Um olhar sobre o mini-dicionário em libras no rio grande do sul



Baixar 39.55 Kb.
Encontro26.02.2018
Tamanho39.55 Kb.



UM OLHAR SOBRE UM

MINI-DICIONÁRIO DE LIBRAS1 GAUCHO
Janaína Pereira Claudio2

Luciano da Silva Abreu3

Patrícia da Silva Rodrigues4

Renata Ohlson Heinzelmann Bosse5



Introdução
Esta pesquisa vem apresentar a criação de um mini - dicionário gaúcho, que inicialmente foi produzido pelo CAS – Centro de Formação de Profissionais da Educação e de Atendimento as Pessoas com Surdez que era mantido pela FADERS – Fundação de Articulação e Desenvolvimento de Políticas Publica para Pessoas Portadoras de Deficiência6 e de Altas Habilidades no Estado do Rio Grande do Sul.

A pesquisa surgiu em 2005 com a idéia de construir um mini – dicionário com os sinais específicos do Rio Grande do Sul, contando com a participação dos instrutores surdos e de interpretes de Libras.


O mini-dicionário de Libras da Faders foi montado pensando na regionalidade. Alguns sinais do Rio Grande do Sul se diferenciam do resto do país. Assim como encontramos palavras diferentes, entre os estados, mas que representam a mesma coisa, por exemplo, tangerina e bergamota ou macaxeira, mandioca e aipim. Pensando nisso, o mini-dicionário criado pelos instrutores surdos da Faders foi montado com muito cuidado em ordem alfabética com imagens fotográficas dos próprios instrutores para mostrar todo o vocabulário existente no estado e no país. Além deste mini-dicionário, os instrutores criam sinais específicos para terminologias específicas utilizadas por algumas empresas da área administrativa, saúde, trabalho e outros.

O Serviço prestado pelos instrutores surdos visa divulgar e promover a acessibilidade na comunicação para os surdos nos estabelecimentos públicos e privados. Todo o trabalho desenvolvido para a montagem dos mini-dicionários vem sempre com a proposta de cursos de Libras para os funcionários das empresas, para que estes possam compreender a formação destes sinais e utilizar o mini-dicionário como recurso de apoio.

Os cursos se dividem em quatro módulos: básico, intermediário, avançado e conversação e atendem um máximo de trinta alunos Porém não é apenas a funcionários que estes cursos são oferecidos, pessoas interessadas em aprender Libras também se inscrevem e recebem, durante o curso, o mini-dicionário de Libras.

O público que procura pelos cursos da Faders são em sua maioria profissionais das empresas, como psicólogos, agentes de recursos humanos, médicos, professores, policiais militares e outros, que buscam um contato direto com o surdo, os benefícios disso seria a satisfação, confiança e autonomia do surdo no profissional que o atende.

(...) Esta mesma combinação de curiosidade, humildade, compreensão e acolhimento caracterizam o que há de melhor nas relações humanas, em que as pessoas procuram compreenderem-se umas as outras, aprender a língua do outro e buscar entendimento. Ela consiste na única esperança de que a humanidade possa vir a sobreviver a sua própria capacidade de destruição que se alimenta da falta de dialogo e da ignorância. (CAPOVILLA ET AL, 2008, p. 29).

O mini-dicionário traz os sinais, mas não traz a explicação sobre a comunidade surda e cultura surda. Apresentar a história do surdo, as regras gramaticais da língua de sinais que se diferencia das línguas orais. O que as aulas de Libras mostram é que existe muito mais do que o vocabulário de Libras. As frases são estruturadas de forma diferente e normalmente ao sinalizar o surdo se utiliza de expressão facial e corporal que são elementos importantes para uma clara comunicação. O trabalho é realizado com atividades que exploram estes aspectos como: teatro, jogos, brincadeiras e filmagens que reforçam os sinais aprendidos.

O mini-dicionário de Libras é montado conforme a necessidade dos alunos, os sinais nacionais e os sinais gaúchos de uso cotidiano são disponibilizados, se houver a solicitação de alguma empresa ou órgão, os sinais específicos são acrescentados aos demais. O objetivo de todo este trabalho é proporcionar a responsabilidade social inclusiva entre ouvintes e surdos.




Metodologia

A montagem do mini-dicionário dos sinais de uso comum contou com a presença de quatro instrutores surdos, cada um assumiu uma quantidade de sinais e se responsabilizou com o registro de imagens de cada sinal. A seleção do vocabulário se deu por ordem alfabética. Buscou-se um espaço com claridade e os instrutores usaram roupas de cores lisas e neutras que contrastassem com suas peles e com o ambiente do registro da imagem.

A imagem foi registrada com uma máquina digital e depois transferida para um computador. No computador as imagens sofreram cortes e receberam setas que determinam o movimento da mão que representa o sinal. Muitos sinais ficaram representados por duas a três imagens por serem sinais compostos.

Após o processo de construção do sinal por imagem, a palavra representando o sinal é escrita em caixa de texto abaixo da imagem. Assim terminada esta parte os sinais foram organizados por ordem alfabética. Em caso de apostilas de Libras o material é impresso e encadernado. Este tipo de material só é feito se houver solicitação do contratante.

O material foi reconhecido como importante e recebeu logos do Governo do Estado, da Faders e do Cas. Não podemos desconsiderar a importância que o Cas, hoje responsabilidade da secretaria da educação, teve na construção deste mini-dicionário. O mini-dicionário foi salvo em PDF e distribuído a todos os alunos que fizeram cursos de Libras e ficou disponível para uso público no Portal de Acessibilidade da Faders7.




Resultado e Discussão
Quando mini-dicionário de Libras gaucho chegou a conhecimento público foi possível perceber satisfação e os elogios recebidos por pela comunidade surda e pelos ouvintes que tiveram acesso ao material construído pelos instrutores surdos da Faders. O mini-dicionário virou referência para surdos e ouvintes do estado do Rio Grande do Sul e foi mencionado em palestras e encontros de Instrutores.

Mas é importante esclarecer que este mini-dicionário é um material de apoio para as pessoas que estão aprendendo e conhecendo a língua de sinais. Não se pode pensar que é possível aprender e compreender uma língua simplesmente por um mini-dicionário. Segundo Strobel, a língua se aprende e se amplia no contato com os falantes dela como:



  • Visitar e freqüentar as comunidades surdas: associações, igrejas, convenções, escolas de surdos, eventos esportivos, teatro e outros;

  • Conviver com os sujeitos surdos em situações informais e formais;

  • Pesquisar e estudar livros ou materiais informativos do povo Surdo.

  • Conhecer e ler sobre todos os artefatos culturais do povo surdo;

  • Procurar respeitar e valorizar as diferenças culturais do povo surdo tendo uma construção intercultural isto é, uma troca, compartilhação e uma aproximação harmoniosa entre as ambas das culturas.

  • Respeitar os espaços conquistados pelos sujeitos surdos enquanto estão em produção cultural, por exemplo: tem muitos sujeitos ouvintes que querem “competir” com os surdos e assim fazer com que o povo surdo suspeite dos mesmos, devido à longa história de opressão de lutas de relações de poderes para conquistarem seus espaços. (2007, p. 111).

A Libras oferece muitas possibilidades, pois é uma língua extremamente versátil. Percebe-se que os alunos do curso de libras sempre procuram o mini-dicionário como se fosse o único recurso para a comunicação. É possível comparar o curso de Libras com os cursos de idiomas como inglês, espanhol, Frances e outros que não trabalham só com o dicionário, mas também utilizam livros didáticos e atividades que exercitam e desenvolvem o aprendizado da língua.

Pensando na valorização e reconhecimento da Libras em especial com sinais específicos do Rio Grande do Sul, os instrutores surdos da Faders, pesquisaram e construíram o mini-dicionário em resposta a muitas reclamações de alunos de cursos de Libras que antecederam esta idéia. A queixa era de que os dicionários cariocas e paulistas tinham sinais diferentes dos que os gaúchos usavam. Neste sentido ao criar e publicar o mini-dicionário estava também atendendo a uma demanda. O mini-dicionário de Libras gaúcho é pioneiro no Estado, e outras instituições tem se utilizado deste material para seus cursos de Libras.

Também é importante ressaltar os sinais específicos criados para as empresas e órgãos. Os sinais específicos como os sinais administrativos, sinais da saúde, sinais bancários e outros trazem não somente o básico da comunicação, mas também o bom atendimento e a satisfação de colegas e clientes surdos.

Ao explicar o significado das palavras, abordando a questão dos dicionários, verifica-se a forma como as informações sobre as palavras podem ser descritas e organizadas. Primeiramente, vamos dar uma visão geral de como os dicionários podem ser organizados e depois apresentaremos alguns aspectos que contemplam os dicionários, do ponto de vista da semântica, diferenciados entre ouvinte e surdo.

Normalmente os dicionários têm os seus pontos centrais na descrição de qualquer língua. Todo bom dicionário deve conter, no mínimo, três tipos de informações sobre as palavras seguintes abaixo:





  1. Informação fonológica (como a palavra é pronunciada ou sinalizada);

  2. Informação gramatical (sintática e morfológica – das partes do discurso);

  3. Informação semântica (significado da palavra).

Neste trabalho, vamos abordar questões importantes quanto à organização de um dicionário e como essas questões podem ser verificadas também em dicionários de língua de sinais, sejam eles dicionários impressos ou digitais. Serão apresentados exemplos para ilustrar os temas abordados, tanto em português como em Libras, o material para ouvintes tem foco na informação semântica das palavras em português. Por exemplo, no caso do português, é possível verificar o sentido semântico da palavra ‘manga’, a fruta, e ‘manga’, a parte de uma peça de roupa que cobre o braço. No caso da Libras, podemos verificar o sentido semântico do sinal de sábado e laranja. Assim como a palavra manga pode ter seu significado compreendido no contexto de uma frase, o sinal de laranja e sábado também passam pelo entendimento do contexto.

Outra questão importante é não confundir dicionário com enciclopédia. Muitos dicionários são enciclopédicos, pois não se restringem às informações estritamente relevantes para o sentido da palavra definida. Segundo Hurford & Heasley (2004), “um dicionário descreve os sentidos de predicados e uma enciclopédia contém informação fatual de uma variedade de tipos, mas geralmente não contém informação especificamente sobre os significados das palavras”.

Com o exposto acima, pode-se verificar que o vocabulário das línguas de sinais possui uma infinidade de significados e não podem ser explicados em um dicionário, mas podem e devem ser estudados tanto quanto as línguas orais. Por isso a idéia da construção de um mini-dicionário gaucho que apresenta sinais específicos da região.

Os dicionários, seja qual for a língua, se organizam por ordem alfabética, Existem alguns dicionários de Libras, que além de ser organizar pela ordem alfabética como os outros, se estrutura também por configurações de mão, e dentro de cada configuração de mão, os sinais se organizam pela ordem alfabética do português. Outros dicionários de Libras são disponibilizados em filmagem com descrição e definição dos mesmos em português, trazendo informações gramaticais e exemplos. Esses dicionários também oferecem a opção de busca pela ordem alfabética do português.

Isso acontece pelo fato de nenhuma língua de sinais ter um sistema próprio de escrita. O sistema americano Sign Writing (escrita de sinais) é bem conhecido na comunidade surda, mas não é reconhecido oficialmente como um sistema de escrita de nenhuma língua de sinais. Mas será que existe algum sistema capaz de representar os sinais que não seja por meio da língua portuguesa escrita? Estelita (2006, 2007) propõe uma organização baseada em quiremas. Este sistema de escrita das línguas de sinais a autora chamou de ELiS (sigla para ‘Escrita das línguas de Sinais’) e sua estrutura será descrita abaixo.

Conforme mencionado por Estelita (2007), o sistema ELiS tem uma estrutura de base alfabética, linear e é organizado a partir dos parâmetros dos sinais propostos por Stokoe (1965). Esse sistema passou por algumas mudanças desde que foi elaborado e sua versão atual privilegia a escrita de quatro parâmetros: Configuração de Dedos (CD), Orientação da Palma (OP), Ponto de articulação (PA) e Movimento (MOV). Esses parâmetros são formados, cada um deles, por vários quiremas, sendo que suas representações gráficas são chamadas de ‘quirografemas’ e seu conjunto, ‘quirograma’, correspondendo respectivamente aos conceitos de ‘letras’ e ‘alfabeto’. A ordem em que os parâmetros são escritos é sempre a mesma para cada sinal: CD, OP, PA e MOV e a escrita dos mesmos ocorre da esquerda para a direita.

Para a organização e/ou busca das entradas de um dicionário quirográfico de língua de sinais, ou seja, baseado em quiremas, é necessário conhecer a organização interna de uma palavra no sistema ELiS. Como já mencionado antes, a ordem dos parâmetros é fixa e cada parâmetro também têm sua organização interna.

O sistema de escrita ELiS pode ser mais uma forma de representar os sinais e pode ser utilizado como entradas de um dicionário de línguas de sinais. Para isso ocorrer, é necessário que mais surdos tenham acesso.

Portanto, faz-se necessário esclarecer que a língua de sinais existe há muitos séculos, porém ela foi reconhecida como língua e passou a ser estudada linguisticamente há poucas décadas. E por esta razão que a o mini-dicionário de Libras surge para favorecer o uso e a difusão da Libras.



Conclusão
Este mini dicionário foi elaborado na intenção de auxiliar, facilitar e difundir a comunicação entre a sociedade, composta por pessoas ouvintes e surdas, através da utilização da Libras.

Através de recursos visuais (fotos) e texto em português, serve como ferramenta de apoio pedagógico e de consulta.

Atualmente, o uso da Libras tem sido realizado por diferentes sujeitos em todos os espaços sociais, levando a uma melhora na comunicação e no fortalecimento dos laços entre sociedade de modo geral, além de levar à maior autonomia das pessoas surdas.

Devemos observar a existência de variações regionais em Libras, adaptadas de acordo com a cultura de uma determinada região ou localidade, para construir suas expressões.

O CAS fez mudanças significativas para vários órgãos quando trouxe a conscientização sobre o uso e a difusão de Libras. Embora este Centro tenha sido transferido para a Secretaria de Educação, os instrutores surdos da Faders continuam fazendo este trabalho de cursos e produção de material de ensino da Libras.

Importante ressaltar que a Faders, através de seus instrutores surdos, atende uma demanda de órgãos públicos e privadas criando sinais específicos, favorecendo a inclusão social da pessoa surda. Todo trabalho efetuado pelos instrutores surdos da Faders contribui para mostrar aos interessados pela Libras que esta língua é viva e ainda há muito para descobrir dela. O mini-dicionário gaúcho chega ao conhecimento público para informar e transformar conceitos em práticas, em que a Libras chega para ser respeitada e se tornar a língua que inclui o surdo em todos os espaços da sociedade.



Referencia bibliográfica

CAPOVILLA, F.C. ET AL; Dicionário – Enciclopédico Ilustrado Trilingue - Língua de Sinais Brasileira. 3.ed.-São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008.

ESTELITA, M. Por uma ordem "alfabética" nos dicionários de línguas de sinais. Ensaio. (Doutorado em Lingüística) – Centro de Comunicação e Expressão, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2006.


___________. ELiS – Escrita das Línguas de Sinais. IN: Estudos Surdos II – Série Pesquisas. QUADROS, R. M. de; PERLIN, G. (Org.). 212-237. Petrópolis, RJ: Arara Azul, 2007.
HURFORD, J. R. & HEASLEY, B.; Tradução de Delzimar da Costa Lima e Dóris Cristina Gedrat. Curso de Semântica. Canoas: Ed. ULBRA, 2004. 394 p.
QUADROS, R. M. de. Educação de surdos: a aquisição da linguagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
___________. & REZENDE, P. L. F & PIZZIO, A. L.; Língua Brasileira de Sinais V. Curso de Letras/Libras. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2009.
STROBEL, K. As imagens do outro sobre a cultura surda. Florianópolis: Ed da UFSC, 2008.

1 Libras conforme Lei Federal 10.436 de 24 de Abril de 2002 é Língua Brasileira de Sinais.

2 Instrutora de Libras da Faders; professora da disciplina de Libras na PUC-RS, Mestre em Educação pela UFRGS desde Mar/2010 e Sub-Coordenadora em Política Educação dos Surdos da FENEIS.

3 Instrutor de Libras da Faders, professor de matemática para alunos surdos do Ensino Médio, Confederação Brasileira de Desportos dos Surdos, Departamentos Esportivo da CBDS e diretor de Esporte da FDSRS.

4 Instrutora de Libras da Faders e graduanda do Curso de Letras/Libras – Licenciatura na UFSM.

5 Instrutora de Libras da Faders, professora de reforço em Língua Portuguesa para Surdos em Instituição Filantrópica e Colaboradora da Editora Arara Azul no Rio de Janeiro.

6 Embora a Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência de 2008 tenha mudado algumas terminologias a Faders ainda não se adequou ao uso destas terminologias por razões Legais, mas reconhece e divulga as terminologias atuais.

7 Site:



Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal