Uma casa velha, duas irmãs solteironas, um velho mordomo e um casal com muitos desencontros



Baixar 0.69 Mb.
Página1/13
Encontro29.01.2018
Tamanho0.69 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   13


Uma casa velha, duas irmãs solteironas, um velho mordomo e um casal com muitos desencontros...

A vida reserva surpresa que muitas vezes não estamos esperando. O que dizer de Ricky, linda, inteligente e ambiciosa que sonha casar-se com um homem rico?

Para Peter Hurley a vida também não tem sido generosa, com uma mãe e dois irmãos para cuidar não lhe resta mais nada que trabalhar no escritório de seu primo. Peter ama a Ricky e ela recusa-se a casar-se com um homem pobre; e em busca de seu sonho vai à Itália em busca de um homem rico. Peter vai ao interior da Inglaterra entregar alguns documentos para um velho cavalheiro. O que ele não sabe é que ele pode voltar com mais do que sonhava.

Disponibilização: Marisa Helena

Digitalização: Marina

Revisão: Paula Adriana


Capítulo I

UM CASAMENTO ORIGINAL


Eis a história de uma jovem, que saiu certo verão para casar-se por dinheiro, e também a do período mais extraordinário na vida de um homem.

Peter Hurley não era um antiquado; muito pelo contrário, era um tipo inteiramente à feição da época. Andava sempre em dificuldades financeiras, mas sempre alegre. Era enérgico, inteligente, afetuoso, e tão digno de confiança que os prin­cipais casos na família eram Peter quem os solucionava. Fisica­mente era alto, forte, de fisionomia bastante agradável, de rosto fresco e rosado, embora sardento, onde brilhavam uns olhos acinzentados e perscrutadores, dotados de mediunidade. Um olhar rápido de zanga, um sorriso ainda mais rápido — isso era Peter.

Nenhum dos estranhos fatos que se seguem lhe teria acontecido, se não fosse o que sucedeu, há muitos anos, numa velha casa de campo galesa, verdadeira "Casa Maldita" para muitas gerações de jovens.

O destino de Peter Hurley começou a sofrer sensíveis modificações nos princípios do século XIX, devido a um fogoso cavalheiro, por nome Henry Tudor-Williams, de Pias Gwyn. Tendo encontrado este senhor, certo dia, um ciganinho a colocar no bosque de sua propriedade uma armadilha para apanhar coelhos, ficou tomado de tal indignação que deitou unhas ao pequeno e bateu-lhe até deixá-lo prostrado e sem sentidos. A cigana, mãe do garoto, rompeu por entre os arbustos e, deparando com o filho exangue e desmaiado no meio da estrada, atirou-se de joelhos a seu lado. Depois, num impulso de ódio incontido, ergueu o punho moreno ao senhor da propriedade, e com voz ameaçadora rugiu: "Que minha maldição caia sobre este lugar, e que todos os filhos desta casa pereçam na flor da idade!"

E a praga da cigana caiu, impiedosa, sobre gerações consecutivas... No cemitério, ensombrado de ciprestes sempre verdes, a um quarto de milha além dos portões de Pias Gwyn, as inscrições sucediam-se, túmulo após túmulo, em memória de um Tudor-Williams: Henry, Hugh, Llewelyn... Este, que "Finou-se na infância"; aquele, que "Dormiu aos dezessete anos". Um porta-bandeira, Harry Tudor-Williams, "Caiu glo­riosamente em Waterloo, aos vinte anos". Um pequeno Mervyn Tudor-Williams, tendo vindo para casa, nas férias, "e jogando bola próximo à pedreira, havia caído num velho poço e morrido aos dez anos. Na pedra de seu pequenino túmulo haviam gravado esta inscrição: "Pobre criança, estás melhor assim..." Era o único filho de sua mãe, uma senhora viúva. Seu jovem primo John Llewelyn Tudor-Williams havia ganhado uma espingardinha. Um dia, em que estava a limpá-la, esta disparou acidentalmente e o tiro apanhou-o, matando-o. Assim, ou por força do destino, ou em guerra, ou porque nascessem menos resistentes que as meninas, os filhos varões dos Tudor-Williams morriam todos na flor da idade.

"É como se pesasse uma terrível maldição sobre eles", disse uma velha ama. Mas nenhuma das pessoas da família conhecia a história da vingança da cigana, embora aquela região vivesse infestada dessa gente. Lovells, Ingrams, Smiths, astutos, sorridentes, de voz macia, olhos negros e braços mo­renos, passaram pelo vale, nas suas caravanas de carros verdes e amarelos, puxados por cavalos magros, e acamparam na comuna além de Pias Gwyn, continuando a roubar, secreta e astutamente, as matas e as trutas dos ribeiros vizinhos.

Mas a maldição da cigana ainda persistia. No último quartel daquele século a propriedade passara sucessivamente para as filhas, as quais se casaram com homens que tomaram o nome de Tudor-Williams, para assegurar a sucessão. Mas a maldição da cigana subsistia, até que a família ficou sem um único descendente varão.

Um dos senhores havia partido a cabeça, quando caçava, e seus filhos caíram sucessivamente em Flandres, em 1917.

Pias Gwyn, com seus jardins, suas fazendas montanhosas, sua ardosieira bastante rendosa, seus viveiros de trutas, seu histórico celeiro e suas matas de carvalho, tinha chegado aos últimos herdeiros, duas velhas solteironas, Miss Mary e Miss Jane.

Miss Mary Tudor-Williams tinha sido consumada cavaleira, sabendo tanto de cavalos, cães e outros animais, como qual­quer veterinário. Sua irmã mais moça, Miss Jane, fora, em tempos, uma loura sentimental e romântica, amando as aqua­relas, sonhando em pleno dia com as novelas romanescas.

Ninguém lhe havia proposto casamento; e, de fato, ne­nhuma jovem moderna, nenhuma das mulheres de negócios, hoje, acreditaria na indiferença dos homens daquelas opulentas eras da rainha Vitória. Aos vinte e dois anos Miss Jane suspirava, naturalmente em segredo, por sentir-se tão isolada, com a falta de vizinhos e cavalheiros.

Por volta de 1930 haviam-se retirado como plácidas castelãs, afastando-se completamente dos raros vizinhos. Mas os prados e jardins eram conservados, os trabalhos diários da manutenção da casa corriam otimamente, dirigidos por James, mordomo da família, com quem vivia desde a infância, pela cozinheira Blodwen, também na casa desde a adolescência, e por Price, criada grave. Um cocheiro idoso, Frederick, levava as senhoras à igreja aos domingos, não de automóvel, natu­ralmente, mas numa carruagem puxada por uma parelha de cavalos cinzentos e magros.

Assim viviam ali, se a isso se pode chamar viver.

Um dia, no outono de 1931, Miss Mary entrou a pensar seriamente numa nova orientação de vida, pois que tanto ela como sua irmã Jane já não eram muito jovens. Subita­mente fitou a irmã, através dos óculos de aro de ouro e considerou tristemente: — Jane, estamos envelhecendo!

A irmã respondeu, com voz meiga:

— Minha querida Mary, acho que tens razão.

— E não há herdeiro para Pias Gwyn, Jane, e Pias Gwyn não pode desaparecer. — Naturalmente, respondeu Jane com simplicidade. Para aquelas velhas senhoras, Pias Gwyn era mais im­portante que os sucessivos proprietários que por ali passaram.

— Devemos deixar Pias Gwyn a alguém que possa con­servar devidamente os jardins, sem descuidar das matas, da caça e da pesca. Mas a quem confiar esta herança?

— Sim, Mary, a quem?

— Devemos refletir, Jane.

E assim viviam elas em tais cogitações, desde os presentes de Natal, a serem enviados aos seus raros e distantes conhe­cimentos, e as cartas de seu solicitador, Mr. John Hurley, de Londres, até a sua contribuição para a Igreja e a deficiência de água em Pias Gwyn.

Agora chegava a reflexão das reflexões: Quem deveria herdar Pias Gwyn? Só em fins de 1931 foi que Miss Mary chegou à desejada conclusão.

Como de costume, haviam jantado na varanda, e James trouxe o chá, na sala de visitas, às nove e trinta. Uma bandeja de prata, uma chaleira rainha Ana, de inestimável valor, com xícaras Spode, douradas, tão chatas e largas que justificavam plenamente a velha frase "um prato de chá".

Ainda como de costume, James apareceu, vinte minutos depois, para retirá-las, e perguntou às senhoras se desejavam mais alguma coisa (elas nunca desejavam nada, a não ser, talvez, saber se ainda chovia). Em seguida dizia: "Boa noite, Miss Mary, boa noite, Miss Jane" e silenciosamente Se retirava.

Os óculos de Miss Mary rebrilhavam:

— Jane, vamos dizer-lhe agora. Toque a sineta.

Miss Jane levantou-se, e seus pés, absurdamente pequenos, caminharam sobre o tapete azul da sala de visitas. As irmãs nem mesmo haviam pensado em mandar instalar campainhas elétricas na casa. Às velhas sinetas trabalhavam muito bem, e os longos cordões tinham sido bordados de acordo com um velho modelo Tudor pelos pequenos e habilidosos dedos de Miss Jane.

As alvas mãos de Miss Jane agitaram a sineta.

James entrou, ligeiramente surpreendido por tornarem a chamar.

O velho mordomo era um homem alto e magro, cabelos grisalhos, olhos negros como os de um melro. Conservava-se ereto, a não ser aquela inclinação da cabeça, adquirida através dos anos de curvatura para receber ordens, e sua voz guardava o timbre claro e musical de sua raça, dando a cada sílaba a acentuação que lhe era devida.

— James.

— Espero que não tenha tido queixa do jantar, Miss Mary?

— Não; o faisão estava muito bom; podia ter ficado pen­durado mais um dia, mas isso não tem importância. Miss Jane e eu queremos falar-te, James, porque estivemos refletindo sobre um assunto de família. .

James conhecia perfeitamente Miss Mary para esperar por uma longa peroração. Mas o que se seguiu foi uma enorme surpresa para ele.

— E assim, depois de longa reflexão, concluímos que só conhecemos uma pessoa a quem podemos confiar a propriedade de Pias Gwyn: decidimos fazer-te nosso herdeiro.

James ficou mudo de estupefação.

— E então?

O mordomo olhava de uma para outra de suas patroas, até que afinal respondeu: — Miss Mary, Miss Jane... Nem sei o que dizer...

— Compreendemos perfeitamente a tua surpresa, disse graciosamente Miss Mary. Aliás, ainda que a situação te pareça um tanto embaraçosa, não estás obrigado a coisa nenhuma. Quando fores proprietário...

— Mary, querida Mary! — protestou docemente Jane. — Não percebes que James não se sentiria bem? Não é, James? Não estás com relutância?

— Exatamente, Miss Jane, — disse James com gratidão. Não que não me sinta profundamente honrado. Mas, realmente... não sei o que dizer... Eu já tinha feito meus planos para o futuro. Tendo conseguido umas pequenas economias durante os anos que trabalhei para a família, eu... eu... imaginei retirar-me e comprar... um pequeno hotel... não muito longe...

Uma hospedaria, James?

— Ou coisa semelhante, Miss Mary...

— Uma hospedaria? Deixar Pias Gwyn por uma hos­pedaria?

— Acho muito mais conveniente, minhas senhoras, para um homem na minha posição. Eu... nem sei mesmo como dizê-lo; mas, realmente... penso que já é tempo de gozar o meu descanso; assim, aproveito a ocasião para pedir minha dispensa.

Estas palavras causaram um verdadeiro assombro, um inesperado choque para aquelas pobres senhoras. James abandonando-as? Pias Gwyn sem James? Fora mais fácil conceber Pias Gwyn sem os retratos dos antepassados, sem o desfigurado busto do bisavô Tudor-Williams, no canto da sala, mas nunca sem James!

— Mas não é coisa tão urgente, é claro; falei apenas porque Miss Mary abordou a questão do futuro. Não é minha intenção deixar Pias Gwyn sem primeiro arranjar um subs­tituto. Realmente, já andei indagando acerca de alguém para vir praticar neste serviço, e ouvi elogiosas referências acerca de um jovem chamado Evans.

As senhoras conservaram-se em silêncio, tomadas de as­sombro. Um novo mordomo? Um estranho? Em Pias Gwyn?

— Obrigada, James, — disse Miss Mary com altivez. Vamos pensar no caso.

As reflexões foram as mais penosas.

Na véspera de Natal, depois do jantar, James foi nova­mente chamado.

— Sentiríamos perder-te, James, — disse Miss Mary com ar profundamente grave. —Somos um tanto mais idosas do que tu, e em nossa idade uma tal mudança nos seria muito penosa. Assim, achamos um meio de gozar aquele bem ganho des­canso sem nos abandonar: podias tornar-te senhor de Pias Gwyn se te casasses com uma de nós, à tua escolha... Assim, James, agradar-te-ia este casamento?

James empalideceu, respondendo depois, meio confuso:

— Peço-lhes algum tempo para refletir.

Três dias depois, Jane estava sentada diante do seu bastidor, com as brancas mãos abandonadas no colo, quando James entrou para ativar o fogo da lareira. Ao ruído do atiçador nas brasas, Jane ergueu a cabeça com súbito movimento.

Qualquer coisa brilhante caiu-lhe no colo... Oh, Miss Jane, bem amada das patroas... Qual seria a razão dessas lágrimas?

— Perdão, Miss Jane, se a assustei, — disse James; — Quer o seu leite quente agora, ou espera Miss Mary?

Miss Jane limpou a garganta:

— Podemos esperar, James.

— Perfeitamente, senhora.

D Momentos depois James reapareceu trazendo a velha bandeja de prata, polida pelo uso, e os dois copos cheios de leite quente. Como de costume, pousou a bandeja sobre a mesa de pau-rosa, mas não se retirou de pronto e silenciosa­mente, como habitualmente fazia.

— Minhas senhoras...

— Queres falar-nos, James?

— Refleti sobre a honrosa proposta que tão bondosamente me fizeram. Peço perdão, mas tenho a dizer-lhe que me sinto mais que honrado em aceitar.

As duas senhoras tiveram um suspiro de alívio. Em seguida Miss Mary perguntou:

— E já decidiste sobre qual de nós duas farás recair a tua escolha? Para nós não faz diferença.

— Muito grato, Miss Mary. Penso que seria melhor casar-me com aquela das senhoras que eu possa conservar por mais tempo junto a mim. E como, por lei natural, deve ser a mais jovem, seria melhor para todos nós se Miss Jane quisesse ter a bondade de ser minha esposa.

Para o casamento foi tirada uma licença especial, em lugar dos proclamas, que teriam de ser feitos em três domingos consecutivos, na igreja da aldeia, onde Miss Mary e Miss Jane costumavam fazer suas orações, no banco reservado sob o "War Memorial" aos seus jovens sobrinhos, ceifados na juven­tude, e as placas a seu irmão, seu pai, seu avô... todos mortos na juventude.

Atendendo ao chamado, o senhor John Hurley, advogado da família, compareceu, na noite anterior ao dia do casamento, bem como o reverendo Joseph Lloyd-Thomas, o velho reitor.

James, com grande solicitude, havia perguntado à sua noiva se preferia que ele, James, tomasse o nome de Tudor-Williams, como era hábito na tradição da família.

Miss Mary achara excelente a idéia. Miss Jane, entre­tanto, preferiu adotar o costume geral, que consistia em tomar a mulher o sobrenome do marido. Assim, Jane Tudor-Williams tornar-se-ia, agora, a senhora James Jenkins...

A chuva cessara, e havia brilhos de sol hibernal por sobre os montes distantes, naquele dia de núpcias.

Miss Mary e Miss Jane foram conduzidas à igreja na velha carruagem, enquanto o noivo chegava, meia hora mais cedo, no Wolseley do reverendo Lloyd-Thomas.

Urna tíbia claridade de sol invernal entrava na igreja obscura, através dos vitrais brilhantemente coloridos. O reitor esperava na sacristia a chegada da comitiva, enquanto sua velha esposa se instalava no banco reservado à Reitoria.

Junto dela, rosada e garrida no seu vestido domingueiro, estava Blodwen, cozinheira de Pias Gwyn, com Price, a criada grave. Encontravam-se ainda ali a senhora Jones, esposa de Frederick, e as duas ajudantes de cozinha, um tanto; enciumado com a mudança de posição de James, alvitrara ficar cuidando dos cavalos. O senhor John Hurley e o senhor Jones, solicitador local, sentavam ao lado do capitão Hughes, da pedreira. Miss Mary permanecia ao lado da noiva.

Miss Jane trazia um vestido de seda cinzento-prata, ainda do outono passado. Como não houvera tempo de mandar fazer o vestido de noiva, servia-se de velhos adornos de sua mãe, e nas rendas de Bruxelas prendera com um broche-camafeu um ramo do velho murteiro do jardim, que já uma vez tinha adornado o ramalhete de casamento de uma Sua tia-avó.

Um róseo pálido subira às faces de Miss Jane ao pronunciar as palavras que ninguém imaginara ouvir de seus lábios: "... até que a morte nos separe..."

— Bom Deus, como é diferente dos dias de hoje! pensou o velho John Hurley, com o cinismo de sua profissão. Hoje diria ".. .até que a primeira loura ..nos separe..." e pronto. A mim me parece que este casamento será tão bem sucedido como os outros.

O casamento de James, marido legal de Jane Jenkins, causou um sucesso extraordinário.

James ocupou os cômodos já seus favoritos, isto é, o quarto azul sobre o alpendre e a sala de fumar. Evans, apesar de ter menos prática do que ele, tinha todos os requisitos para ser um perfeito mordomo. Assim, tanto James como as senhoras estavam muito satisfeitos; ele, pela invejável posição que passava a ocupar, e elas por verem no seu ex-mordomo a continuação de suas queridas tradições. Durante os serões James jogava ou lia alto para as senhoras. Sua pronunciação clara, de acentuado sotaque céltico, quando lia o "Illustrated London News" ou um capítulo de Jane Austen, ainda se fazia ouvir com prazer por Miss Mary, não obstante sua crescente surdez. Para ele, sua cunhada continuava a ser "Miss Mary", e à sua esposa chamava "Senhora Jenkins".

Suas raras visitas aceitaram a situação como fato con­sumado; quanto aos recém-chegados, dificilmente notariam algo fora do comum. James tinha sempre uma aparência distinta, com seus cabelos grisalhos, os seus olhos escuros, sempre elegantemente vestido, sem dispensar o "sherry", o "whisky" e a soda, bem como os últimos cigarros encomen­dados pelo jovem capitão Dick Tudor-Williams, tombado em Mons.

James, porém, não foi feliz na escolha da irmã que ele pensava fosse viver mais tempo em sua companhia, pois que, após alguns anos tranqüilos e felizes, foi Jane quem morreu, em conseqüência de um resfriado que apanhara na igreja, certo domingo.

Sua moléstia não durou mais que três dias, durante os quais Jane permaneceu em sua cama jacobina, de quatro colunas, na Sala Branca. Era esse o seu quarto, desde que, aos dezessete anos, voltara do internato pela última vez. Jane morreu tão docemente como tinha vivido; descansava nas mãos de sua velha irmã uma de suas brancas e pequeninas mãos, cheias de veias azuladas, e com a da aliança segurava a mão do esposo.

— James — disse ela dirigindo-lhe as últimas palavras; — sempre gostei muito de ti...

E foi esse leve murmúrio de amor o único que James até então havia ouvido de sua boca.

A cabeça prateada de James caiu na mão de Jane, na qual depôs o seu ósculo de amor — o único beijo que ela recebera do ancião: Jane voltou para ele os olhos, que se tornaram subitamente claros como os olhos azuis de uma menina. Depois, a moribunda os cerrou docemente, e dos seus lábios escapou-se um nome quase imperceptível: "Dumpling..."

— Que quis ela dizer? — perguntou depois Miss Mary.

— Oh, senhora, não se lembra? Dumpling é o nome do velho pônei cor de creme que puxava a ceifadeira no prado quando eu para aqui vim. Miss Jane costumava pedir-me constantemente um torrão de açúcar para Dumpling.

Dois anos mais tarde morria também Miss Mary, vítima de uma gripe fatal, deixando o pobre James — o mais solitário dos homens — sem saber a quem deixar a velha casa.

Em tal indecisão, foi com grande alívio que se lembrou do procurador da família, o senhor John Hurley, de Hurley and Wright, Bloomsbury, a firma que por várias gerações vinha acompanhando os negócios da família Tudor-Williams.

James mandou chamá-lo e disse-lhe que tinha resolvido fazê-lo seu herdeiro; mas grande foi o espanto do ex-mordomo quando recebeu recusa formal do advogado.

— Não, não, James! Fico-lhe imensamente grato, mas para ser franco, não desejo ser seu herdeiro. Meu negócio em Londres corre muito bem, e assim me parece inoportuna retirar-me para este deserto, levando a vida de um cam­ponês. Caçando, atirando e errando, como diz o jovem Peter; Eu estaria, assim, como um peixe fora d’água, meu caro. Escolha alguém que o queira.

James suspirou longamente, e sua cabeça prateada incli­nou-se para o peito.

"Envelheceu bastante! está certamente alquebrado", pensou o advogado.

— Não tem filhos, senhor Hurley? Ah, bem; julguei que o senhor havia mencionado um Hurley mais moço, que estava no negócio.

— Ah, sim, Peter. É um meu primo, filho mais velho do primo Ralph, químico analista. Ralph deixou a família quase na miséria, e eu tomei o rapaz para trabalhar comigo.

— Parece-se com o senhor?

— Não muito. Peter puxou por outro ramo da família; queria ser pintor ou coisa semelhante. Mora numa pequena casa, próximo a Great West Road, com a mãe e dois irmãos mais moços, ainda na escola, — disse o advogado, deitando um olhar esquivo ao rosto enrugado de James, e imaginando ser a idade não estaria tornando o ancião possivelmente maluco! Que coisa magnífica seria se lhe passasse pela cabeça fazer Peter o herdeiro de Pias Gwyn! Mas será que isso poderia acontecer? Oh, provavelmente. Advogados e médicos sabem dessas idéias lunáticas, de última hora, que levam certos indivíduos a deixar tudo a um estranho.

— E seria fácil ter uma conversa aqui com esse jovem?

— Certamente. Peter deve sair de férias na próxima semana, e vai para uma estação balneária; mas poderei mandá-lo antes para aqui.

— E, se me permite, senhor Hurley, preferia que ele nada soubesse disto. Desejo recolher pessoalmente a sua primeira impressão sobre o ambiente, e há conveniência nisto;

— Perfeitamente, Sr. James.

E ficou assentado que o senhor Hurley mandaria Peter levar uns documentos a um cliente, em Gales.

Capítulo II

O AZAR DAS CIRCUNSTÂNCIAS


Mas como não hei de estar furioso? explodiu Peter ao dar a notícia à mãe. Não basta pagar-me menos que a qualquer outro, que não fosse parente, ainda o diabo do velho quer fazer-me de moço de recados, justa­mente agora!

A mãe de Peter, miudinha, pacífica, fingiu não suspeitar que aquele enfático "agora" tinha íntima relação com a vida emotiva e amorosa de seu filho.

— A senhora não acha que é um absurdo cortar-me três dias de minhas férias para mandar-me levar papéis a algum velho cliente de Gales?

— Não imaginas como ficas feio com essa cara de zanga! — retorquiu a mãe com voz meiga, mas picante

— Bem sei que sou feio, graças a Deus! Mas a senhora fala comigo como se eu tivesse apenas sete anos!

— Estás enganado; tens um lindo rosto e uma bela pre­sença. É embora penses que não é tal, tens também um bom gênio.

— Esses elogios são próprios das mães, disse Peter com desdém.

Efetivamente, Peter era quase tudo o que sua mãe havia dito acerca dele, especialmente no tocante àqueles estearmos olhos, que mais pareciam feitos para as belezas e os encantos do mundo do que para se estragarem sobre autos de cartório.

— Um belo gênio, sim! Mas para aturar o velho seria mister o gênio de um arcanjo! — continuou Peter exasperado.

— Oh, cale-se, querido, cale-se! — retorquiu a frágil senhora Hurley, com um olhar de reprovação.

Jon, o "bull-terrier" de Peter, roncava na grama, aos pés da senhora Hurley, que nesse momento se achava a coser sob a macieira do pomar.

A senhora Hurley bem sabia a razão por que seu filho se indignava por esse atraso de três dias, antes de ir ter à sua aldeia de pesca de Cornish.

Não era somente o amor à liberdade e a paixão pela pintura que o chamavam ao campo, mas porque a família Bridges, naquele verão, havia de novo alugado uma casa de campo nas imediações... E fora no verão anterior que Ricarda Bridges (Ricky) se havia enamorado de Peter, com quem passeara e tomara banhos de sol. A senhora Hurley já não duvidava de que Ricky seria sua nora, a menos que quaisquer circunstâncias interviessem.

As circunstâncias! Como elas se haviam desencadeado impiedosas sobre aquela família... Fora durante o tempo em que Peter ainda se achava na escola, que seu pai morrera; a este lance inevitável seguira-se todo um rosário de infor­túnios, desvanecendo-se todas as doces ilusões até então ali­mentadas, desde o prazer do descanso, das ambições pessoais e das oportunidades, até a impossibilidade de jamais conseguir iniciar os seus estudos de pintura, tão deliciosos aos seus olhos cinzentos e aos seus dedos hábeis.

As circunstâncias, de mãos dadas com o velho John Hurley, insistiram em conservá-lo escravizado como secretário jura­mentado de um advogado, sem outra alternativa entre o banco do escritório e o magro salário, que aumentava de libra a libra, miseravelmente.

Isso significava para ele a miséria, as privações em qual­quer direção que olhasse.

Oh, como são terríveis as circunstâncias brutais, que tantas vezes laceram e matam os lindos sonhos de amor de um jovem coração...

Peter havia pensado em ir ter com Ricky, assim que ela chegasse a Cornwall; imaginara levá-la para a "sua" baía, escondida entre rochedos, e ali dizer-lhe do seu aumento de salário, criminosamente pequeno, mas ainda assim suficiente para os dois, se Ricky estivesse de acordo (e Peter se incum­biria de convencera a isso, mesmo porque os Bridges nunca foram muito ricos).

Assim, ia haver três abençoadas e ditosas semanas de férias, em que Peter faria sua declaração e ficaria definitiva­mente noivo de Ricky... Mas, ai! As malditas circunstâncias vinham deitar abaixo as suas douradas ilusões...

De súbito, Peter saltou da velha cadeira em que se achava sentado no jardim, e exclamou: — Tenho que telefonar!

A mãe e o cãozinho — os dois escravos mais dedicados na vida de um homem — acompanharam com o olhar, até entrar em casa, a figura jovem e arrogante de Peter. A casa era simples, de tijolos uniformemente amarelos por fora e pintada de branco por dentro; seu mobiliário, com ser inferior e adquirido em leilão, não obstava à felicidade dos que ali viviam e se amavam, apesar das incertezas.

Peter entrou no vestíbulo e pediu ligação à telefonista.

— Ricky, aqui fala Peter! — disse ele. Espera-me aí, que vou buscar-te. Como? Tens um encontro? Então espera-me, que ainda quero tomar um "drink" aí antes de saíres. Tenho coisas interessantes para dizer-te... Sim? Então direi mais tarde. Até logo.

Peter largou o fone e correu para seu quarto, saltando os degraus de três em três.

O quarto de dormir de uma mulher logo se percebe; o de um homem, porém, é diferente. O de Peter mais parecia um clube de natação, resplendendo no luzir do assoalho e na brancura dos lençóis. Aquela cama monástica de solteiro nada dizia de Peter. Pelas paredes, em redor, não havia esboço de desenho, mas um certo número de fotografias encaixilhadas, de Peter e seus companheiros.

Dentre tais fotografias salientava-se uma de real beleza — um quadro da película "Nosso futuro está no ar". Nas paredes ensolaradas de um antigo templo egípcio, decorado de simbólicos animais alados, caía a sombra gigantesca de um avião de linha da "Imperial Airways".

Peter havia sentido grande emoção diante daquele quadro, onde o modernismo se sobrepunha à antigüidade. Sua estante de livros continha especialmente obras de sensacionalismo, tão ao sabor dos jovens: Edgar Wallace, Austin Freemans, John Buchans, toda uma coleção encadernada de Dorothy & Sayers, destacando-se duas obras principais: "Uma experiência no Tempo", e "A Nova Imortalidade", de J. A. Dunne, Fora disto, nada ali faria prever que o morador daquele quarto se interessaria por coisas mais transcendentais além dos lugares comuns da vida. Assim, quem poderia imaginar que nesse jovem lutador pelo pão cotidiano, nesse simples empregado de escritório, alegre, dado aos esportes, ao fumo e ao vinho, se ocultava uma alma docemente sensível, um sonhador ambicioso, amando a beleza da mulher e os encantos da natureza? Quem poderia adivinhá-lo? Qualquer um, talvez... Entretanto, todos procuram esconder esse sonhador que mora no âmago de sua alma como se ele fora um cri­minoso fugitivo, a quem estivera dando guarida e proteção, em detrimento da lei! Peter fez uma careta para os poucos níqueis que levava no bolso, e depois, tendo apanhado as chaves e um lenço limpo, voltou correndo para o Jardim.

— Janto na cidade — disse ele, imaginando impedir o encontro de Ricky naquela noite. Você não pode ir, Jon, — acrescentou, dirigindo-se ao cachorrinho que fazia menção de levantar-se, abrindo os ternos olhos e levantando as orelhas pontudas. — Boa noite, senhora Hurley, e inclinou-se para beijá-la.

— Boa noite, querido! — respondeu-lhe ela sem perguntar-lhe aonde ia, pois bem sabia que ia a Warren Cliffs, a odiosa e degradante colméia humana, como lhe chamava.

Ela sentia-se desambientada, fora de sua época, diante desses imensos quarteirões de apartamentos de luxo, que se erguem acima das altas chaminés, ao passo que seu filho Peter não via coisa melhor. Para os que trabalham perto de Bright Lights e não têm recursos para morar em Berkeley Square, não havia melhor zona do que aquela, onde se achava o apartamento de Ricarda.

"Se Ricky continuasse no emprego ainda por mais um ano (Ricky tomava conta de um elegante atelier fotográfico em Bond Street) e eu pudesse arranjar um apartamento com um quarto a mais nesta quadra, poderia casar-me ainda este ano", ia pensando Peter enquanto estacionava Paula, o seu insig­nificante carro.

— Boa noite, senhor! — disse o ascensorista com um sorriso amplo, ostentando sua longa fileira de medalhas.

O ascensorista considerava o jovem, cujo mesquinho carro estacionara à porta, e ficava a pensar em tantos Bentleys e Rollces maravilhosos, cujos proprietários não passavam de refinados cretinos.

— Oitavo andar, senhor?

— Sim, por obséquio, — disse Peter com amável sorriso.

"Que moço de fina educação!" disse consigo mesmo o ascensorista. "E sua amiguinha, que linda jovem! Mais que tantas outras; sem nenhum valor, ela é que deveria estar nos filmes, ao lado dele, pois parecem feitos um para o outro. Sim, senhor, bonito casal! Que sejam felizes é o que desejo."




Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   13


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal