Um Príncipe Moderno



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Um Príncipe Moderno

The Prince, the Lady & the Tower

Muriel Jensen



Era uma vez...
Como uma princesa aprisionada em uma torre, Angie resignara-se a viver uma vida sem grandes atrativos nem intensas emoções. Jamais imaginara que um homem a ajudasse a escapar... para um conto de fadas. Até conhecer Brandon Prinz, cujos olhos falavam de possíveis noites cheias de paixão...

Digitalização: Marina Campos

Revisão: Marlene C

Apoio: Livros Corações



Copyright © 1997 by Muriel Jensen

Originalmente publicado em 1997 pela Silhouette Books,

divisão da Harlequin Enterprises Limited.

Título original: The Prince, the Lady & the Tower

Tradução: Maria Cristina F. da Silva

EDITORA NOVA CULTURAL

uma divisão do Círculo do Livro Ltda.

Copyright para a língua portuguesa: 1997





Marina Campos, Marlene C e Livros corações
Prólogo
Era uma vez um príncipe chamado Brandon, que trabalhava para o rei da empresa Rampion Farmacêutica na função de vice-presidente, responsável pela divisão de marke­ting. Ele vivia num castelo cercado por um lindo jardim, num lugar distante chamado Califórnia.

Às vezes o príncipe se sentia feliz. Mas às vezes ele passeava à noite pelo jardim e, ao fitar as es­trelas, sentia que faltava algo em sua vida. Algo que nunca poderia ter.

Num outro lugar distante, ao norte da Califórnia, vivia uma linda jovem com belos e longos cabelos dourados como um raio de sol. A jovem era dona de uma casa de chá numa montanha alta, e vivia com uma bruxa perto de uma floresta.

Às vezes a jovem se sentia feliz. Mas às vezes ela ia passear na floresta e, ao ouvir os pássaros cantando, desejava que um príncipe saísse do meio das árvores e a abraçasse antes de levá-la para o castelo dele, onde os dois viveriam muito felizes para sempre.



Capítulo 1
Senhoras e senhores, precisa­mos tomar uma atitude drás­tica. A divisão de produtos para cabelos da Rampion está dando prejuízo há cinco anos. Não vamos sair desta sala de reuniões enquanto não descobrirmos um jeito de evitar mais prejuízos no ano que vem. Muito bem, ponham as suas cabeças para funcionar. Qual é o nosso problema? Podemos vender aspirinas, antiácidos e produtos para banho sem a menor dificuldade. Então por que não conseguimos vender produtos para cabelos?

Bill McCormick, chefe do departamento financei­ro, deu de ombros e perguntou:

— Mike, por que nos preocupamos tanto com a divisão de produtos para cabelos? Todas as outras divisões da Rampion dão um lucro excelente. Vamos continuar fazendo o que sabemos fazer bem e es­quecer essa história de xampus e spray fixadores.

Sandra Hudson, sentada ao lado de McCormick, cruzou os braços e assentiu, relutante.

— Detesto concordar com qualquer coisa dita por Bill, mas nesse caso acho que ele tem razão. O mercado está saturado de produtos para cabelos, Mike, é difícil ter lucro nessa área. Sei que você tem um carinho especial pela divisão de produtos capilares porque ela foi desenvolvida pela sua esposa, mas...

— Os consumidores norte-americanos gastam quatro bilhões e meio de dólares por ano para cuidar dos cabelos — interferiu Brandon Prinz, entregando a Sandra e aos outros participantes da reunião có­pias de um relatório de capa vermelha. — Um bilhão e setecentos milhões são gastos com xampu, um bilhão com creme rinse, seiscentos milhões com spray fixador e quinhentos milhões com musse e gel. Sem dúvida não seria difícil para nós conquistar uma parte desse dinheiro todo. Só o que temos a fazer é descobrir o que há de errado com os nossos pro­dutos e resolver o problema.

— Céus, dêem uma olhada nesses números com­parativos! — exclamou Wade Bennett, depois de ler a primeira página do relatório. — Nossos concorrentes nos deixaram para trás faz tempo! Tem cer­teza de que os nossos produtos para cabelo são mesmo bons, Brandon?

— Claro que sim. Verifique a página três. Com­parei os nossos ingredientes com os que são usados pela concorrência, e os nossos são muito melhores. Na verdade, o pessoal do laboratório garantiu que os nossos xampus e condicionadores são os melhores do mercado. Nossos condicionadores, por exemplo, têm um equilíbrio perfeito entre óleo de silicone e agentes de limpeza; eles beneficiam os cabelos sem deixá-los gordurosos, pesados. Deveríamos ser os campeões em vendas de condicionadores, mas isso não acontece. Por quê?

Ao terminar de falar, Brandon Prinz deu a cada participante da reunião um frasco de xampu e um de condicionador, ambos fabricados pela Rampion Farmacêutica. Em seguida, colocou no centro da mesa vá­rios produtos fabricados por empresas concorrentes. Sandra pegou dois frascos de xampu feito pela concorrência e leu os rótulos antes de comentar:

— Uma coisa me chama a atenção logo de cara. Esses dois produtos têm óleo de Awapuhi na fór­mula, e o nosso não. Ora, todo mundo sabe que óleo de Awapuhi é ótimo para os cabelos.

— Por quê? — indagou Brandon.

— Bem, porque... A Awapuhi, é uma planta australiana e... O óleo extraído dela dá mais brilho aos cabelos, eu acho.

— Engano seu, Sandra. Leia a página seis do re­latório. O óleo de Awapuhi seria benéfico para os ca­belos apenas se houvesse uma grande quantidade dele na fórmula dos xampus que você acaba de usar como exemplo. Mas não é esse o caso. Ou seja, a publicidade da concorrência fez com que você acreditasse que de­terminados xampus contêm óleo de Awapuhi em pro­porção suficiente para deixar os seus cabelos mais brilhantes, só que isso não acontece.

— Quer dizer que os nossos concorrentes estão fazendo propaganda enganosa? — perguntou McCormick.

— Creio que eles prefeririam afirmar que tomaram liberdades criativas com a verdade — riu Brandon.

— E nós não podemos fazer o mesmo? — quis saber Bennett.

Mike Rampion, proprietário e presidente da Rampion Farmacêutica, balançou a cabeça.

— De jeito nenhum! Nunca mentimos para os nos­sos clientes. Não realizamos testes com animais, não poluímos o meio ambiente e doamos dez por cento dos nossos lucros para causas ecológicas. A nossa divisão de produtos para cabelos precisa começar a dar lucro, sim, mas sem o uso de manobras escusas.

— Nós precisamos é dar um novo enfoque aos nossos produtos, que são excelentes — declarou Brandon, apontando os frascos de design simples, já meio antiquado. — Podemos conquistar mais clientes sem enganações, mudando apenas a emba­lagem, o nome e o slogan dos nossos produtos.

— Acho loucura gastar dinheiro com produtos que só nos dão prejuízos — protestou McCormick. — Teríamos de contratar uma agência de publicidade para fazer as mudanças, e uma boa agência cobra verdadeiras fortunas para...

Brandon interrompeu Bill McCormick com um gesto de mão. Em seguida, indicando a jovem mo­rena sentada a seu lado, falou:

— Creio que todos já conhecem Betsy Shaffer, do departamento de arte da Rampion.

A moça cumprimentou os presentes com um aceno tímido.

— Betsy e eu colocamos nossos cérebros para fun­cionar nos últimos dias, e ela teve uma idéia bri­lhante — anunciou Brandon. — Vamos lá, Betsy, conte ao pessoal qual foi a sua idéia.

— Na verdade o sr. Prinz e eu tivemos a idéia juntos — corrigiu a jovem, com ar acanhado, antes de dizer ao resto do pessoal: — Nós pensamos em melhorar as vendas dos produtos para cabelos usan­do um enfoque relacionado a um conto de fadas.

Um murmúrio de desaprovação soou na sala. Os homens trocaram olhares céticos enquanto Sandra indagava, em tom sarcástico:

— Conto de fadas? Como na história de Cinderela?

— Não, como na história de Rapunzel — explicou Betsy. — Pensamos em mudar o nome da linha de produtos para Rapunzel Hair Care. Em vez de in­ventarmos mentiras, como a concorrência, realçaría­mos os benefícios reais que os nossos produtos trazem aos cabelos das mulheres. Trocaríamos os frascos re­dondos e lisos por frascos no formato de uma torre de pedra, do tipo das que são mencionadas em contos de fadas. E o slogan seria... Bem, talvez seja melhor o sr. Prinz falar agora, pois o slogan foi idéia dele.

— Espere um pouco. Não podemos conquistar no­vas clientes com essa bobagem de conto de fadas! — revoltou-se Sandra. — As mulheres de hoje são arrojadas, independentes...

— Eu sei — interrompeu-a Brandon. — As mu­lheres modernas trabalham fora, ganham dinheiro, cuidam da própria vida. Por isso mesmo, na inti­midade do lar, nada as impede de querer um pouco de fantasia, certo?

Os homens ficaram pensativos, considerando a questão. Sandra Hudson, que tinha cabelos curtos, fez uma careta de desagrado.

— O sr. Prinz tem razão — argumentou Betsy, de repente, olhando direto para Mike Rampion. — As mulheres têm de ser controladas e práticas du­rante a maior parte do tempo, e isso as deixa estressadas. Com certeza elas adorariam uma linha de produtos que lhes prometesse cabelos bonitos como os de Rapunzel e que as fizessem sentir-se como princesas de um conto de fadas. Sem preci­sarmos mentir, podemos dar às mulheres os melho­res produtos para cabelos que existem no mercado. E elas comprarão os nossos produtos porque as promoções que faremos e as embalagens que usaremos serão irresistíveis.

Mike deu um soco na mesa.

— A sua argumentação é brilhante, Betsy!

— Obrigada, sr. Rampion. Mas parte do crédito cabe ao sr. Prinz.

Voltando-se para o homem cujas estratégias de mar­keting haviam dobrado os lucros da Rampion Farmacêutica nos últimos cinco anos, Mike perguntou:

— E então, Brandon, qual foi o slogan que você criou?

— "Solte os cabelos com Rapunzel Hair Care".

O som de aplausos encheu a sala quando a eficaz simplicidade da idéia conquistou a maioria dos par­ticipantes da reunião.

— Precisaremos de uma mulher especial para representar a linha Rapunzel na mídia impressa e televisiva — disse Brandon, quando os aplausos terminaram.

— Uma celebridade? — sugeriu Sandra.

— Betsy acredita que em vez de uma atriz hollywoodiana seria melhor escolhermos uma desconhecida, alguém com quem as mulheres comuns pudessem ter uma identificação maior.

— Por acaso Hollywood não é a terra dos contos de fadas?

— Não — respondeu Brandon, ignorando o sarcasmo contido na pergunta de Sandra. — Hollywood é a terra da fantasia, mas não necessariamente dos contos de fadas. Queremos uma mulher bonita que tenha, ao mesmo tempo, uma aura de inocência e frescor. Betsy, por que você não mostra agora os seus storyboards?

Betsy espalhou sobre a grande mesa retangular os desenhos que havia preparado para a campanha da linha Rapunzel. Quatro horas mais tarde, depois de muita discussão e muitos palpites, todos, inclusive Sandra, estavam convencidos de que a campa­nha seria um sucesso de marketing e de vendas. Mike encerrou a reunião agradecendo a colaboração de todos, prometendo um aumento de salário a Betsy e pedindo a Brandon que permanecesse na sala de­pois que o resto do pessoal saísse.

— Obrigado — disse Mike quando os dois final­mente ficaram a sós.

— Não precisa agradecer — disse Brandon, apro­ximando-se da janela panorâmica com vista para o centro de Los Angeles. Ele afrouxou o nó da gravata antes de acrescentar: — É para isso que você me paga, para realizar um bom trabalho.

— Tolice. Não há dinheiro capaz de pagar a ener­gia e a criatividade que você dedica a cada projeto que vai parar nas suas mãos. Eu queria muito salvar a linha de produtos para cabelos, e graças à você isso será possível.

Brandon encarou Mike que, apesar de cansado após o longo dia de trabalho, ainda tinha nos olhos verdes o brilho de entusiasmo e sagacidade que o tornara capaz de fazer a Rampion Farmacêutica crescer cada vez mais nos últimos vinte e difíceis anos.

Também havia nos olhos verdes um quê da generosidade que incentivara Mike a acolher em seu lar um adolescente problemático e fazê-lo sentir pela primeira vez, em treze anos, que era querido e estava em segurança. Não existia no mundo um jeito de retribuir esse presente tão valioso, mas Brandon continuava tentando.

— Ruthie voltaria para assombrá-lo se você desse um fim à linha de produtos para cabelos, Mike — brincou ele, mudando de assunto no instante seguinte: — Quais são os seus planos para o jantar? Dunston está de folga esta noite.

— Ainda não pensei no assunto. E você, tem algum plano especial?

— Não. Pensei em convidar você para jantar comigo no restaurante da Kate Mantelini. Depois poderíamos ir para casa ouvir música e tomar um conhaque. Talvez pudéssemos aproveitar a chance para quebrar a cabeça imaginando onde encontra­remos uma mulher de cabelos compridos e maravi­lhosos, capaz de conquistar todos os Estados Unidos.

— Se encontrarmos uma mulher assim, não sei se vou querer dividi-la com todos os Estados Unidos — riu Mike. — Agora seja sincero, Brandon, você não está passando tempo demais em casa só por minha causa, está? O médico já me deu carta branca. Sinto-me ótimo, você não precisa mais me encher de cuidados desnecessários. Portanto, se preferir fa­zer outra coisa hoje à noite...

— Eu já lhe disse que não tinha nenhum plano especial. Agora vamos jantar, antes que o Mantelini's fique cheio demais.

Enquanto os dois vestiam seus paletós, Mike comentou:

— Gosto de vê-lo comportar-se como o filho que Ruthie e eu nunca tivemos, mas não quero nunca que você se sinta obrigado a...

— Só o que eu sinto agora é fome — reclamou Brandon, bem-humorado, abrindo a porta da sala de reuniões. — Será que você pode se apressar?

— Antes de irmos jantar eu gostaria que você parasse de me interromper e me ouvisse.

— Ora, e como posso esquivar-me de ouvi-lo se você continua a insistir no mesmo assunto? Relaxe, Mike. Eu não tinha outro compromisso para hoje à noite. Eu não estou enchendo você de cuidados des­necessários. E não me sinto obrigado a nada no que diz respeito a você.

Brandon fez o possível para não deixar transpa­recer que a última afirmação era uma mentira — afinal, devia ao homem mais velho tudo o que era e possuía na vida. No entanto, não conseguiu en­ganar Mike, que o encarou e argumentou, sério:

— Escute aqui, Brandon, eu lhe dei um lar porque você era o garoto mais corajoso, inteligente e digno de confiança que tive o prazer de conhecer, e também porque nós dois estávamos sem família na mesma época. Tivemos a sorte de nos darmos bem ao longo desses anos todos, mas... Quero que entenda de uma vez por todas que não permitirei que você se prive de ter uma vida particular em razão de algum ridículo senso de obrigação que possa ter em relação a mim.

— O meu senso de obrigação pode ser ridículo, como você diz, mas saiba que ele é motivado pela gratidão e pelo profundo afeto que sinto por você. Nenhum ultimato que você me der irá mudar os meus sentimentos. E como sempre o considerei uma companhia agradável, imaginei que poderíamos jantar juntos. Mas se você for passar a noite toda im­plicando comigo e me analisando psicologicamente, prefiro comer sozinho e...

— Oh, céus, cale-se e vamos embora. Eu também estou morto de fome.

— Você é quem manda, Mike.

Angie Corwin deu um passo para trás e mirou com orgulho a sua última obra-prima: um bolo de chocolate com cobertura de geléia de framboesa, enfeitado com flores de marzipã e balinhas coloridas de açúcar-cande.

Tirando o avental, Angie suspirou de satisfação. Em seguida, olhando ao redor, refletiu que estava bem longe do lugar onde imaginara estar ao termi­nar a escola de culinária. Não que isso a desagra­dasse, pelo contrário.

A pequena e bem-aparelhada cozinha onde se en­contrava agora não lembrava nem um pouco a gran­de e movimentada cozinha do hotel cinco estrelas onde trabalhara como sous-chef nos últimos quatro anos. Mas este era o seu domínio particular, onde tudo estava arrumado a seu gosto e onde o menu era uma criação exclusiva sua. Depois de passar a infância viajando de um lugar para outro, de passar a adolescência desejando ter uma família normal como tinham as suas colegas de internato, de passar quatro anos detestando a vida anônima que levava quando deixava a cozinha do hotel, finalmente sen­tia que encontrara o seu lugar no mundo. Receber a mãe para morar no seu próprio chalé e ser dona de uma graciosa casa de chá era um sonho transformado em realidade.

A única coisa que perturbava a sua felicidade era não conseguir animar a mãe.

Uma dinâmica mulher de cinqüenta anos, impe­dida de continuar trabalhando como arqueóloga por sofrer de artrite nas mãos, não era uma companhia lá muito divertida. Mas Angie havia esperado anos pela oportunidade de poder passar mais tempo em companhia da mãe e, embora nunca tivesse desejado que ela adoecesse, estava determinada a tirar van­tagem da situação em que a artrite a colocara — a de ser dependente da filha.

A porta tipo vai-e-vem que separava a cozinha do salão de chá abriu-se para dar passagem a uma mulher morena que anunciou num sussurro:

— Acabamos de vender uma torta inteira de ce­reja, e a sra. Evans veio buscar mais um pote de patê de salmão. Aposto como fala para as amigas que é ela mesma que faz o patê!

— Tudo bem, Becky — sussurrou Angie, em res­posta. — Na semana que vem vou colocar patê de salmão no menu, e aí todas as amigas da sra. Evans vão saber que o patê é feito aqui. Mas por que estamos falando baixo, afinal? Tem alguém no salão?

— Sim, duas senhoras tomando chá de menta e comendo torta de limão. A propósito, a sua mãe telefonou para avisar que está vindo para cá. Será que ela vai querer nos ajudar? — perguntou Becky, fazendo uma careta de desagrado.

Angie riu. Quando se sentia aborrecida, por ficar sozinha no chalé, Gretta vinha para a casa de chá e se oferecia para ajudar no que fosse possível. Como não tinha o menor dom para a culinária, acabava se propondo a arrumar a despensa. Acostumada a co­mandar equipes de arqueólogos iniciantes e trabalha­dores braçais, terminava recrutando Becky como auxiliar e a tratava como se fosse sua empregada. Becky não se importava de receber ordens de Angie, mas detestava ser comandada por qualquer outra pessoa.

Como não queria ficar sem os valiosos serviços de Becky Flynn, que era sempre atenciosa com os clientes e gostava de ajudar na cozinha, Angie sem­pre procurava evitar que a mãe e a funcionária entrassem em atrito.

— Mamãe não vem nos ajudar, Becky. Nós apenas combinamos de nos encontrar aqui para irmos jantar fora e depois pegarmos um cineminha — explicou ela.

— Puxa, que alívio! Não fique ofendida comigo, por favor. Adoro trabalhar para você, mas a sua mãe me faz perder a paciência às vezes. Agora é melhor eu voltar para o salão e perguntar às clientes se elas desejam mais alguma coisa.

Angie encontrou-se com a mãe à porta da casa de chá. Era começo de setembro, e o sol do entardecer dourava a paisagem. Gretta usava um suéter branco e calça jeans nova, que lhe davam um ar de displicente elegância. Seus cabelos loiros e claros, entremeados por fios brancos, estavam presos num coque frouxo.

— Oi, mãe — cumprimentou-a Angie. — Já decidiu onde vamos jantar?

— Eu gostaria de comer cuscuz mas, como não existe nenhum lugar que sirva pratos árabes por aqui, creio que devemos optar por aquele pequeno restaurante chinês, o Wah Mae.

— Ei, por que não abre um restaurante árabe aqui na cidade, mãe? A comida árabe viraria moda e você ficaria rica.

— Bobagem! O único jeito de eu enriquecer, agora que sou uma inválida dependente da filha, é ganhar na loteria. A propósito... Além do videocassete, que quebrei na semana passada, acho que quebrei o seu toca-CDs, hoje.

— Como? O que aconteceu?

— Bem, primeiro eu não conseguia achar o botão para ligá-lo. Depois, quando finalmente descobri o botão certo, o som estava alto demais. Daí, quando fui girar o botão do volume, acabei derrubando o aparelho no chão.

Caminhando de braços dados com a mãe, Angie observou-lhe as mãos deformadas pela artrite e re­primiu um suspiro de pesar.

— Creio que derrubei o aparelho porque tentei usar um livro para girar o botão do volume — ex­plicou Gretta. — Você sabe, eu tenho dificuldade para segurar objetos pequenos, e os botões do toca-CDs são tão minúsculos!

— Você estava lendo? Que legal! — comentou Angie, para mudar de assunto e animar a mãe. — Que livro era?

— Na verdade eu não estava lendo, só estava usan­do o livro para desamassar algumas fotos de mulheres da tribo Masai. Eu fotografei as mulheres da tribo durante as escavações que fiz na África em...

— Mãe, por favor, por que não pára de pensar tanto no passado? Você precisa entender que a sua vida não é mais a mesma, precisa aceitar as mudanças que aconteceram. Essa dificuldade que você tem para lidar com aparelhos modernos, por exem­plo, é apenas uma manifestação da sua frustração por não poder mais trabalhar como arqueóloga.

— Ora, obrigada pela interpretação, Angie Jung. Ou será Angie Freud?

— É Angie Corwin, mãe. Meu sobrenome é o mes­mo que o seu e o do papai, lembra? É uma pena que a artrite a tenha obrigado a abandonar a pro­fissão que tanto amava, mas você ainda pode levar uma vida produtiva e interessante se parar de pen­sar no passado e se concentrar no presente.

A sombra de uma emoção indefinível toldou o olhar de Gretta, que murmurou:

— É tão fascinante o modo como você fala essa palavra, minha filha.

— Que palavra?

— "Papai". Você fala como se o tivesse conhecido...

— Talvez eu tenha alguma memória genética dele. Ou talvez eu experimente a sensação de tê-lo co­nhecido porque você já me contou tanta coisa sobre ele que o transformou numa pessoa real para mim.

— Detesto depender de você, sabia?

Gretta havia mudado de conversa e Angie adivi­nhara que isto aconteceria — como sempre acontecia quando o nome do pai dela vinha à tona. A mágoa perdurara por todo esse tempo.

— Mamãe, estou tão contente de poder passar mais tempo com você! Quando eu era pequena e nós viajávamos juntas, você sempre estava traba­lhando e preocupada com suas descobertas. Mais tarde, quando cresci, passamos tanto tempo afastadas... Que bom estarmos dividindo uma casa, agora!

— Mesmo que eu viva quebrando coisas?

— Você vai parar de quebrar coisas, quando se ajustar.

— O que eu não consigo é parar de pensar no fato de que você mudou a sua vida para se acomodar à minha vida. E que tenha aceitado se enterrar num lugarzinho como este, onde fui tão feliz como garota... — As duas chegaram ao Wah Mae. Gretta parou junto à porta. Voltando-se para encarar Angie, acrescentou com uma expressão conciliadora: — Mas acho que você me entende, não é? Eu nunca consegui agüentar cidades grandes, poluídas e movimentadas demais. Adoro ar livre, céus limpos, árvores, rios, silêncio...

Claro que entendo, mãe.

Angie olhou em torno de si, para as casas construídas na típica arquitetura da virada do século. As moradias e estabelecimentos comerciais tinham um estilo meio italiano e meio pioneiro, e todo o conjunto de construções era cercado pela vegetação luxuriante das montanhas entre a cidade de Sacra­mento e a divisa com o Estado de Oregon. Um céu azul como o do Mediterrâneo emoldurava a pequena vila de Gray Goose Lake, e Angie sentia dificuldade em encontrar defeitos no local.

— Este lugar é lindo. Seremos felizes aqui, mamãe — afirmou ela, convicta.

Gretta examinou-lhe as feições e encontrou um sorriso honesto e inocente. Essa era uma das van­tagens de quem tinha sardas: tornava mais fácil parecer honesta e inocente. Aparentemente satis­feita, Gretta sacudiu um dedo deformado pela artrite em frente ao rosto da filha:

— Encontrarei uma forma de ganhar dinheiro e me tornar financeiramente independente, você vai ver!

— Mãe, por favor, nós já discutimos isso centenas de vezes.

— Pois vamos discutir de novo. Eu estava examinando uma caixa de fotografias quando encontrei diversas anotações sobre as escavações que fiz na África. Talvez eu possa reunir as anotações e as fotos num livro, que tal?

— Que idéia genial! Você podia gravar tudo em fita cassete e eu datilografaria depois.

— Angie! Você já não tem tempo para si mesma!

— Tudo bem — concordou a filha, conciliadora.

— Então você mesma datilografará o texto depois da cirurgia nas mãos.

— Esqueça essa cirurgia! — protestou Gretta, sacudindo-a pelos braços apesar das mãos defeituosas. — Você não vai gastar o seu dinheiro, ganho com o suor de seu rosto...

Angie interrompeu-a, segurando-lhe as mãos com delicadeza.

— Não venha me dizer o que posso ou não fazer com o meu dinheiro. Eu avisei, antes de mudarmos, que seríamos "sócias". Você não vai ficar mandando em mim como se eu fosse sua empregada!

— Ninguém falou em empregada! Você disse que seríamos sócias, sim, mas isso não quer dizer que pagará por cada coisa que o meu seguro-saúde não cobrir! Eu não quis saber de cirurgia desde a primeira vez em que você tocou no assunto, e continuo dizendo "não". — Gretta parou para tomar fôlego e expiro longamente: — Algum dia vou contratar alguém d punhos fortes para lhe dar um soco no nariz!

Angie abriu a porta do restaurante:

— Doces palavras, mãezinha. Quando estivermos no cinema vou me sentar longe de você, combinado.

— Ora, esqueça. Alguém vai ter de desembru­lhar as balas para mim, portanto trate de sentar do meu lado.



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