Um oportuno alerta sobre “apariçÕES” e revelaçÕes particulares



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UM OPORTUNO ALERTA SOBRE “APARIÇÕES” E REVELAÇÕES PARTICULARES

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APRESENTAÇÃO

Tenho o grande prazer de apresentar a todos o presente opúsculo intitulado “Um oportuno alerta sobre ‘aparições’ e revelações particulares”, do caríssimo amigo Vanderlei de Lima, escritor e filósofo pela PUC de Campinas, com extensão universitária em Parapsicologia pelo CLAP/FEG.

Trata-se de um ensaio sobre um assunto que geralmente levanta muitas vezes dúvidas as quais, não resolvidas, podem causar perplexidades e perturbar a consciência de muita gente de bem. Baseado no Magistério da Igreja, critério de verdade para todo católico, o autor esclarece didaticamente o tema, em forma de questionário, distinguindo com precisão a Revelação (pública) e as revelações particulares, a Tradição e as tradições, explicando o grau de adesão que a Igreja exige ou não exige de nós.

A confusão sobre o assunto, em meios católicos, pode levar os inimigos da Igreja a ridicularizarem a nossa Fé. A Fé, na explicação de Santo Tomás de Aquino, é uma submissão racional da nossa inteligência à Palavra de Deus, a nós transmitida pela Igreja. Submissão ou adesão racional e não irracional ou ridícula. Fé não é superstição. Crer, no sentido católico, não é aderir a tudo o que aparece ou que se parece com o bem.

Com minha cordial bênção ao autor e a todos os leitores.

            Dom Fernando Arêas Rifan

Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
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INTRODUÇÃO

Prezado(a) irmão(ã), você tem em mãos, em forma de perguntas e respostas, um estudo sucinto e objetivo a respeito da posição da Igreja Católica, Apostólica, Romana sobre as chamadas “aparições" [1] de Nosso Senhor, da Virgem Maria, dos Santos, das Santas e dos Anjos ao longo da história.

Algumas dessas “aparições” vêm acompanhadas de revelações, chamadas de particulares para se distinguir da Revelação Pública oficial da Igreja – à qual devemos, obrigatoriamente, fé católica – que se encerrou com a geração apostólica, ou seja, com a morte do último Apóstolo, São João Evangelista, por volta do ano 100.

Pois bem, a fonte da fé católica é a Palavra de Deus a nós transmitida por dois canais: a Sagrada Tradição ou Tradição Oral, recebida diretamente pelos Apóstolos de Nosso Senhor, e a Tradição Escrita ou a Bíblia, que teve origem na Tradição Oral na qual foi gestada e pela qual é acompanhada.

Ambas, porém, são autenticamente interpretadas pelo Magistério da Igreja que não está acima, mas a serviço da Tradição e da Escritura. Só esse Magistério, assistido pelo Divino Espírito Santo desde o início da Igreja até o fim dos tempos (cf. Mt 28, 20), pode, de modo correto, explanar tudo aquilo que se refere à fé e à moral da Igreja.

Portanto, é esse mesmo Magistério (não há nem pode haver outro) quem julga as chamadas “aparições” ou revelações particulares e, embora nunca possa impor à fé dos fiéis o conteúdo delas, diz – sem entrar no mérito da “aparição” ou da mensagem revelada em seus detalhes – se elas ferem ou não a fé católica.

a) Caso firam, a Igreja as desabona ou diz “Não”; b) caso não firam, mas ainda restem dúvidas, deixa correr para, a seu tempo, se for o caso, dizer algo; c) caso não firam a fé e preencham os critérios de avaliação propostos pelas autoridades eclesiásticas, com destaque para os requisitos propostos pelo Papa Bento XIV (1740-1758), a Igreja não só deixa correr os fatos, como também pode permitir a construção de uma igreja no local e até estabelecer uma festa litúrgica ao (à) santo(a) que ali se diz ter aparecido.

Note-se, porém, que nada do que aparece no item c obriga a fé do católico. Este permanece livre para aceitar ou não o que ali houve (“aparição”) ou foi dito (revelação) sem ter receio algum de cometer pecado, ainda que, evidentemente, possa, após a análise da Igreja e a declaração de um ou mais milagres, ficar seguro de que nenhuma fraude ou erro teológico ocorreu na referida “aparição” ou revelação.

Em suma, quem venera um(a) santo(a) ou um anjo, cuja devoção nasceu de uma “aparição” ou revelação particular está, em última análise, cultuando a Deus – sempre Ele é o centro de tudo – na pessoa daquele(a) santo(a). Nada mais! Daí não haver erro algum nesse culto piedoso. Assim, quem cultua a Virgem Maria, sob o título de Nossa Senhora de Fátima, nada mais faz do que venerar a mesma Mãe de Deus, Maria Santíssima, que é uma só, independentemente do título com que seja apresentada.

O mesmo se dá com quem gosta de ler livros nascidos de revelações particulares. Se a Igreja disse não haver erros na obra ou mesmo afirmou que ela nada contém de suspeito ou nocivo à fé católica, a pessoa pode lê-la como algo que a ajude chegar à edificação espiritual e a um consequente progresso ou aprofundamento na vida cristã por meio de estudos da fé, a começar pelo Catecismo da Igreja Católica. Progresso que já pode ser contado como fruto bom daquele fato que se julga ser uma intervenção do além neste mundo.

Atente, contudo, o(a) prezado(a) leitor(a) para um dado importante: toda “aparição” que pretenda transmitir uma mensagem de Deus aos homens deve estar em plena sintonia com aquilo que a Igreja ensina. Se começar a criticar a doutrina católica, os ministros da Igreja (Papa, Bispos, Sacerdotes, Diáconos) ou Religiosos(as), especialmente convidando os fiéis a se afastarem da paróquia e da prática dos Sacramentos, é altamente suspeita de ser fruto de ação diabólica ou de perturbação psíquica em quem transmite a mensagem que diz receber do além. Fique atentíssimo!

Lembramos aqui das palavras do estudioso francês Jean Guitton ao declarar que, em Lourdes, na França, o que houve foi uma grande confirmação das verdades de fé da Igreja Católica, Apostólica, Romana, ao escrever: “Admitir aquilo que a visão chama de Imaculada Conceição, significa admitir a maternidade divina, e, portanto, a divindade de Cristo e a Trindade. Significa admitir que a evolução religiosa, tal como é consumada na Tradição, presidida pelo Bispo de Roma, é legítima... Admitir a autenticidade de uma definição que tenha o Papa como Autor... A infalibilidade pontifícia” (La Vierge Maria, p. 125 apud L. Lochet. Teologia das aparições marianas. São Paulo: Paulinas, 1966, p. 75).

Caminhemos, pois, sempre com a Igreja, Mãe que nos gerou para a vida divina pelo Batismo, e nunca troquemos sua doutrina infalível, porta aberta para a nossa boa vivência neste mundo e a salvação eterna, por novidades passageiras. Não sejamos frios racionalistas que de tudo duvidam, porém não caiamos no oposto, ou seja, em uma credulidade infantil, julgando digna de crédito qualquer revelação que este ou aquele fiel (clérigo, religioso ou leigo(a)) diz receber. Tais revelações, mesmo se em nada contrariam a fé da Igreja, não são essenciais. Funcionam apenas como lembretes daquilo que a fé já nos ensina oficialmente em seu rico depósito contido na Tradição e na Escritura e explicitado pelo Magistério eclesiástico, de forma ordinária (os Bispos que ensinam, no dia a dia, em comunhão com o Papa) ou extraordinária (um Concílio Ecumênico ou uma definição ex cathedra dada pelo Papa, na condição de doutor da fé).

O verdadeiro devoto da Vigem Maria procura agradar-Lhe buscando, apesar de suas limitações, ser para Ela outro Jesus e d’Ela ouvir, a cada dia, a grande mensagem mariana de todos os tempos: “Fazei tudo o que ele [Jesus – nota nossa] vos disser” (Jo 2, 5).

O autor
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1. Qual é a fonte da Doutrina Católica?

A fonte da Doutrina Católica é a Palavra de Deus. Ela é, evidentemente, uma só, porém nos é transmitida por dois canais: a Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição, que se entrelaçam e, portanto, nunca se contrariam. Ambas são interpretadas pelo Magistério da Igreja, única instância segura para fazê-lo (cf. questão 6).


2. Que se entende por Palavra Escrita?

Por Palavra escrita se entende a Sagrada Escritura. Ela é a Palavra de Deus (não qualquer outra palavra) redigida sob a moção do Espírito Santo.


3. Que se entende por Sagrada Tradição ou Tradição Oral?

A Sagrada Tradição é o meio que “transmite integralmente aos sucessores dos apóstolos a Palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos apóstolos para que, sob a luz do Espírito de verdade, eles, por sua pregação, fielmente a conservem, exponham e difundam” (Dei Verbum, 9).


4. Qual é a diferença entre a Sagrada Tradição (T) mencionada na questão anterior e as tradições (t) da Igreja?

Entendemos por Tradição aquela Divino-apostólica, ou seja, a que contém os ensinamentos e exemplos recebidos do Senhor Jesus e do Divino Espírito Santo e que foi transmitida oralmente aos Apóstolos (no início do Cristianismo, ainda não existia o Novo Testamento). Esse depósito da fé nunca pode ser alterado.

Por tradições da Igreja compreendemos os costumes devocionais, teológicos, litúrgicos, disciplinares surgidos ao longo da história. Elas podem ajudar a adaptar a Tradição às diversas realidades sempre, no entanto, sob o olhar atento do Magistério da Igreja. Ao contrário da Tradição Divino-apostólica, que é intocável, essas tradições podem ser modificadas ou mesmo abandonadas com o correr dos anos, caso as autoridades eclesiásticas assim julguem melhor.
5. Dê-nos ao menos um exemplo de cada caso.

Um ponto relevante da Tradição é a composição da Bíblia com 46 livros no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento; ao todo 73. Garante-nos o Catecismo da Igreja e o Concílio Vaticano II que: “Foi a Tradição apostólica que fez a Igreja discernir que escritos deviam ser enumerados na lista dos Livros Sagrados” (Catecismo da Igreja Católica n. 120; Dei Verbum, 8).

Já o Rosário foi por longos anos composto de três terços. Dividia-se entre os mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos. O Papa São João Paulo II houve por bem acrescentar a esses os mistérios luminosos, que tratam da vida pública do Senhor Jesus (do Batismo no Jordão à Instituição da Eucaristia). Tal acréscimo é sábio e piedoso e em nada compromete a fé da Igreja, pois diz respeito a uma tradição piedosa devocional.
6. Quem pode e deve interpretar autenticamente a Palavra de Deus?

Quem pode e deve interpretar a Palavra de Deus é a Igreja Católica, Apostólica, Romana por meio do seu Magistério.

Assim ensina o Catecismo: “O ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita ou transmitida foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo, isto é, foi confiado aos bispos em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma”.

“Todavia, tal Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas a serviço dela, não ensinando senão o que foi transmitido, no sentido de que, por mandato divino, com a assistência do Espírito Santo, piamente ausculta aquela palavra, santamente a guarda e fielmente a expõe, e deste único depósito de fé tira o que nos propõe para ser crido como divinamente revelado (Dei Verbum, 10).”

“Os fiéis, lembrando-se da palavra de Cristo a seus apóstolos: ‘Quem vos ouve a mim ouve’ (Lc 10, 16; cf. Lumen Gentium, 20), recebem com docilidade os ensinamentos e as diretrizes que seus Pastores lhes dão sob diferentes formas”.
7. De que modo se exerce o Magistério da Igreja?

O Magistério da Igreja se exerce de dois modos: o ordinário (= ensinamento cotidiano dos Bispos espalhados pelo mundo unidos ao Bispo de Roma, o Papa) e o extraordinário (exercido bem mais raramente pelos Concílios Ecumênicos ou Gerais sob a supervisão do Papa ou pelo próprio Santo Padre quando, quando na função de confirmar seus irmãos na fé (cf. Lc 22, 31s), proclama um dogma ou uma definição ex cathedra (definitiva) em temas de fé e moral).


8. E os demais pronunciamentos religiosos do Papa que acatamento merecem?

Os demais pronunciamentos do Romano Pontífice merecem religiosa submissão da vontade e da inteligência, mesmo quando ele não se pronuncia ex cathedra, seja por meio de encíclicas, exortações apostólicas, bulas, motu proprio [termo latino que quer dizer “de própria iniciativa”] (cf. Lumen Gentium, 25, do Concílio Vaticano II).


9. A Revelação pública oficial da Igreja já terminou ou não? Quando?

Sim, terminou com o fim da geração dos Apóstolos, ou seja, com a morte do último deles, São João Evangelista, por volta do ano 100.


10. Então, como a Igreja cria ou inventa “novos” dogmas?

A Igreja ao proclamar um dogma não está, em absoluto, criando ou inventando nada de novo. Ela apenas propõe aos fiéis, de modo claro e definitivo, sob a inspiração do Divino Espírito Santo, uma verdade que sempre e por toda parte foi professada, mas ainda não tinha sido devidamente explicitada e validada pelo Magistério eclesiástico. A proclamação do dogma é esse “selo de validade” conferido pela autoridade da Igreja a determinada crença vigente entre os fiéis. Prova de que a Igreja não “cria” dogmas é o seguinte: para que um dogma seja proclamado, são necessárias duas principais condições: 1) Que haja fundamento bíblico para a crença em questão; 2) Que tal crença seja difundida em âmbito geral e universal, ou seja, que a maioria dos católicos e comunidades no mundo todo acredite e professe tal crença como sendo uma verdade de fé. Portanto, a proclamação do dogma vem sempre confirmar algo que já existe, nunca impõe algo novo.

Considera-se dogma tudo aquilo que é proclamado pelo Magistério da Igreja como verdade de fé revelada por Deus e, por conseguinte, aceita pelos cristãos.
11. Que dizer das revelações particulares e “aparições”? Como se dão?

O Catecismo da Igreja Católica diz que, no decorrer dos tempos, houve “revelações particulares” ou “privadas” e algumas delas têm o pronunciamento favorável da Igreja. “Elas não pertencem, contudo, ao depósito da fé” (n. 67).

Portanto, não podem ser vistas pelos fiéis como um complemento ou um retoque da Revelação pública oficial da Igreja, encerrada com a morte do último Apóstolo (São João Evangelista por volta do ano 100), pois tudo o que precisamos saber e viver em nossa vida de fé já está nos ensinamentos da Igreja. A função das revelações particulares não é, portanto, ensinar algo novo, mas relembrar, chamar a atenção, reavivar nos fiéis a fé de sempre da mesma Igreja.

Quanto às visões, podem se podem dar-se de três modos: a) as sensitivas: apresentam imagens corpóreas, como a nuvem que Moisés e os israelitas viram (Êx 32) ou a voz do céu ouvida por Abraão (Gn 22); b) as imaginativas: apresentam imagens da fantasia, como no sonho de Jacó. Ele viu uma escada que subia ao céu (Gn 18) ou como Pedro que, em êxtase, viu um lençol cheio de animais impuros (At 10); c) intelectuais: são as percepções sem imagens e sem palavras, que se produzem por uma intuição da própria mente. Foi o que se deu com os profetas (cf. São Tomás de Aquino. Suma Teológica II. II. 174, I ad 3-; e 175 3, ad 4- apud Pe. Dr. Afonso Rodrigues, SJ. Psicologia da graça. São Paulo: Loyola, 1995, p. 110).


12. Se é assim, para que podem servir essas revelações particulares ou privadas?

As revelações particulares ou privadas podem, como foi dito acima, servir para ajudar os fiéis a melhor relembrarem (e viverem) alguma verdade de fé que está caindo no esquecimento dos homens em determinado contexto histórico. Relembram o que já temos, mas, como o próprio verbo (relembrar = lembrar de novo) indica, não trazem nada de original, pois tudo o que cada um precisa para bem viver a sua fé já está na Revelação Pública Oficial da Igreja.


13. Quer dizer que eu não faço pecado se não der crédito às revelações particulares ou privadas?

Não faz nenhum pecado quem deixa de acreditar em revelações particulares, embora, depois que a Igreja declarou nada haver de errôneo nelas ou mesmo instituiu uma festa litúrgica ou erigiu uma igreja, via de regra, transformada em santuário, no local das aparições, não seria prudente manter suspeitas. Mesmo assim, tal revelação jamais se impõe à fé do católico. Não nos esqueçamos de que, como já foi dito, o conteúdo dessas revelações – quando aprovadas pela Igreja – está em consonância com aquilo que a Fé sempre ensinou. Daí ser lícito crer nele com fé humana e até propagá-lo.

Pode-se, naturalmente, viver a fé e cultuar Nosso Senhor, a Virgem Maria ou o (a) Santo(a) ou o Anjo que dizem ter aparecido aqui ou ali sem, porém, fazer caso do fenômeno particular daquela “aparição” ou revelação, nem dos termos específicos da mensagem que foi transmitida. Afinal como veremos na questão 17, a Igreja não entra no cerne da mensagem ou do fenômeno ocorrido em si, apenas declara isento de erros o conteúdo da mensagem. Mas, justamente por estar isento de erros, tal conteúdo não pode ser simplesmente rejeitado como algo indigno. Deve-se, apenas, dizer que não necessitamos daquela revelação para acatar e viver o que a Igreja ensina, e que já conhecemos por outras fontes oficiais da mesma Igreja.

Exemplifica Dom Estêvão Bettencourt, OSB, dizendo: “A Igreja não pode impor à crença dos fiéis nem o presumido fato de uma aparição, nem o teor da respectiva mensagem, de modo que, se alguém não quer crer nas aparições de Lourdes, não está incidindo em heresia” (Teologia fundamental. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2013, p. 145).


14. Se alguém for agraciado com uma “aparição” ou revelação particular, deve dar fácil crédito?

Não. D. Estêvão Bettencourt, OSB, é quem escreve que “os mestres recomendam prudência diante de pretensas revelações particulares. São João da Cruz († 1590) é severo, afirmando que é necessário não aceitar as revelações particulares quando se manifestem; é preciso mesmo resistir-lhes como se fossem tentações perigosas, pois podem excitar o amor próprio e a vaidade da pessoa ‘agraciada’ (Subida do Monte Carmelo II 27,6). Se forem autênticas revelações, prevalecerão sobre a resistência que se lhes opõe; se forem ilusões, a resistência não causará prejuízo ao cristão resistente” (Teologia fundamental. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2013, p. 145).

Mais: “já no séc. XVI S. Teresa de Ávila dizia conhecer ‘certas pessoas – e não três ou quatro, mas muitas – dotadas de imaginação tão impressionável, de espírito tão vivaz... que tudo que elas pensam, elas julgam que estão vendo. Se elas tivessem jamais [alguma vez – nota nossa] usufruído de alguma autêntica visão, elas compreenderiam, sem hesitação alguma, como estão iludidas’ (Castelo Interior, 6ª Morada, c 9 apud E. Bettencourt, Pergunte e Responderemos n. 170, fevereiro de 1974, p. 76).

Importa notar ainda que as “aparições” ou visões dignas de fé humana são raras, espontâneas e não provocadas pelos seres humanos (cf. Margarida Hulshof. Conversando sobre a fé. Aparecida: Santuário, 2004, p. 185. vol 1).


15. Por que a Igreja demora a se pronunciar sobre uma apregoada revelação ou “aparição”? Quais são suas respostas clássicas?

A Igreja demora a se pronunciar para que possa ter, após minucioso exame que deve incluir a consulta a especialistas de diversas áreas do saber (médicos, psicólogos, parapsicólogos, teólogos etc.), a certeza de que não se trata de fraude ou distúrbio psicológico do vidente, e que nada de errôneo ou contrário à fé ocorreu nas ditas aparições do Senhor Jesus, da Virgem Maria, dos(as) Santos(as) ou dos Anjos.

Feita a investigação, a Igreja toma uma das três atitudes abaixo:

a) Deixa correr os fatos sem se pronunciar. Isso, de certo modo, significa uma “aprovação”, ou seja, o reconhecimento de que nada do que ali ocorre fere a fé.

b) Favorece o culto ao Senhor Jesus, à Virgem Maria, ao (à) Santo(a) ou ao Anjo no local das aparições, com a permissão da construção de uma igreja e a inclusão da festa do(a) Santo(a) no calendário litúrgico.

Note-se, no entanto – como será dito na questão 17 – que mesmo com esse favorecimento, a Igreja nunca dirá oficialmente nada sobre o fenômeno em si mesmo.

c) Diz “Não” se descobrir, sempre depois de acurados exames, que nas supostas aparições há fraude ou algo que fere a fé ou a moral da Igreja.
16. Quando não contraria a “aparição” e até permite o culto, o que, na verdade, a Igreja aprovou?

A Igreja aprovou o culto piedoso ao Senhor Jesus, a Nossa Senhora, aos (às) Santos(as) e aos Anjos que o (a) vidente (ou os videntes) diz ter-lhe aparecido. Nada mais.

Daí ser oportuno citar a Encíclica (circular) Pascendi Domini Gregis, de 02/5/1877, que diz o seguinte sobre La Salette e Lourdes: “Deste modo, as aparições ou revelações [em si mesmas – nota nossa] não foram nem aprovadas nem condenadas pela Sé Apostólica, mas somente permitidas como piamente críveis com fé só humana conforme a tradição, que trazem confirmada por idôneos testemunhos e instrumentos” (Luiz José de Mesquita Galvão. Por que crer? A fé e a revelação. São Paulo: Ave Maria, 1990, p. 119).

Nem mesmo a instituição de uma festa litúrgica (por exemplo, 11 de fevereiro: Nossa Senhora de Lourdes; 13 de maio: Nossa Senhora de Fátima; 12 de dezembro: Nossa Senhora de Guadalupe etc.) pretende discutir ou propor o que realmente ali aconteceu.


17. Que querem dizer as expressões “fé só humana” e “aparições e revelações em si” no caso acima?

A expressão fé só humana é o assentimento ou a crença que se dá à revelação feita por uma pessoa digna de crédito (eu acredito porque foi X que falou, se fosse Y não acreditaria). Distingue-se da fé divina que está no plano sobrenatural, é um dom de Deus, e merece assentimento porque é Ele mesmo quem nos fala por meio de sua Palavra transmitida pela Igreja.

Quanto às “aparições” e revelações particulares em si entende-se do seguinte modo: a Igreja, quando nada vê de errado nas mensagens, permite o culto ou até mesmo uma festa litúrgica própria no seu calendário. De modo que cada fiel pode – embora nunca seja obrigado em consciência – aceitá-las com fé humana. No entanto, jamais a Igreja entra, oficialmente, no âmbito do fenômeno em si (Houve mesmo a “aparição”? Como foi em seus pormenores? A mensagem transmitida é plenamente da Virgem Maria, do(a) santo(a), do anjo, ou tem muito do que o vidente já possuía em seu inconsciente?).
18. Poderia comprovar por documentos o que foi afirmado acima?

Sim. O Papa Bento XIV (1740-1758), grande autoridade intelectual no assunto, ensina que “a aprovação (de aparições) não é mais do que a permissão de as publicar, para instrução e utilidade dos fiéis, depois de maduro exame. Pois essas revelações assim aprovadas, ainda que não se lhes dê nem possa dar um assentimento de fé católica, devem contudo ser recebidas com fé humana segundo as normas da prudência, que fazem de tais revelações objeto provável e piedosamente aceitável” (De Servorum Dei Beatificatione II, c. 32 11).

Também o Concílio provincial de Malines, na Bélgica, em 1938, confirmou que “o julgamento da Igreja não apresenta de modo nenhum essas coisas como obrigatórias para a fé do povo. Declara apenas que elas não estão em ponto algum em oposição à fé e aos bons costumes, e que nelas encontramos bons indícios que permitem uma adesão piedosa e prudente de fé humana” (Acta et Decreta Concili Provincialis Mechilinensis Quinti, 1938, p. 6).
19. E se a suposta “aparição” ou revelação particular ensinar algo que contraria a doutrina oficial da Igreja?

Se a revelação particular ensinar algo que contraria a doutrina oficial da Igreja, não pode ser aceita, mas, ao contrário, deve ser rejeitada pela autoridade eclesiástica.

Sobre isso o Catecismo é claríssimo: “A fé cristã não pode aceitar ‘revelações’ que pretendam ultrapassar ou corrigir a Revelação da qual Cristo é a perfeição” (n. 67).
20. Como avaliar bem uma revelação particular que pretenda corrigir ou mudar os ensinamentos da Igreja?

Uma revelação particular que pretenda corrigir ou mudar os ensinamentos da Igreja deve ser avaliada como suspeita: pode vir de “videntes” com distúrbios psíquicos ou movidos por ação diabólica.

Crer em mensagens que contradigam a fé da Igreja é cometer um pecado grave, pois significa dizer que Cristo, Nosso Senhor, a Verdade por excelência (cf. Jo 14, 6), mentiu ao prometer Sua assistência infalível à Igreja até o fim dos tempos (cf. Mt 28, 20). Isso é pecado de negação da verdade conhecida como tal.

Por fim uma questão: é católico autêntico quem deixa a Mãe Igreja, com sua doutrina segura e infalível em termos de fé e moral, para buscar uma novidade do momento? Para o católico autêntico, o critério para dar crédito a uma revelação particular é justamente a sua consonância com o ensinamento da Igreja (cf. a questão 11).



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