Universidade do vale do rio dos sinos – unisinos



Baixar 76.85 Kb.
Encontro15.04.2018
Tamanho76.85 Kb.

Laerte Antonio E Silva


Homens Negros: Corações e mentes

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito parcial para obtenção do Título de Bacharel em Psicologia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos

Orientadora: Carmem S. de Oliveira

Segunda avaliadora: Lígia Hecker Ferreira
São Leopoldo

2006


 

Homens negros: corações e mentes

Laerte Antonio e Silva1

Carmen S. de Oliveira2

Resumo


O ponto de partida deste artigo foi a problematização do que significa ser um homem negro na contemporaneidade. Em um primeiro plano, o presente trabalho discute o surgimento do negro no Ocidente e as polêmicas sobre os conceitos de cultura, territorialidade e masculinidade, em especial no cenário globalizado. Na segunda parte do trabalho é apresentada uma análise de depoimentos coletados em entrevistas semi-estruturadas, realizadas com 03 homens negros com menos de 30 anos. O foco central do trabalho se manteve na análise das relações afetivas inter-raciais. Observou-se que, com referência a estas relações, predomina a idéia de exotismo e de envolvimento com mulheres brancas para fins de reconhecimento social. Apesar do avanço da consciência política dos negros, bem como das ações afirmativas no cenário brasileiro, ficaram também evidentes as dificuldades dos entrevistados para enfrentar o racismo no cotidiano e superar uma precária posição no mercado de trabalho.
Palavras-chave: negro, masculinidade, subjetividade

INDICAÇÃO

Premio Silvia Lane


Quinta-feira, 30 de Abril de 2009 15:02

De:


"Carmen Silveira de Oliveira"

Indico a inscrição do trabalho acadêmico de Laerte Silva ao Premio Silvia Lane. Trata-se de uma monografia para fins de Trabalho de Conclusão de Curso de Psicologia da Unisinos/RS, sob minha orientação.

 -----Mensagem original-----
De: Laerte Silva [mailto:bnegativo@yahoo.com.br]
Enviada em: segunda-feira, 27 de abril de 2009 17:17
Para: Carmen Silveira de Oliveira
Assunto: Re: RES: Premio silvia lane

Introdução

De onde vem o negro?

Um episódio ocorrido nos Estados Unidos e que envolve a questão racial é descrito por Steinbeck (apud SCLIAR, 2004). O escritor relata que um negro conhecido seu vinha caminhando pela rua quando uma mulher bêbada escorregou e caiu. Ao contrário de tentar ajudá-la, o homem procurou afastar-se do local o mais rapidamente possível. E explicou que caso se aproximasse ela poderia achar que se tratava de um tarado: “Tenho uma longa experiência do que é ser negro”.

No Brasil, Barreto (1997) refere que uma esquadra americana estava atracada no Rio de Janeiro no início do século XX. Quando aquelas embarcações estavam para deixar a cidade ele recebeu, numa secretaria onde trabalhava, convite para assistir a saída dos navios americanos. Depois de muito hesitar acabou comparecendo ao evento. Associou o cenário de multidão a um “pleno contato com meninas aristocráticas.” Notou que na prancha, para embarcar, não exigiam convite a ninguém, mas a ele acabaram pedindo. Aborrecido, Barrreto escreveu em seu diário: “É triste não ser branco”.

Já mais recentemente, numa aula de antropologia na Universidade do Vale do Rio dos Sinos, de repente, um aluno pergunta: “Professor, de onde vem o negro?” Após um breve instante de silêncio, como os que sucedem a certos momentos solenes, o professor responde: “De onde vem o branco?” A aula continuou e aquele aluno parecia estar se sentindo como a mais parva das criaturas por ter feito a pergunta. Mas talvez em outros círculos aquela questão não tivesse causado tanto constrangimento a seu autor pois, como se sabe, esse estranhamento que aparece diante da figura do negro é bem conhecido.

Nos relatos acima, tanto no norte-americano como nos brasileiros, isso fica evidente. A narração de Steinbeck não explicita se a mulher em questão era branca mas o contexto nos leva a supor que sim. Logo, o que a levaria a imaginar que aquele homem, caso se aproximasse, fosse um tarado? O fato de ser negro? E como explicar o entusiasmo do escritor Lima Barreto a descrever seu “pleno contato” com as meninas aristocráticas que ali pertenciam a um território onde alguém como ele, um mestiço, precisava ter, ao contrário de todos os outros, suas “credenciais” averiguadas para poder ter acesso? Nesses dois episódios em especial fica registrada uma “tensão” entre os homens negros ou mestiços - alvos de nossa investigação - e as mulheres brancas, ou seja: uma tensão entre dois mundos.

Em um contexto de novos desafios diante da globalização e de discussão acerca da política de ações afirmativas - e que recolocam em debate o tema do lugar do negro na sociedade brasileira - buscamos investigar como se situam as novas gerações de homens negros. Para este estudo, foram feitas observações e entrevistas semi-estruturadas com 03 homens negros com menos de 30 anos de idade e integrantes de um grupo de jovens mobilizados em torno da cultura negra. Os sujeitos foram selecionados por adesão ao estudo e com consentimento informado. Os dados coletados ficaram centralizados num emergente principal: as relações afetivas inter-raciais. A análise foi realizada com base na bibliografia acerca de pesquisas com este tema e também com observações de campo junto ao grupo referido.

Em um primeiro momento, o texto apresenta uma problematização sobre o surgimento do negro no Ocidente, as polêmicas sobre o conceito de cultura negra e os modos de subjetivação negra na contemporaneidade. A seguir, é feita a análise das entrevistas e são discutidas algumas questões sobre as possibilidades e os limites das políticas de ações reparadoras no cenário brasileiro.

Para


A pele escura
Santos (2002a), apontando as teorizações a respeito do negro, mostra que os europeus viam o preto como um sinal do mal e da degeneração humana e não conseguiam entender a existência de povos portadores daquela cor, o que era motivo de inquietação. Assim, muitos se propunham a investigar o porquê de os afrodescendentes terem a pele escura. A autora indica que questões teológicas e pseudocientíficas se punham lado a lado com as filosóficas: os negros teriam a pele escura em razão do sol intenso da região onde habitavam? Seriam escuros por serem descendentes de Caim que como castigo teve sua face enegrecida por Deus após matar Abel, ou pela maldição de Noé sobre Cam, do qual todos os negros descenderiam? Seriam negros por causa da água e dos alimentos que os nutriam, encontrados somente na África?

Esta mesma autora prossegue observando que primeiramente um dos olhares sobre o negro é o do exotismo enquanto admiração da diferença. Todavia, o olhar exótico não se limita a uma observação da diferença, na medida em que implica “uma tensão entre um fascínio e um repúdio”, que pode ser facilmente transformado em um “desejo de destruição do outro considerado estranho e ameaçador”. Santos afirma que imputar ao negro atributos “demoníacos” permitiu que a escravidão fosse tomada como uma forma de redenção já que se fossem vítimas ou agentes de Satã os africanos deveriam ser livrados destas influências.

Como nos referimos a aspectos do colonialismo, é oportuno lembrar da explosão de violência em outubro de 2005 na França, quando jovens dos subúrbios, em grande parte descendentes de imigrantes africanos, queimaram milhares de automóveis e enfrentaram agentes de segurança. O motivo? Protestavam contra o isolamento e os preconceitos de que são alvo naquela sociedade, talvez um indicativo do fracasso dos programas sociais que previam a integração dos imigrantes das ex-colônias. Pois foi justamente nesta França que, segundo Munanga (1986), eclodiu na década de trinta, “um grito do negro que vivia humilhado”. Este cenário, de acordo com o autor, se deu, talvez, devido à política colonial francesa, baseada na “assimilação cultural do colonizado, sem uma correspondência social”:

“… as línguas ocidentais foram bem domesticadas pelos intelectuais negros, além de terem acesso às disciplinas científicas nas universidades européias. Com isso esperavam um tratamento igual. Infelizmente, no plano social, não deixavam de ser negros e, conseqüentemente inferiores.” (p.6)

A essa retomada de si mesmo pelo negro, a recusa ao chamado embranquecimento cultural, chamou-se negritude. O autor revela que, enquanto movimento, a negritude desempenhou historicamente um papel emancipador para os negros na diáspora, mas que pode ser considerada também uma extensão da linguagem racista. Portanto, seria incapaz de provocar rupturas e não deixaria de ser uma formação mitológica negra criada para combater uma formação mitológica branca. Esse antropólogo aponta que é um erro afirmar que os negros são oprimidos por causa de sua raça. Diz que esses povos não foram colonizados porque são negros mas que “na tomada de suas terras e na expropriação de sua força de trabalho com vista à expansão colonial, é que os negros se tornaram pretos”. Ou seja, a inferiorização econômica veio antes, a epidermização dela veio depois.


Cultura Negra

Muganga (1986) afirma que para combater a ideologia racista ocidental não se deve criar uma “sobreposição”. Mas, nos perguntamos: em que medida as políticas afirmativas poderiam deslocar o racismo e também este risco de “duplicação”? Assim, no momento em que se firmam no Brasil entre os negros e a sociedade em geral discussões a respeito de ações afirmativas, surgem críticas aos embasamentos do movimento e às noções de cultura negra. Carvalho (2006) afirma que quando ouve falar em cultura negra apanha seu exemplar da História da Inteligência Brasileira, de Wilson Martins, e “esfrega na cara do interlocutor”:

“Cultura negra? Cultura negra para mim é Aleijadinho, é Gonçalves Dias, é Machado de Assis, é Capistrano de Abreu, é Cruz e Souza, é Lima Barreto. Quer vossa senhoria me explicar como esses negros e mulatos puderam subir tão alto, numa sociedade escravocrata, enquanto seus netos e bisnetos, desfrutando das liberdades republicanas, paparicados pela ‘intelligentsia’ universitária, não conseguem hoje produzir senão samba, funk, macumba e ainda se gabam de suas desprezíveis criações como se fossem elevadíssima cultura?”

O autor mesmo responde, afirmando que aqueles brasileiros “não tinham bebido o veneno universitário norte-americano e conservavam seus cérebros em bom estado.” Prossegue dizendo que tais expoentes negros tinham chegado à conclusão de que era mais útil e honroso vencer dentro da nova cultura do que ficar “choramingando coletivamente as saudades de culturas tribais extintas.” Ainda classifica como “demagogos e palhaços” aqueles que, de acordo com seu entendimento, pretendem que os negros, ao invés de se ocidentalizar e “evoluir”, permaneçam escravizados “na adoração regressiva de cultos museológicos.”

Tal posição crítica em relação ao conceito de cultura nos remete à Guattari e Rolnik (1986), para quem cultura é uma definição reacionária. Os autores mostram que o termo cultura teve vários sentidos ao longo da história e que o mais antigo seria o de “cultura-valor”, determinando quem tem cultura e quem não tem. O segundo sentido seria o de cultura-alma-coletiva, como sinônimo de civilização. Neste caso, todos têm cultura, todos podem reivindicar uma identidade cultural. Por último, teríamos o conceito cultura de massa ou cultura-mercadoria onde “difunde-se cultura exatamente como Coca-Cola, cigarros ‘de quem sabe o que quer’, carros ou qualquer coisa.” Mas, para Guattari e Rolnik, há apenas a cultura “capitalística”, sempre etnocêntrica e intelectolocêntrica, preservando uma referência de “cultura-valor.”

Assim, quando Carvalho fala de “desprezíveis criações” não estaria usando como referência justamente a “cultura-valor”? E quando cita aqueles negros e mestiços expoentes não estaria utilizando como exemplo apenas algumas exceções, alguns desses sujeitos notáveis que, apesar de tudo, acabam se sobressaindo? A sua imagem de África não seria aquela que alguns membros do Movimento Negro tanto ironizam, ou seja, tribo, tambor e Tarzan? E os negros a quem ele se refere de maneira sarcástica por apenas enxergarem possibilidades de circular com sucesso por certos territórios “reserva” como da religiosidade e de certas manifestações artísticas não teriam esta postura simplesmente porque são sujeitos de um certo tipo de construção subjetiva a partir de um momento histórico?

Munanga (1986) menciona o autor africano Cheikh Anta Diop, para quem a ciência e a civilização não são exclusivamente do branco, tendo o negro, como todas as raças, contribuído para o seu desenvolvimento. Para ilustrar seu ponto de vista, Diop citava a controvertida tese do afrocentrismo onde povos negros seriam os criadores da civilização do Egito faraônico.

Ainda sobre a situação atual do negro, Santos (1995b) diz que no Brasil é normal os negros serem tratados de forma subalterna. Todavia, torna-se difícil reclamar, uma vez que se o negro protesta logo é visto como alguém que pretende perturbar “o clima agradável que possa existir neste ou naquele lugar”. Em uma entrevista (CAROS AMIGOS, 1998) o mesmo autor diz que a questão central é a humilhação cotidiana e que dela nenhum negro escapa, mesmo que fique rico. A entrevistadora pergunta se ele tem medo de entrar em um restaurante sofisticado e ser olhado “torto” porque é negro e ele confirma que sim.

Mas o que tornaria o negro tão vulnerável a estes ataques destinados a demonstrar uma inferioridade? Não poderia ele simplesmente buscar amparo e defesa na sua cultura? Como citamos, existe um conceito de cultura-alma-coletiva que não deixaria a ninguém desabrigado, exposto a toda a sorte de intempéries. Porém, se tomarmos como referência a conclusão de Guattari e Rolnik de que na verdade só o que prevalece é uma cultura – etnocêntrica - o negro não estaria destinado, neste contexto que se apresenta, a ser um exposto, um fora-da-casinha, ou no máximo um sujeito com uma circulação bem limitada e vigiada dentro da Casa-Grande?

Um modelo de globalização

Podemos abordar a questão tomando como referência a globalização, por exemplo. Ianni (1997) aponta que “o globo não é apenas mais uma figura astronômica, e sim o território no qual todos encontram-se relacionados e atrelados, diferenciados e antagônicos” e que esta é uma descoberta que encanta e atemoriza. O autor afirma que existem metáforas que circulam descrevendo a globalização como economia-mundo, sistema-mundo, shopping center global, disneylândia global, nova visão internacional do trabalho, moeda global, cidade global, capitalismo global, mundo sem fronteiras, desterritorialização, etc.

Muito se fala na abertura das fronteiras, mas o que se percebe é um discurso de mão-única, ou seja, da direção dos países desenvolvidos em direção aos outros, uma vez que o fluxo em sentido contrário enfrenta grandes resistências protecionistas. Desta forma, existem territórios subalternos, as chamadas “Casas-da-Mãe-Joana” onde todos podem tudo e outros onde a circulação “estrangeira” é bem mais restrita, indicando uma supremacia etnocêntrica, onde os que estão na periferia devem se submeter à assimilação de uma “cultura universal”.

Nesse cenário globalizado todos ficam mais ou menos desterritorializados e, ao mesmo tempo, homogeneizados (GUATTARI & ROLNIK, 1986), o que pode gerar uma espécie de demanda por filiação, tendo a possibilidade de resultar em movimentos separatistas, neonacionalistas, etc. Por outro lado, Santos (2000d, p.17) critica o fato de se colocar indiscriminadamente dentro de uma mesma categoria as chamadas minorias. Para o autor, não se pode aceitar uma comparação entre as mulheres e os negros, por exemplo, uma vez que a luta feminista é, de certa forma, privilegiada, enquanto os negros sequer têm os meios de fazer a sua luta, e a fazem fora da classe dominante.



A masculinidade

Como compreender, então, as relações afetivas inter-raciais na contemporaneidade? Partimos da idéia de Julien (1997), que afirma existir um declínio da paternidade, tendo a execução de Luis XVI na França como um certo símbolo na medida em que poderia ser vista como um parricídio e, desta forma, teria marcado uma reviravolta cultural: a sociedade funda-se sobre a fraternidade e não sobre a paternidade. O autor francês mostra que essa transposição tem como conseqüência que a autoridade paterna que “concernia, de forma indivisível, às sociedades, política, religiosa e familiar, centra-se exclusivamente sobre a família como o ideal burguês do século XIX”, o que deslocaria, gradativamente, o homem de uma posição relevante, mesmo dentro da família.


Silva (2005), referindo-se à masculinidade e à escola como um local de transmissão de conhecimento, chama a atenção sobre o expressivo número de meninos – comparado com o de meninas – que são encaminhados para tratamento psicoterápico em virtude de problemas escolares como agressividade, falta de concentração, dificuldade de aprendizagem, entre outros. A psicanalista chama a atenção para o fato de que a escola, hoje em dia, representa um universo predominantemente feminino, em suma, um local onde as mulheres decidem, comandam. Assim indaga: como será que este universo lida com o masculino? A autora propõe que as professoras tentam incutir nos meninos um modelo de bom comportamento, compararando-os com “a aluna mais bem comportada, inteligente, dócil e querida”, o que faz reproduzir o “modelo de homem sensível, bem arrumado, enfeitado, gentil, enfim, ‘uma moça!’ ”.


Kimmel (1999) afirma que nos Estados Unidos só existe um homem ideal, completo e orgulhoso de si mesmo e que sua descrição seria esta: “jovem, casado, branco, urbano, do norte, heterossexual, protestante, pai, com educação universitária e emprego de tempo integral, boa compleição física, peso, estatura e um recorde esportivo recente.” O homem que não se enquadre em qualquer desses requisitos já se sente como um desvalorizado e incompleto.

Quanto á construção social da masculinidade negra, Cardoso (2000) demonstra que o trabalho da mulher logo após a abolição da escravatura foi fundamental para a manutenção do núcleo familiar negro pois o homem, ao ser marginalizado da estrutura econômica dominante, apelou para a economia informal, como os biscates e serviços eventuais de caráter temporário. Assim, foi a mulher negra quem, com uma estabilidade mesmo que extremamente frágil, assumiu o papel de provedora e mantenedora da casa, fundamentalmente na condição de doméstica.

De certa forma, ainda são atuais tais marcas, quando vemos o menino pobre e negro, que consegue crescer profissionalmente dentro do futebol e que, ao receber um primeiro salário significativo, afirma: “Vou comprar uma casa para minha mãe.” Em tais circunstâncias, o pai raramente é citado, o que coloca a mãe como centro de universo para este jovem. Muitas vezes entre certas populações o pai é um ausente: desconhecido, morto, alguém marginalizado ou longe do núcleo familiar. O que teria determinado o afastamento desses homens? Será que - assim como o espaço escolar nos dias de hoje - este tipo de família não se tornou um lugar demasiado feminino para suportar e ser suportado por uma boa parcela dos homens negros?

Negros e brancas

Nesta segunda parte, estaremos analisando as entrevistas realizadas em campo com jovens homens negros. O tema das relações inter-raciais apareceu de forma acentuada nos depoimentos. Um dos entrevistados refere que apesar de existirem situações em que é o amor que aproxima essas pessoas são comuns os casos de relações inter-raciais em função da baixa auto-estima dos negros:

... se você é criado desde pequeno num ambiente que não valoriza a negritude, você cresce não aceitando a sua negritude. (...) Então tu vais preferir namorar uma branca, vais querer andar entre ao brancos porque entre os negros não é bom, é ruim, são maus, têm doenças, são sujos, sei lá eu, né.... Tu vais querer uma branca para se sentir melhor...que nem eu tenho uma calça que eu gosto mais, ou um boné, mesma ordem, eu vejo assim, né, da mesma ordem, eu vejo assim, e quando tu vês algumas pessoas e conversa, dá para sentir que passa a coisa por aí. Só que isso é tão lá dentro na pessoa, no inconsciente, que não tem nem como tu levantar a hipótese de se discutir uma coisa dessas...

Todavia este acesso ao circuito dos brancos ou de reconhecimento social nem sempre fica garantido, como refere este jovem:

... contra o negro há o preconceito, porque [com um casamento inter-racial] teu filho pode nascer mestiço e isso vai te abrir, digamos, não só pelo teu filho mas com uma branca tu podes entrar em certas festas (...) Já fui barrado em festas, porque eu estava entrando, eu era negro, entendeu? (...) eu entrei, ela entrou na frente, e o cara colocou a mão ”Não, não vai entrar”. “Mas como eu não vou entrar se a minha namorada foi convidada para a festa?” Entendeu? Algumas coisas assim...

Nas entrevistas aparecem, ainda, referências de que existem fortes estímulos na mídia com a possível intenção de fazer prevalecer uma idéia de democracia racial:

Ali na novela tu não vês um casal de um homem negro e de uma mulher negra. Não vês. Bem felizes ou que brigam mas se amam. É sempre um casal inter-racial. E o casal de brancos. Esse sempre tem, né! Agora um casal de dois negros que tão numa boa., isso não tem. Eu vejo como algo negativo porque é um exagero, né? Porque só mostra esse modelo. Se fosse esse modelo junto com outros, como a gente vê na rua, bom, seria uma questão...

Já outro entrevistado considera que a atração entre os negros e as brancas tem uma motivação estética:

Vou dizer sinceramente: hoje em dia, é claro, o negro em questão da beleza está sendo valorizado. Sim, a gente vê aí na rua que são vários casais inter-raciais que existem. É claro que muitos negros ainda têm aquela questão de procurar uma companheira da mesma etnia para constituir família. Mas relacionamentos temporários eu tenho visto muitos. O que não tenho visto é durabilidade, para ser bem sincero. O que tenho visto é a questão do desejo, aquela coisa assim, a questão da beleza, tanto do negro como da negra.

Este jovem complementa dizendo que as brancas estão “cantando”, falam uma “gracinha ou outra”, coisa que era bastante difícil de acontecer há algum tempo e também atribui isso à mídia e ao fato dos homens negros estarem em evidência, por exemplo, no futebol. Sobre a auto-estima, percebe mudanças nas novas gerações:

... (o adolescente negro) tem mais aquela confiança para fazer uma conquista com uma mulher branca. Coisa que eu não via no meu tempo, isso que eu sou um jovem ainda, eu tenho 26 anos.

De qualquer forma, tais manifestações são um tanto contrastantes com as conclusões de Munanga (1986, p.29), que demonstra que uma das preocupações mais presentes nos jovens africanos que chegavam à Europa era se relacionarem sexualmente com mulheres brancas e que alguns diziam, brincando, que era uma forma de vingarem a raça negra. Nesses casos, o autor aponta que se faz presente uma intenção de diluir “simbolicamente sua inferioridade no ato em si, ou de tornar-se branco pela posse sexual, ou, ainda, a possibilidade de melhorar a raça através de uma progenitura mestiça.”

Todavia, o rapper MV Bill em uma edição do programa Roda Viva em 2005 comentava o fato de que algumas meninas de classe média, no Rio de Janeiro, estavam se envolvendo com homens das comunidades dos morros cariocas, comunidades predominantemente negras. Ele associou isto ao fato de que as jovens brancas poderiam ter um tratamento diferenciado naquelas comunidades, ou seja, serem tratadas como “sinhazinhas”, o que seria um atrativo para elas pois teriam uma deferência que não encontrariam em suas casas.

Quando confrontado com esta posição do rapper, um de nossos entrevistados comenta que vê hoje em dia o negro aproveitando a questão de estar sendo valorizada sua beleza para fins predominantemente sexuais:

Então o que eu que eu vejo é os negros aproveitando a questão para o sexo mesmo, né, de usar mesmo. Hoje em dia o negro não está mais [considerando uma sinhazinha].... Até de repente isso aconteceu há algum tempo atrás, mas hoje em dia não, está na moda o funk, o pagode. Vamos ser bem sinceros... então os funkeiros os pagodeiros fazem até música especial para “patricinha” não-sei-o-quê e tal, chamando elas para o meio deles…

Um outro entrevistado reforça a idéia de que a atração nas relações dos negros com as brancas se dá com um tipo peculiar de mulher:

Eu fui numa festa de Hip Hop, bem do gueto negro, e tu vias ali pessoas ‘patrícias’, como são tratadas hoje, menininhas bem cuidadas, de família, indo ali para ficar com aquele cara, aquele negro lá que tá com aquela calça fundilhão... Não só no Hip Hop com acontece muito no pagode, que daí a menininha pega o negão para dançar, o negão pega e “desossa” ela dançando, fazendo um pezinho, ela já fica ‘nossa’... é uma coisa nova. Eu encaro não como não uma abertura mas um interesse por aquilo que é novo e por aquilo que é diferente, daí quando elas vêem que é bom, aí já era, aí já era (risos), aí já deu...

Por outro lado, os homens negros temem que estes movimentos de sedução os coloquem como meros objetos sexuais diante destas mulheres, assim como teria ocorrido na maior atração física dos homens brancos pelas negras, conforme este depoimento:

Eu não vou dizer que eu sofra assédio, né. Mas eu vejo que tem isso no imaginário das pessoas, essa coisa de ser superdotado, ser uma potência, que nem a mulher negra, que tem aquele olhar, que os caras olham a mulher negra, ah, objeto sexual, a mesma coisa o homem negro. As mulheres [brancas] têm esse olhar para o homem negro. E aí o cara que não consegue fazer a separação, ele vai para o saco, né. E deixa de ser uma pessoa para virar um objeto. Porque aquilo ali, de certa maneira pode elevar a auto-estima dele, né!: Ah, eu sou valorizado por uma mulher branca! Mas ele é só um objeto, né, ele não está sendo valorizado como pessoa.

De acordo com os entrevistados também há queixas por parte das mulheres negras, que reclamam que os homens negros procuram as brancas porque vão obter status. Mas no caso de relacionamentos inter-raciais, quem receberia mais críticas: o negro ou a negra?

Olha, sinceramente eu acho que (...) homem negro é mais criticado que a mulher. Porque eu tenho visto casos de mulheres, até na minha família mesmo, primas minhas, que estão com homens brancos, e as críticas não foram as mesmas que com relação a um primo meu que teve uma branca e, Deus-o-livre, que ele não podia... [críticas] tanto das mulheres quanto até dos próprios homens da família. Na minha família. E aí o cara ficava lá, até fez filho com ela. E [as pessoas diziam] ‘como é que o cara fez isso aí, por que é que não procurou uma... ela está só usando ele.

Contudo, parece que além da avaliação racial, outras variáveis, como as diferenças culturais e de classe, se fazem presentes, como sugere o entrevistado.

Porque na verdade tinha esta questão de que o pai dele é advogado, de ele ter uma certa condição e a branca não ter muito... o pessoal estava pensando que ela estava querendo usar ele, para dar volta de carro, para, então... ‘Mas que procurasse uma branca do nível dele’ [diziam]. Então acontece isso aí: ‘A branca usou o negrão. E ele não está se dando conta,’ [comentavam]. No fim eles acabaram se separando (...) Eu, sinceramente... se tem que valer a crítica, se é que é para ser feita, [que seja para os dois lados] até porque não sou contra o relacionamento inter-racial. É uma opção de cada um...”

Já com relação ao racismo no cotidiano, Santos (1985c), conta que um amigo seu, famoso ator de televisão, assistia no Maracanã a uma partida de futebol entre Flamengo e Grêmio. A cada vez que Cláudio Adão perdia um gol - e teriam sido vários - um “sujeitinho” se levantava para berrar: “Crioulo burro! Sai daí, ô macaco.” O ator engolia em seco e a partida prosseguia. Em dado momento, quando Carpeggiani perdeu um gol “debaixo dos paus”, o ator achou uma oportunidade para se manifestar: “Aí, branco burro! Branco tapado.” Neste momento teria se instalado um mal-estar no setor das cadeiras onde ele era o único negro. Passados alguns instantes, o “sujeitinho” não se conteve e chamou o ator: “Olha aqui, garotão, você levou a mal aquilo. Não sou racista, sou oficial do Exército.” O ator, aparentando tranqüilidade teria respondido, para encerrar a conversa: “E eu não sou.” E o jogo continuava. Quando Paulo César [Caju] pegava na bola, algumas fileiras atrás um torcedor do Grêmio disparava: “Crioulo sem-vergonha! Foi a maior mancada o Grêmio ter comprado este fresco...” Então o ator virou-se para o “sujeitinho” e disse: “Olha, tem um outro oficial do Exército aí atrás...”

O autor considera este caso bastante ilustrativo e diz que os brasileiros, quando são flagrados em atitude racista se assustam e reagem de pronto contra quem denuncia. No caso, o sujeito alegou uma condição de oficial do Exército para se eximir. Santos prossegue dizendo que este preconceito “zelosamente guardado” pelo brasileiro vem à tona em um momento de competição. Ele afirma que muitos negros, sobretudo alguns de classe média costumam “dar o troco” em situações de ofensa racial, assustando aqueles que ainda acreditam em democracia racial.

Sobre esta realidade, um de nossos entrevistados refere:

Não dá para negar que tem muita gente que faz que não ouve mesmo, prefere não se incomodar, prefere não acionar por exemplo um órgão que faça denúncia de preconceito. Tem homem que não quer se envolver com isso. Mas tem outros, claro, que vão atrás de seus direitos (...)

. Com relação a outro aspecto das dificuldades enfrentadas pela população negra , dados do IPEA (2005) mostram que no Brasil o salário médio de um trabalhador branco é mais que o dobro do rendimento mensal de um negro. Nossos entrevistados, embora não citem estatísticas, se referem a esse tipo de particularidade enfrentada:

Hoje em dia ser negro para mim é sinônimo do homem que tem que batalhar mais do que o branco para conseguir chegar ao lugar que ele almeja. Então se ele pretende concluir os estudos, se ele pretende ter uma carreira de sucesso, se ele pretende não ficar com empregos subalternos como a maioria acaba ficando, então ele precisa, como minha mãe diz, trabalhar e estudar o dobro que o homem branco. Então o homem negro precisa de superação principalmente para vencer as barreiras impostas pelo preconceito, pela sociedade .

Entretanto, nosso entrevistado vê como vantagem, hoje, a maior consciência política do negro, que está mais consciente de seu papel na sociedade, em relação a outras décadas atrás. Se referindo a um avanço social do negro, outro jovem manifestou o seguinte:

… cada geração constrói um pouco mais de liberdade para os que estão vindo, né? Então, a liberdade que eu tenho hoje é conseqüência de gente que passou trabalho, que construiu mais liberdade para mim, graças a Deus. E com certeza o meu filho vai ter muito mais liberdade do que eu tenho hoje. Ele vai ter muito mais liberdade, vai poder fazer muito mais coisas, então os desafios dele vão ser maiores porque quanto mais liberdade maiores os desafios. Liberdade também não é uma coisa tão simples. Mas eu considero hoje mais fácil, com certeza, do que quando meu pai se criou.

Se no mercado de trabalho as oportunidades são vistas como desiguais, no campo cultural se visualizam maiores avanços de valorização dos negros, como vemos neste depoimento:

Hoje em dia temos aí Paulo Paim, faz leis - Estatuto da Igualdade Racial - então ele está procurando agir para a comunidade negra. Tem aquele o ministro do STF, se não me engano é Joaquim o nome dele. Ministro. Então é complicado dizer que o negro está somente confinado a um debate interno e que não está aí sendo um expoente. Hoje em dia temos vários pensadores negros. Tem um diretor aí, Joel Zito Araújo, que dirigiu um filme que recebeu vários prêmios aqui em Gramado com o filme As filhas do Vento, que ganhou praticamente todos os Kikitos.

Considerações finais

De onde vem o negro? Esta é uma das primeiras indagações com que iniciamos este trabalho. Poderíamos simplesmente responder que o negro vem de uma das várias possibilidades do ser humano. Mas diante do processo histórico de desumanização a que foi submetido, a resposta parece insuficiente para aplacar o espanto diante de seu lugar no cenário social, sobretudo quando isso acontece fora de posições subalternas. Encontramos na literatura que a inferiorização econômica do negro veio – através do colonialismo – antes da inferiorização epidérmica. Mas o que acontece é que esta última prevalece, faz parte do ideário difundido tanto por vias formais como informais da “cultura” dominante.

As chamadas ações afirmativas, reparadoras, poderiam ser um caminho para buscar um melhor espaço dentro da sociedade. Porém, algumas das referências utilizadas na bibliografia colocam questões a respeito de como essa territorialização na cultura negra poderia ser uma armadilha para manter os negros alienados do progresso do restante da humanidade. Isso sem contar o receio de que o combate ao racismo se desse por meio de uma sobreposição. Assim, por mais que se possam visualizar uma certa pertinência nessas observações, não deixamos de ver aí também o discurso globalitário que tenta aplainar singularidades, a serviço de uma ética de consumo, mas não necessariamente com um processo de cidadania. Logo, sugerimos que uma certa territorialização poderia servir não para reforçar a ghetificação social ou enquanto tentativa separatista mas, ao contrário, como um necessário contraponto a este achatamento de singularidades.

Com relação à masculinidade e as relações inter-raciais, lembramos aqui de Lima Barreto quando falava de um cenário de “pleno contato com meninas aristocráticas.” Nossos entrevistados apontam que hoje este contato está ainda mais pleno porque o negro está na moda. Porém, não deixam de fazer as constatações de que muitos, para contrabalançar a baixa auto-estima, procuram se relacionar com mulheres brancas, sofrem críticas das mulheres negras em função disso, além de serem transformados em objetos sexuais.



Com referência ao deslocamento do homem negro dentro da sociedade nossos entrevistados entendem que hoje em dia o negro está mais consciente em sua participação política, mas que algumas questões ainda necessitam ser bastante discutidas, como as questões relativas à inserção no trabalho.


Bibliografia


  1. AMARAL, Marina et alii. Entrevista Explosiva; Mestre Milton. Caros Amigos. São Paulo, agosto, 1998. P. 27.

  2. BARRETO, Lima. Diário Íntimo: Fragmentos. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1997.

  3. CARDOSO, Cláudia Pons. A mulher negra na contramão da história. Porto Alegre: Secretaria de Estado da Cultura, 2000.

  4. CARVALHO, Olavo de. A verdadeira cultura negra Http://pensadoresbrasileiros.home.comcast.net Acesso em 23/06/2006.

  5. GUATTARI, Félix; ROLNIK, Suely. Micropolítica, Cartografias do Desejo. Petrópolis: Vozes, 1986.

  6. IANNI, Octávio. Teorias da Globalização. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1997.

  7. JULIEN, Philipe. O manto de Noé; ensaio sobre a paternidade. Rio de Janeiro, 1997

  8. KIMMEL, Michael. La Masculinidad y la reticencia al cambio, 1999. Http: // www.eurowcr.org Acesso em 18/11/2005

  9. MUNANGA, Kabengele. Negritude: Usos e Sentidos. São Paulo: Ática,1986.

  10. SCLIAR, Moacyr. Steinbeck descobre a América. Veja. São Paulo, 9 de junho, 2004. p.160.

  11. SILVA, Ieda Prates da. Para ser um guri: espaço e representação da masculinidade na escola. In: A masculinidade. Porto Alegre. Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre. Ano XIII – Número 28 – abril de 2005.

  12. SANTOSa, Gislene Aparecida dos. Selvagens, exóticos, demoníacos: idéias e imagens sobre uma gente de cor preta. Estud. afro-asiát., 2002, vol.24, no.2, p.275-289. ISSN 0101-546X.

  13. SANTOSb, Mílton. É preciso ir além da constatação. In: TURRA, Cleusa e VENTURINI, Gustavo (Orgs.) Racismo Cordial. São Paulo: Ática, 1995.

  14. SANTOSc, Joel Rufino dos. O que é racismo. São Paulo: Brasiliense, 1985.

  15. SANTOSd, Milton. Na própria pele – Os negros no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Secretaria de Estado da Cultura, 2000



1 Acadêmico do Curso de Psicologia da Unisinos/RS

2 Psicóloga, Doutora em Psicologia Clínica (PUCSP), Professora Titular e Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da Unisinos/RS.

a


b


c


d



Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal