Um país se faz com homens e com livros



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MONTEIRO LOBATO E A TRADUÇÃO LITERÁRIA

Glaucia Soares Bastos - Colégio Pedro II / PUC-Rio


Um país se faz com homens e com livros

Monteiro Lobato foi uma importante figura no panorama cultural brasileiro da primeira metade do século XX. Sua atuação como escritor, editor e tradutor, durante muitos anos mantida à sombra dos modernistas, tem sido melhor avaliada recentemente, revelando-se peça fundamental na configuração do campo literário, tanto do ponto de vista da formação do público-leitor, quanto da produção e circulação de livros no mercado editorial.

Coerente com a máxima por ele mesmo forjada – Um país se faz com homens e com livros – , o autor encontrou nas obras infantis o meio de educar os futuros cidadãos, de contribuir para a formação de brasileiros patriotas e comprometidos com o progresso, e trabalhou igualmente pela consolidação e expansão do mercado que garantisse o acesso do público (não apenas infantil) às obras literárias.

E que país é este que Lobato quer fazer com seus livros, e que constrói em linhas e entrelinhas? A leitura de sua obra revela um curioso caminho intelectual, que enforma diferentes modelos de país ao longo de sua vida. Mudanças que se articulam com sua própria experiência (de, sucessivamente, funcionário público, fazendeiro, comerciante, editor, adido comercial do Brasil nos Estados Unidos) e também com as transformações da sociedade brasileira, como aponta André Luiz Vieira de Campos em seu livro A república do picapau amarelo.

O nacionalismo, ainda que de diferentes matizes, é, segundo o mesmo autor, uma das marcas de obra de Lobato, que desde 1912 pretendia escrever “um livro profundamente nacional”, como registra em carta a Godofredo Rangel, e
...a preocupação de construir o Brasil como nação faz com que Lobato – acompanhando o movimento de vanguarda da época – se volte para os problemas e os temas nacionais, em busca da autonomia do pensamento brasileiro, num nacionalismo cultural, muitas vezes mais regional que propriamente nacional, mas que preparava o terreno das idéias para o movimento modernista inaugurado em 1922.1
As atividades de Monteiro Lobato nos campos da produção e da circulação literárias, quer como escritor, quer como editor, têm sido recentemente bastante valorizadas como resultado de importantes pesquisas. Um dos aspectos de sua prática foi a atuação no campo da tradução, dedicando-se a traduzir e editar obras que julgava necessárias ao público brasileiro, como por exemplo Hans Staden, “a edição primogênita” da Companhia Editora Nacional, da qual era sócio, “por coincidência o primeiro livro que se publicou sobre o Brasil”, como escreve em 1926 a Godofredo Rangel. 2

Estudaremos suas posições a respeito da atividade tradutória, expostas em diversos momentos de sua correspondência, e em dois fragmentos e um texto publicados em Mundo da lua e Miscelânea, procurando situá-las no conjunto de sua obra e estudá-las à luz das teorias de interpretação e tradução produzidas pela academia.

Por tratar-se de material pouco divulgado, embora acessível ao público em edições da Editora Brasiliense, optamos por transcrever os trechos das cartas a serem comentados, a fim de facilitar a leitura deste ensaio e a aproximação do leitor ao texto de Lobato. As cartas aqui utilizadas foram publicadas em dois diferentes momentos. As remetidas a Godofredo Rangel foram organizadas, escolhidas, datilografadas e publicadas por Lobato em vida, em 1947, por ocasião da primeira edição de suas Obras Completas, sob o título A barca de Gleyre, em alusão ao quadro “Ilusões perdidas”, de Charles Gleyre. Os dois tomos de Cartas escolhidas reúnem correspondência dispersa, recolhida e organizada por Edgar Cavalheiro, amigo e posteriormente biógrafo de Lobato, e foram publicados em 1959.

Mem tanto ao mar, nem tanto à terra


Em Mundo da lua, anotações de seu diário que Lobato publica em 1923, encontra-se o seguinte fragmento:
Traduzir

Os nomes que vimos pela primeira vez como tradutores perdem o prestígio quando os vemos como autores. Há em nós a vaga impressão de que quem traduz não pode criar.3
Esta, que pode ser considerada uma reflexão de juventude, seria totalmente desmentida por sua dupla atuação de “tradutor” e “criador” consagrado e reconhecido, com cada uma das atividades servindo para de certa forma sustentar a outra. Este ponto de vista parece ser consoante à perspectiva de Richards, que via no autor e no texto a chave do significado, o que daria ao tradutor o papel de fiel reprodutor do original, sem qualquer caráter de mediação. Daí Lobato acreditar, nesse momento, ser impossível ao tradutor criar, uma vez que não se afasta do texto de partida.

Com o passar dos anos e o exercício da tradução, sua opinião vai-se modificando, como se percebe em sua correspondência e em sua prática de tradutor. Lobato tem em Godofredo Rangel o mais constante interlocutor, desde os tempos em que foram colegas de faculdade em São Paulo, e a amizade entre os dois será sustentada por farta correspondência até a morte de Lobato, em 1948. Há várias cartas nas quais o editor Lobato faz recomendações ao tradutor Rangel, a respeito de textos que serão publicados em português, ou fala das traduções que ele mesmo está fazendo ou gostaria de fazer, como no trecho que se segue:


Ando com várias idéias. Uma: vestir à nacional as velhas fábulas de Esopo e La Fontaine, tudo em prosa e mexendo nas moralidades. Coisa para crianças. (...) Ora, um fabulário nosso, com bichos daqui em vez dos exóticos, se for feito com arte e talento dará coisa preciosa. As fábulas em português que conheço, em geral traduções de La Fontaine, são pequenas moitas de amora do mato – espinhentas e impenetráveis. Que é que nossas crianças podem ler? Não vejo nada. Fábulas assim seriam um começo da literatura que nos falta.4
Esta carta, escrita no ano de 1916, é reveladora da gênese do projeto lobatiano da constituição de um acervo nacional acessível não apenas aos adultos mas também ao público infantil, projeto que se constitui por um lado em publicar, e por outro em garantir a leitura e compreensão das obras. É como parte desse projeto “iluminista” e modernizador que devemos encarar as escolhas do tradutor e editor.

Em 1924, Lobato explica a Rangel a linha editorial da Companhia Editora Nacional:


Fechamos a torneira aos poetas e aos literatos nacionais de segunda classe. Só editaremos gente de primeira e as boas coisas da literatura universal. Mas insisto em obter traduções como as entendo. Essas traduções infamérrimas que vejo por aí, não as quero de maneira nenhuma. Mas é difícil... D. Quixote você pegou, mas parou no começo. E há as Viagens de Gulliver, e as Mil e Uma Noites, e Peter Pan – todas essas coisas que vêm galhardamente resistindo ao roçagar dos anos. O realmente bom é de todas as pátrias e de todos os séculos.5
Ainda em 1924, entre comentários sobre a revolução em São Paulo, Lobato escreve ao amigo: “Breve te mandarei provas da Tempestade, com as emendas que fiz tendentes a puerilizá-lo um pouco mais. Os leitores vão ser crianças. Teu estilo estava muito ‘gente grande’”.6 Com evidente preocupação em adequar o texto final à faixa etária dos leitores, Lobato “emenda” a tradução do amigo, demonstrando que mesmo os bons textos, que resistem à passagem do tempo, devem ter sua compreensão facilitada para atrair os (jovens) leitores.

Algus dias depois, Lobato responde a uma consulta de Rangel: “Podes ir, sim, traduzindo o Dafnis e Cloé. Eu já havia tido essa idéia. Dá um volumezinho lindo.” E na mesma carta, mais adiante, comenta:


Sabe até o que quero? Verter a Menina e Moça, ou Saudades do velho Bernardim Ribeiro, em língua quase atual. (...) Aquilo está muito recuado, muito antiquado; mas se o pusermos mais perto, em língua, não digo de hoje, mas de pouco antes de Herculano, fica uma delícia.7
Podemos aproximar a preocupação de Lobato com a inteligibilidade da obra de Bernardim Ribeiro do comentário de Schleiermacher, em seu ensaio “Sobre os diferentes métodos de tradução”, de 1813, ao lembrar que “no campo de uma só língua” também encontramos a necessidade da mediação, porque “os diferentes desenvolvimentos dessa mesma língua ou dialeto em diferentes séculos já são, num sentido mais restrito, línguas diferentes e, não raras vezes, precisam de uma tradução entre si”8.

Lobato queria facilitar a recepção do autor português tornando-a mais acessível ao público brasileiro, tendo todavia o cuidado de conservar algum caráter de anacronismo, em língua que ele situaria próxima à de Alexandre Herculano, autor romântico posterior a Bernardim Ribeiro. A propósito, Lobato opta sempre pelo “abrasileiramento” da Língua Portuguesa, aproximando-se, também neste aspecto, de seus contemporânos modernistas, especialmente quando escreve ou traduz para o público infantil, como comenta em carta de 1925:


Estou a examinar os contos de Grimm dados pelo Garnier. Pobres crianças brasileiras! Que traduções galegais! Temos de refazer tudo isso – abrasileirar a linguagem.9
Lobato está certamente referindo-se à tradução feita po Ernesto Grégoire e Luiz Molland, publicada em 1897 pela Editora Garnier. As traduções de Lobato dos contos de Grimm, publicadas alguns anos mais tarde, são estudadas por Sylvia Maria Trusen em sua dissertação de mestrado intitulada Os Grimm no Sítio do Picapau Amarelo. A autora conclui que Lobato via “na tarefa de traduzir a promoção do diálogo capaz de transpor fronteiras”, compreendendo a leitura como “operação preliminar, em que se vislumbra o embate entre o público-alvo do tradutor e aquele a que a obra originalmente se destinava”.10

Vale a pena aqui recorrermos novamente às considerações de Schleiermacher sobre a tradução. Para ele, o “verdadeiro tradutor, aquele que realmente pretende levar ao encontro essas duas pessoas tão separadas, seu autor e seu leitor”, tem dois caminhos possíveis: “ Ou o tradutor deixa o autor em paz e leva o leitor até ele; ou deixa o leitor em paz e leva o autor até ele”.11

No caso de Lobato, é evidente a opção por “trazer” o autor, por nacionalizar suas traduções e até mesmo “adaptar” as obras, tornando a leitura mais fácil e atraente para um público pouco afeito aos contextos de origem das referidas obras.

Há também implicações externas à questão propriamente da tradução, mas que são igualmente determinantes das escolhas feitas pelo tradutor. Sabrina Lopes Martinez mostra em sua monografia que Lobato precisou adequar o texto final de sua tradução do livro de Dashiell Hammett, The thin man, ao formato editorial necessário, como o décimo nono volume da “Série Negra” editada pela Companhia Editora Nacional.12

Em outro estudo sobre as traduções de Lobato, Adriana Silene Vieira afirma que livros como Peter Pan (1930) e Don Quixote das crianças (1936) podem ser vistos não apenas como adaptações, mas como apropriações, nas quais os personagens da literatura universal são trazidos para o sítio do Picapau Amarelo, onde interagem com seus moradores e vivem novas aventuras.13

Ainda segundo esta autora, Lobato empreende uma espécie de tropicalização dos textos estrangeiros através de Dona Benta, que funciona como mediadora, recontando as estórias “à sua moda” e incluindo nelas dados úteis à compreensão do público a que se destina.14

Antes da temporada na América do Norte, como editor Lobato já publicara muitas traduções, e num artigo publicado em jornal e recolhido em Miscelânea, intitulado precisamente “Traduções”, pode-se ler sua defesa da diversidade: “A literatura inglesa, tão rica de monumentos, era como se não existisse. A alemã, a russa, a escandinava, idem. A americana, idem.”

No mesmo artigo, mais adiante, comenta sobre as dificuldades enfrentadas pelo tradutor:


A tradução tem que ser um transplante. O tradutor necessita compreender a fundo a obra e o autor, e reescrevê-la em português como quem ouve uma história e depois a conta com palavras suas. Ora, isto exige que o tradutor seja também escritor – e escritor decente. (...) Os tradutores são os maiores beneméritos que existem, quando bons; e os maiores infames, quando maus.15
Com a experiência acumulada pela prática, sua avalição torna-se ainda mais rigorosa, como pode-se ver em carta escrita em 1945, para Diaulas Riedel, diretor da Empresa Editora “O Pensamento”, que lhe solicitara um prefácio para um livro cuja tradução Lobato acha impossível avalizar:
Chegou hoje o dia de examinar a tradução de Maeterlinck e resolver sobre o prefácio. Folheei a tradução, li aqui e ali, e li com atenção os dois primeiros capítulos. Hélas! É tradução ao tipo de quase todas por aí, que seguem o texto literalmente e matam toda a elegância e claridade da obra. Duvido que um leitor qualquer leia e entenda o que Maeterlinck quis dizer no capítulo I, em português, e no entanto está traduzido fielmente. Eis um erro. A tradução de fidelidade literal, isto é, de fidelidade à forma literária em que, dentro da sua língua, o autor expressou o seu pensamento, trai e mata a obra traduzida. O bom tradutor deve dizer exatamente a mesma coisa que o autor diz, mas dentro da sua língua, dentro da sua forma literária; só assim estará realmente traduzindo o que importa: a idéia, o pensamento do autor. Quem procura traduzir a forma do autor não faz tradução – faz uma horrível coisa chamada transliteração, e torna-se ininteligível.16
Um fragmento desta carta encontra-se copiado palavra por palavra, publicado na segunda parte de Mundo da lua, em acréscimos posteriores à primeira edição do diário, feitos provavelmente por ocasião da edição das Obras Completas:
Literalismo

A tradução literal, isto é, de absoluta fidelidade à forma literária em que, dentro de sua língua, o autor expressou o seu pensamento, trai e mata a obra traduzida. O bom tradutor deve dizer exatamente a mesma coisa que o autor diz, mas dentro da sua língua de tradutor, dentro da sua forma literária de tradutor; só assim estará realmente traduzindo o que importa: a idéia, o pensamento do autor. Quem procura traduzir a forma do autor não faz tradução – faz uma horrível coisa chamada transliteração, e torna-se ininteligível...17
As considerações de Lobato remetem-nos ao modelo de Fish, segundo o qual o tradutor seria um sujeito pertencente a duas diferentes comunidades interpretativas, capaz de dominar os códigos de ambas. Desse modo, podemos aproximar a tradução literária da tradução cultura, um jogo de transposição e entrecruzamento de diferentes culturas e de diferentes registros. Percebe-se em Lobato uma grande mudança de concepção, e uma espécie de elevação do status do tradutor, que, se antes era um imitador impedido de criar, passa a ser visto como um escritor para quem a criação é fundamental.
De dentro da goiaba

Não será esta a única contradição deste intelectual múltiplo, um “dínamo em movimento” como o chamou Silviano Santiago, em artigo publicado em junho de 1998, por ocasião do cinqüentenário de sua morte, no caderno Mais! da Folha de São Paulo, cuja tônica era justamente a recuperação do legado de Lobato e o redimensionamento de seu papel no universo da cultura nacional.

Um exemplo curioso das mudanças ocorridas está exposto em carta igualmente enviada de Buenos Aires, onde estava residindo, no começo de 1947, na qual Lobato informa:
Estou procurando casa em S.Paulo para voltar. Sinto-me aqui como bicho fora da goiaba. A goiaba é a Língua. Pátria é língua, pura e simplesmente. Fora da língua nativa ficamos como o bicho fora da goiaba. A solidão filológica é pior que a solidão física.18
Para quem julgava esta mesma língua uma erva daninha, tiririca a ser arrancada do cérebro, a “solidão filológica” parecia impossível em meio à euforia americana em que se encontrava. Com o bom-humor que sempre o caracterizou, a pátria, que já fora um cordão umbilical que o ligava aos amigos, configura-se agora como a língua materna, uma goiaba sem a qual o bicho Lobato não é nada.

Silviano Santiago aponta em Lobato certas características pós-românticas, entre as quais estaria o desejo de ser o reprodutor fiel das histórias ouvidas, sem “deturpá-las”:


Em Lobato, a subjetividade criadora conta pouco; conta mais o gosto de “apanhar” a história alheia, típico de escritor que é um terço viajante, outro terço detetive e, finalmente, civilizador. (...) Suas divagações por assim dizer poéticas seguem de perto a lição da geração de 70, de Sílvio Romero e José Veríssimo, e se resumem à crítica das idealizações nacionalistas feitas pela literatura romântica.19
Lobato, a propósito, se posiciona claramente sobre o que julga ser o bom método de trabalho para o escritor de seu tempo, e que será por ele definitivamente adotado quando da elaboração do livro O Sacy-Pererê:resultado de um inquérito:
Disto se conclui que o povo é o grande criador, e que o artista tem por missão operar como o instrumento estético por meio do qual o povo dá corpo definitivo e harmonico aos seus ingenuos esboços.

Temos nós, no seio da massa popular, matéria prima digna de ser plasmada pelas mãos da arte? Sim. Não tão abundante e rica como a tinha o grego, povo eleito da Harmonia; mas rica e abundante no suficiente para darmos ao mundo uma contribuição vultuosa de criações originais.

Basta que o nosso artista, se é um garimpeiro de talento, mergulhe no seio do povo e lá bateie na ganga rude o ouro de lei.20
O projeto intelectual de Lobato incluía portanto aquilo que hoje chamaríamos de tradução cultural, na medida em que procurava estabelecer a comunicação entre diferentes segmentos da sociedade através do entrecruzamento de diferentes registros culturais, bem como tornar acessível aos brasileiros informações de culturas estrangeiras. Tensões entre o mundo rural e o mundo urbano, o local e o universal, a língua culta e a língua coloquial, entre interior e exterior, encontraram em sua obra campo fértil para serem tematizadas e elaboradas.

Tendo atravessado a primeira metada do século XX e protagonizado a grande peça dramática que foi a industrialização do país, com toda sua carga de acirramento das desigualdades sociais, Lobato refez opiniões e pontos-de-vista e matizou seu nacionalismo, revendo e relativizando seu projeto de nação. Hoje, curiosamente, esse matizes se perderam e o autor é visto em cores berrantes.

Lobato trabalhou com mitos brasileiros e personagens consagrados da literatura universal, como o Quixote e o Hércules, mas levou também para uma temporada no Sítio do Picapau Amarelo o Gato Félix, a Shirley Temple e o Tom Mix, um enorme passo só possível a um espírito sem amarras como o dele, capaz de encarar a cultura de massa como um dado entre outros a ser igualmente disponibilizado ao público brasileiro. Também o conto e o romance policiais, que despontavam como literatura de massa, foram bem acolhidos, sendo por ele traduzidos, como vimos anteriormente, e considerados favoravelmente.

Ao contrário da maior parte dos intelectuais de seu tempo, que viam na cultura de massa a banalização e a perda da cultura de elite, Lobato abraçou-a e se deixou abraçar por ela. Certamente aprovaria, se tivesse vivido para ver, a atual adaptação para televisão das história do Sítio do Pica-Pau Amarelo, vendo Dona Benta usar a internet e escrever e-mails para seu neto Pedrinho. E certamente estaria contribuindo para as discussões a respeito das identidades locais, hoje imperiosamente necessárias.

É pena que tenha ficado na história como um nacionalista cristalizado, servindo aos anseios de uma elite dirigente que encontra na tradição inventada da identidade nacional o modelo apropriado para a homogeneização de diferenças e apaziguamento de conflitos. Quebrando-se o cristal que imobiliza, veremos na pluralidade dos fragmentos a riqueza das tensões por ele encenadas.

Bibliografia

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Obras de Monteiro Lobato


LOBATO, José Bento Monteiro. Mundo da lua e Miscelânea. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1956.

______. A barca de Gleyre. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1964. 2 t.



______. Cartas escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1959. 2 t.

1 Campos. A república do picapau amarelo,. p. 23.

2 Lobato. A barca de Gleyre, 2. t., p. 287.

3 Lobato. Mundo da Lua e Miscelânea, p. 50.

4 Lobato. A barca de Gleyre, 2. t., p. 104.

5 Lobato. A barca de Gleyre, 2. t., p. 266-7.

6 Lobato. A barca de Gleyre, 2. t., p. 267.

7 Lobato. A barca de Gleyre, 2. t., p. 268.

8 Schleiermacher. Sobre os diferentes métodos de tradução, p.27.

9 Lobato. A barca de Gleyre, 2. t., p. 275.

10 Trusen. Os Grimm no Sítio do Picapau Amarelo, p. 130.

11 Schleiermacher. Sobre os diferentes métodos de tradução, p 43.

12 Martinez. Monteiro Lobato: Tradutor ou co-autor?, p. 8.

13 Vieira. Monteiro Lobato Translator, p. 149-50.

14 Vieira. Monteiro Lobato Translator, p. 152-3.

15 Lobato. Mundo da lua e Miscelânea, p. 125-8.

16 Lobato. Cartas escolhidas, 2. t., p. 147-8.

17 Lobato. Mundo da lua e miscelânea, p. 118.

18 Lobato,. Cartas escolhidas, 2. t., p. 220-1.

19 Santiago. Um dínamo em movimento. p.4.

20 Lobato. O Sacy-Pererê: Resultado de um inquérito. p. 19.


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