Uma abordagem teórica e conceitual sobre o espaço urbano e seus principais processos e formas espaciais



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A IMPOSIÇÃO URBANA NA MATERIALIDADE DA CIDADE: UM ENSAIO A PARTIR DOS PROCESSOS E DAS FORMAS ESPACIAIS.
Enderson Alceu Alves Albuquerque1

Júlio Cesar Dias Nascimento2

RESUMO: Em 2015, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), pela primeira vez na história da humanidade o total de população residindo em cidades ultrapassou o número de moradores da área rural. A imposição de um padrão urbano para a população mundial mostra-se tão substancial que alguns autores passaram a trabalhar a ideia da urbanização global. Essa alteração aponta para implicações socioeconômicas consideráveis para além da simples distribuição geográfica das populações a qual coaduna com a expansão do modelo capitalista de produção, assim, ao mesmo tempo em que são tributárias da expansão desse sistema sobre os lugares, essas alterações são condição sine qua non para sua reprodução mais eficaz. Com efeito, a cidade capitalista nasce sob o signo do valor de troca em detrimento de seu uso social, pois o movimento de urbanização alicerçado, sobretudo, a partir das demandas e ditames do capitalismo teve como resultado a criação de cidades nas quais as contradições sociais não aparecem como o residual do processo, mas se impõe como a lógica fundamental do sistema em si, especialmente para o caso das cidades latino-americanas. Em consonância a essa realidade, a crescente importância do espaço urbano como lócus majoritário para a reprodução da existência humana e para o processo de acumulação capitalista, o presente artigo/ensaio tem como finalidade analisar a relação existente entre cidade e urbano no contexto histórico e geográfico por meio de uma análise teórica e conceitual considerando o caráter indissociável entre esses dois conceitos. Como a produção do espaço urbano é tecida atualmente pela necessidade de reprodução do capital, a forma material desse processo, a cidade, apresenta formas espaciais compatíveis com esse propósito. Desta maneira, pretendemos analisar os principais processos e formas espaciais que ocorrem dentro do espaço urbano, como a centralização, descentralização, coesão, segregação e inércia, que são imprescindíveis para o entendimento da dinâmica urbana.

PALAVRAS-CHAVE: Cidade; Urbano; Processos espaciais; Formas Espaciais.
ABSTRACT: In 2015, according to the United Nations (UN), for the first time in human history the total population living in cities has surpassed the number of rural dwellers. The imposition of an urban pattern on the world population is so substantial that some authors have begun to work on the idea of ​​global urbanization. This change points to considerable socioeconomic implications beyond the simple geographic distribution of populations which is in line with the expansion of the capitalist model of production, and at the same time that they are taxed by the expansion of this system over the places, these changes are a sine qua non for more effective reproduction. In fact, the capitalist city is born under the sign of exchange value to the detriment of its social use, since the movement of urbanization based, above all, on the demands and dictates of capitalism has resulted in the creation of cities in which social contradictions Do not appear as the residual of the process, but it imposes itself as the fundamental logic of the system itself, especially in the case of Latin American cities. In keeping with this reality, the growing importance of urban space as a major locus for the reproduction of human existence and for the process of capitalist accumulation, this article / essay aims to analyze the relationship between city and urban in the historical and geographical context By means of a theoretical and conceptual analysis considering the inseparable character between these two concepts. As the production of urban space is currently woven by the need for reproduction of capital, the material form of this process, the city, presents spatial forms compatible with that purpose. In this way, we intend to analyze the main processes and spatial forms that occur within urban space, such as centralization, decentralization, cohesion, segregation and inertia, which are essential for the understanding of urban dynamics.

KEYWORDS: City; Urban Spatial; Processes and Forms.


INTRODUÇÃO

Estudos recentes feitos pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e pela ONU (Organização das Nações Unidas) demonstram a intensificação do processo de urbanização no Brasil e no mundo. O último Censo Demográfico revela que a população residente em área urbana passou de 81,2% em 2000 para 84% em 2010. No mundo a taxa de urbanização era de 47,7% no ano de 2001 e, segundo projeções, chegou a 53,7% no ano de 2015. Cabe ressaltar que essas taxas na América Latina eram de 75,8% em 2001, atingindo 80,5% em 2015 (UNITED NATIONS, 2006). Para Capel (2002, p. 13),

com a chegada desse milênio entramos em uma nova era, que irá permear todo o urbano e rapidamente chegar a urbanização global. Mas, certamente , ao mesmo tempo, a cidade vai mudar também. Na verdade, ela está sendo transformado diante de nossos olhos e basta olharmos ao redor para percebê-lo. E muito mais acontecerá nos próximos anos, quando os avanços técnicos que agora estão em gestação forem implementados.
O processo de crescente relevância do espaço urbano, tanto na escala nacional conforme indica o IBGE, quanto na escala mundial como nos aponta ONU e prever Capel, vai rearranjar as estruturas socioespaciais também na escala local. Essa atual tendência demográfica reforça o papel centralizador exercido pelas cidades em detrimento cada vez maior do espaço rural. A partir do surgimento e consolidação do capitalismo em sua fase industrial, a cidade consolida seu total domínio sobre o campo e passa a comandar a economia e a sociedade em escala mundial. Dessa forma, a cidade passa a ser foco das mais distintas análises, pois, conforme expõe Corrêa (1995, p. 5),

o interesse em conhecer e atuar sobre a cidade deriva do fato de ser ela o lugar onde vive parcela crescente da população. Mas também de ser o lugar onde os investimentos de capital são maiores, seja em atividades localizadas na cidade, seja no próprio urbano, na produção da cidade. E mais de ser o principal lugar dos conflitos sociais.


Assim, nessa perspectiva de uma área urbana cada vez mais centralizadora de pessoas, de serviços e de finanças, este ensaio se insere e se justifica, posto que o espaço urbano, ao aglomerar cada vez mais pessoas, torna-se o foco das preocupações governamentais. Dessa forma, este artigo se propõe a analisar, inicialmente, o processo histórico que originou a cidade e o espaço urbano. Nossa intenção é discutir tais conceitos, diferenciando-os e interligando-os. Esses dois conceitos são inseparáveis, pois historicamente a expansão mais intensa do espaço urbano surge dentro da dinâmica espacial da cidade, no período chamado de capitalismo industrial, no qual as indústrias emergiram no seio das cidades, sendo responsável pela formação do tecido espacial chamado urbano.

Em seguida, direcionaremos nossas atenções para análise dos principais processos e formas espaciais presentes na configuração do espaço urbano. Desse modo, analisaremos o processo de centralização, gerador das áreas centrais; o processo de descentralização, que origina os núcleos secundários; o processo de coesão, que produz as áreas especializadas; a segregação, que forma as áreas sociais; a dinâmica espacial da segregação e o processo de inércia, que dá origem as áreas cristalizadas.



A IMPOSIÇÃO URBANA NA MATERIALIDADE DA CIDADE: DA AGLOMERAÇÃO PUPULACIONAL À CIDADE GLOBAL.

Para compreendermos a formação do espaço urbano é necessário entender a relação histórica e espacial que este mantém com a cidade. Os conceitos de cidade e urbano, apesar de distintos, têm uma relação indissociável. Sua gênese, o tecido urbano, emerge no seio da dinâmica socioespacial das cidades. Para Santos (1994, p. 69) há uma distinção clara entre urbano e cidade. Ele esclarece esta distinção afirmando que “o urbano é frequentemente o abstrato, o geral, o externo. A cidade é o particular, o concreto, o interno”. Para Rolnik (1988) a cidade é um espaço marcado por uma aglomeração humana, a qual se apresenta relativamente organizada em ruas, marcada pela presença de atividades econômicas não-agrícolas e que, na maioria dos casos, funcionam como um campo magnético que atrai, reúne e concentra homens. Ao contrário da cidade, o espaço denominado urbano, não se refere a uma materialidade física, mas sim um conjunto de manifestações do predomínio das atividades econômicas, processos sociais e costumes da cidade sobre o campo (LEFEBVRE, 2001).

Segundo Carlos (2003) a cidade nasce num determinado momento da humanidade e se constitui ao longo de um processo histórico assumindo formas e conteúdos diversos. Assim, na visão da autora, as primeiras cidades surgem de uma organização espacial, onde os diferentes grupos humanos, visando à sobrevivência, rompem com o isolamento. Dessa forma, a cidade é plasmada a partir da relação de trabalho materializado/construído ou natural: criada da relação entre o homem e a natureza, totalmente transformada no decorrer dos períodos.

Mont-Mór (2006, p. 6) enfatiza que a cidade tem sua origem no aprofundamento da divisão sócio-espacial do trabalho em comunidade, segundo o autor

este aprofundamento resulta de estímulos provocados, pelo contato externo e abertura para outras comunidades envolvendo processos regulares de trocas baseados na cooperação e competição . Implica, assim, de um lado sedentário e uma hierarquia sócio-espacial interna à comunidade e de outro, movimentos regulares de bens e pessoas entre comunidades.

Nesse contexto, Santos (1997) pontua que a origem das cidades está relacionada à emergência de um grupo dominante que extrai e controla o excedente coletivo da produção do campo. Dessa maneira, no campo se concentra a produção agrícola e a cidade passa a ser uma organização espacial que detém o controle político e ideológico sobre ele, principalmente com o uso do excedente agrícola, que passa a ser utilizado como moeda de troca.

Na transição do feudalismo para o capitalismo a cidade (burgo) nasce como uma semente de liberdade onde o trabalho livre é possível. Com o fim do feudalismo e o domínio do capitalismo, a cidade renasce e conhece um movimento intenso de trocas, potencializado com a descoberta da América e intensificação das relações com a África e Ásia. A partir daí, as cidades tem seus espaços expandidos, aumentando seus elementos e relações, levando ao desenvolvimento e aperfeiçoamento das técnicas. Mesmo com toda essa ebulição permanente, as cidades ainda estavam subordinadas ao campo. É somente a partir do surgimento e consolidação do capitalismo, em sua fase industrial, que a cidade consolida seu domínio sobre o campo e passa a comandar a economia e a sociedade em escala mundial.

Lefebvre (2001) expõe que o urbano, e, por conseguinte, a sociedade urbana surge com a industrialização e se prolifera através de diversos estabelecimentos, como agências bancárias, financeiras, lojas, mercados, sedes de poder político e, principalmente, através da reprodução coletiva da força de trabalho, sintetizada pela habitação e demandas complementares. Assim, ele conclui que a sociedade urbana nasce da industrialização e que o urbano torna-se espaço de circulação das coisas, das pessoas e da troca.

Em consonância com esse pensamento, Singer (1973) acrescenta que a passagem da cidade em direção ao urbano foi marcada pela entrada da indústria em seu espaço. A partir deste momento surge um duplo processo, industrialização-urbanização, cuja relação parte de um marco inicial, o espaço, antes privilegiado das relações sociais, que agora passa a ser subordinado a industrialização, reunindo as condições necessárias para produção industrial. Partindo desse pressuposto, o espaço das cidades passa então a se constituir em função das demandas colocadas ao Estado, tanto no sentido de atender a produção industrial, quanto às necessidades das diferentes classes sociais. Dessa maneira, as grandes cidades industriais passam a ser dotada de serviços e infra-estrutura, de modo a acomodar as indústrias, sua força de trabalho e o mercado consumidor, ampliando a proliferação do tecido urbano.

Aproximando-se das contribuições dos autores mencionados anteriormente, Clark (1982) fundamenta sua argumentação sobre a relação cidade e urbano baseando-se na expansão das cidades e em sua crescente área de influência. Trabalhando com essa proposta o autor explica que não somente um grande número de pessoas vive em cidades ou em suas adjacências imediatas, mas segmentos inteiros da população são completamente dominados por seus valores, expectativas e estilos de vida. Assim, para o autor, o urbano é um processo socioespacial e demográfico, interligado ao crescimento das cidades, especialmente, como locais de concentração de pessoas, inseridas dentro de uma dinâmica produção capitalista (CLARK, 1982).

Seguindo a mesma linha de pensamento de Clark, Carlos (2003) afirma que o crescimento da aglomeração populacional nas cidades é fruto do modo de produção capitalista, que através dos meios e unidades de produção leva a uma profunda divisão espacial do trabalho, ocasionando a concentração da força de trabalho no seu espaço. Com isso, a partir da dinâmica das forças produtivas plenamente desenvolvidas nesse espaço, e mais especificamente da grande aglomeração, emergirá o tecido urbano, que se espalhará para além do espaço inicial das cidades. Para Carlos (1994, p.181) “o urbano é mais que um modo de produzir, é também um modo de consumir, pensar, sentir, enfim é um modo de vida”.

No atual momento capitalista, chamado por muitos autores de globalização, marcado pelo processo de descentralização industrial e a formação de complexos agroindustriais, além do aceleramento das informações e “encurtamento” das distâncias originadas pelo aperfeiçoamento dos transportes e a articulação da rede de comunicação e da informática, é possível encontrar enclaves urbanos em áreas originalmente rurais e de hábitos agrários (LIMONAD, 1999).


PROCESSOS E FORMAS ESPACIAIS NAS CIDADES CAPITALISTAS LATINO-AMERICANAS.

Analisaremos, a partir de agora o espaço urbano baseando-se no conjunto de usos da terra e sua organização socioespacial, definidos por Corrêa (1995) como simultaneamente, fragmentado e articulado, concentradora de uma série de processos entre os quais a acumulação de capital e a reprodução social - revelando uma ação seletiva no espaço, construindo processos e formas espaciais distintos. É conveniente frisar que estes processos e formas espaciais não são excludentes entre si, podendo ocorrer simultaneamente no mesmo espaço.

O processo de centralização se fundamenta pelos fluxos de circulação das pessoas, das mercadorias, das informações, das idéias e valores que se desenham e convergem numa localidade, denominada área central (SPOSITO, 2001). Esse espaço torna-se estratégico ao possuir vantagens estruturais e preservar investimentos urbanos acumulados ao longo do tempo. Corrêa (1995, p. 39) enfatiza um importante momento de discussão na produção de uma centralidade,

dado o esquema centralizador dos meios de transporte, que são, no período que se estende da segunda metade do século XX, caracterizados por enorme rigidez espacial pelo fato de serem transportes sobre trilhos – trens e bondes -, verifica-se que o acesso ao mercado consumidor e às fontes de matérias-primas não é , no âmbito da cidade, uniforme, privilegiando o local em torno dos terminais de transportes, a área central. Ai as empresas passam a dispor de externalidades, seja decorrente da acessibilidade, seja do fato de estarem juntas, gerando economias de aglomerações.


O processo de centralização reproduzirá na área central de uma cidade um intenso fluxo de pessoas, seja para o trabalho, lazer ou consumo. Nesse contexto, Santos (2002, p. 133) ressalta que,

com o aprimoramento das infra-estruturas de transporte, conseqüências positivas para o comércio em geral são sentidas. Como resultado, cresce um grande número de outras atividades que dependem de uma circulação mais intensa. O fato de que as pessoas também circulam mais facilmente estimula o comércio e assegura uma clientela para as atividades de transportes.

Nessa lógica, uma área central contará com uma diversidade de comércios e serviços, equipamentos de lazer, órgãos públicos, dinamizados por linhas de transportes e avenidas dotadas de acessibilidade e fácil localização. Corrêa (1995) divide a área central em duas partes: o núcleo central e a zona periférica do centro. Na ótica do autor, a zona periférica do centro constitui-se de uma área que circunda o núcleo central. Uma das características marcante dessa área é o uso semi-intensivo, marcada, inclusive, por terrenos abandonados. As atividades desenvolvidas nessa parte da cidade são relacionadas ao comércio atacadista e ao armazenamento de produtos. Foco de transportes inter-regionais, a zona periférica do centro apresenta um amplo setor residencial com habitações populares e de baixo status econômicos, onde muitas delas estão deterioradas.

A compreensão do núcleo central é o ponto de partida para se chegar ao entendimento da cidade como um todo, da sua rede de fluxos e de suas relações de poder. Ainda segundo Corrêa (Ibidem), o núcleo central começa a se desenvolver na segunda metade do século XX, quando já ocorria nas cidades o enfraquecimento do processo de centralização. Beajeu-Garnier (1997) caracteriza esta parte da cidade como local onde se reúnem as atividades que dirigem e se relacionam, tal como as que visam dar à população a possibilidade de satisfazer as suas elevadas exigências. Desta forma, o núcleo central, também denominado de CBD (Central Business District), é considerado o coração vivo das cidades, sendo ele é a própria expressão do poder urbano.

Outro elemento destacado do núcleo central de uma cidade diz respeito ao convívio dos dois circuitos da economia. Essa característica é facilmente revelada através de sua paisagem, marcada por ruas onde convivem agências bancárias, além de lojas departamentais, pertencentes às grandes organizações capitalistas, ou lojas especializadas em artigos de luxo e vendedores ambulantes com sucedâneos baratos dos artigos vendidos nas lojas, que atendem a população menos favorecida (CORRÊA, 1995).

Segundo afirma Corrêa (1995), o processo de descentralização é mais recente, sendo responsável pela formação dos núcleos secundários, também chamados de subcentros. Colby ( apud Corrêa 1995, p.45) indica os fatores de repulsão da área central que levam a descentralização e a formação dos núcleos secundários:



  1. aumento constante do preço da terra, impostos e aluguéis, afetando certas atividades que perdem a capacidade de se manterem localizadas na área central;

  2. congestionamento e alto custo do sistema de transporte e comunicações ;

  3. dificuldades de obtenção de espaço para expansão;

  4. restrições legais implicando a ausência de controle do espaço, limitando, portanto, a ação das firmas;

  5. ausência de perda de amenidades.

O processo de descentralização espacial, contudo, é extremamente complexo, não podendo ser reduzido aos níveis de acessibilidade dos lugares. A origem dos subcentros estão ligadas às ações dos agentes sociais produtores do espaço. Assim, a cristalização dessa forma espacial está relacionada ao processo de acumulação e reprodução do capital dentro espaço urbano.

Em um período no qual o capitalismo assume forma monopolista, a descentralização torna-se um meio para se aumentar a taxa de lucro, cuja localização central não é mais capaz de atender de forma satisfatória. Para as indústrias, o processo de descentralização envolve uma série de fatores, com destaque para diminuição no custo de produção, devido à redução das taxas de impostos propiciados pela troca de localidades por conta da valorização dos terrenos da área central. Sobre essa questão Corrêa (1995, p.48) explica que:

para o capital industrial, além das vantagens da nova localização, as operações de descentralização são acompanhadas da venda do terreno do antigo estabelecimento, onde se erguem edifícios comerciais ou residências. Isto permite grandes lucros, pois se trata de numa troca que envolve terrenos com grandes diferenças de preços. Lucro que será ainda maior se os custos da infra-estrutura da nova localização industrial forem socializadas através do Estado.
A descentralização também está associada ao crescimento das cidades, tanto em termos demográficos como espaciais e, também se viabiliza pelo desenvolvimento de meios de transportes mais flexíveis como os rodoviários. No entanto, para efetivação deste processo sobre o espaço urbano é preciso que outras áreas exerçam certa atração. Nesse sentido, algumas condições são essenciais, como terras-ocupadas, a baixo preço e impostos; infra-estrutura implantada; facilidades de transportes; qualidades atrativas do sítio e um mercado consumidor mínimo capaz de suportar a localização de uma atividade descentralizada (COLBY apud CORRÊA, 1995).

As indústrias descentralizadas procuram se localizar ao longo de vias férreas ou vias que conectem a cidade à hinterlândia regional ou nacional. As pequenas e médias indústrias distribuem-se por quase todos os espaços da cidade. A descentralização apresenta considerável oportunidade para os promotores imobiliários, com abertura de novos mercados como, por exemplo, os shopping centers, localizados geralmente fora das áreas centrais. O processo de descentralização é responsável por dinamizar o espaço urbano levando para outras áreas atividade concentradas anteriormente em seu núcleo central.

O processo de coesão é definido por Corrêa (1995) como aquele movimento que leva as atividades a se localizarem juntas. A consequência deste processo é a criação de áreas especializadas, tanto na área central como em outros setores da cidade. Colby (apud Corrêa 1995, p.56) caracteriza as atividades e lojas dessas áreas assim:

(a) Apesar de não manterem ligações entre si, como as lojas varejistas de uma mesma linha de produtos, formam um conjunto funcional que cria um monopólio espacial atraindo consumidores, que têm assim a possibilidade de escolha entre vários tipos, marcas e preços.

(b) Mesmo sendo de natureza distinta, estão localizadas juntas umas das outras, formando um conjunto coeso que pode induzir o consumidor a comprar outros bens que não faziam parte de seus propósitos.

(c) São complementares entre si.

(d) Juntas criam economias de escala. É o caso das pequenas indústrias que sozinhas não teriam escala suficiente para atraírem outros industriais, produtores, por exemplo.

(e) Existem contato face a face.

Relacionando o processo de coesão com a criação de áreas especializadas em diferentes localidades do espaço urbano, é possível fazer uma distinção entre sua formação dentro das áreas centrais e de sua formação fora dela. Dentro das áreas centrais o processo de coesão aparece através de distritos especializados, tais como: ruas de pedestre contínuas compostas por lojas varejistas, áreas amplamente verticais que concentram uma diversidade de escritórios com comércio varejista especializados, distrito de agências bancárias e sedes de empresas etc. Fora da área central o processo de coesão gera distritos e ruas especializadas que mantém uma mesma importância relativa uma com a outra.

Segregação trata-se de um processo que se caracteriza pela “tendência à organização do espaço em zonas de forte homogeneidade social interna e com intensa disparidade social entre elas, sendo esta disparidade compreendida não só em termos de diferença como de hierarquia” (CASTELLS, 1983, p. 210). Para Harvey (1980), a segregação deve ser vista como parte integrante das relações sociais na sociedade capitalista, sendo ela uma expressão espacial das classes sociais. Na medida em que algumas forças capitalistas, como os proprietários fundiários e os promotores imobiliários, atuam num determinado espaço por um período de tempo, geram uma marcante fragmentação da estrutura social. Assim, podemos dizer que essa tendência traz consigo a localização diferenciada no espaço urbano das classes sociais, gerando fragmentações de acordo com seu nível econômico, produzindo a segregação residencial capitalista (CORRÊA, 1995).

Referente à problemática da segregação, convém frisar que este processo é consequência da ação dos diferentes grupos sociais, portanto, as residências nesse contexto assumem o papel de áreas sociais. Neste sentido, Vainer (1998) assevera que essas desigualdades acarretam em uma forma de ocupação onde os habitantes se fecham em determinadas áreas, segundo o poder, o status ou riquezas que detém. Condomínios fechados de luxo, conjuntos habitacionais populares e favelas vizinhas a bairros de classe alta são exemplos claros e frequentes desse processo nas grandes cidades.

A segregação espacial é resultado da diferença de capacidade que cada grupo tem de pagar por sua residência. Dentro da cidade capitalista, a moradia assume a forma de mercadoria social, possuindo valor de uso e de troca. Para compreender melhor esta questão Corrêa expõe (1995, p. 63) que

em relação ao onde morar é preciso lembrar que existe um diferencial espacial na localização de residências vistas em termos de conforto e qualidade . Esta diferença reflete em primeiro lugar um diferencial no preço da terra – que é função da renda esperada -, que varia em função da acessibilidade e das amenidades. Os terrenos de maior preço serão utilizados para as melhores residências, atendendo à demanda solvável. Os terrenos com menores preços, pior localizados, serão utilizados na construção de residências inferiores, a serem habitadas pelos que dispõem de menos renda.

O processo de segregação espacial ocorre em função de uma classe dominante que, através de seu poderio econômico, controla o mercado de terras, a incorporação imobiliária e a construção, direcionando seletivamente os demais grupos sociais no espaço urbano. A segregação espacial nas cidades se manifesta através da existência de bairros suntuosos e condomínios exclusivos, dotados de sistema próprio de segurança, que incluem muros altos, sistema de câmeras e vigilantes. Tal estrutura contrasta com bairros de baixo status econômicos ou grandes aglomerados urbanos habitados por grupos sociais inferiores, os quais, às vezes, não contam com uma infra-estrutura básica.

A dinâmica espacial da segregação é um processo típico da cidade capitalista. A segregação emergiu da descentralização que freou a expansão horizontal do núcleo central, tornando as áreas em seu entorno, denominada por Corrêa (Ibidem) de zona periférica do centro, desvalorizadas e estagnadas, com uma imagem de pobreza. Associando essa questão ao mercado imobiliário, as áreas próximas ao núcleo central foram abandonadas pela população de um alto poder econômico, incentivados pelo processo de descentralização e desenvolvimento do sistema de transporte e meios de comunicação, que foram produzindo bairros seletivos distantes dos centros urbanos. Essas áreas abandonadas pela elite aos poucos foram sendo ocupadas por uma população de baixo status, oriunda principalmente das zonas rurais ou de pequenas cidades. Sobre a dinâmica espacial da segregação Corrêa (1995, p.70) explica que ela
tem um dinamismo onde uma determinada área social é habitada durante um período de tempo por um grupo social e, a partir de um dado momento, por outro grupo de status inferior ou, em alguns casos, superior, através do processo de renovação urbana.
Em 1930, no contexto brasileiro, ocorreu a intensificação da dinâmica espacial das cidades, marcada pelo aumento dos processos migratórios, que geraram uma maior mobilidade da população- conforme aponta o modelo de ocupação espacial baseado no status econômico (CORRÊA, 1995). Dessa década em diante ocorreu um poderoso processo de periferização, acarretando em loteamentos populares e autoconstrução, além do aumento do número de favelas.

O processo de inércia atua na organização espacial intra-urbana originando a formação das áreas cristalizadas marcadas pela preservação de uma forma que manteve as mesmas funções ao longo do tempo, ainda que a mudança da dinâmica econômica local destoe em relação ao seu entorno. Quanto ao processo de inércia, para Corrêa (1995, p.76) as razões fundamentais da preservação da forma e do conteúdo são:

(a) uma relocalização poderia implicar custos elevados, os ganhos adicionais de nova localização não justificando os riscos do novo investimento;

(b) a criação de novos fatores de permanência através do aparecimento de economias de aglomeração (...);

(c) pela existência de conflitos com outros possíveis usuários do solo em torno, ou pretendente àquela porção do espaço (...);

(d) pela força de sentimentos e simbolismo que se atribui às formas espaciais e ao seu conteúdo.


O processo de inércia ocorre em menor escala quando comparados aos outros processos citados anteriormente. Esse fato ocorre em função da oposição que esse processo gera na relação capital-espaço ao manter formas e funções intactas ao longo do tempo, em um espaço dotado de dinamicidade e transformações impostas pelos anseios capitalistas. Quando falamos de formas cristalizadas no espaço urbano devemos ter em mente que existe sempre um fator histórico, dotado de todo um simbolismo e sentimento, ou político que pode predominar sobre fatores sociais e econômicos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As referências que adotamos (conceitos e teorias) são apenas algumas possibilidades de abordagem dos temas discutidos nesse artigo. A nosso ver, quando se estuda a cidade e o espaço urbano, deve-se analisar os processos históricos e geográficos que contribuíram para suas formações e configurações. Desta forma, a cidade surgiu com a emergência de uma classe dominante que passa a controlar o excedente coletivo da produção do campo se constituindo numa organização espacial detentora de certo controle político sobre o campo, mas que só conseguiu superar esse em importância econômica a partir da industrialização. O urbano emerge no seio da cidade, quando esta passa a receber em seu espaço as indústrias, e vai se proliferando conforme o crescimento destas.

Convém salientar que, embora alicerçada no setor secundário inicialmente, a indústria não mais gera, de forma tão intensa e direta como antes, o urbano no contexto brasileiro e mundial. Seus modelos e padrões não dão conta de abarcar a complexidade urbana e não mais determinam os aspectos da sociedade - o caso da cidade estadunidense de Detroit serve como emblema dessa realidade. Assim, a urbanização moderna se assenta, sobretudo, no setor terciário. Entretanto, as cidades, independentemente da atividade econômica que a produz, são basicamente frutos do sistema capitalista de produção, o qual precisa de espaço para materializar as relações sociais e se realizar como processo de acumulação (SOJA, 1993).

Desse modo, o capitalismo produz um espaço que atenda as suas necessidades de produção e circulação da mais valia. Dentre essas configurações espaciais estabelecidas destacam-se as cidades: consequência da reprodução do capital e das transformações ocorridas em cada momento histórico. Como as cidades são frutos desse sistema de produção, a paisagem desses espaços são impregnadas pelos ditames do capital. Nesse cenário, tal sistema engendra as formas espaciais que são condição e condicionante, causa e consequência de sua atuação.

Nossos esforços pretenderam fazer desse artigo um subsídio inicial para futuras contribuições que aprofundem o debate acerca da dinâmica socioeconômica das cidades. Assim, o debate teórico aqui estabelecido cumpre um desses objetivos, que em momento algum pretendeu dar cabo as questões debatidas e sim suscitar novas discussões para enriquecer o debate da temática em pauta. Dessa forma, queremos deixar claro que o presente artigo tem o objetivo de provocar novos debates sobre a questão levantada, contribuindo para novas pesquisas sobre o assunto. REFERÊNCIAS

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1 Doutorando em Geografia pelo PPGEO-UERJ. Professor das redes municipais de Mesquita e do Rio de Janeiro. Email: endersonalbuquerque@yahoo.com.br.


2 Mestrando em Geografia pelo PPGGEO-UFRRJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e do Estado. Email: jdiasnascimento@uol.com.br



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