Uma discussão sobre o individualismo em economia eduardo Angeli Resumo



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UMA DISCUSSÃO SOBRE O INDIVIDUALISMO EM ECONOMIA

Eduardo Angeli*



Resumo: O artigo procura entender o papel do individualismo no pensamento econômico e apresentar ao menos uma interpretação distinta da mainstream economics, mas que busca resgatar o pensamento de alguns dos clássicos da disciplina. Para isso, estuda brevemente a origem do individualismo no pensamento ocidental e sua entrada na Economia, bem como a construção teórica chamada de homem econômico. Procura também esclarecer a distinção entre individualismo metodológico e individualismo ontológico, explicitando que a aceitação de um não implica necessariamente a aceitação do outro. Por fim, busca compreender como um dos principais pensadores liberais do século XX, o prêmio Nobel J. M. Buchanan, entende por individualismo, em especial no que se refere a seu papel na Economia.

Palavras-chave: Individualismo, Homo Economicus, J. M. Buchanan.

Abstract: This paper aims to present the role that individualism has in the economic thought and to introduce at least one interpretation that is different from the one held by mainstream economics, but that intends to rescue the position held by some of the classic authors of our field. In order to achieve such a goal, it will analyze the rising of the individualism in the Western thought and in the economic thought. It also intends to clarify the distinction between methodological and ontological individualism. Afterwards, it will present the interpretation of an important liberal thinker of 20th century, Nobel Prize winner J. M. Buchanan, who has interesting and important explanations for the role of individualism in Economics.

Keywords: Individualism, Homo Economicus, J. M. Buchanan.

JEL: B10, B20, B41, B59.


  1. Introdução

É comum ouvirmos entre os economistas a necessidade de as explicações serem fundadas a partir da lógica do comportamento individual. Tal preocupação foi peça chave na emergência da escola novo-clássica em meados da década de 1970, e, a seguir, da escola novo-keynesiana. Seu surgimento pode ser atribuído à crescente insatisfação dos economistas neoclássicos com o modo de se fazer ciência econômica herdada do keynesianismo da síntese neoclássica (que Joan Robinson chamou de “keynesianismo bastardo”)1, preocupado este que era muito mais com a flutuação e determinação dos agregados macroeconômicos e suas relações estruturais.

De fato, naquele período se tornou patente a incapacidade da teoria então dominante, assentada sobre modelos do tipo IS-LM, de explicar fenômenos como a “estagflação”. A percebida inadequação dos resultados daquele arcabouço teórico trouxe à tona o debate sobre o método então adotado (cf. MONTEIRO, 2003)2. Nesse contexto, assistiu-se à emergência das tradições novo-clássica e novo-keynesiana, ambas claramente formadoras do mainstream contemporâneo, e a proposta da retomada dos “fundamentos microeconômicos” na explicação macroeconômica passou a ganhar força: “[t]he observation that macroeconomics is in need of a microeconomic foundation has become commonplace” (LUCAS, 1977, p. 216). De acordo com Gerber et. al. (1990) a adoção dos microfundamentos traz em seu bojo ao menos quatro suposições metodológicas implícitas: (i) o programa de pesquisa do equilíbrio geral é bem sucedido; (ii) a negação de problemas derivados do processo de agregação; (iii) a ideia de que a microeconomia provê os princípios primeiros da análise macroeconômica; (iv) o monismo metodológico, mais especificamente a extensão do tipo de raciocínio micro para a macroeconomia3.

Lucas (1987), animado pela crescente valorização dos “microfundamentos” para o estudo da variação dos agregados econômicos, previa, em palestra de 1985, a extinção da divisão entre macro e microeconomia (ou o colapsamento da primeira na segunda) para a retomada da agenda pré-keynesiana de estudo dos ciclos econômicos como resultado da ação de inúmeros indivíduos racionais; reinaria não a macroeconomia, considerada por ele uma saída fácil e tentadora de questões espinhosas ao economista, mas sim a hard science “teoria econômica”4. Minford (1997) parece ir além, ao advogar que a macroeconomia contemporânea é uma recuperação (melhorada, já que com melhores instrumentos analíticos) da teoria econômica não só no sentido de explicar o comportamento dos agregados macroeconômicos como uma resposta de indivíduos racionais a certo arcabouço político-institucional, mas também como tentativa de explicação das mudanças do próprio ambiente político e de política econômica:

Nowadays we require an analysis not only of the maximizing decisions of private agents subject to the policy regime they face, but also of the forces determining that policy regime. The wheel has come full circle: macro must now embrace micro and political economy much as it did in classical days of yore. The difference from then, of course, is that our tools have become more powerful, owing to the heavy use of mathematics, statistics and the computer (MINFORD, 1997, p. 124).

A despeito da força desse movimento de recuperação encabeçado por, entre outros, Robert Lucas, parece que, ao menos no discurso, nunca tenha sido abandonada a pregação acerca da importância do individualismo metodológico dentro do neoclassicismo. Ao mesmo tempo, o novo-classicismo e o novo-keynesianismo continuam a compartilhar com seus predecessores a dificuldade de construir explicações baseadas apenas no comportamento individual maximizador, o que mostra certa esterilidade em seu discurso. Como procura argumentar Arrow (1994), apesar de explicações baseadas no comportamento individual serem consideradas o alicerce de qualquer explicação econômica razoável, na prática conceitos e categorias sociais externas aos indivíduos estão presentes e são necessárias em qualquer análise econômica. Em suas palavras, “a close examination of even the most standard economic analysis shows that social categories are in fact used in economic analysis all the time and they appear to be absolute necessities of the analysis, not just figures of speech that can be eliminated if need be” (ARROW, 1994, p. 1). De forma mais geral, Leonard fala da percepção generalizada do descolamento entre o que é pregado como bom trabalho científico em economia e o que, na realidade, os economistas fazem, quando diz que “[f]ew working the history of economic thought/methodology furrow believe that contemporary economic practice heeds methodological preaching” (LEONARD, 2001, p. 115), assim como Blaug (apud PRADO, 1989, p. 232) que escreve que “o que está errado é que os economistas não praticam o que pregam”. A constatação desse comportamento, qual seja, o de que “[o]s economistas, como fariseus, reverenciam a doutrina, mas não a praticam” (MONTEIRO, 2003, p. 211), tem dado força ao crescimento da abordagem da retórica, ligada sobretudo a McCloskey, como forma de se compreender como se dá o movimento da disciplina Economia e a solução de controvérsias entre seus praticantes.

Diante disso, o objetivo do artigo é procurar compreender qual é o papel do individualismo na ciência econômica. Para isso, após esta seção introdutória, na seção 2 procuraremos estudar brevemente a origem do individualismo no pensamento ocidental e sua entrada na Economia. Na seção 3, passaremos a examinar a construção teórica chamada de homem econômico. Após, a seção 4 procurará esclarecer a distinção entre individualismo metodológico e individualismo ontológico, explicitando que a aceitação de um não implica necessariamente a aceitação do outro. Na seção 5 passaremos a buscar compreender como um dos principais pensadores liberais do século XX, o economista J. M. Buchanan, entende por individualismo, em especial no que se refere a seu papel na Economia. Por fim, a seção 6 traz as considerações finais.

A escolha pelo estudo sobre o individualismo especificamente em James Buchanan se deve à constatação de que este autor possui importantes contribuições para diferentes áreas da ciência econômica, em particular a metodologia, que não foram ainda plenamente absorvidas ou apreciadas em nossa ciência. De fato, Boettke e Coyne (2005) explicitam que a inserção de Buchanan no debate sobre o endividamento público durante o domínio do pensamento keynesiano, e sua crítica fundamental à teoria das finanças funcionais, obrigou-o a repensar os fundamentos da ciência econômica.

Aliás, como bem coloca Boettke (1998), Buchanan faz parte do seleto grupo dos laureados com o prêmio Nobel – reconhecimento máximo que um economista pode ter pela importância de seu trabalho – que adotam uma postura crítica perante o que a profissão pesquisa e da maneira pela qual o faz. Assim como autores do peso de Hayek, Myrdal e Simon, por exemplo, Buchanan foi reconhecido mesmo rejeitando a economia convencional nos aspectos metodológicos, no objeto e na linguagem, e não tendo suas críticas e suas propostas alternativas plenamente absorvidas pela corrente principal da profissão. De fato, o trabalho de Buchanan se enquadra bem nas três características que Boettke (1998) utiliza para qualificar um economista como dissidente: a não utilização da linguagem e das ferramentas típuica sdo economista (a modelagem matemática e os testes econométricos); a argumentação filosófica como crítica à ciência econômica contemporânea; e a preocupação com argumentos normativos e a relevância política de sua pesquisa.

Buchanan pode ser considerado um dos expoentes do pensamento econômico liberal e da mainline economics, termo que se refere a uma linha de pesquisa que Boettke (2007) diz existir ao longo da história do pensamento econômico, e que procura realizar explicações e interpretações para a coexistência pacífica numa sociedade não dirigida centralmente, especialmente através da promoção da “harmony of interests that emerges through the competitive market process” (Boettke, 2007, p. 7). Buchanan possui posição bastante distinta da mainstream economics, o que pode permitir ao economista compreender melhor o estatuto que o individualismo corretamente aplicado deve ter em nossa disciplina, bem como o tipo de explicação buscado pelos pais fundadores da disciplina.


  1. A entrada do individualismo no pensamento econômico

A emergência do indivíduo como entidade autônoma na filosofia ocidental moderna deve ser vista como um processo de reação à submissão individual ao coletivo ou a entidades hierarquicamente superiores, em particular no pensamento cristão medieval. O indivíduo aparecia apenas como uma peça numa engrenagem superior que deveria ser fortalecida e engrandecida, ainda que à custa daquele. Nas palavras de Louis Dumont, “[d]entre as grandes civilizações que o mundo tem conhecido, o tipo holístico de sociedade tem sido esmagadoramente predominante; de fato, isto parece ser a regra, sendo a única exceção a nossa sociedade moderna e seu tipo individualista de sociedade” (apud SOUZA, 1995, p. 2).

Segundo Davis (2003, cap. 1), o conceito moderno de indivíduo surge a partir da visão de Descartes de um ente que se identifica com sua razão, isolado do mundo material que o cerca. Esse isolamento surge a partir do processo de dúvida cartesiana, o abandono de todas as certezas até chegar à única inegável: “Cogito ergo sum” – “Penso, logo existo”, axioma a partir do qual passa a deduzir consequências irrefutáveis e que não podem ser objeto de engano por parte de seus sentidos. Isso indica, coloca Davis, que o indivíduo pode ser “desconectado” do mundo material – o que, com Locke, passa a ser uma capacidade de acessar o mundo de forma objetiva, sem o intermédio de valores subjetivos, implicando que se podem descartar as influências externas como a cultura, pressões sociais, padrões comportamentais para se buscar, livremente e de forma consciente e deliberada, a verdade e o aumento da felicidade5.

Para Davis, o que caracteriza a visão cartesiana de indivíduo como moderna é a possibilidade que se abre para o progresso científico, na medida em que o mundo, agora visto como um mecanismo de causa e efeito, passa a ser inteligível ao homem desengajado socialmente e de seus sentidos, identificado com sua razão pura e capaz de formar ideias claras e distintas e, a partir daí, raciocínios certeiros para compreender (e controlar) o mundo que o rodeia. Mais do que isso, o ideal cartesiano vai encontrar em Hobbes a tentativa de aplicação do método científico ao mundo social e político (ou, talvez possamos dizer, a conexão entre teoria do conhecimento e teoria política ou social). Hobbes possivelmente foi o primeiro a fazer a aplicação direta do método cartesiano às ciências sociais.

Como argumenta Guimarães (1996), Hobbes escreve no sentido de buscar fundamentar racionalmente a obediência ao poder político estabelecido, a partir do estudo do homem (individual) “como ele realmente é”, dotado de paixões que determinam seus objetivos (em particular a continuação da vida) e da razão (que indica o meio, no caso, o contrato social e a obediência). Em outras palavras, Hobbes parte da análise da natureza individual, feita de paixões e razão, para deduzir, por uma espécie de agregação, a necessidade da obediência ao poder político, de forma a se evitar que a incerteza em relação ao comportamento de outrem torne racional a antecipação da violência como medida de auto-defesa. Daí Guimarães colocar, a respeito do pensamento hobbesiano, que “[s]e as paixões afastam (cegam), cabe à razão o papel de unir, de gerar o consenso” (GUIMARÃES, 1996, p. 147). Em especial a razão de um indivíduo, o soberano, garantiria a paz e a prosperidade do povo. Por isso Hobbes não coloca limites à ação do soberano, já que sua razão associada ao seu auto-interesse tratariam de garantir que fossem aplicadas as regras mais corretas à comunidade (cf. GUIMARÃES, 1996).

Hobbes está preocupado em encontrar de que maneira a sociedade individualista pode existir; encontra no Estado construído e administrado racionalmente a resposta. O Estado então, é que garante a sociabilidade benéfica, estável e previsível, em contraposição à guerra de todos contra todos que existe quando ele não está presente.

Cumpre destacar que razão, em Hobbes, possui um significado especial. Está além da capacidade de distinguir um desígnio ou propósito para o universo ou para a moral. “[A] razão hobbesiana é a razão moderna, matemática e condicional, que parte de definições precisas e deduz paulatinamente as conclusões” (GUIMARÃES, 1996, p. 147).

De acordo com Davis (2003, p. 4), a grande contribuição de Descartes ao pensamento ocidental foi justamente a cisão do mundo em um subjetivo, interior ao homem, e um objetivo, exterior ao homem, e a compreensão deste através da formação de ideias claras e distintas. O avanço proposto por Locke foi desconfiar da capacidade de formar claras e distintas ideias, garantida por Deus, como sendo apenas opiniões de homens. Com isso, propõe que a construção do conhecimento se dê a partir do rearranjo de ideias simples que advém ao homem através dos sentidos, já que a mente humana nasce como uma folha em branco pronta a ser preenchida. A permanente recombinação de ideias simples proporciona a construção de ideias complexas.

A principal implicação da visão lockeana de conhecimento é que sua construção é, em certo sentido, desenraizada do mundo ao redor, de paixões e de qualquer autoridade superior; o indivíduo passa a ser responsável por construir e avaliar as ideias complexas que detém. A capacidade de julgamento sobre o grau de verdade e correlação ao mundo objetivo de suas ideias faz o indivíduo livre, na medida em que não depende de algum ente superior para garantir seu correto conhecimento e que não será enganado.

Assim, Locke foi além de Descartes no grau de autonomia do indivíduo, ao abrir mão da hipótese de que Deus garantiria a correção das ideias inatas, ou seja, em Locke a existência de indivíduos já não mais requeria a garantia de Deus; agora, ao homem cabe julgar a verdade contida nas ideias simples advindas dos sentidos. Locke também foi além de Descartes ao estender o individualismo, que no sistema cartesiano se restringia à capacidade de raciocínio e de construção do conhecimento, para a teoria política. Com isso, afirma-se a individualidade sobre qualquer outro poder externo superior. Nas palavras de Davis, “in abandoning innate ideas and reason, and in supposing that individuals had a natural ability to recognize the simple and inalterable ideas of sense experience, Locke effectively made individuals responsible for their own existence” (DAVIS, 2003, p. 5).

Paulani (2005, cap. 1) na tentativa de compreender as raízes do individualismo, destaca a interpretação de Hegel para a modernidade. Hegel, segundo ela, vai encontrar na subjetividade e, por tabela, na liberdade, a marca distintiva, o fundamento da época moderna. O termo subjetividade, aqui possui quatro sentidos: individualismo (singularidade particular), direito de crítica (reconhecimento por cada um como legitimação), autonomia da ação (cada um responde por seus atos) e filosofia idealista.

Segundo ainda Paulani (2005, cap. 2), o subjetivismo (e o individualismo) acaba dando algum suporte à filosofia utilitarista, que com Bentham ganha corpo na Inglaterra na virada do século XVIII ao XIX. Em Bentham não existe interesse coletivo, ou melhor, o interesse coletivo é apenas a soma dos interesses individuais, já que é o indivíduo que, de fato, existe, pensa, avalia e deseja, e não entidades coletivas abstratas. Esse deve ser o fundamento de qualquer política governamental6. “Para Bentham, portanto, tudo deve partir do indivíduo concreto, porque é só ele que de verdade existe” (PAULANI, 2005, p. 39).

Talvez seja correto pensarmos que aí esteja localizada a porta de entrada do individualismo na teoria econômica, ainda que Bentham esteja à margem do mainstream da economia política clássica, ao menos no que tange às explicações acerca da teoria do valor, dominada nas primeiras décadas do século XIX pela teoria do valor trabalho de Ricardo.

De acordo com Soromenho (2000), há, na economia clássica, uma permanente tensão entre a busca por explicações a partir do comportamento individual (e daí a possibilidade de vislumbrarmos a economia clássica como fonte do atomismo neoclássico) e a rendição à capacidade explicativa a partir das interações entre classes sociais, sem quaisquer referências à capacidade de escolha individual. Foley (2004) defende que os clássicos (Smith, Ricardo e Malthus, e seu crítico, Marx) estavam interessados na articulação e nas interações entre as classes (trabalhadores, capitalistas e proprietários de terra) numa sociedade capitalista, e não no processo de escolha entre alternativas de um indivíduo genérico. Para isso, na busca deste objetivo, o estudo da dinâmica de relacionamento (possivelmente contraditório) entre as classes, empreendiam a construção de um personagem sabidamente fictício, um representante padrão de cada classe (o capitalista frugal, o trabalhador que consome todo seu salário de subsistência, o proprietário rentista que gasta toda sua renda de forma improdutiva) que nada tinha de comportamento normativo ou racional/hedonista. Também não se preocupavam em somar o comportamento de infinitos representantes de cada classe para obter o comportamento da economia agregada. Vale dizer, o indivíduo, sob esta ótica, só se apresenta como um mero carregador das propriedades distintivas da classe a que pertence.

Já Hayek parecia ver nos clássicos certa confusão entre o real estatuto do individualismo; segundo ele, apenas com Menger foi feita a distinção entre individualismo como princípio moral de um lado, e como princípio metodológico de outro: “[o] que nos autores clássicos da Economia Política permanecia como uma espécie de mistura, um meio-termo entre postulado ético e instrumento metodológico, Menger preferiu desenvolve-lo sistematicamente neste último sentido” (HAYEK, 1934, p. 12-13).

De qualquer modo, o conceito de valor utilidade e, por tabela, a entrada do homem econômico em cena ganham corpo com Say e os dois Mill e, posteriormente, com a Revolução Marginalista e a consolidação da teoria neoclássica. De fato, Stuart Mill, um dos economistas a se preocupar mais detalhadamente com questões de método7, traz uma permanente tensão em seu pensamento acerca da combinação de princípios psicológicos universais e imutáveis e especificidades históricas na formação do comportamento do homem econômico (cf. PAULANI, 2005, cap. 3).


  1. Individualismo e homem econômico

O individualismo metodológico é um traço distintivo fundamental na construção da economia neoclássica, a ponto de Monteiro afirmar que o “núcleo do programa neoclássico confunde-se com o individualismo metodológico, atribuindo ao indivíduo racional o papel central na definição dos fenômenos econômicos” (MONTEIRO, 2003, p. 223).

Há dois tipos de construção teórica do comportamento econômico individual na ótica neoclássica, de acordo com Fonseca (1988), seguindo distinção proposta por Lionel Robbins. O primeiro se refere ao chamado homem econômico do tipo psicológico, versão esta que destaca a motivação estritamente egoísta e hedonista de toda ação humana. É erigido, então, um arcabouço que procura deduzir de que forma se dá e quais as consequências da interação de vários indivíduos agindo dessa maneira. O resultado é a emergência de uma ordem espontânea capaz de gerar resultados benéficos não planejados a partir de desejos egoístas. Esse tipo de hipótese acerca do “homem econômico” já não é a predominante, a despeito de ter marcado, sim, o trabalho de economistas centrais na história do pensamento econômico, como Edgeworth, Jevons e os teóricos da linha de pesquisa sobre o equilíbrio geral tradicional.

Ao longo de boa parte da história do pensamento econômico, a adesão ao individualismo metodológico8 esteve atada tanto ao entendimento do homem, ao menos no que interessa a fins analíticos, como imutável em sua natureza egoísta e maximizadora de um lado, e, de outro, à busca por uma teoria econômica e social que se assemelhe à precisão, ao rigor e à generalidade das ciências naturais. Sintomaticamente, Edgeworth chega a afirmar que “pelo menos a concepção do Homem como uma máquina de prazer [pleasure machine] poderá justificar e facilitar o emprego de termos da mecânica e raciocínio matemático na ciência social” (apud FONSECA, 2003, p. 194).

A segunda versão da explicação neoclássica do comportamento econômico é a do “homem econômico de tipo lógico”. Aqui, abre-se mão do princípio do egoísmo e do hedonismo desenfreado para se colocar ênfase sobre a racionalidade da escolha, a maneira (racional) de se alcançar determinados fins, independente de quais sejam. Nessa ótica, por definição o indivíduo busca seu interesse-próprio, independente de qual seja ele, e atinge a maximização de sua utilidade subjetiva, inclua ela, ou não, a felicidade de terceiros, o progresso da nação, a preservação da natureza, etc. Monteiro, ao advogar que o individualismo metodológico entendido como teorização a partir do comportamento racional individual é traço marcante do núcleo do programa de pesquisa neoclássico, deve ter em mente o homem econômico de tipo lógico, já que, de acordo com ele, “a racionalidade instrumental, identificada com a capacidade de um indivíduo escolher o melhor curso de ação para satisfazer seus objetivos, é a forma de racionalidade mais aceita” (MONTEIRO, 2003, p. 223). Já Dequech (2007-08), identifica a escola neoclássica por três características, sendo uma delas precisamente a racionalidade entendida como maximização da utilidade9.

Robbins parece associar o homem econômico de tipo lógico a uma espécie de resgate da visão dos economistas clássicos sobre a motivação e o comportamento econômico individual, após a mal sucedida tentativa de explicação pelas primeiras gerações de neoclássicos, com uma visão demasiado estreita sobre o significado de interesse próprio. Ao falar sobre a posição dos clássicos, em particular Smith, a favor do livre comércio e a crítica ao mercantilismo, ele ressalta:

[É] dada ênfase à desejabilidade de utilizar o mecanismo da produção para a poderosa e ubíqua força do interesse pessoal, não necessariamente o egoísmo: interesse pessoal significa interesse do indivíduo e do círculo íntimo para o qual ele reconhece, espontaneamente, ter obrigações. Nenhuma força existente é tão forte quanto esta (ROBBINS, 1972, p. 30)10.

Fonseca (1988) corretamente aponta que, sob tal visão, o homem econômico é racional na medida em que torna máxima sua satisfação, sejam suas preferências típicas de uma pessoa de gostos apurados e sofisticados, com valores nobres, altruísta, abnegada, sejam de um egoísta ou de preferências pouco refinadas. Segundo Robbins (cf. FONSECA, 1988), este tipo de visão estaria mais próxima do ramo austríaco da revolução marginalista, especialmente com Menger e, posteriormente, Böhm-Bawerk, que do ramo britânico, com Jevons.

Ferreira (2003) percebe que o conceito neoclássico de indivíduo implica, na verdade, a sua própria negação enquanto detentor de livre agência e capacidade de escolha, na medida em que sua ação é sempre univocamente determinada pelo critério de maximização das utilidades subjetivas, de modo a garantir o alcance do ponto de equilíbrio ótimo do sistema econômico:

[N]esse paradigma, não há espaço para tomada de decisão dos agentes. O sistema só existe para um ponto, o ponto de equilíbrio. Fora dele, os indivíduos não possuem sentido algum. Os agentes, nesse construto, não são dotados de 'free will'. Na verdade, então, o que há na teoria ortodoxa é um 'holismo metodológico', em que apenas se identificam os indivíduos uma vez atingido o ponto de equilíbrio (FERREIRA, 2003, p. 47).

Prado consegue captar a questão sobre o uso do homem econômico e a pregação sobre o método dos economistas:

Tal racionalidade maximizadora é vista como atributo essencial do homem; é o que sustentam – ainda que não do mesmo modo – muitos autores de Mill a Robbins e mesmo depois deste último, ainda que mais raramente. Nesse caso, o indivíduo maximizador é tomado como a unidade última do sistema econômico, supondo-se implícita ou explicitamente que as origens de todos os fenômenos sociais devem ser e só podem ser encontradas nas decisões e ações dos átomos que formam a sociedade (PRADO, 1989, p. 122).

Como bem colocam Prado (2006) e Belluzzo (2000), no tratamento convencional do homem econômico e do individualismo metodológico/atomístico tal qual propalado pela corrente dominante na teoria econômica (que Prado, 2006, chama de microeconomia reducionista), os agentes são ligados exclusivamente por nexos externos a eles; as estruturas que se formam não podem ser tratadas como detentoras de propriedades exclusivas a si, que não se reportem imediatamente à ação dos indivíduos agregados. Mais do que isso, a relação entre indivíduos e estruturas supra-individuais é unidirecional: dos indivíduos para a estrutura. Os átomos isolados atuam no sentido de interagirem com seus iguais já dotados com suas propriedades imutáveis (ao menos no que se refere aos resultados de sua própria ação/contato), e não recebem influência no sentido contrário. Isso implica também que o resultado de suas interações ou lhes seja plenamente conhecido, ou que em nada afete seus planos ou suas preferências.

Vejamos o diagrama explanatório proposto por Prado (2006):

Note-se que o método reducionista inicia sua análise através da decomposição do fenômeno agregado em indivíduos atomizados, a unidade última e independente de explicação. A partir das propriedades intrínsecas e independentes de tais átomos11, deduz-se unidirecionalmente o comportamento regular e o resultado de sua interação, agregando-se tais resultados de modo a se obter, novamente, a representação do fenômeno agregado, agora explicado. Novamente: o sentido é único, e não há propriedades que não sejam explicadas a partir das características trazidas e comunicadas pelos átomos. Por isso Soromenho (2000) escreve que o atomismo, a ausência de qualquer explicação causal de ordem supra-individual, possui uma dupla representação na economia neoclássica do equilíbrio geral: ela se reafirma tanto na própria definição do objeto da ciência econômica, a saber, a sociedade formada pela mera agregação de vários átomos que produzem resultados não-intencionais12, quanto em seu método, qual seja, apreender a sociedade a partir apenas do comportamento dos indivíduos atomizados.

Isso se mostra incompatível, a nosso juízo, com os conceitos hayekianos de ordem espontânea e consequências não-intencionais da ação humana. Como se sabe, a ordem espontânea, tão enfatizada por Hayek, surge como resultado não deliberado ou planejado da ação de diversos indivíduos; além do mais, ela possui características que a distingue de meros agregados de ações individuais, e sobre as pessoas exerce influência cognitiva, informativa e motivacional, de modo a tornar incorreta a visão de influência unidirecional como pregada pela microeconomia reducionista.

O professor Eleutério Prado (2006) propõe, em contraposição à microeconomia reducionista, a chamada microeconomia sistêmica, a tentativa de explicação de fenômenos agregados a partir de indivíduos que são sim influenciados por estruturas que lhes sejam exteriores e detenham características adicionais aos próprios indivíduos.

Como coloca Prado (1989, p. 121-122; 236), a adoção do modelo de homem econômico vem acompanhada da visão de que os indivíduos atomizados, dotados de racionalidade maximizadora, são e devem ser a unidade última de explicação dos fenômenos econômicos; sendo evidente e aprioristicamente verdadeiras as proposições acerca do homem econômico, a partir dele se podem deduzir conclusões irrefutáveis.



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