Uma educaçÃo para além do bem e do mal: travessias e travessuras musicais sérgio de Oliveira Santos1



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UMA EDUCAÇÃO PARA ALÉM DO BEM E DO MAL: TRAVESSIAS E TRAVESSURAS MUSICAIS
Sérgio de Oliveira Santos1

(spsico@pop.com.br)



RESUMO

Libertar a liberdade e, nesse veio, deseducar a Educação até que a mesma esteja prenhe da potência da vida – contraponto de um poder sobre a vida. Uma atitude educativa em que a vida possa expressar a polifonia de suas vozes no des-compasso de seus contra-tempos. Ouvir a vida até poder cantar e amar sua canção ao libertar-se daquele amor romântico, daquelas paixões meladas de tristeza e sofrimento, relações de dependência e submissão... paixões tristes. Afinal, tal como expressa Moska, algumas pessoas confundem isso com amor. Chamam de amor esse querer escravo, e pensam que o amor é alguma coisa que pode ser definida, explicada, entendida, julgada. Pensam que o amor já estava pronto, formatado, inteiro, antes de ser experimentado.

A pesquisa como experiência, o trabalho genealógico (emergência, procedência, des-dobramentos e re-invenções) dos acontecimentos no campo educativo. A acolhida daquilo rompe, que desloca, que atravessa, que inquieta... A aposta na coragem em trabalhar as relações consigo, com os outros e com os outros de si na forma de uma ascese, da re-constituição de processos de subjetivação potentes encharcados na experiência de um bendito sim! à vida – para além do ressentimento e das promessas de algo idealizado. O presente trabalho participa de um ensaio entre psicologia, filosofia e música a fim de captar e ecoar algumas notas (des)harmônicas da melodia de uma educação para além do bem e do mal por meio de diversas canções da música popular brasileira.



PALAVRAS CHAVE: Vida; Educação; Processos de Subjetivação.
Não se preocupe em entender.

Viver é o melhor entendimento.

Clarice Lispector

Na contemporaneidade são vários os cenários do campo de saberes/poderes que costumeiramente se nomeia por Educação. Seus conhecimentos, estruturas, operadores e pensadores se entrelaçam em um jogo de perspectivas (a)históricas em que, tal como canta Lenine, a sombra do futuro e a sobra do passado assombram a paisagem2. Nesse sentido, pode ser interessante retomar, antes de tudo, uma assertiva de Larrosa acerca da palavra liberdade e, minimamente, abrir-se a possíveis inferências aos intrincados usos e abusos dos atos e omissões referentes à Educação.



Há palavras tão manipuladas, tão manuseadas, tão corrompidas por séculos e séculos de tagarelice que é quase impossível utilizá-las. Mas o que está nos acontecendo é que estamos ficando sem palavras para dizer o intolerável e para afirmar o nosso querer viver. O certo é que nada existe de mais comum, de mais ambíguo, de mais suscetível de mal-entendido e manipulação do que a reivindicação e a defesa da liberdade na ordem moral, do direito, da política, da arte ou da ciência. O certo é que, muito freqüentemente, a palavra liberdade nos soa falsa quando a escutamos e não tem qualquer sabor quando a pronunciamos. Mas às vezes ela se oferece a alguém que deseja apresentá-la como uma nova verdade, como um novo sabor, ainda que para ele seja preciso primeiro libertar a liberdade de todas essas falsificações que se aderiram a ela e que secretamente a povoam. Talvez a liberdade, ou esse sentimento do insuportável que faz com que, às vezes, nos venha à boca a palavra liberdade, ou esse querer viver que às vezes chamamos de liberdade, ou esse gozo de sentir-se livre, talvez isso que não sabemos muito bem o que é, mas que às vezes sentimos intensamente como carência, ou como desejo ardente, ou como alegria, talvez isso possa continuar sendo algo que dá o que pensar, ainda que para isso tenhamos de libertar primeiro o nosso pensamento de todas as idéias que nos dão de liberdade já pensada e, portanto, impensável.3

Uma entre as diversas experiências contidas na obra Para além do bem e do mal de Nietzsche é a afirmação de que não existem fatos morais, apenas interpretações morais dos fatos. A partir desse legado, lê-se também junto dos traçados e dobraduras filosóficas de Foucault, Deleuze, Freud, Marx, Lacan, entre outros, que o que geralmente se nomina e sente como realidade – palpável, sensível, histórica ou mesmo ideal – não passa de perspectivas do olhar. Um olhar que não tem tempo nem lugar... Contudo, tais quais as palavras que perdem seu sabor e não mais traduzem ou representam aquilo que inquieta o ser humano, o olhar nas esferas biopolíticas se torna cativo e o cristalino se cristaliza na fronteira entre a percepção dos limites e das possibilidades de si e do outro.

Na obra nietzschiana tem-se que toda criação parte de uma avaliação. Valores pôs o homem nas coisas a fim de conservar-se; ele foi o que pôs valores nas coisas e um sentido, um sentido humano. Por isso se chama homem, o que avalia. (...) A transmutação dos valores é transmutação do que cria. Sempre o que cria precisa destruir4. Mantendo o viés crítico de sua obra, no qual aponta a enorme utilização do fascismo para se atingir o humanismo, Foucault, no prefácio da edição americana da obra O Anti-Édipo de Deleuze e Guattari, exorta: não se apaixone pelo poder5. Contudo, tal como canta Gonzaguinha, eu nem atino, mas, todos os dias, calmamente, assassino meu vizinho de cima. E, pela cidade, sem qualquer maldade, mato, tranqüilamente, que se me ponha na frente, através dos suores, humores e gestos e olhares. Atitudes que a barra da vida põe em nossas mentes6.

Dos cotidianos microfascismos destaca Raul Seixas que é sempre mais fácil achar que a culpa é do outro, evita(-se) o aperto de mão de um possível aliado. Convence as paredes do quarto, e dorme tranqüilo sabendo no fundo do peito que não era nada daquilo7. E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial que está contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social8. Mais um pacifista se iguala a policia e ao ladrão, um pai de família, pacato cidadão, que não nota que o filho só ouve e repete, simplesmente, a palavra não9. Destarte, toda forma de conduta se transforma numa luta armada10, pois o fascismo é fascinante e deixa a gente ignorante e fascinada! 11 De repente deixei de ser gente! Sou mais um bicho na rua pra vencer qualquer batalha12.



Da cama p'ro banho, do banho p'rá sala. O sono persiste, o sol já não tarda. A vida insiste em servir um velho ritual que sempre serve a tantos outros: o mesmo pão comido aos poucos. Se senta e abre o jornal, tudo parece normal: um dia a menos, um crime a mais, no fundo, no fundo, no fundo tanto faz. Já é hora de vestir o velho paletó surrado e caminhar sobre o caminho pisado que conduz rumo à batalha que inicia a cada dia: conseguir um lugar p'rá sentar e sonhar na lotação. E é tudo igual, igual, igual... No fim dos dias úteis há os dias inúteis que não bastam p'rá lembrar ou p'rá esquecer de quem se é...13

Tão” vendendo ingresso pra ver nego morrer no osso. Vou fechar as janelas pra ver se não ouço as mazelas dos outros14. Desligo a tv pra que as crianças não achem normal todo dia matar, morrer, mas sobre o futuro, o que eu vou dizer? (...) Fecho os vidros, fecho a casa, mas a alma não tem trinco, tá escancarada... Fecho a minha roupa, fecho a minha cara, mas a alma não tem trinco, nem defesa, nem nada15. E ainda, no corpo, p'rá ver os olhos vão de bicicleta até enxergar; P'rá ouvir as orelhas dão os talheres de escutar; P'rá dizer os lábios são duas almofadas de falar; P'rá sentir as narinas não viram chaminés sem respirar; P'rá ir as pernas estão no automóvel sem andar16.

Grita-se: onde estamos? Sente-se que tudo gira...

Todo mundo quer ser bacana: álbuns, fotos, dicas pro fim de semana. Filmes, sebos, modas, cabelos, cabeça-feita, receitas perfeitas, descobertas geniais. Todo mundo acha que é novo tribos, gírias, grifes, adornos, ritmos exóticos, viagens experimentais.

Pré-pós-tudo-bossa-band – Mente que sempre muito bem!

Pré-pós-tudo-bossa-band – Gosto que me enrosco em quem?

Pré-pós-tudo-bossa-band - Não sei, mas tô dizendo amém.
Todo mundo quer ser da hora: tem nego sambando com o ego de fora! Caras, bocas, marcas estilos, o “ó” do bobó, o rei da cocada, a pedra fundamental. Todo mundo quer ser de novo o novo o ovo de pé, o estouro, ícones atlânticos, o dono da voz crucial.
Pré-pós-tudo-bossa-band – Não ví, mas sinto que já vem.

Pré-pós-tudo-bossa-band – Moderno, eu não te enxergo bem.

Pré-pós-tudo-bossa-band – Tá cego, mas tá guiando alguém, mas tá guiando alguém? Eu hein!17
Não há como estar vivo e ser indiferente à vida, pois a todo o momento o que vive tem de avaliar, posto que a própria vida valora por meio dele. Mas não pode, como observou Zaratustra, avaliar como seu vizinho se quiser se conservar. Nunca dois vizinhos se compreenderam: cada um se espanta da loucura e da maldade do vizinho18. Para Zaratustra, que muitos povos viu, não há maior poder na Terra que bem e mal. E é sobre bem e mal que se forma a tábua de valores que rege cada povo ou bando. Tal tábua é a tábua dos triunfos dos seus esforços; é a voz de sua vontade de poder19 ao longo da história. E para além do bem e do mal, bem como, para além dos impulsos eróticos e destrutivos20 que atravessam e constituem os seres humanos, nas travessuras de Moska canta Zélia Duncan: a alegria do pecado, às vezes, toma conta de mim... e é tão bom não ser divina! Me cobrir de humanidade me fascina e me aproxima do céu21...

Mas, enfim, qual a finalidade da vida humana? Tal como diz o dito popular: essa nem Freud explica! Mas, o pensador alemão destaca que:



A questão da finalidade da vida humana já foi posta inúmeras vezes. Jamais encontrou resposta satisfatória, e talvez não a tenha sequer. Muitos dos que a puseram acrescentaram: se a vida não tiver finalidade, perderá qualquer valor. Mas esta ameaça nada altera. Parece, isto sim, que temos o direito de rejeitar a questão. O seu pressuposto parece ser aquela humana soberba de que já conhecemos tantos exemplos. Ninguém fala sobre a finalidade da vida dos animais, a menos que ela consista em servir aos homens, talvez. Mas isso também não é sustentável, pois com muitos animais o ser humano não sabe o que fazer – exceto descrevê-los, classificá-los, estudá-los – e inúmeras espécies animais se furtam também a este uso, ao viver e se extinguir antes que o homem as visse. Novamente, apenas a religião sabe responder à questão sobre a finalidade da vida.22

Segundo Freud, a vida, tal qual nos coube, é muito difícil para nós, traz demasiadas dores, decepções, tarefas insolúveis.23 Nietzsche complementa: falta aqui uma oposição entre um mundo verdadeiro e um mundo aparente: há somente um mundo, e este é falso, cruel, contraditório, enganoso, sem sentido.24 Por sua vez, dirá Lenine acerca daquele que vive:


Precário, provisório, perecível; Falível, transitório, transitivo; Efêmero, fugaz e passageiro. Eis aqui um vivo, eis aqui um vivo!

Impuro, imperfeito, impermanente; Incerto, incompleto, inconstante; Instável, variável, defectivo. Eis aqui um vivo, eis aqui...

E apesar... do tráfico, do tráfego equívoco; Do tóxico, do trânsito nocivo; Da droga, do indigesto digestivo;Do câncer vil, do servo e do servil; Da mente o mal doente coletivo; Do sangue o mal do soro positivo;

E apesar dessas e outras... O vivo afirma firme afirmativo: o que mais vale a pena é estar vivo! É estar vivo. Vivo... É estar vivo.

Não feito, não perfeito, não completo; Não satisfeito nunca, não contente; Não acabado, não definitivo. Eis aqui um vivo, eis-me aqui.25


Ao longo dos tempos, apesar de tantos percalços, a vida humana persiste, insiste em viver. Transe de violência, vaidade demente, guerras à nossa espreita, restos à nossa frente. Que ferramenta eu uso pra viver? Como é que eu faço pra ajudar você?26 Em meio a tantas situações, questões e canções a humanidade foi transmitindo, das mais diversas formas, suas experiências, seus jeitos e traquejos para se conservar e, em certo sentido, se superar. Nesse diapasão, grosso modo, a Educação tornou-se o processo por meio do qual o animal falante (o hominídeo ou o homo sapiens sapiens demens) se torna humano.

O homem é uma invenção. (...) Se estas disposições [que o inventaram] viessem a desaparecer, se, por algum acontecimento de que podemos quando muito pressentir a possibilidade, mas de que no momento não conhecemos ainda nem a forma nem a promessa, se desvanecessem, como aconteceu, na curva do século XVIII, com o solo do pensamento clássico – então se pode apostar que o homem se desvaneceria, como, na orla do mar, um rosto de areia27.

De acordo com Foucault, práticas verticais e horizontais de “sedução”, controle e vigilância, portanto, práticas de poder, produzem domínios de saber que, por sua vez produzem um particular sujeito. Nesta situação, um sujeito do conhecimento, é uma subjetividade que vai se reelaborando na relação com os valores e perspectivas sociais – bem e mal, certo e errado, normal e patológico – que a ela se impõem ou que simplesmente estão dispostas historicamente em seu meio de convívio. Nesse sentido, pode-se dizer que não existe um sujeito humano dado preliminarmente – pronto, essencial, indelével –, mas, sim, relações com tipos de saberes que produzem tipos (Typus) de sujeitos. De outro modo, o saber que se faz prática social (dispositivos) produz um in-determinado sujeito.



Práticas sociais podem chegar a engendrar domínios de saber que não somente fazem aparecer novos objetos, novos conceitos, novas técnicas, mas também fazem nascerem formas totalmente novas de sujeitos e sujeitos de conhecimento. O próprio sujeito de conhecimento tem uma história, a relação do sujeito com o objeto, ou, mais claramente, a própria verdade tem uma história.28

No capítulo II da obra Microfísica do poder29 intitulado Nietzsche, a genealogia e a história, Foucault contrapõe um conceito de história tido por história efetiva a um ponto de vista supra-histórico em que um ser humano soberano dirige-se ao passado a fim de restringir a multiplicidade da vida, do tempo e das interpretações morais a ponto de tomá-la sobre si mesmo e para si mesmo como um encadeamento lógico de reconhecimento e reconciliação, permitindo-lhe elencar valores e “verdades” que objetivam julgar a realidade – e criar outras realidades metafísicas – que sempre lhe dê a possibilidade de manter seus domínios. Tal como aponta Agamben, o soberano é aquele que diz: eu, o soberano, que estou fora da lei, declaro que não há um fora da lei30.

Mas o que quer aquele que busca a “verdade”? Bem e mal são os juízos de valor provenientes de tal querer. Obtidos antes da experiência sensível do contato com outras forças, tais valores são valores ideais, são juízos a priori. São forças reativas que surgem da inversão de seu direcionamento. Ao invés de serem projetadas no mundo retornam ao corpo – individual e coletivo – do sujeito que adoece por não atualizar a vida, por viver em prol de um novo como se o novo existisse. Vive-se apenas a dimensão de conservação da vida visando através das relações entre saber e poder conhecer para se antecipar aos percalços da mesma e corrigir o caráter errante e impessoal desta. Ocorre que tal perspectiva sempre exigiu do ser humano um constante exercício de vigilância, renuncia e repressão de si e do outro.

Não é demais resgatar que na Segunda Dissertação da Genealogia da Moral, Nietzsche traz a má consciência e seu estupor ao corpo como a doença que o ser humano adquiriu ao ter de desprezar e reprimir seus instintos, seus velhos e certeiros guias e confiar na consciência – o mais falível e frágil de seus órgãos. Por sua vez, o sentimento de culpa é o mal-estar da civilização como promulgou indubitavelmente a obra freudiana. A clínica psicanalítica surge ao buscar a interpretação dessa força que re-age no corpo ao ser sufocada pela busca sem êxito do sujeito por moldar-se e adaptar-se ao que lhe é imposto culturalmente como o ideal do bem e alhear-se do que é tido como mal. A psicanálise perfaz a consideração e o acolhimento do que há de bem e mal (e de bom e ruim) no ser humano. Conforme apresenta Ernest Jones, Freud pretendeu representar o sentimento de culpa como o mais importante problema na evolução da cultura, e deu a entender que o preço do progresso no seio da civilização é pago pela privação da felicidade através da intensificação do sentimento de culpa31. Nesse veio, uma educação para além do bem e do mal se volta ao educando como uma gama ferramentas (teórico/práticas) a partir da qual o sujeito pode interpretar e re-elaborar a cultura em que está inserido transvalorando seus valores, livrando-se do jugo da má consciência e do sentimento de culpa; bendizendo a vida!


Benditas coisas que eu não sei

Os lugares onde não fui

Os gostos que não provei

Meus verdes ainda não maduros

Os espaços que ainda procuro

Os amores que eu nunca encontrei

Benditas coisas que não sejam benditas


A vida é curta

Mas enquanto dura

Posso durante um minuto ou mais

Te beijar pra sempre o amor não mente, não mente jamais

E desconhece do relógio o velho futuro

O tempo escorre num piscar de olhos

E dura muito além dos nossos sonhos mais puros

Bom é não saber o quanto a vida dura

Ou se estarei aqui na primavera futura

Posso brincar de eternidade agora sem culpa nenhuma32


A vida não cabe e nem se exaure em nenhuma produção humana. Nossos sentidos e sentimentos acerca da vida são, tal como nós mesmos, apenas manifestações desta, situadas em tempos e espaços encharcados de (in)determinados tipos de percepções deste pequeno e frágil ser que se nominou humano. O problema é que o Homem inventou e inventa todo o seu bem e seu mal, seus prazeres e desprazeres e busca de uma forma ou outra legitimá-los. A potência da vida em uma educação para além do bem e do mal se encontra na dança e nos versos daquele que brinca com as palavras. A legitimidade de suas composições encontra-se nos seus próprios passos, gemidos e olhares... na poeira da estrada.

Porque se chamava moço também se chamava estrada, viagem de ventania. Nem lembra se olhou pra trás ao primeiro passo, aço, aço...

Porque se chamava homem também se chamavam sonhos e sonhos não envelhecem. Em meio a tantos gases lacrimogêneos ficam calmos, calmos, calmos... E lá se vai mais um dia.

E basta contar compasso e basta contar consigo que a chama não tem pavio. De tudo se faz canção e o coração na curva de um rio, rio... E lá se vai mais um dia.

E o Rio de asfalto e gente entorna pelas ladeiras, entope o meio fio. Esquina mais de um milhão quero ver então a gente, gente, gente... E lá se vai mais um dia33.


A pé até encontrar um caminho, o lugar no que eu sou34. Nietzsche na obra Crepúsculo dos ídolos35 expressa que nossas vivências mais íntimas não são nada tagarelas. E que, quando se tem palavras para o indizível, estas já estão superadas, e, assim, com a fala, se vulgariza o falante. Pensar, então, é uma forma de captar algumas nuances da vida, mas não de dominá-la, controlá-la ou abranger toda sua plenitude. Tal como expresso por Neruda, a vida, em seus estojos de jóias, é infinita como a areia... incontável, pura36. As materializações humanas, objetivas ou subjetivas, são apenas um recorte da vida, pois que a mesma não cabe em nenhuma maquinação racional humana; tanto menos nas celas de aulas ou GRADES curriculares. Afinal, se a vida se faz metamórfica e como um valor invalorável, ou seja, sem uma estética absoluta e finita de si mesma – sinônimo de plenitude –, os processos de constituição de subjetividades advindos da Educação (formal) não podem ocorrer com a finalidade de formatar algo informatável, valorar algo invalorável.

Nesse sentido, grosso modo, uma educação para além do bem e do mal é uma educação potente. Uma educação viva que engendra processos de conservação e superação de si mesmo. Mas esse “si mesmo” não é algo isolado, e, sim, um indivíduo-coletivo, um ser vivo que participa da vida, ou seja, que é vida com o outro e está nela com o outro, constituindo assim, uma ética do sensível. Mas, talvez, o mais importante a destacar, é que tal educação dá-se no experimento de si, na experiência sensível do outro (pessoa ou coisa) livre de pré-conceitos ou juízos de valor a priori.

Atonal ou descompassada, fazendo com que muitos Homens se percam nas comas da ilusão37, é certo que a vida não cabe por inteiro em nenhuma das partituras ou instrumentos musicais criados pelo ser humano. Mas, também parece certo, que este último, este móbile solto no furacão, em diversas situações, canta e dança em delírio tal canção, sem distinguir, em muitos compassos, o instante em que se faz criador ou criatura, intérprete ou platéia, instrumento ou arranjador, pois é a vida que o chama para festa!

A lógica do vento; O caos do pensamento; A paz na solidão; A órbita do tempo; A pausa do retrato; A voz da intuição; A curva do universo; A fórmula do acaso; O alcance da promessa; O salto do desejo; O agora e o infinito; Só o que me interessa.38 E o que interessa a uma educação para além do bem e do mal é acolher e atuar a partir da potência da vida, de todos os seus elementos. É um estar-se preso por vontade, é servir a quem vence, o vencedor; É um ter com quem nos mata a lealdade. Tão contrário a si é o mesmo amor.39 Assim, em uma educação para além do bem e do mal em sua interface com a música é mister aprender a amar:

Eis o que sucede conosco na música: primeiro temos que aprender a ouvir uma figura, uma melodia, a detectá-la, distingui-la, isolando-a e demarcando-a como uma vida em si; então é necessário empenho e boa vontade para suportá-la, não obstante sua estranheza, usar de paciência com seu olhar e sua expressão, de brandura com o que nela é singular: – enfim chega o momento em que estamos habituados a ela, em que a esperamos, em que sentimos que ela nos faria falta, se faltasse; e ela continua a exercer sua coação e sua magia, incessantemente, até que nos tornamos seus humildes e extasiados amantes, que nada mais querem do mundo senão ela e novamente ela. – Mas eis que isso não nos sucede apenas na música: foi exatamente assim que aprendemos a amar todas as coisas que agora amamos. Afinal sempre somos recompensados pela nossa boa vontade, nossa paciência, eqüidade, ternura para com o que é estranho, na medida em que a estranheza tira lentamente o véu e se apresenta como uma nova e indizível beleza: – é a sua gratidão por nossa hospitalidade. Também quem ama a si mesmo aprendeu-o por esse caminho: não há outro caminho. Também o amor há que ser aprendido40.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS & FONOGRÁFICAS

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1 Psicólogo pós-graduado pelo Programa de Pós-Graduação em Educação do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista – UNESP – campus Rio Claro – SP – defendo a dissertação Uma educação para além do bem e do mal: o limiar da experiência educativa de um móbile solto no furacão, sob orientação do Prof. Dr. César Donizetti Pereira Leite. Trabalho parcialmente financiado pela CAPES.

2 FALCÃO, D. LENINE. É o que me interessa. Em: Lenine. Álbum Labiata. 2008.


3 LARROSA, J. A libertação da liberdade. Em: Retratos de Foucault. Em: PORTOCARRERO, V. e BRANCO, G. C. (Orgs.) Retratos de Foucault. Rio de Janeiro: NAU, 2000. p. 328-335.

4 NIETZSCHE, F. Assim falava Zaratustra – um livro para todos e para ninguém. 2ª ed. Tradução e notas explicativas da simbólica nietzschiana de Mário Ferreira dos Santos. Petrópolis: Editora Vozes, 2007. p.87.

5 FOUCAULT, M. O Anti-Édipo – uma introdução a uma vida não-fascista. Em: DELEUZE, G. & GUATTARI, F. O anti-édipo: capitalismo e esquizofrenia. Lisboa: Assírio e Alvin, 1972.

6 GONZAGA JÚNIOR, L. Pacato Cidadão. Álbum: Gonzaguinha. Série: Bis. CD 1. EMI, 1995.

7 SEIXAS, R. Por quem os sinos dobram. Álbum: Por quem os sinos dobram, 1979.

8 SEIXAS, R. Ouro de tolo. Álbum: Krig-Ha, Bandolo, 1973.

9 GONZAGA JÚNIOR, L. 1995.

10 GESSINGER, H. Toda forma de poder. Em: Engenheiros do Hawaii. Álbum: 10.000 Destinos, 2000.

11 Ibdem.

12 GONZAGA JÚNIOR, L. 1995.

13 VIANNA, H. O caminho pisado. Em: Os Paralamas do Sucesso. Álbum: 9 luas. EMI, 1996.

14 DINIZ, J. Coração aos saltos. Álbum: Juliana Diniz. Universal Music, 2005.

15 DUNCAN, Z. e LUIZ, P. Braços cruzados. Em: Zélia Duncan. Álbum: Pré-pós-tudo-bossa-band. 2007.

16 FROMMER, M.; REIS, N.; VIANNA, H. O caroço da cabeça. Em: Os Paralamas do Sucesso. Álbum: 9 luas. EMI, 1996.

17 DUNCAN, Z. e LENINE. Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band. Em: Zélia Duncan. Álbum: Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band. 2007.

18 NIETZSCHE, 2007. p.87.

19 Ibidem.

20 Cf. FREUD, S. O mal-estar na civilização, 1930.

21 DUNCAN, Z. e MOSKA, P. Carne e osso. Em: Zélia Duncan. Álbum: Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band. 2007.

22 FREUD, S. O mal-estar na civilização. Em: Obras completas. Volume 18 (1930-1936). Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 29.

23 Idem, p. 28.

24 NIETZSCHE, F. Sobre “O nascimento da tragédia”. Fragmento póstumo – 1888. Em: Coleção Os pensadores. Ed. Nova Cultural Ltda., 1999, p. 49.

25 LENINE e RENNÓ, C. Vivo. Em: Lenine. Álbum: In Cité. Warner Music, 2005.

26 DUNCAN, Z. e LUIZ, P. Braços cruzados. Em: Zélia Duncan. Álbum: Pré-pós-tudo-bossa-band. 2007.

27 FOUCAULT, M. As palavras e as coisas - uma arqueologia das ciências humanas. Tradução: Salma Tannus Muchail. São Paulo, Martins Fontes. 2007, p.536.

28 FOUCAULT, M. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: Nau, 1996, p. 8.

29 FOUCAULT, M. Microfísica do poder. 24ª ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2007.

30 AGAMBEN, G. Homo Sacer: O Poder Soberano e a Vida Nua I. 2ª reimpressão. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2007, p. 23.

31 JONES, E. Vida e obra de Sigmund Freud. V. I e II. Rio de Janeiro: Zahar, 1970.

32 DUNCAN, Z.; Martinalha. Benditas. Em: DUNCAN, Z. Em: Pré-pós-tudo-bossa-band, 2006.

33 NASCIMENTO, M.; BORGES, L. e BORGES, M. Clube da esquina 2. Em: VENTURINI, F. Álbum: Noites com sol. Velas, 1994.

34 REIS, N. Os Cegos do castelo. Em: Titãs. Álbum: Acústico MTV. WEA Music, 1997.

35 NIETZSCHE, F. 1999. § 26.

36 NERUDA, P. (...) No filme Ponto de Mutação. Direção Bernet Capra. USA, 1986.

37 DJAVAN. Seduzir. Álbum: Ao vivo. Sony Music, 1999.

38 LENINE e FALCÃO, D., 2008.

39 RUSSO, R. Monte castelo Em: URBANA, L. Álbum: As Quatro Estações, 1989. (trechos do Soneto 11 de Luis de Camões).

40 NIETZSCHE, F., 2001, pp. 221-2.





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