mesmo “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, como afirmara José Dias.

Passemos então à situação onírica que inclui um bilhete de loteria e à metáfora da sorte grande, presentes no capítulo 63, “Metades de um sonho”. Esse sonho é efeito do segundo abalo que sofreu o amor de Bentinho por Capitu, com a maldosa resposta de José Dias, futuro Iago arrependido, à indagação do jovem seminarista sobre a moça: “Aquilo enquanto não pegar um peralta da vizinhança que case com ela...”32. Desperta assim em Bentinho “um sentimento cruel e desconhecido, o puro ciúme”33, segundo identifica o próprio narrador. Vamos ao sonho:


Quanto ao sonho foi isto. Como estivesse a espiar os peraltas da vizinhança, vi um destes que conversava com a minha amiga ao pé da janela. Corri ao lugar, ele fugiu; avancei para Capitu, mas não estava só, tinha o pai ao pé de si, enxugando os olhos e mirando um triste bilhete de loteria. Não me parecendo isto claro, ia pedir a explicação, quando ele de si mesmo a deu; o peralta fora levar-lhe a lista dos prêmios da loteria, e o bilhete saíra branco. Tinha o número 4004. Disse-me que esta simetria de algarismos era misteriosa e bela, e provavelmente a roda andara mal; era impossível que não devesse ter a sorte grande. Enquanto ele falava, Capitu dava-me com os olhos todas as sortes grandes e pequenas. A maior destas devia ser dada com a boca. E aqui entra a segunda parte do sonho. Pádua desapareceu, como as suas esperanças do bilhete, Capitu inclinou-se para fora, eu relanceei os olhos pela rua, estava deserta. Peguei-lhe nas mãos, resmunguei não sei que palavras, e acordei sozinho no dormitório.34
Ao contrário do casal Santiago, os “dois bem casados de outrora, os bem-amados, os bem-aventurados, que se foram desta para a outra vida, continuar um sonho provavelmente”35 – ao menos na visão de Dom Casmurro, o casal Bentinho-Capitu não teve a mesma felicidade. Fadado a terminar, seu sonho amoroso é interrompido a primeira vez pela ida do rapaz para o seminário, conforme decidira sua mãe numa promessa, deliberadamente relembrada por José Dias e cujo cumprimento o agregado a princípio incentiva. No sonho, o ciúme se manifesta, mas não o impede de viver um breve idílio com Capitu. Esse colóquio amoroso, exclusivamente visual, promete outro mais próximo e palatável: “Enquanto ele falava, Capitu dava-me com os olhos todas as sortes grandes e pequenas. A maior destas devia ser dada com a boca”. Mas o sonho bruscamente se interrompe, e Bentinho não obtém o prêmio maior do beijo, embora já segurasse as mãos de Capitu nas suas e estivessem sós. Essa interrupção tanto repetiria, no plano onírico, o obstáculo provisório da ida para o seminário quanto prefiguraria o fracasso definitivo da relação do casal algum tempo depois do casamento, quando o ciúme se converte em obstáculo intransponível, capaz de envenenar o amor e inviabilizar a vida conjugal. Coincidentemente, no livro, os casamentos felizes ou bem-sucedidos, ao menos do ponto de vista funcional, são aqueles em que não há assimetria socioeconômica entre os esposos, são casamentos entre pares nesse sentido particular. Nessa categoria, estariam o casal Santiago, o casal Pádua, como vimos, e, por fim, o casal Escobar. A simetria acha-se apenas no número do bilhete sonhado, 4004, não na realidade social de Bento e Capitu. Quando o sonho acaba, restam os fatos e também os equívocos reais. A simetria inexistente no plano socioeconômico na verdade poderia ser apontada no modo como se inicia e se encerra a relação amorosa dos protagonistas. Nesse caso, porém, não se trata de uma circunstância propícia à harmonia do casal, cuja relação começaria não num duo, mas sim num quarteto – Capitu-Bentinho-Dona Glória-José Dias – , e chegaria ao fim noutro quarteto, Bentinho-Capitu-Escobar-Ezequiel, talvez menos objetivo que o primeiro, exceto para Dom Casmurro36.

No capítulo 18, “Um plano”, quando Bentinho enfim comunica a Capitu que entrará no seminário, sucede um episódio significativo com um vendedor ambulante de cocadas. O preto que as apregoava oferece a mercadoria a Capitu, esta recusa e manda-o embora. Bentinho ainda assim compra duas, mas termina por comê-las sozinho:


(...) Vi que em meio da crise, eu conservava um canto para as cocadas, (...); a minha amiga, apesar de equilibrada e lúcida, não quis saber de doce, e gostava muito de doce. Ao contrário, o pregão que o preto foi cantando, o pregão das velhas tardes, tão sabido do bairro e da nossa infância:

Chora, menina, chora

Chora, porque não tem

Vintém,


a modo que lhe deixara uma impressão aborreci\da. Da toada não era; ela a sabia de cor e de longe, usava repeti-la nos nossos jogos da puerícia, rindo, saltando, trocando os papéis comigo, ora vendendo, ora comprando um doce ausente. Creio que a letra, destinada a picar a vaidade das crianças, foi que a enojou agora, porque logo depois me disse:

– Se eu fosse rica, você fugia, metia-se no paquete e ia para a Europa.37


Mais uma vez, enfatiza-se a assimetria social entre a família Pádua e a família Santiago e a consciência que tem Capitu dessa inferioridade socioeconômica e suas implicações. O episódio ecoa o fim do capítulo 52, quando Pádua, ao despedir-se do futuro seminarista, aparenta uma tristeza que o narrador maliciosamente associa (pois não o faz de forma direta como José Dias, preferindo a linguagem metafórica) à desilusão de perder a única chance de conseguir um genro rico, para sempre desperdiçado no sacerdócio. Apesar do descontrole e da franqueza de sua reação inicial à notícia, quando se enfurece contra Dona Glória, a quem chama de “beata”, “carola” e “papa-missas”38, Capitu é bem mais controlada, inteligente e hábil que o pai. Não chora, mas fica contrariada em ver sua situação pessoal descrita num pregão, desde a infância tão familiar, tão conhecido no bairro. A inesperada semelhança expõe de forma crua e dolorosa sua condição social e sua impotência para mudá-la, para escapar às limitações materiais, culturais, sentimentais e morais por ela implicadas. Naquele momento, a oportunidade de mudança, isto é, a possibilidade de ascensão social pelo casamento estava seriamente ameaçada.

É revelador o modo como Capitu se mostra inconformada com a resolução de Dona Glória de mandar Bentinho para o seminário e com sua própria situação: “– Se eu fosse rica, você fugia, metia-se no paquete e ia para a Europa”. Capitu não diz “nós fugíamos”, mas “você fugia”. É possível entender esse uso do “você” em lugar do “nós” como um sinal de desprendimento, de amor altruísta, pois, na ausência de uma vocação religiosa, o fundamental seria livrar Bentinho da carreira eclesiástica. No entanto, também é possível interpretá-lo de modo essencialmente egoísta, já que a riqueza, além de poder financiar a fuga para a Europa, permitiria a Capitu dispensar orgulhosamente o casamento com um noivo rico. Nessa última hipótese, ela preferiria vingar-se da mãe de Bentinho, mediante o afastamento geográfico do filho, em vez de roubá-lo à rival casando-se com ele, ou seja, roubá-lo por intermédio da mesma Igreja a que recorrera Dona Glória para tirá-lo dela. Nesse caso, abrir mão do matrimônio com Bentinho significaria que superar sua frágil e precária condição de classe é mais importante que viver o amor pelo amigo de infância. Se Capitu fosse rica, isto é, se fosse um excelente partido, esse amor talvez não passasse de uma grande afeição, uma vez que ela teria outros pretendentes, tão ou mais cultos e endinheirados que o filho de Dona Glória. Enfim, o eleito seria de fato uma escolha, não a única salvação39.



No tocante à temática do dinheiro e das circunstâncias e interesses econômicos, cumpre mencionar o ensaio “Dom Casmurro e os farrapos de textos”, de Wellington de Almeida Santos, no qual o autor estuda “aspectos da microestrutura narrativa”, em “três áreas semânticas distintas (status social, erotismo e religião)” 40. Almeida Santos comenta o episódio do vendedor de cocadas e observa que a toada do pregão atravessa toda a vida de Bento Santiago  “infância, adolescência, maturidade e a própria velhice de Dom Casmurro”. O autor discute as repetidas referências ao pregão nos capítulos 60  “ Querido opúsculo”, 110  “Rasgos da infância”, e 114  “Em que se explica o explicado”. Desse último capítulo serão analisadas mais adiante duas passagens cujas metáforas econômicas importa ressaltar. Por ora, examinemos o capítulo 110, dedicado a episódios da infância de Ezequiel, ou seja, da vida dos protagonistas já casados e pais de um menino de cinco anos. Nesse capítulo, o narrador já demonstra a tendência a associar comportamentos e características do filho à mãe e a seu amigo Escobar, realçando exclusivamente semelhanças entre os três. Vejamos o segundo parágrafo do capítulo:
Aos cinco e seis anos, Ezequiel não parecia desmentir os meus sonhos da Praia da Glória; ao contrário, adivinhavam-se nele todas as vocações possíveis, desde vadio até apóstolo. Vadio é aqui posto no bom sentido, no sentido de homem que pensa e cala; metia-se às vezes consigo, e nisto fazia lembrar a mãe, desde pequena. Assim também, agitava-se todo e instava por ir persuadir às vizinhas que os doces que eu lhe trazia eram doces deveras; não o fazia antes de farto deles, mas também os apóstolos não levam a boa doutrina senão depois de a terem toda no coração. Escobar, bom negociante, opinava que a causa principal desta outra inclinação, talvez fosse convidar implicitamente as vizinhas a igual apostolado, quando os pais lhe trouxessem doces; e ria-se da própria graça, e anunciava-me que o faria seu sócio.41
No leque de inclinações do filho, o narrador identifica a vocação para “vadio”, num extremo, e para “apóstolo”, no outro. “Vadio” é termo cujas acepções são quase todas negativas, excetuando-se talvez aquela em que é sinônimo de “vagabundo”, no sentido de indivíduo “que leva uma vida errante; que vagueia”, como registra o dicionário Aurélio (1999). No entanto, até esse nomadismo pode ter conotações reprováveis, se pensarmos em indivíduos, grupos ou povos itinerantes como os ciganos e na reputação geralmente associada a eles. Na época de Machado, a palavra podia não ter caráter tão pejorativo quanto possui hoje, mas era obviamente depreciativa. Do contrário, não se justificaria a especificação: “Vadio é aqui posto no bom sentido, no sentido de homem que pensa e cala”. Se bom sentido há, decerto não é este, inventado pelo narrador  aliás, muito semelhante ao que já inventara para o termo “casmurro”, no primeiro capítulo, no qual explica o título do livro: “Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo”42.

Mas, se reconhece ter “hábitos reclusos e calados”, que desagradam aos vizinhos, responsáveis por ter dado curso à alcunha de “Dom Casmurro”, por que apontar, nessa atitude de “meter-se consigo”, uma semelhança apenas com a mãe? Talvez porque, além do hábito de ensimesmar-se, refletir, que o ócio do “vadio” permitiria cultivar, estão em jogo as verdadeiras acepções do termo. Se considerarmos “vadio” o indivíduo entregue à “vadiagem”, estaremos falando de uma contravenção penal no vocabulário jurídico brasileiro contemporâneo. Sem esquecer correlatos indesejáveis como “cigano”, no sentido figurado de “indivíduo boêmio, erradio, de vida incerta” (Aurélio) e nos usos pejorativos de “aquele que trapaceia; velhaco, burlador” e “aquele que faz barganha, que é apegado ao dinheiro; agiota, sovina” (Houaiss). Nessa passagem, então, o narrador teria encontrado uma forma oblíqua e dissimulada de repisar a definição que deu José Dias dos olhos e do caráter supostamente traiçoeiro de Capitu. E não só pela via indireta do termo “vadio”. Até quando parece designar o ato da reflexão, também está aludindo à dissimulação. Afinal, quem “pensa” a respeito de algum assunto e “cala” sua opinião, com silêncio ou palavras, não está dissimulando? Aí residiria a diferença entre a fórmula com que descreve a si mesmo  “homem calado e metido consigo”  e a fórmula utilizada para definir Ezequiel (além de Capitu e Escobar, pois a reflexão, aqui desvirtuada em fingimento e logro, é característica creditada a ambos pelo narrador)  “homem que pensa e cala”. Em suma, a primeira formulação seria moralmente neutra, por assim dizer, limitando-se ao ensimesmamento; já a segunda se revelaria ambígua, equívoca, capciosa.

No extremo oposto ao do “vadio” no arco das vocações de Ezequiel, o narrador situa o apóstolo. Claro, se o “vadio” é o que “pensa e cala”, o apóstolo é o que crê e fala. Fala para defender a causa em que crê, seja a difusão da palavra de Deus, da fé cristã, como no caso dos doze discípulos, seja qualquer outra causa, inclusive a sua própria, o interesse pessoal e, em princípio, intransferível, ao menos até persuadir outros de que também têm a ganhar em favorecer o apóstolo, ainda que na realidade não tenham ou que se trate de uma troca de favores, que acabará por beneficiar tanto ao pregador quanto aos que lhe derem ouvidos. Assim, o narrador conta em tom blasfematório o empenho do filho em convencer as vizinhas a provar os doces trazidos pelo pai, uma vez que já se fartara de tanto comê-los e, desse modo, daria a eles uma utilidade, fazendo-os render: serviriam para “convidar as vizinhas a igual apostolado” e realizar o milagre da multiplicação das guloseimas. Blasfêmias à parte, como “bom negociante”, Escobar logo reconheceu o talento mercantil de Ezequiel e, com bom humor, declarou-se disposto a oferecer-lhe sociedade nos negócios. O tino comercial seria mais uma semelhança entre o filho e o melhor amigo.

Dessa maneira, o narrador-protagonista afasta habilmente as afinidades entre ele e Ezequiel que tanto o pólo do vadio quanto o do apóstolo poderiam sugerir. Recordemos o pecado capital por ele admitido no capítulo 20, vício assegurado sem maiores restrições apenas a membros da abençoada elite proprietária, como Bento Santiago: “Mas vão lá matar a preguiça de uma alma que a trazia do berço e não a sentia atenuada pela vida!”43. Salvo engano, aqui se afirma, entre outras coisas, uma vocação para vadio. Recordemos, por outro lado, o treinamento precoce para o sacerdócio católico, ainda que pouco ortodoxo, a ponto de incluir outro pecado capital e largas doses de profanação:


(...) Em casa, brincava de missa,  um tanto às escondidas, porque minha mãe dizia que missa não era cousa de brincadeira. Arranjávamos um altar, Capitu e eu. Ela servia de sacristão, e alterávamos o ritual, no sentido de dividirmos a hóstia entre nós; a hóstia era sempre um doce. No tempo em que brincávamos assim, era muito comum ouvir à minha vizinha: “Hoje há missa?” Eu já sabia o que isto queria dizer, respondia afirmativamente, e ia pedir hóstia por outro nome. Voltava com ela, arranjávamos o altar, engrolávamos o latim e precipitávamos as cerimônias. Dominus, non sum dignus... Isto, que eu devia dizer três vezes, penso que só dizia uma, tal era a gulodice do padre e do sacristão. Não bebíamos vinho nem água; não tínhamos o primeiro, e a segunda viria tirar-nos o gosto do sacrifício.44
Ainda no capítulo 110, é preciso assinalar a exortação de Bento a Capitu: quer que ela toque para Ezequiel ao piano o pregão do vendedor de cocadas de Matacavalos. Capitu havia esquecido a toada, não guardara a melodia nem as palavras. Bento tampouco. Mas, como um professor de música em São Paulo fizera-lhe o obséquio de transcrevê-la, recorreu a esse registro, e Capitu pôde mostrar a toada ao filho:
Capitu achou à toada um sabor particular, quase delicioso; contou ao filho a história do pregão, e assim o cantava e teclava. Ezequiel aproveitou a música para pedir-me que desmentisse o texto dando-lhe algum dinheiro.45
Se a reação de Capitu foi nessa circunstância bem diversa da narrada no capítulo 18, não é difícil deduzir o motivo. “Livre da ameaça de pobreza”46, como anota Almeida Santos, Capitu pôde não só tocá-la e cantá-la, mas também apreciá-la, achar-lhe um sabor “quase delicioso”, em vez do gosto amargo da adolescência. Ao pedir ao pai que “desmentisse o texto dando-lhe algum dinheiro”, Ezequiel repete a Capitu adolescente. Nessa “reedição”, contudo, Bento de fato corrige, desmente o texto, atendendo ao pedido, correspondendo à expectativa, ao desejo do filho, um filho que, segundo ele mesmo diz no começo do capítulo, “não parecia desmentir os [s]eus sonhos da praia da Glória”47. Ao menos até ali.

Em The Brazilian Othello of Machado de Assis: a Study of Dom Casmurro (1960), Helen Caldwell vê em Bento Santiago uma fusão das personagens shakespearianas de Otelo e Iago, ou seja, um Otelo que é Iago de si mesmo48, e comenta no segundo capítulo do livro, o tema do dinheiro e a forma como esse tema se apresenta, sua expressão lingüística, no romance em questão49. Diz a autora no início de sua breve e pioneira análise:


Não é somente a Escobar que Santiago atribui um excessivo interesse em dinheiro, mas também a Capitu, com sua pérola de César e as dez libras esterlinas, Pádua, José Dias e talvez até a prima Justina. Mas, e quanto a Santiago? Iago acusa Cássio de “calculista”, quando na verdade é ele, Iago, que coloca as jóias de Rodrigo na própria bolsa. As falas de Iago aludem constantemente ao assunto dinheiro. Da mesma forma, Santiago, além de suspeitar que todos têm um olho na fortuna de sua família, está sempre falando de dinheiro. Ele reduz a relação mais sagrada entre Deus e o homem ao calão dos negócios financeiros – comprar, vender, emprestar, ganhar na loteria. Ainda em tenra idade, começa a comprar favores celestes usando orações como moeda; (...) 50.

Santiago se importa, sim, com dinheiro, conclui, Caldwell, embora só atribua tal preocupação aos outros. E a ensaísta americana lembra a passagem do capítulo 108, “Um filho”, na qual o narrador procura contrapor o pragmatismo de Escobar, para dizer o mínimo, a seu suposto idealismo, sua falta de objetividade: “(...) descíamos à praia ou ao Passeio Público, fazendo ele os seus cálculos, eu os meus sonhos”51. Aliás, atribuir apenas ao outro modos de ver, sentir e agir que também lhe são próprios é característico desse narrador casmurro. Ele assim o faz não só em relação ao interesse pecuniário, mas também em relação à curiosidade, ao ensimesmamento e à tríade cálculo, dissimulação, malícia.

Há em Dom Casmurro um expressivo conjunto de metáforas econômicas aplicadas à esfera religiosa: o narrador-protagonista descreve a relação do indivíduo com Deus como relação de dívida. Além de criador, Deus Pai é credor. E nós, criaturas devedoras por excelência. Entre as várias formas de endividamento possíveis, Dom Casmurro enfatiza de maneira cômica e profanadora a dívida com o céu, ou seja, com o Credor maior e definitivo. Passemos então à análise de algumas dessas metáforas pouco católicas no tratamento da matéria religiosa, mais matéria que espírito, conforme veremos.

O capítulo 20, “ Mil padre-nossos e mil ave-marias”, mostra clara e exemplarmente em que termos se dá a relação de Bentinho com Deus. Por ser composto de uma sucessão de metáforas econômicas articuladas entre si, vai aqui transcrito na íntegra:


Levantei os olhos ao céu, que começava a embruscar-se, mas não foi para vê-lo coberto ou descoberto. Era ao outro céu que eu erguia a minha alma; era ao meu refúgio, ao meu amigo. E então disse de mim para mim:

Prometo rezar mil padre-nossos e mil ave-marias, se José Dias arranjar que eu não vá para o seminário.

A soma era enorme. A razão é que eu andava carregado de promessas não cumpridas. A última foi de duzentos padre-nossos e duzentas ave-marias, se não chovesse em certa tarde de passeio a Santa Teresa. Não choveu, mas eu não rezei as orações. Desde pequenino acostumara-me a pedir ao céu os seus favores, mediante orações que diria, se eles viessem. Disse as primeiras, as outras foram adiadas, e à medida que se amontoavam iam sendo esquecidas. Assim cheguei aos números vinte, trinta, cinqüenta. Entrei nas centenas e agora no milhar. Era um modo de peitar a vontade divina pela quantia das orações; além disso, cada promessa nova era feita e jurada no sentido de pagar a dívida antiga. Mas vão lá matar a preguiça de uma alma que a trazia do berço e não a sentia atenuada pela vida! O céu fazia-me o favor, eu adiava a paga. Afinal perdi-me nas contas.

 Mil, mil, repeti comigo.

Realmente, a matéria do benefício era agora imensa, não menos que a salvação ou o naufrágio da minha existência inteira. Mil, mil, mil. Era preciso uma soma que pagasse os atrasados todos. Deus podia muito bem, irritado com os esquecimentos, negar-se a ouvir-me sem muito dinheiro... Homem grave, é possível que estas agitações de menino te enfadem, se é que não as achas ridículas. Sublimes não eram. Cogitei muito no modo de resgatar a dívida espiritual. Não achava outra espécie em que, mediante a intenção, tudo se cumprisse, fechando a escrituração da minha consciência moral sem deficit. Mandar dizer cem missas, ou subir de joelhos a ladeira da Glória para ouvir uma, ir à Terra Santa, tudo o que as velhas escravas me contavam de promessas célebres, tudo me acudia sem se fixar de vez no espírito. Era muito duro subir uma ladeira de joelhos; devia feri-los por força. A Terra Santa ficava muito longe. As missas eram numerosas, podiam empenhar-me outra vez a alma...52
O capítulo principia com uma ação objetiva  o ato de olhar para o céu, que começava a ficar sombrio, coberto por nuvens escuras. Esse gesto sinaliza outro menos aparente e palpável: Bentinho não ergue simplesmente os olhos ao céu concreto, ergue também a alma “ao outro céu”. E não faz um mero pedido ao Pai nosso que lá está, faz uma promessa, isto é, pede oferecendo uma contrapartida, propõe a Ele uma troca. Nesse sentido, toda promessa religiosa tem uma dimensão mercantil. E, nesse comércio com Deus, o mais freqüente talvez seja mesmo solicitar benefícios bem concretos, em troca de atos não menos tangíveis, como “[m]andar dizer cem missas”, “subir de joelhos a ladeira da Glória para ouvir uma, ir à Terra Santa”. Bentinho prefere algo menos público e espetacular  “rezar mil padre-nossos e mil ave-marias”, mas tal preferência não se deve à modéstia ou a qualquer outro motivo nobre. Sempre concretas, suas razões são de ordem física  subir uma ladeira de joelhos fere o corpo  e talvez até de natureza econômica, um tanto sovina, poderíamos supor  ir à distante Terra Santa e mandar rezar numerosas missas ferem o bolso. Entretanto, segundo ele próprio esclarece aqui, seu pecado capital, nesse caso, não é a avareza, mas sim a preguiça. Não obstante, por mais espiritual que se considere a tarefa proposta por Bentinho, sua duração é concretamente longa, e sua quantificação, assim como a da promessa de encomendar missas, necessária. Ironicamente, a tarefa divina é impedir, por intermédio de José Dias, a ida do rapaz para o seminário e sua conseqüente ordenação, dispensando assim um futuro servidor seu, em regime de exclusividade.

No segundo parágrafo, o narrador-protagonista comenta o total de orações afiançado na promessa: “A soma era enorme”. “Soma”  substantivo que designa, entre outras coisas, o resultado de uma adição, a própria operação aritmética e uma quantia de dinheiro  é aqui o primeiro termo a aliar a concretude à idéia de contabilidade. O adjetivo “carregado” enfatiza a materialidade já sugerida por “soma”. Embora a carga em questão não seja material, o particípio passado de “carregar” acentua a idéia física de peso, como circunstância ou condição característica da matéria: uma árvore carregada de frutos, por exemplo. A gravidade do problema em sentido abstrato fica assim impregnada de seu significado concreto, newtoniano. Bentinho “andava carregado de promessas não cumpridas”, e seu futuro andava tão carregado quanto o céu ao qual levantou os olhos no momento da promessa. Enquanto céu e futuro prometiam chuva, Bentinho prometia preces, duas mil delas.

No início do último parágrafo do capítulo, não cabendo determinar uma quantidade numérica no caso da graça esperada, Bentinho determina seu valor: “a matéria do benefício agora era imensa, não menos que a salvação ou o naufrágio da minha existência inteira”. Reitera-se aí a correspondência entre elementos concretos e circunstâncias mais abstratas, espirituais. O céu acima das cabeças com sua promessa de chuva, e o futuro a ameaçar o dilúvio. Iria ele naufragar no celibato da carreira eclesiástica ou entrar com Capitu na Arca? Como já tinha afastado a possibilidade de chuva meteorológica numa tarde de passeio, mediante a última promessa, não paga, de rezar quatrocentas orações, quem sabe não conseguiria um deficit pluviométrico domiciliar, evitando que seu projeto de vida a dois fizesse água?

No segundo parágrafo, o narrador conta ter adquirido desde pequeno o hábito de recorrer a promessas de orações que diria, se obtivesse do céu os favores pedidos. Reconhece também sempre ter sido mau pagador, mais devoto do calote que do Altíssimo: “Disse as primeiras, as outras foram adiadas, e à medida que se amontoavam iam sendo esquecidas. Assim cheguei aos números vinte, trinta, cinqüenta”. Repare-se o uso de um verbo como “amontoar”, que reforça o aspecto concreto, e note-se a enumeração de cifras específicas “vinte, trinta, cinqüenta”. O período seguinte já deixa clara a idéia de contabilidade, além de configurar a relação entre a personagem e Deus como um rapport entre devedor e credor: “Entrei nas centenas e agora no milhar. Era um modo de peitar a vontade divina pela quantia das orações; além disso, cada promessa nova era feita e jurada no sentido de pagar a dívida antiga. (...) O céu fazia-me o favor, eu adiava a paga. Afinal perdi-me nas contas”. “Perder-se nas contas”, “adiar a paga”, “promessa nova”, “dívida antiga”, “quantia das orações”  todas essas são expressões que mesclam à relação com Deus o mundano, o mercantil, o pecuniário e o contábil, associando abstrato e concreto. E tanto a idéia traduzida pela palavra “promessa” quanto o próprio vocábulo circulam há tempos pelo universo econômico-jurídico, segundo atestam expressões corriqueiras como “nota promissória”, “promessa de compra e venda”. A promissória, aliás, não é outra coisa senão um documento escrito que registra uma dívida, concedendo ao credor ou favorecido o direito de receber aquele valor, na data ali estipulada. Na definição do dicionário Houaiss, nota ou letra promissória é uma “promessa de pagamento emitida pelo devedor em favor do credor, que deverá ser cumprida no vencimento convencionado”. O mesmo dicionário assim define o sentido religioso de “promessa”: “oferta de pagamento futuro (em orações, sacrifícios, penitências, dinheiro, ex-votos etc.) feito a Deus, à virgem Maria ou aos santos, para obter alguma graça ou benefício; voto”. O vencimento, na promessa religiosa, é logo após a obtenção da graça. Com a promessa, portanto, a graça deixa de ser de graça. E os maus pagadores, como Bentinho, sempre podem alegar que só estão restabelecendo a gratuidade da graça.

Na esfera econômica, promessa sem dúvida é dívida. Aqui, obedecendo ao ditado, promessa também vira sinônimo de dívida. Desde cedo, então, o protagonista revela-se um descumpridor de promessas, ou seja, um caloteiro. Embora não o recomende ao Banco da divina Providência, tal histórico não inibe o rapaz de fazê-las. Além da necessidade de assegurar novos pedidos a Deus por meio delas, a própria existência de promessas não cumpridas leva nosso inadimplente espiritual a assumir novos compromissos que permitam saldar os anteriores: “Era preciso uma soma que pagasse os atrasados todos”. A afirmação seguinte não deixa dúvida quanto à utilização da prece como meio de troca, moeda: “Deus podia muito bem, irritado com os esquecimentos, negar-se a ouvir-me sem muito dinheiro...”. Pouco depois, vem a passagem em que a concepção de contabilidade moral mais se explicita: “Cogitei muito no modo de resgatar a dívida espiritual. Não achava outra espécie em que, mediante a intenção, tudo se cumprisse, fechando a escrituração da minha consciência moral sem deficit”. A terminologia econômica e contábil  “resgatar uma dívida”, “escrituração” e “deficit”  combina-se aos termos da esfera moral e espiritual, impondo a este campo os valores, o modus faciendi, os códigos de funcionamento daquela outra esfera. No plano religioso, exploram-se precisamente os aspectos mais afins com o universo econômico, como o recurso da promessa, cujo caráter mercantil sobressai graças a essa vizinhança terminológica e ao contexto despudoradamente comercial em que o narrador-protagonista a insere.

Segundo o Houaiss, escriturar é “anotar de maneira organizada, sistemática (contas comerciais); fazer a escrituração de”, além de “assumir obrigações e deveres por meio de escritura pública”. Simplificadamente, “escrituração” é a contabilidade, o ato de escriturar nos livros competentes, são os próprios livros e registros contábeis. A meta declarada pelo protagonista é “fecha[r] a escrituração da [sua] consciência moral sem deficit”, zerar as contas. A contabilidade moral presente em Memórias póstumas tinha objetivo semelhante, expresso pela metáfora da “equivalência das janelas”. Segundo esse princípio, “o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência”, impedindo-a de “ficar sufocada” ou, nos termos de Bento e Brás combinados, evitando seu deficit respiratório. A diferença reside no fato de, em Dom Casmurro, as questões morais envolverem diretamente a dimensão religiosa e os valores católicos. A complicação inicial da trama, vale lembrar, baseia-se na promessa da mãe devota, a fim de assegurar o nascimento do filho, de quem faria um padre se fosse varão e vingasse. “Um cochilo da fé”, segundo nosso advogado, teria resolvido tudo favoravelmente a ele, “mas a fé velava com o seus grandes olhos ingênuos”53. Como bem observa Therezinha Mucci Xavier, a própria geração do protagonista e narrador do livro (ou, se quisermos ser mais precisos, sua própria existência, uma vez que a intervenção divina seria posterior à concepção) deve-se a um favor de Deus (ao menos para Dona Glória)54. Eis um fato (ou uma hipótese) que não deixa de ter conseqüências contábeis: além de revelar-se perdulário no uso do verbo prometer, Bentinho já teria nascido endividado. Com o tempo, o vício das promessas, verdadeira compulsão, rendeu-lhe elevada “dívida espiritual”. O único meio de resgatá-la, cumprindo todas as promessas pendentes, era fazer nova promessa em que “a quantia das orações igualasse ou superasse “os atrasados todos”. Desse modo, “mediante a intenção”, fórmula ideal para os que falham sempre na realização, o preguiçoso protagonista conseguiria fazer sua consciência moral sair do vermelho e ainda contar com o favor do céu num momento crítico.

Antes de mencionar outros três capítulos que ilustram expressivamente a contabilidade moral que percorre o romance, vejamos duas passagens relativas ao valor monetário da intenção, por assim dizer, e algumas outras localizadas nos mesmos capítulos. A primeira encontra-se no capítulo 67  “Um pecado”, no qual Bentinho confessa ter desejado, por uma fração de segundo, a morte da mãe que adoecera gravemente: “Foi uma sugestão da luxúria e do egoísmo. A piedade filial desmaiou um instante, com a perspectiva da liberdade certa, pelo desaparecimento da dívida e do devedor”55. Mas a passagem referente à intenção como moeda é esta outra, no fim do capítulo:

(...) Então levado do remorso, usei ainda uma vez do meu velho meio das promessas espirituais, e pedi a Deus que me perdoasse e salvasse a vida de minha mãe, e eu lhe rezaria dous mil padre-nossos. Padre que me lês, perdoa este recurso; foi a última vez que o empreguei. A crise em que me achava, não menos que o costume e a fé, explica tudo. Eram mais dous mil; onde iam os antigos? Não paguei uns nem outros, mas saindo de almas cândidas e verdadeiras tais promessas são como a moeda fiduciária,  ainda que o devedor as não pague, valem a soma que dizem56.


Nessa passagem, o protagonista se mostra um irrecuperável quebrador de promessas, nem quando as faz por causas decisivas, por uma razão literalmente de vida ou morte como nesse caso, chega a cumpri-las. Daí o subterfúgio de valorizar a intenção de pagá-las, a sinceridade com que foram feitas. Para isso, o narrador compara as promessas descumpridas ao engenhoso instrumento econômico da moeda fiduciária, ou seja, qualquer meio de troca, qualquer meio de pagamento, moeda, em suma, “cujo valor não decorre do valor intrínseco de um lastro (p.ex., papel-moeda, moeda metálica cunhada em liga de valor inferior ao valor de face), mas do valor que lhe é atribuído pelo órgão emissor, e que é aceite como bom pelos usuários” (Houaiss). Não havendo um “correspondente lastro de metal precioso em poder do emitente” como garantia, a aceitação de uma moeda fiduciária “se baseia na confiança” (Aurélio), segundo o próprio adjetivo indica.

As “almas cândidas e verdadeiras” seriam emitentes confiáveis, totalmente dignos de fé, e as promessas por elas “emitidas” dispensariam o cumprimento, assim como a moeda fiduciária dispensa a garantia do lastro: “ainda que o devedor não as pague, valem a soma que dizem”. O fato de nosso cândido devedor nunca as ter pagado não deve abalar a confiança na verdade de sua intenção de pagar, no valor dessa intenção, sempre sincera, segundo ele. Em vez de “intenção de pagar”, talvez fosse mais correto dizer “intenção pagadora”, pois, aos olhos de nosso sutil economista, a própria intenção já vale como pagamento. Dessa forma, o narrador inaugura a cômoda categoria das promessas religiosas que deixam a parte executiva toda a cargo da outra parte, a todo-poderosa. No mundo profano, no reino das promessas civis, a incumbência assumida pode ser unilateral, não há dúvida. Mas essa unilateralidade, ao que se saiba, sempre se referiu ao lado de quem promete, não ao outro. Abolindo a reciprocidade das prestações, nosso especialista em economia espiritual eliminou a diferença entre promessa e simples pedido, ou melhor, travestiu o pedido de promessa.

No capítulo 80  “Venhamos ao capítulo”, a palavra “promessa” ganha outros sinônimos além de “dívida”, alternando-se com “contrato” e “letra”, ambos termos econômicos cuja proximidade de significado com “promessa”, sobretudo no sentido religioso, é nítida. Contrato é todo “pacto entre duas ou mais pessoas, que se obrigam a cumprir o que foi entre elas combinado sob determinadas condições” (Houaiss), a definição propriamente jurídica do termo, nesse dicionário como no Aurélio, também supõe “um acordo de vontades entre as partes” envolvidas. A palavra “contrato” figura no primeiro e no antepenúltimo parágrafo do capítulo57. Como Dona Glória fizera a promessa sem dizer nada a ninguém, especialmente ao marido, a quem só revelaria o acerto com Deus, quando Bentinho fosse para escola58, terminou enviuvando antes disso e ficando “diante do contrato, como única devedora59. Só após a morte do esposo, não querendo separar-se do filho, mas tampouco desejando quebrar a promessa, julgou necessário “apertar o vínculo moral da obrigação, confi[ando] os seus projetos e motivos a parentes e familiares”60. Note-se o emprego do verbo “apertar” em mais outra metáfora cujo efeito de concretização do abstrato é uma das constantes estilísticas do autor, como apontou Dirce Côrtes Riedel61. Embora procurasse adiar a entrada de Bentinho no seminário, Dona Glória fazia-o, ao contrário dele, por acreditar que “promessas se cumprem”62: seriam, no vocabulário econômico-jurídico, contratos bilaterais, ou seja, aqueles em que “ambas as partes têm obrigações” (Houaiss). Já o filho da viúva Santiago advogava promessas segundo o modelo do contrato leonino  “aquele em que uma das partes leva todas as vantagens, ou a maioria delas, em detrimento da(s) outra(s) partes” (Aurélio).

A palavra “letra” aparece no segundo parágrafo, duas vezes, quando o narrador discorre sobre esse adiamento de sua ida para o seminário:


(...) É o que se chama, comercialmente falando, reformar uma letra. O credor era arquimilionário, não dependia daquela quantia para comer, e consentiu nas transferências de pagamento, sem sequer agravar a taxa do juro. Um dia, porém, um dos familiares que serviam de endossantes da letra, falou da necessidade de entregar o preço ajustado; (...) Minha mãe concordou e recolhi-me a São José63 .
Em sua visão mercantilizada da esfera religiosa e da vida como um todo, o narrador descreve tanto sua relação pessoal com Deus quanto a de sua mãe em termos comerciais, apesar da flagrante diferença de atitude entre ambos em matéria de religiosidade. Repete-se, com variações, a mesma linguagem que se apropria do vocabulário econômico em metáforas de tom comicamente sacrílego. Deus é Pai, nem por isso deixa de ser credor de seus filhos, mas um credor benévolo, porque “arquimilionário”: “consentiu nas transferências de pagamento” (ao se “reformar uma letra”, um título de dívida é substituí-lo por outro, de igual valor ou não, por ocasião do vencimento, como forma de estender o prazo para pagar) e fez isso sem aumentar os juros! Em suma, Deus é capitalista, ma non troppo. O movimento de concretização do plano espiritual é divertidamente envilecedor e atinge seu ponto máximo com a justificativa de que Deus podia ser pródigo, porque “não dependia daquela quantia para comer”. Essa referência ao ato concreto, fisiológico e trivial de satisfazer à fome, ingerindo o necessário para manter-se vivo, tem óbvio efeito dessacralizante: humaniza Deus, mas também o avilta. Assim são caracterizadas e, ao mesmo tempo, diminuídas, achincalhadas a generosidade e a bondade divinas. Embora soe como tal, a expressão “endossantes da letra”, diga-se de passagem, não é mais uma das metáforas econômicas do trecho analisado, uma vez que “endossantes” aqui não tem qualquer relação com o sentido técnico do termo (ao menos atualmente), significando “testemunhas da obrigação”64, que estimulassem ou até mesmo forçassem Dona Glória a cumpri-la. Nessa qualidade, portanto, seriam comparáveis às figuras do avalista e do fiador.

Passemos enfim ao terceiro trecho que trata do valor de troca da intenção. O narrador continua a especular sobre o que teria sentido e pensado sua mãe, imaginando que ela teria apostado na possibilidade de o amor entre Bentinho e Capitu tornar o filho “incompatível” com a carreira eclesiástica, levando-o a abandonar o seminário:


Neste caso, eu romperia o contrato sem que ela tivesse culpa. Ela ficava comigo sem ato propriamente seu. Era como se, tendo confiado a alguém a importância de uma dívida para levá-la ao credor, o portador guardasse o dinheiro consigo e não levasse nada. Na vida comum, o ato de terceiro não desobriga o contratante; mas a vantagem de contratar com o céu é que intenção vale dinheiro.65
Aqui, novamente, o que institui a dívida  modalidade preferencial de relacionamento com Deus para o narrador-protagonista  é um “contrato”. Ocorre-lhe a hipótese da quebra de contrato, especialidade sua já conhecida do leitor, uma quebra, porém, que eximisse a mãe de “culpa”. Como o cumprimento do contrato, o pagamento da dívida depende tanto dela quanto dele, nosso advogado compraz-se em argumentar, aparentemente a favor de Dona Glória, a quem atribui tal raciocínio ou, em suas palavras, a “esperança íntima e secreta”66 de que isso viesse a acontecer. Compara o rompimento aventado à atitude do portador desonesto de ficar com o dinheiro que deveria entregar ao credor, saldando a dívida, em nome do devedor. A promessa feita para ser cumprida por terceiro também poderia ser quebrada pelo terceiro em questão, claro, sem que o proponente permanecesse em dívida. O argumento, entretanto, não se aplica à “vida comum”, na qual “o ato de terceiro não desobriga o contratante”, esclarece o narrador. Nos assuntos do espírito, segundo ele, a lógica seria outra, muito embora trate a vida espiritual da maneira mais prosaica, mais destituída de elevação, pautando-a por critérios comerciais e sonegando-lhe honestidade, conforme ilustra a afirmativa: “a vantagem de contratar com o céu é que intenção vale dinheiro”. Resta saber se ele de fato a teve alguma vez. Mas examinemos melhor essa conclusão de Dom Casmurro. Na hipótese de Bentinho romper o contrato deixando o seminário por iniciativa própria, Dona Glória não teria se limitado à intenção de pagar a promessa, cumprir o contratado, ela teria passado à ação, realizado o prometido, na parte que lhe cabia. Como vimos, agir sempre foi uma dificuldade do protagonista, não de sua mãe. Sendo assim, a distinção estabelecida pelo narrador entre a lógica terrena e a celestial não derivaria do raciocínio que a antecede. O exemplo do portador desonesto mascara parcialmente essa impropriedade: nesse caso, o combinado não se realiza, a dívida não se paga, porque o mediador, a terceira parte envolvida não chega a cumprir seu papel executivo. Ao contrário do portador imaginado, Bentinho teria cumprido o seu, ao menos temporariamente, caracterizando o ato de pagamento da dívida pela mãe. Na verdade, nem o devedor ludibriado teria ficado só na intenção. Além disso, no exemplo proposto, a participação de terceiro não é indispensável, sendo necessariamente maior a responsabilidade do devedor.

No livro Metáfora, espelho de Machado de Assis (1974), Dierce Côrtes Riedel dedica um breve e agudo capítulo, intitulado “Lucros e perdas”, a comentar em Dom Casmurro e Memorial de Aires o mesmo campo temático aqui discutido:


Na curva da freqüência dos motivos machadianos, um lugar de realce é ocupado pela idéia de ‘contrato’ e de ‘promessa’, a qual rege o comércio dos homens. Obrigações para com Deus, para com a sociedade, para com a consciência; promessas feitas com fervor, ou meramente convencionais; letras reformadas com ou sem juros, contrados rompidos ou mantidos.

(...)


A solução temporária do que parece ser, à primeira vista, a complicação do enredo [a promessa da mãe de Bentinho de “metê-lo” no seminário] vem por intermédio de um sacerdote, o protonotário Cabral, que acha um meio: se, no fim de dois anos, Bentinho não revelasse vocação eclesiástica, seguiria outra carreira. A concessão clerical sugere a barganha, com a relevação da dívida, e o narrador opera metaforicamente, com jogos de palavras da área semântica “débito/crédito”  “Era uma concessão do padre. Dava à minha mãe um perdão antecipado, fazendo vir do credor a relevação da dívida”.

É à base de tais transações que se vai desenrolando a história de D. Casmurro, o qual, como narrador, compõe a estória do romance: negocia-se o pagamento das dívidas, inventando-se caminhos vários, para que as consciências se mantenham tranqüilas e íntegras67.


As observações da autora nesses parágrafos já foram suficientemente comprovadas aqui. Convém enfatizar, no entanto, a finalidade das transações que pontuam o romance, segundo Riedel: visam a manter as consciências “tranquilas e íntegras”. Desse modo, as idéias afins de promessa, contrato, favor, dívida, todas as transações, enfim, que dominam a interação das personagens em Dom Casmurro estariam subordinadas à idéia de contabilidade moral, eis a hipótese de leitura que gostaria de sugerir. Entre os capítulos que mais explicitam essa contabilidade, destaco o 68 ”Adiemos a virtude”, em que o narrador formula sua “teoria (...) dos pecados e das virtudes”, segundo a qual “cada pessoa nasce com certo número deles e delas, aliados por matrimônio para se compensarem na vida”68; o 69  “A missa”, no qual ele menciona a possibilidade do perdão de todas as dívidas por Jeová, esse “Rothschild muito mais humano”, desde que “o devedor queira deveras emendar a vida e cortar nas despesas”69; e o 114  “Em que se explica o explicado”, no qual considera o purgatório “uma casa de penhores, que empresta sobre todas as virtudes, a juro alto e prazo curto”, mas, com a renovação dos prazos, “um dia uma ou duas virtudes medianas pagam todos os pecados grandes e pequenos”70, além do 20  “Mil padre-nossos e mil ave-marias”, detidamente analisado aqui.

Previsível em autobiografias ou ficções de autobiografia, a idéia de balanço, de contabilidade é mais abrangente em Dom Casmurro, estendendo-se ao plano metalingüístico, metanarrativo, tão caro ao autor nos romances da segunda fase.

Na seção intitulada “contabilidade narrativa”, do capítulo dedicado a Dom Casmurro, em seu livro Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público de literatura no século XIX (2004), Hélio Guimarães observa que “a materialidade do processo literário está representada de maneira bastante explícita” nessa obra, com a peculiaridade de um narrador empenhado em quantificar e dar valor pecuniário a tal processo, vinculando, desse modo particular, a escrita a considerações editoriais e recepcionais:
O procedimento metadiscursivo consiste em participar o leitor das escolhas realizadas para a arquitetura do relato em função das implicações disso sobre o tamanho, a apresentação e até mesmo o preço que as palavras e os episódios narrados terão ao chegar a sua forma final. (...) Essas ponderações não se fazem em torno de questões estéticas ou morais, mas à luz do número de páginas ou capítulos que a narração de um determinado fato viria a ocupar. A quantificação (...) evidencia a necessidade de pesar bem o interesse da história em função do tempo que ela tomará do leitor” 71.
Afinal, tempo é dinheiro. Daí o escrúpulo comercial do narrador na seguinte passagem: “se alguém tiver de ler o meu livro com alguma atenção mais da que lhe exigir o preço do exemplar, não deixe de concluir que o diabo não é tão feio como se pinta”72. Assim, a tendência de concretização do abstrato, assinalada por Riedel no plano do estilo, também se verifica em diversos planos temáticos, incluindo o da metalinguagem, em sentido amplo. No nível do conteúdo, qualquer que seja o plano temático, a tendência à concretização, a ênfase na materialidade estão associadas ao dinheiro, ao valor pecuniário, ao aspecto mercantil. Se esse é o aspecto decisivo, o empenho em “concretizar” o mundo espiritual, moral e afetivo, assimilando-o ao material, corresponderia ao desejo de tornar seus elementos, suas realidades mais fácil ou claramente avaliáveis em termos comerciais.



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