Universidade da Beira Interior



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4.2. Movimentos Associativos

Em Celorico, o Movimento Associativo teve as suas raízes nas formas tradicionais de solidariedade social, as quais remontam ao século XIII365. Por essa altura, refere um documento electrónico, existiu em Linhares uma albergaria, cujo objectivo principal era prestar auxílio aos mais necessitados. No contexto social da idade média, facilmente se compreende a preocupação da igreja em pôr em prática os seus valores cristãos de fraternidade e solidariedade. Mais tarde, no século XVIII, de acordo com Adriano Vasco Rodrigues, a Misericórdia de Linhares era responsável pela Casa da Roda, que era um local onde eram recebidos recém-nascidos não desejados ou cujas mães tinha graves carências económicas. Embora a assistência fosse dada pela Igreja, existia na Câmara Municipal um livro de registo das crianças abandonadas na “roda”.

Ainda hoje é nas associações, sejam elas de cariz religioso ou pagão, que se exprime melhor a solidariedade, ao mesmo tempo que se exprime a identidade local e a expressão cultural. O concelho de Celorico da Beira pode, a este nível, ser considerada bastante dinâmica, conforme a seguir se demonstra. Em meados do século XX, de acordo com a revista366, existiam mais associações sociais ligadas à igreja, como comprova o artigo sobre a Assistência e Previdência na Beira-Serra, no qual se mencionam as seguintes instituições na área concelhia de Celorico da Beira: Hospital da Misericórdia, assistência farmacêutica e hospitalar, em Celorico; Conferências de S. Vicente de Paula (masculina e feminina), em Celorico; Patronato das Prisões, em Celorico; Casa do Povo de Celorico; e Misericórdia de Linhares. Hoje em dia, em conformidade com o registo no Governo Civil da Guarda367, existem mais de oitenta movimentos associativos368 em Celorico da Beira, da mais variada natureza: económica, social, recreativa, cultural, profissional, etc.

Em 1939, na altura em que o Professor Manuel Ramos de Oliveira escreveu a sua monografia, existiam diversas associações, quer desportivas, quer culturais. No entanto, não havia um “lugar onde os seus habitantes pudessem recrear a vista e o espírito em contacto com as flores”, ou seja, um jardim. Só “em 1944 foi inaugurado no antigo mercado do sal o pequenino mas alegante jardim, ao fundo do qual, num plano inferior ficam as retretes”369. Exemplo de associações desportivas: o Clube Celoricense370, fundado em 1901, e o Sporting Club de Celorico. O Grémio Sacadura Cabral, a Filarmónica Celoriquense e a Orquestra Celoricense371, fundada em 1900 são alguns dos adágios culturais da Vila. Numa Pompílio, no seu texto sobre Celorico, confirma a existência de “duas belas filarmónicas”372 e o periódico Jornal de Celorico relata, na edição de 09.10.1919, que apesar de não haver festejos aquando do 9º Aniversário da República na Vila, devido ao desânimo geral, a “Banda Celoricense deu a volta à Vila tocando o hino”373. Voltando à monografia do Professor, este não deixa de destacar a existência da Associação dos Bombeiros Voluntários, cujo primeiro ensaio se realizou em 24 de Janeiro de 1880374 a qual tem sido fundamental na protecção civil e não só, como comprova o “Kit Queijo da Serra da Estrela e Chouriço Beirão” lançado na altura do Mundial de Futebol. O Presidente da Associação de Bombeiros Voluntários, o Dr. António Silva, revelou à revista Lux375 que esta iniciativa foi desenvolvida em parceria com o Solar do Queijo da Serra da Estrela, dependência da Câmara Municipal, e tem como objectivo dar a conhecer os produtos regionais ao mesmo tempo que angariam verbas para a associação. A Associação de Bombeiros Voluntários tem ainda, desde os anos oitenta, uma fanfarra que, para além dos bombeiros, incluiu também civis, principalmente crianças. Esta fanfarra, apesar de parada durante alguns anos, voltou a ter vida vida e tem sido solicitada em diversos pontos do país. Na década de noventa, esteve no estrangeiro, mais precisamente em França, na cidade geminada com Celorico da Beira, de nome Grinolds. Mais recentemente, foi criada a Fazenda da Esperança376 – Associação sem Fins Lucrativos, presidida pelo pároco actual da Vila, José Manuel Martins de Almeida, e cujo objectivo é a criação de um centro de inserção social para jovens vítimas de qualquer dependência. A realizar-se, vai ser a primeira instituição daquele ramo em Portugal, cuja localização fica numa quinta do Maçal do Chão, doada à Igreja. O jornal A Guarda reportou o acontecimento:

“O padre José Manuel Martins, pároco de Celorico da Beira e presidente da Associação Fazenda da Esperança em Portugal, contou ao Jornal “A Guarda” que a instituição, que irá construir uma residência masculina, destinada a acolher utentes adolescentes, jovens e adultos, utiliza um método de tratamento “diferente em relação aos outros”. Explicou que a metodologia curativa assenta em três pilares: trabalho, vida comunitária e espiritualidade. “O objectivo não é apenas recuperar da droga ou do álcool, mas levar os utentes a recuperar a liberdade e a esperança. Curá-los por dentro”, afirmou o Pe. Martins.”377
A Igreja tem desenvolvido diversas actividades378 para divulgar e dar a conhecer esta instituição à população do Concelho, ao mesmo tempo que angaria fundos para a sua execução. O último desses eventos aconteceu no passado dia 30 de Maio, quando se realizou uma romaria ao local onde vai ser implementado o projecto com a imagem da Nª Sr.ª de Fátima.
V. Economia e Desenvolvimento

A realidade socioeconómica de um município espelha, em certa medida, o grau de desenvolvimento do mesmo. Os sistemas de produção predominantes, as condições e os meios de transporte, o acesso aos mercados, a disponibilidade de infra-estruturas sociais básicas, entre outros, condicionam e, podem até determinar, as possibilidades do desenvolvimento local. O nível cultural e a experiência profissional dos antecessores, além dos eventos históricos que marcaram o desenvolvimento municipal são outros factores que interferem na dinâmica do desenvolvimento local e constituem possíveis agentes explicativos para a sua situação actual, que, no caso de Celorico da Beira, é bem diferente de há uns séculos atrás: “Se actualmente não pode ser considerada uma região industrial, o Concelho de Celorico teve noutros tempos maior ingerência neste ramo de actividade do que presentemente conta.”379 Um semanário celoricense do início do século XX afirmava que “o concelho é riquíssimo. Exporta produtos em grande quantidade.”380



5.1. Agricultura, Comércio e Indústria

Um importante factor de desenvolvimento prende-se com as características económicas do município. Nesta caracterização incluem-se principalmente: as explorações económicas agrícolas; a diversificação da produção; a presença de indústrias; e os mercados. Celorico da Beira é hoje um concelho predominantemente rural, cuja economia assenta principalmente na agricultura e na produção de queijo de ovelha381. Devido à quantidade e qualidade de queijo confeccionado, Celorico auto-denomina-se como Capital do Queijo da Serra da Estrela382. Já em 1979, Adriano Vasco Rodrigues comentava que “o produto mais famoso da Beira é o queijo” e acrescentava: “No sábado de Aleluia de 1979 o Presidente da Câmara, Eng. Faria de Almeida viu realizado um sonho que alimentava desde a sua infância: a criação do edifício destinado ao mercado do queijo, para o que envidou todos os esforços.”383 A pecuária representa, deste modo, uma grande percentagem na economia do Concelho, como demonstram os números apresentados por Alberto Martinho no seu trabalho sobre O Pastoreio e o Queijo da Serra384: as três freguesias mais montanhosas, Linhares, Prados e Salgueirais, reuniam, em 1955, 3503 ovelhas e 918 cabras. Hoje em dia, os números estão muito longe desta realidade, uma vez que, à semelhança do resto do país, também Celorico foi deixando a agricultura e a pecuária para segundo plano. As pessoas trabalham principalmente no sector terciário e dedicam-se apenas àquelas actividades para consumo próprio. No entanto, em Celorico continua a haver produtores de queijo385, como comprovam as feiras quinzenais às sextas-feiras e a Feira Anual do Queijo que se realiza todos os anos na altura do Carnaval. Porém, os números devem ser bem diferentes dos que mencionou Adriano Vasco Rodrigues na sua monografia em 1979: “No dia 10 de Março de 1978 no mercado do queijo, em Celorico da Beira, transaccionaram-se dez mil e oitenta e quatro quilos, segundo uma estatística apresentada por Alberto Martinho.”386 Aliada à produção de leite para fabrico do queijo, desenvolveu-se a produção de lã, internacionalmente reconhecida, como se testemunha num documento francês arquivado na BNF que a respeito de Celorico escreve o seguinte: “bourg au pied de la Sierra Estrella, à la source du Mondego, avec un château, trois églises et une école pour la filature de la laine.”387 Manuel Ramos de Oliveira confirma que: “Celorico da Beira e Linhares fabricavam muitas peças de pano em 1631, cuja lã era fornecida por gados sustentados e criados no reino com o dinheiro dos chamados «homens de negócio» (cristãos novos).”388. O mesmo autor remete-nos ainda para dois documentos, um da Chancelaria de D. Afonso V, Livro 18, fl. 59, o outro da Chancelaria de D. João III, Livro 5, fl.33 vº:

“A testemunhar a indústria do concelho, estão não só uma Quitação de Alvaro Gonçalves que foi Recebedor das Sizas dos panos de coor de Celorico em 1425, como também a Carta expedida a Pedro Gonçalves na qualidade de Sellador dos panos de Celorico, no reinado de D. João III e os topónimos – Ribeira das Olas, Fornotelheiro, Rapa, Maçal, Cortiçô, Massa e vários lugares onde existem ou existiram Tintes, Pisões, Pelames, etc.”389
Ainda a respeito da pecuária, Manuel Ramos de Oliveira apresenta na sua monografia um quadro390 não só com o número de gado mas também de animais de capoeira, bem como exibe uma tabela391 onde evidencia que uma elevada percentagem da população se dedicava maioritariamente à agricultura392. Entre essas culturas destacam-se, nomeadamente, as de: batata, trigo, centeio, milho, vinho e azeite393. O vinho, outrora produzido em grandes quantidades394, foi outro dos produtos que deu fama a Celorico da Beira395. Vários autores elogiaram o vinho de Celorico da Beira, entre eles, Rodrigo Mendes da Silva, Manuel Severino Faria, e um inglês de nome Richard Twiss. O primeiro, no seu texto Poblacion, referia que: “entre fecundas viñas, que competitiendo al de Candia, rinden 200v arrobas de preciado, y oloroso licor”396. Já o segundo reporta-se ao “bom vinho de Celorico”397 e ao Senatus Consultos do século XVII, que, como se pode ler em Adriano Vasco Rodrigues:

“Numa perlenga, cheia de humor e de crítica, apresentada como Senatus Consultus, «enviada» pela vereação de Celorico dos Bebados398, em 1624, ao Conselho de Portugal, em Madrid, (estávamos então sob o domínio filipino), condena-se a embriaguez, insurgindo-se a Câmara da vila contra os «barbantes que vêm da casa do Diabo só ao cheiro e fama da boa pinga.”399


O mesmo autor comenta e cita ainda o comentário do inglês Richard, que nos visitou entre 1771 e 1773, a respeito do vinho de Celorico:

“No século XVIII as maiores zonas produtoras de vinho situavam-se no Minho, Trás-os-Montes e Beira. Os melhores aram os de Celorico da Beira. O Inglês Twiss, que viajou em Portugal e na Espanha no séc. XVIII, faz no seu livro, Voyage en Portugal et en Espagne fait en 1771 e 1773, na pág.58, o maior elogio que se pode fazer ao vinho de Celorico da Beira, considerando-o o melhor vinho tinto que bebeu, dizendo-o parecido com o francês de Borgonha, mas considerando-o ainda de superior qualidade.”400


No entanto, na década de setenta do século XIX, as vinhas de Celorico foram arrasadas pela filoxera401. Consequentemente, a produção de vinho deixou de ter peso na economia do Concelho, mas felizmente continua a ser recordado, como já foi referido anteriormente, naquele que foi o 1º Encontro de Vinhos, realizado o ano transacto na Vila. E felizmente, ou infelizmente, esta fama de Celorico perdura, porque é comum que as pessoas se refiram a Celorico, como a “terra dos Bêbados”. O Professor Manuel de Oliveira levanta a possibilidade de Celorico já ser conhecido como tal desde os reinados de D. Dinis ou D. Fernando. No entanto, pelos menos em 1547 existem dois documentos, o Livro das Capelas, nº4, fl.91 da Torre do Tombo e Livro da Fundação do Mosteiro de Salzedas, por Fr. Baltazar dos Reis, que, segundo o mesmo autor, se refere ao termo de “Sorolico Bêbado”402. Apesar da fama que apelidava de uma forma pouco positiva os seus habitantes – Bêbados:

“Cabe a Celorico da Beira o mérito de ser uma das primeiras vilas de Portugal a tomar medidas contra o alcoolismo. Em 1824 a sua Câmara reunida em sessão, a que foram «presentes pessoas de representação social do concelho», considerou as tabernas como casas de devassidão e ociosidade, condenando-as e limitando o seu número ao indispensável, de tal modo que em todo o concelho não foram permitidas mais de seis.”403

O azeite, pelo contrário ainda goza de algum estatuto, uma vez que, como o Professor Manuel Ramos de Oliveira refere, “O azeite da Beira e com ele o do Concelho é considerado um dos melhores – límpido, saboroso e acusando, regra geral, pouca acidez.”404 Os quatro lagares reconhecidos405 e existentes no concelho de Celorico da Beira corroboram a sua importância. Outros produtos, como a castanha, muito importante na economia celoricense de antes406, começou a ser reconhecida pelo actual executivo com a realização do Festival da Castanha407 na freguesia do concelho, actualmente, com maior número de produtores, Prados. Esta iniciativa, cujo objectivo é a promoção deste produto, esquecido como tantos outros produtos locais, foi um dos projectos implementado pelo actual Presidente da Junta de Freguesia de Prados, patrocinado pela Câmara Municipal.

Para além da indústria das lãs, já mencionada, Manuel Ramos de Oliveira reporta para a existência de uma indústria: de olaria em Cortiçô, “pelo que era apelidado de Cortiçô de Oleiros”408; de cutelaria, fiação de seda e fogos de artifício, em Vale de Azares “dos Cutileiros”409; de serração de madeiras na Lageosa e no Fornotelheiro; de telha no Fornotelheiro; de objectos de verga em Açores; de lacticínios; de aguardente; de linhos410 e de moagem, em Celorico-Gare, como expõe o periódico Terra da Beira, nº72, de 06.07.1923411. Desta última “ainda restam nalgumas freguesias do Concelho, exemplares de complicados e engenhosos teares que os árabes inventaram e que as nossas avós manejavam com destreza. A invasão do algodão aniquilou a interessante indústria que raras hoje praticam.” 412 Outra indústria que proliferou no passado em Celorico da Beira foi a mineração413, como nos dá conta o Professor Manuel Ramos de Oliveira: “No Concelho, registaram-se no ano de 1917, minas de volfrâmio e outros minerais em Linhares, Mesquitela, e Salgueirais, e de estanho em Vide e Celorico. (…) Depois a Operação Estanho-Minas Limitada operou intensamente no vale de Santo António, extraindo em grande quantidade o precioso minério.”414 Ainda a respeito da diversidade de actividades económicas que existiram no Concelho pode ler-se, em Celorico da Beira Através da História, o seguinte:

“O reconhecimento do peso hegemónico da ruralidade no quotidiano do concelho não implica, entretanto, que se ignore a presença de actividades económicas diferentes (complementares e/ou antagónicas). Devido à crescente opção por produtos industriais oriundos de outras zonas do país ou do estrangeiro, o sector secundário foi-se limitando, cada vez mais, a pequenas unidades – artesanais ou maquinofactureiras – de transformação de bens primários (pão, vinho, azeite e queijo, madeira, pedra, telhas, lingotes de estanho e concentrados de volfrâmio).”415
5.2. Estradas e Vias de Comunicação (vias romanas, Caminho de ferro)
As estradas e outras vias de comunicação são, para além da situação geográfica, outro factor relevante para o desenvolvimento local. Na verdade, como diz o Professor Ramos de Oliveira:

“A importância militar de Celorico provêm-lhe não só da sua excelente posição estratégica a dominar uma das principais vias de comunicação servida pelo caminho da ferro da Beira Alta, como por ser um cruzamento importante de estradas, o que lhe assegura um valor comercial indiscutível.”416


Dos primeiros caminhos que atravessaram o concelho de Celorico da Beira e que o ligaram a outros restam alguns vestígios que os associam aos tempos dos romanos. De facto, o mesmo autor afirma na sua monografia que: “Destas estradas do País restam alguns troços no Concelho – Celorico, Linhares, Rapa, Prados, Vale de Azares, Ratoeira, etc., porque o vandalismo nem as pedras respeitou.”417 Mais tarde, segundo o autor, foram criadas as estradas municipais, ou de 3ª ordem418, que faziam a ligação do Concelho a outros, como o da Guarda, Pinhel, Almeida, Figueira de Castelo Rodrigo e Aguiar da Beira.419 O traçado da estrada principal que atravessa a Vila foi aprovado pelo Ministro das Obras Públicas João de Andrade Corvo em 1867, aquando da sua visita à Vila a 27 de Setembro. Por essa razão e “para lhe testemunhar a gratidão, em sessão de 30 do mesmo mês e ano deu o seu nome à artéria principal que ainda hoje conserva em parte.”420

A sua posição chave na defesa do vale do Mondego foi fundamental, como já foi referido anteriormente, quer na guerra entre portugueses e castelhanos, quer nas guerras napoleónicas. Nestas últimas, foi diversas vezes ocupado por franceses e ingleses, como demonstram alguns documentos electrónicos arquivados na BNF. Um desses documentos dá conta dos itinerários que ligam Celorico a lugares como Guarda, Viseu e Lisboa. São eles os itinerários: nº77 “(33) A Celorico, par la Guarda – Gabadoide, 1 l. – Mondego, I d. – Lagiosa, I d. – Celorico, I l. – D’ici on peut aller à Lisbonne par le nº75.” Nº 78 “De La Guarda à Viseu, 12 lieues: La Guarda à Celorico, 3 l.”421 Além das estradas, um outro documento descreve a linha de caminhos-de-ferro que já servia Celorico da Beira no século XIX:

“Route 6 – De Figueira da Foz A lA Frontière d’ Espagne - Chemins de fer de la Beira Alta, 253 k. – Prix: 1ª cl. 5,023 reis; 2ª. 3,910 reis, 3ª, 2,790 reis; trajet en 10h. (…) 168 k. Celorico (alt., 405 mèt.69). Ce village s’aperçoit à mi-côte d’une colline, au-dessus de la rive g. du fleuve. Voiture de correspondance de la gare au bourg, en 1 heure. A partir de Celorico, et afin d’éviter les hauteurs de la Serra da Estrella, qui précèdent le sommet occupé par Guarda, la voie incline au N.-E., puis au N., et en rampe depuis Gouvea, pour atteindre.” 422
Embora a sua relevância como local estratégico-militar durante as sucessivas guerras peninsulares se tenha perdido com o fim das mesmas, não perdeu, no entanto, a sua importância enquanto ponto de passagem obrigatório, uma vez que, como Adriano Vasco Rodrigues refere: “Está situado numa importante rede viária, que o liga à Europa e ao centro de Portugal: Estrada I.P.5, (Aveiro a Vilar Formoso); Estrada nº17, (Coimbra a Celorico da Beira); Estrada nº102 (Celorico da Beira a Macedo de Cavaleiros).”423 Também ele refere o facto de a Vila ser “servida pelo caminho-de-ferro, dispondo de estação a 4 km. (Linha da Beira Alta, com ligação a Espanha). Manuel Ramos de Oliveira acrescenta o facto de a Vila ser servida por duas estações: a de Celorico-Gare e a do Baraçal, extinta nos dias de hoje. Faculta ainda a data de inauguração da linha da Beira Alta: 3 de Agosto de 1882, embora tenha sido apenas “no dia 10 do mesmo mês que na estação engalanada passou o primeiro comboio conduzindo D. Luiz, Dona Maria Pia, D. Carlos, D. Afonso, Fontes Pereira de Melo, Tomaz Ribeiro, etc.”424 À primeira vista, este acontecimento parece ter sido uma grande conquista que comprova quer a importância da localização geográfica da Vila, quer o desenvolvimento da sua economia.

Contudo, o Professor Manuel Ramos de Oliveira, não desprezando a “compensação” e “grandes vantagens”425 que trouxe ao Concelho, atesta que o caminho-de-ferro veio “atrofiar o desenvolvimento426 da Vila”427:

“Conquanto pareça paradoxo, é certo que a construção da via férrea da Beira Alta vibrou um tremendo golpe ao desenvolvimento da Vila, de que por muitos anos se ressentiu, porque constituindo ponto de passagem obrigatória para todos os que entregavam as transacções comerciais que de Coimbra a Lisboa se faziam com os povos da fronteira, tornava-se um centro de abastecimento importantíssimo.”428
Nos nossos dias, Celorico continua a ser um local de passagem obrigatório, pois é atravessado: pela A. 25, antiga I.P. 5, que faz a ligação de Aveiro a Vilar Formoso, que dá ligação à I.P. 3 que liga Coimbra a Viseu, à A. 23 que liga a Covilhã e a Castelo Branco e à nova A. 24, que liga Viseu a Chaves; pelo novo I.P. 2, que liga Portalegre a Bragança, passando por Trancoso429; pela velha Estrada Nacional nº17 que liga Coimbra a Celorico da Beira. Perante tal localização privilegiada, e dada a vivacidade comercial e industrial do seu passado, não se compreende como é que Celorico é hoje uma vila parada no tempo, onde a única indústria que ainda prolifera é a da construção civil, que tem oferecido às pessoas um local sossegado para residir e fáceis acessos os locais onde trabalham: Guarda, Gouveia, Seia, Fornos de Algodres, Mangualde, Pinhel, entre outros.

5.3. Feiras e Mercados

Celorico da Beira, como já foi dito anteriormente, gozou durante as sucessivas investidas castelhanas de uma posição estratégico-militar que lhe valeu a atribuição de foral e passagem a Vila. Passadas estas lutas para a consolidação da nacionalidade portuguesa, Celorico manteve a sua importância como “ponto de passagem, de cruzamento de rotas entre o litoral e raia beirã e transmontana.”430 Perante tal situação, não admira que Celorico da Beira tenha sido, desde cedo, um local de trocas comerciais, pois recebeu carta de feira do rei D. Dinis, em 1287. De acordo com Manuel Ramos de Oliveira, que recolheu informações nas Chancelarias de D. Dinis431 e D. João I432, esta carta data de 14 de Abril de 1287 e:

“(…) nele mandava ElRei que a feira se começasse a fazer no dia 24 de Maio e durasse 15 dias, sendo mais tarde confirmado por D. João I em 25 de Maio de 1394, a pedido do Concelho de Celorico, passando a ser Feira Franca. Há pois 685 anos que Celorico teve a sua primeira feira, conhecendo-se apenas com datas recuadas dentro do Distrito as de Castelo Mendo e Guarda, respectivamente criadas em 1229 e 1255.”433
A carta de feira concedida por D. Dinis comprova a dinâmica comercial da Vila, pois apenas um local com uma actividade comercial significativa poderia receber tal documento. No entanto, a tal feira de Maio deixou de se realizar. O Professor Manuel Ramos de Oliveira faz o seguinte reparo:

“Ainda supusemos ter sido transferida para o dia 10 de Agosto (S. Lourenço) porque nesta quadra já o povo tem recolhido parte dos seus géneros que precisava negociar, o que não acontece em Maio, que é por sinal designado o mês da fome (Maiela).”434


Contudo, ao transcrever a carta da feira de S. Lourenço outorgada por D. João V em 1772435, conclui:

“(…) esta feira nada tem a ver com a primeira instituída por D. Dinis e que já havia desaparecido, e muito menos com a de Santa Eufêmea, que se realiza a 16 de Setembro. Desta, apesar de ser relativamente recente, sabíamos apenas que em 1758 ainda não existia, porque os párocos de Celorico não a indicam nas Memórias Paroquiais, apenas citando a de S. Lourenço.”436


No entanto, o mesmo autor encontrou um documento na Torre do Tombo437 que atesta a necessidade da existência de mais uma feira anual para escoamento dos produtos. A escolha do local (Corredoura), como testemunha o mesmo documento, prende-se com o facto de lá existir uma capela em devoção à Santa Eufémia438 e por nesse dia da Santa, 16 de Setembro, é visitada pelas gentes do Concelho e arredores. Estas duas últimas feiras, a de São Lourenço e a de Santa Eufémia, ainda se realizam nos dias de hoje, mas estão muito longe de ser aquilo que eram, quer no número e variedade de feirantes, quer no número de visitantes. É perfeitamente compreensível se se tiver em conta a diversidade comercial de hoje, desde lojas de rua a centros comerciais e a facilidade de mobilidade oferecida pela A.25 e A.23.

Mais regularmente, existe o mercado semanal às terças-feiras, onde se comercializam produtos frescos, como hortaliça e fruta, cereais, aves domésticas e utensílios agrícolas. De acordo com Manuel Ramos de Oliveira:

“(…) o mercado nasceu logo com a conquista da Vila aos mouros, porque o foral de D. Afonso Henriques já o assinala. Mais tarde, em 1847, foram feitas as obras do Cais do Sal havendo ainda o local do Mercado do Peixe. Para estas duas mercadorias havia D. José439 passado uma provisão ao povo de Celorico, para comprar e vender, por decreto de 18 de Agosto de 1774.”440
O local da realização deste mercado é que nem sempre foi o mesmo. Primeiro, foi no largo junto à Igreja de Santa Maria e ao antigo edifício dos Paços do concelho, hoje Solar Museu do Queijo da Serra. Só em 1770 é que se mudou para a Corredora e em 1783 foi definitivamente transferido para o lugar do Côrro. Actualmente, decorre no edifício do Mercado Municipal, também chamado de Mercado do Queijo, inaugurado pelo então Presidente da Câmara Municipal, Eng. Faria de Almeida, no Sábado de Aleluia em 1979441. A mais recente monografia, Celorico da Beira, Através da História, confirma o dinamismo económico da Vila nos termos seguintes:

“A economia agrícola e artesanal de Celorico da Beira tinha uma forte componente de auto-consumo, mas era igualmente dinamizada pelos mercados semanais, realizados às terças-feiras, e pelas feiras anuais de Santa Eufémia e de S. Lourenço.”442


Além da realização do mercado semanal é também palco da Feira Anual do Queijo da Serra que, segundo Adriano Vasco Rodrigues, se tornou num “acontecimento importante na vida do Concelho, atraindo produtores e consumidores, turistas e amigos do Concelho.”443 Ainda no concelho, decorre na Carrapichana o mercado quinzenal à Segunda-feira e o mercado, também quinzenal, ao Sábado na Lageosa do Mondego. O primeiro é um mercado de cariz animal e o segundo de natureza variada

Perante tal actividade económica, o Professor Manuel Ramos de Oliveira faz questão de elogiar: “uma classe que foi grande animadora do comércio em Celorico antes da construção do caminho-de-ferro, porque a sua actividade estendia-se a diferentes pontos do país levando e trazendo os produtos indispensáveis às respectivas populações.”444 Falava naturalmente dos almocreves445 que, na sua maioria eram Judeus. Como se sabe, os Judeus foram desse sempre uma classe dedicada ao comércio. Ora, uma terra comercial como Celorico da Beira, deve ter atraído muitos Judeus, responsáveis pelo tráfego comercial dos séculos XVI e XVII, como se comprova nos processos da Inquisição de Lisboa446 e Coimbra447. No entanto nem sempre assim fora, como relata Isaura Luísa Cabral Miguel:

“Celorico da Beira tinha na Alta Idade Média um aglomerado judaico muito pequeno e pouco expressivo, acontecendo aqui como em outras pequenas vilas e aldeia da época, a miscigenação entre os povos, e sendo por esse motivo difícil saber quem era Judeu ou não.”448
Só em finais do século XV e inícios do século XVI, com a instituição da Inquisição em Castela e consequente expulsão dos Judeus, é que o número de Judeus aumentou significativamente. A escolha por Celorico da Beira deve-se, para Adriano Vasco Rodrigues, à “criação das feiras de Celorico da Beira, Marialva, Trancoso e Guarda”449, e para o Professor Manuel Ramos de Oliveira, às “admiráveis condições económicas que a Vila fornecia”450. Isaura Miguel acrescenta as vantagens que o crescente número de Judeus451 que em Celorico da Beira procurava protecção:

“A vila, antiga e pacata, passou a conhecer um enorme desenvolvimento comercial, principalmente porque passou a ser aqui o grande entreposto comercial da região. Existindo no início poucas dezenas de Judeus, Celorico da Beira chegou no final do século XV a ter uma população de 150 a 200 famílias.”452


Relativamente à população judaica propriamente cita autor cita alguns nomes e respectivas profissões, extraídos da Chancelaria de D. Afonso V e D. João II, nomeadamente, Abraão Levi, tendeiro, Judas Barrocas, Isaac de Vinhó, Moisés Monte Cruz, entre outros453. De acordo com Isaura Miguel:

“Em Celorico da Beira encontramos diversos nomes próprios judaicos, sendo que José é aquele que mais presenças tem, ocupa com um total de 6. A seguir encontramos os nomes Moisés e Isaac com 5 presenças. Também nomes femininos como o de Rainha.”454


Relativamente às profissões desempenhadas por estes Judeus455, a mesma autora revela que:

“A nossa amostra centra-se, quase na totalidade, nos mesteres artesanais, com maior incidência dos sapateiros com dez pessoas, logo seguidos pelos alfaiates com oito pessoas. Encontramos aqui mais uma profissão nova que é a de carvoeiro, e, no sector comercial, temos o tendeiro. Na área da saúde há a menção de um cirurgião. Ficámos sem notícias sobre a administração religiosa, pois não temos referência a nenhum rabi.”456


Normalmente viviam em bairros próprios, designados de Judiaria ou Comuna, onde praticavam o seu culto, falavam o seu idioma e mantinham as suas tradições, enquanto lhes foi permitido. Em Celorico da Beira, dado o número de Judeus, que a habitaram, também existiu uma Judiaria. Contudo, o local na mesma não é unânime. Manuel Ramos de Oliveira afirma que: “A Comuna de Celorico devia localizar-se na Rua Nova, a mais comercial de então. Reforçamos esta nossa opinião com os portais que ainda se notam nos velhos prédios quinhentistas e no exemplo de outras terras, como Viseu, que também os albergava na Rua Nova.”457 Adriano Vasco Rodrigues, por outro lado, alega que: “A Judiaria de Celorico da Beira ficaria talvez na zona do antigo matadouro. Também a da Guarda existiu onde foi o matadouro e se fez recolha de gados para abate.”458 Linhares também teve uma comunidade de judeus e, portanto, uma Judiaria, extinta, de acordo com Adriano Vasco Rodrigues459, em 1530 pelo Rei D. Manuel. Existiu até há bem pouco tempo, em Linhares, na entrada que dava acesso ao bairro dos Judeus, uma casa comercial de artesanato local de nome “Casa do Judeu”.

Porém, nem todos os Judeus eram comerciantes. Como foi mencionado no capítulo II, no ponto um, algumas das figuras ilustres do Concelho eram intelectuais de descendência judaica, como é o caso do médico Isaac Cardoso, nascido em Celorico da Beira, no início do século XVII. Adriano Vasco Rodrigues explica que:

“A Vila de Celorico da Beira, situada na estrada da Beira, penetrando o país através do vale do Mondego, foi servida por vias mercantis, que também ligavam centros de cultura. A Universidade de Coimbra e a de Salamanca eram os pólos mais próximos e portanto, os que mais atraíam os estudiosos daquela vila. Nos inícios do século XVI e XVII possuiu Celorico uma plêiade de homens de letras, que se tornaram notáveis, nas leis, na medicina, na filosofia, na religião.”460
Na verdade, também existe um quadro publicado na revista Altitude, por Maria José Pimenta Ferro Tavares461, onde é feito o levantamento populacional da comunidade judaica do século XV e respectivas profissões em Celorico da Beira. Assim, e de acordo com o tal quadro, havia na altura nove sapateiros, cinco tecelões, sete alfaiates, um ferreiro e dois físicos e cirurgiões. Prova-se assim que nem todos eram comerciantes. De facto, houve Judeus distintos, naturais de Celorico da Beira ou do Concelho, foram: Miguel da Silveira, lente de Filosofia, Jurisprudência, Medicina e Matemática; António Henriques Gomes, Médico e Escritor; Martinho de Celorico, Jurisconsulto; Rodrigo Mendes da Silva, cronista-mor do rei católico, Filipe IV, autor de muitas obras, entre outros. Todos eles foram alvo da Inquisição, quer em Portugal, quer em Espanha. Manuel Ramos de Oliveira e Adriano Vasco Rodrigues apresentam uma lista de processos da Inquisição: o primeiro apresenta apenas os processos de Judeus que nasceram ou residiram na Vila, quer na Inquisição de Lisboa, quer na Inquisição de Coimbra; o segundo apenas revela os nomes dos Judeus com processo na Inquisição de Coimbra, embora trate não só dos naturais da Vila de Celorico, como também dos de Linhares. O Professor Manuel Ramos de Oliveira faz o seguinte apanhado acerca dos números da Inquisição:

“Foram condenados em Coimbra 14 homens e 10 mulheres e em Lisboa 30 homens e 37 mulheres. Destes, sofreram a pena última em Coimbra 1 homem e em Lisboa 1 homem e 3 mulheres, o que perfaz um total de 44 homens e 47 mulheres, sendo relaxados 2 homens e 3 mulheres. Claro que só nos referimos aos réus naturais ou residentes na Vila, porque se lhes juntarmos os do Concelho, o sue número é bem maior, principalmente nos que foram queimados.”462


No início do século passado ainda era possível testemunhar o carácter comercial da Vila, como se pode observar pelos anúncios publicitários às várias casas comerciais dos periódicos de Celorico da Beira. No Jornal de Celorico de 18.09.1919, existem os seguintes anúncios: Chalet-Verde (sortido de lã, algodão, modas); Alfaiataria Moderna (também tem fatos para militares e estudantes); Ourivesaria e Relojoaria; Agente seguros Lusitana; Farmácia Ribeiro; Tipografia e Papelaria Ecos da Beira; Loja Nova (fazendas e algodão); Alfaiataria Central; Casa Elite (material eléctrico); Marcenaria; Centro Comercial (lã, algodão e miudezas); Serralharia; Casa Comercial (algodão, lã, livros escolares); Sapataria Moderna.463


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