Uma vivência de prática de ensino/ estágio supervisionado apoiada na pedagogia de projetos educativos



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UMA VIVÊNCIA DE PRÁTICA DE ENSINO/ ESTÁGIO SUPERVISIONADO PAUTADA NA PEDAGOGIA DE PROJETOS EDUCATIVOS
Silvia Marques Ferreira Lima

INTRODUÇÃO
Neste ensaio trazemos nosso relato acerca de uma experiência de estágio vivenciada a partir de uma intervenção coletiva construída com as turmas de 7° e 8° semestre de 2005 do Curso de Pedagogia da Universidade Estadual do Ceará – UECE. Inicialmente retratamos a problematização ancorada na fundamentação teórica de nosso trabalho, em seguida descrevemos a metodologia para finalizarmos discorrendo sobre a vivencia desta atividade na voz das alunas.

Ao fazê-lo temos a agradável sensação de que nestas produções, que publicamos e socializamos em eventos que discutem a prática de ensino e o estágio supervisionado, contribuímos para fertilizar o saber profissional advindo do nosso cotidiano, e renovamos coletivamente as metodologias oriundas de legítimas práticas criativas e inovadoras porque alicerçadas no real/vivido e sentido com nossos alunos e diverso sócio-cultural.


PROBLEMATIZAÇÃO
A formação do professor em “continuum” (formação inicial e educação continuada) constitui-se o grande desafio para os cursos de formação do Educador. Nóvoa (1982) defende a necessidade de um profissional crítico-reflexivo em três dimensões: individual, profissional e organizacional. Com essa abordagem, emerge uma abrangência maior no tratamento dessa questão, pois envolve, desde o pensamento de Nias (1991) “o Professor é uma pessoa e parte dessa pessoa é o professor”, até o seu crescimento, práticas coletivas, ações sindicais, a partir de seu cotidiano.

O Estágio Supervisionado, enquanto componente curricular em seus fundamentos teóricos e práticos, é trabalhado a partir de Pimenta (1994), onde são colocadas questões da maior importância sobre o tema: “É possível fazer unidade teórica e prática? Professores precisam de mais teoria ou de mais prática? Ou precisam de ambas?” A autora conduz seus estudos para conceitos de Estágio, que buscam superar as dicotomias e dão um direcionamento a essa prática.

Nessa busca da unidade teoria e prática, o Estágio situa-se, não apenas como a hora de por em prática os conhecimentos recebidos, mas como aproximação refletida da realidade da escola, “atividade teórica (conhecimento da realidade e definição da realidade) instrumentalizadora da práxis do futuro educador”. (Pimenta, 1994)

A práxis (ação, reflexão e ação refletida) será realizada na socialização do saber da Universidade, buscando, no quotidiano escolar, os elementos da reflexão, troca de experiências e estudos teóricos que fundamentem a prática. “O processo de conscientização inicia-se com o conhecimento da realidade. E só se torna completo quando existe uma unidade dinâmica e dialética entre a prática do desvelamento da realidade e a prática da transformação da realidade” - Paulo Freire (1974).

Estamos iniciando essa nova experiência em Estágio Supervisionado em que “o estágio é atividade teórica instrumentalizadora da práxis do futuro professor”. (Pimenta, 1994) E dessa forma deixa de ser “a hora de pôr em prática a teoria recebida” para ser o que Schön (1992) chama de “reflexão na e para a ação”.

É com base nesses conceitos que trabalhamos a disciplina Pratica de Ensino Fundamental com alunas do Curso de Pedagogia da Universidade Estadual do Ceará – UECE na qual desenvolvemos um projeto desdobrado em sub- projetos e realizado pelas equipes na escola de aplicação da instituição. Ele é elaborado, discutido e analisado de forma que, no final da disciplina possamos apresentar resultados de uma experiência realmente válida, tanto para nós do Curso de Pedagogia, como para a escola.


ASPÉCTOS METODOLÓGICOS
A pedagogia de projetos foi a metodologia escolhida para vivenciar esta prática na escola por apresentar-se como uma concepção de posturas pedagógicas com princípio ativo, integrador, possibilitando ao imaginário grande aproximação da realidade e da vida do aluno, minimizando a artificialidade da escola. Neste sentido o aluno estagiário experimenta uma desconstrução das teorias apreendidas no Curso de Pedagogia, reconstrói-se a partir da prática de ensino na realidade escolar, tendo por base os estudos teóricos feitos na Universidade, associando-os a sua formação individual, alicerçada em sua história de vida. Portanto o estágio proporciona ao aluno a possibilidade concreta de vivenciar a experiência de ensino enquanto valiosa contribuição para o exercício de atitudes criativas na solução de problemas e dificuldades enfrentadas.

Objetivando uma boa formação do estagiário, iniciamos a disciplina com um embasamento teórico . Após este primeiro momento fazemos o diagnóstico da escola sede do estágio, em seguida realizamos o diagnóstico nas turmas que sediarão os projetos educativos. Concomitante a este momento é efetivado uma atividade de identificação dos interesses dos alunos e da escola.E, de posse do plano anual, cada grupo de dois ou três alunos entrevistam as professoras das turmas, objetivando identificar os objetivos educacionais e necessidades de sua turma. Neste momento todas as atividades são socializadas entre as alunas estagiárias gerando assim um momento de troca de experiências, concluindo-se aqui a primeira fase do projeto – a intencionalidade.

A fase seguinte – de preparação é o momento de coleta e seleção do material bibliográfico e metodológico, montagem dos textos e busca de outros meios necessários à solução dos problemas detectados.A fase de operacionalização é o ponto alto de nossa experiência, portanto é cuidadosamente acompanhada pelos professores supervisores, tendo o relatório reflexivo como o elemento orientador. Finalmente a avaliação é a etapa que evidencia o crescimento dos envolvidos neste percurso ou seja, alunos, estagiários e professores. A culminância dos projetos educativos ocorre também neste momento, ocasião em que toda a escola participa das apresentações culturais em torno dos temas e/ou conteúdos estudados. Assim o aluno estagiário tem a oportunidade de vivenciar, todas as fases não só do projeto educativo, mas do processo de aprendizagem em todos os seus tempos.

RESULTADOS - A voz das alunas

A expectativa de cursar a disciplina de Prática do Ensino Fundamental apenas no último semestre do Curso de Pedagogia, a princípio, foi um misto de ansiedade, angústia, medo e insegurança. A proposta da Disciplina foi, então, de enfrentarmos as dificuldades e, mesmo tardiamente, vivenciar a experiência em sala de aula como algo imprescindível à nossa formação. Sentimo-nos desafiadas e impulsionadas a realmente encarar a Prática do Ensino Fundamental como uma vivência e não apenas como uma disciplina a mais a ser registrada em nosso currículo.

Dessa forma, nossa ida à escola foi precedida de leituras, debates e elaboração de textos reflexivos sobre temas como: Identidade e profissionalização docente (Iria Brzezinski); Conteúdo da humana docência (Miguel Arroyo); Uma grande caminhada começa com o primeiro passo – o diagnóstico da escola, e o portão da escola. (Socorro Lucena); O sensível olhar pensante (Madalena Freire). Também assistimos às palestras (em vídeos): Conhecimento e Ética ( Terezinha Rios) e O Resgate da Cidadania ( Mário Sérgio Cortella). Realizamos também estudos sobre a Pedagogia de Projeto e a interdisciplinaridade.

Nossa aproximação ao local do estágio se deu a partir da elaboração de um diagnóstico da escola construído a partir de entrevistas com os diversos segmentos da instituição: alunos, professores, servidores e pais e mães de alunos. Antes de nossas regências, elaboramos ainda o diagnóstico da sala de aula em que iríamos atuar através de observações do tipo não-participante e participante.

Embora o universo de sala de aula seja ainda para a gente um grande desafio, é também fascinante. Como a gente aprende com os alunos! Talvez, nossa primeira e maior lição seja exatamente a de que são eles mesmos quem nos mostram como aprendem. Não importa necessariamente quão bom ou inovador seja nosso plano de aula se dissociado dos interesses e da realidade de nossos educandos.

A cada nova aula percebemos o quanto ensino e aprendizagem são indissociáveis, um prescinde o outro. Nós professores precisamos ficar atentos a tal fato para que não incorramos ao erro de nos distanciarmos de nossos alunos percebendo-os como seres estranhos ao nosso processo de formação docente.

É de extrema importância a constante reflexão na ação. A cada novo relatório reflexivo que elaboramos a partir de nossa incipiente prática de sala de aula, temos a oportunidade de nos percebemos como co-responsáveis de nosso alunos no processo de aprendizagem; temos a oportunidade de percebemos o quanto crescemos e aprendemos a cada regência; temos, ainda, a oportunidade de nos percebermos amadurecendo de forma rápida sim, mas que nos convida o tempo todo a nos aperfeiçoarmos cada vez mais e a refletirmos que não há como nos sentirmos prontas.

Já nas primeiras regências podemos entender melhor o real significado da formação contínua do docente. Esta, não consiste apenas em fazer cursos, estudar, atualizar-se, enfim, investir na formação intelectual (o que é de extrema importância). Nossas primeiras aulas nos fizeram sentir que para investir na formação continuada, precisamos entender que aprendemos de forma ainda mais significativa a cada aula, com cada turma, com cada aluno. Estamos nos preparando para a finalização desta atividade e esperamos poder partilhar estes resultados, para tanto lhes fazemos um convite.

Disponibilizem-se e se compreendam num complexo contexto social, cultural, político e econômico em que ambos são imprescindíveis para o processo educacional. Lembrem-se de que não aprendemos apenas com nossos livros, mas também com nossos cotidianos, com nossas vidas, uns com os outros. Acreditamos ser o respeito mútuo nas relações entre educadores e educandos a peça primordial para vivenciarmos em nossas escolas e salas de aula o que o ilustre Miguel Arroyo denomina de “humana docência”.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARROYO, M. G. Ofício de Mestre: imagens e auto-imagens. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

BRZEZINSKI, I. (Org.). Profissão professor: identidade e profissionalização docente. Brasília: Plano, 2002.

CAVALCANTE M.M.D.e LIMA M.S.L. et all Prática de ensino. Fort. Ed Uece, 2004.

CELISTRE,S.S.Interdisciplinaridade:atitude de abertura Fortaleza,2003.(mimeo)

CORTELLA, M.S. O conhecimento e a escola. São Paulo,Vozes,1999.

LIMA M.S.L (org.) A hora da prática: reflexões sobre o estágio supervisionado e a ação docente. Fortaleza;Ed. Demócrito Rocha,2001.

LOPES.A.C.M. Sobre projetos educativos. Fortaleza,2004.(mimeo)

NÓVOA, Antônio. Os professores e sua formação. Porto: Porto Editora, 1992.

PIMENTA S.G.e LIMA M.S.L. Estágio e Docência. São Paulo.Cortez.2004.

RIOS, T.A. Compreender e ensinar: por uma docência da melhor qualidade. São Paulo: Cortez, 2001.



RIBEIRO.S. Sobre projetos educativos. Fortaleza,2004.(mimeo)



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