Universidade da Beira Interior



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5.4. A questão do Desenvolvimento

A organização da sociedade civil é um factor de potencialização do desenvolvimento local. Porque as organizações sociais (associações e conselhos comunitários, sindicatos, partidos, clubes, etc.) são instrumentos de mobilização da população muito importantes, tanto para realizar directamente actividades específicas do seu interesse, como para canalizar denúncias, propostas e reivindicações aos órgãos públicos, contribuindo decisivamente para a democratização das instituições. Além disso, as diversas formas de organização da população melhoram a auto-estima e aumentam a autoconfiança, com efeitos benéficos na capacidade de trabalho e intervenção dos cidadãos, que podem contribuir e muito para o desenvolvimento da sua localidade, ao reivindicar junto das autoridades locais aquilo que acreditam ser o melhor para si e para o local onde residem. O primeiro boom de progresso e desenvolvimento da Vila e do Concelho deu-se logo a seguir ao 25 de Abril, pelas mãos do Engenheiro Faria de Almeida, então Presidente da Câmara Municipal. Nas palavras de Adriano Vasco Rodrigues:

Faria de Almeida foi para Celorico da Beira o homem necessário no momento próprio464. Conhecedor dos problemas da sua Terra, procurou resolvê-los com determinação e inteligência, usando, apropriadamente, os meios de que dispunha.”465
O seu principal objectivo era o desenvolvimento da Vila em todos os níveis: económico, social e cultural. Para o alcançar, foram estabelecidas prioridades e metas. Adriano Vasco Rodrigues resumiu a sua actuação como executivo máximo da autarquia em três momentos466: 1) criação de infra-estruturas; 2) apoio a iniciativas privadas, com intuito de criação de postos de trabalho; 3) criação de super-estruturas culturais, desportivas e espirituais. A primeira fase, designada, nas palavras do autor, de “verdadeira revolução urbana”467, realizada entre 1976 e 1991468, caracterizou-se pela instalação de redes de saneamento básico e de abastecimento de água em todas as aldeias e anexas, consideradas fundamentais:

“Estes trabalhos não interessam aos políticos de fachada, preocupados com o eleitoralismo fácil e imediato469, mas são uma preocupação dos políticos conscientes das suas responsabilidades, pois as obras escondidas são a base das infra-estruturas, em que assenta a higiene, o conforto social e o desenvolvimento duma localidade, ou região.”470


A par da rede de saneamento, foram melhorados os acessos às freguesias através de reparação de caminhos existentes e abertura de novos caminhos. Também foi dada prioridade à habitação social com construção de mais de uma centena de lares sociais, assim como a construção de lugares próprios para as várias Juntas de Freguesia e Câmara Municipal. O segundo passo foi dado no sentido de criar condições para o avanço da zona industrial apoiando as iniciativas privadas, bem como realização de obras de grande envergadura: Mercado Municipal e Parque de Leilão de gado ovino e caprino471, por exemplo. A agricultura foi ainda apoiada com a fundação da caixa de Crédito Agrícola. Finalmente, aquela que foi a terceira preocupação do então Presidente da Câmara, o Engenheiro Faria de Almeida, concentrou-se na fundação de equipamentos sociais, como jardins infantis, e melhoramentos na rede escolar do concelho. Na altura existia Ensino Básico, Secundário e Profissional472. Hoje, os primeiros mantêm-se em funcionamento, mas o último, infelizmente, já não existe. Para além do Ensino, também foi dada atenção especial à cultura com a construção de um gimno-desportivo, de um Centro Cultural, com sala de cinema, também destinada a teatro473 e conferências, entre muitas outras obras. O autor termina os elogios às iniciativas deste Presidente, responsável em grande medida, pelo desenvolvimento da Vila e do Concelho, da seguinte maneira:

“É evidente que a manutenção do Eng. Faria de Almeida à frente dos destinos do Município, garantida pelas eleições sucessivas, em que uma maioria lhe deu a confiança e o estímulo, permitiu a realização de uma obra de revitalização do concelho, obra fundamental para o desenvolvimento e para o progresso duma terra que durante mais de um século sofreu os efeitos do marasmo.”474


Na monografia mais recente sobre Celorico, confirma-se este “marasmo” nos termos seguintes: “Celorico da Beira integrou o conjunto de regiões que menos beneficiaram do esforço de modernização concretizado.”475 E aponta-se como principais factores para tal: “a escassez dos recursos naturais associáveis à «Revolução Industrial», a elevada taxa de analfabetismo e a limitada capacidade para aproveitar as «oportunidades excepcionais» de crescimento económico entretanto ocorridas.”476 No entanto:

“(…) a partir da década de 1960 e tal como as outras zonas menos desenvolvidas do «Portugal Metropolitano», Celorico da Beira foi envolvido por um amplo conjunto de transformações. (…) Foram, deste modo, reforçados ou criados serviços públicos nas áreas da educação (pré-escolar, básica e secundária) e da cultura, da saúde e da segurança social (doença ou invalidez, desemprego, reforma), das infra-estruturas básicas (electricidade e água potável, telefone, esgotos e recolha de lixo).”477


Comparando o passado com o presente, o estado de desenvolvimento da Vila já foi pior, mas também já conheceu melhores dias478. No século XIX, Celorico era bem mais próspero que Trancoso, pelo menos, assim o encontrou Alexandre Herculano quando o visitou: “A vila oferece um aspecto de progresso e prosperidade bem diverso do de Trancoso.” Hoje, acontece o contrário. Trancoso tem evoluído muito mais do que Celorico, embora a situação geográfica não lhe seja tão favorável. Tem conseguido, ao contrário de Celorico, atrair e manter um vasto tecido industrial e, por isso, foi elevada à categoria de cidade em 2004. Por Celorico, o único sector em desenvolvimento é a construção civil, uma vez que muitas pessoas escolhem Celorico para residir pela sua localização estratégica em relação aos seus locais de trabalho (Gouveia, Seia, Guarda, Trancoso, etc.) e a restauração desenfreada. Na verdade, a oferta de destes estabelecimentos comerciais em Celorico da Beira não pára de aumentar. Basta verificar a lista desses locais para perceber que há quase mais cafés e restaurantes que pessoas para os frequentar479. A autarquia devia ser mais rigorosa no que se refere ao licenciamento destes locais, fazendo estudos levantamentos de mercado, deforma a evitar a saturação desta área e consequente endividamento dos proprietários. Por outro lado, devia incentivar outras áreas de negócio, como pequenas empresas de comércio de vestuário, calçado, entre outras. E, porque não apostar na diversificação da indústria de lacticínios, já que somos uma zona de produção de leite e queijo, apoiando os produtores já existentes e incentivando outros, principalmente jovens, que se encontram desempregados. Além disso, a autarquia deveria esforçar-se pela implementação de um parque industrial, já há muito prometido e anunciado. O Concelho precisa de atrair indústria e criar postos de trabalho, evitando assim, que os jovens se vejam obrigados a sair da sua terra natal por falta de condições de trabalho. Igualmente essencial é a preservação das indústrias já sediadas no Concelho, como é o caso da Mey Têxteis situada em Celorico-Gare, da União Panificadora de Celorico da Beira e da Lacticínios de Celorico – Indústria e Comércio de Queijo, responsáveis por um grande número de posto de trabalho. Talvez seja este o caminho para que a autarquia consiga reanimar esta pacata Vila, adormecida no tempo. Contudo, para além dos necessários empreendimentos480, deve continuar a apostar no turismo cultural e de natureza, como demonstram as iniciativas: da Feira do Queijo; do Festival do Borrego481; do Festival da Castanha; do Encontro Micológico482; da Prova de Vinhos; da demarcação dos percursos pedestres (Trilho de S. Gens, Serra do Ralo, etc.); a requalificação de um Solar de Linhares e transformação numa pousada483; a requalificação dos castelos de Celorico e Linhares; a fundação de alguns Museus (Casa Mundo Rural, Prados; Moinhos da Rapa; Escola-Museu, Salgueirais); entre outras. A aposta no turismo e a consequente atracção de turistas e visitantes são importante, mas por si só não basta. É também necessário e urgente que se criem condições à fixação de jovens, sobretudo dos mais qualificados, de forma a contribuir, não só para a diversificação e consolidação do tecido económico, mas que sejam também um factor de rejuvenescimento populacional e de reanimação social e cultural. Todavia, o turismo por si só não satisfaz. É necessária também a criação de infra-estruturas necessárias ao seu desenvolvimento, o qual terá que ser sustentável, ou seja, terá de se fomentar um desenvolvimento sustentável para a população, para os turistas e para os empreendedores, acabando com as “caveiras de burro”484 de uma vez por todas. Para isso, exige-se a diversificação das actividades turísticas e económicas do Concelho, a formação de profissionais para trabalhar no sector, a aposta nos factores culturais como factores de diferenciação e, por último, mas não menos importante, assegurar o lucro do desenvolvimento turístico para a população.

5.5. Turismo

Uma das melhores políticas de desenvolvimento local reside na definição de uma estratégia que integre os diversificados produtos turísticos fundamentalmente assentes no interior. As Regiões de Turismo estão demasiado dependentes do poder autárquico cujo deficit de quadros e de estratégia é bem conhecido, e, por isso, dificilmente se poderá esperar alguma coisa além de iniciativas avulsas pouco mais que inconsequentes. Para ser um processo consistente e sustentável, o desenvolvimento deve elevar as oportunidades sociais e a competitividade da economia local, aumentando a renda e as formas de riqueza, ao mesmo tempo em que assegura a conservação dos recursos naturais. Representa, neste sentido, o resultado de uma vontade conjunta da sociedade que dá sustentação e viabilidade política a iniciativas e acções capazes de organizar as energias e promover a dinamização e transformação da realidade. O ex-autarca, Dr. Júlio Santos, escreveu no seu curto texto Celorico da Beira: Capital do Queijo da Serra da Estrela, que:

“Tal progresso, qualquer que seja a forma que assuma, passará sempre pela valorização e continua construção da nossa memória enquanto comunidade. As nossas riquezas: um património natural diversificado e cheio de encantos – entre a beleza imponente da montanha e a sinuosidade do Mondego; um património histórico arquitectónico diversificado que vai desde a simplicidade das alminhas que se encontram à beira dos caminhos, à magnanimidade de Linhares; entre a riqueza e a diversidade de um conjunto de tradições e produtos regionais entre os quais pontua o nosso queijo da serra, Celorico estou certo que saberá criar condições para manter a sua maior preciosidade – a nossa gente.”485

De seguida apresenta uma secção de fotografias seleccionadas e categorizadas em: Ambiente Natural; O Passado; O Presente. Dentro do “Ambiente Natural encontram-se: a Penha de Prados, Prados, Pinhal Minhocal; Monte Verão; Seara Minhocal; Rio Mondego – Lavandeira; Rio Mondego. Relativamente ao “Passado”, exibe fotos da Calçada romana; da Necrópole de S. Gens (Séc.VII-X); Castelo de Celorico; Vista aérea do Castelo e do Centro Histórico de Celorico; Forca Medieval do Fornotelheiro; Pelourinho de Linhares; Pelourinho dos Açores; Pelourinho do Fornotelheiro; Pelourinho do Baraçal; Castelo de Linhares; vista aérea do Castelo de Linhares; Torre do Castelo de Linhares; Igreja do Fornotelheiro; Capela de Vale de Azares; Igreja Matriz da Velosa; Igreja da Rapa; Capela de Salgueirais (Sra. Ouvido); Igreja do Maçal do Chão; Igreja da Misericórdia de Linhares; Tecto da Igreja da Misericórdia de Linhares; Igreja de Santa Maria de Celorico; Igreja Matriz do Baraçal; Igreja Matriz de Linhares; interior da Igreja Matriz de Linhares; Igreja Matriz da Carvalheda; Igreja da Lageosa; Igreja da Carrapichana; Igreja da Mesquitela; Igreja de Açores; Altar-Mor da Igreja de Açores; Cruzeiro de Celorico da Beira. Cruzeiro das Casas do Soeiro; Cruzeiro de Açores; Cruzeiro de Vale de Azares; Ponte das Olas de Celorico Gare; Ponte da Lavandeira; Ponte Nova; Fonte do Baco na Ratoeira; Casa da “Hospedaria” de Linhares; Casa do Judeu de Linhares; Antigo Paços do Concelho – actual Solar do Queijo; Solar da Lageosa; Centro Histórico de Celorico – casa do séc. XVI; Casa do século XVI-XVII em Açores; Janela Manuelina em Linhares; Torre do Relógio em Celorico; Solar em Celorico – actual Centro Pastoral; e mais um conjunto de fotografias a preto e branco bem antigas da Vila.

No que concerne ao presente, expõe fotografias de obras realizadas, ou em execução, por ele, enquanto Presidente da Câmara: Creche de Santa Luzia; Fundação de Celorico da Beira; Centro de Saúde; Cinema – Centro Cultural; Centro Coordenador de Transportes; Jardim Parque Carlos Amaral; Estádio Municipal; Complexo desportivo (na altura em construção); Piscinas Municipais; Largo da Feira Tradicional da Carrapichana; variante (em construção); Pousada de Linhares, Centro Comunitário de Prados; Bancada do Campo de Futebol do Mondego; Museu do Agricultor (em construção; Junta de Freguesia de Açores; Parque Infantil de Açores; Miradouro de Salgueirais; Espaço Internet; e Programa Internet nas Escolas. Como projectos futuros enuncia: o projecto do Forum Desportivo e Ambiente da A.D.C.C.; projecto do futuro Museu Municipal; projecto do futuro loteamento do novo Parque Industrial; e projecto do futuro Paços do Concelho. Nenhum deles chegou a ser executado. Embora não tenha mostrado todo o património da Vila e das freguesias do Concelho, deixou claro que Celorico tem potencial cultural e histórico que pode muito bem ser aproveitado e explorado para fins turísticos.

O actual executivo tem apostado fortemente no turismo, quer na preservação e conservação do património arquitectónico e natural, quer na realização de iniciativas culturais, quer ainda na divulgação do seu potencial turístico na BTL486 e outras feiras ou exibições na área do Turismo. Para além disso, elaborou um pequeno Roteiro Turístico487, lançado em 2005 pela Câmara Municipal onde se faz a propaganda do que Celorico tem para oferecer aos turistas que visitam a Vila. A nível cultura publicita: o castelo de Celorico; Igreja de Santa Maria; Solar do Queijo; Necrópole de S. Gens; Ponte da Lavandeira; Igreja da Misericórdia; Açores; várias casas brasonadas; o Solar da família Osório Aragão Machuca da Lageosa; janelas manuelinas; Linhares da Beira – enquanto aldeia histórica do século XII; e o Castelo de Linhares. A nível da natureza, realça as paisagens naturais, o clima, as praias fluviais da Lageosa, Vale de Azares, Ratoeira e Vila Boa do Mondego e a caça e pesca. Relativamente ao lazer, aconselha: os desportos radicais, como o parapente, que a Inatel organiza todos os anos em Linhares, onde existe também uma escola de parapente; as Piscinas Municipais; o Museu do Agricultor e do Queijo; e o espaço Internet. Quanto ao artesanato, menciona os mestres de cestaria e latoaria e em relação à gastronomia, para além da produção de queijo, apresenta uma lista de pratos típicos da região, que podem ser apreciados no Lagar Municipal/ Centro de Investigação Gastronómica. No final, deixa sugestões de alojamento, registando um número considerável de habitações de Turismo Rural, Hotéis e Residenciais, com o respectivo contacto. Como roteiro que é também deixa o contacto das instituições locais que podem ser relevantes para um turista, como por exemplo, o Posto de Turismo.

Desde que foi considerada Aldeia Histórica em 1991488, foi alvo de um processo de restauração, levado a cabo pelo Governo, o qual permitiu que aquela pequena aldeia beirã se transformasse num autêntico museu ao ar livre489. Deste modo, não admira que o seu nome e fotografias das suas preciosidades figurem em diversas obras, especialmente turísticas, mas também culturais. Leonel Abrantes dedicou-lhe uma obra que intitulou de Linhares: Antiga e Nobre Vila da Beira, Museu de Arte da Serra da Estrela490. Também Adriano Vasco Rodrigues e Manuel Ramos de Oliveira, nas respectivas monografias, lhe dedicam umas páginas consideráveis. O primeiro, além da importância administrativa e militar de Linhares, destina-lhe um capítulo para falar do seu castelo, referindo algumas publicações que lhe dizem respeito, nomeadamente, Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses, A Gloriosa História dos Mais Belos Castelos de Portugal, Os mais belos Castelos e Monumentos de Portugal, e Boletins da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais491. O segundo dedica-lhe um capítulo, na segunda parte da sua monografia, onde em quarenta e quatro páginas faz um breve historial da aldeia, outrora Vila, enaltecendo o seu passado histórico, reconhecido hoje com a integração no projecto das Aldeias Históricas de Portugal.

Nos nossos dias, é frequentemente designada de “Capital do Parapente”, que alberga hoje Campeonatos Nacionais492 e Internacionais493 de Parapente. O Open de Parapente atrai por si só, várias centenas de turistas, mas o Centro Integrado de Lazer (CIL) que integra a Escola de Parapente tem mantido essa afluência turística. Além do parapente, a sua festa anual em honra de Santa Eufémia, em Agosto, e iniciativas culturais como a “Encomendação da Almas”494, realizada durante as celebrações da Páscoa do ano transacto, trazem frequentemente pessoas à aldeia. Contudo, é mais no verão495 que a agitação toma conta da aldeia, com a já habitual inundação turística: uns que vêm ver o parapente, outros que vêm experimentá-lo e ainda outros que vêm simplesmente visitar a aldeia, que nas palavras de Salomé Joanaz: “é uma paixão. Primeiro ficam-nos na alma a sua imagem deslumbrante. As casas de pedra alinhadas em ruas estreitas, as janelas de guilhotina e de quatro vidros, as portas de madeira e os telhados vermelhos.”496 O atendimento turístico faz-se na Torre Sineira do Castelo, considerado Monumento Nacional, desde 17 de Junho de 1992497. O de Celorico da Beira foi nomeado Monumento Nacional bem mais cedo: 16 de Junho de 1910498. Em Celorico, as informações turísticas estão disponíveis no Posto de Turismo, na Avenida da Corredora. Ambos estão abertos aos Domingos.

Naturalmente, hoje em dia, mais do que os roteiros ou qualquer outro livro, a internet é o meio por excelência na procura de qualquer tipo de informação, inclusive turística. Celorico da Beira aparece numa variedade deles, por exemplo In Portugal Tourism499 e Turismo Rural – Centro de Portugal500. No primeiro, encontramos um breve texto sobre o património de Celorico e uma lista das suas principais atracções turísticas, ao passo que, no segundo, aparece uma publicidade a uma Casa de Turismo de Habitação na Mesquitela. Também existem outros sites com a informação sobre os locais em que se pode desfrutar do Turismo Rural, como, por exemplo, um portal501 onde se publicita: a Casa da Lageosa, a Casa do Brigadeiro, a Casa do Mogadouro, o Solar dos Cerveira, entre outros. Naturalmente que o alojamento é um factor essencial para a atracção de visitantes e quanto mais típico for mais atractivo se poderá tornar, especialmente para os visitantes das grandes cidades, que procuram cada vez mais refugiar-se no sossego das aldeias e outras áreas rurais. Não obstante, o turismo rural, de forma a ser eficiente, deve apostar também em actividades e serviços complementares de animação ambiental, que permitam contemplar e desfrutar o património natural, arquitectónico, paisagístico e cultural. No caso concreto de Celorico da Beira, a criação dos diversos museus (Solar do Queijo, Museu do Agricultor, Casa do Mundo Rural, Escola Museu, Moinhos da Rapa, etc.), o reconhecimento e a divulgação das paisagens naturais (miradouro de Salgueiras, rio Mondego, Penha de Prados, etc.), aliados ao crescimento do alojamento rural têm contribuído para o reconhecimento da vila e do Concelho, como importante reserva cultural e ambiental. Este reconhecimento, por seu lado, tem-se repercutido especialmente na frequente procura de pessoas citadinas por estes espaços. Celorico da Beira adquire, assim, novas funções, enquanto espaço rural, uma vez que, para além do reconhecimento pela preservação de todo o seu potencial cultural e, fomentam o desenvolvimento socioeconómico e consequentemente a melhoria da qualidade de vida dos habitantes.

O turismo surge, deste modo, como uma das novas funções do espaço rural e como tal tem vindo a ocupar um lugar no topo das prioridades estratégicas actuais do desenvolvimento rural. Felizmente, os órgãos do poder da autarquia perceberam que o espaço rural pode desempenhar um papel fundamental, não só na preservação de todo o potencial social, cultural e ambiental das áreas rurais, mas também na promoção do desenvolvimento económico-social. Esta actividade pode contribuir para a diversificação das actividades e para a rentabilização económica das áreas rurais, quer pela melhoria dos serviços básicos e das condições de acessibilidade, quer pela aproximação entre população urbana e rural.


VI. Religião

Um factor de coesão social, nos espaços rurais, diz respeito à igreja, às festas religiosas, aos rituais, numa palavra, à religião. A religiosidade absorvia toda a comunidade, desde das rotinas quotidianas aos eventos esporádicos. Nos nossos dias, já não é tanto assim. No entanto, a igreja continua a ser, principalmente nas freguesias mais rurais do Concelho, como por exemplo Prados, o centro da vida colectiva, especialmente como local de reunião da comunidade. Na verdade, hoje em dia, quanto mais rural for a comunidade, tanto mais religiosa essa comunidade é. Prova disso, é a fluência da população às festas religiosas. A festa de Prados, realizada no primeiro fim-de-semana de Agosto em honra do Mártir S. Sebastião, atrai muitas mais pessoas do que as festas da Vila, realizadas em Junho, em honra de Santo António, São João e São Pedro. Evidentemente, os valores cristãos, como a solidariedade e o companheirismo, também são mais visíveis naquelas comunidades mais rurais, em que a igreja foi e continua a ser um lugar de encontro. O Professor Manuel Ramos de Oliveira atesta a religiosidade dos Celoricenses nas palavras que se seguem:

“Não se pode dizer que a piedade religiosa dos celoricenses tenha sido uma palavra vã, porquanto a atestá-lo estão as capelas existentes ou destruídas que a devoção dos seus habitantes mandou levantar. São elas um testemunho vivo de quanto pode a crença dum povo que sem descurar os interesses materiais soube ao mesmo tempo manter bem alto a fé que os animou, legando aos vindouros estes singelos padrões.”502
Na verdade, é o Professor Manuel Ramos de Oliveira quem mais desenvolve este tema que diz respeito à religião. Para além de uma introdução geral sobre o significado de religião, como esta evoluiu ao longo dos tempos, fazendo a diferença entre monoteísmo e politeísmo, mas abordando o Cristianismo, em particular, trata também de assuntos mais específicos respeitantes à Vila e ao Concelho de Celorico da Beira, nomeadamente, as Irmandades ou Confrarias, as Capelas e as Ermidas, as igrejas da Vila bem como respectivos párocos e rendimentos, o culto mariano, as festas e as procissões, o Hospital da Vila e o Convento de Santo António, entre outros.

6.1. As Igrejas, Capelas e Ermidas

Ambas as monografias sobre Celorico da Beira provêem informações sobre as actuais igrejas da Vila, São Pedro e Santa Maria, bem como das já extintas igrejas de Santo André e São Martinho. Adriano Vasco Rodrigues dedica-lhes um capítulo ao qual designa de “Fundação das Igrejas Paroquiais de Celorico da Beira – segundo o presbítero Luís Duarte Vilela da Silva”, uma vez que cita o que este autor profere, no seu texto sobre Celorico, acerca das mesmas. Assim, Luís Duarte Vilela da Silva demora-se no tratamento de informação relativamente à Igreja de Santa Maria e apenas faz referência às igrejas de São Pedro, São Martinho e Santo André. A respeito da primeira, a Colegiada de Santa Maria503, refere que foi fundada pelos Templários e é a Igreja Matriz da segunda paróquia da Vila, mas não menciona data de fundação por ter sido impossível averiguar. Demora-se na sua descrição e enaltece as pinturas artísticas de Isidoro de Faria e os painéis de Gaspar Dias, contemporâneo de Grão Vasco. Quanto aos rendimentos afirma: “Tem um arcediago benefício simples e de boa renda.”504 Comparativamente, elogia a Igreja de São Pedro, declarando que: “está na posse de exceder a todas as da Vila na perfeição, com que se celebram os ofícios divinos”505. Acrescenta apenas que está “ricamente ornamentada e tudo o que nela há de precioso se deve à piedade do cónego Gerardo José Rodrigues.”506 Termina o capítulo com um parágrafo sobre as já extintas Igrejas de São Martinho e Santo André507, no qual narra:

“S. Martinho é a terceira paróquia da Vila. Era um edifício memorável pela sua antiguidade e fundado pelos Templários no ano de 1302 e reedificado no ano de 1777. A paróquia de Santo André foi suprimida e a sua igreja servindo de Misericórdia no tempo de D. João III. Os moradores desta freguesia tiveram a honra que fosse seu pastor o grande D. Pedro de Castilho, depois nomeado Bispo de Leiria, Inquisidor Geral destes Reinos, Capelão Mor e Vice-Rei de Portugal.”508
Noutro capítulo, Adriano Vasco Rodrigues transcreve os “Rendimentos das Igrejas de Celorico da Beira, de Linhares e de outras Povoações do actual Concelho, no primeiro quartel do século XIV”509 baseando-se na leitura de Osório da Gama e Castro sobre as Inquirições de D. Dinis, da Beira e Além Douro. As Misericórdias de Celorico e de Linhares também mereceram um capítulo, no qual se pode ler que ambas foram fundadas no século XVI: para a de Celorico não nomeia data; contudo, para a de Linhares, lança a data 1556510, apoiando-se nas informações recolhidas nas Memórias Paroquiais. Por seu turno, Manuel Ramos de Oliveira, baseando-se num documento encontrado no Livro 37, fl.7 da Chancelaria Real de D. Sebastião, refere em relação à Misericórdia de Celorico que: “no ano de 1578, já estava criada a Misericórdia, mas a sua instituição ainda estava ligada a Santo André, apesar desta também já se encontrar extinta há alguns anos.” 511 O periódico Voz da Misericórdia512 de Janeiro e Fevereiro de 1989 dá destaque ao aparecimento de um documento que prova que a Misericórdia de Celorico da Beira tem mais de 400 anos. Esse documento está assinado por D. Álvaro da Silva, Conde de Portalegre, Mordomo-Mor da Casa d’ El-rei, padroeiro da Igreja de Santo André, a qual se uniu à Colegiada da Igreja de Santa Maria. Existe nele uma referência que situa a fundação da Misericórdia entre 1540 e 1557, pois no ano de 1578, data do documento supramencionado, esta já era uma realidade.

Numa Pompílio, no seu texto sobre a Vila de Celorico, da qual era natural, tece o seguinte comentário acerca das suas igrejas:



“Nas duas freguesias, com séde na Vila, existem as Igrejas de Santa Maria e de S. Pedro, aquéla muito espaçósa e verdadeiramente notável, sôbretudo pelos téctos do corpo central e capéla mor, âmbos em quadros de imágens com ricas molduras, possivelmente defeituósas na execução efectuada por artistas desconhecidos, mas revelando grandes semelhanças com os originais que nos trás a tradição; e esta (S. Pedro) bem delineada nas suas três náves, muito originais, e devendo também sêr olhada, sob o ponto de vista histórico, como valiosa, por nela ter sido batizádo o grande Herói Celoricense Sacadura Cabral.”513
E mais não diz. Porém, Manuel Ramos de Oliveira alonga-se, como já foi referido, sobre este assunto. Começa por se pronunciar sobre a Igreja de Santa Maria, localizando-a e descrevendo o seu estilo híbrido, já que diz pertencer a quatro épocas diferentes: frente do transepto, antiga Capela-Mor, data do século XV; corpo principal da igreja data do século XVI; a actual Capela-Mor e sacristia datam do século XVII; as torres e a frontaria são do século XVIII. Algumas inscrições lá encontradas, que o autor transcreveu e interpretou514, corroboram estas datas. Tal como Adriano Vasco Rodrigues, também Manuel Ramos de Oliveira confessa não ter dados sobre a sua data de fundação devido à carência de documentação. Todavia, alude a um dos primeiros documentos que a mencionam: Chancelaria de D. Afonso III, Livro 1, fl.18, no qual o monarca a doa ao Bispo da Guarda515. Outro importante esclarecimento prende-se com o facto de esta igreja ter sido hospital de sangue dos ingleses até 1821 “pelo que os actos paroquiais passaram a realizar-se desde Janeiro de 1813 na Capela de S. João, igreja da Misericórdia e alguns até na capela de D. Ana Benedita, vulgarmente conhecida como Capela dos Metelos.516 Depois trata da sua descrição interior, do número de altares, das inscrições tumulares, da lista de párocos517 que a paroquiaram, desde 1614 a 1966, e dos conteúdos artísticos, como é o caso de um quadro do antigo altar do Menino Jesus, cuja autoria o presbítero Vilela atribuiu a Gaspar Dias518, ou dos caixotões de pintura exibidos no tecto, pintados por Isidoro de Faria, natural de Trancoso e restaurados, em 1840, por Francisco Madeira519, pintor celoricense. Para terminar, discursa sobre as “Jóias, Rendimentos e Encargos” e “Capelas instituídas” nesta Igreja. Na primeira, destaca dados recolhidos de um documento do Padre Carvalho, Corografia, onde se lê: “no século XVIII indica-lhe o rendimento de 200 000 reis e em 1837 o rendimento anual de juros e foros correspondia a 65 190 reis, dispendendo 55300 reis em cera, incenso, lâmpadas, missas e endoenças.”520 Também menciona vários objectos de valor, entre eles, um cálice de prata e um cordão de ouro, furtados pelos franceses aquando das guerras napoleónicas. Na segunda, cita o Livro das Capelas, que folheou na Torre do Tombo, para aludir às duas Capelas521 de Santa Maria: a da Boa Nova522 e a do Espírito Santo523. A atestar a importância desta Igreja para a Vila, Manuel Ramos de Oliveira afirma que: “Santa Maria é para Celorico o que qualquer Catedral é para a sede da diocese onde assenta.”524

Em relação à Igreja de São Pedro, o mesmo autor localiza-a e descreve os seus detalhes principais, como por exemplo os altares e um painel de S. Pedro, de autoria de Isidoro de Faria, autor dos caixotões de pintura do tecto da Igreja de Santa Maria. Menciona também a data da sua fundação pelos Templários, 1230, como provam “à rectaguarda cravadas no solo algumas pedras com as cruzes gravadas.”525 Nomeia as várias capelas nela instituídas, entre elas, a Capela de S. José e a Capela da Sr.ª do Socorro, e lança uma relação dos párocos desde 1600 a 1901, data em que a freguesia de S. Pedro e Santa Maria passaram a ser servidas pelo mesmo pároco, ao contrário do que acontecia até aí. No entanto, concluiu que: “Não possui nada de notável que a recomende pelo seu valor artístico.”526 Relativamente às já suprimidas Igrejas de Santo André e S. Martinho, Manuel Ramos de Oliveira conta que a primeira “já existia em 1243 por pertencer à fábrica da catedral taxando-a mais tarde em 1321 em 30 libras.” Pouco mais acrescenta: “Foi seu beneficiário D. Pedro de Castilho que em 1751 era bispo de Angra e mais tarde bispo de Leiria e Vice-Rei de Portugal. Das suas rendas fizeram-se dois dos seis beneficiados de Santa Maria. Passou a chamar-se a igreja da Misericórdia.”527 Tal como aconteceu com a Igreja de S. Pedro, a Igreja de S. Martinho, situada no largo com o mesmo nome, foi erigida pelos Templários, o que, segundo o Professor Manuel Ramos de Oliveira, aconteceu em 1302. Mais tarde, em 1777 foi reconstruída, “mas completamente adulterada nas suas linhas arquitectónicas e novamente queimada no tempo dos franceses.”528 Existe, no entanto, algumas incertezas quanto à data da sua fundação, uma vez que foi encontrada uma inscrição numa pedra que se julga pertencer a esta igreja e que, a pedido de Adriano Vasco Rodrigues529, foi lida e interpretada pelo Professor Avelino Costa, da Faculdade de Letras de Coimbra, da seguinte forma: “Em meados de Maio de 1255 foi fundada esta igreja.”530 Manuel Ramos de Oliveira comenta:

“Esta é a era de César que reduzida à de Cristo dá o ano de 1217. Nota-se porém uma certa confusão de datas enquanto à sua fundação, pois além desta que deve ser a verdadeira, acrescida ainda com a afirmação de José Osório da Gama e Castro na sua obra – Diocese e Distrito da Guarda, baseado no Codice Manuscrito nº152 da Biblioteca Nacional, como é que noutros documentos aparece o ano de 1302 referente à sua construção?”531
Expõe ainda que foi pertença da fábrica da Catedral, sendo taxada em 1321 em 60 libras, e mais tarde, quando pertencia ao Padroado Real, apresentou rendimento superior às outras, 700 000 reis. O autor justifica este desnível assim:

“Como que prevendo o seu fim, os habitantes desta freguesia andavam quase sempre em luta com os de S. Pedro e Santa Maria que lhes não perdoavam o engrandecimento trazido da extinta freguesia de Santo André que foi englobada em S. Martinho, como mais tarde igual sorte teve esta ao ser quase toda absorvida por S. Pedro. Daqui a explicação do desnível de rendimentos das respectivas freguesias.”532


Além das igrejas já referidas, Celorico teve à volta de dezasseis capelas ou ermidas533. De acordo com Manuel Ramos de Oliveira:

“De algumas só resta a memória e outras nem sequer são recordadas pelas actuais gerações, porque já de há muito desapareceram. Só o acaso deparando-nos velhos pergaminhos534, nos apresentou pelo menos duas que – pode dizer-se – eram completamente ignoradas.”535


Referia-se à Ermida da Nossa Senhora da Encarnação, localizada no sítio da Ponte Nova, e à Ermida de S. Pedro, no lugar do Tabolado. A maior parte era regida pela Igreja de Santa Maria. S. Pedro apenas ministrava a de Santa Eufémia, Santa Marinha, S. Tiago e Nossa Senhora da Consolação da Quinta do Chafariz, ao passo que a S. Martinho cabiam as da Nossa Senhora da Consolação do Espinheiro, Nossa Senhora da Capelinha, Santa Luzia e Santo António do Rio. O Professor esclarece que: “De todas elas, apenas a de S. João merece alguns reparos pelo seu valor arquitectónico construída em estilo românico536. As outras nada têm de artístico, sendo alpendradas as de Santo António e Santa Eufêmea.”537 Termina este subcapítulo com a notícia do monumento de Nossa Senhora edificado junto ao Mercado Municipal e inaugurado a 13 de Maio de 1946. Na segunda parte da sua monografia, quando trata individualmente cada uma das freguesias, Manuel Ramos de Oliveira refere-se às igrejas e às capelas de cada uma delas538.

Manuel Ramos de Oliveira refere ainda a existência de um convento em Celorico da Beira, contestando, assim, o escrito de Osório da Gama e Castro que na listagem que fez sobre os conventos do distrito não mencionou nenhum em Celorico:

“Ora que a lista não estava completa prova-o o testamento de Fernão Cabral de Albuquerque declarando numa das cláusulas que os curas da Lageosa prestariam todos os contas das missas instituídas no referido documento ao “Guardião do Convento que novamente se edificou pelos Religiosos do Santo António da dita Villa de Selorico.”539
Houve também Ordens Religiosas a possuir bens no Concelho de Celorico. Por exemplo, a Ordem de Malta540 fruía dos padroados de Cortiçô e Maçal do Chão. Adriano Vasco Rodrigues corrobora esta informação e justifica a escolha destas duas freguesias: “as Ordens Militares escolhiam para comenda as melhores terras, em que podiam associar a pecuária à agricultura.”541 Outras das Ordens Militares que também marcou a sua presença em Celorico foi a dos Templários542, responsável pela construção das igrejas de S. Pedro e S. Martinho.543 Alguns Mosteiros e Conventos544, como é o caso do de S. João de Tarouca ou S. Marcos de Coimbra, possuíam também bens nestas terras de Celorico, provando assim a sua importância, quer estratégica, quer económica.
6.2. Confrarias e Irmandades

A monografia Celorico da Beira e o seu Concelho, através da História e da Tradição dedica um subcapítulo à temática das Confrarias ou Irmandades da Igreja de Santa Maria. Começa por facultar o contexto em que surgiram: “Foi no século XIII que surgiram as Confrarias ou Irmandades, quando uma recredescência das ideias religiosas motivadas pela invasão de certo espírito de oposição na igreja deu origem à penitência pública e colectiva como meio de santificação.”545 Celorico não fugiu à regra, pois uma das suas Igrejas matrizes, Santa Maria, teve quatro Irmandades: a das Almas; a do Santíssimo; a do Menino Jesus e a de Santa Maria. A primeira foi criada em 1783 e foi desintegrada em 1866. Na data da sua extinção somava 1.039.410 reis. Tinham por hábito pedir esmola todas as terças-feiras de mercado. A segunda tinha doze mordomos, os quais tinha por obrigação fazer a Festa do Senhor, por sua conta, no Domingo a seguir ao Corpo de Deus. Possuíam terras. Relativamente às outras duas não fornece mais informação. Apenas que o Papa Pio VI “concedeu um breve de indulgência em 23 de Julho de 1765”546 à irmandade de Santa Maria. Em S. Pedro, também existiu a Irmandades de S. Sebastião, formada em 1655, a de Santo António e a da Nossa Senhora do Carmo. Apenas acrescenta que existe um documento no Livro 12, fl.171 da Chancelaria de D. Pedro V, de 20 de Julho de 1858, que confirma a existência da Irmandade de Santo António. A respeito da Irmandade de Nossa Senhora do Carmo adianta que foi erecta pelo Padre Gerardo José Rodrigues, o qual mandou colocar uma imagem da santa no altar-mor no lugar de S. Pedro.547 Actualmente, quer as Irmandades de Santa Maria, quer as Irmandades de S. Pedro já não existem, mas ainda existem três em Linhares da Beira. São elas: Confraria ou Irmandade das Almas; Confraria ou Irmandade do Santíssimo Sacramento; Confraria ou Irmandade da Misericórdia.548 Estas são caso raro no Concelho, talvez devido ao facto do número crescente de Instituições Particulares de Segurança Social (IPSS)549 nas diferentes freguesias do Concelho.



6.3. Festas Religiosas, Procissões e Romarias

Muito embora já não tenham o peso e a importância que tiveram no passado, ainda se continuam a realizar, um pouco por todo o Concelho, as festas religiosas e respectivas procissões e romarias. Assim, na Vila, propriamente dita, a procissão do Enterro do Senhor, realizada na Sexta-feira Santa, persiste e arrasta um número considerável de pessoas, que fazem o percurso da Misericórdia ao Calvário acompanhadas de velas, velando o caixão de Cristo, e acompanhados por um grupo vestido com a indumentária da época, cujo objectivo é retratar o caminho de Cristo para a morte na cruz. Outra procissão realizada na Vila é a do Corpo de Deus por altura da festa com o mesmo nome. Antigamente, esta saía da Câmara, como o refere Manuel Ramos de Oliveira, hoje saí da Igreja de Santa Maria. Persiste também a Festa anual da Nossa Senhora de Fátima, junto ao monumento em sua honra, e a Festa Eucarística, instituída pelo arciprestado, que reúne na Vila todas as freguesias do Concelho. Para além destas, existem as festas em honra de Santa Eufémia, Santo António, S. João e S. Pedro, em Junho. Estas últimas, porém, estão muito longe de arrastar a enchente que costumavam arrastar há vinte anos atrás. O ritmo de vida acelerado da sociedade actual bem como o estilo de vida que esse ritmo lhe impõe, cada vez mais individualista, mesmo das pessoas de uma pequena comunidade, como é o caso de Celorico, parecer ser uma das razões para o enfraquecimento destas e de outras festas religiosas. À semelhança da Vila, cada uma das freguesias celebra a festa em honra dos seus Santos. A maior parte delas tem como padroeira a Nossa Senhora. Manuel Ramos de Oliveira lembra que:

“O culto mariano tem a preferência no espírito devocional do Concelho, porque das 21 freguesias que o compõem, são 11 as que elegeram a Virgem para seu orago sob invocações diferentes: Açores – Nª Sr.ª do Açôr; Baraçal, Cortiçô, Mesquitela e Vide-entre-Vinhas – Nª Sr.ª da Conceição; Fornotelheiro – Nª Sr.ª da Graça; Linhares e Prados – Nª Sr.ª da Assunção; Salgueirais – Nª Sr.ª das Neves; Vale de Azares – Nª Sr.ª da Consolação; Velosa – Nª Sr.ª dos Prazeres e Santa Maria orago do mesmo nome.”550
Devido à fama milagrosa de Nª Sr.ª de Açôr, não se pode deixar de destacar e lembrar que a freguesia de Açores foi alvo de romaria, não só pelos habitantes do Concelho e arredores, mas também por altas figuras do Estado, pelos próprios reis e por muitos bispos. As restantes freguesias adoptaram os Santos, Santo António, São João ou São Pedro, como seus padroeiros, destacando-se o Santo António, por ser um Santo muito querido pela população em geral.

A monografia de Adriano Vasco Rodrigues não faz referência a este tema, assim como os outros textos relacionados com a temática de Celorico da Beira. No entanto, é bem possível que tenha ficado muito por dizer sobre este assunto. Talvez se for feito um levantamento popular sobre esta matéria, o conteúdo venha a ser enriquecido.



VII. Cultura

A cultura é o símbolo das criações humanas, quer expressas em usos, costumes, ideias e ideais, quer exibidas sob a forma de monumentos. Assim sendo, a cultura não é apenas material, nos usos, costumes e monumentos, mas também espiritual, na mentalidade e nas acções, ou seja, a cultura define o modo de vida de uma sociedade. Não obstante, a actividade cultural tem sido vista, com frequência, pela economia, como um campo secundário e alheio ao crescimento económico. Por isso, tem sido considerada com uma área que consome recursos, sem gerar retornos económicos correspondentes ao investimento. Por sua vez, o âmbito cultural também tem manifestado tendência em se afirmar e, dessa forma, não tem cooperado com os programas económicos e sociais. Esta situação é responsável, em certa medida, pela perda para a sociedade pois, a mobilização cultural pode ser um instrumento valioso para o desenvolvimento local. No que concerne a cultura nesse processo de desenvolvimento, uma declaração realizada por técnicos da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO)551, nos anos 1990, defende que cultura e desenvolvimento são indivisíveis e, por conseguinte, conclui-se que a cultura é relevante e serve como elo para construção e desenvolvimento de uma sociedade. Logo, precisa de ser conservada, preservada e divulgada. Este reconhecimento da correlação entre cultura e desenvolvimento deriva, em grande medida, da percepção de que as actividades culturais não se sustentam exclusivamente no valor do património monumental, nos acervos de museus tradicionais ou em outros recursos culturais.

Deste modo, do ponto de vista do desenvolvimento local, a cultura exerce um impacto na economia de pelo menos quatro formas. Em primeiro lugar, ela assegura a atracção de turistas e visitantes interessados no património cultural do município, ou nas suas actividades artísticas: como as festas populares, os festivais e as feiras; e também a atracção exercida pelos sítios históricos, pelo património monumental ou por museus; trata-se ainda do magnetismo exercido pela “economia da noite”: teatro, shows ou restaurantes. Este último, infelizmente, pouco atraente em Celorico da Beira. Em segundo lugar, ela injecta capital e cria empregos na economia local através das exportações de bens culturais: postais, livros, produtos caseiros, produtos artesanais e outros. Em terceiro lugar, ela agrega valor ao produto local através da agregação de valor simbólico – estético, religioso, histórico etc.; ou seja, paga-se mais por produtos com “marca” ou “origem”; o que para a economia local é uma vantagem, já que defende a sua produção através de certificações de origem: como é o caso do Queijo da Serra ou do Borrego certificados. Em quarto lugar, ela favorece a atracção de trabalhadores qualificados, empresários e empresas, na medida em que assegura uma melhor qualidade de vida – cidades atraentes têm intensa vida cultural. É precisamente desta última parte que Celorico da Beira mais necessita actualmente. Curiosamente, surgiu recentemente, mais precisamente em 2009, a Confraria do Borrego552. Este produto é tão famoso em Celorico da Beira, como o Queijo da Serra. Ambos têm um festival em sua honra e produção controlada. E ambos, ao que parece, têm até uma confraria de produtores. A do primeiro já foi referida e tem sede na Vila. A do segundo, designa-se Associação – Confraria dos Produtores de Azeite e Queijo Tradicional da Beira Serra Concelho de Celorico da Beira.553

7.1. Origem do nome “Celorico”
O Padre Luiz Villela da Silva defende no tratado que escreveu sobre a Vila de Celorico da Beira que a sua etimologia está de alguma forma relacionada com “a bondade de seus ares”, “a alegria de sua visita”, “fertilidade”, “abundância de seus frutos”, ou numa só expressão, “ hum agregado feliz de todas as bem-aventuranças da terra.”Segundo o autor, o nome da terra não podia ser mais adequado: “Rico ceo”; “Cero-Rico” ou “Celorico”.

O Doutor Manuel Ramos de Oliveira dedica um subtítulo da sua monografia de Celorico à “Fundação e origem da palavra Celorico; A sua grafia através dos tempos”, no qual nos dá conta das diversas opiniões dos historiadores que se têm dedicado ao estudo da mesma. Assim, refere que para alguns a palavra “Celorico” seria a evolução da palavra “Celiobriga”, ao passo que para outros deriva das antigas designações como “Solo Rico”, “Zelo Rico””, “Celo Rico” ou “Rico Céu”, em alusão às suas terras férteis, banhadas pelo Mondego e à lealdade das suas gentes. O autor diz concordar mais com esta última versão, uma vez que, “a remota Celiobriga, localizada em diferentes pontos do país, reúne nesta Vila talvez o menor número de probabilidades.”554 Da mesma opinião é o Coronel Numa Pompílio que no seu texto sobre Celorico, uma vez que afirma que o “nome lhe deve pertencer pelos seus bélos áres, alegria de vistas, fertilidade e abundância de frutos – como que (diz Santa Rosa de Viterbo), «um agregado de tôdas as bem-aventuranças da Terra».”555 O periódico Terra da Beira, nº157, de 28.02.1926, também elogia a riqueza natural da Vila: “a situação desta terra é privilegiada, no centro de uma região com solo riquíssimo, de belezas naturais encantadoras, com comunicações fáceis e rápidas para toda a parte.”556

Na verdade, o que existe são apenas suposições, hipóteses, mais ou menos fundamentadas, mas o que é certo é que a palavra Celorico sofreu transformações gráficas ao longo do tempo, umas talvez por mutação linguística - seria necessário fazer um estudo de índole linguística para o comprovar -, outras por incorrecção linguística como comprovam os diversos documentos electrónicos consultados nos arquivos digitais do registo de exames da Universidade de Salamanca557, em que, entre 1613 e 1632, “Celorico” aparece escrito das mais diversas formas: “Cellorigo” (1613), “Celoricco” (1616), “Cellorico” (1617), “Cellorrico” (1619), “Celorrico” (1619), “Cerulico” (1621), “Seroliquo” (1621), “Sirolico” (1621) A mais frequente é “Cellorico” e nos registos de exames de 1632 já aparece “Celorico”558. Também nos documentos da Inquisição de Lisboa, arquivada na Torre do Tombo, no processo da mesma pessoa (Tomás Gomes) encontramos “Serolico da Beyra”559 (1645) e “Celorico da Beira”560 “Celorico”561 (1664). Parecida com a primeira versão mencionada a respeito do processo de inquisição de Tomás Gomes, é a grafia encontrada num documento do mesmo século (século XVII) referido pelo Professor Manuel Ramos de Oliveira, no capítulo IX da primeira parte da sua monografia sobre Celorico da Beira, ao qual chamou de “Uma Sessão Camarária do Século XVII”. Este documento manuscrito, onde se podia ler “Vereação de Sorolico dos Bebados”562, foi-lhe dado a ler pelo alfarrabista da Livraria Académica de Coimbra. Adriano Vasco Rodrigues também refere que: “Nos processos da Inquisição de Coimbra aparece grafado indiferentemente Selorico, Serolico ou Celorico, referente à mesma localidade.”

Ainda hoje, pessoas que não conhecem a vila têm alguma dificuldade em escrever563 a palavra: umas perguntam se é com “c” ou com “s”, escrevendo muitas vezes “Selorico”. Noutros casos, como o que se encontra num documento digital datado de 24 de Novembro de 2008, escrevem “Celourico”564. Na informação para as Memórias Paroquiais de 1758 da anexa Casas do Rio, da freguesia do Fornotelheiro, que também se encontra na Torre do Tombo, aparece “Cellorico”565, mas nas Memórias Paroquiais do mesmo ano da freguesia de Cortiçô, já aparece “Celorioco”566.

Outra variante é “Zerolico” que aparece num documento sobre o processo da Inquisição contra Rodrigo Mendez Silva (1659)567, onde este se declara natural de Celorico.

“Unânimes são, no entanto, as opiniões dos historiadores quanto à sua importância como um importante baluarte de defesa por altura da consolidação das fronteiras de Portugal, uma vez que toda a defesa perante as invasões castelhanas, na Idade Média, esteve ligada ao castelo, tendo chegado até aos nossos dias de alguns dos episódios que relatam os diversos cercos a que o mesmo foi submetido. Uma boa parte dos povoados do Concelho terá tido origem em núcleos pré-romanos – os castros -, estrategicamente colocados, sedes de comunidades de pastores de que ainda hoje se podem ver vestígios em diversas localidades do Concelho.”568


Em relação às origens da povoação propriamente dita569, tanto Adriano Vasco Rodrigues, como Manuel Ramos de Oliveira, remetem-nos para a passagem dos Romanos, Godos, Muçulmanos, cujos vestígios chegaram aos nossos dias.

“Quase todas as raças de que nos vimos ocupando deixaram vestígios no Concelho: O castro do Monte Verão, a Anta da Carrapichana, machados e outros objectos das idades paleolíticas e neolíticas encontrados em Cortiçô, Rapa e Celorico, o Cemitério de S. Gens, mós, cerâmica dos romanos, topónimos, lendas, etc., são testemunhos seguros da sua permanência neste abençoado solo.”570


Ambos são bastante pormenorizados quando abordam este tema. Contudo, a monografia do Professor consegue ser muito mais detalhada, porque cai no excesso da descrição da origem dos próprios povos. A própria crítica afirma: “Prende a sua leitura pela leveza com que o livro foi escrito, muito embora nele haja – perdoe-nos o autor – minudências, que, sendo, talvez interessantes, julgamos excessivas.”571
7.2. Usos e Costumes

Existem dois textos sobre os usos e costumes da freguesia de Prados. São eles: Ruas e Moinices das Minhas Memórias572, de José Pires Veiga e Colóquio Memórias: Minha Terra… Minha Infância…., Prados573. Embora sejam memórias pessoais, não deixem de ser também representativas da memória cultural de toda uma aldeia. Assim o diz José Pires Veiga:

“A memória que aqui invoco é a minha memória pessoas enquanto concepção subjectiva de factos ligados a contextos e episódios da minha infância e juventude. Todavia, importa não esquecer que a minha memória individual não passa de uma abstracção se separada da memória do grupo social onde nasci, cresci e aprendi a ser adulta. O que exponho aqui é, pois, parte da memória cultural da aldeia onde nasci, Prados, concelho de Celorico da Beira.”574
Entre muitas outras coisas, relata as brincadeiras das crianças naquele tempo, nomeadamente, com, como, com quem e onde brincavam. Relativamente aos brinquedos, nomeia, entre outros, as bonecas de folhas de cana ou de farrapos, os carros de bois, os moinhos de vento, as relas, as trotinetes, as fisgas e as espadas de madeira. Em relação aos jogos, refere a malha, a raiola, o fito, a péla, a corda e muitos outros, com os quais rapazes e raparigas passavam o seu tempo livre, que se chamava “a moina”.575 O Boletim Municipal, de 29.02.1995576, faz referência a este colóquio e anuncia que a festa de Prados, tradicionalmente celebrada em Agosto, iria dar relevo às tradições e costumes da terra, apresentando uma variedade delas, como é o caso do jogo da péla, da malha do pão, da feitura do queijo e da renda, das colchas às janelas e de percursos terrestres, um da Penha e outro do Seixo. Tudo isto acompanhado do corte da luz eléctrica para dar mais veracidade ao acontecimento. Tratou-se de uma iniciativa muito interessante que podia ser repetida de vez a quando, de forma a não deixar cair no esquecimento esta variedade cultural. Mais abrangente são os capítulos XIX e XX da primeira parte da monografia do Professor Ramos de Oliveira, uma vez que se refere os aspectos culturais comuns a todo o concelho de Celorico da Beira, embora uns tenham, ou tivessem, mais peso do que outros numa ou noutra freguesia. Além disso, como o autor declara, estes variam consoante a época do ano:

“Os jogos variam durante as quadras do ano. O pião tem a sua maior actividade na Quaresma, seguindo-se-lhe a pela na Pascoa, a chona ou bilharda no Inverno e tantos outros de permeio, entusiasmando já muito o moderno futebol. Os adultos jogavam antigamente a malha e a bola. Quase todas as freguesias do Concelho conservam a tradição dos lugares denominados – Jogo da Bola – e em Celorico há uma rua que outrora se chamou – Carreira do Malhão, além do Aléu.”577


O folclore era também muito querido pelos populares, principalmente nas aldeias. Hoje, infelizmente, apenas resta o da Lageosa do Mondego. Transcreve algumas e tece comentários a algumas delas, dedicando-lhes doze páginas.578 No Capítulo XX, narra algumas das tradições populares, uma religiosas, outras pagãs, que animavam as aldeias de antigamente. Embora algumas delas ainda se realizem, não mais têm o impacto ou importância que tiveram outrora, em que esta era a única forma de passarem o pouco tempo livre de que dispunham. Hoje, a forte implementação dos meios audiovisuais, aliados à velocidade exigida pela sociedade actual, levaram ao esquecimento de muitas destas tradições, que consequentemente, caíram em desuso. É o caso da Janeiras, do Entrudo, do Magusto e dos Bailaricos. Há quem os continue a celebrar ou realizar, mas em nada se comparam com os de antigamente, pelos menos é o que os mais antigos contam. O mesmo autor relata ainda os trabalhos no campo, como as ceifas, as malhas, o linho, as regas e a apanha das azeitonas. Apesar de tarefas árduas, não deixavam de ser também uma festa, pois reunia-se a família, os amigos e os vizinhos. Toda a ajuda era preciosa. No final comia-se, bebia-se e conversava-se. O Domingo, depois de uma semana de trabalho intensivo, era uma alegria, porque além dos jogos tradicionais, havia, em determinadas alturas, os bailes. A este respeito, Manuel Ramos de Oliveira acrescenta: “O realejo, o acordeão e por vezes a pastoril flauta (pífaro) são os instrumentos mais usados no Concelho, havendo quase desaparecido a melodiosa viola que raros sabem tocar.”579 Outro motivo de festa era a matança do porco, como muito bem afirma o Professor Ramos de Oliveira:

“A morte do porco é a função mais apetecida em casa do lavrador, porque nesse dia reúne todos os seus parentes em pantagruélicas refeições, que durante um largo período se continuam com a desmancha cozedura dos ossos, etc. Toda a família regularmente abastada sacrifica um ou mais suínos, com cujas peças de sabor tão diferente as boas donas de casa cozinham os melhores petiscos para o regalo da comunidade.”580


Ainda existem famílias, principalmente aquelas que de uma maneira ou de outra se encontram ligadas à terra e aos seus frutos, que fazem a matança anual do porco. No entanto, as exigências cada vez maiores por parte das entidades responsáveis pela Higiene e Segurança levaram a que muitas famílias desistam de se dedicar a esta e a outras actividades, que estão muito longe de ser o que eram, quer em quantidade, quer em qualidade. Outro curioso costume era o do “imposto do vinho”, que Manuel Ramos de Oliveira caracteriza da seguinte maneira:

“É costume neste Concelho os rapazes lançarem arbitrariamente o imposto do vinho aos pretendentes que de fora vêm procurar noivas. À segunda ou terceira vez que o requestador empreende a sua visita, vê-se num momento rodeado de grossa turba que lhe lembra a tradicional obrigação e à qual ele quase sempre acaba por submeter-se, sendo conduzido às tabernas, onde as libações principiam em meio jubiloso gáudio, enquanto ele assiste impassível e pagante.”581

A corrida de touros foi outro dos costumes bem popular no distrito e no Concelho. Manuel Ramos de Oliveira confirma-o quando escreve: “Sabemos que os habitantes de Celorico também se não furtaram à arte de tourear, como o provam os lugares do Toural e Corro, respectivamente em S. Pedro e St.ª Maria.”582 No semanário Jornal de Celorico de 25.09.1919583, o mesmo autor, num artigo intitulado “A Caça”, condena as touradas e enaltece as caçadas. A nova geração está longe de sonhar que as touradas já foram habituais nesta Vila e devem, por isso, desconhecer a razão pela qual584 a Câmara Municipal começou a realizar a partir de Agosto de 2009 uma Corrida de Touros em Celorico da Beira. O actual executivo parece reconhecer a relevância desta e de outras tradições para a edificação e consolidação da identidade do Concelho, enquanto comunidade e, consequentemente, tem-se mostrado empenhado nas iniciativas de carácter cultural. Para além destes, o mesmo autor relembra os costumes religiosos, porque, segundo o próprio constata: “Já lemos algures que a religião faz parte da vida dos povos e se algum há que conserva puros os seus traços fundamentais, esse povo é o português e nomeadamente o beirão.”585 Na verdade, principalmente nas freguesias mais pequenas, como já foi referido anteriormente, a igreja e os costumes religiosos estão ainda muito entranhados. Assim, as principais celebrações familiares, como é o caso do Baptismo, da Primeira Comunhão, do Casamento, e dos Funerais, bem como as principais celebrações comunitárias, por exemplo o Domingo de Ramos, o Folar, o Dia dos Finados, entre outros, continuam a arrastar muita gentes. Porém, como se costuma dizer “a tradição já não é o que era”! Falta-lhe, talvez, o mais importante: a verdadeira devoção que as tornava autênticas!

Com o intuito de preservar estes e outros costumes/ tradições, a freguesia do Fornotelheiro tem promovido os “Encontros Etnográficos”, desde 2004586. Trata-se de uma iniciativa da Associação Desportiva Recreativa e Social, que conta com a colaboração da Junta de Freguesia, cujo objectivo principal é recordar aos mais antigos os usos e costumes que se perderam na evolução dos tempos, e mostrar aos mais novos os ofícios e o modo de vida de outrora. Também no Fornotelheiro existe um grupo de concertinas587 que tocam e cantam músicas tradicionais e algumas quadras populares que o povo consagrou à Vila e às várias freguesias do Concelho.



7.3. Monumentos

Monumentos e artefactos culturais não faltam em Celorico da Beira, começando pela aldeia história de Linhares da Beira, antiga Vila e sede de Concelho. Como tal, exibe um edifício que desempenhou o papel de Paços do Concelho e Cadeia, assim como um majestoso Castelo588, símbolo das inúmeras batalhas de que foi palco e/ou interveniente. O seu Castelo tem duas torres e está dotado de um centro de interpretação multimédia. Adriano Vasco Rodrigues transcreve das Memórias Paroquiais o trecho que se segue sobre o Castelo de Linhares:

“Para a parte do norte se vê situado o seu castelo, de obra antiga em muita parte já arruinado nos parapeitos superiores não por efeito do terramoto do primeiro de Novembro de mil setecentos e cinquenta e cinco, que aqui não fez dano algum, mas sim pelo decurso dos tempos, compondo-se também de duas formosas torres de pedra de cantaria grosseira, que ainda se conservam inteiras e mostram na sua duração a valentia da obra e para o poente se descobre um dilatado horizonte, que em distância de dezoito léguas termina a vista na Serra do Buçaco e discorrendo para o norte se vem descobrindo e continuando a Serra de Val de Besteiros e mais acima a do Caramulo, ou Monte de Muro até finalmente acabar a vista na Vila de Trancoso, ou pouco mais acima em distância de oito léguas, o que tudo se vê melhor, subindo ao castelo.”589
Prova-se, deste modo, o seu inegável valor, não só como património arquitectónico e artístico, como também paisagístico. Em 1992, Manuel Ramos de Oliveira, descreve-o assim:

“O Castelo a 810 metros de altitude, reedificado por D. Dinis consta de um recinto fortificado com duas portas, além de outra mais pequena – a da Traição – e duas altas torres, numa das quais está instalado o relógio da freguesia. Esta torre tem dois andares, sendo atingida em 1949 por uma faísca que não lhe causou dano de maior. A do poente é a Torre de Menagem. Ainda se descobrem vestígios de depósitos para água e há poucos anos foram-lhe aplicadas algumas verbas para reparações, quer dos muros, quer das torres, as quais se encontram em bom estado de conservação devido à sua solidez.”590


Como aldeia histórica que é, Linhares tem muito mais para apreciar. Assim, para uma visita completa e frutífera, deve deixar-se o transporte à entrada da aldeia e fazer a visita a pé, desfrutando das ruas típicas apertadinhas, das casas, das gentes e das paisagens. Outros monumentos a não perder são: a Igreja da Misericórdia, que conserva em anexo a antiga albergaria/ hospital e Casa da Roda; a Igreja Matriz, onde se conservam tábuas pintadas atribuídas à escola de Grão Vasco; a estrada romana, conhecida por estrada de Almocreves, que ligava a Guarda a Viseu que por lá passava. Ainda notáveis são os Solares dos Corte Real e Brandão de Melo, recentemente transformados em pousada, e as janelas manuelinas591 em granito, bem como a Judiaria, o Tribunal (Forum) e o Pelourinho592. Relativamente a este último, Adriano Vasco Rodrigues refere: “Pelourinho do séc. XVI, encimado com a esfera armilar e Cruz de Cristo, símbolo dos Descobrimentos Portugueses. Próximo encontra-se o Forum, onde se reunia o Concelho dos Homens Bons da vila.”593 E a respeito do Forum o mesmo autor faz o seguinte reparo:

“Perto do Pelourinho, lá está o forum, depenado como a maior parte dos monumentos nacionais que despem dos atavios, reduzindo-os à ossatura das cantarias… Há trinta anos atrás, ainda lhe mantinham a cobertura de castanho, com telhado de duas águas, triangular, lembrando o átrio clássico de um templo bárbaro.”594


A Vila de Celorico, tal como Linhares, teve um Pelourinho, de acordo com as palavras de Adriano Vasco Rodrigues:

“Celorico da Beira teve a sua picota, tal como outras vilas da Beira. Existia ainda na altura da revolução liberal, como se comprova pela referência que lhe é feita no livro das conferências da Câmara (livro de actas), de 1819-1825. O monumento foi destruído em 1871, parece, devido à ignorância e sectarismo de um magistrado.”595


Manuel Ramos de Oliveira confirma-o, afirmando que “o de Celorico desapareceu sem deixar rasto que nos permita aquilatar do seu valor artístico.”596 Adriano Vasco Rodrigues declara, por sua vez, que:

“Com segurança, identificamos somente em 1978, um único elemento: o capitel, que se encontra num jardim da casa da Senhora D. Maria do Céu Lopes, próximo do castelo. Sendo octagenária e o seu estado de saúde agravado, não tivemos oportunidade de inquirir sobre as condições em que esta peça para ali foi transportada, servindo agora de mesa.”597


Sugere ainda, baseando-se numa reconstituição realizada por Artur Guimarães, que: “Interessante seria restaurar o pelourinho e implantá-lo no local próprio.”598 Felizmente, o emblema da Vila, o Castelo, cuja situação geográfica lhe conferiu desde sempre um considerável valor estratégico no sistema defensivo da Beira, existe ainda para recordar as suas vitórias, embora já não seja o que era: “Em meados do séc.XIX restava da torre de menagem apenas um cunhal. Sabemo-lo pelo testemunho de Alexandre Herculano, que percorreu esta região em 1853.”599 Antes disso, “na Biblioteca Nacional de Lisboa há um manuscrito do século XVII, do académico Jerónimo Contador de Argote, sobre o Castelo e Fortalezas de Celorico. Informa-nos que está muito arruinado.”600 O jornal Terra da Beira, nº87, de 27.03.1924, exibe um artigo em se advoga que os celoricenses pedem a restauração do Castelo: “o melhor padrão das glórias antigas desta terra.”601 Apesar de todas as vicissitudes, conseguiu chegar até nós, depois de ter sido alvo de diversas obras de recuperação e conservação. Valeram a pena as lamentações dos Celoricenses, porque: “Em 1923, durante a primeira República, foi classificado de monumento nacional, começando em 1924 a ser reparado, beneficiando de algumas obras de conservação até à década de 40.”602 Adriano Vasco Rodrigues deixa uma sugestão: “Na torre maior do castelo ficaria bem um pequeno museu local, evocativo da história da vila, ou na Torre do Relógio.”603 O actual executivo deve ter lido a sua monografia e decidiu atender-lhe ao pedido. Hoje existe cada uma delas, Torre do Castelo e Torre do Relógio604, foram recuperadas e utilizadas como uma espécie de museu, onde são exibidas fotografias e outros documentos sobre o espólio cultural do Castelo, em particular, e da Vila e Concelho, em geral. As ruas estreitas, ao redor das muralhas, o Solar do Queijo da Serra, as casas brasonadas, a Igreja de Santa Maria e a Igreja da Misericórdia são outros exemplos de memória histórica a visitar e a preservar.

Importante também foi Açores, muito famoso em outros tempos devido a sua Virgem milagrosa, N. Sr.ª de Açor, que aqui trazia centenas de romeiros. Hoje, porém, está votada ao esquecimento, embora possua “valores artísticos duma raridade inestimável, como por exemplo, uma cruz de cobre da época de D. Sancho I; um grande prato metálico tendo gravada ao centro a imagem de S. Miguel, e um famoso tríptico.”605 Para Manuel Ramos de Oliveira, esta igreja é daqueles monumentos que “merecem todo o carinho, levantando-os do abandono em que jazem para mostrarem aos homens o sue rial valor.”606 E acrescenta:

“Quási nada se tem feito neste sentido e, embora a minha voz não seja a mais autorizada para levantar este problema, á falta de outros que poderiam fazê-lo com melhores probabilidades, não hesitarei em chamar para ele a atenção de quem pode e deve tomar interesse na conservação do nosso património comum.”607
O actual executivo ditosamente parece estar empenhado na conservação e preservação do espólio monumental do concelho de Celorico da Beira, bem como na sua divulgação e rentabilização. Prova disso, é a adesão do Município ao Dia Internacional dos Monumentos e Sítios608, celebrado a nível internacional, no dia 18 de Abril:

“As freguesias de Prados e Rapa vão ser o centro destas comemorações, marcada para domingo dia 18, começa pelas 9h30 com visita ao Núcleo Interpretativo da Casa do Mundo Rural de Pardos, seguindo depois para uma queijaria onde os visitantes terão uma demonstração que como se faz o queijo da Serra tradicional. Segue-se visita ao Moinho da Rapa que culminará com fabrico de pão e doces tradicionais.”609


O dia Internacional dos Museus, 18 de Maio610, tem sido igualmente comemorado na Vila, desde 2009611. Todavia, os participantes não são muitos, principalmente este ano, onde se encontravam apenas pouco mais que uma dezena de espectadores, a maioria locais. Talvez a divulgação da mesma não tenha sido a melhor este ano612, já que no ano anterior, a adesão foi bastante superior, principalmente de pessoas exteriores ao concelho. Conclui-se que, apesar de ser uma Vila pacata e aparentemente igual a tantas outras, Celorico da Beira esconde um considerável legado histórico, artístico e religioso que vale a pena preservar, conservar, divulgar e visitar!613 O Professor Doutor Santos Pereira lembra que: “Obviamente, o conceito de património liga-se intimamente ao de preservação, daí a necessidade de inclusão no seu suporte dos responsáveis dos territórios e das instituições onde este resiste ou se deposita.”614 E acrescenta que: “Em toda a parte, o património cumpre a sua função de âncora da memória e de valorização da identidade.”615



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