Um pequeno ensaio sobre soneto



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UM PEQUENO ENSAIO SOBRE SONETO

I – A origem do soneto
O soneto tal qual como conhecemos é um poema de forma fixa composto de quatorze versos assim distribuídos: as duas primeiras estrofes são quartetos ou quadras (estrofes formadas por quatro versos) e as duas últimas estrofes são tercetos (estrofes formadas por três versos), porém poucos sabem que este modelo de soneto é de origem italiana, invenção do poeta siciliano Giocomo da Lentini no século XII; no século XIV o poeta, também italiano, Guittone D’Arezzo o aperfeiçoou, dando-lhe a forma que esta poesia tem hoje e ao grande Petrarca, mais um italiano, a sua divulgação na Europa.

A palavra soneto ao pé da letra significa em italiano pequeno som e convertendo para o português padrão posso dizer com segurança que seja pequena cantiga ao ser comparada com as cantigas palacianas.

O soneto foi trazido à literatura portuguesa através do poeta Sá de Miranda que ficou residindo seis anos na Itália e ao retornar para Portugal, levou a novidade para terrinha, onde os poetas da época escreviam geralmente cantigas medievais, classificada como cantiga palaciana (pelo fato da maioria dos poetas serem da corte e por elas serem recitadas no sarau dos palácios). O soneto se firma na literatura portuguesa através de Sá de Miranda e Camões.
II – A estrutura do soneto
Como já foi dito, o soneto é uma poesia de forma fixa com a seguinte estrutura:


  1. primeira estrofe = é constituída de quatro versos e funciona como a introdução neste tipo de texto;

  2. segunda estrofe = é constituída também de quatro versos e funciona como o desenvolvimento neste tipo de texto;

  3. terceira estrofe = é constituída de três versos e funciona no como a conclusão neste tipo de texto;

  4. quarta estrofe = é constituída também de três versos e funciona como chave de ouro, sintetizando o tema apresentado no decorrer deste tipo de texto.

No princípio, o soneto era escrito em versos decassílabos (versos der dez sílabas) e tinha como tema a mulher mais humanizada e próxima se compararmos com a figura feminina presente nas cantigas palacianas. Bem mais tarde o soneto ganha um novo ingrediente: os versos alexandrinos ou dodecassílabo (versos que possuem doze sílabas), isto já no século XIX com os poetas parnasianos. Ainda no princípio, o soneto tinha o assunto lírico – amoroso e futuramente ele, neste aspecto, aceitará qualquer tema, naturalmente.


III – Classificações dos sonetos
Pensa-se que há somente um tipo de soneto, aquele tradicional que obedece ao modelo italiano. Ledo engano! há outros modelos que merecem ser destacados. Ei-los:
1 Soneto clássico = é o soneto tradicional, escrito consoante as regras do período clássico, com versos decassílabos ou dodecassílabos ou alexandrinos. Darei agora um exemplo de soneto com versos dodecassílabos ou alexandrinos e um exemplo de soneto com versos decassílabos. Vamos a eles:

1.1 - Soneto com versos alexandrinos.



EX.:

Este, que um deus cruel arremessou à vida,

Marcando-o com o sinal da sua maldição,

- Este desabrochou como a erva má, nascida

Apenas para aos pés ser calcada no chão.


De motejo em motejo arrasta a alma ferida...

Sem constância no amor, dentro do coração

Sente crespa, crescer a selva retorcida

Dos pensamentos maus, filhos da solidão.


Longos dias sem sol! noites de eterno luto!

Alma cega, perdida à toa no caminho!

Roto casco de nau, desprezado no mar!
E árvore, acabará sem nunca dar um fruto,

E, homem, há de morrer como viveu: sozinho!

Sem ar! sem luz! sem Deus! sem fé! sem pão! sem lar!
Olavo Bilac

.

Confira na escansão a seguir que os versos deste soneto possuem doze sílabas.




1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

Es/te, /que um /deus /cru/el /ar/re/mes/sou/ à /vi/da,



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

Mar/can/do-o/ com/ o/ si/nal/ da/ sua/ mal/di/ção, /



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

- Es/te/ de/sa/bro/chou/ co/mo a er/va/ má,/ nas/ci/da



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

A/pe/nas/ pa/ra aos/ pés/ ser/ cal/ca/da/ no /chão./



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

De/ mo/te/jo em/ mo/te/jo ar/ras/ta a al/ma/ fe/ri/da...



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

Sem /cons/tân/cia/ no a/mor,/ den/tro/ do /co/ra/cão/



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

Sen/te /cres/pa, /crês/cer/ a /sel/va/ re/tor/ci/da



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

Dos/ pen/as/men/tos/ maus,/ fi/lhos/ da/ so/li/dão.



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

Lon/gos/ di/as /sem /sol!/ noi/tes/ de e/ter/no/ lu/to!


1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

Al/ma/ ce/ga,/ per/di/da à/ to/a/ no/ ca/mi/nho!



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

Ro/to/ cas/co/ de /nau, /des/pre/za/do/ no/ mar!/



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

E ár/vo/re, a/ca/ba/rá /sem/ nun/Ca/ dar /um/ fru/to,



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

E, ho/mem,/ há/ de /mor/rer/ co/mo/ vi/veu:/ so/zi/nho!



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

Sem /ar!/ sem /luz! /sem/ Deus!/ sem/ fé/! sem/ pão!/ sem/ lar!/


Olavo Bilac
1.2 - Soneto com versos decassílabos.

Ex.:
CLÍMAX
A morte surgiu rápido do além

E disse ao leito hospitalar horroroso,

Entrega-me sua vidinha e vem,

É uma ordem, senhor João Fragoso!


Lutando contra ela como ninguém

Meu pai mostrou-me ser um corajoso;

Outro herói anônimo que a vida tem,

Também anônimo o seu ato glorioso.


Ora Fragoso, não seja boçal!

Como ousa me afrontar mero mortal,

Desafiar todos os poderes meus!

Ora, Tânatos, não me leve a mal,

Irei sem a resistência afinal

Apenas se for chamado por Deus.


O Filho da Poetisa
Confira na escansão a seguir que os versos deste soneto possuem dez sílabas.
CLÍMAX

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

A /mor/te/ sur/giu/ rá/pi/do/ do a/lém/



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

E/ dis/se ao/ lei/to hos/pi/ta/lar/ fei/o/so,



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

En/tre/ga-/me/ su/a /vi/di/nha e/ vem,



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

É u/ma/ or/dem, /se/nhor/ Jo/ao/ Fra/go/so!




1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Lu/tan/do/ con/tra e/la/ co/mo/ nin /guém /



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Meu/ pai /mos/trou/-me /ser/ um/ co/ra/jo/so;



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Ou/tro he/rói a/nô/ni/mo /que a/ vi/da/tem,/



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Tam/bém /a/nô/ni/mo o/ seu a/to/ glo/rio/so.



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

O/ra/ Fra/go/so,/ não/ se/ja /bo/çal/!



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Co/mo ou/as/ me a/fron/tar/ me/ro/ mor/tal,/



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

A/fron/tar/ to/dos/ os /po/de/res /meus! /




1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

O/ra,/ Tâ/na/tos, /não/ me /leve/ a/ mal,/



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

I/ rei/ sem/ a/ re/sis/tên/cia a/fi/nal /



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

A/pe/nas/ se/ for/ cha/ma/do/ por/Deus./


O Filho da Poetisa



  1. Sonetilho = é um soneto formado por versos heptassílabos ou redondilha maior. Ex.:


CROMOS
A casinha, - o sol dobrando,

Projeta sombra na frente,

Onde o casal inocente

Está sorrindo e brincando.


Vai a menina cantando,

Medita o irmão... de repente

Safa-se aos pulos, contente

Como a graúna de um bando.


Chega ao portal pequenino

A mãe, que a olhar quase cai,

Soltando, pálida um grito...
É que o travesso menino

Com as chinelas do pai

Tenta montar no cabrito.
B. Lopes

Confira na escansão a seguir que os versos deste soneto possuem sete sílabas.




CROMOS

1 2 3 4 5 6 7

A/ ca/si/nha, - o/ sol/ do/bran/do,



1 2 3 4 5 6 7

Pro/je/ta /som/bra/ na/ fren/te,



1 2 3 4 5 6 7

On/de o /ca/sal/ i/no/cen/te



1 2 3 4 5 6 7

Es/tá /sor/rin/do e /brin/can/do.




1 2 3 4 5 6 7

Vai/a/ me/ni/na /can/tan/do,



1 2 3 4 5 6 7

Me/di/ta o ir/mão.../ de/ re/pen/te



1 2 3 4 5 6 7

Sa/fa-/se aos/ pu/los,/ con/ten/te



1 2 3 4 5 6 7

Co/mo a/ gra/ú/na /de um /ban/do.



1 2 3 4 5 6 7

Che/ga ao /por/tal /pe/que/ni/no



1 2 3 4 5 6 7

A /mãe,/ que a o/lhar/ qua/se/ cai,/



1 2 3 4 5 6 7

Sol/tan/do,/ pá/li/da um/ gri/to...



1 2 3 4 5 6 7

É /que o/ tra/ves/so/ me/ni/no



1 2 3 4 5 6 7

Com/ as /chi/ne/las/ do/ pai/



1 2 3 4 5 6 7

Ten/ta/ mon/tar/ no/ ca/bri/to.


B. Lopes


  1. Soneto branco = é o soneto que tem os versos sem rimas (chamado de versos brancos). Ex.:


UNIVERSO DOS SONHOS

Sonho que vem da pureza de criança.


A vida para mim é um sono colorido,
mesmo quando o sonho não se realiza,
insisto em sonhar para o alívio buscar.

Sei que e pura utopia, universos imaginários,


mas mesmo assim o corpo sente,
transforma minha vida cinza em colorido,
onde meu sonho ninguém me tira.

Aqueles meus segredos mais íntimos são


para mim águas profundas de muitos mistérios,
nele esta meu eu aonde vou e ninguém levo.

Sentimentos transparentes, leves, gostosos


trazendo a flor da pele cenas acontecidas
em forma de sonhos quase vivida.
Eliza Gregio


  1. Soneto invertido ou com inversão de estrofes = é o soneto onde as duas primeiras estrofes são tercetos e as duas últimas são quarteto ou quadra, totalizando quatorze versos. Ex.:


MUTAÇÃO
Eu que não sou de jurar, agora juro,

que hei de amar-te no futuro

com a mesma intensidade do presente.
Eu que não sou de sonhar acordado,

Agora sonho como todo ser apaixonado,

Contigo – meu amor – constantemente.
Eu que um dia jamais pensei em conseguir

algo tão puro e com tamanho esplendor,

quero sempre dos teus lábios ouvir

que me amas e que é meu o teu amor.


Eu que tinha a filosofia baseada na razão,

sinto mudá-la assim inteiramente,

cedendo seu lugar ao coração

que assumiu o controle definitivamente.


O Filho da Poetisa


  1. Soneto monossílabo = e o soneto onde os versos são constituídos de apenas uma sílaba. Ex.:



SONETO MONOSSÍLABICO
Vo

gar


Ro

lar
O

ar

do


lar
na

flor



por

A –


mor
Martins Fontes


  1. Soneto estrambótico = quando o soneto foi inventado, muitos poetas tiveram dificuldades em compor o novo modelo do poema. O soneto que era para ter 14 versos acabava recebendo um verso ou mais versos ou até mais uma estrofe (de preferência um terceto). Este soneto era muito esquisito diante dos olhos daqueles que passaram cultuar o soneto italiano; daí então este soneto receber o nome de estrambótico que deriva do italiano estrambote que significa esquisito. Ex.:



NO MUNDO DA LITERATURA


A literatura é o meu mundo paralelo
Ao mundo onde eu vivo que é real,
Lá convívio com cada texto tão belo
Como se fosse algo assim bem natural.

Quando estou lá, lógico, me estatelo


Por ter certeza que nada disso é normal,
Pois o que escrevo é tão pobrezinho, tão singelo,
Enquanto eles tudo que escrevem é bem genial.

Lá eu só não tenho complexo de inferioridade


Porque eles num bonito gesto de humildade
Dão-me uma enorme força e altas dicas.

Assim vou aperfeiçoando-me como escritor,


Como poeta... e vou cada vez cativando meu leitor
Com uma prosa bem elaborada ou rimas ricas
Que darão a minha simples poesia um alto teor
E fazendo com que na hora de escrever eu sue em bicas.
O Filho da Poetisa


  1. Soneto inglês = é o soneto que possui 14 versos assim distribuídos: as três primeiras estrofes são quarteto ou quadra e a última estrofe é um dístico. Quem imortalizou este tipo de soneto foi William Shakespeare, daí ele ser chamado de soneto shakespeariano.

Ex.:
A FAMÍLIA DOS SONETOS



Ah, meu caro leitor, se você acredita que o soneto
é um poema composto de dois quartetos e dois tercetos,
saiba que só com isto o seu conhecimento está obsoleto,
pois existem ainda outros tipos de sonetos.

É o soneto italiano que o consideramos certo e tradicional


dando ao poeta que o fez um enorme valor artístico,
há o soneto estrambótico que tem mais de um ou um verso adicional
e o soneto inglês que é formado por três quartetos e um dístico.

Existe também o sonetilho que é formado por verso heptassílabo,


Sonetos com versos brancos, ou seja, escrito sem nenhuma rima
e o soneto formado por versos de uma sílaba: soneto monossílabo.
Você sabia, leitor, da existência dos sonetos descritos acima?

Aproveito e lhe faço uma outra pergunta, leitor:


Qual o nome deste soneto que acabo de compor?
O Filho da Poetisa


  1. Soneto monostrófico = é o soneto formado por quatorze versos e apenas uma estrofe. Ex.:

HUMANIDADE NÃO, DESUMANIDADE!


O maior defeito do homem é violentar a natureza,


a natureza interna e a externa onde ele habita,
com isto ele aniquila qualquer tipo de beleza
e esperança, tornando a vida numa coisa maldita.
Por causa disto sou todo dia vítima da tristeza
e a minha alma todo dia vive bastante aflita.
Como acreditar na felicidade tendo a certeza
de que violar é a lógica em mais se acredita?
O ser humano vive esta lógica ilógica assim
Porque traz consigo uma enorme sede de poder
que só culminará quando ele se tornar um deus.
Dentro desta conjuntura levamos uma vida ruim,
Ignorando a alegria e já preparado para dizer
Um não a esta heresia... e para a felicidade: adeus!
O Filho da Poetisa

IV – CONCLUSÃO


Por ser um texto que caiu no gosto de grandes poetas como Camões, Shakespeare, Petrarca, Vinicius de Moraes, Augusto dos Anjos, Florbela Espanca, etc. este tipo de texto praticamente é considerado o rei das poesias e sempre consagra quem o escreve. Se o soneto clássico tem regras rígidas para ser composto, o soneto moderno não. No modernismo, o soneto mantém a mesma estrutura e a preferência pelo do soneto italiano (quatorze versos e tendo as duas primeiras estrofes sendo quadras e as duas últimas estrofes tercetos), porém tendo o tema e a versificação livres (versos com a quantidade de sílabas diferentes), podendo ter ou não rimas.

Acredito que com os meus estudos tenha tornado público “a família dos sonetos” e fofoqueiramente contado os segredos deles. Peço desculpas a eles (os sonetos) por tê-los tirados de suas privacidades e por tê-los revelados, porém acredito que eles (os sonetos) serão recompensados com novas adesões de poetas que com certeza ficarão fascinados com a tão “nobre família” como eu fiquei.

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