Universidade do estado do rio de janeiro



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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

CENTRO DE EDUCAÇÃO E HUMANIDADES

INSTITUTO DE PSICOLOGIA

DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA SOCIAL E INSTITUCIONAL


CLIO-PSYCHÉ - PROGRAMA DE ESTUDOS E PESQUISAS

EM HISTÓRIA DA PSICOLOGIA


VI ENCONTRO CLIO-PSYCHÉ

CORPO: PSICOLOGIA E HISTÓRIA

Rio de Janeiro, UERJ,

20, 21 e 22 de outubro de 2004
COMISSÃO EDITORIAL:
Heliana de Barros Conde Rodrigues

Antonio Carlos Cerezzo

Denise Barcellos da Rocha Monteiro

Silvia Carvalho Josephson

Irene Bulcão

COMISSÃO ORGANIZADORA:


Heliana de Barros Conde Rodrigues

Ana Maria Jacó-Vilela

Antonio Carlos Cerezzo

Denise Barcellos da Rocha Monteiro

Silvia Carvalho Josephson

Aline de Araújo Gonçalves da Cunha

Irene Bulcão

Marcelo de Almeida Ferreri

Marcela Peralva

Arthur Leal Ferreira

Francisco Portugal

Lívia Borges Hoffman Dorna

Adriana Amaral do Espírito Santo

Renato Sampaio Lima

Alessandra Daflon dos Santos

Alexandre de Carvalho Castro

Camilla Martins de Oliveira

André Fabrício

APOIO:
Fundação Carlos Chagas de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ)

Instituto de Psicologia da UERJ

Curso de Especialização em Psicologia Jurídica da UERJ

Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da UERJ

Centro de Produção da UERJ (CEPUERJ)


APRESENTAÇÃO

Dando continuidade à série de eventos promovidos por nosso Programa de Estudos e Pesquisas em História da Psicologia  os cinco encontros que promovemos a partir de 1998 , o VI Encontro Clio-Psyché visa a questionar, através da interferência da História, a “naturalidade” com que saberes e práticas de cunho psicológico habitualmente se aproximam de seus objetos de conhecimento e intervenção. Nos últimos encontros, voltados aos temas da subjetividade e da memória, a questão do corpo emergiu como uma das mais problemáticas e polêmicas, motivo que nos conduziu a eleger, como tema central do presente evento, “Corpo: Psicologia e História”. Seja entre historiadores estrito senso seja entre historiadores da Psicologia, já se faz presente, no Brasil, uma significativa produção em torno da temática escolhida: estudos críticos que questionam o corpus documental apropriado à escrita da história e da história da Psicologia; produções que desnaturalizam o antes óbvio “corpo” dos igualmente nada óbvios “homens”, oriundas da história intelectual, da história cultural, da história das idéias e da história das mentalidades; investigações relativas a instituições e movimentos do âmbito “psi” que, notadamente a partir da década de 1960, incrementaram abordagens ditas “corporalistas”, em associação e/ou oposição às abordagens ditas “discursivas”; análises da relação entre as transformações históricas do corpo das cidades brasileiras e os modos de subjetivação hegemônicos; reflexões críticas acerca das condições e efeitos do recente crescimento de enfoques biologistas e/ou neurocientíficos de temáticas anteriormente psicologizadas etc. Neste sentido, através de conferências, mesas redondas, sessões de comunicações, mini-cursos e um depoimento, o VI Encontro Clio-Psyché visa a reunir estas iniciativas, divulgá-las entre docentes e discentes dos campos da história, psicologia e áreas afins, e promover intercâmbio e mútua fecundação entre as pesquisas dedicadas à historicização da questão corporal. Para tanto, a temática geral está distribuída em quatro eixos, que delimitam o escopo das mesas redondas, a saber:



  1. O CORPO DE CLIO - O corpus com que trabalha o historiador, ou seja, as séries documentais que este utiliza em sua prática, bem como os fundamentos e as conseqüências de tal decisão para a escrita da História têm recebido especial atenção no debate historiográfico contemporâneo. Este eixo incorpora discussões que priorizam tal problemática;

  2. IMAGENS DO CORPO - O corpo, que já foi considerado um objeto natural, é hoje um dos principais objetos de historicização. Este eixo acolhe formas e resultados de pesquisa ligados à história do corpo, em suas diversas vertentes;

  3. PSYCHÉ E SEU CORPO - De forma mais específica, o corpo de que fala a Psicologia igualmente possui uma história. Este eixo engloba investigações que analisam as transformações desse corpo do ponto de vista dos conceitos, das práticas e dos movimentos ou instituições correspondentes;

  4. O CORPO DA CIDADE - Dentre os corpos com que trabalha o historiador da Psicologia, o da cidade tem recebido particular atenção, em seus vínculos com modos de subjetivação. Este eixo engloba estudos voltados à articulação entre transformações urbanas e subjetivas.

Como produtos resultantes do evento, além destes Anais do VI Encontro, pretende-se uma publicação dos trabalhos completos, na forma de número da revista eletrônica Mnemosine, iniciativa que facultará uma ampliação do âmbito dos debates. Também o depoimento e os mini-cursos, gravados em vídeo, se incorporarão ao acervo do Programa Clio-Psyché, aberto aos pesquisadores e estudantes de História da Psicologia.

A intensificação de contatos com os demais pesquisadores brasileiros da área nos leva ainda a realizar, durante o VI Encontro Clio-Psyché, o III Encontro Interinstitucional de Pesquisadores em História da Psicologia, cujos objetivos são: incrementar o intercâmbio entre pesquisadores e grupos voltados especificamente para a História da Psicologia, geralmente incluída como linha de pesquisa em Programas de Pós-graduação; propiciar o planejamento conjunto de investigações, projetos e publicações na área; facultar a criação de dispositivos acadêmicos interinstitucionais de História da Psicologia, como sites, listas de discussão, números especiais de revistas, livros, publicações eletrônicas etc; favorecer o planejamento global de atividades, evitando duplicação de esforços nos campos da constituição de acervos e da promoção de eventos; incrementar a renovação de pesquisadores no campo da História da Psicologia através da participação de novos professores, mestrandos, doutorandos e bolsistas de Iniciação Científica nas iniciativas do grupo interinstitucional. Como todas as atividades do Clio-Psyché, o III Encontro Interinstitucional de Pesquisadores em História da Psicologia está aberto a todos os pesquisadores e grupos de pesquisa na área.
Finalmente, vale dar as boas vindas a todos os participantes do VI Encontro Clio-Psyché “Corpo: psicologia e história”, esperando que os versos de Chico Buarque de Holanda, que tanto ou mais do que a academia nos têm ensinado sobre o corpo, evoquem a poiesis indispensável a nossos três dias de convívio afetivo e intelectual. Chico Buarque completa 60 anos em 2004; mais do que uma comemoração, recorrer a seus versos para nomear nossas sessões de comunicações pretende sugerir que se fazemos da história (e da história da psicologia) uma vida, ela deve ser “vida como obra de arte”.
UERJ, 20 de outubro de 2004

A Comissão Organizadora



PROGRAMAÇÃO



Dia 20/10, quarta feira:
17:30: Credenciamento
18:30: Abertura oficial do Encontro
19:00: Conferência de abertura:

O corpo e suas dimensões anímicas, espirituais e políticas: perspectivas presentes na história da cultura ocidental - Marina Massimi (USP/Ribeirão Preto)

(Coord: Heliana de Barros Conde Rodrigues, UERJ)


Dia 21/10, quinta-feira

9:30 - Mesa O CORPO DE CLIO



. Ronaldo Vainfas (UFF)

. Maria Paula Nascimento Araujo (Ifcs/UFRJ)

Coord: Regina Helena Freitas Campos (Fafich-UFMG;Centro Helena Antipoff)

12:00 – Entrevista pública com Carlos Ralph

(Coord: Alessandra Daflon dos Santos)

13:00 – Sessões de Comunicações Orais
I. “Dançou e gargalhou como se ouvisse música”

Coord: Denise Barcellos da Rocha Monteiro

II. “É muita pirueta pra cavar o ganha-pão, ninguém segura esse rojão”

Coord: André Fabrício

III. “E na gente deu o hábito de caminhar entre as trevas, de tirar leite das pedras”

Coord: Irene Bulcão

IV. “E que aqui ninguém nos ouça, ela sabe enfeitiçar”

Coord: Silvia Carvalho Josephson

V. “E venho até remoçando, me pego cantando sem mais nem porquê”

Coord: Alexandre Carvalho Castro

VI. “Mi paso retrocedido encuanto el de usted avanza”

Coord: Lívia Borges Hoffman Dorna

VII. “O estandarte do Sanatório Geral vai passar”

Coord: Aline de Araújo Gonçalves da Cunha

VIII. “Pretendo descobrir, no último momento, um tempo que refaz o que desfez”

Coord: Marcela Peralva

IX. “Tijolo por tijolo num desenho mágico”

Coord: Alessandra Daflon dos Santos

16:00- Mesa IMAGENS DO CORPO

. Denise Bernuzzi de Sant’Anna (Puc/SP)

. Lílian Chazan (IMS/Uerj)

Coord: Nádia Rocha (Faculdades Rui Barbosa)

18:00- III Encontro Interinstitucional de Pesquisadores em História da Psicologia

19:30-21:00 – Cursos (aula 1)


Corpo e história” - Mary del Priore e Dirce de Sá Freire

(Coord: Mitsuko Antunes – Puc-SP)


Abolicionismo penal e liberdade” - Edson Passetti

(Coord: Antonio Carlos Cerezzo- UERJ)




Dia 22/10, sexta-feira

9:30- Mesa PSYCHÉ E SEU CORPO



. Francisco Ortega (IMS/UERJ)

. Jane Russo (IMS/UERJ)

Coord: Marisa Todescan Baptista (Univ. São Marcos)


13:00 – Sessões de Comunicações Orais
X. “A história é um carro alegre”

Coord:


XI. “A gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar; mas eis que chega a roda-viva...”

Coord: Sonia Altoé

XII. “Até quem sabe a voz do dono gostava do dono da voz”

Coord: Renato Sampaio Lima

XIII. “Foi um sonho medonho desses que às vezes a gente sonha e baba na fronha...”

Coord: Antonio Carlos Cerezzo

XIV. “Nos teus olhos também posso ver as vitrines te vendo passar”

Coord: Adriana Amaral do Espírito Santo

XV. “O homem da rua fica só por teimosia, não encontra companhia, mas pra casa não vai não..”

Coord: Camilla Martins de Oliveira

XVI. “Uns vendem fumo, tem uns que viram Jesus...”

Coord: Marcelo de Almeida Ferreri

XVII. “Vem, moleque, me dizer onde é que está ton soleil, ta braise”

Coord: Flavia Moreira Oliveira

16:00- Mesa O CORPO DA CIDADE

. Robert Moses Pechman (IPPUR/UFRJ)

. Luiz Antonio dos Santos Baptista (UFF)

Coord: Maria do Carmo Guedes (Puc-Sp)


18:00- Conferência de Encerramento:

Românticos, revolucionários e a psicologia: desafios históricos e atuais - Eduardo Mourão Vasconcelos (ESS/UFRJ)

(Coord: Arthur Ferreira, UFRJ)


19:30-21:00 – Cursos (aula 2)
Corpo e história” - Mary del Priore e Dirce de Sá Freire

(Coord: Mitsuko Antunes – Puc-SP)


Abolicionismo penal e liberdade” - Edson Passetti

(Coord: Antonio Carlos Cerezzo- UERJ)


RESUMOS DAS CONFERÊNCIAS, MESAS, MINI-CURSOS e COMUNICAÇÕES ORAIS:

A . CONFERÊNCIAS:
O corpo e suas dimensões anímicas, espirituais e políticas: perspectivas presentes na história da cultura ocidental

Marina Massimi, RP-USP


Diante da exigência do mundo contemporâneo de retomar uma visão integral do corpo e da saúde, individual e social, o estudo da história da cultura revela a existência – mesmo no ocidente – de abordagens da questão do corpo humano que, numa perspectiva não cartesiana (abordagem dualista que está na origens da psicologia moderna), concebem-no em sua peculiaridade de corpo humano – como intrinsecamente dotado de dimensões anímicas, espirituais e políticas. O resgate histórico destas visões remonta, por um lado, às teorias platônicas (“Timeu” e “República”), aristotélicas (“Política”) e hipocráticas - as quais entendem o ser humano como unidade psicossomatica individual, social e cósmica e, por outro, aos textos bíblicos da tradição judáico-cristã, no que diz respeito a visão da sociedade civil estruturada numa arquitetura em corpos, onde o ideal dos relacionamentos fraternais atualiza-se na forma orgânica de um corpo social, concebido como germe de pacificação dentro do cosmo político e também como lugar da manifestação da intervenção divina na história. Na Idade Média, o corpo da sociedade é visto como composto por um mosaico de corpos compactos e coesos entre si, um mundo organizado numa pluralidade de corpos ou universitates. Na Idade Moderna, a concepção da sociedade como um corpo e da pessoa enquanto parte deste corpo social e político, caracteriza o dinamismo da vida social, inclusive no Brasil, ao mesmo tempo em que a referência ao corpo humano como lugar da manifestação do Invisível, molda os escritos teológicos e científicos dos séculos XVI e XVII. O estabelecimento de uma relação precisa entre a arte de pregar e o conhecimento do corpo humano proporcionado pela medicina e pela ciência moderna, encontra-se nas obras teológicas do pregador espanhol Luís de Granada. Concebida para atuar enquanto instrumento de transmissão cultural em contextos marcados pela oralidade - a palavra do pregador é ação, na medida em que intervêm para articular a construção do corpo social e religioso, seguindo o modelo oferecido pelo próprio Criador divino através da admirável fisiologia do corpo humano. O corpo – em sua dimensão anatomo-fisiológica - constitui-se então em modelo vivente daquela unidade que, por meio da palavra, pretende-se recompor nas almas individuais e na comunidade social e política. Este modelo perfeito, dado ao homem, o pregador pode constantemente observá-lo em seu próprio corpo, derivando desta observação, as regras e os remédios para sua cura e para o restabelecimento e conservação de sua saúde. É neste sentido então, que a palavra, em sua conotação revelativa do mundo real, é concebida, por Padre Antônio Vieira, como o “farmaco” eficaz e definitivo para o bem dos corpos individuais animados pela alma racional, bem como dos corpos sociais animados pela vida do espírito de Deus – que ao mesmo tempo cria a comunidade eclesial (o corpo místico) e a comunidade política (a Res-pública: corpo do Rei e corpo do povo).

Românticos, revolucionários e a psicologia: desafios históricos e atuais

Eduardo Mourão Vasconcelos,


Professor Adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ

O romantismo constituiu um importante, amplo e complexo movimento histórico e cultural a partir da segunda metade do século XVIII, particularmente na Europa, tendo apresentado vários matizes e linhas de desenvolvimento, de acordo com o país, o momento histórico particular e os autores específicos. Apesar deste leque de tendências variadas, salientam-se algumas características comuns, como a revolta contra o capitalismo nascente desumanizante e destruidor dos laços comunitários, o interesse pela cultura popular e pelas particularidades culturais e étnicas, bem como pelos processos subjetivos, e, como no romantismo político, a radicalização revolucionária. Não há dúvidas hoje de que as primeiras formulações dos processos de subjetivação e particularmente da idéia de inconsciente foram forjadas por autores românticos, particularmente alemães, já a partir do início do século XIX, bem antes, portanto, de Freud e Jung. Da mesma forma, tanto os socialistas utópicos e anarquistas, como também Marx e Engels, foram diretamente influenciados pelo romantismo político, principalmente francês e inglês. No século XX, tivemos uma clara tendência para um desenvolvimento distanciado entre estas duas trajetórias, marcando tendências polares: uma em direção ao inconsciente, fortemente marcada pelo psicologismo, outra para um pensamento de esquerda acentuadamente sociologista, economicista e/ou politicista, com sérias dificuldades de trabalhar a subjetividade dos indivíduos e coletividades. Houve preciosas exceções, por meio de autores e movimentos que fizeram um enorme esforço de estabelecer pontes dentre estas duas tendências, com todas as suas dificuldades inerentes, como no caso do freudo-marxismo, da Escola de Frankfurt e do movimento institucionalista e grupalista. Uma das possibilidades atuais de realização do debate sob o tema está no campo da filosofia da ciência. Entretanto, este trabalho tem objetivos mais históricos, de mostrar que a análise da apropriação histórica de elementos diferenciados dentro do romantismo constitui elemento central para a compreensão do crescente distanciamento posterior entre as teorias do inconsciente e o pensamento de esquerda. Além disso, visa também a demonstrar que esta compreensão constitui um dos requisitos fundamentais para a construção atual de uma psicologia mais sistemática de esquerda, comprometida com os interesses dos oprimidos e espoliados de nossas sociedades contemporâneas.

B . MESAS REDONDAS:



  1. O CORPO DE CLIO


  1. IMAGENS DO CORPO



1001 corpos nas noites da história

Denise Bernuzzi de Sant’Anna, PUC-SP


As narrativas históricas exercem poderes e funções variadas sobre a humanidade: podem curar, ferir, massacrar ou libertar. Contar uma história é, em grande medida, inventar uma paisagem em movimento, "passar" um filme.  E tornar impossível uma conversa pode, igualmente, ser resultado daquilo que Walter Benjamin, por exemplo, menciona sobre  os soldados que voltaram da Primeira Grande Guerra: eles teriam ficado pobres em narrativas, retornaram mudos. Há, certamente, experiências difíceis de contar e, sobretudo, de guardar em forma de memória. Indizíveis e, portanto, impossíveis de fazerem parte da história narrada, mesmo que estejam latejando dentro dos corpos. Paradoxo doloroso este, e recorrente no curso da história: situações vividas mas sem condições de serem transmitidas ou de virarem uma frase com algum nexo. Ao mesmo tempo, em períodos considerados repletos de incertezas e em épocas julgadas sombrias, contar uma história pode ser um meio de religar épocas distintas e, principalmente, de transformar o próprio corpo num universo de enredos virtuais. Os exemplos a este respeito são numerosos, abarcando a literatura, a psicologia, a filosofia,  o cinema e a ciência. Em todos estes domínios, talvez ainda exista, uma infinidade de "Sherazades", seres que por meio do ato de narrar transformam os corpos em "passagens" ou em elos de ligação entre mundos por vezes pouco habitados.Afinal, se a história possui noites longas e se conhecer o corpo é sempre um caminhar no escuro  - por meio do qual, cada nova zona de certezas abre um inusitado espaço de riscos e de problemas até então desconhecidos - há que se pensar na construção de artimanhas  não exatamente para buscar uma nova luz mas para que, longe dela, seja possível conviver e rir, sem pavor ou ressentimento.
Referências Bibliográficas:
BENJAMIN, Walter. "Experiência e Pobreza" in Os Pensadores, São Paulo, Abril, 1980.

DELEUZE, Gilles, PARNET, Claire. Diálogos. São Paulo, Escuta, 1998.

FOUCAULT, M. Os anormais. São Paulo, Martins Fontes, 2002.

GAGNEBIN, Jeanne Marie. História e Narraçnao em Walter Benjamin. São Paulo, Perspectiva, 1999.

SANT'ANNA, Denise B. de. (org.) Políticas do corpo. São Paulo, Estação Liberdade, 1995.

___________. Corpos de Passagem, ensaios sobre a subjetividade contemporânea, São Paulo, Estação

Liberdade, 2001.

MARDRUS, Charles, trad. Les milles et une nuits. Paris, Robert Laffont, 1999.

SHELDRAKE, Rupert. La mémoire de l'univers. Paris, Ed. du Rocher, 1988.

SIMONDON, Gilbert. L'individu et sa genèse physico-biologique. Paris, PUF, 1964

VIGARELLO, Georges. Le sain et le malsain. Paris, Seuil, 1993.

As imagens fetais e a produção do prazer de ver: a construção do feto como pessoa mediada pela ultra-sonografia obstétrica

Lilian Krakowski Chazan

Médica, Doutoranda do PPGSC – Instituto de Medicina Social, UERJ

Bolsista FAPERJ
Verifica-se na atualidade um fenômeno em torno das imagens ultra-sonográficas fetais. O que era a princípio e em princípio uma tecnologia de imagem médica gradualmente transformou-se em objeto de consumo e ‘lazer’. As imagens fetais vêm sendo utilizadas com os mais diversos propósitos, em uma gama ampla que abrange desde o discurso anti-aborto até a propaganda de produtos diversos. Situando de forma breve, tomo como ponto de partida um rearranjo na obstetrícia a partir dos anos 1940, que resultou, grosso modo, na passagem de um modelo de intervenção médica para um modelo ‘humanizado’ de monitoramento, no qual o esquadrinhamento das minúcias tornou-se um ponto-chave. Nesse contexto a invenção da ultra-sonografia obstétrica, no final dos anos 50, teve um papel articulador fundamental. A produção do prazer de ver o feto, cujas imagens esfumaçadas e indistintas tornaram-se objeto de consumo – e que tem nos ultra-sonografistas e gestantes agentes ativos – é a pedra de toque que une o útil ao agradável. As grávidas submetem-se prazerosamente aos exames ultra-sonográficos ou buscam ativamente obter imagens fetais. No decorrer do exame, os ultra-sonografistas – muitas vezes conscientemente – produzem narrativas visuais e discursivas. Constrói-se uma subjetivação que engloba indistintamente as imagens, a gestante e o feto, ao mesmo tempo em que é produzida uma estetização das imagens, uma exteriorização do feto e uma ‘con-fusão’ da imagem com o feto propriamente dito. Há como que um ocultamento das condições de produção destas imagens, o que reforça a noção de ‘independência’ do feto em relação à gestante. Este processo está inserido em um contexto mais amplo no qual a visualidade impera e onde a imagem técnica detém o status de produtora de verdades incontestáveis – médicas e não-médicas. Os vídeos domésticos com imagens fetais gravadas adquirem um caráter similar ao do entretenimento proporcionado por assistir a documentários, aliando o lazer ao – suposto – conhecimento do feto. Pode-se pensar neste processo como parte de um panopticismo que devassa corpos femininos e fetais, ao mesmo tempo normatizando-os e construindo novos sujeitos calcados em corporalidades virtuais.

Referências Bibliográficas:

ARNEY, William Ray. Power and the Profession of Obstetrics. Chicago & London: The University of Chicago Press, 1982. 290p.

CARTWRIGHT, Lisa. Screening the Body. Tracing Medicine’s Visual Culture. London & Minneapolis: University of Minnesota Press, 1995. 199p.

CHAZAN, Lilian K. Fetos, máquinas e subjetividade: um estudo sobre a construção social do feto como Pessoa através da tecnologia de imagem. 2000. 116f. Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva) – Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2000.

_________________ “Camera obscura, estereoscópio, raios-X e outras máquinas: um estudo sobre tecnologias visuais na medicina e a construção da Pessoa contemporânea”. Trabalho apresentado no Fórum de Pesquisa “ANTROPOLOGIA DA PESSOA: os processos de individualização na cultura contemporânea”, na IV Reunião de Antropologia do Mercosul, 2001.

________________ “O corpo transparente e o panóptico expandido: considerações sobre as tecnologias de imagem nas reconfigurações da Pessoa contemporânea”. Physis: Ver. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 13(1): 193-214, 2003.

MITCHELL, Lisa M., GEORGES, Eugenia. “Baby’s First Picture: The Cyborg Fetus of Ultrasound Imaging”. In: DAVIS-FLOYD, R. & DUMIT, J. (Eds.). Cyborg Babies: From Techno-Sex to Techno-Tots. New York & London: Routledge, 1998. p. 105-124.

RAPP, Rayna. Testing Women, Testing the Fetus: The Social Impact of Amniocentesis in America. New York & London: Routledge, 1999. 361p.

STURKEN, Marita & CARTWRIGHT, Lisa. Practices of Looking. An Introduction to Visual Culture. New York: Oxford University Press, 2001. 385p.

TAYLOR, Janelle. “Image of Contradiction: Obstetrical Ultrasound in American Culture”. In: FRANKLIN, S. & RAGONÉ, H. (Eds.) Reproducing Reproduction. Kinship, Power and Technological Innovation. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1998. p. 15-45.



  1. PSYCHÉ E SEU CORPO

 

Construção social do corpo e dualismo mente-corpo



Francisco Ortega, IMS/UERJ
O objetivo da apresentação é a análise crítica das posições "construcionistas" nos debates sobre corporeidade dos últimos 20 anos. Usam-se os exemplos de Foucault e do uso de sua teoria por pensadores chamados de pós-foucaultianos como Judith Butler. Esses autores reproduzem, na minha opinião, a despeito de seu intuito crítico, o dualismo tradicional mente-corpo, assim como fornecem o arsenal teórico aos discursos hegemônicos das novas tecnologias médicas e biotecnologias, realidade virtual e inteligência artificial, com sua insistência na obsolescência e maleabilidade infinita do corpo, não oferecendo a possibilidade de um posicionamento crítico diante deles. O corpo fenomenológico apresenta-se como alternativa à posição construcionista por ser um modelo não-dualista que permite um confronto crítico dos discursos dominantes da biomedicina e das biotecnologias.

 

Sobre o re-encantamento da natureza


Jane Russo, IMS/UERJ
O objetivo da minha comunicação será o de circunscrever a concepção de sujeito que emerge das teorias neurocientíficas sobre a mente, abordando alguns autores-chave do campo da Neurociência. Argumento que uma nova concepção de sujeito, calcada numa visão inteiramente materialista da mente, tende a substituir, no mundo contemporâneo, a antiga concepção “psicológica”, calcada principalmente (mas não exclusivamente) na psicanálise. Minha intenção é verificar de que modo essa nova concepção de sujeito se articula à dualidade constitutiva do pensamento moderno – a afirmação concomitante de um sujeito da “razão desprendida”, capaz de um conhecimento neutro e objetivante, e de um sujeito que é parte de uma totalidade que ele só pode conhecer através da experiência “encarnada”. Argumento que a atual tendência à adoção de uma visão totalmente naturalizada do ser humano – sobretudo daquelas características antes adjetivadas como “mentais”, tais como consciência, razão, linguagem – correspondendo a uma ancoragem do “espírito” no corpo, significa não tanto uma redução materialista do humano, mas uma transfiguração espiritual da natureza material.


  1. O CORPO DA CIDADE



As cidades invisíveis

Literatura e modos de subjetivação

Luis Antonio dos Santos Baptista,UFF
Tomando como ponto de partida a noção de “cidades invisíveis” em Ítalo Calvino, a apresentação explora as ressonâncias que certas formas de narrativa literária podem oferecer para uma apreensão singularizada dos modos de subjetivação que permeiam o tecido urbano.


O corpo da cidade

Robert Moses Pechman, IPPUR/UFRJ


Da janela de sua morada o escritor observa. A multidão se movimenta, pastosa, indefinida, num ir e vir incessante. A rua se estende por desconfins, se somando à outras ruas, cruzando-se e descruzando-se, sugerindo descaminhos, formando labirintos. A hora dos relógios das altas torres marcam um tempo (kronos) que não existe mais na Natureza (kayros), é o tempo da cidade, é o tempo do trabalho.O apito da fabrica grita, exigindo musculos para movimentar suas rodas. Com gesto rude, duro e seco o operario molda e expulsa a maldita mercadoria que vai preencher docemente o vazio do imaginario de um mundo alheio a fabrica. Fabricas cinzas iguais a outras cinzas fabricas, onde os dias passam iguais a outros cinzas dias, de pobreza, sofrimento e desesperança. Da janela de sua morada o escritor observa: a cidade, o movimento da massa, o tempo escorrendo, a fabrica gritando, o trabalhador gemendo... Como traduzir esse mundo novo, nascido das entranhas da Revolução Industrial que povoa as ruas das grandes capitais? Como tomar consciência das enormes cidades que se desdobram por planos onde antes farfalhavam grandes arvores e o pastor apascentava o rebanho? Como traduzir essa presença nova que conjuga milhões de destinos que parecem obedecer a um so comando: produção, circulação, troca e consumo? O escritor olha e tenta compreender, em romances, folhetins, crônicas, ‘fait-divers’, poesia, o mundo novo da cidade, o novo mundo na cidade. Entregues à maldição do viver na urbe, seus personagens se afundam no lodo das paixões, no pântano dos sentimentos, nos descaminhos dos caminhos incertos, nas duvidas do que antes eram certezas. A cidade engana, a cidade sanciona, tudo/todos cabem na cidade... com suas duvidas, com suas culpas... Pela literatura, fundamentalmente, assistimos o nascer de novas formas de subjetivação que eclodem com a urbanização das grandes capitais européias no século XIX.Vamos acompanhar a sua gestação, sua proliferação, sua complexificação, seus temores e clamores ao longo do velho século. Debrucemo-nos sobre o abismo da individualização, da psicologização, que tira os homens da esfera publica atirando-os no vortice da subjetivação que, no século XX, na cidade, há de contaminar a todos.

C . MINI-CURSOS (ementas):



Corpo e História


Mary del Priore e Dirce de Sá Freire

 . Uma introdução à história da obesidade - A transformação do gordo em obeso - Ao longo de diferentes épocas, o diálogo entre beleza e gordura. - Na Contemporaneidade as transformações tecnológicas a serviço da magreza - a mulher e o exercício físico: o abandono das curvas e a adoção do tipo longilíneo - refinamento da culinária (da banha aos lights)danos trazidos a partir do fast food - obesidade torna-se uma questão de saúde públic - a tecnologia a serviço da obesidade.

 . Obesidade e as fases do desenvolvimento humano: O processo de “engordamento” - A obesidade é uma questão cultural?Causas da obesidade -Dinâmica presente na obesidade -Lendas que levam à gordura -Tratamentos para Obesidade – clínico ou cirúrgico -Anos 90: Divulgação da cirurgia de redução do estômago: Grupos Operativos.Opção cirúrgica para controle da obesidade -Pré operatório e Pós-operatório -Reflexões acerca do acompanhamento terapêutico:Criação de um novo espaço de debate sobre os transtornos alimentares tendo a Psicanálise como referencial teórico - As contribuições da Psicossomática para compreensão dos transtornos alimentares - Reeducação Alimentar e não Dieta -a interface com a orientação nutricionista - O emagrecimento e o resgate do prazer de comer.


Abolicionismo penal e liberdade


Edson Passetti

Coordenador do Nu-Sol (Núcleo de Sociabilidade Libertária)

Editor da Revista Verve

Professor do Depto Política e do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP

O abolicionismo penal é um movimento que ganha amplitude a partir dos anos 1970, na Europa, problematizando a universalidade do direito penal e procurando outros equacionamentos para as partes envolvidas em situações-problema infracionais. A perspectiva abolicionista é a de dar fim ao encarceramento e aos sistemas de penalidades, encontrando respostas-percurso pessoais e intransferíveis. Numa época conservadora, como a atual, em que predomina o discurso penalizador e encarcerador, expresso pelas políticas de tolerância zero camuflando a continuação das práticas punitivas seletivas do sistema penal para a população mais pobre, o abolicionismo penal caracteriza-se como crítica e possibilidade de equacionamento, inclusive no interior do Estado de Direito. Mais do que uma provável política é um estilo de existência.


Aulas-conversação:

  1. apresentar as condições históricas e políticas da emergência do discurso abolicionista penal e suas procedências libertárias;

  2. problematizar sua relevância para o equacionamento das políticas para jovens infratores (encarceramento e de penas-medidas alternativas) no Brasil.

Bibliografia:


PASSETTI, Edson (org). 2004 Curso livre de abolicionismo penal, Riode Janeiro/São Paulo, Revan/Nu-Sol.

KARAM, Maria Lucia. 1996. “A Esquerda Punitiva”, in Discursos Sediciosos – Crime, Direito e Sociedade, nº 1, Rio de Janeiro, Relume-Dumará.

GODWIN, William 2004, “Crime e punição”, Verve, São Paulo, Nu-Sol, n. 5, pp. 11-86.

HULSMAN. Louk. 1993. Penas perdidas, o sistema penal em questão, Rio de Janeiro, LUAM.



CHRISTIE, Nils. 1998. A indústria do controle do crime, Rio de Janeiro, Forense.

MATHIESEN. Thomas. 2003. “A caminho do século XXI – abolição, um sonho impossível?”, in Verve, São Paulo, Nu-Sol, n. 4, pp. 80-111.

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