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Universidade da Beira Interior – Dissertação de Mestrado em Ciências Documentais – Covilhã 2011

<Bibliografia Crítica sobre a Temática de Celorico da Beira Carla Martins>

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Introdução

A presente dissertação, realizada no âmbito das Ciências Documentais, é o resultado de um vasto levantamento bibliográfico e documental sobre a Vila de Celorico da Beira, sede de concelho, disponível em diversos locais, desde arquivos e bibliotecas à internet, assim como sob as mais diversas formas, de revistas e livros a teses de doutoramento.

Sem dúvida, estudar uma terra é um curioso, mas complexo tema de investigação. Deste modo, algumas lacunas inevitavelmente aparecerão, pois um trabalho desta natureza exige constante actualização e dificilmente chegará o dia em que esteja tudo dito. O objectivo principal desta dissertação passa, não só pela recolha da documentação disponível sobre Celorico da Beira, mas também pela sua ordenação temática, comentário e alguma interpretação, seguindo aquela que é a perspectiva de Orlando Ribeiro1: “interpretar é menos encontrar relações causais do que aproximar factos, sugerir encadeamentos, e deixar o caminho aberto à reflexão e à dúvida renovadora.” Como não aspira só ao levantamento de acontecimentos históricos, não pretende ser apenas uma simples bibliografia histórica, procurará também abordar uma variedade de áreas, desde a geografia e geologia, até à cultura, passando pela demografia e pela administração, entre outras, para que possa suscitar interesse para uma futura elaboração de uma Monografia do Concelho de Celorico da Beira. Esta seria uma obra mais completa, rica e documentalmente mais recheada ao seguir o sentido da busca, da salvaguarda e do tratamento do material arquivístico apresentado de imediato, não esquecendo a importância do mesmo para a valorização da actualidade. Além disso, as monografias locais são indispensáveis à síntese histórica. A economia, a sociedade e a cultura não são as mesmas em todo o país. Elas adaptam-se à geografia, adaptam-se às tradições e estão dependentes de outros factores como as comunicações, a população e a sua riqueza. Como se pode ler em Graça Maria Soares Nunes2, Alexandre Herculano foi um defensor da história local porque “considerava as monografias locais preciosos contributos para o muito que ainda há a fazer no labor histórico do país”. Ainda a seu respeito diz-se:

“A obra de Herculano em prol da História Local e Regional culminou com a publicação da portaria de 8 de Novembro de 1847 que recomendava às Câmaras Municipais a coordenação e organização da sua história através da publicação e recolha nos Anais do Município de toda a factologia socialmente importante que ocorresse nos concelhos. Esta portaria foi de grande lucidez e iniciou a ideia bastante correcta na nossa actualidade que a história dum país não se faz sem o contributo da história local.”3

Felizmente, um pouco por todo o país o interesse pelos estudos locais tem vindo a aumentar, quer ou não apoiados pelas autarquias ou outras instituições representativas das comunidades locais, por exemplo, pelas associações de defesa do património, colectividades e associações juvenis. Relativamente ao caso de Celorico da Beira, muito se tem escrito sobre esta vila beirã, mais do que alguma vez pude imaginar. Por vezes, gostamos tanto da nossa terra que pensamos que a conhecemos realmente. Contudo, este conhecimento é ilusório. Podemos, de facto, conhecer um ou outro edifício, uma ou outra rua, mas sabemos o que escondem? Na verdade, poucos o sabem e sem querer escapam-nos pormenores que quando conhecidos são uma mais-valia para todos. Ditosamente, tive a oportunidade de conhecer melhor a terra onde cresci, através desse percurso no tempo que os diversos documentos existentes sobre a vila transportam até nós, sedentos do saber. Esta redescoberta, apresentada na primeira parte da dissertação, é, por si só, já gratificante, mas poderá sê-lo mais se partilhar todo este património bibliográfico com aqueles que nutrem algum afecto por este local que, como a crítica o disse a respeito da monografia sobre Celorico da Beira do Doutor Manuel de Oliveira Ramos:

“Celorico da Beira tem na história nacional um lugar de relevo. Nos seus territórios se feriram muitas batalhas, se ergueram muitos heróis, se criaram figuras de relevo singular. Em volta dela e por sua iniciativa se teceram indústrias variadas de uma grande e apurada perfeição, se formaram costumes interessantes, se movimentou uma população, rica de virtudes cristãs e cívicas, que são ainda hoje um grande exemplo e um vivo estímulo.”4


No entanto, está longe de ser um trabalho minucioso, como o é o do Doutor Manuel Ramos de Oliveira, ao qual a crítica chegou a designar de “enciclopédia Celoricense”5 tais são as preciosas informações que contém no que se refere à topografia, história, arqueologia, não só da vila, como também de todas as freguesias e anexas do concelho. A escolha do processo de organização daquela vasta informação recaiu na divisão por partes e capítulos. Assim, a primeira parte é um estudo genérico sobre a Vila de Celorico da Beira, repartido por vinte e um capítulos referentes a vários aspectos que vão desde a topografia à etnografia; a segunda parte também subdividida em capítulos, que no total perfazem dezanove, em que cada um trata de uma das freguesias6 do concelho de Celorico da Beira. Mais tardio e sucinto é o trabalho de Adriano Vasco Rodrigues7. Ao contrário do seu antecessor, este tratado sobre Celorico da Beira e Linhares não está organizado em capítulos, mas em títulos independentes. Apresenta, todavia, uma interessante referência às datas importantes para Celorico da Beira, numa cronologia que começa em 900 e termina em 1992.

Anteriores a estes, encontramos o texto de 1808 de Luiz Duarte Villela da Silva, presbítero secular e pároco na diocese de Lisboa, oferecido a sua Alteza Real, o Príncipe Regente N.S., ao qual deu o nome de Compêndio Histórico da Villa de Celorico da Beira8. Trata-se de uma compilação de quatro aspectos da vila, sendo o primeiro “Antiguidade e situação da Villa de Celorico da Beira”; o segundo “Antiguidade e fundação do Castelo, Mercês e Privilégios concedidos aos Moradores de Celorico, seu Valor e Fidelidade”; o terceiro “Fundação das Igrejas Paroquiais”; e o quarto e último “Catálogo dos Homens Ilustres de Celorico, seus escritos e acções”. Este é talvez o primeiro tratado de Celorico da Beira que se conhece. Mais recentemente foi lançado o livro Celorico da Beira Através da História9, uma parceria entre a CM de Celorico da Beira e a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, alimentado pela necessidade de actualizar “as anteriores publicações com novas informações, fruto dos trabalhos de índole histórico-arqueológico que se têm vindo a desenvolver no nosso território.”10 Essencialmente esta edição é de âmago histórico, uma vez que retrata Celorico em diversas épocas da história. São elas: Pré e Proto-História; Época Romana; Alta Idade Média; Baixa Idade Média; Época Moderna; e Época Contemporânea.

Com o desenvolvimento do turismo rural, outras publicações têm surgido, embora de índole mais informativa dando conta do que de belo se pode ver em Celorico da Beira e arredores11, chamando atenção para o que caracteriza esta região12, como é o caso do Queijo da Serra da Estrela, do qual Celorico se diz Capital. Outro exemplo, em formato livro, é o Roteiro Turístico lançado pela CM em Fevereiro de 2005. Em formato digital também já existe alguma informação sobre esta pacata vila beirã, nomeadamente na página online da CM de Celorico da Beira13. Existe ainda um documento digital na BMEL14 que tem informações sobre a vila e de cada uma das freguesias, no que diz respeito à história, à população, ao desenvolvimento económico, ao turismo, às tradições, à gastronomia e ao artesanato. Numa altura em que se fala tanto em globalização, importa desenvolver uma política de incentivo à defesa do património local, permitindo que este chegue a toda a gente. Foi com esta pretensão que nasceu este trabalho que, mesmo de forma abreviada, fosse capaz de reunir todo o espólio documental possível para dar a conhecer aos presentes e aos vindouros a riqueza desse património inestimável, que importa salvaguardar e promover. Mais importante ainda será talvez mostrar como Celorico, agora local de passagem insignificante, já ocupou outrora um lugar de destaque.

No que diz respeito à preservação da documentação relativa a Celorico da Beira, importa tratar, não só a forma como esta está a ser realizada, mas também a sua acessibilidade. Isto é, se por um lado, a preservação de documentos arquivísticos tem por objectivo garantir a autenticidade e a integridade da informação, por outro lado, o acesso depende das condições dos documentos a ser utilizados. Logo, o desafio da preservação dos documentos arquivísticos passa por garantir o acesso contínuo aos seus conteúdos e funcionalidades, pelos meios tecnológicos disponíveis. Como se sabe, o documento digital, tão divulgado nos dias de hoje, tem proporcionado grandes facilidades nas áreas de processamento, armazenamento e acesso à informação, de uma forma eficaz e económica. De facto, a facilidade e a qualidade no acesso à informação, poupando os documentos originais ao manuseamento excessivo, são as vantagens desta nova área. No entanto, surge um outro tema que se relaciona com a selecção e prioridade dos documentos a digitalizar. Estas e outras questões irão ser tratadas naquela que é a segunda parte desta dissertação, uma vez que a primeira irá ser inteiramente dedicada ao registo, análise e/ou comentário do levantamento bibliográfico que foi realizado durante a primeira fase da elaboração da mesma.



Parte I
Geografia, História, Demografia, Administração, Economia e Desenvolvimento, Religião e Cultura Celoricenses em Geral
Propor uma pesquisa e uma reflexão sobre o passado e o presente da microrregião de Celorico da Beira é uma tarefa ambiciosa, principalmente, quando o intuito passa pela preocupação constante de organizar a informação recolhida de uma forma lógica, sem diminuições nem repetições. O resultado desejado corresponderia à elaboração de uma espécie de enciclopédia do conhecimento local, que importaria divulgar no local a que diz respeito, não apenas para que os habitantes desta microrregião fiquem a conhecê-la melhor, mas, sobretudo, para que suscite dúvidas e levante problemas e, consequentemente, outras monografia, com uma nova visão, possam surgir. Antes de dar continuidade à explicação da divisão temática, convém elucidar conceito de “microrregião” aplicado ao espaço de influência de Celorico da Beira. A especificidade do seu clima advém-lhe da sua localização no Vale do Mondego entre a Cordilheira Central e o Planalto Beirão, e reflecte-se numa variedade ímpar de fauna e flora. Existe, por exemplo, uma população curiosa de Halimium viscosum15, uma espécie de sargaço pertencente à família dos Cistaceae, típica das zonas mediterrâneas. Esta população foi alvo de um estudo que deu origem a um novo quimiotipo16 conhecido agora como Celorico da Beira. Obtiveram-se mais de vinte compostos novos que foram descritos em três artigos científicos17, numa tese de licenciatura18, numa tese de mestrado19 e num capítulo de um livro20. A respeito da homogeneidade e diferenciação das regiões naturais, Orlando Ribeiro, no volume VI de Opúsculos Geográficos, atesta que:

“A beira é a zona mais irregular e polimórfica de todo o território português. As suas feições permitem uma divisão em compartimentos geográficos e estes em quadros secundários que estabelecem a passagem entre os compartimentos que se encontram ao norte do Douro, ao Sul do Tejo e na faixa ocidental mesozóica. A Serra da Estrela é a feição principal de todo o edifício beirense.”21


O mesmo autor, no mesmo livro, acrescenta: “Estudam-se, na Beira, 30 sub-regiões menores, tiradas principalmente de particularidades de situação relativa a montanhas ou rios, de natureza do solo ou decorrente economia, vivas no conceito do povo (...)”.22

Para além das duas monografias sobre Celorico da Beira, do Professor Manuel Ramos de Oliveira e Adriano Vasco Rodrigues, e do Compêndico Histórico da Villa de Celorico da Beira do Padre Luiz Villela, mencionados anteriormente, existem outros textos que dedicam alguma atenção a esta vila da Beira Interior. Por exemplo, a Bibliografia das Monografias Locais23, do Ministério da Educação, Projecto A.O.T. de 1990, indica para Celorico da Beira, o Ensaio para a Monografia Regional da Guarda nos seus Aspecto Históricos, Geográficos, Etnológicos, Económico-social e Sociocultural, de Alda Maria Carvalho Dias e a revista Beira Alta, ano I, apresenta um artigo de Numa Pompílio24 intitulado “Celorico da Beira”. Abordar-se-á, em maior pormenor, as duas monografias que até à data são as mais abrangentes sobre a temática de Celorico da Beira: Celorico e o seu Concelho, Através da História e da Tradição, cuja primeira edição data de 1939; e Celorico da Beira e Linhares, Monografia Histórica e Artística. A primeira é mais completa, não só porque abrange todas as freguesias do Concelho, mas também porque descreve as características geo-morfológicas deste espaço que é o do concelho de Celorico da Beira, narra as origens e os sucessos da história política, administrativa, económica, religiosa e artística do mesmo. Já a segunda, intitulada “Monografia Histórica e Artística”, não é mais do que um tratado sobre a história e a arte da Vila de Celorico da Beira e da sua freguesia de Linhares da Beira, provavelmente uma das mais históricas porque obteve em tempos passados também o título de Vila. Adriano Vasco Rodrigues, talvez pelo facto de ser arqueólogo, deu mais importância a essa área, em detrimento de outras, como é o caso da geografia. Contudo, como Graça Maria Soares Nunes refere: “o factor geográfico, sem ser determinante, impõe condicionantes de ordem natural, económica e até política”25. Acrescenta ainda que:

“O investigador local, hoje em dia, deve efectuar com o devido cuidado uma abordagem transdisciplinar nos estudos que faz baseando-se em disciplinas como: geografia regional, história rural, Arqueologia rural, Arqueologia Industrial, Património Local, História da Tradição Oral, Toponímia local, história do municipalismo, entre outras.”26
Orlando Ribeiro, no quarto volume do seu trabalho Opúsculos Geográficos27 sobre Estudos

Regionais, defende uma perspectiva semelhante, uma vez que aconselha a realização de um inquérito de geografia regional sobre os temas: I. Relevo, Solo; II. Clima; III. Hidrografia; IV. Vegetação, Matas; V. Árvores de Fruto, Vinha; VI. Produtos da Agricultura; VII. Sistemas de Cultura; VIII. Gados; IX. Propriedade e Exploração; X. Indústria, Comércio, Vida de Relação; XI Habitação; XII. Povoamento; XIII. População; XIV. Fronteira; XV. Divisões Territoriais; XVI. O Passado. Esse inquérito seria distribuído a conjunto diferente de pessoas da área a estudar, a professores primários, párocos, autoridades administrativas, agricultores, entre outros. Ribeiro alerta para o seguinte: “É sempre conveniente interrogar, na mesma terra, várias pessoas, de sexo, idade e mester diferentes, e assegurar-se assim da generalidade das respostas.”28; porque, na sua perspectiva, no caso das monografias locais ou regionais: “O que importa apurar é o facto comum, corrente, e não a excepção, por mais curiosa que seja.”29 Depois dos resultados apurados, o conteúdo reunido seria a matéria sobre a qual iria incidir a monografia local ou regional daquela área estudada, seguindo de perto a divisão temática anteriormente apresentada. No entanto, Orlando Ribeiro alerta que um investigador não pode limitar-se a interrogar a terra, tem também de olhar sempre as gentes e a sua vontade, procurando as raízes da sua identidade. Antes dele, já Leite de Vasconcelos defendia que “o presente provém do passado”30.

Anteriores a esta divisão temática são os esquemas de Manuel Silva e Laranjo Coeino divulgados no texto de Armando B. Malheiro da Silva31. Enquanto o primeiro apresenta uma segmentação entre “Fontes Modernas (científicas) ” e “Fontes clássicas (literárias e artísticas)”, subdividindo as primeiras em: Geologia, Antropologia, Arqueologia, Etnografia e Romologia; e as segundas em: Filologia, Literatura, Diplomática e Arte; o segundo sugere a seguinte abordagem: O Meio Natural; História; O Lugar; A População; A Vida Económica; A Propriedade Imobiliária; Vida Administrativa; Vida Religiosa. No mesmo documento, deparamo-nos com uma outra proposta de divisão temática, desta vez defendida por Marcelo Caetano, naquilo a que chamou de Plano para a elaboração de Monografias sobre os Concelhos Portugueses32. Ao contrário das anteriores, recomenda uma divisão tripartida, partindo daquilo que considera serem as principais áreas a desenvolver: I. História do Concelho; II. Vida Económica e Social; III. Vida Administrativa; alertando para a necessidade de a monografia ser um estudo vivo e documentado do concelho a estudar e não apenas simples resposta a um questionário. Foi com base nestas propostas de estudo local e/ou regional que o texto que se segue foi organizado, tendo em conta as especificidades da Vila e do Concelho de Celorico da Beira e seguindo de perto aquela que é a definição mais comum associada ao termo monografia, tal como nos é apresentada por Armando da Silva:

“O termo monografia, apesar de equivocidade que lhe é própria, tem sido vulgarmente identificado com o recitativo de incidência local, que descreve as características geo-morfológicas de um espaço – freguesias, concelhos ou regiões -, que narra as origens e os sucessos da história política, administrativa, económica, religiosa e artística dos homens aí sedeados (…). Trata-se de um sentido específico e único, que só recentemente encontrou réplica adequada numa expressão, a meu ver, mais ampla e sugestiva – estudos locais.”33


No que diz respeito ao tratamento geográfico, além dos manuais de Orlando Ribeiro34, também foi consultado o manual As Regiões Portuguesas, de Jorge Gaspar, editado em 1993 pelo Ministério do Planeamento e da Administração do Território, Secretaria de Estado do Planeamento e desenvolvimento Regional, e o texto “A História Regional e Local – Contributos para o estudo das Identidades Locais” escrito por Graça Maria Soares Nunes.

I. Geografia
A Geografia é uma ciência que tem por objecto de estudo o espaço geográfico. No entanto, esse espaço geográfico, principalmente, no que diz respeito a uma povoação, não deixa de ser também um espaço social que acontece temporalmente, isto é, durante a história. O espaço existe por meio de uma sociedade que o encarna, o constrói e o vive. Portanto, o espaço é também uma construção social, que expressa as relações dos humanos com a natureza, durante a história. Os temas que se seguem são uma tentativa de compreensão da importância do espaço em que se insere a Vila de Celorico da Beira.

1.1. Situação Geográfica

Celorico da Beira é uma vila serrana que pertence ao distrito35 da Guarda, região36 Centro37 (NUT II) e sub-região da Beira Interior38 Norte (NUT III)39. O seu concelho é composto por vinte e duas freguesias40, o que completa uma área total de 24.722 ha. Faz fronteira com os concelhos de Fornos de Algodres, a poente, Gouveia, a sul, Guarda, a nascente, Trancoso, a norte41. Em superfície, a maior freguesia do concelho é Fornotelheiro, com 2.076,32 ha, contrastando com Cortiçô da Serra, com apenas 478,75 ha. No entanto, o concelho e a própria vila não tiveram sempre estas dimensões. Existem inúmeros documentos arquivados na Torre do Tombo42, no Arquivo Distrital da Guarda e no Arquivo Municipal de Celorico que fornecem informações sobre os limites do concelho de Celorico da Beira que já é Vila desde 1512, altura em que D. Manuel lhe outorga novo foral.43 Entre eles, destacam-se os Registos de Nascimento, Óbito, Casamento e das Memórias Paroquiais. Sabe-se que o seu concelho teve outrora três Vilas (Fornotelheiro, Baraçal e Açores) e que faziam parte do seu “termo”: Aldeia Viçosa (na altura, designada de Porco), Cavadoude, Vila Cortês e Sobral da Serra. Como se pode ler em Celorico da Beira: Capital da Serra da Estrela:

“Em 1855, por Decreto de 24 de Outubro, o Concelho de Celorico perderia estas quatro freguesias para o concelho da Guarda, mas passaria a ficar-lhe anexado o concelho de Linhares, extinto pelo Decreto citado, com a maior parte das suas freguesias. (…) Assim, em pouco menos de cento e cinquenta anos, o Concelho de Celorico da Beira definiu as suas «fronteiras» tal como hoje se apresentam.”44
Adriano Vasco Rodrigues, no seu livro Celorico da Beira e Linhares, apenas faz um breve enquadramento geográfico da vila, no capítulo que designa de “Breviário Geográfico, Administrativo e Turístico do Concelho de Celorico da Beira”45. No entanto, não deixa de reforçar a sua antiguidade, ao escrever: “Podemos vislumbrar a presença humana na região de Celorico da Beira a partir do paleolítico, ou, mais concretamente, da época do Homem de Neandertal, (Homo neandertalensis)”.46 Embora, como o próprio autor confessa, não terem sido encontrados vestígios desta era na área que corresponde ao concelho de Celorico da Beira, o mesmo acredita que a presença humana data dessa altura. Leia-se o que Adriano Vasco Rodrigues diz a respeito deste assunto:

“Dispomos, contudo, felizmente, no vizinho concelho da Guarda, de testemunhos esclarecedores da presença do homem do paleolítico, o que nos leva a aceitar ter também aqui (Celorico da Beira) vivido, atraído pela continuidade geográfica, marcada por condições climáticas, mais favoráveis ao nomadismo, que praticava como caçador.”47


O mesmo não acontece em Celorico e o seu Concelho Através da História e da Tradição de Manuel Ramos de Oliveira, pois o autor, no capítulo II da primeira parte, alude à: “Situação, áreas e zonas em que se divide o concelho”48. Nesse subcapítulo, o Professor Ramos Oliveira dá-nos conta da localização geográfica exacta no meridiano de Greenwich (40º 38’ 24 latitude Norte e 7º 27’ 30 longitude Oeste), da área total do concelho em quilómetros quadrados (253 km2)49, da altitude máxima (1151m)50 e mínima (375m) e da divisão das freguesias do concelho em freguesias do “vale” e freguesias da “serra”, baseando-se, não só na sua situação geográfica, como também na natureza do seu clima. Deste modo, circunscreve as freguesias de Prados, Cadafaz, Rapa, Salgueirais, Vide-entre-Vinhas e Linhares da Beira à zona da “serra”, ou seja, zonas onde predominam as encostas de declive acentuado, originando um relevo bem acidentado, com altitudes superiores a 1.000 m, como é o caso da Penha de Prados, com 1.100 m aproximadamente. Depois faz corresponder as freguesias a sul do concelho, Carrapichana e Mesquitela, por exemplo, às terras do “vale” ou “terra chã”51, ou seja, zonas de menor altitude, mais planas do que acidentadas, embora existam pequenas elevações, dando origem à designada depressão ou bacia de Celorico.52. Assim, as aldeias da serra, parte delas integradas no Parque Natural da Serra da Estrela, têm relevo acentuado e clima agreste, ao passo que as aldeias do vale têm terrenos férteis e clima mais ameno, uma vez que abrangem uma vasta área ao longo do Rio Mondego. Encontramos esta mesma distinção entre “serra” e “vale” em Orlando Ribeiro, que se refere às mesmas como “terra alta” e “terra chã”. O autor baseia esta oposição no clima, nos produtos do solo e nos costumes dos habitantes:

“É sabido de todos que a vida humana se modifica à proporção que se sobe em altitude. O clima muda, a vegetação transforma-se, as culturas empobrecem no seu rendimento e procuram adaptar-se, com certas plantas, à rudeza do ambiente: o que tudo influi na actividade do homem. A população rarefaz-se, aglomera-se em povoações no geral pobres e de fisionomia arcaica, apega-se fortemente a velhas costumeiras e usanças de trabalho, mais rotineira que a gente das terras baixas, planícies ou vales.”53


Assim, as terras “altas” ou “serra” tornam-se normalmente mais desfavorecidas que as terras “chã” ou do “vale”, ou seja, menos povoadas e produtivas. Quanto ao facto de serem menos povoadas, se tivermos em conta os números dos recenseados e votantes das últimas eleições presidenciais54, parece comprovar-se o número reduzido de habitantes, comparativamente, ao número de habitantes das terras do “vale”. Embora no passado, como se pode ver no quadro XIV de recenseamentos55 exposto pelo Professor Ramos Oliveira, a freguesia de Prados, curiosamente a mais alta do concelho, tivesse maior densidade populacional (722 recenseados, em 1960) do que actualmente (336, recenseados nas últimas eleições presidenciais, a 23.01.2011) apresenta. Esta diferença deve-se principalmente à desertificação das zonas rurais, quando a agricultura e a pastorícia deixaram de ser a actividade principal da população, porque como Orlando Ribeiro diz: “a agricultura fixa o homem à terra”56. Já no que diz respeito à produtividade, talvez não seja tão linear quanto isso, afinal, a serra esconde muita água e, como se sabe, as actividades agrícolas dependem e muito da abundância da água. Prados é exemplo de uma povoação da serra rica em água, que a aproveita muito bem:

“Nos sítios chagados à Serra, onde a água é mais abundante, queima-se primeiro o mato, dá-se uma sacha ligeira e mete-se-lhe a água de lima, isto é, rega-se em fios difusos, procurando-se que um delgado manto de água cubra o terreno, e a erva nasce e desenvolve-se espontaneamente e sem outro trabalho. Tal é, por exemplo, o sistema usado nas freguesias serranas de Celorico da Beira.”57


No Roteiro Turístico58 lançado pela CM de Celorico da Beira pode ainda ler-se: “Os encantos da paisagem de montanha, cortada por ribeiros e levadas de água cristalina que vão ao encontro dos vales verdejantes são o cenário típico do Concelho”, discordando completamente com a imagem retratada por Orlando Ribeiro:

“O viajante que atravessa a província no caminho-de-ferro notará, antes de Celorico, a transformação da paisagem. O solo é mais escalvado e agreste, com vastas extensões cinzentas de rocha nua, onde os restolhos de centeio põem manchas claras, dispersas. Rareia o milho, o pinhal aparece em tufos esparsos, as culturas confinam-se aos vales, a população aglomera-se em aldeias enormes entre campos desertos. O roble é substituído pelo carvalho pardo da Beira ou pelo carvalho português que indicam um ar mais seco. A castanha e a batata, junto com o pão centeio, entram em larga parte na alimentação. A terra, menos trabalhada pelo homem perdeu o ar acolhedor e mostra expressão severa, retraída, cortada duramente nos enormes fraguedos de granito. Tudo é triste, despido, monótono. (…) Beira Alta e Beira Transmontana, unidas e separadas por montanhas, ambas planaltos graníticos, são diferentes pela altitude, média na primeira, elevada na segunda, pelo clima, pelo tapete vegetal, pelos modos de viver e conviver das populações. Uma é rica, fértil, muito povoada, verdejante, acolhedora. A outra é pobre, fria, nua, pardacenta, pouco povoada, carrancuda e de uma tristeza comunicativa. Um itinerário oeste-leste, do mar à raia, mostra, aqui melhor do que noutro lugar, por transições graduais ou por mutações repentinas, a rica variedade das paisagens portuguesas, das aptidões das terras e das vocações humanas.”59


M.A. Thiers comunga da mesma opinião:

“Il assigna au corps de Reynier comme lieu de repos Belmonte qui est aux sources du Zezère sur le revers sud de l’Estrella, au corps de Junot, Guarda qui est aux sources du Mondego, e tau corps de Ney, Celorico qui est un terrain pierreux, fort aride, fort pauvre, séparant les caux de la Coa de celles du Mondego.60


De opinião diferente é o Coronel Numa Pompílio que antes de enquadrar geograficamente Celorico da Beira (a N.O. da Cidade da Guarda, próximo do Vale do Mondego) confessa: “Celorico da Beira – e não me céga ao dizê-lo o facto de ser Filho Nativo – é uma vila vetusta e florescente”61. E consolida a sua opinião citando os elogios feitos pelo Conde de Oeyuhansen: “quando em 1791 visitou as Praças da Província tendo percorrido a Beira, não encontrou quadro que mais o encantasse do que Celorico!”62 Além disso, voltando à situação geográfica da Vila, o mesmo autor, apoiando-se no que outros proferiram acerca desta matéria, refere-se à mesma da seguinte forma: “(…)Celorico foi, é e sempre será, Ponto Estratégico de primeira ordem, e uma posição bem classificada como «Chave da Dêfesa da Beira».”63 De facto, o posicionamento geográfico da Vila conferiu-lhe uma relevância que foi vital, juntamente com os castelos de Trancoso e Linhares, na estratégia militar da defesa da Beira nas diversas lutas medievais.


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