Um Sonho de Esperança



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Trilogia do Sonho

Volume 3:

Um Sonho de Esperança

Nora Roberts

Título original: Finding the Dream

Arteplural Edições, 2005.

Digitalização: Dores Cunha.

Correcção: Fátima Tomás.

Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente à leitura de pessoas portadoras de deficiência visual. Por força da lei de direitos de autor, este arquivo não pode ser distribuído para outros fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.

Contracapa: No último romance da Trilogia do Sonho ficamos a conhecer Laura Templeton a verdadeira filha e herdeira do império hoteleiro dos Templeton.
Laura sempre teve todo o conforto e segurança material que a família Templeton lhe podia proporcionar. Mas, aos trinta anos de idade, vê o seu casamento destruído pela infidelidade e pelo interesse. O que cedo na vida lhe parecera ser eterno escapou-se-lhe por entre os dedos das mãos, como se de areia se tratasse.
Laura tem dificuldade em lidar com a sua nova situação familiar e será com o apoio das suas amigas Margo e Kate que irá recuperar forças para renascer numa nova mulher, independente, segura de si e do seu trabalho autónomo.
Em ritmo vertiginoso, que transborda romance e paixão, pelos quais Nora Roberts é indiscutivelmente famosa, a Trilogia do Sonho constitui uma inesquecível história de sorte, amor e decisões que moldam a vida de todos (fim da contracapa).

Para os sonhadores


CAROS LEITORES

Os sonhos devem ser mágicos. Os sonhos devem ser íntimos. Os sonhos de Laura Templeton assim eram. No primeiro livro desta trilogia, Um Sonho de Amor, acaba o sonho acalentado por Laura de um casamento de conto de fadas. Ela está agora empenhada em construir uma vida nova, focalizada nas duas filhas pequenas e no risco de um negócio que iniciou com as suas duas maiores amigas, Margo e Kate: uma butique chamada Pretenses.
Laura Templeton continua a viver em casa dos pais, a Casa Templeton, em Big Sur, onde cria as filhas, determinada a proporcionar-lhes o lar seguro e afectuoso que sempre conheceu.
Em Um Sonho de Vida, Laura observou Margo florescer no seu casamento e Kate desabrochar ao apaixonar-se. Laura aprendeu a manter-se sozinha, a tornar-se uma mulher independente, que consegue tratar das filhas e da casa, além de ainda trabalhar fora.
Em Um Sonho de Esperança, Laura defronta um novo desafio. O seu nome é Michael Fury. Em vez do príncipe encantado com o qual outrora sonhou, Michael é um homem de paixão, acção e impetuosidade. Michael consegue perturbar a vida ordenada que Laura pensava desejar, deixando em turbilhão o coração que ela tinha a certeza de ter trancado para sempre.
Laura, como Margo e Kate, vai descobrir que, se uma pessoa ousar e insistir, acabará por realizar os seus sonhos mais preciosos. Espero que gostem da história. E que todos os vossos sonhos se tornem realidade.
NORA ROBERTS

PRÓLOGO


Califórnia, 1888
"É um longo caminho para um homem percorrer. Não só pelos quilómetros de San Diego aos penhascos, nos arredores de Monterey", pensou Felipe, "mas também pelos anos. Muitos e muitos anos..."
Houve um tempo em que ele fora suficientemente jovem para andar confiante pelos penhascos, subindo e descendo, até correndo. Desafiando o destino, celebrando o ímpeto do vento, o estrondo das ondas, a altura vertiginosa. Os penhascos desabrochavam para ele na Primavera, naquele passado distante. Havia flores a colher para Seraphina. Felipe conseguia lembrar-se, a visão lúcida da idade retornando à juventude, como ela ria e aconchegava as flores silvestres contra o peito, como se fossem as rosas mais preciosas colhidas de uma roseira bem cuidada.
Ele tinha os olhos fracos agora, as pernas um tanto trôpegas. Mas não a memória. Aquela era a sua penitência: uma memória forte e vital num corpo velho. Qualquer que fosse a alegria que encontrara na sua vida, esta sempre fora maculada pelo som do riso de Seraphina, pela confiança que transbordava dos olhos escuros, pelo seu amor jovem e fiel.
Nos mais de quarenta anos transcorridos desde que a perdera, juntamente com toda a sua inocência, Felipe aprendera a aceitar as suas próprias falhas. Fora um cobarde, fugindo da batalha em vez de enfrentar os horrores da guerra, escondendo-se entre os mortos em vez de empunhar uma espada.
Mas era jovem, e atitudes dessas deviam ser perdoadas aos jovens.
Deixara que os amigos e a família acreditassem que morrera, abatido como um guerreiro... até mesmo como um herói. A vergonha
e orgulho levaram-no a comportar-se dessa maneira. Coisas pequenas, o orgulho e a vergonha. A vida era constituída por incontáveis coisas pequenas. Mas jamais esqueceria que a sua vergonha e orgulho tinham custado a vida de Seraphina.
Cansado, Felipe sentou-se numa pedra para escutar o rugido do mar batalhando com os rochedos lá em baixo, os gritos estridentes das gaivotas, o zunido do vento a soprar pela relva de Inverno. E sentia o ar frio, quando fechou os olhos e abriu o coração.
Para ouvir Seraphina.
Ela seria sempre jovem, uma adorável menina de olhos escuros que nunca tivera a oportunidade de envelhecer, de chegar à idade em que Felipe agora se encontrava. Seraphina não esperara. Desesperada e magoada, atirara-se ao mar. "Por amor a mim", pensou Felipe. Por uma precipitação da juventude, que não esperara o tempo suficiente para saber que nada dura para sempre.
Por julgá-lo morto, Seraphina morrera, atirando-se do alto dos penhascos, acabando com o seu futuro.
Ele lamentara. Deus sabia o quanto lamentara. Mas não fora capaz de acompanhá-la para o mar. Em vez disso, viajara para o sul, renunciara ao seu nome e ao seu lar, adoptara outros.
Encontrara o amor outra vez. Não o primeiro e doce amor que conhecera com Seraphina, mas algo sólido e forte, baseado na confiança e compreensão, em necessidades ao mesmo tempo serenas e violentas.
E fizera o melhor que podia.
Tinha filhos e netos. Levara uma vida com todas as alegrias e pesares que formam um homem. Sobrevivera para amar uma mulher, criar uma família, plantar jardins. E sentia-se contente pelo que produzira.
Mas jamais esquecera a moça que amara. E matara. Jamais esquecera os seus sonhos para o futuro, ou a maneira doce e inocente com que Seraphina se entregara. Depois de se amarem em segredo, os dois, tão jovens, tão exuberantes, sonharam com a vida que teriam juntos, a casa que construiriam com o dote, os filhos que teriam.
Mas a guerra viera, e ele deixara-a para provar que era um homem. Em vez disso, provara ser um cobarde.
Ela escondera o seu dote, o símbolo de esperança que uma rapariga tanto preza, para mantê- lo fora do alcance dos Americanos.
Felipe não tinha a menor dúvida sobre o lugar em que ela o escondera. Compreendia a sua Seraphina... a sua lógica, o seu sentimento, as suas forças e fraquezas. Embora não tivesse qualquer dinheiro ao deixar Monterey, ele não levara o ouro e as jóias que Seraphina guardara.
Agora, com os sonhos da idade que tinham transformado os seus cabelos em prata, turvado os seus olhos e deixado os ossos doridos, ele rezava para que o tesouro fosse encontrado um dia por pessoas apaixonadas. Ou sonhadoras. Se Deus era justo, permitiria que Seraphina escolhesse. Independentemente do que a Igreja pregava, Felipe recusava-se a acreditar que Deus condenasse uma criança desesperada pelo pecado do suicídio.
Ela estaria agora como a deixara há mais de quarenta anos, naqueles mesmos penhascos. Sempre jovem, linda e transbordando de esperança.
Felipe sabia que não voltaria àquele lugar. O seu tempo de penitência estava quase a terminar. Esperava que a sua Seraphina, quando a visse de novo, sorrisse e perdoasse um jovem insensato e orgulhoso.
Ele levantou-se, meio curvado ao vento, apoiado na bengala. E deixou os penhascos, ao encontro de Seraphina.
Havia uma tempestade a aproximar-se pelo mar. Uma tempestade de Verão, com raios a riscar o céu e um vento furioso. Sob a intensa claridade, Laura Templeton estava contente sentada no penhasco. As tempestades de Verão eram as melhores.
Teriam de entrar daqui a pouco, teriam de voltar à Casa Templeton. Mas, por enquanto, ela e as suas duas maiores amigas podiam esperar e contemplar. Laura tinha dezasseis anos, era uma moça delicada, com olhos cinzentos serenos, cabelos louros brilhantes e tão repleta de energia quanto qualquer tempestade,
- Eu gostava de poder entrar no carro e seguir directamente para lá. - Margo Sullivan riu-se. O vento era intermitente e cada vez mais forte. - Para o meio da tempestade.
- Não contigo ao volante - zombou Kate Powell. - Só tiraste a carta de condução há uma semana e já tens reputação de lunática.
- Estás com inveja porque ainda tens de esperar alguns meses para poderes guiar.
Como era verdade, Kate encolheu os ombros. Os cabelos pretos curtos agitavam-se ao vento. Ela respirou fundo, adorando a maneira como o vento a envolvia.
- Pelo menos estou a economizar para um carro, em vez de recortar fotos de Ferraris e jaguars.
- Se vais sonhar - disse Margo, franzindo o rosto para uma falha mínima no esmalte cor de coral das unhas -, sonha em grande. Um dia, vou ter um Ferrari ou um Porshe, ou qualquer outro carro que queira.
Os seus olhos de um azul profundo contraíram-se com determinação quando ela acrescentou:
- Não vou contentar-me com qualquer porcaria em segunda mão como tu farias.
Laura deixou-as discutir. Poderia ter acabado com a discussão, mas compreendia que era apenas parte da amizade. E não gostava de carros. É claro que apreciava o elegante descapotável que os pais lhe tinham oferecido pelo seu décimo sexto aniversário. Mas, para ela, um carro era igual a qualquer outro.
Também compreendia que era mais fácil pensar assim dada a sua posição. Afinal, era a filha de Thomas e Susan Templeton, donos do império hoteleiro Templeton. A sua casa assomava na colina por detrás delas, espectacular sob o céu cinzento. Havia mais do que pedra, madeira e vidro. Mais do que torres, varandas e jardins viçosos. Mais do que o batalhão de empregados que a mantinha sempre impecável.
Era o seu lar.
Porém, Laura fora criada para compreender as responsabilidades do privilégio. Havia nela um imenso amor pela beleza e simetria, e uma bondade inefável. Acrescente-se a isso uma necessidade de corresponder aos padrões dos Templeton, de merecer tudo o que recebera como direito hereditário. Não só a riqueza, como ela já sabia mesmo aos dezasseis anos, mas também o amor da família e das amigas.
Sabia que Margo sempre se impacientava com as suas limitações. Embora tivessem sido criadas juntas na Casa Templeton, tão unidas quanto irmãs, Margo era filha da governanta.
Kate viera para a Casa Templeton quando os seus pais tinham morrido. Uma órfã de oito anos. Fora tratada com carinho e absorvida na família, tornara-se parte dos Templeton tanto quanto Laura e o seu irmão mais velho, Josh.
Laura, Margo e Kate eram tão unidas - talvez até mais - quanto irmãs que partilhassem o mesmo sangue. Mas Laura nunca esquecia que a responsabilidade Templeton era sua.
"Um dia", pensou ela, "vou apaixonar-me, casar e ter filhos. E darei continuidade à tradição Templeton." O homem que viria buscá-la, que a tomaria nos seus braços e faria com que ela lhe pertencesse, seria tudo o que sempre desejara. Juntos, construiriam uma vida, criariam um lar, projectariam um futuro tão refinado e perfeito quanto a Casa Templeton.
Enquanto ela imaginava, os sonhos brotavam no seu coração. Um rubor delicado espalhou-se pela sua face. O vento agitava os cabelos louros em torno do rosto.
- A Laura está novamente a sonhar - comentou Margo, com um sorriso que transformou o rosto bonito em deslumbrante.
- Tens a Seraphina outra vez na cabeça? - perguntou Kate.
- Ha? - Não, ela não estava a pensar em Seraphina, mas começou naquele momento. - Eu gostava de saber com que frequência ela vinha até aqui, para sonhar com a vida que queria ter com o Felipe.
- Ela morreu numa tempestade como a que se aproxima. Pelo menos isso eu sei. - Margo ergueu o rosto para o céu. - com raios a iluminarem o céu e o vento a uivar.
- O suicídio já é um acto suficientemente mau. - Kate arrancou uma flor silvestre e torceu a haste resistente entre os dedos. - Se fosse um dia perfeito, com o céu azul e o Sol a brilhar, o resultado seria o mesmo.
- Por vezes pergunto-me como será uma pessoa sentir-se assim tão perdida - murmurou Laura. - Se algum dia encontrarmos o dote dela, devemos construir um santuário ou alguma outra coisa para recordá-la.
- vou gastar a minha parte em roupas, jóias e viagens - anunciou Margo, esticando os braços por detrás da cabeça.
- E tudo acabará num ano, talvez menos - previu Kate. - Por mim, vou investir o meu dinheiro em acções... só investimentos seguros.
-A chata e previsível Kate. - Margo virou a cabeça, sorrindo para Laura. - E tu? O que vais fazer quando descobrirmos o tesouro? Porque tenho a certeza de que um dia vamos descobri- lo.
- Não sei. - "O que faria a minha mãe?", especulou Laura. "E o meu pai?" - Não sei. Terei de esperar para ver.
Ela olhou para o mar, por onde a cortina de chuva se aproximava cada vez mais.
- Foi o que a Seraphina não fez. Ela não esperou para ver.
E o som do vento cada vez mais forte parecia uma mulher a chorar.
Um relâmpago iluminou as nuvens e viu-se um clarão intenso no céu cinzento. O estrondo da trovoada fez o ar tremer. Laura inclinou a cabeça para trás e sorriu. "Está a chegar", pensou ela. "A energia, o perigo, a glória."
Era o que ela queria. Lá no fundo, na parte mais íntima do seu coração, Laura queria tudo.
E foi nesse instante que soou um rangido de freios, a vibração agressiva do rock n roll e um grito impaciente.
- Vocês estão doidas? - Joshua Templeton inclinou-se pela janela do seu carro, olhando para as três com cara de poucos amigos. Venham já para o carro!
- Ainda não começou a chover.
Laura levantou-se. Olhou para Josh primeiro. Ele era quatro anos mais velho. Naquele instante parecia-se tanto com o pai, nos seus momentos de irritação, que Laura teve vontade de rir. Mas já vira quem estava no carro com o irmão.
Não imaginava como sabia que Michael Fury era tão furioso quanto uma tempestade de Verão, mas tinha a certeza disso. Era mais do que os comentários de Ann Sullivan sobre desordeiros e maus elementos... embora, sem dúvida, a mãe de Margo tivesse uma opinião formada sobre aquele amigo do Josh em particular.
Talvez fosse porque os seus cabelos escuros eram um pouco compridos de mais, sempre desgrenhados. Ou por causa da pequena cicatriz branca por cima da sobrancelha esquerda, que, segundo josh, Michael ganhara numa luta. Talvez fosse pela sua aparência, o rosto moreno, que transmitia uma sensação de perigo, algo insidioso. "Como um anjo ganancioso", pensou Laura, enquanto o seu coração palpitava, de uma maneira inquietante. "Que sorri todo o caminho até chegar ao Inferno."
Mas Laura pensava que a causa estava nos olhos. De um azul desconcertante naquele rosto moreno. Intensos, francos e intrometidos quando a fitavam.
Ela não gostava da maneira como Michael a olhava.
- Entrem já no carro! - A impaciência parecia vibrar em ondas ao redor de Josh. - A mãe teve um ataque quando soube que vocês estavam aqui. Se uma de vocês for atingida por um raio, o meu rabo é que vai fritar.
- Uma pena para um rabo tão bonito - comentou Margo, sempre disposta a namoriscar. Na esperança de deixar Josh com ciúmes, ela abriu a porta do outro lado. - Não vai ser fácil cabermos cá todos. Importas-te se eu me sentar ao teu colo, Michael?
Ele desviou o olhar de Laura. Sorriu para Margo, um rápido brilho dos dentes num rosto bronzeado e encovado.
- A vontade, minha querida.
A voz era profunda, um pouco rouca. E aceitou, com uma facilidade nascida da experiência, o peso de uma mulher disposta a instalar-se ali.
- Não sabia que já tinhas voltado, Michael.
Kate entrou para o banco de trás, pensando com algum azedume que havia espaço suficiente para as três.
- Estou de licença. - Ele lançou um olhar para Kate, depois voltou a fixar-se em Laura, que ainda hesitava, junto à porta do carro.

- Mas torno a zarpar daqui a dois dias.


- A marinha mercante... - Margo passou os dedos pelos cabelos de Michael. - Parece tão... perigoso. E emocionante. Tens uma mulher em cada porto?
- Esforço-me por isso. - Enquanto as primeiras gotas de chuva caíam no pára-brisas, ele franziu as sobrancelhas para Laura. - Também queres sentar-te ao meu colo?
Dignidade era outra coisa que ela aprendera desde cedo. Sem se dignar responder-lhe, Laura foi sentar-se ao lado de Kate no banco de trás.
No instante em que a porta se fechou, Josh arrancou com o carro e subiu para a Casa Templeton. Quando os seus olhos se encontraram com os de Michael no espelho retrovisor, Laura desviou deliberadamente o olhar, voltando a contemplar os penhascos, o lugar dos seus sonhos confortáveis.
capítulo 1
Laura estava apaixonada no dia em que completou dezoito anos. Sabia que tinha sorte por ter tanta certeza dos seus sentimentos e do seu futuro... e do homem com quem os partilharia.
O seu nome era Peter Ridgeway. Era tudo com que ela sempre sonhara. Alto e bonito, uma aparência exuberante e um sorriso encantador. Era um homem que compreendia a beleza e a música, que aceitava as responsabilidades de uma carreira.
Desde que fora promovido na empresa Templeton e transferido para a Califórnia, cortejara-a de um modo organizado a fim de conquistar o seu coração romântico.
Houve rosas entregues em caixas brancas lustrosas e jantares tranquilos à luz de velas. Conversas intermináveis sobre literatura e arte... e olhares silenciosos que diziam muito mais do que palavras.
Faziam longas caminhadas pelos jardins ao luar, passeavam de carro ao longo da costa.
Laura não demorara a apaixonar-se. Não fora uma paixão súbita e violenta, mas um movimento suave, sem arranhões ou equimoses. Quase como deslizar por um túnel forrado de seda para os braços que estavam à sua espera.
Talvez, aos vinte e sete anos, ele fosse um pouco mais velho do que os pais de Laura gostariam, e ela um pouco jovem de mais. Mas Peter era tão impecável, tão perfeito, que Laura não podia admitir que a diferença de idade tivesse alguma importância. Afinal, nenhum rapaz da sua idade tinha a educação, o conhecimento e a paciência serena de Peter Ridgeway.
E ela estava demasiado apaixonada.
Peter insinuara casamento, com extrema gentileza. Ela compreendeu que era para que tivesse tempo de pensar sobre isso. Só
não sabia como fazê-lo entender que já pensara, já decidira que ele era o homem com quem queria passar o resto da vida.
"Mas um homem como Peter", pensou Laura, "tem de tomar a iniciativa, as decisões."
Havia tempo, assegurou a si própria. Todo o tempo do mundo. E naquela noite, na festa para comemorar os seus dezoito anos, Peter ia estar presente. Dançaria com ele. E no vestido azul- claro que escolhera porque combinava com os olhos de Peter, haveria de sentir-se uma princesa. Mais do que isso, iria sentir-se uma mulher.
Ela vestiu-se devagar, querendo saborear cada momento dos preparativos e pensou que tudo seria diferente a partir daquele momento. O seu quarto ainda era o mesmo desde que abrira os olhos naquela manhã. As paredes continuavam cobertas pelo papel com os pequenos botões de rosas, que há muitos anos ali cresciam. O sol de Inverno entrava pelas janelas, filtrado pelas cortinas de renda, como ocorrera em outras tantas manhãs de Janeiro.
Mas tudo se tornara diferente. Porque ela estava diferente.
Laura examinou agora o quarto com os olhos de uma mulher. Apreciou as linhas elegantes da cómoda de mogno, uma Chippendale envernizada que fora da sua avó. Passou a mão pelo conjunto de escovas com cabo de prata, presente de aniversário de Margo, contemplou os frívolos e coloridos frascos de perfume que começara a coleccionar no início da adolescência.
Lá estava a cama em que dormira, em que sonhara, desde a infância, de quatro colunas, também Chippendale, com o extravagante dossel de renda bretã. As portas de vidro que levavam à sua varanda estavam abertas, deixando passar os sons e fragrâncias do início da noite. A cadeira junto da janela, o lugar em que podia enroscar-se e sonhar, estava aconchegante com as suas almofadas.
Um fogo brando ardia na lareira de mármore rosa granulado. Em cima da prateleira havia retratos em molduras de prata e os delicados castiçais de prata com as velas brancas delgadas, que ela gostava de acender à noite. Ali estava também o vaso de porcelana de Dresden que continha a solitária rosa branca que Peter lhe enviara naquela manhã.
Havia ainda a escrivaninha em que estudara durante toda a escola secundária e onde continuaria a estudar durante os meses que restavam do último ano.
Era estranho, meditou ela, passando a mão pela escrivaninha, que não se sentisse mais uma estudante liceal. Tinha a sensação de ser mais velha do que as suas contemporâneas. E muito mais sensata, mais certa do rumo que queria seguir.
Aquele era o quarto da sua infância, da sua juventude e do seu coração. Embora soubesse que nunca amaria tanto qualquer outro lugar, estava disposta, até mesmo ansiosa, a construir um novo lar, com o homem que amava.
No final, Laura virou-se, contemplou-se no espelho de corpo inteiro e sorriu. Acertara no vestido. Simples, com linhas suaves, ajustando-se ao seu corpo pequeno. O decote era côncavo, as mangas compridas e afiladas, a coluna recta descendo até aos tornozelos. O efeito era clássico, distinto, perfeito para uma mulher que correspondia aos padrões de Peter Ridgeway.
Podia preferir cabelos lisos a caírem sobre os ombros; mas, já que insistiam em encrespar-se, ela prendera-os no alto da cabeça. O que, na sua opinião, acrescentava uma certa maturidade.
Nunca seria ousada e sensual como Margo, nem intrigante de uma forma descontraída como Kate. Por isso, tinha de se contentar em ser madura e distinta. Afinal, eram as qualidades que Peter considerava atraentes.
E Laura queria muito ser perfeita para ele. Naquela noite... especialmente naquela noite.
Reverente, ela pegou nos brincos que tinham sido o presente de aniversário dos seus pais. Os diamantes e safiras faiscaram, como se estivessem a namoriscar com ela. Laura estava a sorrir para os brincos quando a porta do quarto se abriu abruptamente.
- Não vou pôr essa porcaria no rosto! - Vermelha e agitada, Kate continuou a discussão com Margo, enquanto as duas entravam. - Tu já tens o suficiente pelas duas!
- Disseste que a Laura seria a juíza. - Margo parou de falar, avaliando a amiga com olhos de especialista. - Estás com um aspecto fabuloso. Uma sensualidade distinta.
- A sério? Tens a certeza?
A ideia de ser sensual era tão emocionante, que Laura tornou a virar-se para o espelho. Viu- se apenas a si mesma, uma jovem pequena,
de olhos cinzentos ansiosos e cabelos que se recusavam a permanecer no lugar.
- Absoluta. Todos os homens na festa vão querer dançar contigo, mas terão receio de pedir.
Kate soltou uma gargalhada e deixou-se cair na cama de Laura.
- Mas não terão medo de pedir-te a ti, minha amiga. É um exemplo evidente da verdade na propaganda.
Margo limitou-se a sorrir. Passou a mão pela anca. O vestido vermelho-vivo tinha um decote provocante e aderia a todas as curvas generosas do seu corpo.
- Quem tem tudo isto... o que não é o teu caso... tem mais é de o mostrar. Este é o motivo pelo qual precisas de pó-de-arroz, rímel...
- Nem penses!
- Ela está adorável, Margo. - Sempre apaziguadora, Laura pôs-se entre as duas. Sorriu para Kate, estendida na cama, com o corpo esguio atraente num vestido branco de lã que a cobria do pescoço aos tornozelos. - Mas bem que precisas de um pouco mais de cor.


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