Universidade da Beira Interior



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Tabela 4: Lista de periódicos de Celorico da Beira apresentada por Regina Gouveia.
Este facto não deixa de ser curioso, se tivermos em conta que em 1930, segundo Regina Gouveia, Celorico da Beira apresentava um total de 3819 varões, dos quais 2405, ou seja 63%, eram analfabetos e apenas 1414, ou seja 37%, sabiam ler190. A estes jornais, Adriano Vasco Rodrigues acrescenta, na sua monografia histórica e artística de Celorico da Beira e Linhares, no capítulo sobre “Notas para a História do Jornalismo em Celorico da Beira”191 os periódicos Gazeta da Beira e O Egitaniense. Relativamente ao primeiro, diz ter sido dirigido por António Augusto Mota Feliz e publicado alternadamente em Celorico da Beira e Fornos de Algodres, entre os anos de 1867 e 1888. Em relação ao segundo, explica que foi publicado apenas nos anos de 1868 e 1869192. Ainda a respeito dos periódicos, Adriano Vasco Rodrigues refere que A Gleba, publicado entre 1887 e 1892193 e dirigido por Alberto de Matos, marcou “uma época cultural e política de muito interesse, pois teve como colaboradores vultos importantes, como Manuel de Arriaga”194, entre outros, especialmente ligados ao republicanismo. Quanto ao Cerro Rico, descreve-o como “essencialmente anti-franquista e liberal” e em relação ao Jornal de Celorico e Correio de Celorico diz que “chegaram em 1919 a ter existência simultânea, orientados segundo as correntes partidárias a que obedeciam.”195 Na verdade, tal como hoje, também naquela altura os jornais locais e regionais reflectiam as influências políticas e religiosas dos seus colaboradores. A esse mesmo respeito, Regina Gouveia escreve:

“A criação de órgãos dos arciprestados estendeu-se aos concelhos mais recônditos da Beira, nomeadamente ao de Celorico da Beira, em 1 de Setembro de 1913, no qual surgiu o quinzenário Voz do Pároco, ostensivamente anti-maçónico, editado até 15 de Outubro de 1916, a partir do Porto e de Viseu.”196


A Voz da Misericórdia197 é outro exemplo de periódicos de cariz religioso, uma vez que era publicado mensalmente pela Santa Casa da Misericórdia de Celorico da Beira, assim como um panfleto intitulado Aos Católicos de Celorico da Beira, escrito por João de Oliveira e Álvaro de Oliveira, existente na Hemeroteca da Biblioteca Pública Municipal do Porto, que, de acordo com Adriano Vasco Rodrigues “se insere no período perturbado de conflitos religiosos e políticos, que se seguiram à implantação da República.”198 Um dos autores do panfleto, D. João de Oliveira Matos, sacerdote, professor e bispo da Guarda, acabaria por dar o nome ao Centro Pastoral de Celorico da Beira, inaugurado a 07 de Janeiro de 2007. Outro periódico, desta vez de teor político, ou mesmo de propaganda política199, é o Boletim Municipal200, o qual começou a ser publicado pelo ex-autarca da CM de Celorico da Beira, Dr. Júlio Santos201, corria o ano de 1995. Relativamente a este último tipo de publicação, existe um texto em formato digital que faz uma análise crítica dos mesmos com base na imagem que esses boletins municipais pretendem transmitir, ora por publicações do tipo tradicional, ora do tipo mais elaborado porque dispõem de melhores meios técnicos. Vale a pena citar a análise feita a alguns Boletins Municipais de Celorico da Beira:

“A nossa preferência pelo exemplo de Celorico percebe-se por configurar as duas características que atrás enunciamos: a linha gráfica apresentava-se em moldes tradicionais e evolui, percorrendo várias etapas para um modelo “modernizado”, embora nesta última versão que aqui colocamos (fig.6) ainda seja patente a escolha de uma imagem de significado político óbvio: a visita do Presidente da república ao concelho que é mote para anunciar uma “mudança tranquila”. Curiosamente, no texto do boletim não há referência concreta ao que estaria a mudar tranquilamente em Celorico. Também o título encontrado para o boletim de 2002 (“Ao ritmo do nosso tempo”) prima pelo carácter forte dos significantes, correlativo do carácter vago do significado, permitindo por isso uma adesão universal a essa ideia de dinâmica que se quer transmitir. Note-se, a este propósito, a originalidade da inclusão em rodapé do endereço da página “WAP” do município.”202


Voltando ao texto de Adriano Vasco Rodrigues sobre as publicações periódicas em Celorico da Beira, o autor dá-nos conta de alguns conteúdos dos semanários: Jornal de Celorico, nº1, 18 de Setembro de 1919, cujo director e editor eram Sousa Leite e Joaquim Silva Pereira, respectivamente, impresso pela tipografia Ecos da Beira, em Gouveia, e cujo lema era: “Pela nossa Terra – Pela nossa Pátria”; O Correio, de 23 de Agosto de 1931, de 18 de Outubro de 1931 e de 25 de Outubro de 1931, sendo director José Cabral, impresso e composto, desta vez, pela tipografia Mondego, em Celorico da Beira. Do primeiro, cita e tece comentários principalmente às rubricas “Ecos e comentários”, “Interesses do concelho”, “Tribuna do Professor” e a alguns anúncios publicitários. Em relação ao segundo, descreve o conteúdo do mesmo, nomeadamente, uma página feminina, dedicada à literatura, uma noticia sobre viagens ministeriais à Beira, uma rubrica intitulada “As misérias de Celorico”, onde nos dá conta do retrocesso da vila, um artigo sobre o elevado analfabetismo e diversos artigos político-partidários (embora, como Adriano Vasco Rodrigues refere: “que se dizia apesar de tudo, semanário independente”203) sobre a Ditadura e a acção da União Nacional perante os seus inimigos. Também cita alguns entre a “grande gama de”204 anúncios publicitários dos supraditos jornais designadamente, de uma alfaiataria, de uma alquilaria, de uma padaria, de uma mercearia, de uma farmácia, de uma serralharia e de uma casa comercial, para demonstrar, ao contrário do que acontece hoje em dia, o elevado “carácter comercial da vila”205 nesses tempos.

Já a monografia do Professor Ramos de Oliveira apenas se limita a enunciar, no subcapítulo “A Instrução em Celorico”206, a lista de publicações em Celorico da Beira nos finais do século XIX e princípios do século XX:




NOME DO PERIÓDICO

DATA DE PUBLICAÇÃO

A Gleba

De 13.08.1897 a 08.05.1898

Cêrro-Rico

11.02.1904

Correio da Serra

24.03.1927

Ecos da Beira

1910

Gazeta da Beira

De Outubro de 1867 a Agosto de 1886

Jornal de Celorico

18.07.1919

Notícias de Celorico

Sem data

O Correio

Sem data

O Egitaniense

De 1866 a 1869

Terra da Beira

De 21.08.1921 a 24.10.1926

Tabela 5: Lista de publicações enunciadas pelo Professor Manuel Ramos de Oliveira.
No que concerne a localização destas publicações, o Professor Ramos de Oliveira apenas levanta a questão de ainda existirem alguns números das primeiras edições, sugerindo que a CM fosse responsável pelo arquivo dos mesmos. Respondendo à pergunta colocada pelo professor, é possível encontrar e consultar alguns exemplares destes periódicos na Biblioteca Nacional207 e na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra208. Alguns deles estão já em muito mau estado, e consequentemente interditos à consulta, como é o caso do periódico A Gleba, outros, no entanto, estão bem conservados e é ainda possível folheá-los, embora segundo algumas restrições. De facto, um dos maiores factores de degradação é, sem dúvida, o ser humano, quando faz o manuseamento, muitas vezes errado e inconsciente. Como são documentos preciosos não só para o estudo da história local, como também para a história nacional, é urgente que se dê particular atenção as estas relíquias do passado, mantendo-as fora do alcance de qualquer factor de degradação a que eventualmente podem estar expostas209. A digitalização, apesar das controvérsias que tem levantado210, será uma dessas formas de aumentar o ciclo de vida a estes documentos, preservando-os e conservando-os para que se mantenham, por longos e bons anos, como testemunho de épocas passadas e herança patrimonial. Infelizmente, de momento, apenas se encontra em formato digital o Jornal de Celorico, com o seguinte registo: F.6193.

2.3. Arqueologia
Arqueologia e história andam de mãos dadas e a existência de museus comprova-o. A primeira trata da angariação de material através da sua acção de investigação e escavação. À segunda compete a conservação e divulgação desse mesmo material. Além disso, a arqueologia pode substituir, no caso de este não existir, ou complementar o documento histórico. Em Celorico da Beira existem já alguns museus, nomeadamente, o Museu do Agricultor, O Solar do Queijo, ambos sitos na Vila, Os Moinhos da Rapa, A Casa do Mundo Rural de Prados e A Escola Primária Museu, em Salgueirais. A sua existência demonstra as preocupações da autarquia no que concerne ao património local, que deseja preservar e conservar como insígnia da sua individualidade. Com efeito, os órgãos de poder local têm apoiado e incentivado alguns trabalhos de prospecção arqueológica211, como é o caso da estação arqueológica da Pedra Aguda na Serra do Monte Verão, nas proximidades da Rapa, da estação arqueológica do Cemitério de S. Gens, no Fornotelheiro, ou dos trabalhos arqueológicos desenvolvidos aquando da construção do Parque Eólico da Serra do Ralo. Essas investigações arqueológicas resultaram nalgumas publicações na área da arqueologia, nomeadamente de Adriano Vasco Rodrigues, António Carlos Valera e de Dário Neves, um filho da terra, licenciado em Arqueologia pela Universidade de Coimbra. Em 2009, em parceria com a Universidade de Coimbra, a Câmara Municipal de Celorico da Beira editou mais um livro, cujo título é Celorico da Beira através da História, que tinha por objectivo, segundo a perspectiva do Presidente da Câmara, José Francisco Gomes Monteiro, “um novo estudo sobre o seu passado que actualizasse as anteriores publicações com novas informações, fruto dos trabalhos de índole histórico-arqueológico que se têm vindo a desenvolver no nosso território”212. De facto, além de reunir as informações arqueológicas recolhidas pelos seus antecessores, como por exemplo, Francisco Martins Sarmento213, Pedro Azevedo214, António Santos Rocha215 ou Adriano Vasco Rodrigues216, entre outros217, acrescenta, nos primeiros quatro capítulos218, novos resultados de averiguações mais recentes219. Embora as escavações arqueológicas continuem, ainda existe pouco material que possa fornecer a informação necessária sobre a pré e proto-história da área que hoje em dia compreende o concelho de Celorico da Beira. Consequentemente, é premente que as investigações continuem pelo menos nos sítios promissores, como é o caso a estação arqueológica de Monte Verão na Rapa.

A monografia Celorico da Beira e o seu Concelho através da História e da Tradição oferece, na primeira parte, um pequeno capítulo à arqueologia, pois acha que:

“Se o concelho abunda em tradições históricas, está em contra partida bastante depauperado em arqueologia, quer artística, quer referente a utensílio, porque aqui mais do que em parte alguma o vandalismo assentou de há muito arraiais, sem que mão providencial tenha sustido a série de atentados contra o nosso património artístico-histórico.”220
É com alguma tristeza que nos dá conta como certas relíquias arqueológicas se perderam no tempo por incompetência ou ignorância, como é o caso do Pelourinho da Vila, da Anta da Carrapichana e da Torre de Menagem do Castelo da Vila. No entanto, na segunda parte, quando trata de cada uma das freguesias, o Professor Ramos de Oliveira menciona as riquezas arqueológicas de cada uma delas no subcapítulo a que chamou de “Antiguidades”. No caso da Carrapichana, indica um monumento megalítico, a Anta da Carrapichana, que liga Celorico da Beira ao período do Neolítico, que segundo o autor: “já há muito desapareceu, destruído pela ignorância ou maldade dos aldeões que por todo o território nacional inutilizaram verdadeiras preciosidades arqueológicas”.221


Freguesia

Achados Arqueológicos

Açores


Restos de um convento duplex; pedaços de tégula (sítio do Calvário); mó de moinho; um forno; uma grande rocha com vestígios de uma forca (Outeiro da Forca)

Carrapichana



Vestígios de uma anta megalítica; sepulturas escavadas na rocha (Cabrieiras e Moita)

Fornotelheiro



Cemitério de S. Gens (sepulturas escavadas na rocha); vestígios romanos

(Ribeira das Olas)


Rapa


Ruínas de um castro romano (Monte Verão)222

Vale de Azares

Cinco sepulturas de granito com tampas, dois pedaços de coluna, dois potes de barro com moedas de cobre, algumas com esfinge de Constantino, uma pedra trabalhada com uma inscrição (antiga propriedade pertencente à família Resende); sepulturas antropomórficas (lugar do Bufo); restos de habitação e sepulturas escavadas na rocha (Quintã)

Vide-entre-Vinhas


Sepulturas antigas (Souto da Póvoa)



Tabela 6: Lista de achados arqueológicos referidos pelo Professor Ramos de Oliveira

na sua monografia Celorico da Beira e o seu Concelho através da História e da Tradição.223

Pelo contrário, Adriano Vasco Rodrigues, não fosse ele arqueólogo, dedica vários capítulos à arqueologia224, nomeadamente, “O anel helenístico”225, “A fundação da Igreja de S. Martinho e a inscrição medieval da Quinta dos Cedros” 226, e “A necrópole de S. Gens”227 Em relação ao primeiro, diz tratar-se de “um curioso anel com uma inscrição helenística, gravada em caracteres latinos” que, mais tarde se veio a saber, tratar-se afinal “de uma epígrafe em língua lusitana, embora transcrita em caracteres latinos”. Relativamente à inscrição encontrada na Quinta dos Cedros, freguesia de Casas do Soeiro, o autor, que já tinha tratado o assunto num outro texto228 anterior a este, adivinha tratar-se da possível epígrafe da fundação da antiga Igreja de S. Martinho, na Vila de Celorico da Beira. Em relação à Necrópole de S. Gens, tradicionalmente conhecida como Cemitério de S. Gens, destaca o facto de ser “dos maiores cemitérios que conhecemos na Beira, rasgados na rocha” e divide os sarcófagos em quatro tipos229, sendo os predominantes do tipo banheira. Acrescenta o facto de perto da necrópole existir um turcularium, ou seja, uma espécie de lagar onde se fazia o vinho, e que os terrenos nas suas proximidades eram até há algum tempo atrás guarnecidos de videiras. Por estas razões, Adriano Vasco Rodrigues não tem dúvidas que: “ A necrópole de S. Gens merece ser considerada monumento nacional e protegida das depredações.” Não podíamos estar mais de acordo.

Se existem áreas pelas quais ainda há muito a laborar, esta é certamente uma delas, uma vez que, entre outros, escasseiam os meios e as verbas necessárias para efectuar as pesquisas e escavações. Além disso, o excesso burocrático que contorna o licenciamento das pesquisas, a concessão de subsídios bem como a posterior publicação dos resultados, retardam ainda mais este processo, que por si só, é suficientemente moroso.


2.4. As invasões francesas

Localizada num local estratégico230, a Vila e o Concelho de Celorico da Beira, desde cedo, mostraram o seu carácter defensivo. De facto, é possível que existisse já uma estrutura defensiva nos séculos X, XI e XII, altura de grande instabilidade político-administrativa, nomeadamente junto à fronteira, precisamente onde se situava e situa o concelho de Celorico da Beira, que juntamente com Trancoso e Linhares formavam o chamado triângulo defensivo da Beira:

“Com o aumento da conflituosidade associado ao processo de Reconquista, o povoamento sobranceiro às margens do rio Mondego e que aí havia permanecido durante séculos, a ocupação aparentemente ter-se á deslocado para Sul, para o topo de um monte onde viria a ser fundado o Castelo de Celorico da Beira, que posteriormente esteve na origem da fundação da povoação de Celorico da Beira.”231

É precisamente nessa época, meados do século XII, que Celorico da Beira recebe o seu primeiro foral. Segundo José Mattoso, a concessão de um foral ajudava a consolidar a defesa desse território e consequentemente do território nacional:

“São todos não datados, excepto o de Linhares, concedido em 1169; devem ter sido outorgados em ocasiões muito próximas umas das outras. Beneficiaram as povoações fortificadas de Trancoso, Marialva, Aguiar da Beira, Celorico da Beira, Moreira de Rei, Linhares e Penela da Beira. A criação nesta zona de municípios autónomos, dotados de privilégios, destinava-se a formar as malhas de uma rede defensiva contra as possíveis agressões militares leonesas a partir de Cidade de Rodrigo, lugar repovoado pelo rei Fernando II por volta de 1160 ou 1161. De facto, a guerra entre Leão e Portugal atingiu particularmente esta zona, a partir da celebração do já mencionado Tratado de Sahagún, em 1158.”232
Perante este cenário, não admira que Celorico, devido ao seu valor estratégico-militar, fosse por diversas vezes contestado por castelhanos e portugueses, tendo mesmo integrado os dois reinos alternadamente. Por exemplo, durante o reinado de D. Sancho II (1223-1248), aquando do cerco ao castelo de Celorico (1246) pelo Conde de Bolonha (futuro D. Afonso III de Portugal), distinguiu-se o alcaide Fernão Pacheco233, figura protagonista da afamada Lenda da Truta, retratada no Brasão da Vila:

“Em 1246, na sequência da guerra civil que opôs o rei D. Sancho II ao seu irmão D. Afonso (Conde Bolonhês), o castelo de Celorico foi envolvido no conflito, devido à lealdade demonstrada pelo alcaide Fernão Rodrigues Pacheco ao rei D. Sancho II. Aposição de Celorico no conflito valeu-lhe um cerco ao seu castelo pelas forças militares do Conde Bolonhês. O reconhecimento da soberania de D. Afonso sobre o castelo de Celorico só terá ocorrido após a morte de D. Sancho II.”234


Mais tarde, aquando das invasões francesas, Celorico volta a ser palco de lutas, desta vez entre ingleses, aliados dos portugueses, e franceses. São muitos os documentos conservados na Biblioteca Nacional de França que o comprovavam. Não é por acaso que um desses documentos franceses classifica Celorico de “Forteresse importante”235. Outros documentam o posicionamento de um quartel-general inglês (ao comando do General Wellington236 e de Beresford237) e de um francês (ao comando do General Massena)238, de um hospital militar239 improvisado, de uma prisão, uma em Celorico240 e outra em Linhares241, bem como de variados acampamentos242, de franceses e ingleses, e investidas que tiveram lugar na vila de Celorico. Estas invasões foram tão marcantes, que Adriano Vasco Rodrigues lhe consagra um capítulo, no qual confirma a existência, não de um, mas de dois “hospitais de sangue”243: um na Vila, na Igreja de Santa Maria; e outro na Lageosa, na Igreja Paroquial e numa casa solarenga. De facto, um hospital seria pouco perante as atrocidades de uma guerra de tal ordem. Nas palavras de Adriano Vasco Rodrigues: “as invasões francesas deixaram recordações dolorosas em toda esta região. O saque, as depravações e as violências cometidas pelas tropas napoleónicas ficaram memoráveis. As igrejas244 e as casas mais abastadas foram roubadas e por vezes incendiadas.”245 Posto isto, é natural que a terceira invasão francesa tenha deixado grandes marcas no território de Celorico da Beira, a tal ponto que se justificou a existência de uma exposição, seguida de conferência246 sobre este tema no passado dia 26 de Março de 2009, organizado pela Câmara Municipal e que teve como intervenientes Adriano Vasco Rodrigues e Márcio Barbosa, autor de Câmara Municipal de Celorico da Beira. Infra-estruturas e Desenvolvimento 1950-74247. Ainda em relação às invasões da Beira, o Professor Manuel Ramos de Oliveira assegura: “É a história que no-lo confirma através das invasões castelhanas e francesas, e já na dominação romana Júlio César lhe reconheceu tanto valor que por ela fez passar uma das duas grandes vias mandadas construir sob as suas ordens, ao ser nomeado pretor.”248

2.5. Lendas

Em toda a história da humanidade os acontecimentos reais e os imaginários têm coexistido de maneira, mais ou menos, pacífica no campo da cultura. Assim, as lendas e os contos podem contribuir, e muito, para a formação cultural de um povo na medida que edificam uma maneira de viver de determinadas pessoas na sua moral e/ou na sua forma de agir através dos hábitos e costumes da região. Celorico não é excepção, uma vez que é um concelho rico em lendas. O problema está em distinguir entre o que é lenda e o que é verdadeiro, pois, por vezes é quase impossível. Afinal, a maior parte dos protagonistas não relata exactamente o que viu ou ouviu. Como diz o povo: "quem conta um conto acrescenta um ponto". Logo, é muito provável que tudo o que se vai relatar de seguida seja meio verdade, meio lenda.

Comecemos por aquela que deu origem à representação do Brasão da Vila249: a Lenda da Truta. O Professor Manuel Ramos Pereira começa por contar, sem grandes pormenores, o conteúdo desta lenda. No final, tece o seguinte comentário: “Rui de Pina, Duarte Nunes de Leão e outros referem-se a este facto, não parecendo tão inverosímil como à primeira vista se afigura.”250 De opinião contrária é Adriano Vasco Rodrigues que contesta a veracidade desta lenda no capítulo da sua monografia ao qual designou de “Crítica à interpretação tradicional das armas da Vila”. A sua crítica baseia-se no facto de duvidar que Afonso III, depois de tomar posse como Rei de Portugal, ter permitido que Celorico ostentasse um brasão com um símbolo que representava a sua humilhação. O autor acredita que: “a existência de lendas semelhantes e o facto de nos aparecerem símbolos idênticos na numerária romana, leva-nos a duvidar da sua veracidade.”251 Além disso, acrescenta: “A História faz-se com documentos e aqui carecem-nos.” No entanto, não deixa de reconhecer a sua relevância:

“O que há de importante nas armas de Celorico da Beira não é o símbolo do logro em que caiu o Bolonhês, mas o perpetuar a lealdade do alcaide Fernão Rodrigues Pacheco, episódio historicamente comprovado. Esse sim, é verdadeiro e é um dos melhores brasões da Vila de Celorico. Passou através da tradição popular ligado a uma imagem distinta, a da águia e da truta, cuja motivação será anterior a este episódio.”252

Na verdade, a Lenda da Truta, bem como a lealdade de Fernão Pacheco são conhecidas além fronteiras, como demonstram alguns documentos guardados no arquivo digital da Biblioteca Nacional de França. A lealdade do alcaide de Celorico a D. Sancho II é reconhecida e elogiada por um escritor francês da seguinte forma: “Quelques commandants des places fortes combattent encore pour Sancho, entre autres l’énergique et rusé Pacheco, gouverneur de Celorico, et Freitas, gouverneur de Coimbre, dont la fidélité suit ler oi jusqu’au tombeau.”253 Um outro documento menciona a lenda, com base numa passagem do romance Ogier le Danois, e acerca dela diz o seguinte:

“Un passage du roman d’Ogier le Danois raconte que celui-ci, assiégé depuis sept ans dans Castelfort, découragea Charlemagne en lui faisant croire qu’il possédait encore des vivres en abondance. Un Portugais, Ferdinand Ruiz Pacheco, assiégé dans le château de Celorico, envoya à ses ennemis une truie superbe qu’un aigle avait laissé tomber dans sa fortresse, et ceux-ci, supposant le château abondamment fourni, renoncèrent à l’espoir de le prendre par la famine. »254


O Brasão de Celorico255 alude ainda a outra lenda, anterior à lenda anteriormente mencionada. Mais uma vez, trata-se de uma lenda associada a um cerco, não ao castelo, mas à Vila propriamente dita, que remonta ao ano de 1187 e à famosa Batalha da Penhadeira. Adriano Vasco Rodrigues questiona novamente a autenticidade desta lenda nos seguintes termos:

“No caso da batalha em tempos de D. Sancho I, se foram as estrelas que deram maior brilho iluminando o campo, porque não representaram somente estrelas? Se era lua nova este satélite estava oculto. Porque aparece um crescente? Se a contenda, ao que parece uma presúria, fosse travada entre cristãos e muçulmanos ainda se compreendia… mas travou-se entre contendores com as mesmas crenças.”256


O Professor Manuel Ramos de Oliveira, embora discorde da posição crítica de Adriano Vasco Rodrigues no que diz respeito à Lenda da Truta257, parece estar de acordo com este último relativamente à Lenda da Penhadeira, quando afirma:

“Ao folhearmos o passado alguns acontecimentos surgem-nos como nebulosos, por isso que só se tornam possíveis no domínio da fantasia que os criou, porque no campo da realidade são absolutamente inadaptáveis. Assim, por exemplo, enquanto algumas particularidades da batalha da Velosa se podem considerar uma lenda roçando pelo miraculoso e, portanto, fora das possibilidades humanas, o segundo cerco de Celorico analisado em todos os detalhes, nada apresenta de extraordinário e muito menos de impraticável, não cedendo à contestação só porque lhe falta o apoio documental que em muitos casos resulta apenas do desleixo e supina ignorância que imperavam nessas recuadas eras.”258


A vitória alcançada nesta batalha pelas tropas celoricenses, ajudadas, segundo Adriano Vasco Rodrigues, pelas de Linhares, Trancoso, Pinhel, Guarda e Fornos de Algodres deram origem à veneração a Nossa Senhora de Açor259, a quem foi atribuído o milagre, uma vez que a tinham invocado antes do combate, que lhes valeu a expulsão dos castelhanos do território de Celorico. A partir desse dia, todos os anos no dia três de Maio, os habitantes da Vila e do Concelho faziam a romaria à Nossa Senhora de Açor, até que, como aconteceu com outras tradições religiosas, caiu em desuso. Também as Vilas de Trancoso, Linhares, Guarda e Fornos de Algodres se deslocavam todos os anos, em diferentes dias, em romaria a Nossa Senhora da Açor, entre a primeira oitava da Páscoa e o domingo da Santíssima Trindade260. Manuel Barroco, em Panoramas do Distrito da Guarda261, baseando-se em Herculano, adita que: “Os leoneses foram derrotados durante a noite em que a lua e as estrelas davam claridade como se fosse dia. Por isso, os povos de Trancoso, Guarda, Celorico, Fornos e Linhares cumpriram através dos séculos o voto feito pelos Alcaides vencedores, à Senhora de Açor”. Ainda sobre a Nossa Senhora de Açor, na página online do Centro de Estudos Ataíde Oliveira262, encontra-se mais uma lenda que dá conta de um outro milagre operado por aquela virgem: a Lenda dos Três Milagres. Narra que um rei espanhol invoca esta Nossa Senhora, que já era famosa em Espanha por fazer muitos milagres, para que lhe concedesse um filho. O filho nasce, mas é uma criança muito débil, acabando mesmo por falecer de tenra idade. Inconsoláveis, o rei e a rainha levam o filho à Nossa Senhora de Açor, que não só lho ressuscita, como também lhe devolve a saúde.

Não é só a Vila que desfruta de lendas, também as freguesias do concelho, umas mais do que outras, gozam dessa tradição. Açores, como já foi referido, está decididamente ligada à Lenda da Penhadeira, mas também à lenda ou milagre que lhe deu o nome, pois um dos protagonistas, um rei cristão usava uma ave de nome açor para um género particular de caça. Acidentalmente, o pagem que o segurava, deixou-o fugir, facto que levou o rei a mandar decepar-lhe a mão. Desesperado, o pagem invocou a Nossa Senhora e o pássaro voltou a pousar-lhe no ombro, livrando-o de tal castigo. O Professor Manuel Ramos de Oliveira lembra que: “Em memória deste facto conserva-se na igreja um quadro alusivo à milagrosa cena, assim como outro representando a vitória alcançada pelos portugueses sobre os castelhanos (…).”263 De acordo com o mesmo autor, esta lenda está também ligada à origem do nome da freguesia da Velosa: “Diz-se que a ave, ao sentir-se em liberdade tomou a direcção leste, indo pousar veloz no lugar da actual Velosa.”264 Na Velosa é igualmente famosa a Lenda da Fenda do Barroco da Penhadeira265.

Carrapichana é, segundo o Professor Manuel Ramos Pereira, outras das freguesias, cujo nome tem origem numa história, cuja protagonista tinha o nome de Ana. Como a senhora gostava muito de “esvaziar pichéis de vinho”, os habitantes diziam-lhe frequentemente: “Escorropicha, Ana!”266. O mesmo autor, a respeito de Linhares, conta uma história que serve como justificação para a romaria que a Câmara de Viseu fazia a Linhares, todos os anos pela altura da Páscoa, como forma de agradecimento, pelo facto dos últimos os terem libertado do terror de um Mouro de nome Zuram267. Adriano Vasco Rodrigues refere que:

“Baseava-se essa cerimónia numa velha tradição, segundo a qual haviam sido habitantes de Linhares que libertaram a região do jugo muçulmano, derrotando o mouro Zurar, que tinha o seu castelo no actual concelho de Mangualde. A cerimónia do cortejo e de agitar o estandarte, manteve-se até princípios do século XIX.”268


Outro caso é o da Ratoeira que o Professor relata assim: “Em tempos idos havia uma grande lage na rua central, próximo da habitação da Sra. Carlota Alvim, onde as quedas aparatosas se tornavam inevitáveis, de nada valendo cuidados ou precauções. Daí o nome Ratoeira, nome que se generalizou à povoação mas que não oferece consistência alguma.”269 Uma lenda bem conhecida pelos celoricenses é a que deu nome à freguesia de Vale-de-Azares que, na perspectiva de Manuel Ramos de Oliveira “serve para suavizar a má impressão que o nome invoca.”270 Segundo a lenda, existiu lá um fidalgo que morava numa torre ou castelo, cuja felicidade foi assombrada pela morte trágica do filho e consequente enlouquecimento da mulher e morte da filha. Com tal desgosto, o fidalgo decidiu abandonar aquelas terras e mandou destruir o lugar onde morava. No entanto, o autor questiona a veracidade da lenda, baseando-se na opinião de Pinho Leal271 para quem Vale de Azares significa:

Vale de Batalhas e seja por um ou outro motivo, é certo ter ali existido uma forte construção, porque não há muitos anos, ainda se observavam restos de grossas paredes que o falecido proprietário Leopoldo Ribeiro de Almeida aproveitou para edificar uma casa de campo. Ouvimos já que aquelas ruínas deveriam pertencer a um remoto convento dos Silvas, o qual a ter existido (o que não cremos) não mereceu a divulgação das crónicas. Se o leitor desejar certificar-se pode ainda admirar algumas pedras com diferentes ornatos, distinguindo-se numa delas a Cruz de Malta, saboreando ao mesmo tempo a magnifica água da fonte Fiéis de Deus aberta numa rocha.”272


No DVD Portugal Século XXI: Distrito da Guarda273, encontram-se descritas duas lendas sobre a freguesia de Vide-entre-Vinhas: o Penedo do Casamento e a Praga dos Gafanhotos. A primeira concerne a uma forma de saber se a rapariga casaria ou não, enquanto a segunda, perante tal situação que lhes devastava as colheitas, os habitantes de Vide invocaram a Nossa Senhora dos Campos, que lhes valeu. A partir desse ano passaram a venerá-la em Junho e passou a ser conhecida como Nossa Senhora dos Verdes. Vila Boa do Mondego não escapa à saga das lendas, pois ainda hoje, principalmente os mais velhos, recordam-na como Jejua, nome que lhe adveio de um episódio, diz o povo, em que visitados por uma “força militar” pouco ou nada lhes deram a comer. “Um dos comandantes, desesperado, exclamara: - E chamam a isto Vila Boa! Jejua, Jejua é que ela é. De certo que desta peripécia reza a tradição na seguinte quadra:

“Eu passei na Jejua

Não quero lá voltar

Quis comer e não me deram

Vim de lá a Jejuar”274
Estas lendas aqui citadas são as que se encontram documentadas. Certamente, existem muitas outras, que correm de boca em boca, na chamada tradição oral, que nunca chegaram a passar para o papel. Em Prados, por exemplo, a propósito da Pedra Sobreposta, o povo conta que foi uma moura que a carregou à cabeça. Na verdade, e segundo Orlando Ribeiro, a gente do povo pode fornecer muita e valiosa informação, pois acreditava que: “a gente do povo ministra o pormenor característico e dá à conversa outra vivacidade e sabor.”275 Seria interessante fazer uma recolha desta e de tantas outras lendas e contos populares que vão passando de boca em boca. Essas lendas e esses contos podem facultar matéria rica sobre os hábitos e costumes das gentes de Celorico, porque estas histórias reflectem os sentimentos e a alma do povo que as conta.



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