Universidade da Beira Interior



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2.6. Documentação Diplomática

A documentação diplomática diz respeito a todo e qualquer documento escrito cuja origem é governamental ou notarial, ou seja, documentos oficiais usados como fontes fidedignas e indiscutíveis. Celorico da Beira tem nos mais diversos locais documentos deste tipo que atestam, além de outros acontecimentos, a sua antiguidade. Exemplos desta última, são os forais que lhe conferiram os reis portugueses ou as preciosas informações recolhidas por Adriano Vasco Rodrigues das Inquirições de D. Dinis da Beira e Além Douro276. O autor da monografia Celorico da Beira e Linhares assinala os lugares onde estes podem ser encontrados:

“Na Torre do Tombo, em Lisboa, existe cópia confirmando o foral dado por D. Afonso Henriques, a Celorico da Beira; confirmado em Coimbra por D. Afonso II, no ano 1217, no Maço dos Forais Antigos, N.5 e no Maço 12 dos mesmos, N.3 fol.10 col.1; e no Livro de Forais Antigos de Leitura Nova, fol.47, V. col.2. Encontram-se transcritos no Portugaliae Monumenta Histórica, Leges et Cons, fl.44.”277
Acerca de Linhares da Beira, o mesmo autor indica que:

“Também no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, se encontra o foral dado por D. Afonso I à Vila. Não tem data. Vem no Maço 8 de Forais Antigos N.º3 e N.º5, fol.21. col.1 e fol.54v. col. 2. No Livro das Doações do Sr. Rei D. Afonso III, fol.67v. in médio. No Livro dos Forais Antigos, Leitura Nova, f.49, col. 1 e fol.69 col.1. O foral dado no mês de Setembro de 1169 e confirmado no mês de Outubro de 1217 está no Maço 12 de Forais Antigos, N.3, fol.58 Col.2 in fine e no Livro de Forais Antigos, Leitura Nova, fol.33v. col.1.”278


Graça Maria Soares Nunes menciona outro documento diplomático de extrema importância para a elaboração de monografias locais: “Fontes bastantes úteis para os estudos locais são As Memórias Paroquiais, organizadas em Dicionário pelo Padre Luís Cardoso, inquérito feito aos párocos após o terramoto de 1755, com respostas quase todas de 1758.”279 Adriano Vasco Rodrigues, na sua monografia sobre Celorico da Beira, revela esse “testemunho histórico dos meados do século XVIII”, sobre a vila de Celorico280 e de Linhares281 baseando-se no manuscrito das Memórias Paroquiais arquivado na Torre do Tombo sob a designação de Dicionário Geográfico. Igualmente relevantes são os Livros de Actas da Câmara de Linhares, extinta em 1842, e os Livros de Actas da Câmara de Celorico, os quais, segundo António dos Santos Pereira, se encontram arquivados no Arquivo Municipal de Celorico da Beira. Destes documentos é possível retirar valiosas informações sobre a vida comunitária desta população, como comprova o capítulo da monografia Celorico da Beira e Linhares sobre “A Câmara de Linhares e a sua Tradição Comunitária”282. A partir das respostas ao inquérito ordenado por D. José I, cujo registo é conhecido como Memórias Paroquiais, resultou a elaboração do Dicionário Geográfico283, também arquivado na Torre do Tombo:

“A Secretaria de Estado dos Negócios do Reino, em 18 de Janeiro de 1758, remeteu através dos bispos das dioceses do reino, a todos os párocos, um questionário que depois de respondido deveria ser remetido aquela entidade. Foi incumbido o Padre Luís Cardoso, membro da Congregação do Oratório, de proceder à organização de todos os documentos recebidos. Não terá conseguido concluir tal tarefa em vida (faleceu em 1769). A tarefa da organização das respostas dadas pelos párocos de todo o reino, só terá sido concluída em 1832, altura em que terá sido feito o índice de todas as respostas que chegaram até nós.”284


Adriano Vasco Rodrigues cita algumas informações sobre as freguesias da Vila a 20 de Abril de 1758: Santa Maria, São Martinho e São Pedro, cujos párocos eram Manuel Leitão de Brito, Manuel Figueiredo e Gerardo José Roiz, respectivamente285 e dedica o capítulo seguinte exclusivamente às informações recolhidas no volume 20, número 90, das Memórias Paroquiais, sobre Linhares286. As chancelarias régias287 podem e devem ser utilizadas como ferramenta de trabalho para a elaboração de monografias locais, como depoimento de:

“(…) um cadastro ou tombo de propriedades, uma relação de instituições, pessoas ou povoações obrigadas para com o rei em tributos ou serviços, um inventário das instituições eclesiásticas em que o rei detinha o direito de padroado, os registos das inquirições ordenadas pelo rei, e os registos de chancelaria propriamente ditos, em que se verifica sincronicidade entre a expedição de um diploma e o respectivo registo.”288


O Professor Manuel Ramos de Oliveira retirou informações da Chancelaria de D. Afonso V (Livro 18, fl. 59) e D. João III (Livro 5, fl.33 vº) para “testemunhar a indústria do concelho”289 em 1425. Os processos de inquisição290 podem também acrescentar alguns dados sobre esta matéria, uma vez que os cristãos-novos se dedicavam maioritariamente ao comércio. Os arquivos distritais são outra fonte de documentos diplomáticos, pois lá encontram-se registados os nascimentos, óbitos e casamentos dos habitantes de um determinado local. No caso particular da Vila de Celorico da Beira e Concelho, o Arquivo Distrital da Guarda291, assim como o Arquivo Nacional da Torre do Tombo292, contém esses registos quer em papel, quer em microfilme.

A riqueza informativa da documentação diplomática tem potencialidades para dar origem a uma produção significativa de monografias locais, entre outros estudos, porque ela preserva a memória de vivências dos nossos antepassados. Sem elas seriam pouco provável traçar aquela que foi a nossa evolução como indivíduos e como sociedade. Por isso, é imprescindível que se preserve e conserve este tipo de material, por exemplo, através da digitalização, como fez o Arquivo Nacional da Torre do Tombo, o qual expressa a seguinte opinião a respeito da Inquisição de Lisboa:

“A adopção da tecnologia digital potenciou a divulgação da informação em redes de conhecimento sem fronteiras e, simultaneamente, permitiu a sua preservação em formato digital.”293

III. Demografia
A demografia é a ciência que estuda a dinâmica populacional humana por meio de estatísticas que pode ser estudada tendo em consideração a faixa etária, o sexo, ou outras características da população como por exemplo a sua distribuição espacial. Através de estatísticas294 são estudados os fenómenos da mortalidade, da natalidade e dos movimentos migratórios que afectam consequente o tamanho e crescimento da população. A importância do estudo da demografia consiste no facto da população ser um elemento essencial que caracteriza uma sociedade, cuja dinâmica se torna necessária compreender para que seja possível o planeamento económico, social ou político.

3.1. Estatísticas Demográficas

O Compêndio Histórico da Villa de Celorico da Beira do Presbítero Luiz Duarte Villela da Silva diz-nos que, em 1808, a vila de Celorico da Beira tinha 700 vizinhos295. Aproximadamente vinte anos mais tarde, em 1827, um documento topográfico296 que se encontra na BNF, refere que Celorico da Beira tinha, naquela data, uma população de 1.600 habitantes, ou seja, menos 900 habitantes que em 1808, segundo o Luiz Duarte Villela da Silva. Na segunda metade do século XIX, um outro documento disponível na BNF, desta vez um dicionário histórico, geográfico e mitológico297, atribuiu uma população de 1.800 habitantes a Celorico da Beira, mais 200 que em 1827. No entanto, estes números são discutíveis, uma vez que tanto Adriano Vasco Rodrigues, como Manuel Ramos de Oliveira, apresentam números muito superiores a estes em alturas semelhantes, 16.000298 e 14.294299, respectivamente. Já no século XX, a revista300 cita os números provisórios do Censo, realizado em 1940, o VIII Recenseamento Geral da População, para o distrito da Guarda: Celorico contava aproximadamente 16.500 habitantes301. Esta variação de valores de população depende muito provavelmente do coeficiente usado sobre o número de habitantes por fogo, uma vez que um dos grandes problemas na contabilização da população decorre da impossibilidade de controlar os critérios de recolha de dados e sobretudo o seu significado intrínseco. Nas fontes quinhentistas são utilizadas conceitos de morador, vizinho e fogo sem que se conheça exactamente o seu significado, bem como a sua equivalência quantitativa. Por esse motivo, o coeficiente para estimar, a partir desses conceitos, o total de população parece variar, embora alguns autores302 defendem como mais plausível o coeficiente 4. Assim, as divergências residem na impossibilidade de afirmar em segurança qual a correspondência entre fogo, vizinho e alma.

Comparando Celorico com os restantes concelhos do distrito da Guarda, na altura, ocupava a sétima posição, num total de treze concelhos. No capítulo “A Linguagem dos Números”, Adriano Vasco Rodrigues apresenta um breviário estatístico da população das várias freguesias de Celorico da Beira nos anos de 1600 e 1900, baseando-se, como refere, em Gama e Castro. Nesse quadro estatístico é possível concluir que houve um aumento da população em todas as freguesias do Concelho, exceptuando Linhares303, embora numas esse aumento tenha sido mais significativo do que noutras. Por exemplo, a Mesquitela passou de 480 almas, em 1600, para 1013, em 1900, ao passo que a Ratoeira passou de 448, em 1600, para 497, em 1900. Contudo, a tendência, de acordo com os dados fornecidos por Adriano Vasco Rodrigues, foi para um aumento geral da população do concelho, que passou de aproximadamente de onze mil habitantes, em meados do século XVII, para dezasseis mil almas, no início do século XX. Este aumento começou a ser contrariado, entre outros factores, pelo aumento da emigração304, já que em 1970, segundo o mesmo autor, o concelho apresentava uma população inferior à do século XVIII, contando apenas 10.837 habitantes. De acordo com os dados colhidos nos processos de emigração da CM de Celorico da Beira entre 1958 e 1978 que expõe, o surto emigratório305 mais elevado decorreu na década de setenta. Ainda relativamente a essa década, apresenta um quadro da mortalidade, que completa com um gráfico baseado no INE para a taxa de mortalidade na década de oitenta. Além dos números o Professor Manuel Ramos de Oliveira, exibe uma descrição, mais psicológica que física, da população portuguesa, em geral, e da população de Celorico da Beira, em particular, nos seguintes termos:

“No Concelho de Celorico a população conserva os mesmos traços etnográficos, trabalhando alegre e despreocupada com o sorriso nos lábios e a felicidade no coração. Os homens são robustos e sofredores, e as mulheres diligentes e boas administradoras, auxiliando-se mutuamente. Detestam a ociosidade e nas lides do campo encontram o prazer que lhe suaviza a existência.”306


Em relação às mulheres, acrescenta ainda:

“A mulher, bem constituída, de feições regulares, oferece um modelo que, se não se impõe pela sua perfeição, chega de sobra para a colocar num pé de igualdade entre as mais formosas e esbeltas do Distrito. Já Gil Vicente, na farsa - Quem tem farelos? – Cita as mulheres de Cerolico, aludindo à terra da naturalidade de Izabel, ou, o que é mais certo, à fama da formosura que as moças desta vila gozavam. Izabel era a namorada do escudeiro Apariço, chamando-lhe – Rostinho de Cerolico.”307

No que concerne aos números, vai mais longe que Adriano Vasco Rodrigues, pois além dos recenseamentos308 e óbitos enuncia um quadro com dados da população por sexo, estado civil e instrução, assim como a densidade de crescimento anual, comparando a população em 1864 com a de 1940. Para isso, auxilia-se dos documentos: Cadastro da População do Reino em 1527; História da Diocese e Distrito da Guarda, em 1680; da Geografia Histórica de Luiz Caetano de Lima, em 1736; do Censo de 1878, do de 1940 e do de 1960 referente ao concelho. No geral, os valores apresentados quer por Adriano Vasco Rodrigues, quer pelo Professor Manuel Ramos de Oliveira, são compatíveis, excepto no que concerne ano de 1960: o primeiro atribui uma população de 14.674 ao concelho de Celorico da Beira; o segundo, de 15.137. O facto de se basearem em fontes diferentes poderá explicar esta disparidade de dados.

No mais recente trabalho sobre Celorico, Celorico da Beira, Através da História, é feito um resumo da evolução demográfico do concelho da seguinte forma:

“Segundo os dados nos Recenseamentos Gerais da População, os residentes no concelho aumentaram dos 13.049 em 1864 para os 15.934 no de ano de 1911 (14.463 em 1878, 15.474 em 1890 e 15.820 em 1900). Assistiu-se, depois, a uma redução em 1920 e 1930 (15.045 e 14.850). A população voltou a crescer nos anos de 1940 (16.484) e 1950 (16.732). Desde então, verificou-se uma diminuição continuada até aos 8.875 de 1991 e 2001 (14.930 em 1960, 11.510 em 1970 e 10.269 em 1981).”309
Mais uma vez, alguns números não são compatíveis, senão repare-se: para o mesmo ano, 1960, Adriano Vasco Rodrigues, apresenta uma população de 14.674; Manuel Ramos de Oliveira, 15.137 e Raquel Vilaça [et.al.], 14.930. Conclui-se que, fontes diferentes fornecem dados diferentes. Cabe ao investigador averiguar este e outros casos para se aproximar o mais possível daquela que é a verdade. Não obstante, averigua-se um decréscimo gradual da população de Celorico. De facto, no último Recenseamento Geral da População, o Censo de 2001, a população residente era de 8.875310 e no Anuário Estatístico de 2009311 apresentava apenas uma população de 8.514, inferior à de 1864, quer num caso, quer no outro.

3.2. Distribuição da População

De acordo com o Professor Manuel Ramos de Oliveira, a densidade populacional, ou seja, o número de habitantes por quilómetro quadrado aumentou progressivamente até 1911. Depois disso, registou-se um ligeiro decréscimo312, voltando a partir de 1930 a aumentar, batendo o recorde em 1940 apresentando uma taxa de 66 por cento 313de crescimento, que contrasta com os 36 hab/Km2, em no século XVI314. Depois dessa data, nenhuma das monografias fornece qualquer dado. No entanto, no Anuário Estatístico do INE de 2009 é possível recolher informações não só sobre a população residente, mas também a sua distribuição por sexo e grupos de idade.315 Contudo, a Tese de Mestrado de António Baltazar em Geografia Humana, fornece dados que vão desde o Numeramento do século XVI (1527-1532) ao Censo Geral da População de 1991, mencionando também os números das Memórias Paroquiais do século XVIII e dos Censos Gerais da População de 1911, 1940 e 1960316.

Tal como acontecia em 1600317, também hoje em dia, a maior parte da população concentra-se nas freguesias da Vila: Santa Maria e São Pedro318, que apresentavam, já na altura, um valor bem mais elevado, quando comparado com as restantes freguesias, exceptuando, como se referiu anteriormente, o caso de Linhares, que em 1600 era também vila e sede de concelho. De acordo com António Baltazar, a população de Celorico distribuía-se, no século XVI, da seguinte forma: 15,8%, “pequenos”319 lugares; 14,6% lugares de “média dimensão” e sem representação nos lugares de “grande dimensão”, possuindo entre 10% a 20% da população regional. De acordo com o mesmo autor, no início do século XX, a população, em geral, aumentou significativamente e Celorico não foi excepção: passou de 36 hab/Km2320 para 64 hab/Km2321. Além disso, “perdas percentuais da importância demográfica dos pequenos lugares, até aos 199 habitantes, verificaram-se em todos os concelhos, nomeadamente no de Celorico da Beira.”322

IV. Administração

No já mencionado Compêndio Histórico da Villa de Celorico da Beira do Padre Luiz Duarte Villela da Silva, relata-se que, em 1808, a vila de Celorico da Beira estava dividida em dois bairros: o do Toural e o do Cabo da Vila. Acrescenta ainda que este último era maior que o primeiro e que reunia as paróquias de Santa Maria e de São Martinho323. Tinha 700 vizinhos. De acordo com o Arquivo Distrital da Guarda: “Antiga paróquia da vila e concelho de Celorico da Beira. Em 1708, aparece a vila de Celorico da Beira com 3 freguesias: Santa Maria, S. Martinho e S. Pedro; em 1852 e 1862, com 2 freguesias: S. Martinho e S. Pedro; em 1884, com 2 freguesias: Santa Maria e S. Pedro.”324 Actualmente, mantêm-se estas duas freguesias da Vila e mais vinte em todo o Concelho. São elas: Açores, Baraçal, Cadafaz, Carrapichana, Casas de Soeiro, Cortiçô da Serra, Fornotelheiro, Lageosa do Mondego, Linhares, Maçal do Chão, Mesquitela, Minhocal, Prados, Rapa, Ratoeira, Salgueirais, Vale de Azares, Velosa, Vide-entre-Vinhas e Vila Boa do Mondego.325 O Professor Manuel Ramos de Oliveira concluiu o seguinte:

“Apesar das sucessivas alterações, Celorico sempre conservou a sua autonomia administrativa, passando incólume a fúria demolidora de 1836 e 1855. Foi igualmente oscilante a sua posição na divisão provincial, porque em 1835 ficou incluída na Beira Alta; em 1842 passou à Beira Baixa até que pelo Código Administrativo de 31 de Dezembro de 1936 voltou a fazer parte da Beira Alta.”326

4.1. As freguesias

O Professor Manuel Ramos de Oliveira dedica a segunda parte da sua monografia327 inteiramente às freguesias do Concelho, que na altura eram apenas vinte e uma328. Faltava a freguesia de Casas de Soeiro, antiga anexa de São Pedro, elevada àquele estatuto a 23 de Maio 1988329. Trata-se de uma freguesia da zona urbana de Celorico e por essa razão é uma das que mais se tem desenvolvido em termos de crescimento habitacional. Comparando os valores do Censo de 1991 com os de 2001, publicados na página online da CM de Celorico da Beira, é possível constatar que a população residente de Casas do Soeiro aumentou, apresentando uma variação positiva de 17,8%. O mesmo não acontece com a maioria das restantes freguesias, as quais exibem uma variação negativa, à excepção de São Pedro e Santa Maria. Na mesma fonte, relata-se a história da freguesia, faz-se a sua descrição física e mencionam-se as festas da aldeia. O Professor Manuel Ramos de Oliveira não trata desta freguesia na sua monografia, pois na altura em que a escreveu, 1939, ainda não existia. À data da terceira edição, 1997, embora já existisse não a acrescentou. Pelo contrário, Adriano Vasco Rodrigues, embora não se tenha alongado muito, aditou, na segunda edição da sua monografia, em 1992, o seguinte a respeito de Casas do Soeiro: “Elevada a freguesia em 23 de Maio de 1988. Sede da Junta; escolas, jardim infantil, etc. População 447 h.”330 No DVD Portugal Século XXI: Distrito da Guarda331, além do Historial, População e Tradições, trata do Desenvolvimento Económico e do Turismo, bem como da Gastronomia, não só desta freguesia como também das freguesias de todas as outras freguesias, à excepção de Açores, Baraçal, Lageosa do Mondego, Minhocal, Ratoeira e Vila Boa do Mondego, que se encontram, assim o menciona o documento electrónico, em actualização.

Voltando à monografia do Professor Manuel Ramos de Oliveira, algumas freguesias destacam-se pelo volume de informação que lhes é dedicado. Os capítulos sobre Açores e Linhares332, capítulos I e VIII, respectivamente, são os maiores: o primeiro com vinte de duas páginas e o segundo com quarenta e duas. Esta notoriedade deve-se à sua importância religiosa, administrativa e cultura. Lembre-se que Açores era conhecido pela sua padroeira, Nossa Senhora de Açor, que atraía muitos devotos, inclusive a família real. Linhares, por outro lado, foi Vila até ao século XIX, tendo recebido o seu primeiro foral em 1169, por D. Afonso Henriques. Por esse motivo, usufrui do maior espólio cultural do concelho, contado com o edifício do antigo Paços do Concelho, Cadeia, Tribunal (Forum), o Castelo e várias Igrejas. Além disso, foi “Casa do Infantado333, desde 1654, data em que D. João IV a fundou em favor do filho D. Pedro”334 e “foi também sede duma grande Comarca, abrangendo Aguiar da Beira, Pena Verde, Fornos de Algodres, etc. a que o Mapa da População do Reino de Portugal em 1820 atribuía 40 freguesias com mais de 18.000 habitantes.”335 Relativamente às outras freguesias, refere-se a assuntos como: à origem do nome, aos seus monumentos, à toponímia, aos costumes e tradições, às famílias ilustres, à heráldica, à instrução, às anexas, no caso de existirem, e às curiosidades de cada uma delas. A respeito deste último tópico, o Professor revela, no caso da Mesquitela, que foi primeiro Condado, nomeado por D.Afonso VI a 14 de Maio de 1648336, doado a D. Rodrigo de Castro, Governador da Beira, e mais tarde, em 1664 foi elevada a Vila e, por isso teve um edifício da Câmara e um Pelourinho. Este último foi demolido em 1870 e o primeiro vendido, em 1843, ao Padre António Ribeiro Pessoa, de Fornos de Algodres337. Acrescenta ainda: “Vila Soeiro já lhe pertenceu, e o Cadouço passou em 1898 a desligar-se, indo para Juncais. D. João IV deu-lhe foral em 1644.”338 Quanto ao Baraçal, ficamos a saber que também já teve um Pelourinho, um símbolo das vilas, que “desapareceu em trágicas circunstâncias”339. Carrapichana distingue-se pelo seu mercado quinzenal, já conhecido em 1837, como comprova uma acta da sessão da Câmara de Linhares de 22 de Janeiro desse ano:

“(…) acordou-se que no lugar de Vila Cortês no sítio do Canto do Calvário, caminho que vai para Vila Ruiva se constituísse uma feira mensal nas segundas-feiras das segundas semanas de cada mês, a qual deveria constar de todos os mantimentos, gados lanígeros, vacum e o mais que se costuma vender na feira da Carrapichana.”340


Sobre Cortiçô, diz-se que “é uma das mais antigas do Concelho, conforme o indicam as regalias que gozou nos primórdios da Monarquia.”341 Mais ainda: pertenceu, primeiro à Ordem do Hospital, depois à Ordem de Malta342 e “notabilizou-se antigamente pelas suas indústrias, provando-se isto não só com a tradição de locais a elas relacionadas – Olas, Tintes, Pisão, Pelames, como também com a documentação arquivada.”343 Porém, não refere o local da mesma. Fornotelheiro destaca-se pela sua história como antiga Vila que foi. Ostenta ainda um Pelourinho, uma Forca em ruínas e o famoso Cemitério de S. Gens, com sepulturas escavadas na rocha anteriores à era romana344. A Lageosa foi e é “um centro comercial de relativa importância, para o que apresenta estabelecimentos deste género, em nada inferiores aos da sede, explorando há poucos anos a indústria da serração de madeiras.”345 No que concerne à freguesia de Maçal do Chão, o Professor Manuel Ramos de Oliveira escreve o seguinte:

“O nome Maçal deve-se a antigas indústrias, sendo ainda relembrado na seguinte quadra que os povos circunvizinhos cantam:

Meu coletinho de malha

Que m’ aperta o coração

Foi fiado em Trancoso

Feito no Maçal do Chão.

Além disso é das raras terra do Concelho que forneceu vítimas à Inquisição e sabido é que onde viviam cristãos novos, a indústria era de certo modo impulsionada por eles.”346
Outro caso de exploração de indústria foi o Minhocal, que segundo o Professor: “explorou o fabrico da telha, indústria que hoje desapareceu totalmente.”347 Vale de Azares também foi conhecido pela indústria, nomeadamente, a sua fábrica de seda, sediada, primeiro no Soutinho e mais tarde em Mourilhe, e pela indústria da pólvora bombardeira348. Pelo contrário, Prados sempre foi uma aldeia natural como se pode comprovar nas seguintes palavras de Manuel Ramos de Oliveira:

“No seu termo encontram-se algumas curiosidades, obras da natureza, tais como a Penha, monte muito frequentado pelos caçadores e de onde se descortina uma vista surpreendente, abrangendo terras imensas, vilas e aldeias dispersas na vastidão do horizonte; nas cartas topográficas é designada com o nome de Cabeça Alta.”349


Contudo, foi berço de muitos ilustres senhores350 que desempenharam cargos importantíssimos, trazendo grandes benefícios para a aldeia, em particular, e para o Concelho, em geral. Em relação à Rapa, apresenta a curiosidade de a sua gente ter “uma grande vocação para representar, principalmente o género dramático”351. De facto, a tradição continua com a Associação de Solidariedade Social, que, por diversas vezes, representaram no Centro Cultural de Celorico da Beira.352 O Boletim Municipal, de 29.02.1995353, dá conta de uma actuação do grupo de teatro da Rapa. Além de outras curiosidades, o Professor refere, em relação à Ratoeira que: “nos sítios do Caravelo e Mont’ Alto há lagares abertos na rocha, onde primitivamente eram fabricados os vinhos palhetes da região; estes lagares rudimentares serão dos tempos proto-históricos, talvez dos Ceutas.”354 Sobre Salgueirais anota: “A terra não tem história, nem sequer tradições pelas quais se possa aferir da sua importância.”355 A respeito da Velosa e de Vide-Entre-Vinhas, relembra-se entre outros assuntos, a sua ligação com as Lendas da Penhadeira e da Senhora dos Verdes, respectivamente. Curioso é a informação sobre Vila Boa do Mondego que, de acordo com o Professor Manuel Ramos de Oliveira, teve foral: “Em 1216 contava apenas 60 colonos, sendo-lhe dado o foral na mesma data por D. Martim Peres a quem pertencia.”356 Num subcapítulo trata dos “Apodos dos Habitantes das Freguesias do Concelho”, onde menciona os “apodos mais ou menos depreciativos e se alguns caíram em desuso outros há que ainda são recordados”357, como por exemplo os habitantes de Prados foram conhecidos por carvoeiros, os da Rapa por jacobinos, os da Ratoeira por ratos e os de Vale-de-Azares por basófias. Este último apodo deu mote à banda filarmónica da terra que o adoptou como denominador.

Adriano Vasco Rodrigues é bem mais sucinto, uma vez que em oito páginas faz o retrato de cada uma das freguesias, mencionando o estritamente necessário, por exemplo, as anexas, os monumentos, a população. No entanto, revela alguns dados importantes, ao afirmar que a Aldeia Rica, anexa de Açores, pertenceu à Ordem de Cristo, antiga Ordem dos Templários358 e é mencionada nas Inquirições de D. Dinis, no século XVI. Aponta para a existência, nas proximidades de Cortiçô, das minas de estanho (Valagota)359, e para o facto da igreja do Fornotelheiro ter pertencido à ordem de Malta360. No que refere à Lageosa, afirma ter sido viscondado e relembra o facto do general inglês, Beresford, ter instalado lá o seu exército, fazendo uso da igreja matriz e um dos solares como Hospital de Sangue361. Ainda relata que a Ponte de Ladrão, posicionada nas proximidades, foi palco de vários crimes violentos.362 Nenhum dos dois, Manuel Ramos de Oliveira ou Adriano Vasco Rodrigues, dedica qualquer palavra a Santa Maria ou São Pedro, as duas freguesias em que se encontra dividida a Vila, administrativamente. A razão, nos dois casos, deve-se ao facto de já as terem abordado ao longo de toda a monografia.

Existe, pelo menos, mais um documento sobre as freguesias do Concelho de Celorico da Beira. Trata-se do texto Panoramas do Distrito da Guarda 363, que é mais extenso que o texto de Adriano Vasco Rodrigues, no entanto, bem mais resumido que o do Professor. Ao contrário dos outros dois, aborda todas as freguesias, incluindo as da Vila:

“A vila de Celorico teve quatro freguesias que foram: St.a Maria, (orago Nossa Senhora da Guia), S. Pedro, S. Martinho e St.o André. Esta última foi suprimida no reinado de D. João III, fazendo-se a Misericórdia na sua Igreja. A igreja de S. Martinho foi fundada pelos templários em 1217, reedificada em 1770, mas suprimida pouco depois.”364


De todos os textos mencionados, o do Professor Manuel Ramos de Oliveira é, sem dúvida, até à data, o mais completo sobre esta temática.


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