Um mal-estar no trabalho



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VI SEMEAD ENSAIO

RECURSOS HUMANOS
TRABALHADORES EM NEGATIVO

AUTORES:

  • José Gaspar Nayme Novelli

Mestre e Doutorando em Administração pela FEA/USP

Endereço: SQN 209 – BLOCO A – AP. 105 – Brasília (DF) – CEP 70854-010

E-mail: gnovelli@uol.com.br

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  • Douglas Ramos

Mestre em Administração pela FEA/USP

Endereço: SNPW – Quadra 26 - conj. 8 – lote 1 – casa D – Brasília (DF) –

CEP 71745-608

E-mail: douglasramos@bb.com.br

Fone: 61 – 921-4287

TRABALHADORES EM NEGATIVO

Resumo


A maior precariedade do trabalho, do ponto de vista da intensificação de tarefas e da neutralização da mobilização coletiva, tem propiciado a geração de relacionamentos efêmeros, sendo um dos principais desdobramentos das transformações ocorridas na sociedade moderna. Trabalhadores qualificados não estão livres de sofrer os efeitos de novos condicionantes da organização do trabalho, agravando sentimentos de incertezas com relação ao futuro.

Este estudo associa a emergência da sociedade de consumo com a maior tolerância da precarização das relações de trabalho, através da investigação dos principais desconfortos e incômodos existentes no atual ambiente de trabalho. Foi realizado levantamento de campo, preponderantemente qualitativo, com foco em uma instituição financeira de grande porte, a fim de verificar a percepção de gerentes e assessores técnicos do board de empresas sobre o tema.

1. Introdução

O cronômetro taylorista e a produção em série fordista marcaram a organização do trabalho no século vinte, por meio de atividades parcelares, da divisão de funções e, principalmente, da fragmentação entre elaboração e execução do processo (Antunes, 2002:25).

Para uma fração significativa da população brasileira, alguns princípios da administração científica como instrução e treinamento, bem como o trabalho em ambiente mais cooperativo entre direção e trabalhadores (Taylor, 1990:95) ainda se encontra distante. A Folha de S.Paulo, na edição de 24.03.2002, caderno “O País dos Direitos de Papel”, desenha um mapa do (des)respeito às leis trabalhistas no Brasil, com repercussões nos direitos (constitucionais) dos cidadãos e no status dos trabalhadores:

A maioria dos brasileiros não usufruem os direitos sociais previstos em lei: não têm direito a 13º (54%), férias remuneradas (55%) ou plano de saúde (81%). Ganham pouco (56% faturam no máximo dois salários mínimos, R$ 360/mês), trabalham muito, quando conseguem vaga, já que 11% estão desempregados e 16% fazem bicos” (2002:especial 1)”.

Por outro lado, no topo da pirâmide dos profissionais brasileiros, estão os “executivos de valor”, como prefere assim retratar o diário Valor Econômico, edição de 11.04.2002, aqueles que fazem a “diferença” no mundo corporativo. Tais profissionais foram eleitos como destaque em seus mais diversos ramos de atuação (comércio, tecnologia de informação, transporte, eletro-eletrônica, mineração, bancos e serviços financeiros etc.):

Esses executivos de Valor, sempre movidos pela paixão por aquilo que fazem, são o que há de melhor na gestão corporativa brasileira. Eles são pontos de referência para o mercado: apontam caminhos, sintetizam tendências e revelam soluções. (...) São profissionais que, além de desenharem suas próprias histórias de sucesso, imprimem novos rumos às melhores e mais respeitadas empresas do país. São exemplos de muito valor para quem está no mercado” (2002: caderno especial).

Ambas as reportagens, estendem os limites e aprofundam as diferenças entre o trabalho intelectual e o trabalho operacional, num momento em que diversos estudos enaltecem a centralidade do homem no processo produtivo (Ulrich, 1998; Ulrich 2000; Yeung e Berman, 1997; Youndt, 1996; O’Reilly III e Pfeffer, 2000).

Supor que diferentes responsabilidades geram graus de compensação salarial e benefício variado é consenso, não sendo indicativo que justifique causar algum desconforto na sociedade. Não é este o ponto que se pretende discutir. Mas analisar uma outra face do trabalho.


Como uma fotografia em negativo, ela se manifesta sem brilho, formada em tons claros e escuros, invertidos do original, com a qual muitos convivem e que aqui serão chamados de os trabalhadores em negativo, mais evidentes nas atividades de natureza operacional e mais obscura nas de natureza intelectual.

É por entre esta penumbra que se pretende dirigir as reflexões deste estudo. Cabe, nesse sentido, indagar a existência de algum grau de tolerância desses trabalhadores de “valor” frente a desconfortos, que não os econômicos-financeiros, pouco visíveis em reportagens laudatórias associadas ao atual ambiente de trabalho.

A partir de uma análise teórica sobre a transformação na orientação do trabalho da sociedade da produção para a sociedade do consumo, bem como seus desdobramentos para as relações de trabalho, foi realizado levantamento de campo, preponderantemente qualitativo, no qual os respondentes espontaneamente se manifestaram sobre diversos temas por meio de respostas a questões abertas.

Verificou-se em que bases se manifesta a percepção de gerentes e assessores técnicos do board de empresas, com foco em uma instituição financeira de grande porte, sobre a maior precariedade do trabalho na sociedade moderna, do ponto de vista da intensificação de tarefas, da neutralização da mobilização coletiva e do levantamento dos principais fatores de desconforto (Dejours, 2001).

2. Revisão da Literatura

2.1 A emergência da sociedade de consumo

Arendt (1993) resgata da antigüidade clássica atividades humanas distintas, embora complementares para realização da vida naquela sociedade – labor, trabalho e ação – que servem de elementos para compreensão da organização do trabalho na sociedade moderna.

O labor refere-se ao trabalho pela sobrevivência, de caráter corporal, passivo e sujeito ao ritmo da natureza. Dele são derivadas atividades que obedecem a um ciclo interminável, repetidas a cada dia. O labor, para os gregos, tinha um cunho servil, sendo visto com desdém (idem: 94) pelos demais membros da sociedade, pois as atividades voltavam-se para a manutenção e para satisfação das necessidades da vida. Na visão dos gregos, a necessidade de alguém realizar essas tarefas, justificaria a existência da escravidão, já que os cidadãos deveriam estar voltados para ações mais dignas.



Trabalho é assim designado quando as atividades executadas têm termo certo, um início e um fim do qual resulta um objeto com ideal de permanência e estabilidade. Enquanto o labor traz na atividade corporal sua idéia dominante, as mãos simbolizam o elemento central no trabalho, pois se referem à idéia de construção/criatividade e de utilidade das quais resulta um objeto, mediador da relação do homem com a natureza.

A ação é retratada como o espaço da palavra e do discurso, atividade pela qual o homem atinge a plenitude de sua humanidade, em contraposição à mera existência corpórea. “No homem, a alteridade, que ele tem em comum com tudo o que existe, e a distinção, que ele partilha com tudo o que vive, tornam-se singularidade, e a pluralidade humana é a paradoxal pluralidade de seres singulares” (idem: 189).

Da ação instrumentalizada nasce o espaço público para o discurso dos homens, que modernamente vem se desgastando frente a qualidade do debate público, se comparado ao modelo original grego. O desenvolvimento de tecnologias deveria suprimir do labor muito de suas características físicas, reservando a realização de atividades mais enriquecidas e desafiadoras para os trabalhadores.

Com a incorporação da noção de produtividade ao trabalho humano, organizando e dividindo tarefas com o fim de formar excedentes para geração de riquezas, o trabalho passou a ser executado à maneira do labor (idem: 242).

A incorporação da tecnologia no processo industrial potencializou a geração e a distribuição de produtos para o consumo massificado. Se, por um lado, aliviou parte do esforço físico humano no trabalho, por outro, regulou o modelo de eficiência, aproximando o trabalho moderno do labor clássico. As distinções pessoais, reveladas na idéia clássica do trabalho, deram lugar na sociedade industrial a uma estrutura comum de desempenhos padronizados (Marcuse, 1999:75).

Ao longo do último século, a sociedade industrial evolui de uma ênfase produtiva para outra consumista. Os produtos antes destinados ao uso passaram a ser concebidos para o consumo, potencializados pela agregação de tecnologia no processo produtivo, que trouxe importantes repercussões na natureza, quantidade, durabilidade e variabilidade de bens produzidos.

Embora o consumo tenha sempre sido prática comum às sociedades em qualquer tempo, no final do século vinte, ele assume dimensão paradigmática da organização do trabalho. O consumidor na sociedade de consumo é diferente dos consumidores de quaisquer outras sociedades, pois, diferente de outros tempos, nenhuma necessidade é vista como inteiramente satisfeita e nenhum desejo como o último (Bauman, 1999:88).

A temporalidade, em especial, é o princípio que dita a produção no contexto atual. Os produtos/serviços são dirigidos para satisfação imediata, com o compromisso de não ultrapassar a determinado tempo previsto, abrindo espaço para um novo produto/serviço, que realimenta e mobiliza o ciclo. A sociedade de consumo envolve, sobretudo, o esquecimento em lugar da aprendizagem, tornando os consumidores “acumuladores de sensações” (idem: 91).

A expectativa de satisfação passa a ter tanta importância quanto a satisfação propriamente dita. Neste mundo, o pior dos eventos é a percepção de vazio quanto à novidade que está por vir acerca de novos e inéditos objetos de consumo. Em decorrência, a economia voltou-se para produção desses objetos e para o oferecimento de serviços obedecendo a esses pressupostos básicos.

Na sociedade industrial, o mundo movia-se e estava orientado para a produção. Gravitava em torno da máquina um grande exército de mão-de-obra, produzindo bens, com foco de propiciar a maior durabilidade possível. A concepção de emprego tinha a mesma expectativa de previsibilidade e estabilidade. Na perspectiva da sociedade de consumo, se os produtos têm menor perenidade, por que também o mesmo não se dar na relação de trabalho (temporários, terceirizados, flexíveis etc.)?

2.2 Algumas contradições no trabalho na sociedade de consumo

Bauman (1999:67) tem visão crítica da globalização quanto aos efeitos para o trabalho. Segundo o autor, há uma percepção disseminada de que as coisas estão “fugindo ao controle”, sem um centro, um painel de controle, para lidar com efeitos indeterminados e, portanto, com conseqüências imprevistas e desconhecidas para os países e suas economias.

Nesse contexto, insere-se o processo de reestruturação produtiva em curso nas duas últimas décadas, originado, segundo Leite (1997:10), do abandono das empresas dos tradicionais centros industriais (com forte tradição operária e social), do rápido processo da focalização da produção, da desverticalização das empresas e da exteriorização de partes do processo produtivo (terceirização), levando a um processo de desemprego sem correspondentes políticas compensatórias.

Ao lado da independência e ausência de controle sobre o capital, a reestruturação produtiva vem favorecendo um processo tanto extremamente rápido de precarização do trabalho, quanto inédito de concentração da renda em escala mundial (idem:11). Dentre os elementos que vem condicionando este novo ambiente, encontra-se a especialização flexível, cuja ênfase reside na colocação no mercado de produtos de forma rápida e variada, baseando-se em avanços tecnológicos que permitem constante reconfiguração de programas e agilidade na comunicação (Sennett,2000:54). Flexibilidade, portanto, é entendida neste texto como a habilidade de um sistema produtivo para transitar entre diversos estados sem deterioração significativa, presente ou futura (Salerno,1994:55).

Não há como negar a ocorrência de importantes mudanças no processo produtivo, como a descentralização de parte das decisões operacionais, apoiada pela introdução de novas tecnologias. Se não significou uma ruptura frente ao fordismo, a especialização flexível também não se mostra como uma pálida adaptação. Representou um avanço em promover a aproximação do saber em relação ao fazer no trabalho, com limites, quanto à plena autodeterminação no processo de trabalho e à descentralização das definições sobre estratégias e orçamento.

Uma das principais inspirações da especialização flexível é o toyotismo, implantado originalmente em fábricas da Toyota no Japão do pós-guerra e rapidamente disseminado pelo mundo a partir dos anos setenta. Citando Coriat, Antunes (2002:31-32) fala das quatro fases do advento do toyotismo: operação simultânea de várias máquinas pelo trabalhador; aumento da produção sem aumento do número de trabalhadores; reposição de insumos somente após a fabricação ou venda do produto; e inserção no mesmo modelo de empresas subcontratadas e fornecedores.

Pode-se acrescentar ainda o desenho do processo produtivo de forma mais maleável, a fim de adaptar a produção às exigências do mercado consumidor, e a maior ênfase no trabalho de grupo, o que leva a possibilidade de maior participação dos empregados sobre decisões concernentes à produção.

Tal aparato visa dotar de maior flexibilidade tanto a produção quanto a organização do trabalho (idem:35), moldando, com o menor custo possível, o processo e a força de trabalho diretamente relacionadas à demanda do mercado consumidor.

Embora a especialização flexível repudie a rotina burocrática, ela não se apresenta como a negação da burocracia, mas sua reinvenção, pois são introduzidas novas estruturas de poder e controle do trabalhador. Este controla o local de trabalho, mas não adquire maior controle sobre o processo de trabalho.

Maiores responsabilidades estão associadas ao papel do líder (Antunes, 1999:85): motivação dos times de trabalho, planejamento e organização da qualidade, identificação das necessidades de desenvolvimento do grupo, dimensionamento da performance em relação a custos e orçamento, estabelecimento de padrão de produção em face do desempenho apresentado e atenção quanto às questões de comunicação interna, disciplina, vinculação com estratégia. Dos funcionários, em geral, é demandado aumento do nível do conhecimento dos processos e conteúdos da empresa, ensejando maiores responsabilidades para o trabalhador e capacidade de trabalho em grupo (team group).

Neste aspecto começam a surgir algumas contradições. Se usualmente é incorporada na redução de custos demissões de parcelas dos trabalhadores e a terceirização de partes do processo produtivo, muitas vezes com aumento do trabalho informal e deterioração das condições de trabalho (Leite, 1997:22), como as empresas podem estimular a inovação, em especial nos setores mais competitivos da economia, se tensões na relações de trabalho impactam o grau de confiança e envolvimento dos trabalhadores?

Para Bauman (2001:160), até não haveria tal contradição, simplesmente em razão de os valores aderentes ao trabalho – todo e qualquer trabalho – terem perdido a centralidade que possuíam na sociedade industrial, marcado pelo desengajamento e enfraquecimento dos laços seja entre os trabalhadores seja entre o capital e o trabalho.

Na modernidade pesada – referência de Bauman à sociedade industrial – o trabalho representa o eixo pelo qual transitam as identidades e os projetos de vida, agindo como elemento consolidador de planos de longo prazo, através de esforços coletivos que visam assegurar cenário de confiança e de previsibilidade. Há uma dependência mútua entre o emprego e o capital para a reprodução do crescimento na sociedade industrial.

Na modernidade líquida – sociedade pós-reestruturação produtiva, dentre a qual uma das características básicas é a especialização flexível – a mentalidade predominante é de curto prazo, individualizada, sustentada pela flexibilidade e, exatamente por isso, plena de incertezas, sem estruturas para manutenção do vínculo entre emprego e capital. “A reprodução e o crescimento do capital, dos lucros e dos dividendos e a satisfação dos acionistas se tornaram independentes da duração de qualquer comprometimento local com o trabalho” (idem:171).

Esta afirmação faz sentido considerando o fato de o compromisso das organizações no modelo pós-industrial (especialização flexível) estar firmado com os consumidores e não com os produtores, decorrendo ênfases excessivas na lucratividade e competitividade. No âmbito das relações de trabalho, em especial em setores menos competitivos da economia, a redução quantitativa do operariado industrial (Antunes, 2002:55), com desemprego ou migração para setor de serviços em sub-empregos ou trabalho temporários, vem acarretando maior desqualificação ou desespecialização do trabalhador.

Esta questão enseja retomar a diferença entre trabalho e labor de Arendt (1993), resgatada por Antunes e apoiada por A. Heller, como work (trabalho concreto), enquanto atividade que transcende a vida cotidiana, de caráter emancipador e produtor de bens socialmente úteis, e labour (trabalho abstrato), enquanto atividade que expressa realizações cotidianas, de cunho alienante, cujo produto assume forma estranhada do trabalhador.

A expectativa de o avanço tecnológico permitir a um maior contingente de trabalhadores transitar do labour para o work não vem se concretizando. A precarização acarreta massificação do trabalho de baixa qualificação, inclusive, com impactos para o trabalho concreto cujas tensões permeiam ambas as dimensões.

2.3 Crise no trabalho: a banalização e a tolerância do mal

Traço distintivo na economia moderna é a eficiência, orientada para a maximização de resultados. A intensidade com que hoje se revela é aspecto diferenciador desde a introdução da revolução industrial. “Racionalizar significa cortar empregos e não criar empregos, o progresso tecnológico e administrativo é avaliado pelo emagrecimento da força de trabalho, fechamento de divisões e redução de funcionários”, aponta Bauman (1998:50).

É freqüente serem mencionados nos relatórios de administração das empresas, se não os ganhos proporcionados, ao menos as vantagens gerenciais produzidas pela redução do número de empregados de um ano para outro. Consideradas “coisas do passado”, ancoradas na sociedade industrial, relações de longa duração entre empresa e empregado não se encaixam na sociedade do consumo, flexível e desencorajadora de ações e compromissos coletivos.

Utilizando como referencial Habermas e sua teoria da Ação Comunicativa, Gutierrez (1999:20) assinala que a natureza concorrencial entre as empresas é elemento mobilizador para eficiência e produtividade. Este fato “não vai traduzir automaticamente em solidariedade e comunhão entre os diferentes grupos que compõem as organizações produtivas”, pois todos os membros da empresa determinam planos individuais de ação, relacionados, porém não subordinados, aos objetivos corporativos.

Somente com a construção de objetivos estratégicos por meio de uma ação coletiva que possa compatibilizar os diversos planos individuais é que se conseguirá dar sustentação competitiva à organização, evitando que a ação individual possa corroer a coesão orientadora da dinâmica empresarial.

Todavia, parece que isso ainda está longe da realidade empresarial. Deve-se considerar inclusive a limitação dos mecanismos e de práticas que assegurem o sucesso dessa experiência. Sem a implantação de modelos alternativos, assiste-se a separação da esfera econômica (competitividade) da política (consenso sobre estratégia empresarial), que aprofunda a ausência de maior autonomia no interior das empresas.

Os dirigentes empresariais encontram na estruturação de instrumentos de comunicação, muitas vezes de viés unilateral, meio paliativos para minimizar efeitos da ausência de informações entre os funcionários. Desconsideram informações, perspectivas e análises divergentes do pessoal interno e, exceto de forma burocrática ou, na pior das hipóteses, manipuladora, não se ocupam em construir o consenso coletivo, prevendo a “automática” adequação dos planos individuais em função da imposição ou não do convencimento.

Do ponto de vista social, a responsabilidade pela situação humana, em particular nas relações de trabalho, caminha a passos largos para a completa privatização (Bauman, 1998:54), com cada vez menos instrumentos de controle externo e menores responsabilidades do capital frente a situação da força de trabalho (desregulamentação). O ambiente de aparente maior liberdade de escolha para consumir e menor número de mecanismos de tutela no processo produtivo convive com a paulatina desintegração de redes de segurança social e com a flexibilidade de compromissos.

Como resultado, cresce a tendência de desconfiança mútua entre a organização (e seus prepostos) e o quadro de trabalhadores, estimulado pelas iniciativas de afastamento ou proposital omissão do Estado neste processo. “Num regime cujas instituições mudam rapidamente, torna-se absurdo trabalhar arduamente por muito tempo e para um patrão que só pensa em vender o negócio e subir” (Sennett, 2000:118), ou sumir!

Nesse contexto, a incerteza incorpora-se na percepção do dia-a-dia e a instabilidade surge como fato “normal” na vida. Em lugar dos termos incerteza e instabilidade, Dejours (2001:22) prefere a expressão “banalização do mal” como um processo a tolerância social para com o mal e a injustiça, no qual o exercício do mal entre os homens erige-se em norma de conduta e valor.

O autor chega a comparar tal indiferença àquela vivenciada no período do nazismo na Alemanha em que o mal foi “desdramatizado” e as “pessoas de bem”, comuns, adotaram comportamentos inaceitáveis em outras épocas, tornando-se colaboradores ativos ou permissivos, tolerantes enfim, na execução do mal a outros.

Este processo de banalização se concretiza por meio da passividade, indiferença e resignação à injustiça e ao sofrimento, encontrando terreno fértil para prosperar numa sociedade que não se caracteriza pela mobilização coletiva e pela abertura de espaços públicos.

A condenação ao desemprego ou ao sub-emprego, em geral acompanhada pela ameaça da precarização do trabalho, mais que significar a redução ou eliminação de direitos e melhores condições de trabalho, implica no risco de se ver socialmente subjugado por um processo de exclusão que não se pode dominar. O medo ao mesmo tempo em que faz criar estratégias de defesa afeta a capacidade de reflexão e de autonomia do pensamento, permitindo a adoção de valores externos sem qualquer questionamento ético ou de validade.

Dejours (idem:117) preocupa-se especialmente com o normopata – pessoas na sociedade de personalidade, comportamento e padrões aparentemente normais – cujas características básicas são a indiferença em relação ao mundo, a suspensão da faculdade de pensar, a abolição da faculdade de julgar e da vontade de agir coletivamente contra a injustiça.

A tolerância à degradação das relações de trabalho é preocupante para a sociedade na medida em que a frieza dos objetivos e metas, típicas do tecnicismo burocrático taylorista, não só é mantida como encontra nova roupagem, hoje, na negação de valores morais de solidariedade e cooperação. Com a evolução tecnológica, paira a sensação disseminada de que o sistema prescinde dos homens, substituindo-se a responsabilidade moral pela técnica.

3. Problema de Pesquisa

O indivíduo foi absorvido pelo aparato produtivo orientado para o consumo, conformando-se à objetividade e à eficiência solicitada pela sociedade de consumo.

Tal aspecto leva ao surgimento de novos condicionantes nas relações de trabalho. A racionalidade tecnológica e decorrente eficácia econômica, foram incorporadas ao trabalho, aumentando a disponibilidade de produtos e serviços, reduzindo custos e, portanto, abrindo maiores oportunidades de acesso e consumo de bens e produtos. Por outro lado, esta mesma lógica descarta contingente expressivo de trabalhadores quando o fluxo de negócios sofre rupturas advindas do mercado, com implicações para trabalhadores tanto operacionais quanto “de valor” (intelectuais).

Pouca pesquisa empírica, pelo menos no Brasil, tem se produzido sobre o assunto. O problema que se aponta neste trabalho é: a intensificação das tarefas, o refreamento das ações coletivas e a ascensão da individualização na sociedade de consumo concorrem para o surgimento de desconfortos que interferem no ambiente de trabalho, estabelecendo foco sobre aqueles trabalhadores ditos como “de valor”, conforme mencionado no início deste artigo.

4. Método/Coleta de Dados

O presente trabalho não tem pretensão de chegar a conclusões generalizáveis, mas sim iniciar exploração do tema. Para tanto, pareceu bastante adequada a utilização de uma amostra de conveniência, selecionando profissionais de empresa que atuam próximos ao alto escalão das organizações. A maioria dos respondentes provêm de uma instituição financeira brasileira. A utilização de amostras de conveniência, não-probabilísticas, tem seu emprego quando é considerada estratégica à luz dos objetivos e factibilidade da pesquisa (Bryman, 1989).

Desta forma, foram distribuídos 45 questionários, dos quais obteve-se o retorno de 21. O questionário tinha 9 questões abertas cujo objetivo era verificar se emergiam espontaneamente elementos aderentes ao quadro que se delineou na parte teórica do trabalho. A utilização de questionários tem algumas vantagens como a de simultaneidade de aplicação junto a diversos respondentes, maior confiança em seu anonimato e menos pressão de tempo sobre a pessoa que está respondendo (Selltiz & Jahoda et.al., 1965).

A abordagem da pesquisa foi predominantemente qualitativa. Segundo Gôuvea (1997), a proposta da pesquisa qualitativa “consiste em indicar caminhos, descobrir significados, captar percepções”. Para Gouvêa, “apesar de a amostra ser pequena e intencional, os resultados podem apresentar regularidades aceitas para determinado segmento da população”.

Desta forma, buscou-se classificar os dados, alocando-os em categorias, segundo critérios que facilitaram a análise e a interpretação em face dos objetivos da pesquisa (Martins 1994). O processo de geração de categorias envolveu a observação de regularidades no discurso dos respondentes, buscando-se categorias que tivessem convergência interna e divergência externa. As categorias deveriam ser internamente consistentes mas distintas umas das outras (Guba citado por Marshall & Rossman, 1995). Também se utilizam a análise léxica, como forma auxiliar para identificar temas recorrentes.

Em algumas questões abertas, a variabilidade das respostas dificultou a formação de categorias, risco que já tinha sido alertado por Selltiz et.al.(1965). É possível que tal dificuldade seja superada ampliando-se a amostra em pesquisa futura.

Adicionalmente, foram incluídas quatro questões em escala de Likert, para apreender algumas variáveis cuja intensidade era de interesse direto, como a satisfação do trabalho e a percepção da natureza do trabalho.

De qualquer forma, fica uma trilha na pesquisa acadêmica, em que se abre espaço para discussão e pesquisa de efeitos da precarização do trabalho sobre as pessoas.



5. Análise e Discussão

O perfil dos participantes da amostra está assim representado: A maioria tem emprego fixo (85,7%) e pós-graduação (47,6% cursos MBA – lato sensu mais 23,8% com mestrado/doutorado), exerce funções técnicas (66,7%), distribuindo-se eqüitativamente entre homens e mulheres.

Do ponto de vista da relação com o trabalho, a quase totalidade consegue visualizar o produto final de seus trabalhos (95,2%), percebe espaço para o exercício da criatividade em suas atividades (81%) e, numa menor proporção, embora ainda significativa, considera seu trabalho pouco repetitivo (66,7%), dizendo-se satisfeito com ele (61,9%).

A amostra forma grupo rico em termos de experiências técnicas e acadêmicas, próximas do perfil do público inserido na economia do conhecimento, cuja literatura acerca das bases de sustentação da tolerância frente a precarização do trabalho não é abundante.

5.1. Intensificação das tarefas

Ressalta-se que a expressão “mais ritmo” esteve presente em 57% das respostas e a avaliação de aumento da jornada de trabalho em 29%. Outro termo bastante utilizado é “muito”, relativo a informações, ferramentas, produtividade etc., sempre indicando a grandeza e intensidade das modificações no trabalho e das atividades realizadas nos últimos anos.

Em seis dos vinte e um respondentes, o termo “mercado” emergiu associado diretamente à necessidade de constante aprimoramento formação profissional.

A “pressão para se trabalhar e eventualmente realizar mal o trabalho” é para quase dois terços situação mais incômoda que “o medo de não saber realizar o trabalho” ou “não ter esperança de reconhecimento”. O mal gerado por tal pressão se traduz pela ansiedade em concluir um trabalho que requereria maior amadurecimento e, em situação mais desconfortável, pode levar à conclusão de uma tarefa de qualidade deficiente, geradora de tensões e ansiedades.

5.2. Neutralização da mobilização coletiva

A primeira questão apresentada versa sobre a participação em algum grupo de ação coletiva (organização política, sindical, grupo de ação voluntária etc.). Descrições utilizando-se expressões como “não tenho necessidade”, “não participo”, “não acho importante” ou simplesmente não se interessam a manifestar-se alcançam aproximadamente 40% do total. Por outro lado, aqueles que assinalam a importância desse tipo de participação através de expressões como “exercício de cidadania”, necessidade de “sentimento de pertencimento”, valorização de “ações voluntárias” remontam à 50%. Portanto, praticamente divididas as manifestações favoráveis a tal mobilização e aqueles contrárias ou indiferentes a ela.

Por outro lado, quando questionados sobre aspectos associados a incômodos na carreira, a maior parte, quase 85%, registra, espontaneamente, anseios concernentes às relações de trabalho: egoísmo (dos outros), falta de critérios para ascensão, discurso prevalente sobre competência, pouco comprometimento dos superiores, jogos pelo poder, processo pouco participativo, desigualdade na atribuição de tarefas, falta de reconhecimento, salário, personalismo (dos outros).

Há indicações de visão bastante individualista do ambiente de trabalho, reflexo talvez de uma cultura que não privilegia o sentimento de equipe, a despeito de todo o discurso institucional. Menos de 20% dos respondentes fazem menção de necessidades “do outro” quando comentando a ação coletiva. As afirmações são, na maioria das vezes, auto-referenciadas.

A percepção de que iniciativas coletivas são utilizadas de forma preponderantemente utilitarista, ou seja, quando conveniente para minimizar problemas de cunho pessoal no trabalho, ao invés de premissa ou princípio, é reforçada quando parte significativa daqueles que não se interessam em agir coletivamente consideram importante tal ação somente quando se defrontam com problemas no trabalho.

5.3. Principais fatores de desconforto no trabalho

Três aspectos apresentados aos respondentes são ratificados como causadores de desconforto no ambiente de trabalho atual. Com menor número de manifestações, a pressão por constante aumento de produtividade (desgastante, reduz auto-estima, estresse, exigência de mais informações e inovações), depois, ações individualistas em detrimento das coletivas (prejuízo ao trabalho, clima e desenvolvimento das instituições, bem como acirramento da competição entre os empregados) e, principalmente, redução do nível de estabilidade e segurança (perda do poder aquisitivo ou possibilidade de não se aposentar, desemprego, descontinuidade da organização e recessão econômica)

Particularmente o fator “pressão” é associado à qualidade ruim. Ademais, é plausível reconhecer que a ocorrência conjunta desses fatores pode potencializar cada um deles, e reduzir as possibilidades de um melhor desempenho, admitindo que a qualidade do trabalho contingencia o desempenho das organizações.



6. Conclusões e Limitações

Mesmo o grupo de trabalhadores qualificados sujeitos desta pesquisa não está livre de sofrer os efeitos da flexibilidade no trabalho, com a adoção de estratégias de curto prazo enfraquecendo vínculos e agravando sentimentos de incerteza com relação à estabilidade futura. Esta constatação traz insegurança ao trabalhador, com potenciais repercussões nos valores éticos da sociedade. Dentre elas, destacam-se a tolerância a menor espírito crítico, em ambiente de medo quanto à perda do emprego, o que contribui para a formação de um outro lado da precarização, não o do desrespeito aos direitos básicos dos trabalhadores, mas o do desconforto e inquietude, tornando-os tanto quanto os demais, trabalhadores em negativo.

As organizações também perdem no longo prazo nesse processo, em virtude do afrouxamento dos vínculos entre trabalhadores e objetivos estratégicos, desgastando compromissos e fragilizando a ação coletiva, um dos pilares sobre o qual se assenta o modelo da especialização flexível (trabalho em equipe).

Assim, ambas as reportagens citadas no início deste texto revelam o quadro dos trabalhadores em negativo: o primeiro da precarização, evidente e mais facilmente percebida, e o segundo da banalização do mal, menos evidente e mais inclusiva. Ambos, porém, incômodos para o desenvolvimento humano e o progresso da sociedade.



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