Universidade da Beira Interior



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1.2. Clima

Quanto à climatologia, Manuel Ramos de Oliveira classifica o clima de Celorico da Beira de “marítimo, ou regular incluído na zona climática do Nordeste ou Terra Fria, Região Atlântica do Norte”64. Para reforçar a sua afirmação apresenta dados estatísticos retirados da obra de Amorim Girão65 relativamente a temperaturas médias, pluviosidade, regime de ventos. Acrescenta ditados populares que se referem aos dados apresentados, por exemplo: “Fevereiro quente traz o diabo no ventre”; “Mal vai Portugal se não vêm três cheias antes do Natal”; “De Espanha, nem bom vento, nem bom casamento”. Já Adriano Vasco Rodrigues faz uma breve referência ao clima, referindo as temperaturas médias anuais66. Embora não seja um local propício a catástrofes naturais, Celorico foi atingido, em meados do século passado, por um ciclone67. A revista dá conta, em mais do que uma edição, dos montantes disponibilizados para os locais onde o ciclone provocou estragos e prejuízos. Entre esses locais, figura Celorico que, em Janeiro 194268, recebeu 12.000 escudos para reparações de edifícios. Já Vale de Azares e Lageosa receberam 3.500 e 2.000 escudos, respectivamente. Outro artigo da mesma revista, menciona que em Maio de 194269 foram dados 2.000 escudos à Lageosa e 800 escudos a S. Pedro pelo mesmo motivo e para o mesmo efeito. Segundo a classificação de Köppen70, é do tipo Csb (clima temperado, com Inverno chuvoso e Verão seco e pouco quente)71. O facto de estar localizado no Vale do Mondego, entre a Cordilheira Central e o Planalto Beirão, torna o clima de Celorico muito específico72, que embora temperado, nas freguesias da serra, atinge temperaturas muito baixas no Inverno, o que muito contribui a proximidade da Serra da Estrela. Criam-se assim as condições para um microclima muito específico que permite uma variedade ímpar de fauna e flora.



1.3. Relevo

Inserido na região Centro e na Beira Alta da sub-região Beira Interior, Celorico da Beira tem as mesmas características, com uma ou outra variedade, da região e sub-região em que se insere. Nomeadamente no que refere à geomorfologia, tal como a Beira Interior, a zona de Celorico da Beira é: “de natureza cristalofilina e metamórfica, com alguns depósitos terciários e quaternários, de pequena extensão, geralmente confinados a bacias de génese tectónica.”73 Orlando Ribeiro74 compara a bacia de Celorico à da Cova da Beira, ambas resultantes de depressões e alinhamentos tectónicos.



Na monografia do Professor Manuel Ramos de Oliveira, encontramos o estudo orográfico75 do concelho de Celorico da Beira, no qual o autor divide o concelho em três zonas hipsométricas76: de 200m a 400m; dos 400 aos 700m e dos 700 aos 1.300m, sendo a segunda a que ocupa a maior parte do concelho, cerca de 19.060 ha. O autor conclui, por isso, que: “Se examinarmos a carta corográfica do Concelho vemos que é possível a sua divisão em zonas de relevo relativamente uniforme.”77 A vila de Celorico da Beira está, conforme dois documentos78 encontrados na Biblioteca Nacional de França online79, a 405m de altitude “à micôte d’une coline, au-desses de la rive g. du fleuve.”80


    1. Hidrologia

A nível hidrográfico81, o concelho de Celorico da Beira é, segundo Manuel Ramos de Oliveira, percorrido por diversas linhas de água, algumas de pequeno caudal e percurso, outras, como é o caso do Rio Mondego, de grande importância. Também importantes, embora de menor caudal, são as ribeiras da Vila Boa, Linhares, Cabeça Alta, Espinheiro, Olas e Velosa. A única bacia hidrográfica completa no concelho é, no entender do mesmo autor, a ribeira da Vila Boa que nasce em Salgueirais, cuja área é de 3 390 ha. Aponta ainda os afluentes do rio Mondego e dedica a este rio um subcapítulo, onde relata a sua origem e descreve o seu historial, acompanhando ambos com quadras por diversos autores, como por exemplo Augusto Gil82 ou Silva Teles83, ao Mondego, tentado assim mostrar, a sua importância. Também faz referências aos lugares históricos, como é o caso da Ponte do Ladrão “onde estacionou durante muito algum tempo uma força francesa de observação a quando da retirada de Massena”84, dá exemplos de cheias memoráveis, como, por exemplo, a de 1749, segundo o autor, “foi uma das mais horrorosas, causando avultado prejuízo ao termo que ainda não se estendia até Porto da Carne”85. Dá ainda conta dos poços (Poço da Truta), dos açudes (Açude de Santo António), das pontes (Ponte da Lavandeira), dos moinhos (Moinho da Machada), das águas medicinais (do Fornotelheiro), da fauna (a afamada truta) e da flora (o amieiro). Na verdade, as águas de Celorico foram em tempos célebres pela sua Estação Termal de Celorico-Gare, sita na Quinta de Santo António, como bem nos lembra o Coronel Numa Pompílio86, hoje votada ao esquecimento. O Professor Ramos de Oliveira, no capítulo que dedicou à freguesia da Ratoeira, também menciona “uma nascente de águas medicinais (sulfurosas) com excelentes qualidades terapêuticas. Apesar de não estarem devidamente exploradas, muita gente faz uso delas com óptimos resultados.” Ainda a respeito da água de Celorico, também se encontra um documento na Biblioteca de França que lhe atribui a prevenção de cáries dentárias, uma vez que contém muito flúor. Leia-se: “Beaucoup d’eaux minérales d’ Europe renferment du flúor. (…) Il n’y a donc rien d’étonnant à ce que les eaux de Royat-Saint-Mart, Vichy, Celorico, Larderello, no provoquent pás de dystrophies dentaires.”87

Num outro documento, desta vez digital88, é-nos dito que no início do século XX, mais concretamente em 1912, a vila de Celorico da Beira passou a dispor de um aproveitamento de águas no rio Mondego, a central Pantaleão. Este desenvolvimento ficou a dever-se, em grande medida, a um engenheiro espanhol, Javier Sanches Manteola, que então ali estava ao serviço de uma empresa mineira em trabalhos de prospecção. Ele próprio fez os estudos e as plantas necessários para a construção da dita central eléctrica. Esta central foi explorada pela CM até à concessão da distribuição passar para a Empresa Hidroeléctrica da Serra da Estrela (EHESE), em Junho de 1945, altura em que foi desmantelada. Noutro documento digital89 encontra-se informação sobre duas centrais eléctricas que funcionaram em Celorico da Beira entre 1928 e 1945. Foram elas: a de Pantaleão, da CM; e a Sociedade Industrial da Beira, central termoeléctrica de serviço particular. A primeira era uma central mista, uma vez que os geradores eram accionados durante a estiagem por um motor a óleos pesados de 100 cv, e funcionou até Junho de 1945, altura em que passou a receber energia da EHESE. A segunda era anterior a 1928 e funcionou até 1931 a 8 kW de potência.

Nos jornais de Celorico da Beira consultados na Biblioteca Nacional, em Lisboa, encontram-se várias notícias, em alguns desses periódicos, que comprovam a existência de uma central eléctrica. Em 1919, no Notícias de Celorico90, alude-se ao problema da falta da luz eléctrica. No Jornal de Celorico91, do mesmo ano, mas cinco meses mais tarde, na rubrica “Interesses do Concelho” existe uma queixa da população pelo facto de só terem uma hora de luz eléctrica por noite, há pelo menos três ou quatro meses, e queixam-se também por não estar a ser feita a cobrança há mais de um ano. Critica-se a situação e sugere-se que o consumidor devia recusar-se a pagar tudo de uma vez e acrescentam que o prejuízo maior é para a CM. Ainda comentam que a iluminação92 sem motor é uma questão de “mais ano menos ano”93. No entanto, talvez tenha demorado mais do que o esperado, já que no jornal Terra da Beira, de 28.06.1925, na rubrica dos “Melhoramentos locais”94, aponta-se a luz eléctrica como uma melhoria necessária e urgente. No mesmo jornal, mas de 25.07.1926, ou seja, pouco mais de um ano depois do anúncio da luz eléctrica a motor, encontra-se uma notícia sobre os encargos incomportáveis da iluminação pública a motor para a Câmara Municipal. A 24 de Outubro do mesmo ano, o mesmo jornal, no número 181, dá conta de um incêndio na central eléctrica. Em 1942, o Coronel Numa Pompílio escreve que: “a luz eléctrica ainda deixa muito a desejar, como é, defeituosíssima”95.

Actualmente a distribuição das águas públicas está ao encargo da empresa Águas do Zêzere e Côa, que é uma sociedade anónima de direito privado e capitais exclusivamente públicos. Tem como seus accionistas as Águas de Portugal, a Associação de Municípios da Cova da Beira e os Municípios utilizadores do sistema multimunicipal de abastecimento de águas e de saneamento do Alto Zêzere e Côa96. Esta empresa celebrou um contrato de concessão com o estado Português (DL nº121/2000, de 4 de Julho) que lhe permite construir, gerir e explorar o sistema multimunicipal por um período de trinta anos. Os primeiros municípios a celebrar contratos de fornecimento de água e recolha de águas residuais foram Almeida, Belmonte, Guarda, entre outros. O Município de Celorico da Beira só passou a dispor dos serviços da empresa Águas do Zêzere e Côa após despacho Ministerial nº 181/2003, de 03 de Setembro de 2003.


1.5. Fauna e Flora

Começa a existir alguma sensibilidade no que respeita à valorização e preservação do meio ambiente. Prova disso, foi o seminário sobre a diversidade realizado a 24.05.201097 bem como a exposição de fotografias da natureza98 exibida pelo Centro Cultural de Celorico da Beira entre Maio e Junho do ano transacto. A exposição, de nome “Passeio pelo Mondego” da autoria de Mário Martins99, debruçava-se sobre  a fauna e flora do Vale do Mondego e  pretendia sensibilizar para um olhar mais atento ao mundo natural que nos rodeia, cujas  características muito específicas se devem  ao microclima da região. O Roteiro Turístico100, lançado pela CM de Celorico da Beira em 2005, descreve Celorico como uma zona de caça e pesca, que segundo a mesma fonte são favorecidas pelas condições naturais e pelas infra-estruturas existentes. Dentro das últimas, distinguem-se alguns clubes de caçadores que frequentemente organizam montarias, batidas, caçadas e largadas. Os seus alvos são, entre outros, o javali (sus scrofa), a lebre (lepus europaeus), o coelho (orictolagus cuniculus), a raposa (vulpes vulpes), a perdiz (alectoris rufa), o tordo (turdus philomelos), a rola (streptopelia turtur), a codorniz (coturnix coturnix), como se pode ver no calendário das ZCM da época 2010, publicadas na página online oficial da CM de Celorico da Beira101. Ainda no mesmo documento, menciona-se a pesca de barbo (barbus bocagei) e escalo (squalius) as quais são organizadas, muitas vezes em concursos, atraindo um grande número de concorrentes102. No texto do Professor Ramos de Oliveira, encontramos também referência às espécies abundantes de boga (condros troma plylepsis) e truta (oncorhynchus mykis):



“Assim no-lo afirmam documentos antigos, entre os quais a informação prestada pelos três párocos da Vila em 1758. A própria truta de que raramente se vê algum exemplar, desapareceu igualmente do rio, e as outras espécies estão condenadas a total destruição se rápidas medidas não forem tomadas com tempo (…)”103
No entanto, não são só as espécies da fauna que estão condenadas à extinção, as da flora correm riscos semelhantes, como se pode ler em Jorge Gaspar: “A floresta do pinheiro bravo, aqui e ali já substituída pelo eucalipto, tornou-se uma das imagens mais fortes da paisagem da Região Centro. Pinhais que, em grandes extensões, têm sido destruídos por incêndios (…)”104 Estes incêndios105 têm sido ora de origem criminosa, ora de descuidos, quando alguns agricultores fazem queimadas, às quais perdem o controlo. Orlando Ribeiro afirma que “As queimadas também se fazem, (…) na Serra da estrela, no concelho de Celorico, por exemplo.”106 Contudo, não são apenas os incêndios os responsáveis pela redução das áreas florestais, habitats de tantas espécies animais e vegetais. Também a prática da agricultura e a construção têm contribuído e muito para que essa diminuição acontecesse. Basta analisar os dados apresentados pelo Professor Ramos de Oliveira, em que a vasta área cultivada (87,58%) concorre com a diminuta percentagem da área florestal (8,22%)107, onde se inclui o pinhal, o souto e o carvalhal. Ao contrário do que acontece na maior parte da região centro, seguindo a perspectiva de Jorge Gaspar, no concelho de Celorico da Beira, ainda abunda o pinheiro, a espécie mais representativa do concelho, seguida do carvalho e da oliveira. Os quatro lagares reconhecidos108 e existentes no concelho de Celorico da Beira contribuem com o seu excedente para comercialização do famoso “Azeite da Beira Interior”109, autenticado pela Denominação de Origem Protegida (DOP), a denominação tradicional e consagrada pelo uso "Azeite da Beira Alta" e "Azeite da Beira Baixa". O uso destas denominações fica reservado aos produtos que obedeçam às características estipuladas no caderno de especificações110, aos produtores expressamente autorizados pelo Agrupamento - Associação de Produtores de Azeite da Beira Interior, que se comprometam a respeitar todas as disposições constantes do Caderno de Especificações e se submetam ao controlo a realizar pelo Organismo Privado de Controlo e Certificação (OPC) reconhecido, a CERTIALENTEJO - Certificação de Produtos Agrícolas, Ld.ª111. Mais raros são já o castanheiro, a azinheira, o sobreiro, o freixo e a videira112. Esta última e o castanheiro foram dizimados por doenças, a primeira pela filoxera113 e o segundo pela doença da tinta114. Hoje em dia, o castanheiro apenas existe em número considerável nas freguesias da Rapa, Cadafaz e Prados, as chamadas freguesias da serra. Relativamente à videira, nomeadamente a um dos produtos que dela deriva, o vinho, o autarca de Celorico da Beira, José Monteiro, recordou, naquele que foi e 1º Encontro e Prova Internacional de Vinhos115, realizado entre 17 e 19 de Março do corrente ano, que esse mesmo produto já foi muito importante na economia do Concelho, mas actualmente a realidade, infelizmente, é bem diferente116, apesar de não há muito tempo atrás, em 1942, o Coronel Numa Pompílio escrevia: “Em todo o Concelho há abundância de vinho e azeite.”117

Felizmente, têm-se feito muito mais do que simplesmente alertar. Celorico da Beira, juntamente com os concelhos de Manteigas, Gouveia e Seia, já faz parte do projecto de sensibilização e formação dos proprietários de áreas silvopastoris para o uso da técnica de fogo controlado118. Outras iniciativas são: o caso do acordo celebrado entre um proprietário de um terreno em Prados e a Quercus para preservar uma população de narciso-trombeta (narcissus pseudonarcissus), mais conhecido como campainhas amarelas, em vias de extinção119; o incentivo por parte do Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das pescas, no decreto regulamentar nº12/2006, de 24 de Julho120, à silvicultura de carvalho-cerquinho (quercus faginea) e azinheira (quercus rotundifolia) nalgumas partes do concelho de Celorico da Beira, para produção de fruto e lenha121, ou ainda a semana temática, que decorreu em várias localidades inseridas no PNSE, incluindo Celorico da Beira, tinha como principais actividades a devolução à natureza de várias aves da espécie mocho de orelhas (otus scops), recuperadas no CERVAS122, com o objectivo de sensibilizar as populações para a importância destes animais e para o trabalho realizado pelos centros de recuperação de fauna selvagem.



II. História
Em tempos de globalização onde os espaços e as distâncias são cada vez menores e a cultura está cada vez mais uniforme, valorizar o “local” pode ser uma forma de resgate e sobrevivência da identidade de uma comunidade, para evitar que os seus costumes e expressões culturais se extingam. Estudar a história de uma localidade ou da sua região implica recuperar memórias dispersas e variadas. O estudo local recupera a existência de homens e mulheres que ajudaram, directa ou indirectamente, à construção da localidade, fortalecendo a consciência história, o sentimento de pertença, de identidade, ou seja, elementos fundamentais para a formação da cidadania tão almejada numa sociedade democrática. Conhecer, entender, respeitar e preservar as raízes e a origem de uma comunidade ou região é sobretudo garantir a esse povo a condição de existir e proteger a sua identidade, valorizando e cultivando a sua história local, facilitando o entendimento e a inserção dos seus habitantes no contexto histórico, não só regional mas também nacional. Os temas que se seguem são resultado de um levantamento histórico da formação do município de Celorico da Beira através da análise das fontes históricas disponíveis.

2.1. Figuras Ilustres

No Capítulo XXI da Primeira Parte da Monografia do Professor Manuel Ramos de Oliveira, Celorico da Beira e o seu Concelho: Através da História e da Tradição, intitulado “Filhos Ilustres: De Mem Bugalho a Sacadura Cabral; Escritores e Poetas, Santos e Guerreiros, Heróis e Traidores”123 encontram-se as figuras ilustres que tiveram berço em Celorico da Beira. Muitos deles ficarão para sempre gravados no Município, através da designação de ruas, avenidas, travessas, largos, entre outros, naquela que foi a forma encontrada pelos máximos responsáveis políticos da autarquia para homenagear estas figuras tão distintas124. Embora o professor Manuel Ramos de Oliveira tenha feito um retrato minucioso de alguns deles, apoiado nas informações que recolheu na Torre do Tombo e na Biblioteca da Ajuda, apenas se mencionará o que se considerou relevante125. Pela extensão da lista de personalidades apresentada na tabela em anexo, pode concluir-se que Celorico da Beira foi berço de um grande número de “bacharéis, professores, oficiais e sobretudo sacerdotes”126.

No tratado histórico que o Padre Luiz Duarte Villela da Silva escreveu sobre Celorico e ao qual chamou de Compêndio Histórico da Villa de Celorico da Beira, elege algumas famílias ilustres de Celorico da Beira: os Abreos, os Almeidas, os Macebos, os Cunhas, os Saraivas, os Sousa, os Pachecos, os Sá e os Osórios. O Professor Manuel Ramos de Oliveira realizou, pelo menos, o estudo genealógico de uma família nobre de Celorico: Os Cabrais. Justifica a sua escolha da seguinte forma:

“Foram muitas as famílias nobres que em Celorico tiveram solar, destacando-se entre elas a dos Cabrais, que lançou profundas ramificações em toda a região estendendo-se a vários pontos do país. Rara é a aldeia do concelho e poucas as do distrito que não contam este apelido nalguns dos seus habitantes, muitas vezes já confundido com outros que a ele se juntaram por meio de alianças matrimoniais.”127


Esta família foi extremamente importante porque, além de Celorico, mais cinco freguesias têm Brasões com armas. São elas: Açores, Fornotelheiro, Lageosa, Ratoeira e Vale Azares. Encontrar os descendentes desta grandiosa família não é tarefa fácil, uma vez que “alguns extinguiram-se e outros dispersaram-se, trocando o apelido.”128 Em relação às famílias nobres do concelho, o Professor alerta:

“Devemos contudo dizer que aqui e em toda a parte a nobreza do Concelho não colhia muito a simpatia das camadas populares, em geral pouco benévola talvez pela diferença das condições sociais das duas classes. Assim, os Carvalhos e Velosos, ricos e invejosos; Osórios e Cabrais, são todos iguais; Pachecos e Maldonado, levados do diabo.”129


A respeito das personalidades, naturais de Celorico da Beira ou do Concelho, Adriano Vasco Rodrigues apenas trata a figura de Sacadura Cabral, do qual apresenta uma biografia pormenorizada de três páginas. Refere, nomeadamente, que a 23 de Maio, nascia em Celorico da Beira aquele que viria a ser o primeiro aviador a fazer a travessia aérea do Atlântico Sul, Artur de Sacadura Freire Cabral. Oficial da Marinha, de 1902 a 1911, vindo especializar-se em piloto aviador de hidroaviões em 1916. Já o texto do Coronel Numa Pompílio dá a saber que Sacadura Cabral, “o grande Herói Celoricense”130, foi baptizado na Igreja de São Pedro. Nos jornais de Celorico da Beira disponíveis para consulta na BNP, também é possível ler algumas notícias sobre esta personalidade. No Voz da Misericórdia de Maio de 1989, a propósito das comemorações do 108 aniversário sobre o nascimento de Sacadura Cabral, apresentam uma quadra popular sobre o herói:

“Alegrai-vos raparigas

Raparigas do Toural

Deixai passar a barquinha

Do Sacadura Cabral.
Do Sacadura Cabral

Também do Gago Coutinho

Descobriram o Brasil

Nas asas de um passarinho.”131


No periódico Terra da Beira132, encontram-se diversas notícias sobre Sacadura Cabral: no nº49 existe uma notícia que diz que Sacadura Cabral “manda um abraço ao povo da sua terra”; no nº67, anuncia-se uma “Homenagem a Sacadura Cabral” marcada para o 16 de Junho; o nº114, dá conta do desaparecimento trágico do aviador celoricense; o nº121, revela o montante já angariado para a execução de um busto de Sacadura Cabral, que só viria a ser exposto e inaugurado a 15.11.1972, tal como nos é transmitido por Adriano Vasco Rodrigues: “Estivera presentes, o Presidente da República, os ministros, almirantes e generais e o bom povo da sua terra.”133 No Noticias de Celorico134, de Maio de 1919, relata-se a tentativa da travessia aérea do atlântico. Celorico da Beira orgulha-se de ter sido o berço deste “Herói da navegação aérea”, de tal maneira que o feriado do Município é celebrado em sua honra, na data do seu aniversário, a 23 de Maio. Subentende-se que de todas as figuras notáveis já nomeadas, que de algum modo estão ligados a Celorico da Beira, o Município distingue Sacadura Cabral como o seu filho mais ilustre. Prova disso são as palavras publicadas na página online da CM: “O dia 23 de Maio tem um significado muito especial para todos os Celoricenses, na medida em que se comemora o seu Feriado Municipal135, o qual constitui o mote para que o filho mais ilustre desta terra seja relembrado”136.

Outro exemplo de fontes bibliográficas que nomeiam algumas personalidades notáveis de Celorico é o livro Panoramas do Distrito da Guarda137, que inicia o capítulo sobre o concelho de Celorico, com um poema que faz referência a pelo menos três delas: D. Fernão Pacheco138 (alcaide do Castelo de Celorico, partidário de D. Sancho I, ligado à Lenda da Truta), D. Rodrigo Mendes de Sousa (irmão de D. Gonçalo Mendes, ambos alcaides dos castelos de Celorico e Linhares, respectivamente, associados à Lenda da Lua Nova - 1187) e Sacadura Cabral (Artur de Sacadura Freire Cabral, oficial e aviador da Marinha Portuguesa que realizou a primeira travessia aérea do Atlântico Sul). A propósito das origens históricas de Celorico, a mesma obra nomeia várias figuras da História de Portugal, que também fazem parte da história de Celorico: D. Afonso Henriques conquistou Celorico aos Mouros, conferiu-lhe Foral139 e nomeou alcaide-mor da vila, D. Moninho Dola. O castelo data da época romana e foi reedificado por D. Dinis. D. Afonso II (1217) confirmou e ampliou os privilégios do foral concedido por D. Afonso Henriques. Fernão Rodrigues Pacheco, alcaide-mor do castelo de Celorico, em 1224, fiel seguidor de D. Sancho, resistiu à tentativa de assalto do castelo por D. Afonso III de Leão (alusão à lenda da truta e da Nossa Senhora de Açor a ao brasão da Vila). A Igreja de S. Martinho e a de S. Pedro foram fundadas pelos templários, a primeira em 1217 e a segunda em 1230. Foral de Cortiçô, dado por Martins Pires e sua esposa, Teresa Martins, senhores daquela povoação em 1254 (foi renovado o foral em 1333). O Fornotelheiro foi vila com juiz ordinário, a partir de D. Fernando da Câmara, sujeito ao Corregedor e Provedor da Guarda. A antiga Jejua, hoje, Vila Boa do Mondego, pertenceu algum tempo ao conde de Soure, e teve foral concedido por D. Martinho Peres, em 1216. Linhares recebeu Foral em 1169 por D. Afonso Henriques, o qual foi renovado, e seus privilégios aumentados, por D. Sancho I (1198), D. Afonso II (1217) e D. Manuel I (1515). Relata a vitória sobre o Mouro Zurar pelos cavaleiros de Linhares. No Maçal do Chão, teve solar a família Alcoforado Cerdeira, incendiada nas invasões francesas. A Mesquitela foi elevada a Condado por D. João IV, dando o título de Conde ao D. Rodrigo de Castro, Governador da Beira. Em 1754, D. José I concedeu o título de Visconde a Luís de Sousa Macedo, honra que se manteve na família até 1819, altura em que D. Luís da Costa de Sousa Macedo e Albuquerque foi elevado a conde. A Mesquitela foi elevada a vila em 1664. A Quinta da Anunciada pertenceu ao Conde de Melo. Em 1500, era Senhor da povoação do Minhocal, o primeiro Marquês de Ferreira, D. Rodrigo de Melo. Nos inícios do século XVII, era seu Morgado, Francisco Cabral de Távora. O mosteiro de Nossa Senhora de Cárquere possuiu algumas terras ali. É natural de prados o ex-ministro da educação nacional, o Prof. Dr. Veiga Simão, e da Rapa, a poetisa Maria José Furtado de Mendonça140, que manteve com Camilo Castelo Branco correspondência cultural. Vale de Azares foi berço o Engenheiro Leopoldo Faria de Gouveia, Director de Estradas do Distrito da Guarda e Director Adjunto da Junta Autónoma de Estradas de Lisboa.

O Coronel Numa Pompílio concorda que “Celorico é Pátria de autênticos valores” mas destaca apenas os nomes que considera mais soantes. É o caso de:




Nome

Comentário

Miguel da Silveira

Autor de várias obras, entre elas, o poema “Restauração de Jerusalém”.

Padre João Cabral

Pertenceu à Companhia de Jesus; um dos melhores oradores do século.

Fernando Cardôzo

Físico Mór na Corte de Madrid; autor de “Obra das Excelências dos Hebrêus”.

Rodrigo Mendes da Silva

Cronista geral de Espanha e Ministro do Supremo Conselho; escreveu várias obras.

Martinho de Celorico

Escritor.

Diogo de Andrade

Vigário Geral do Bispado da Guarda; Prior da Igreja Paroquial de Nossa Senhora de Açôres.

Padre Manuel de Escovar

Pertenceu à Companhia de Jesus; teólogo e um dos melhores pregadores do seu tempo.

Frei António de S. Pedro

Levou uma vida de criminoso, mas converteu-se às máximas do Evangelho.

Ana da Fonsêca

Freira professa; escreveu vários textos.

Sá Osório

Marechal de campo

Caldeira

Marechal de campo

Sacadura Cabral

Herói celoricense.

Joaquim Bernardo Soares

Juiz.

José Maria de Sousa Andrade

Juiz.

Eduardo Ribeiro Cabral

Médico e operador.


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